Luz e trevas: dez filmes para entender o Expressionismo

nosferatu1 Luz e trevas: dez filmes para entender o ExpressionismoSe você pudesse escolher os filmes de um determinado movimento cinematográfico para levar para uma ilha deserta, que movimento escolheria? O Neorrealismo italiano dos anos 40? A Nouvelle Vague francesa dos 60? O cinema americano dos 70? Filmes japoneses dos anos 60?

Eu não tenho dúvida: levaria uma seleção de filmes Expressionistas alemães da década de 1920. Nada supera isso.

Há algumas semanas, começamos aqui em casa uma retrospectiva com DVDs de Murnau, Fritz Lang, Robert Wiene, Paul Wegener, Paul Leni e outros. Perto desses, qualquer filme contemporâneo vira perda de tempo.

O Expressionismo no cinema alemão nasceu logo depois da Primeira Guerra, quando o governo baniu filmes importados e o país precisou desenvolver sua indústria de cinema. Na época, a Alemanha passava por um momento terrível de pobreza, medo e conflitos sociais, e uma nova geração de cineastas começou a fazer obras que refletiam esse estado caótico.

Eram filmes estranhos e perturbadores sobre homens insanos, monstros, bandidos sádicos, vampiros, lendas mitológicas e sociedades totalitárias. Além dos temas, a estética também era radical, com uma fotografia altamente contrastada em preto e branco e cenários tortos e bizarros que refletiam a confusão mental dos personagens.

Até surgir o Expressionismo, o cinema preocupava-se em mostrar a realidade. Era quase que um mero reprodutor da realidade, e isso fascinava as plateias. Já o Expressionismo estava mais interessado na realidade interior dos personagens, em explorar os pensamentos, anseios e angústias deles, por mais assustadoras e desagradáveis que fossem.

Aqui vai uma lista, em ordem cronológica, de dez grandes filmes Expressionistas. Se você se interessa pelo tema, sugiro dois excelentes livros traduzidos em português e que podem ser encontrados em sebos: “A Tela Demoníaca”, de Lotte Eisner, e “De Caligari a Hitler”, de Siegfried Kracauer.


O Gabinete do Doutor Caligari (Robert Wiene, 1919)
Se você quer ver um filme que represente a estética Expressionista comece por esta obra-prima sobre um médico demente, Caligari (Werner Krauss) que usa um sonâmbulo, Cesare (Conrad Veidt), para cometer crimes e espalhar o terror numa pequena cidade.

O Golem (Paul Wegener e Carl Boese, 1920)
Baseado em uma antiga lenda judaica, conta a história de um rabino de Praga que cria uma enorme criatura de argila, o Golem, para proteger seu povo. Mary Shelley supostamente usou muitos elementos da história para criar Frankenstein.

Nosferatu (F.W. Murnau, 1922)
Max Schreck faz o conde Graf Orlok, que sai de seu castelo na Transilvânia e leva a praga a uma pequena cidade alemã enquanto sonha em meter os dentes no pescoço de Ellen, a linda esposa de um agente imobiliário. Ainda não fizeram uma cena de terror mais assustadora do que o navio abandonado chegando ao porto trazendo os caixões com Orlok e milhares de ratos.


Häxan – A Feitiçaria Através dos Tempos (Benjamin Christensen, 1922)
Vou cometer um sacrilégio: incluir, numa lista de clássicos Expressionistas alemães, um filme sueco dirigido por um dinamarquês. Mas “Häxan” não só traz as principais características do gênero, como é um dos melhores e mais perturbadores filmes da época, uma mistura de documentário e reencenações inspirada pelo Malleus Maleficarum”, um tratado alemão de 1486 sobre bruxaria e perseguições a bruxas e ocultistas. Se tiver chance, veja o DVD lançado pela Criterion, que traz uma versão do filme narrada pelo escritor beat Wiliam Burroughs e com música de Jean Luc-Ponty. E boa sorte tentando dormir depois...

O Gabinete das Figuras de Cera (Paul Leni, 1924)
Num circo mambembe, um jovem poeta é contratado para escrever histórias sobre três figuras de cera que são exibidas aos espectadores: Jack o Estripador, Ivan o Terrível e o Califa de Bagdá. Em sonhos, o poeta assiste a histórias sobre os personagens. A sequência do Califa é uma das passagens mais lindas do cinema, com cenários que lembram as obras do catalão Gaudí.

A Última Gargalhada (F.W. Murnau, 1924)
Diferentemente da maioria dos filmes da lista, “A Última Gargalhada” não lida com temas sobrenaturais ou de terror. É um drama sobre um orgulhoso porteiro de hotel que é humilhado quando o transferem para um posto menos prestigioso. Destaque para a atuação de Emil Jannings no papel principal. Jannings foi um dos grandes atores da história do cinema alemão, mas depois aliou-se ao nazismo e fez diversos filmes de propaganda (Tarantino cita Jannings numa cena de “Bastardos Inglórios”).


Os Nibelungos (Fritz Lang, 1924)
Dividido em dois filmes – “A Morte de Siegfried” e “A Vingança de Kriemhild” – e baseado na famosa lenda nórdica, é uma superprodução de quase cinco horas, com cenários embasbacantes e algumas das sequências mais lindas do cinema germânico dos anos 1920.

