woodstock nunca mais

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Foi entre os dias 15 e 17 de agosto do ano de 1969 que a terra rodou um pouco mais devagar para cerca de quatrocentas mil pessoas que se arriscaram a fazer aquele programa de índio que era sair de casa, ir pra uma fazenda atolada no barro, ver umas bandas tocando rock'n'roll e tocando a vida.

Exatamente como uma aquelas festas de que não espera absolutamente nada e, de repente, vira algo inesquecível, Woodstock entrou para a história com tamanha força e importância que o final da década de 1960 é marco histórico.

Pense na "era Woodstock", "geração Woodstock" e em tudo mais.
É assim que essa época da história da humanidade é conhecida.
Gente de todo mundo, ainda hoje, vai ao lugar onde a festa toda rolou, catar pedrinhas e levar pedaços de história pra mostrar para os filhos.

Fale de Live-Aid, fale de Lollapalooza - nada teve o mesmo impacto.

Em 2004, a reportagem do jornal norte-americano Bufallo News foi até o lugar onde rolaram os três dias de paz e música e encontrou por lá um checo de 31 anos.
Nascido quatro anos depois e a uma distância maior que a de um oceano inteiro, Jakub Muller aproveitou sua passagem pelos EUA e quis visitar o lugar onde Woodstock rolou e ficar parado naquele mesmo local onde o palco esteve.
"Sempre quis estar aqui. Pisar nestas pedras, sabe?", diz ele na reportagem.

Sim, a gente sabe.

O que é legal que se diga é que Woodstock, mais uma vez, é um belo pedaço de parte pelo todo na história do rock.
E por quê?

Antes de mais nada: Woodstock foi um acidente.

Promotores incompetentes não conseguiram arrumar um lugar pra fazer um show decente e acabaram arrumando uma fazenda.
Uma fazenda pra criação de gado leiteiro, com bosta de vaca pra tudo que é canto.
O cachê era pífio e, mesmo assim, todas as bandas tocaram.
A infame a frase "Três dias chafurdando na lama? Quem precisa disso?", dita pelo líder da J. Geils Band ao se recusar a tocar no festival diz tudo.
A desorganização nos bastidores do show era tal que o falecido baixista do Who, John Entwistle, disse uma vez que, ao chegar lá, como faltava apenas três horas para o Who entrar no palco, resolveu tirar um cochilo.
Acabou acordando duas horas depois do que devia e, mesmo assim, ainda faltava seis horas pro Who subir ao palco.

O tempo era outro.

Aliás, os tempos eram outros.
Teria tido tudo pra dar errado, mas não deu.
Apesar de tudo, deu certo.

O que talvez surpreenda o mundo é que esse "apesar de tudo" que elevou Woodstock do barro e moldou nele um pedaço da história da humanidade foi que, ignorada a incompetência dos terceiros, tudo se resolveu ali, no palco, entre público e músico.
A música resolveu tudo.
Foi pra isso que quatrocentas mil pessoas entraram naquela fazenda, mesmo sem ter ingresso, mesmo sem saber o que ia rolar e mesmo sem saber quando nem como ia fazer pra ir embora dali.

Era só isso que elas queriam: música.

Country Joe MacDonald estava lá e tocou em Woodstock.
Ele diz que ainda hoje as pessoas perguntam pra ele como é que foi tocar naquele lugar e naquele momento da história.
"É relevante hoje exatamente como era relevante em 1969. Historicamente, politicamente e socialmente a batalha ainda está em andamento", diz ele.

Aquilo que se chama de "espírito de Woodstock" - percebe que não existe um "espírito de Live Aid" ou um "espírito de Lollapalooza"? - é tão indefinível quanto atual.
Quem diz isso é William McKeen, autor renomado e professor de jornalismo na universidade da Flórida.

Ele colocou seus alunos para correr atrás do assunto e estudar a época no curso de história de rock que ministra na universidade.

A principal pergunta é: pode rolar de novo?
A resposta mais comum é um "não" que já aparece antes mesmo do fim da pergunta.

Os tempos são outros.
Hoje em dia, existem grandes corporações e, acima da música, existe a indústria da música.
Hoje em dia tem show em que o ingresso é vendido pelo preço de um aluguel médio.
O pessoal da segurança é pago pra descer porrada no primeiro que tentar entrar sem pagar e não existe a possibilidade teórica de um festival ser feito quando já se sabe que ele vai dar prejuízo.

Woodstock deu um baita prejuízo.

Hoje não, mas no dia imediatamente anterior ao festival, os organizadores não acordaram pensando que haviam entrado pra história.
Depois de Woodstock, os organizadores podem ter acordado pensando em como é que eles tinham permitido que aquilo acontecesse, em como fariam pra se livrar da falência e prometendo pra mulher que nunca mais fariam aquilo.

A verdade é que eles desencanaram e relaxaram.

Os donos do circo foram dormir e deixaram seus macaquinhos fazendo palhaçada para o público.
Aconteceu que os macacos tomaram conta do circo e não pediram nada para o público. Eles chegaram e fizeram o que gostavam de fazer diante de um público que foi pra lá ver o que gostava de ver.

E, assim tudo deu certo.

Não havia, realmente, a necessidade deles por perto.

Não teve comercial na TV, não teve ninguém pedindo cinco bilhões de toalhas brancas e limpas pro camarim e não teve lucro nenhum.

Hoje em dia, quem tenta recriar esse cenário - e ainda têm a cara de pau de dizer que deu certo - são os mesmos donos do circo que já deviam saber que aquilo que deu certo em 1969 não foi por mérito deles e que, enquanto eles estiverem por perto, nunca mais vai acontecer outra vez.

