A CANOA NÃO VIROU (E UM PODCAST SOBRE “PAVÕES”)

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Há alguns meses, compramos uma canoa. Era um desses modelos chamados de “canadenses”, feito de fibra, ideal para três pessoas e passeios em águas calmas. As crianças adoravam a canoa, que, por sua cor alaranjada, haviam batizado de Caqui.

Um dia, saímos para passear de canoa. Na volta, como sempre, deixamos o barco na praia.

Na manhã seguinte, Caqui havia desaparecido. Nem sinal da canoa. Ninguém lembrava se a havíamos ancorado, mas o lugar onde ela estava era, pelo menos na teoria, alto o suficiente para que não fosse levada pela maré.

Havia duas hipóteses: ou não amarramos o barco e a maré o levara, ou alguém o havia roubado.

Passamos dois ou três dias procurando a canoa. Fomos a todas as praias e restingas da região. Nada. Um pescador disse que, na noite em que a canoa sumiu, houve uma maré altíssima e inesperada. Ele fez um cálculo rápido, de cabeça, e sugeriu o local onde deveríamos procurá-la. Era longe pacas, coisa de uma hora de barco a motor.

Depois de alguns dias de busca, sem sucesso, fizemos um boletim de ocorrência na delegacia e reportamos o sumiço à Capitania dos Portos. Dessa forma, se flagrássemos alguém com a canoa, poderíamos chamar a polícia e recuperá-la. “A essa hora, algum malandro já pintou o casco e vendeu a canoa”, disse o policial que fez o B.O.

Passaram-se mais de 40 dias. Nos primeiros, as crianças ainda perguntavam quando Caqui voltaria, e até se animavam a visitar praias e ilhas mais distantes para procurar a canoa. Com o passar do tempo, as esperanças minguaram.

Três dias atrás, a surpresa: um vizinho nos procurou e disse que haviam achado a canoa. Um pescador a encontrara. Ligamos para o sujeito, que confirmou a notícia e combinou um local para devolvê-la.

As crianças vibraram quando viram, ao longe, o barquinho do pescador rebocando o Caqui. Foi uma festa. O sujeito trabalhava também de vigia em uma marina e encontrara a canoa de madrugada, no exato local onde o pescador havia calculado. Detalhe: dez dias depois do sumiço (Isso me lembrou um texto publicado no blog de um amigo, Marco Mendonça, que estava velejando com a família do Caribe a Portugal e encontrou, no meio do Atlântico, um veleiro abandonado que valia um milhão de dólares. A história é legal demais, e você pode ler aqui.)

É incrível pensar que um barquinho de fibra, que não pesa mais de 30 quilos, ficou à deriva por dez dias e dez noites, enfrentando chuva, vento e correntezas, e não virou e não se chocou contra nenhuma pedra. Tanto que os remos continuavam dentro do barco.

O rapaz que achou a canoa disse que não é incomum encontrar embarcações à deriva, especialmente depois de tempestades, quando cabos arrebentam e barcos se soltam de docas. E contou um caso incrível de quando achou uma escuna de mais de 20 metros boiando sozinha no meio do mar. “O dono da escuna até chorou quando eu devolvi o barco. Hoje, é meu melhor amigo”. 

PODCAST DOS "PAVÕES"

Está no ar uma entrevista que dei para o ótimo podcast "O Resto é Ruído" sobre meu novo livro, "Pavões Misteriosos: 1974-1983 - A Explosão da Música Pop no Brasil". Você pode ouvir aqui. Muito obrigado ao pessoal do "ORéR".

 

A MAIOR HISTÓRIA DE AMOR DO ROCK

casal A MAIOR HISTÓRIA DE AMOR DO ROCK

Qual o casal mais cool do rock? Debbie Harry e Chris Stein, do Blondie? Ela, uma loura fatal de cinema noir e ele, um intelectual existencialista e expert em magia negra? Lux Interior e Poison Ivy, do Cramps, estetas da cultura B?

Não tão rápido. A maior história de amor do rock periga não vir de nenhum desses casais famosos e cultuados, mas de um que, há quase meio século, vive completamente à margem do “mainstream” e cuja ética de trabalho e filosofia do “faça você mesmo” é inigualado. Falo de Fred e Toody Cole, do grupo Dead Moon.