Fausto (F.W. Murnau, 1926)
Muitos cineastas deram suas versões para a lenda alemã de Fausto, o homem que faz um pacto com o diabo, mas nenhuma chega perto da versão de Murnau, com Emil Jannings (ele de novo!) no papel de Mephisto, o demônio que tenta corromper a alma do alquimista Fausto (Gösta Ekman).

Metropolis (Fritz Lang, 1927)
Nenhuma lista estaria completa sem a obra-prima distópica e futurista de Fritz Lang sobre uma sociedade controlada por poderosos e onde a patuleia vive nos subterrâneos. O estilo dos cenários é bem diferente das tortuosas casas de “Caligari”, com uma estética “clean” e metálica, mas a sensação de aprisionamento e violência é a mesma.


M – O Vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang, 1931)
Único filme sonoro dessa lista e a última grande obra do Expressionismo alemão. Peter Lorre faz um atormentado assassino de crianças que provoca uma caçada humana sem precedentes em Dusseldorf. O final é uma das coisas mais arrepiantes que o cinema já produziu.

Bom feriadão a todos. O blog volta com um texto inédito na terça, dia 8.

O filmaço esquecido de Sean Connery e Sidney Lumet

Em 1971, a produtora United Artists convenceu Sean Connery a interpretar – pela sexta e última vez – o agente secreto James Bond em “Diamantes são Para Sempre”. Mas Connery impôs uma condição: a UA bancaria dois filmes baratos escolhidos por ele.

Um dos filmes foi “The Offence” (lançado no Brasil com o bizarro título de “Até os Deuses Erram), uma história policial adaptada da peça “This Story of Yours”, de John Hopkins, e dirigida em 1972 pelo grande Sidney Lumet (1924-2011). Connery e Lumet já haviam trabalhado juntos em “The Anderson Tapes” (1971) e estavam loucos para repetir a parceria.

“The Offence” acabou se tornando um dos maiores fracassos comerciais dos dois. Foi tão mal recebido que nem foi lançado em mercados importantes, como a França.

Nos anos seguintes, Connery e Lumet tiveram grandes sucessos: Connery atuou em “O Vento e Leão” (1974), “O Homem que Queria Ser Rei” (1975) e “Robin e Marian” (1976), enquanto Lumet dirigiria clássicos do cinema americano como “Serpico” (1973), “Um Dia de Cão” (1975) e “Rede de Intrigas” (1976).

Com isso, “The Offence” acabou completamente esquecido.

Ao longo dos anos, o filme começou a ser redescoberto. Ano passado saiu em blu-ray nos Estados Unidos e Inglaterra e muita gente pôde assisti-lo pela primeira vez. Foi o meu caso.

Lumet morreu em abril de 2011. Escrevi sobre ele no blog e fiz uma lista de meus filmes prediletos dirigidos por ele (veja aqui). Mas agora pode somar “The Offence” à lista. Que filme sensacional!

Sean Connery faz Johnson, um detetive da polícia inglesa que investiga uma série de ataques sexuais a meninas. A polícia prende um suspeito, Kenneth Baxter (o ótimo Ian Bannen), e Johnson vai interrogá-lo numa sala dentro da delegacia. Os policiais ouvem um barulhão vindo da sala e, quando entram, veem Baxter no chão, ensanguentado, tendo sido atacado por Johnson.

“The Offence” é um filme estranho. No começo nada fica claro: não sabemos por que Johnson atacou Baxter e do que este é acusado.

Uma das primeiras sequências do filme é primorosa: Johnson e vários policiais estão na frente de uma escola, vendo os pais buscando os filhos pequenos. Alunos, pais e professores estão claramente perturbados e com medo.
Se fosse um filme de José Padilha, certamente teríamos uma narração em “off”: “O terror havia se espalhado na escola, pois o maníaco já havia atacado três menininhas inocentes. Mas Johnson e seu time estavam lá para capturar o maníaco...”

Como o filme é de Sidney Lumet, não há nada disso, e o espectador vai descobrindo a trama aos poucos.

O roteiro também desvenda, de maneira lenta a gradual, a personalidade de Johnson. O filme pode ser dividido em três “atos”: no primeiro, ele tem uma longa e dolorosa conversa com a esposa, Maureen (Vivian Merchant), em que ficam claros os problemas conjugais deles e o estado mental perturbado de Johnson. No segundo, ele é interrogado por um superintendente da polícia, Cartwright (Trevor Howard), que lhe pergunta sobre o ataque a Baxter. E finalmente temos o ato final, em que descobrimos o que acontece entre Johnson e Baxter na sala de interrogatório da polícia.

Sidney Lumet é mestre do “thriller” policial existencialista e filma diálogos como poucos (se você não viu “Doze Homens e Uma Sentença, de 1957, primeiro filme de Lumet e inteiramente rodado dentro de um tribunal, sugiro correr e ver agora). A conversa entre Johnson e Baxter é um de seus momentos sublimes. É também uma das melhores atuações de Sean Connery. Veja que beleza...

Enfim, “The Offence” é um desses filmes que ficou esquecido por questões mercadológicas. Mas nunca é tarde para (re)descobri-lo.

The Who: bagunçado é mais legal

O canal BIS exibe esse dias “The Who – Live at the Isle of Wight Festival 1970”, um filme-concerto dirigido por Murray Lerner que mostra o Who se apresentando no famoso festival inglês (veja horários aqui).