Woodstock renasceu em duas oportunidades e a crítica fez questão de dizer que as semelhanças entre as duas novas versões e a versão original começavam e acabavam no nome.

"Se eles tentarem armar uma recriação disso, eles provavelmente estarão fadados ao fracasso", diz o professor McKeen, "Não seria nenhuma surpresa enorme caso algo parecido com isso acontecesse outra vez. Mas seria por acidente".

Sim.

Precisamos de mais acidentes felizes.

A história dos dois índios

François Auguste Biard   Two Indians in a Canoe A história dos dois índios

Quando eu era pequeno, meu avô contava uma história de um índio e uma índia, que sempre achei que deveria ser botada no papel. Ainda mais hoje em dia.

Essa história parece fazer até mais sentido hoje do que na época que ele me contou – que deve ter sido na época que minha irmã nasceu.

Eram dois índios – um índio e uma índia – que viviam em aldeias diferentes. Todas as noites, eles ficavam olhando as estrelas, cada um no seu canto. Passavam a noite toda lá, olhando estrelas – nunca juntos – porque havia um lago separando um do outro.

Nunca se encontravam, mas, quando isso acontecia, os dois ficavam horas falando a respeito das estrelas do céu.

Houve um dia, numa espécie de expedição diplomática que uma aldeia empreendeu à outra, o índio e a índia conseguiram se encontrar e, nesse dia, com o tempo ao lado deles, os dois conversaram tanto e de tal maneira que foram lembrando noite após e contaram as estrelas de todas suas vidas de trás pra frente e, nessa regressão, voltaram até seus nascimentos – primeiro o dela e, depois, o dele.

Estrela por estrela, cada um trouxe o outro para dentro de sua vida.

Meu avô fazia um preâmbulo em que ele explicava que a índia vinha da terra das montanhas de pedra e que o índio tinha antepassados lá, mas eles se mudaram antes que ele nascesse e, agora, sua aldeia era outra, e, em sua aldeia, os índios fabricavam suas próprias montanhas – e ele não via graça alguma nisso.

Dizia a lenda do meu avô que os dois se perceberam par assim que se encontraram e imediatamente se apaixonaram.

Porque era natural que fosse assim e eles eram índios e, para os índios, o mundo é para se olhar e estar de acordo.

Conta a história também que houve um dia em que as duas aldeias se opuseram em guerra e que, nesses tempos de guerra, os dois propunham-se voluntários para fazer a ronda em suas canoas e, assim, encontravam-se em uma ilha para conversar sobre as estrelas que haviam visto e apontavam com seus narizes para as estrelas cadentes e faziam ambos o mesmo pedido, que nunca mudava.

O mundo deles estava em guerra, mas havia paz naquele mundo de estrelas infinitas que os dois compartilhavam.

Houve vezes que os dois juravam ter visto uma flor cada um – flores da mesma cor – desabrochar na mesma manhã.

Ao mesmo tempo, a guerra foi ficando cada vez pior.

Foi ficando cada vez mais difícil e perigoso que os dois se encontrassem.

A saudade fez com que ficassem inconsoláveis e ambos começaram a usar túnicas negras, como se velassem vítimas da guerra.

O nível de água no lago subia noite após noite a ponto do pai da índia dizer a ela que era por causa das lágrimas dela.

“Lágrima o caralho, isso é sangue!”, gritava ela com sangue nos olhos.

Houve um dia, porém, em que o sangue secou todo, ao menos no corpo dela.

Ela acordou e soube que a aldeia de seu-bem amado havia sido atacada durante a noite e que aquela batalha acabara com a guerra e que sua aldeia tinha vencido.

Muitos haviam sido feridos, muitos mais haviam morrido e alguns haviam sido feito prisioneiros.

Ninguém havia escapado.

Ninguém.

Sua vontade era correr o campo de cadáveres até encontrar o lugar apropriado para morrer de amor, mas seu corpo cansado desmoronara.

Chorou durante toda a alvorada e estendeu seu pranto manhã adentro, praguejou durante toda a tarde e, ao fim dela, foi convocada para uma reunião na praça central da aldeia.

Lá, ela soube que sua aldeia acolheu fugitivos da aldeia arrasada e que muitos dos moradores estavam sendo designados a acolher refugiados em suas ocas.

Foi quando ela reconheceu o rosto do refugiado que lhe havia sido designado que seu coração morto viveu outra vez.

Ele, justo ELE!

Estava vivo, estava bem e, embora seu rosto se esforçasse em uma exibição pública de contrariedade, seus olhos lhe sorriam num segredo só deles.

Na primeira noite que passaram juntos, viram o dia clarear, lado a lado. Ela com a cabeça apoiada e acomodada no braço dele, ambos deitados no telhado da cabana, olhando as estrelas com as mãos enlaçadas sobre o peito dele.

No primeiro dia que passaram juntos, conversaram infinitamente sobre as estrelas que viram na noite anterior. Conversaram tanto que as estrelas voltaram e eles voltaram pra cabana e na segunda noite ninguém conversou.

No dia seguinte a esta noite, os dois dormiram o sono dos justos, entrelaçados, enquanto o povo da aldeia falava sobre as estrelas.

Falavam sobre duas estrelas, em particular, que brilhavam em plena luz do dia, conversando sem parar numa língua inventada.

