A dura (e vitoriosa) história de Renata, cantora trans

[Renata Perón é cantora e participou comigo do vídeo desta semana no meu canal de YouTube. Foi comigo entrevistar a atriz Carolina Ferraz, que no cinema vive uma mulher que, como minha convidada, é transexual.

Abaixo um depoimento que a cantora me concedeu e que, apesar de hoje refletir a realidade de milhões de LGBTs, tomara que um dia vire apenas coisa do passado.]

Renata Peron cantora A dura (e vitoriosa) história de Renata, cantora trans

"No primeiro chute, voei três metros. Caída no chão, senti algo vazando em mim, passei a mão pelo corpo, mas nada de sangue. Enquanto isso, eles chutavam e socavam meu amigo. Cheiravam a vinho barato, maconha, suor e adrenalina. Foi tudo muito rápido, alguns segundos apenas. Saíram correndo e rindo, enquanto nos arrastávamos pela Praça da República, no centro de São Paulo, lugar em que a agressão que sofremos resultou em hemorragia interna e na perda de um rim. Meu amigo teve lesão no nervo ciático e precisou de dezenas de sessões de fisioterapia para andar normalmente. Nosso crime? Existir.

Era uma noite de sexta, eu trabalhava com cabeleireira num salão dos Jardins e tinha acabado de encontrar um amigo. Íamos brindar o fim de semana num bar da Vieira de Carvalho, rua do centro onde há vários bares gays. Não tínhamos mexido com ninguém, nem sequer olhado. E, mesmo que tivéssemos feito isso, ninguém tem direito de espancar ninguém. Não me senti humilhada, me senti perplexa. Por que eu? Por quê?

Essa foi uma das agressões que a vida me trouxe por ter nascido trans. Uma de muitas. Tenho até hoje marcas de pedradas que levava na escola por ser um menino com jeito de menina. Sempre tive trejeitos femininos e, quando apanhava, a professora me culpava. “Mas também, olha o jeito com que você se comporta!”, ela dizia.

Apesar das durezas da vida, não posso me queixar, não. Tenho 40 anos, o que me coloca numa rara estatística: a das transexuais que passam dos 35. Sim, é essa a nossa expectativa de vida. Onde nasci, a morte chegava bem mais cedo. Antes dos 20 até. Sou da Paraíba, cresci entre o Ceará e a Bahia, em cidades nas quais quem se arvorava em ser mulher recebia como sentença execução sumária. Às vezes, com requintes de crueldade que incluíam estupro e um cabo de vassoura enfiado não preciso dizer onde e nem até que profundidade. Era assim há três décadas, mas até hoje a intolerância na minha terra é muito maior. Todo dia morre gente. Muita gente. Eu, que “apenas” perdi um rim aqui em São Paulo, tenho de me dar por felizarda.

Integro também outra estatística, esta ainda mais difícil: dos quase 10 milhões de homens e mulheres transexuais do Brasil, apenas 1% ou 2% não ganham a vida se prostituindo. A gente não faz isso porque acha bonito, porque somos depravadas. Ainda que eu defenda o direito de que, se a pessoa quiser, ela pode se prostituir porque o corpo é dela. Você, que nasceu com identidade de gênero igual ao corpo biológico, talvez nunca entenda o que senti quando vi minha carteira de trabalho. Quando pude tirar férias, recebi o meu décimo terceiro salário. Esse direito para a grande maioria dos brasileiros é tão básico quanto ter água encanada, luz elétrica. Para as trans, é o conquistar uma montanha. É se sentir emocionada com o que a lei considera direito de qualquer cidadão.

Sim, eu tentei fazer programa logo que cheguei a São Paulo. Precisava de dinheiro, falavam que as mais bem sucedidas tiravam 700 reais por dia, e eu fui ver o que acontecia. Não consegui. O homem tinha um cheiro terrível, devolvi o dinheiro e saí dali o mais rápido que pude. Mas minha vida toda trabalhei. Essa sempre foi minha reação diante das dificuldades. Por exemplo, quando eu tinha 17 anos e fui abandonado pela família. Aliás, por um dos meus irmãos. Éramos treze filhos, mas minha mãe se matou quando eu tinha 7 anos. Tinha depressão. Um dia ela nos deu janta, colocou a gente pra brincar na rua, se enrolou em panos, derramou querosene e ateou fogo a si mesma. Vimos pelas frestas da porta ela morrer. Com o tempo, sobramos apenas seis. Meu pai bebia, então eu não quis continuar morando com ele.