Antes de tudo, uma reclamação: por que um canal especializado em música precisa cortar filmes musicais? O DVD de “Live at the Isle of Wight” tem 85 minutos de duração, mas o BIS só exibe a versão com 60 minutos. Bola fora. Veja aqui a versão integral:

Voltando ao show: em agosto de 1970, quando a banda se apresentou pela segunda vez na Ilha de Wight (a primeira fora no ano anterior), o quarteto de Roger Daltrey (voz), Pete Townshend (guitarra), Keith Moon (bateria) e John Entwistle (baixo) estava no fim da turnê da ópera-rock Tommy e apresentando algumas músicas novas, como “Naked Eye” e “I Don’t Even Know Myself”.

O Who era uma das maiores bandas do mundo e Wight, um dos maiores festivais. A edição de 1970 reuniu 600 mil pessoas.

Mesmo com todo o gigantismo e importância, é surpreendente assistir ao show e verificar a precariedade da produção. Qualquer quermesse de cidade pequena no Brasil tem hoje um palco mais bem montado e equipado do que a estrutura que o Who encontrou em 1970.

Adoro ver esses shows clássicos – Stones em Altamont (1969), Hendrix em Monterey (1967), Woodstock (1969), Cream no Royal Albert Hall (1968), Bowie de Ziggy Stardust no Hammersmith Odeon (1973) – e ficar atento aos detalhes de produção.

O show do Who é uma zona: não há barreira na frente do palco e 600 mil pessoas estão quase aos pés da banda. Técnicos, fotógrafos e bicões andam tranquilamente pelo palco. Na frente de Townshend, um mané faz “air guitar” sentado no chão. Não há decoração ou telão. A iluminação é mínima e a segurança, inexistente.

Mesmo assim é um show antológico, que captura uma banda extraordinária no auge de sua carreira.

É curioso perceber que os shows mais lembrados na história do rock e pop foram justamente alguns dos mais bagunçados e realizados em condições precárias.

Veja o exemplo do primeiro concerto “de estádio” da história do pop e que acaba de completar 50 anos: em 15 de agosto de 1965, os Beatles se apresentaram no Shea Stadium, em Nova York, diante de 55 mil meninas histéricas. Ninguém viu ou ouviu nada, mas o show entrou pra história.

Com a popularização dos megafestivais - Monterey, Woodstock -no fim dos anos 60 e o surgimento dos supergrupos que dominariam as paradas de discos dos anos 70 (Led Zeppelin, Crosby, Stills, Nash & Young, Eagles, Pink Floyd), promotores de shows perceberam o potencial de faturamento de shows em estádios e começaram a investir em infraestrutura.

A famosa turnê de estádios de Crosby, Stills, Nash & Young pelos EUA, em 1974, foi uma das primeiras a contar com um sistema de som adequado a locais com 60 ou 70 mil pessoas. Veja Grahan Nash falando sobre a caixa, lançada ano passado, com gravações da tour:

A partir do início dos anos 80, com a era dos superastros do pop – Michael Jackson, Madonna, Bruce Springsteen, Elton John, Queen, U2 – shows de estádios viraram a norma, mas os concertos antológicos rarearam. O profissionalismo da indústria do entretenimento ao vivo chegou a um nível tão alto que os erros e improvisações que tornaram alguns shows memoráveis simplesmente desapareceram. E muito da graça de ver um show também.

Freddie Krueger chora a morte do pai

craven Freddie Krueger chora a morte do pai
Wes Craven, que morreu domingo, aos 76 anos, sabia que a fórmula infalível para atrair público ao cinema – especialmente adolescentes - era juntar as duas coisas que eles mais gostavam: sangue e sexo.

Muitos não sabem, mas antes de fazer filmes de terror Craven produziu e dirigiu filmes pornográficos, usando um pseudônimo.

Seus dois primeiros filmes de terror, “The Last House the Left” (“Aniversário Macabro”), de 1972, e “The Hills Have Eyes” (“Quadrilha de Sádicos”), de 1977, foram sucessos de bilheteria e faturaram muitas vezes o custo de seus orçamentos.

Eram filmes brutais e chocantes, filmados em estilo cru e quase documental, a exemplo de outros sucessos do cinema de gênero da época, como “O Massacre da Serra Elétrica do Texas” (Tobe Hooper, 1974).

“The Last House on the Left”, sobre duas adolescentes violentadas por uma gangue de lunáticos em uma cabana na floresta, foi inspirado em “A Fonte da Donzela” (1960), de Ingmar Bergman.

No início dos anos 80, quando começou a pensar em um personagem de um filme de terror para adolescentes, Craven decidiu usar um artifício que funcionava perfeitamente desde que Bram Stoker escrevera “Drácula”, no fim do século 19: o medo como consequência do desejo. Nascia Freddy Krueger.

Freddy só ataca adolescentes. E os ataca no momento em que eles estão mais desprotegidos: durante os sonhos. E de que são feitos os sonhos adolescentes? De sexo, claro.