Duas estrelas que, apesar de tocarem o chão com as plantas de seus pés, pareciam um só buraco no véu terrestre através do qual se vislumbrava todo o firmamento infinito afora.

o primeiro show da minha vida foi o mais punk de todos

magazine02 02 o primeiro show da minha vida foi o mais punk de todos

era uma daquelas exposições que existiam nos anos 80, em que tinha todo tido de atração e todo tipo de brinde pra fazer com que os pais gastassem mais e mais.

naquela edição, o alexandre vostok estava lá e, por mais que isso seja errado hoje, naquela época ele levou um elefante com ele. vivo.

também tinha um lugar onde vários filhotes de felinos de grande porte ficavam expostos e as crianças - como eu - podiam fazer carinho neles.

eram outros tempos. completamente diferentes de hoje.

o show que rolou naquele diz foi com o magazine do kid vinil, que, pra mim, era sinônimo de rock'n'roll.

do lado do palco, tinha um stock-car todo fodido e, enquanto o kid vinil mandava pau no palco, a gente brincava com o carro - o que significa dizer que a gente se juntava em bandos para arrancar peças do stock-car e usar na destruição do mesmo.

nada jamais vai ser mais rock'n'roll na minha memória do que pular no capô do carro ao som de "sou boy" junto com um outro moleque que nunca mais vi na vida.

trabalhei com o kid, muitos anos depois, quando a gente respondia pelo jornalismo musical da 89 (botaí: 1996) e acho que contei isso pra ele quando a gente foi comprar disco junto e eu voltei com o "rough power" dos stooges (uma versão ainda mais punk do já punk "raw power") e o carlinhos - sonoplasta da rádio - ficou dizendo que era som de quem mordia pilastra no meio do show.

foi quando a gente falou sobre o show mais punk que a gente já tinha visto, naqueles devaneios que só aquele tempo tinha pra dar.

ele achou graça que o show mais punk que eu tinha visto tinha sido o dele, mas foi. não só foi o mais punk: foi o mais legal, o mais catártico e, além de tudo isso, foi o primeiro.

nada nem ninguém jamais vai tirar esse posto do kid vinil na minha formação enquanto vândalo e mau elemento.

nesses dias essa história tem me voltado à mente como o sonho que, na época, pareceu ser e é isso: as melhores histórias da sua vida, às vezes, voltam como prece.

e essa prece é pra você, Antonio Senefonte.

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Para quem não sabe, Kid está internado em Conselheiro Lafaiete (MG), em coma induzido, e a família dele está tentando juntar dinheiro para trazê-lo pra SP
Quem quiser ajudar pode fazer um depósito em nome da sobrinha do cantor, Raquel Senefonte Carreteio.

Banco Bradesco
Agência: 1742-6
C/c: 0035453-8
CPF: 316.814.478-94

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As melhores férias de toda minha vida (em memória de Kurt Cobain)

(texto escrito em algum momento de 2003 — acho eu)

581200 441452002551602 110712546 n As melhores férias de toda minha vida (em memória de Kurt Cobain)

Foi dia 16 de janeiro de 1993.
Dia de show do Nirvana no Morumbi.
Dia de prova da Cásper Líbero - vestibular para o curso de jornalismo.
Alguma coisa me dizia que eu deveria ir ao show e cagar pra prova.
A tal "alguma coisa" talvez fosse eu mesmo, aquela figurinha esquisita, de bermudas larger than life, camisetas que caberiam no Jô Soares e - ah, sim - um tortíssimo moicano na cabeça.

Pra quê é que eu ia ficar numas de ser ou não ser, quando já era?
Get behind me, Dorothy, 'cause Cásper is goes bye-bye.

Veja bem: era dia 16 de janeiro, um sábado.

Na segunda-feira, dia 11, meu nome havia aparecido na lista de aprovados da FIAM.
E em vigésimo-oitavo lugar.

Fui comemorar discretamente com amigos que estavam comigo, mas não tinham tido a mesma sorte. Depois, passei no seu Wilson pra comer o x-salada magistral que ele fazia e fiquei ouvindo as histórias da época em que ele era pugilista e sobre o dia em que George Foreman quebrou o braço do Luis Faustino Pires.

Na terça, dia 12, foi aniversário da Simone e do Américo, que eram meus dois melhores amigos em 1993.
Naquela noite, a Simone tinha dado festa na casa dela, como de costume.
Encontrar com ela, a Gisela, a Camila, a Gabi e toda a família da Si era uma coisa que me deixava tão bem que dava até a impressão de que não havia maneira de a vida não ser boa.
O Américo, por outro lado, já tinha dito que a festa dele ia ser no Morumbi, tanto na sexta, quanto no sábado do Hollywood Rock 93.

Na quarta, dia 13, meu cabelo se foi.
Isso implica em dizer que eu era o primeiro de toda a turma do cursinho a poder cumprir a promessa de passagem — quem passasse no vestibular, ia levantar um moicano.
Mesmo os alunos mais formidáveis ainda esperavam o resultado da USP. A FIAM já havia me dito "você é nosso" e eu gostava - meu deus! eu GOSTAVA - daquilo!

Fui até o Aki Jaz (o barbeiro onde eu cortava o cabelo chamava "Aki Jaz" e ficava de frente pro cemitério da Vila Mariana, onde meus avós estão) e contei o plano para o Magrão, que cortava meu cabelo sempre.
Ele não gostou da ideia.
Isso evidentemente ia contra nosso trato não verbal - aquele em que eu dizia como queria que ele cortasse meu cabelo e ele, depois de comentar o noticiário todo e falado sobre a atual capa da playboy, esquecia tudo que eu havia dito e cortava do jeito que ele achava que ia ficar bom.
"Como assim moicano?", ele me perguntou, com aquela maquininha buzzbuzzando na mão.