Em junho, Fred e Toody completaram 47 anos de casamento. Quando trocaram alianças, em 1967, Fred tinha 19 anos e já era músico profissional. Sua primeira banda, The Lords, gravou o compacto de estreia em 1964. Dois anos depois, Fred tocava no The Weeds, banda que entraria em uma coletânea “Nuggets”, a série de compilações de rock de garagem americano dos anos 60 criada por Lenny Kaye, pesquisador musical e guitarrista da banda de Patti Smith.

Fred e Toody tiveram três filhos. Fred continuou tocando em várias bandas – Lollipop Shoppe, Zipper, King Bee – até que, no início dos anos 80, ensinou Toody a tocar baixo e formou com ela o grupo punk The Rats. Nunca mais se separaram – em casa e no palco. Em 1987, montaram o Dead Moon, uma das melhores bandas de rock de garagem e psicodelia de todos os tempos (se não conhece, sugiro procurar a coletânea dupla “Echoes from the Past”, lançada pela Sub Pop. Vai mudar sua vida).

Fred sempre fez tudo à sua maneira. Nos anos 70, percebeu que só poderia ser realmente um artista livre se fosse dono de suas canções. Montou uma editora e começou a lançar os próprios discos.

Fez mais: construiu, sozinho, a casa da família, numa área rural no estado de Oregon. Também construiu seu estúdio, uma loja de equipamentos musicais e a sede da gravadora Tombstone, por onde lançou quase todos seus discos. Cansado de pagar caro pela masterização de seus discos, Fred comprou uma antiga máquina de acetatos dos anos 50 – a mesma onde foi cortado o acetato original do clássico “Louie Louie”, do Kingsmen – e passou a masterizar os próprios discos em casa. Também emprestava a máquina para qualquer banda que a quisesse utilizar.

O Dead Moon nunca dependeu de ninguém. Fred e Toody agendavam os próprios shows, dirigiram a van em turnês e montavam o equipamento de palco. Fred construía guitarras e baixos, que vendia a preços acessíveis na loja do casal. Depois dos shows, o casal descia do palco e vendia camisetas e pôsteres para fãs.

Não existe nada igual a um show do Dead Moon. Quando entram no palco, Fred, Toody e o baterista Andrew Loomis dão as mãos e fazem uma espécie de ritual de invocação aos deuses da música, sobre um estranho altar formado por uma velha garrafa de Jack Daniels coberto por velas. Depois, detonam um rock primal e imundo que vem de um lugar distante e sombrio. Tive a sorte de vê-los três vezes, sempre em botecos minúsculos com palcos tão baixos que você quase encostava na guitarra de Fred. Uma coisa linda.

Em 2004, saiu um documentário sobre o Dead Moon, “Unknown Passage”. Dois anos depois, Loomis saiu da banda e Fred e Toody montaram outro grupo, o Pierced Arrows. Mas a lenda do Dead Moon só cresceu: o Pearl Jam passou a tocar uma canção do grupo, “It’s Okay”; o Shellac convidou o Dead Moon para tocar no famoso festival ATP.

Há quatro meses, Fred Cole foi hospitalizado com problemas cardíacos e fez uma operação de emergência. “Sou como um carro velho”, disse. “Eles vão cortar parte do meu coração e botar novas válvulas”. A cirurgia foi um sucesso. “A barata sobreviveu!”, postou nas redes sociais um dos filhos de Fred e Toody. Dia 27 de agosto, Cole fez 66 anos de vida e posou para uma foto mostrando a cicatriz no peito e empunhando uma garrafa de Jack. Que ele tenha muitos outros aniversários, e que visite o Brasil em breve.

DO AFEGANISTÃO, UM FILME SURPREENDENTE

 

Há muito tempo o cinema não mostrava uma personagem tão forte e complexa quanto a mulher sem nome interpretada pela atriz iraniana Golshifteh Farahari em “A Pedra de Paciência”, de Atiq Rahimi.

Rahimi, um afegão que vive na França desde os anos 80, escreveu um romance e agora dirigiu um filme inspirado no livro. É uma história simples e minimalista, quase toda passada em um quarto, mas que diz muito sobre a vida das mulheres afegãs.

O filme – uma produção francesa e afegã - começa em um apartamento dilapidado por bombas e tiros, localizado em uma cidade em guerra. Uma mulher conversa com um corpo inerte e estendido no chão. O corpo é do marido – também não identificado – um guerrilheiro que levou um tiro no pescoço e está há semanas em estado vegetativo.

A mulher fala com o marido como se ele pudesse responder. Mas não existe diálogo. O homem permanece imóvel e mudo. Mesmo assim, ela faz questão de explicar tudo que está fazendo: “Vou à casa da minha tia pegar água, depois pego as crianças e volto para dar banho em você”.