Os maiores vilões do cinema de horror dos anos 70 e 80 – Freddy, Michael Myers (“Halloween”) e Jason Voorhees (“Sexta-Feira 13”) – são na verdade “justiceiros” que punem a molecada por pensamentos “impróprios”. E os jovens, explodindo em hormônios, iam ao cinema num misto de curiosidade e masoquismo, sabendo que eram tão “culpados” quanto os personagens que o trio eliminava aos montes.

Freddy tinha uma vantagem em relação a Michael e Jason: era engraçado. O bicho-papão criado por Wes Craven fazia piadas antes de enfiar suas longas unhas de metal na carne de alguém e zombava do terror que causava. Com sexo, sangue e humor, “A Hora do Pesadelo” trazia uma combinação infalível.

A genialidade de Wes Craven foi explorar os anseios e a insegurança do público adolescente. A gente pagava ingresso para ser punido por Freddy Krueger.

“Voz de Deus” prejudica “Narcos”

ATENÇÃO: o texto contém “spoilers”...

A série “Narcos”, do Netflix, tinha tudo para ser memorável: um grande tema – a ascensão e queda do maior traficante de cocaína do mundo, o colombiano Pablo Escobar (1949-1993) - um elenco internacional liderado pelo brasileiro Wagner Moura e um diretor competente, José Padilha (“Tropa de Elite”, “Robocop”).

Mas a experiência de assistir à série, pelo menos para mim, tornou-se tediosa e desagradável por causa de um recurso narrativo usado à exaustão e de forma atrapalhada: a narração em “off”.

Que uma série de dez episódios e baseada em uma história real use, no primeiro episódio, a narração para explicar a trama, situar o espectador e descrever os personagens, é compreensível e até esperado. Mas que essa narração costure a trama inteira me parece um erro absurdo.

A série é narrada por Steve Murphy (Boyd Holbrook), um agente do governo norte-americano que é enviado à Colômbia no início dos anos 80 para caçar Pablo Escobar.

Murphy é a “voz de Deus” na série. Onisciente, não só conta ao espectador tudo que está acontecendo, como ainda descreve os sentimentos e aflições dos personagens.

Assim, vemos – ou melhor, ouvimos – Murphy dizendo como Escobar é um “homem de família” e como o traficante sonha em tornar-se um herói do povo colombiano – coisas que poderíamos perfeitamente compreender sem a narração.

Vi os três primeiros episódios de “Narcos”, e minha vontade de continuar é mínima. Por vezes me senti um idiota, tendo a história inteira explicada para mim nos mínimos detalhes. Não tenho absolutamente nada contra a narração em “off”, é um recurso narrativo válido e que foi usado muito bem por muita gente – Scorsese, por exemplo, adora – mas aqui ela trabalha contra a série.

Em vez de simplesmente ajudar o espectador na compreensão de subtramas mais complexas, a narração é usada como “muleta” da narrativa, conferindo a tudo um ar didático e simplista.

Logo na primeira sequência, vemos uma equipe da polícia colombiana interceptando uma ligação telefônica de um capanga de Escobar. A narração explica que, naquela época, não havia celular ou GPS. É realmente necessário explicar algo tão óbvio?

Mas o pior é quando a narração acaba com as surpresas da trama. No primeiro episódio, Escobar, num gesto ousado, vai a uma delegacia reclamar que uma carga de contrabando foi interceptada por policiais que ele havia subornado. O traficante é preso e tem sua foto tirada. A narração diz algo como: “Aquela foto custaria caro a Pablo”.

No terceiro episódio, a foto realmente prejudica Escobar, quando ele é eleito para o Congresso colombiano e Steve Murphy descobre a foto e prova que Escobar já fora preso por tráfico.

O uso da narração estraga a surpresa. Não teria sido mais emocionante e surpreendente para o espectador descobrir a foto junto com Murphy? Como já havíamos ouvido a “voz de Deus” dizendo que aquela foto ressurgiria depois, o impacto da descoberta foi mínimo.

Há outra cena importante em que a narração acaba com a tensão dramática: o parceiro de Murphy, Javier Peña (Pedro Pascal) é amante de uma prostituta, Helena (Adria Arjona). A moça é informante de Peña e vive cobrando do policial a promessa de conseguir um visto de trabalho para os Estados Unidos, para onde ela quer se mudar com a filha. Helena conta a Peña que vai “trabalhar” numa reunião de traficantes em um luxuoso hotel de Medellin, onde Escobar se reunirá com a cúpula do crime local. Peña pede que ela colha informações sobre o encontro.

Helena acaba na cama com o sádico José Gacha (Luiz Guzmán), um traficante conhecido por “Mexicano”. A narração diz algo como: “Mas Helena queria tanto ir para os Estados Unidos que acabou cometendo um erro...”. O erro foi perguntar a Mexicano como fora sua reunião com os colegas traficantes. Gacha percebe que Helena é informante e manda seus capangas darem um corretivo na coitada.

Imagine como a cena ganharia em tensão e drama se a narração simplesmente não existisse, se víssemos Helena cometendo o erro e Gacha percebendo o vacilo da moça?

Por que uma série de TV precisa fazer isso? Medo que o espectador não entenda a trama? Será necessário explicar 38 vezes que o traficante Carlos Lehder, que tem uma suástica tatuada no braço e passa 24 horas por dia citando frases de Hitler, é simpatizante nazista? É preciso fazer um comentário sobre a corrupção da polícia colombiana toda vez que um tira local trair a investigação e avisar a Escobar sobre as ações contra ele?