Inclinei meu corpo da cadeira, peguei a maquininha da mão dele.
Passei de um lado.
Passei do outro.
Deixei só uma tira no meio.

"Tá vendo essa faixa de cabelo aí?", eu disse.
Tira todo o resto e deixa só ela".
E, olhando pra cima, levantei um dedo ao dizer: "isso, meu amigo, é um moicano".

Naquela época, havia um quarto na casa da minha avó, onde eu ficava a maior parte do tempo.
Era o estranho mundo de Fernando Tucori.
Era lá que ficavam meus discos, meus raros e parcos CDs e minhas gavetas entupidas de fitas.
Era lá que morava meu aparelho de som.
Foi de lá que eu vi Seattle tomar o mundo.
Sentando, no telhado, vendo o Ipiranga, onde D. Pedro, o das costeletas legais, gritou "independência ou morte" (e as pessoas até agora não perceberam, mas todo dia escolhem "morte")
Era lá que eu morava, apesar de dormir na casa dos meus pais todas as noites.

Foi pra lá que eu corri, sentindo as primeiras gotas de chuva batendo na minha cabeça seminua.
Foi lá que meus amigos mais chegados foram me buscar pra tomar cerveja, pra falar besteira e lambuzar minha pele com uma mistura funesta de graxa, tinta verde, óleo de carro, clara de ovo e penas de travesseiro.

Na sexta-feira, quinze banhos depois, eu era outra pessoa.

Outra pessoa MESMO.
Foi o jeito que eu arrumei pra não passar por mais um trote.

Fui vestido com roupa do exército, coturnos com esporas e com palavras funestas escritas nas laterais do crânio, fui fazer a matrícula na faculdade e - talvez por causa da minha aparência - nenhum dos veteranos que estava lá encostou em mim.

Matrícula feita, botei um boné que escondesse as tais palavras funestas, fui até o bar do seu Wilson, pedi uma cerveja - que o seu Wilson mesmo dividiu comigo - e uma barra de sabão de coco, que ajudou bastante a tirar aquilo da cabeça.

Foi só na sexta mesmo, depois de ter ouvido todo mundo contar como tinha sido o show do Red Hot, que decidi: a Cásper que se fodesse.
Custasse o que custasse, eu ia ver o Nirvana — e só custou uns vinte reais mais.

Comprei ingresso de cambista sim.
Tomei jato d'água na cara no meio do show do Doctor Sin (o que fez com que TODOS os meus cigarros fossem destruídos nos primeiros minutos do festival).
Vi o Maurício Kubrusly levar um saco de mijo na cabeça na frente das câmera.
Dei entrevista pro Gastão na MTV sim e dei uma mijada purulenta em cima do distintivo do São Paulo.

Tudo só contribuiu para que, quando o Nirvana subisse ao palco, eu tivesse certeza absoluta de que estava vivendo os melhores dias da minha vida de adolescente.

Então, depois de um recado da banda lido pelo João Gordo, veio o show.

Kurt Cobain estava de calça jeans e camiseta branca, o que, na minha linguagem de combinação de roupas, queria dizer "de alma limpa".

Flea participou de "Smells Like Teen Spirit", Kurt afinava a guitarra no meio das músicas e, lá onde eu estava não dava pra ver nada direito.

Nada a não ser uma banda de garagem, tocando como uma banda de garagem e se comportando como uma banda de garagem e, mais ainda, fazendo questão de ser vista como banda de garagem, como por exemplo, na hora que eles pararam o show e o Kurt Cobain pediu para que tirassem as luzes da cara dele porque ele não conseguia enxergar nada.

Naquela época, a gente tinha um trato com as meninas.
Como sempre tinha alguém famoso e elas sempre queriam conversar com alguém famoso, elas sempre iam me pedir pra apresentar.
Não que eu conhecesse alguém, mas eu podia chegar lá e dizer "olha, minhas amigas estão a fim de conversar com você. tudo bem?".
E geralmente funcionava.

Tinha recém-funcionado e elas estavam trocando ideia com os irmãos Busic e mais o Supla e eu queria, de todo modo, arrumar um cigarro.

Fiquei olhando o Kurt e ele parecia uma criança no palco.
Na hora que eu percebi que, na real, ele tava brincando de pega-pega com o cara que tentava iluminar sua figura com um spotlight, comecei a andar na direção do palco.
Deixei as meninas lá e, como quem vai caçar cigarro, fui em frente.

Do nada, eles trocaram de instrumentos e começaram a tocar covers.

Não eram covers normais - eram covers feitas por gente que sabia o que tava tocando, gente que comprou disco a vida toda e que gostava de ouvir música, mesmo que fossem AQUELAS músicas.
Quando Kurt Cobain foi pra bateria e começou a batucar a introdução de "We Will Rock You", eu corri pra frente do palco.
De alguma maneira, eu sabia que havia uma coisinha diferente lá.
Fosse pela ironia, fosse pelo non-sense, aquela bandinha de merda, aquela bandinha de garagem, estava fazendo história de alguma maneira que eu não reconhecia.

Estava acontecendo diante dos meus olhos.

Tocaram "Should I Stay Or Should I Go" sim.
Tocaram "Rio" sim.
Tocaram "Run To The Hills" sim.
Tocaram "KidS In America" sim.
Tocaram "867-5309/Jenny" sim.
E tocaram, sim, outra música que eu não sabia qual era não.