Aos poucos, vamos descobrindo o passado da mulher e conhecendo outros personagens: seus dois filhos pequenos, uma tia que a ajuda com comida e água e um soldado afegão que invade o apartamento. Também descobrimos como o marido terminou naquela condição.

O roteiro foi escrito por Rahimi em parceria com o grande Jean-Claude Carrière, colaborador frequente de Buñuel, e é um primor de economia. A história vai sendo desvendada em pequenas doses, revelando, sem pressa, toda sua complexidade.

Apesar de sua estética realista, há sequências que parecem um sonho, especialmente as “conversas” entre mulher e marido. A impressão é de que ela só consegue estabelecer uma relação de proximidade e afeto com o marido quando ele está paralisado, e usa essa chance para dizer o que nunca pôde dizer antes.

“A Pedra de Paciência” não é um filme fácil e pode não ser a melhor pedida para um sabadão no Cineplex comendo pipoca. Mas para quem ainda acredita que o cinema pode surpreender, com uma história original e contada de forma surpreendente, periga ser a melhor atração em cartaz. Bom fim de semana.

UM LIVRO PARA ENTENDER A AMÉRICA

desagregação UM LIVRO PARA ENTENDER A AMÉRICA

Acaba de sair no Brasil “Desagregação – Por Dentro de uma Nova América”, um dos livros de não-ficção mais impressionantes e reveladores que li em muito tempo.

Packer, repórter da revista “The New Yorker”, conta a história das últimas três décadas dos Estados Unidos. E faz isso de forma original e surpreendente, por meio de perfis de diversas pessoas.

O livro parece um quebra-cabeça: no início não se percebe a relação entre as histórias, mas, à medida que Packer vai revelando os personagens - de empresários a políticos, de lobbystas a operários, de celebridades a escritores - começamos a perceber como eles se completam e contam a mesma saga: a de um país que foi, pouco a pouco, vendo sua democracia e seus valores fundamentais sendo distorcidos.

“Desagregação” explica como os Estados Unidos passaram de um bastião da democracia e do otimismo no pós-guerra a uma monstruosidade dominada por megacorporações, com centenas de cidades dizimadas por crises econômicas, globalização e a perda de empregos para países do Terceiro Mundo.

Uma das personagens é Tammy Carter, uma operária negra de uma fábrica de carros em Youngstown, no estado de Ohio. Ao contar a história de Tammy, Packer explica como Youngstown, uma potência industrial do nordeste americano, viu sua economia destruída pela falência da indústria automobilística da região e seus bairros transformados em lixões dominados por gangues de traficantes. A história parece um romance policial.

Outro personagem fascinante é Jeff Connaughton, um idealista líder estudantil que vai a Washington trabalhar na campanha de um candidato, mas se desilude com a política e acaba virando lobbysta de grandes empresas junto ao governo. A saga de Jeff explica como nenhuma decisão em Washington é tomada sem uma bênção corporativa.

Às vezes, os personagens de Packer não são pessoas, mas cidades. Uma das histórias mais escabrosas é a da bolha imobiliária em Tampa, na Flórida. O autor conta como a ganância de empreendedores e a incompetência/corrupção de políticos permitiu a criação de centenas de bairros e empreendimentos em meio a áreas completamente desabitadas e desertas, criando cidades-fantasmas que logo foram abandonadas.

Packer também traça o perfil de celebridades, como a apresentadora de TV Oprah Winfrey e o cantor Jay-Z, e dedica um capítulo ao escritor Raymond Carver, cujas histórias melancólicas e realistas retratavam personagens vivendo nos subúrbios de classe média baixa, dominadas por gigantescas lojas de departamentos e lanchonetes de fast food. E o perfil de Sam Walton, criador da cadeia Wal-Mart, é um primor de concisão e objetividade.

“Desagregação” fala dos Estados Unidos, mas algumas das histórias poderiam muito bem se passar no Brasil. Quando alguém vai escrever um livro explicando por que importamos tudo de pior que vem da América, mas não a crença na democracia que, mesmo maltratada, ainda é o que a América tem de melhor?

P.S.: Estarei fora por boa parte do dia e impossibilitado de moderar e responder comentários. Se o seu comentário demorar a ser publicado, peço desculpas e um pouco de paciência.