Será realmente necessário entregar tudo de bandeja ao espectador, como se ele fosse incapaz de captar qualquer sutileza?

WES CRAVEN, R.I.P.:

Escrevi domingo à noite sobre Wes Craven para a "Folha" e amanhã publico aqui no blog um texto sobre o criador de Freddy Krueger. Aqui vai o texto da "Folha": http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/08/1675748-no-terror-adolescente-wes-craven-foi-o-melhor-dos-ultimos-30-anos.shtml

George Michael e o negócio da China

wham2 George Michael e o negócio da ChinaA revista “Mojo” traz uma entrevista divertidíssima com Simon Napier-Bell em que ele relata uma de suas maiores façanhas: organizar o primeiro show de música pop ocidental na China comunista, com o duo Wham!, em abril de 1985.

Napier-Bell tem 76 anos e é uma lenda dos bastidores do showbiz. Nos anos 60, escreveu letras para Dusty Springfield e empresariou os Yardbirds; nos 70, descobriu Marc Bolan e depois agenciou o Wham! (aqui está ele com George Michael e Andrew Ridgeley, em 1985):

Simon 300x199 George Michael e o negócio da ChinaRecentemente, Napier-Bell escreveu um dos melhores livros que já li sobre os bastidores e trambiques da indústria do disco, “Ta-ra-ra-boom-de-ay: The Dodgy Business of Popular Music”(veja aqui meu texto sobre o livro).

Na entrevista ele conta que, em 1983, num jantar com o Wham!, o empresário da banda, Jazz Summers, o desafiou: “Se você quiser agenciar George e Andrew, precisa torná-los a maior banda do mundo em no máximo um ano”.

A saída foi chegar a um local em que nenhuma banda pop havia se aventurado até então: no coração da China comunista.

Depois de 18 longos meses de negociações com militares chineses, Napier-Bell finalmente conseguiu liberação para uma pequena turnê do Wham! pelo país. “Tivemos de pagar tudo, até por uma equipe de cem chineses que ficou o tempo todo de braços cruzados”. Um burocrata ofereceu à banda mil fãs para recebê-los no aeroporto. Por uma quantia módica, claro.

Wham1 George Michael e o negócio da ChinaOs problemas técnicos e a infernal burocracia chinesa quase levaram a equipe à loucura. Em um caso, levou mesmo: um trompetista português, membro da banda de apoio do Wham!, sofreu um surto psicótico durante um voo interno e se cortou com um canivete. “Ele foi algemado e sedado”, conta Napier-Bell. “Você não imagina a burocracia que tivemos de enfrentar para interná-lo numa hospital psiquiátrico local”.

Em outro momento marcante da viagem, a banda passeava por um mercado ao ar livre quando um dos membros do staff assustou-se com algo: “Acho que aquilo ali pendurado é um cachorro!” Ao que o intérprete respondeu: “Se você não gosta de cachorro, podemos conseguir um gato”.

Napier-Bell sabia que a turnê na China renderia manchetes em todo o mundo e convenceu a CBS a levar 15 jornalistas para a China e a bancar a produção de um filme sobre a viagem: “Foreign Skies”, de Lindsay Anderson.

O investimento deu resultado: o Wham! apareceu na capa de revistas importantes como “Time” e “Newsweek” e viu seu público multiplicar nos Estados Unidos. O tour manager Jake Duncan diz: “Voltei à China muitas vezes depois com o [grupo pop] Westlife. Pequim é só aço e vidro agora, não podia ser mais diferente do que era na primeira vez em que estive lá”.

Bom fim de semana a todos.

Dez grandes livros pequenos

The Diggers Game.1 Dez grandes livros pequenos

Tarde chuvosa e quatro ou cinco horas de completa solidão. Nessas circunstâncias, nada melhor que achar um bom livro e uma poltrona confortável.

Escolhi “The Digger’s Game” (em português, “O Jogo da Extorsão”), de George V. Higgins, um de meus autores prediletos de romances policiais. O livro era tão bom que, quando me dei conta, tinha terminado.

Decidi fazer uma lista de dez livros sensacionais que podem ser lidos em uma tarde. Não incluí coletâneas de contos, só romances, novelas e relatos de não-ficção. Em comum, todos provam que, em literatura, tamanho não é documento. E todos estão disponíveis em português.

Aqui vai a lista:

O Jogo da Extorsão, de George V. Higgins (1973, 198 páginas)
Já falei bastante sobre Higgins no blog (leia aqui). Ninguém escreve diálogos de meliantes como ele. Nem Elmore Leonard, que sempre disse ter aprendido muito com Higgins. Aqui ele conta a história de um bandido mequetrefe, Digger, que perdeu uma grana preta num cassino de Las Vegas e precisa pagar o agiota - ou comer capim pela raiz. Um diálogo de George V. Higgins contém mais ação, emoção e surpresa que livros inteiros de 99% dos autores policiais por aí.

J T 1280 almas 173x300 Dez grandes livros pequenos1280 Almas, de Jim Thompson (1964, 180 páginas)
Jim Thompson é uma espécie de Ramones da literatura policial: suas histórias já começam a 150 por hora, duram quase nada e te deixam com uma sensação desesperadora de “quero mais”. Esse livro é uma injeção de anfetamina na jugular: numa cidadezinha interiorana (população: 1280), um xerife narra o que acontece por trás da aparência pacata do lugar. Thompson é o cara.