Sei que essa música tinha uma letra triste, que soava como uma despedida, mas eu não reconhecia, não sabia de quem era.
Por anos, tentei descobrir que porra de música era essa até que um dia alguém me mostrou a gravação de "Seasons In The Sun", de Terry Jacks e, na primeira orelhada, dava pra saber que era ela.
É uma versão de uma música francesa que, no original, chama "Le Moribond" e quem cantava era Jacques Brel (vê aqui).

O que ainda me impressiona, mesmo todos esses anos depois, é a capacidade de Kurt tinha para dizer tudo com músicas.
Ele sabia tanto de música e conhecia tantas músicas que podia dizer o que quisesse apenas colocando algumas delas em uma ordem específica.
Poderiam ser músicas dele mesmo ou covers, como essa "Seasons In The Sun", que ele vinha tocando insistentemente naquela época e que, naquele dia, da bateria, gritou "adeus" até sangrar a garganta — e nenhum de nós percebeu.

Olhando aquele adolescente daqui, com esses que hoje eu tenho, com a letra de "Seasons In The Sun" na aba de lá, aquele momento de alegria único ganha uma mácula.
É uma mancha vermelha, cor de sangue, que não percebi na ocasião, porque eu juro que achei aquilo tudo muito engraçado.
É como ter o ataque de riso mais delicioso do mundo, rolar no chão, rir apontando pra cima, até estrebuchar e, depois, no fim, tossir sangue.

Naquela letra, Kurt dizia adeus para os amigos, para o pai, dizia que era difícil morrer, mas que lembrava sempre das férias no sol, que eram sempre maravilhosas e iam permanecer maravilhosas depois que ele morresse.

Aquele janeiro de 1993 foram as férias de verão da minha vida toda.

No final do show, Kurt quebrou tudo.
Ele não é um cara forte, do tipo que, se bater com a guitarra uma vez no chão, ela já era. Porém, ele compensava isso escolhendo os lugares que ia quebrar. No vídeo que tem lá em cima, dá pra ver a hora que ele racha a guitarra no meio. E terminou, emblematicamente, com Kurt metendo a guitarra dentro de um ampli, que fez mil chewbaccas gritarem "gol" pro Morumbi todo.
Eu estava bem na boca do palco nessa hora e, cada golpe de guitarra que ele dava, parecia ser em meu nome, em nome de cada um de nós.
Era sério aquilo.
Foi nessa hora que percebi todo o L7, Anthony Kiedis, Flea e mais um monte de estrelas das outras bandas, todos nos bastidores olhando o que rolava de boca aberta.

Só que quando o Kris Novoselic chegou por trás do Kurt e envolveu os ombros dele em uma toalha branca, como quem diz "é isso aí, meu amigo. chega por hoje", ele fez isso com uma preocupação real, que passou batida por todos nós.

Pra nós, era tudo lindo.
Estávamos todos em nossa época mais ensolarada.
Aquelas eram as férias de verão das nossas vidas.
E as estrelas estavam todas ali, ao alcance de nossos olhos e de nossas mãos.

A maior de todas as estrelas, porém, aquela que a gente podia alcançar, era aquela estrela do mar, esturricando sozinha sob o sol calcinante na areia da praia.

2016: um pós-ano

retro 2016 2016: um pós ano

Antes de começar, dá play aqui:

Se eu fosse resumir 2016 em uma só frase, eu diria que 2016 foi um ano que me eu fiquei meio receoso em criar por medo do que ia sair. Só que eu não vou resumir 2016 em uma frase só, do mesmo jeito que esse medo de criar não me impediu tanto assim de criar. Eu sou desses caras que evita comer pimenta forte porque não quer ter que passar pelo dia seguinte e, se, quando eu era adolescente, eu achava o máximo a Janis falando que amanhã nunca acontece, agora eu ando meio que com medo dele e medo é uma coisa filha da puta porque a Janis pode até estar certa e o amanhã, de fato, nunca acontecer, mas o medo acontece. Você pode não ter certeza em relação ao amanhã, mas como o medo você não discute.

A pegadinha quando você precisa conviver com o medo de criar é que ela é atrativa. Por que, se você cria, tá lá – ao alcance de todo mundo. Do contrário, não. O que você não cria, não existe e não dá trabalho. É por isso que, no fim do Decamerão, o cara que deve ser o Bocaccio manda que é uma merda ter que criar alguma coisa quando é tão mais fácil imaginar essa mesma coisa. Só que ele faz isso depois de pintar o equivalente ao teto da Capela Sistina.

Na época em que eu comprei o Substance, do New Order, em 88, tinha uma música que eu não achava graça e, depois, passei a gostar. Era “Shellshock”. Fui descobrir o que era shellshock quando ouvi a Michelle Shocked e li alguém falando que o nome dela era “me, shellshocked” e, então, descobri que “shellshocked” era meio que se encolher pra dentro da concha depois de levar uma porrada com capacidade pra tanto.

2016 é um ano que tem essa vocação pra shellshocker.

Meu heróis morreram em 2016. Pais e mães dos meus amigos morreram em 2016 e, se não havia nada que tocasse a dor deles, agora há: a Debbie Reynolds morreu, de tristeza, um dia depois que sua filha, a Carrie Fisher, morreu – mostrando pra todo mundo mais uma vez que, sim, é possível morrer de amor.

Em 2016, o ódio venceu muitas vezes e isso deu medo de ver. Deu medo olhar pras pessoas e ver que elas tinham sido divididas em dois ou três grupos e incitadas a odiar umas às outras.