 

ORDEM, PROGRESSO… E OSTENTAÇÃO

ostentaçao ORDEM, PROGRESSO... E OSTENTAÇÃO

Nada une o Brasil como a ostentação. Rico, pobre, branco, preto, amarelo, homem, mulher, sulista, nordestino, torcedor do América, todo mundo só quer ostentar.

Recentemente, soube de três casos que dão uma boa ideia do tipo de país que nos tornamos - e que estamos deixando pros nossos filhos.

O primeiro, descobri ao visitar um empreendimento imobiliário que um amigo, corretor de imóveis, estava vendendo. Era um condomínio de casas populares em uma região de praia e direcionado a um público de baixa renda. Foi um sucesso: as 22 casas foram vendidas em menos de quatro meses. Os clientes aproveitaram créditos de bancos e arremataram todas as unidades.

Eram apartamentos modestos, de 50m2, com dois quartos pequenos, banheiro, uma sala e cozinha. Mas havia uma atração que destoava da simplicidade das construções: uma linda e reluzente quadra de tênis. A quadra estava novinha e parecia nem ter sido usada. “E não foi mesmo”, disse meu amigo. “Ninguém aqui joga tênis. Em compensação, o espaço gourmet (área com churrasqueira) está sempre lotado, tem fila de espera”.

Perguntei por que o dono construiu uma quadra de tênis onde ninguém joga tênis. “Ah, os clientes gostaram porque podem dizer pros amigos que moram num lugar que tem quadra de tênis. Foi o maior chamariz pra venda”.

Dias depois, uma arquiteta nos contou sobre a visita que fizera a outro empreendimento, este próximo a Campos do Jordão. Segundo ela, a nova moda em casas populares na região era a chamada “lareira design”, que consiste em um buraco na parede, fechado por um vidro escuro. Dentro do buraco passa um cano de gás com pequenas aberturas, que simulam as chamas de uma lareira. “Um corretor disse que, quando contava pro cliente que ele poderia ter uma lareira em casa, o cliente fechava na hora”, disse a arquiteta.

O terceiro caso, li em uma reportagem de uma revista náutica. Não lembro o local exato, mas a história era mais ou menos assim: um ricaço, dono de uma mansão em um condomínio de luxo às margens de uma pequena represa, mandou rebocar para o local um iate de 52 pés (16 metros). O barco destoava absurdamente das pequenas lanchas usadas pelos vizinhos. Era tão grande que o dono nem podia ligar os motores com força máxima, ou a embarcação chegaria ao outro lado da represa em questão de segundos. Imagine alguém remando uma canoa dentro de uma piscina de 25 metros, e você terá uma ideia do ridículo da situação.

O repórter perguntou ao dono do iate por que ele tinha um barco tão grande em águas tão restritas. E a resposta foi mais ou menos essa: “Eu gosto de saber que ninguém aqui vai ter um barco maior que o meu”.

Não me surpreenderia se algum vizinho lesse a bravata, comprasse a briga e trouxesse para a represa uma lancha de 80 pés. Daqui a pouco, veremos no local um engarrafamento de iates. Podem esperar.

P.S.: Estarei fora o dia todo e impossibilitado de moderar e responder comentários. Se o seu comentário demorar a ser publicado, peço desculpas e um pouco de paciência.

EM BUSCA DA BUCHADA PERDIDA (E “PAVÕES” NO RIO)

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Fui a Fortaleza para um debate – muito bom, aliás - sobre meu livro, “Pavões Misteriosos”, e aproveitei dois dias na capital cearense para uma exploração gastronômica. O objetivo: degustar buchada, paçoca, panelada, sarrabulho, mão de vaca e outras delícias da culinária regional.

Toda vez que chego a uma cidade que não conheço, peço dicas a taxistas. “Leve-me onde você janta com sua família” é uma frase que sempre dá certo. Ou quase sempre: em Fortaleza, parece que todos os taxistas têm algum tipo de acordo com determinados restaurantes, e acabam indicando as mesmas armadilhas de turista.

Acabei num dos restaurantes mais famosos e “estrelados” da cidade. Dei uma olhada no público de mauricinhos, nas babás cuidando das crianças e nas TVs de plasma, e saí de lá correndo. Peguei um táxi e fui ao Mercado Central, onde disseram que havia bons restaurantes.

Outra furada: no mercado comprei castanhas e doces, mas os restaurantes não eram o que eu esperava: pra começar, todos usavam o odioso sistema “serve-serve”, e o cardápio era uma mistureba desgracenta: macarrão, peixe frito, feijoada, tudo ao mesmo tempo agora.