O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson (1886, 97 páginas)
Stevenson não precisou nem de 100 páginas para fazer da história do Doutor Jekyll, um cientista que se transforma no violento assassino Senhor Hyde, um clássico da literatura policial e de horror.

Hiroshima, de John Hersey (1946, 172 páginas)
Os leitores da revista “The New Yorker” tomaram um susto ao abrir a edição de 31 de agosto de 1946: todas as páginas eram tomadas por uma única reportagem, que contava as histórias de seis sobreviventes da explosão atômica em Hiroshima, um ano antes. Reunido depois em livro, o texto de Hersey virou um clássico do jornalismo.

O Jogador, de Fiodor Dostoievski (1867, 188 páginas)
Escrito entre duas obras-primas - “Crime e Castigo” (1866) e “O Idiota” (1869) - “O Jogador” é outra beleza de Dostoievski, um drama narrado em primeira pessoa por Alexei Ivanovich, jogador inveterado e que trabalha para uma rica família russa hospedada numa estação de águas na Alemanha chamada “Roletemburgo”.

O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald (1925, 158 páginas)
Nick Carraway é um sujeito simples que se vê em meio a uma fogueira de vaidades e maldades no jet set nova-iorquino. Sua prima Daisy é casada com um bruto, Tom, tão rico quanto podre, mas é apaixonada pelo enigmático magnata Jay Gatsby, vizinho de Nick. “Gatsby” não foi muito bem recebido no lançamento. Fitzgerald morreu em 1940, sem saber da idolatria que seu livro despertaria anos depois.

O Caso Morel, de Rubem Fonseca (1973, 166 páginas)
Meu livro predileto de Fonseca ainda é a coletânea de contos “Lucia McCartney” (1969), mas “O Caso Morel”, seu primeiro romance, é um assombro. Paul Morel é um artista excêntrico que está preso e começa a escrever na prisão. Seus textos são recolhidos por um escritor, Vilela, um ex-policial, e é a partir dessa correspondência que a história vai sendo contada. Fascinante.

memorias de um sargento de milicias 197x300 Dez grandes livros pequenosMemórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida (1854, 200 páginas)
Quase morri de rir quando li pela primeira vez e continuo passando mal até hoje com a história de Leonardo, filho de Maria da Hortaliça (“saloia rechonchuda e bonitota”) e Leonardo Pataca, e suas aventuras pelo mundo da malandragem carioca do século 19.

A Última Casa de Ópio, de Nick Tosches (2002, 94 páginas)
Autor de biografias sombrias e espetaculares de Jerry Lee Lewis, Dean Martin e do boxeador Sonny Liston, Tosches narra sua busca por algum lugar no mundo em que possa deitar e entregar-se aos prazeres do ópio. Absolutamente sensacional.

Estrela Distante, de Roberto Bolaño (1996, 140 páginas)
Até hoje não sei dizer se gosto ou não dos livros de Bolaño. Nunca vi um escritor capaz de criar páginas tão arrebatadoras seguidas de outras tantas de puro tédio e lenga-lenga. Mas “Estrela Distante” não sofre dessa montanha-russa. A história de um poeta que na verdade é um facínora a serviço de Pinochet é fascinante do início ao fim.

Don McCullin: nossos olhos na guerra

Você pode não conhecer o nome Don McCullin, mas certamente já viu algumas de suas fotografias.

A mãe chorando a morte do filho na guerra civil no Chipre. Uma criança albina e esquelética de Biafra olhando fixamente para a câmera. Um soldado americano arremessando uma granada no Vietnã. Outro soldado americano em estado de choque, segurando um rifle. Jovens irlandeses pulando um muro durante um conflito com tropas inglesas (imagem usada na capa do disco de estreia da banda pós-punk Killing Joke).

mccullin7 1024x576 Don McCullin: nossos olhos na guerra

Don McCullin completa 80 anos em outubro. Desde 1964, quando foi cobrir a guerra civil no Chipre, até poucos anos atrás, quando passou a se dedicar a fotografar a natureza na Inglaterra, viajou pelo mundo documentando todo tipo de barbárie: Congo, Vietnã, Camboja, Beirute, Biafra, Chipre, a Ku Klux Klan no Mississipi e os neonazistas na Alemanha.

Suas imagens influenciaram não só outros fotógrafos – o grande James Nachtwey é um de seus discípulos – como fizeram a opinião pública olhar com atenção e horror as barbaridades perpetradas em rincões perdidos do mundo.

Para chegar perto das atrocidades, McCullin muitas vezes arriscou a própria pele. No Congo, fez-se passar por um mercenário para burlar o bloqueio a jornalistas imposto pelo governo; no Vietnã, que visitou 18 vezes, passou duas semanas acompanhando um batalhão norte-americano na sangrenta Batalha de Hué, que terminou com a morte de 70% do batalhão. Em outra ocasião, ainda no Vietnã, escapou da morte quando um tiro de AK-47 atingiu sua Nikon F.

mccullin5nikon 51 300x172 Don McCullin: nossos olhos na guerra

O Netflix brasileiro traz “McCullin”, um filme muito simples e comovente sobre a vida do fotógrafo (caso você não tenha Netflix, aqui vai a íntegra do filme, com legendas em espanhol).