Em 2016, inventaram a pós-verdade e as pessoas estão falando nisso como coisa de site de humor, mas não: TODO MUNDO vem fazendo isso HÁ ANOS e, agora, as pessoas vão começando a perceber que isso causa merdas dos mais variados tipos, cores e tamanhos.

Aí, quando o Bob Dylan resolve que não vai receber o Nobel – porque ele vem falando disso há 50 anos e foda-se – a Patti Smith vai no lugar dele e leva um coice da própria música que decidiu cantar.

Só que ela é a Patti Smith, a Princesa Poeta do Estacionamento, e pede desculpas e diz que está nervosa e começa de novo, porque alguém tem que cantar a parte da música que fala sobre ramo negro que goteja sangue e de uma sala cheia de homens com martelos a sangrar.

A gente já não teve sangue o bastante?

É esta a chuva pesada que vem caindo dia após dia e o que a gente vai fazer agora? Vai pra dentro da floresta mais densa e profunda onde as pessoas são muitas e as mãos estão todas vazias e os vazamentos de multinacionais mataram a água?

O que a gente vai fazer agora, meu querido jovenzinho? A gente matou a floresta, sacrificou a onça-pintada com uma tocha olímpica e atirou no gorila que ia proteger nossas crianças. O nome desse gorila significa “trabalhando juntos pela paz”.
Se isso não é ironia o bastante pra você, imagina pra Bob Dylan – que decidiu não se tornar um urubu diplomado na terra onde não se ouve o canto dos sabiás – vendo a letra que ele fez faz 54 anos assustar quem a canta.

Ele sabe: o rosto do carrasco está muito bem escondido. Ele contou isso. Ele pensou isso. Ele disse isso e ele respirou isso. Porque ele conhecia muito bem a própria canção – muito antes de começar a cantar.

Esse ano de 2016 veio cheio das chuvas pesadas, mas tem gente que se dói por amor e gente que se dói por ódio e, agora, no fim do ano, eu vi uma caralhada de arco-íris no céu e, pra quem acredita nisso, é sinal de que as coisas podem melhorar sim.

É como Moonchild, a Imperatriz de Fantasia, diz pro Bastian depois que o reino dela se transforma em um só grãozinho: no começo, sempre é escuro.

Façamos como Ali e como os galos fazem. Galo, quando fica no escuro, não canta, mas ele canta quando vê a luz.

Aquele que primeiro ver a luz, que cante - e cante bem alto.

VOCÊ PRECISA OUVIR ISTO!

perfeição

128 life is beautiful 1024x682 perfeição

perfeição tem um brilho magnífico e fugidio.
se você tentar descobrir como é antes de deixar ser, não vai funcionar.
existem outras coisas que são assim e estas são as coisas mais lindas do mundo.

a coisa mais linda do mundo...

tempos atrás, numa dessas noites em que dá vontade de hibernar até o frio passar, vi um daqueles filmes que a gente acha que vai esquecer e eles passam a perna na gente.
o filme, lembro, chamava “alma de poeta, olhos de sinatra” (o título original é “dream for an insomniac”).
era um filme em preto e branco e fiquei olhando pra ele porque não havia um motivo sequer que justificasse o filme ser em preto e branco.
depois de um tempo, esqueci de buscar a resposta e fui só acompanhando com os olhos pra ver onde aquilo ia dar.
aí tem que, no filme, tem um personagem principal (um escritor que não consegue escrever) e tem uma personagem principal (uma atriz desempregada que não consegue dormir).
os dois não se conhecem e nunca se viram, até que ela entra na loja em que ele trabalha.
ele tá pegando alguma coisa embaixo do balcão e, quando se levanta, seus olhos se encontram com os olhos dela.
neste momento, quando aqueles dois olhares se cruzam, o filme, que era em preto e branco, explode em cores e nunca mais volta a ser o que era, que é bem aquele tipo de coisa que você acha que nunca pode acontecer.

e foi bem isso que aconteceu.

e agora estou aqui, olhando para minhas duas mãos e tentando fazer com que elas, ao mesmo tempo tímidas e ousadas, toquem a perfeição com os dedos.

meu dedos, minhas mãos, minha vida, meu coração
o mundo inteiro

a coisa mais linda do mundo me toca e eu me sinto vivo, num mundo com cores, de mãos enlaçadas e um eco que me faz rir encantado e fascinado.

e o mundo cresce à cada segundo
à cada minuto, mais mundo há

e eu me calo diante da beleza de tudo isso e da perfeição de tudo aquilo,
diante da infinitude das estrelas que não tive tempo para contar.

cada mundo tem seu céu.

e o céu do meu mundo,
a coisa mais linda do mundo,
tem mais estrelas que sou capaz de contar.
e meu coração sobe de encontro ao céu
e, de lá de coma, grita ao mundo as palavras de drummond:
“— Ó vida futura! nós te criaremos”

(texto escrito em 21/04/2009)

Falando de amor com Fernando Tucori

IMG 20150824 WA0002 1024x1024 Falando de amor com Fernando Tucori

Foto gentilmente cedida por Marcelo, o Pizante

Se você quer aprender a amar, esqueça.

Faz como quem põe leite pra ferver e sabe que o leite só ferve quando você não está olhando. Faça como aquele personagem do filme "Mistery Men", o Garoto Invisível, que só fica invisível quando ninguém está olhando.

Amar, caramada, acontece.
Como aconteceu esse erro de digitação: ia escrever "camarada" e escrevi "caramada".