Daí a mudança para a casa desse irmão.

Minha cunhada me odiava (adivinha o motivo?) e, após duas semanas, fui me matricular numa escola. Quando voltei, cadê todo mundo? Eles haviam se mudado, a casa estava vazia e tinha só minha mala. Sentei olhando pro céu, pro chão, completamente passada. Daí levantei e fui procurar emprego num mercado próximo. Nunca tive medo de batente. Trabalhava como repositora no mercado em troca de teto e comida. Logo arranjei trabalho vendendo cosmético de porta em porta. Sempre fui boa de argumento, de conversa.

Conheci um centro cultural na minha cidade e descobri que queria mesmo era ser artista. Esse tempo todo eu sabia que tinha algo de diferente, mas não imaginava que mais que gay eu era trans. Quando vi Roberta Close na televisão foi que entendi. Daí comecei a conhecer outras meninas como eu, em Juazeiro, na Bahia, e me assustei porque as amizades não duravam. As que não eram mortas da maneira como contei acima, sucumbiam a aplicações malfeitas de silicone industrial.

Só comecei a transformar meu corpo aos 27 anos, quando me mudei para São Paulo. Até então, no máximo me montava como drag queen, que era socialmente mais aceita (e menos passível de morte!). Demorou até eu fazer cirurgias. Coloquei 500 mililitros de silicone e passei a ter fisicamente os seios que a vida inteira eu já sentia que estavam lá, mesmo quando apenas usava enchimento. Outra cirurgia usou gordura da barriga para me desenhar quadril e bumbum de menina. Agora batalho rumo aos 25 mil reais de que preciso para implantes capilares. Sabe a tortura que um homem sente quando começam a cair os cabelos? Multiplique isso por mil no caso de quem, como eu, nasceu mulher num corpo masculino. É a coisa mais terrível do planeta ser femininerrérrima e ostentar entradas gigantes. Uso uma prótese, que é uma tira de cabelo feita numa tela, colada na cabeça. Disfarça bem, mas não é definitivo.

Meu sonho é ser uma cantora de sucesso. Nessa década de vida paulistana, consegui com suor e sacrifício gravar quatro discos e um DVD. Contando cada centavo, enchi o Teatro Sérgio Cardoso com 800 pessoas e cantei Noel Rosa, numa noite memorável. A coisa não vai pra frente, para tristeza minha, simplesmente porque as pessoas ainda não sabem lidar com a transexualidade alheia. Faço testes, sou elogiada, conheço gente que em tese tem mente aberta, mas nunca consigo o sucesso que considero merecer. E eu sei que não é falta de talento. Com o tempo minha fé nessa carreira arrefeceu, mas eu ainda mantenho essa vontade de viver da minha arte. De viver do meu talento.

Resolvi fazer faculdade e procurei algo que combinasse com meu espírito combativo, com meu jeito militante e com minha vida engajada na Cais, associação dedicada à inclusão social para travestis e transexuais. Escolhi Serviço Social e estou no quinto semestre. Já bati boca com uma professora doutora que insistia em se referir a mim como “ele”. Uma professora doutora! Alguém que devia saber mais sobre identidade de gênero, entende? Trabalho na SP Escola de Teatro, que tem como regra em seu estatuto que 10% de seus funcionários sejam trans. Uma ideia que, felizmente, começa a ser copiada em outras cidades brasileiras. Não acho que eu vá viver para ver um mundo em que as trans seja plenamente integradas à sociedade, mas um dia vamos chegar lá. Como aquela gota que tanto bate até que fura, nem que leve cem anos."

http://r7.com/Ifrk

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3 Comentários

"A dura (e vitoriosa) história de Renata, cantora trans"

29 de March de 2017 às 19:59 - Postado por aleme

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Comentários
  • Nalva
    - 31/03/2017 - 11:16

    triste realidade para as trans, me orgulho cada dia mais de seguir o trabalho de pessoas como tu Alvaro, que abre espaço para mostrar '' esta'' realidade para tantos que n a conhecem, espero realmente que um dia esta barbarie acabe.

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  • Khaline
    - 01/04/2017 - 08:02

    Me emocionei,lido diariamente com essa luta,namoro um homem trans e sei como é difícil retificar o nome,conseguir emprego. É uma luta diária.parabens por esse post e por tudo Álvaro!

    Responder