O documentário tem apenas dois entrevistados, o próprio McCullin e seu editor no “The Sunday Times”, Sir Harold Evans, mas os dois têm muito a dizer e o fazem com eloquência e profundidade raras.

Mais que uma cinebiografia sobre um profissional fora de série, o documentário é uma apologia ao jornalismo e à independência jornalística.

mccullin3 Don McCullin: nossos olhos na guerraDá vontade de chorar ouvindo Evans falar sobre a fase de ouro do “The Sunday Times” e a liberdade absoluta que seu dono, Lord Thomson, dava aos repórteres para cobrir histórias importantes.

Foi na revista dominical do jornal, “The Sunday Times Magazine”, que McCullin publicou alguns de seus ensaios mais impactantes. Hoje, essas revistas dominicais são dominadas por reportagens “leves” e divertidas, mas, nos anos 60 e 70, os britânicos se acostumaram a ver a dura realidade da guerra enquanto tomavam seu café da manhã. Como diz McCullin no filme: “Eu queria garantir que, quando eles vissem minhas fotos no domingo de manhã, tomando seu café, as imagens os atingissem duramente”.

mccullin2 Don McCullin: nossos olhos na guerra

Em 1981, Rupert Murdoch comprou o jornal e mudou sua linha editorial. No ano seguinte, McCullin foi tirado da cobertura da Guerra das Malvinas, o que o convenceu de que sua presença no staff era indesejada. “Era quase como se eles dissessem que Don era ‘honesto demais’ para estar naquela cobertura”, diz Harold Evans. Pouco depois, McCullin pediu demissão.

mccullin4 Don McCullin: nossos olhos na guerraO stress e a violência das cenas que presenciou marcaram profundamente Don McCullin. No filme, ele relata sua impotência e desespero ao ver crianças famintas em Biafra e ao entrar em um manicômio para crianças no Líbano e encontrar dezenas de bebês amarrados às camas. “Não tenho pesadelos à noite”, diz o fotógrafo. “Meus pesadelos aconteceram de dia, enquanto eu estava em meu estado de atenção mais aguçado”.

Alguns dos trechos mais emocionantes do filme mostram McCullin tentando explicar o dilema moral de fotografar pessoas em momentos dramáticos. "No fim das contas", diz ele, "a fotografia tem de transmitir empatia pela humanidade. E eu sempre tentei ficar do lado da humanidade".

Posts Relacionados

O barquinho que venceu a “Tempestade Perfeita”

32 O barquinho que venceu a Tempestade PerfeitaMeu amigo Randy Leasure é um velejador experiente da costa californiana e está envolvido em um projeto muito interessante: um documentário sobre a Westsail, uma fabricante de veleiros que fez sucesso no mundo náutico nos anos 1970.

Semana passada, Randy começou uma campanha de “crowdfunding” para arrecadar 30 mil dólares para a produção do filme, que se chamará “Westsail the World” (leia mais aqui).

A Westsail era uma empresa familiar e idealista cujo objetivo foi oferecer um barco barato, simples e resistente, capaz de ser navegado por uma só pessoa para qualquer parte do mundo.

Seu modelo mais popular era o Westsail 32 (também conhecido por W32), um barco de 32 pés (9,8 metros) que surpreendeu pela segurança e robustez. Era um barco lento, mas capaz de atravessar qualquer tempestade. Dizia-se que era construído como um tanque – e navegava como um.

Entre 1971 e 1980, a empresa fabricou cerca de 1100 barcos (830 só do modelo W32). A grande maioria continua navegando até hoje e pode ser adquirida nos EUA por preços que variam de 30 mil a 40 mil dólares. Mesmo com o sucesso, a Westsail faliu, devido à falta de experiência corporativa de seus donos. Os caras entendiam de barco, não de negócios.

A fama da Westsail cresceu devido a um episódio famoso no mundo da vela: em outubro de 1991, o furacão Grace passava pela costa leste dos Estados Unidos, quando juntou-se a uma tempestade que vinha do nordeste da América do Norte e formou um novo furacão, que chegou à costa norte-americana com ventos de 120 km por hora e ondas de 10 metros de altura. Próximo ao centro do furacão, uma boia de medição da Marinha registrou uma onda de 31,7 metros, a maior já medida na região. O furacão causou estragos em quase toda a costa leste do país e chegou a Porto Rico. Treze pessoas morreram, incluindo seis tripulantes do barco de pesca Andrea Gail, que afundou a 900 km da costa de Massachusetts.

O fenômeno ficou conhecido por “Tempestade Perfeita” e foi tema de um livro de Sebastian Junger, lançado em 1997 e levado às telas por Wolfgang Petersen em 2000 no filme "Mar em Fúria", estrelado por George Clooney e Mark Wahlberg (veja a versão hollywoodiana do fim do Andrea Gail):

O filme conta a história do Andrea Gail e de um veleiro chamado Mistral, que foi resgatado pela Marinha depois que sua tripulação pediu socorro. O nome verdadeiro do barco era Satori, um Westsail 32, e o resgate não aconteceu exatamente como descrito por Junger.