Acontece.

E acontece, geralmente, quando você não está olhando, porque quem está olhando está pensando e quem está pensando não enxerga.
Amar não é pensar. "Tente racionalizar o amor e perderá a razão", diz um ditado francês e, segundo dizem, franceses entendem de amor, mas eu não entendo o bastante de franceses para confirmar.

O amor é o Mestre dos Magos da vida.

Quando você está distraído o bastante, ele aparece, resolve todos os seus problemas com a maior facilidade e fica invisível sem se explicar.

Não tente explicar.
Não tente definir.
Definir é matar. O amor sugere, porque sugerir é criar.

Se você quer aprender a amar, esqueça.

Esqueça o amor que circula nas ruas, estampado em outdoors, gritando em campanhas publicitárias e esqueça esse amor que foi dissecado pelas ciências - pelas ciências, meu Deus, pelas ciências!! - embalado com perfumes caros, estampados em roupas de grife, com reservas em restaurantes chiques e com certificado ISO-9002.

Esqueça tudo isso e lembre-se: amar, assim como a arte, é absolutamente inútil.

Na última coluna, falei sobre revolução e, agora percebo, falava sobre o amor. Teve gente que comentou comigo: "esquece... não existe revolução". Depois de digerir a resposta por horas, ponderei: que pena que não existe revolução para você.

Quem não acredita na possibilidade de revolução, não acredita na possibilidade de amar, porque amar é, justamente, a verdadeira revolução.

Uma revolução que é tua.

É como se você mudasse a casa da sua alma. Você pega tudo que dava como seguro, certo e correto e troca - sem garantia nenhuma de retorno - pelo inseguro, pelo incerto e pela dúvida.

Em "Me Liga", dos Paralamas, Herbert Vianna canta "teu exército invadiu o meu país".
É isso que acontece.

Imagine um exército invadindo um país. Agora, imagine que esse exército é bem vindo. Agora, imagine que os exércitos deixem de existir e os dois países se unam em um só, admitindo que são dois, mas dividindo comida, dividindo cultura, todos os seus hábitos, interpenetrando suas almas e inteligências.
Imagine que eles nunca se perguntam se a vida não era melhor antes da invasão.
Se perguntam, não respondem.
Se respondem, não entendem a resposta e essa resposta permanece como uma dúvida eterna, um post-it amarelinho lembrando você de que tudo - absolutamente tudo - é uma dúvida eterna que encontra em sua insolubilidade sua suprema graça.

Não pense.

Se você pensar demais, vai acabar encontrando um bilhão de motivos pra não amar.

Se você não pensar - porque o único motivo para amar não pensa - se você apenas disser "e se eu querê?"... Esta lá a flor - a mais linda flor do mundo - cravada na beira de um abismo aterrador. Você vai lá e colhe a flor e alguém te diz "e o abismo?" e você responde "que abismo?".

Em um mundo de dominados e dominadores, fica meio inconsistente qualquer defesa à entrega. É preciso que haja entrega, que não haja comando nem autoridade.

Entregar o que pra quem? Por quê?
Não sei.
Esta é a resposta: Eu não sei.

A única coisa que eu sei dizer é que existe a possibilidade de você dar tudo que tem e ficar com mais do que já tinha, mas isso é uma coisa que só vale se você responder pra você. A minha resposta vale tanto quanto um bilhete numa garrafa trazida pela maré.

Sei que é duro convencer alguém de que a vida pode ser melhor com uma coisa se, sem ela, a vida vai continuar a mesma. É igual em Matrix, quando Morpheus oferece a Neo a opção de decidir entre a pílula azul e a pílula vermelha. "Você toma a azul e acorda na sua cama, acreditando no que quiser acreditar. Você toma a pílula vermelha, permanece no País das Maravilhas e a gente vai ver até onde vai o buraco do coelho". Antes disso, ele lembra: "É um caminho sem volta".

Não dá pra defender o amor. Mesmo porque, depois de consumado, ele ainda é inseguro, ele ainda é inconstante e ele ainda pode ser doloroso.

Amar dói, sim, porque é um compromisso que você assume com o seu próprio crescimento. Você admite que não vai mais inventar um personagem para você mesmo, que não vai mais aceitar invenções sobre quem você é. Você cansa disso porque tantos anos se passaram e... quem é que te conhece de verdade? Então, caem todas as máscaras e, no amor, fica sua verdadeira face humana, com todos os defeitos e qualidades, no mesmo pacote, em constante movimento.

Se por um lado, há a dor de descobrir quem você não é, existe, do outro, a alegria de descobrir coisas novas sobre você o tempo todo e em velocidade espantosa. Só espero que, na hora que a dor se mostrar, você lembre que ela é parte ainda do que te faz forte.
O que eu sei sobre amar é isso: nada.

Sei que, as vezes, a gente não entende o amor e que isso é plenamente aceitável.

Quando a gente começou a aprender os fundamentos da matemática, a gente não aprendeu que existe o "Pi"? A gente não aprendeu que "Pi" - arredondando - é igual a 3,14?

Por que é tão fácil pra gente aceitar que existe um "Pi" e tão difícil reconhecer que existe outra coisa que também é natural, irracional, inconstante e infinita?

Acho que é porque o "Pi" a gente pode arredondar.

Nota final: Se você é um daqueles que gosta de coisas exatas, clique aqui e confira os incríveis dez mil primeiros dígitos do "Pi".