Puxei conversa com um vendedor de castanhas, que indicou um restaurante “bem típico, da roça mesmo”. Até o nome do lugar remetia a rincões sertanejos. Esse prometia.

Cheguei ao restaurante e a decepção foi imediata: o lugar não só usava o tal sistema “serve-serve”, como tinha cartão de consumação. E nada aniquila meu apetite tão rápido quanto cartão de consumação. Nem TV exibindo o programa da Regina Casé.

O restaurante era daqueles lugares que fingem descontração e autenticidade: garçonetes usam chapéus de cangaceiro, mas pegam os pedidos em palmtops; gerentes sugerem aos clientes baixar o aplicativo do restaurante; um grupo de modelos aparece distribuindo folhetos de um empreendimento de “alto padrão” na região.

Na aparência, o restaurante era tradicional e respeitador das tradições culinárias locais, mas era só papo furado. Pedi um suco de caju. A garçonete disse: “Natural, só laranja e limão, senhor”. Frutas típicas – cajá, caju, mangaba – só em polpa. Era mais fácil achar um Nespresso em Fortaleza do que um suco de cajá natural.

Fortaleza é uma metrópole, e ninguém vai a um restaurante de comida sertaneja esperando ver cabritos andando entre as mesas. Mas é triste constatar como o público – e não falo só de Fortaleza, mas de Rio e São Paulo também – adora esses lugares falsos que posam de autênticos, com garçons fantasiados e decoração à Disney, parecendo bufês infantis. Talvez esses simulacros deem às pessoas uma sensação de pertencimento, de experimentar a “realidade”, mas de uma forma segura e controlada.

De volta ao hotel, conversei com um segurança que vigiava a calçada. Perguntei onde poderia comer uma buchada autêntica, sem garçom fantasiado, sem “serve-serve” e sem cartão de consumação. “Olha, senhor”, disse o rapaz, “Tem um lugar, mas não sei se o senhor vai gostar, não é um lugar assim de muito bom nível...” Nada mais preconceituoso que o povão, não é mesmo?

No domingo de manhã, fui ao local. Era o Mercado São Sebastião, um centro popular onde se vende de tudo: frutas, carnes, queijos, peixes, rações para animais e utensílios para cozinha. Na porta, um trio de forró formado por crianças animava os clientes e pessoas faziam propaganda de candidatos: Preta do Churrasquinho, Alison o Lindão e, o melhor de todos, Perereca do Alumim.

Em um canto do mercado, há vários restaurantes de comidas típicas. Todos têm mesas de plástico, cardápio parecido – carne de sol, buchada, rabada, carneiro, língua – e estavam lotados. Era ali mesmo.

Simpatizei com a foto de Dona Neuza, a “Rainha da Buchada”, e tracei uma panelada (cozido de tripa, bucho e pata de boi) com arroz e cuscuz. Preço: dez reais. De sobremesa, doce de caju comprado de um ambulante. O almoço todo saiu mais barato que o táxi até o Mercado São Sebastião.

Mas o domingão estava só começando: de lá, rumei ao centro da cidade, onde haviam recomendado um lugar chamado Raimundo do Queijo. Era sensacional: numa esquina, debaixo de um toldo, mais de cem pessoas se acotovelavam em mesas de plástico para comer queijo coalho, carne de sol e tomar cachaça e cerveja. Um tecladista e um cantor animavam a massa com sucessos de forró, brega, Jovem Guarda e música romântica. Teve Amado Batista, Odair José, The Fevers, Roberto Carlos, Reginaldo Rossi e até “Menina Veneno”. Quando o cantor começou “Fogo e Paixão”, de Wando, o lugar quase explodiu: casais sessentões dançavam agarradinhos, grupos de senhoras levantavam os braços, como se estivessem no auditório do Chacrinha. Tudo num clima divertido e descontraído. Vejam que beleza:

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Obrigado, Neuza da Buchada e Raimundo do Queijo, por refeições inesquecíveis em Fortaleza.

“PAVÕES MISTERIOSOS” NO RIO DE JANEIRO

Quarta-feira acontece o lançamento de meu novo livro, “Pavões Misteriosos: 1974-1983: a Explosão da Música Pop no Brasil” no Rio de Janeiro. Será às 19h na Livraria Travessa do Shopping Leblon (Av. Afrânio de Mello Franco, 290, loja 205ª, 2º piso). Espero todos os amigos cariocas lá. Infelizmente, o debate que deveria rolar com o Ritchie foi cancelado, por um problema de data. Pedimos desculpas ao Ritchie, que não teve culpa nenhuma no cancelamento.