O Satori era de propriedade de Ray Leonard, um ambientalista americano e velejador dos mais experientes. Em 1991, Ray tinha 64 anos e conheceu duas artistas, Karen Stimpson e Susan Bylander, com quem combinou uma viagem até o Caribe. Karen e Susan disseram a Ray que eram velejadoras e estavam acostumadas com longas travessias.

O Satori partiu de Portsmouth, em New Hampshire, em direção ao Caribe, mas foi pego de surpresa pela somatória do forte vento nordeste com o furacão Grace.

Leonard já havia passado por muitas tempestades fortíssimas e não se desesperou. Optou por usar uma técnica chamada “lying ahull”, que consiste em simplesmente tirar todas as velas, travar o leme do barco e se abrigar na cabine, esperando a tempestade passar. À primeira vista, pode parecer uma saída simplória e “amadorística”, mas é considerado por muitos a maneira mais segura de velejar em condições extremas (veja aqui um exemplo da técnica):

Veleiros têm quilhas pesadíssimas e que funcionam como uma espécie de “João-bobo” em caso de o barco virar. Por várias vezes, ondas imensas tombaram o Satori, mas em menos de 30 segundos o barco retornava à posição horizontal.

Satori foi violentamente sacudido por cerca de 12 horas. Apesar de Leonard garantir que já havia passado por situações parecidas, as duas passageiras entraram em pânico. Uma das mulheres diria depois que as ondas chegavam a 10 metros de altura. Leonard disse que ela estava exagerando e que as ondas “não passavam de seis metros”.

O fato é que uma das passageiras pegou o rádio e pediu socorro à Guarda Costeira. Cerca de seis horas depois, um barco da Guarda Costeira aproximou-se do Satori e lançou um inflável com uma equipe de socorro. Mas uma onda imensa derrubou o Satori de lado e uma parte do leme acabou furando o inflável, impossibilitando o socorro.

A solução foi resgatar a tripulação de helicóptero. Ray Leonard, Karen Stimpson e Susan Bylander foram içados pelo helicóptero. No caminho, Ray deixou cair no convés do Satori uma bolsa à prova d’água com todos os seus documentos (veja imagens reais do resgate):

Nos dias que se seguiram, Ray alugou um pequeno avião e procurou Satori por toda a região. Seu medo era de que o barco fosse encontrado por outra embarcação. Pelas leis do mar, quem acha um barco à deriva torna-se dono dele. Muitos acreditavam que Satori estaria no fundo do Atlântico.

Depois de oito dias de busca, Satori foi encontrado nas areias de uma praia de Maryland. E mais impressionante: a bolsa com os documentos de Ray Leonard ainda estava no convés.

No filme, Leonard é mostrado como um irresponsável que pôs a vida da tripulação em risco com sua teimosia. Mas, para a comunidade náutica, tudo que ele fez foi confiar em sua técnica e em seu barco. E o Westsail 32 provou que era mesmo um “tanque”.

Conheça a Disneylândia de Banksy

Finalmente um parque temático que eu visitaria com gosto: há alguns dias, o artista plástico-polemista Banksy inaugurou Dismaland, sua versão da Disney.

disma1 Conheça a Disneylândia de Banksy

Erguido em um parque aquático decrépito e fechado há 15 anos em Weston-super-Mare, na costa sudoeste da Inglaterra, o local foi transformado em uma versão pop-anarquista da terra dos sonhos de Walt Disney, com direito a um castelo em ruínas, vendedores de balões com a inscrição “Eu sou um imbecil” e uma instalação em que Cinderela agoniza depois de capotar sua carruagem.

disma2 Conheça a Disneylândia de Banksy

Veja aqui uma matéria bem completa do site Colossal...

Tudo cortesia de Banksy (leia aqui um texto que fiz em 2010 sobre o artista) e de outros 58 artistas que cederam obras para a exposição, incluindo Damien Hirst, Bill Barminski, Escif e Jimmy Cauty (do grupo KLF), entre outros. Banksy pagou tudo do próprio bolso e exibe dez novas peças que fez exclusivamente para o show.

disma 3 300x200 Conheça a Disneylândia de Banksy

Além da exposição de obras de nomes importantes da arte moderna, Dismaland terá exibição de filmes e shows, com destaque para a noite de 25 de setembro, quando se apresentam a banda de trip hop Massive Attack e o grupo punk feminista russo Pussy Riot (veja o site oficial de Dismaland).

A exemplo de outras iniciativas de Banksy, esta foi realizada com discrição total. Moradores de Weston-super-Mare achavam que o parque aquático estava sendo contratado para a filmagem de um “thriller” hollywoodiano.
dismal 4 256x300 Conheça a Disneylândia de Banksy
Um comunicado à imprensa, divulgado na quinta-feira da semana passada, anunciava a abertura do parque: “Este é um parque temático que acredita que parques temáticos devem ter temas mais interessantes”.

No site de Dismaland, há um aviso: “Os seguintes objetos são proibidos no parque: sprays de tinta, canetas Pilot, facas e representantes legais da Walt Disney Corporation”.

Dismaland ficará aberto por cinco semanas e os ingressos custam a bagaleta de três libras (R$ 16,50).

Veja uma matéria da TV inglesa sobre Dismaland:

Se eu estivesse na Europa, não perderia por nada (e tenho amigos que já estão comprando passagem pra ir, inclusive com os filhos). Quem vai?