… e choveu!

uma mixtape bem longa praqueles dias em que a chuva não passa

Homenagem póstuma a Leonard Cohen (1934 – 2016)

Abaixo, o texto que meu bróder, Marcão escreveu para o R7 assim que soube que Leonard Cohen tinha morrido.

O cantor e compositor canadense Leonard Cohen morreu nesta quinta-feira (10) aos 82 anos, informou a Sony Music Canadá na página oficial do artista no Facebook. O velório do cantor deve ser realizado em Los Angeles.

O comunicado sobre a morte de Cohen foi postado na página oficial do Facebook do artista. A nota diz:

"É com profunda tristeza que informamos a morte do lendário poeta, compositor e artista Leonard Cohen. Perdemos um dos músicos mais reverenciados e prolíficos. Cohen era um artista visionário. A família pede privacidade durante este período de luto e tristeza."

Ainda não foi revelada a causa de sua morte.

Nascido no subúrbio de Montreal, Leonard Norman Cohen começou escrevendo poemas e publicando livros com seus textos. Também lançou romances. Seu primeiro livro, Let Us Compare Mythologies, foi publicado em 1956, aos 22 anos. Lançou, anos depois, os romances The Favorite Game (1963) e Beautiful Losers (1966).

Só passou a compor depois dos 30 anos, quando se mudou para os Estados Unidos e já era conhecido autor de poemas e romances. Teve uma banda country na adolescência, mas decidiu viver de música quando conheceu a cantora folk Judy Collins, com quem teve um longo relacionamento. Lançou seu primeiro disco, Songs of Leonard Cohen, em 1967.

Nova York com Hendrix, Janis e Andy Warhol

Cohen, que tocava violão e teclado, ficou conhecido pela voz grave e elegante. A postura no palco era semelhante. Aparecia discreto, meio tímido, mas firme. Gostava de aparecer e se apresentar de terno. Dizia "ter nascido dentro de um terno".

No final dos anos 60, morou em Nova York. Foi amigo de Andy Warhol, e conheceu Jimi Hendrix e Janis Joplin.

Desde então, Cohen acumulou no currículo clássicos da música pop, como Suzanne, So Long Marianne, Tower of Song, Hallelujah, Bird on the Wire, I'm your Man, I can't forget, Everybody Knows, Dance Me To The End Of Love. Sisters of Mercy. Os temas iam da desilusão amorosa a reflexões existenciais. Brilhava cantando folk ou soft rock, em arranjos simples, com poucos acordes, minimalistas.

Alternando poemas longos que contavam histórias de amor e perda, com letras de frases simples, cheias de ironias e jogos de palavras, Cohen influenciou artistas como Bob Dylan, Lou Reed, David Bowie, Tom Waits, Morrissey, Bruce Springsteen, Patti Smith, Elvis Costello, Jeff Buckley, Michael Stipe (do R.E.M), Ben Harper, Willie Nelson, Morrissey e até Renato Russo, que declarou ser fã. O legado musical de Cohen inspirou também dezenas de bandas de rock — do Pixies ao U2, que regravaram covers do canadense.

I'm Your Fan, disco de covers, lançado em 1991, mostra algumas dessas bandas prestando tributo a Cohen. R.E.M., Pixies, o músico Joh Cale, do Velvet Underground, Ian McCulloch, do Echo and The Bunnymen, Nick Cave and the Bad Seeds tocam as faixas famosas do repertório do canadense.

"Eu já nasci de terno"

Cohen foi tema de dois documentários antológicos. Lançado em 2005, I'm Your Man conta sua história e revela como nasceram alguns de seus clássicos, como Suzanne e Everybody Knows. Tem participações de Nick Cave, U2, Jarvis Cocker e Rufus Wainwright, interpretando suas músicas mais famosas.

Em uma das cenas lê entusiasmado o prefácio que ele mesmo escreveu para a edição chinesa de um de seus livros: "Quero que você, que teve esse interesse distraído e simpático pelo meu livro, saiba que ele foi escrito num período especial da minha vida, quando estive na Grécia e acabei morando lá num pequeno apartamento. Quero compartilhar minhas lembranças e pensamentos com você."

Já Bird on a Wire, do diretor Tony Palmer, fez parte em setembro do festival de documentários musicais In-Edit, em Sâo Paulo. Mostra bastidores da turnê que fez em 1972 com sua banda. Numa das últimas cenas, ele sai ovacionado e chorando do palco, tocado pela recepção empolgada da plateia: "Eles sabem todas as músicas de cor. Queriam mais", espantava-se ele, cinco anos depois de lançar o primeiro disco da carreira.

A biografia I'm Your Man - A vida de Leonard Cohen (editora Best Seller), de Sylvie Simmons, conta sua trajetória desde a infância em Montreal até os períodos em que morou em Londres, na cidade grega de Hidra, Nova York, passando pela época em que, entre 1990 e 1996, viveu recluso em um templo budista nos arredores de Los Angeles.

Tem 14 discos de estúdio na carreira. O último deles, You Want It Darker, foi lançado em outubro e tinha a morte como tema de algumas canções. A música que dá nome ao disco fala explicitamente sobre esse assunto e foi lançada semanas antes dele morrer.

Numa entrevista à revista New Yorker, feita após o lançamento do disco, Cohen afirmou, direto e quase irônico: "Eu estou pronto para morrer. Só espero que não seja um momento muito desconfortável".

Teve com a artista Suzanne Elrod dois filhos Adam,nascido em 1972, e Lorca, de 1974 (o nome da filha é uma referência ao poeta Federico García Lorca, um de seus preferidos). Adam co-produziu o último disco do pai.