P.S.: E o caso do suposto plágio de Criolo a uma música gravada por Clara Nunes chega ao fim (leia aqui). Tudo não passou de um "mal entendido". Segundo o artigo, Criolo teria procurado a gravadora da música de Clara para "acertar quaisquer pendências". 

CRIOLO, MAS PODE CHAMAR DE CLARA NUNES…

clara criolo CRIOLO, MAS PODE CHAMAR DE CLARA NUNES...

 

O mundinho indie-Sesc-Vila Madalena está em polvorosa: em entrevista à “Billboard”, o autor de uma famosa música gravada por Clara Nunes (1942-1983) diz que Criolo plagiou sua canção de forma “escandalosa”.

Armando Fernandes, conhecido por Mamão, tem 76 anos e escreveu “Tristeza Pé no Chão” em 1973, 38 anos antes de Criolo lançar “Linha de Frente”, samba de seu disco “Nó na Orelha”. A “Billboard” localizou Mamão em Minas Gerais (leia a matéria completa aqui).

Compare as duas músicas:

 

 

 

A “Billboard” tentou entrar em contato com Criolo, mas o cantor, que estava se apresentando com Milton Nascimento em São Paulo, não retornou o contato (numa nota triste, Milton passou mal durante o show, abandonou o palco e foi levado ao Incor; felizmente, parece que está tudo bem).

Antes que o fã-clube de Criolo na PUC diga que a acusação de plágio não passa de uma manipulação da mídia burguesa e elitista contra o artista popular, vale lembrar que Mamão também é um artista popular e, ao que consta, faria bom uso do dinheiro de royalties, caso fique comprovada a coincidência entre as músicas.

Afinal, como diz Criolo, “a alma flutua, o corpo precisa de alimento. Se não tem leite, a criança chora”.

 

 

CORREÇÕES EM “PAVÕES MISTERIOSOS”

Agradeço a todos os leitores que escreveram apontando dois erros em meu livro “Pavões Misteriosos”. Ambos já haviam sido identificados e corrigidos na segunda impressão. Por um erro de digitação, a idade de Ney Matogrosso em 1973, quando foi lançado o primeiro LP dos Secos e Molhados – 32 anos – saiu como “23”, com os números trocados. E na descrição do LP “Paêbiru”, de Zé Ramalho, cometi a sandice de confundir Zé Geraldo com Geraldo Azevedo. Peço desculpas aos artistas. No capítulo sobre o produtor Roberto Livi, “inventor” de Sidney Magal, há uma frase que aparece duas vezes na sequência. O erro também já foi corrigido. Obrigado a todos.

TIRIRICA É O NOVO GERALDO VANDRÉ

tiririca 1 TIRIRICA É O NOVO GERALDO VANDRÉ

Pode acreditar: nenhum artista foi tão perseguido no Brasil nos últimos anos quanto Tiririca.

Se a ditadura atacou gente como Geraldo Vandré e Chico Buarque, nossa democracia anda caçando Tiririca com uma ferocidade impressionante.

Esses dias, a gravadora EMI Songs exigiu que o Youtube retirasse do ar um comercial engraçadíssimo, em que Tiririca comete o pecado de ironizar Roberto Carlos, esse ser angelical e santificado, defensor da censura e de Pinochet:

 

 

Em 2010, a Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo quis impugnar a candidatura de Tiririca por suposto “crime eleitoral”. O promotor eleitoral Mauricio Antonio Ribeiro Lopes, do Ministério Público Eleitoral de São Paulo, disse, à época, que via no bordão “Pior que está não fica” infração capaz de levar a uma impugnação da candidatura. “É propaganda irregular. Vislumbro infração ao artigo 5º da resolução 23.191 do TSE”, declarou. Felizmente, a baboseira do promotor não colou.

Em 1996, quando Tiririca estava estourado em todo o país com a música “Florentina”, o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap), entidade com sede no Rio de Janeiro, implicou com a faixa "Veja os Cabelos Dela", que foi considerada racista. O Ceap alegou que a letra ("Essa nega fede/ fede de lascar/ bicha fedorenta, fede mais que um gambá") denegria as mulheres negras e entrou com uma ação criminal contra o artista e a gravadora Sony.

Tiririca me disse, em entrevista, que a música era uma brincadeira com a esposa, Rogéria Márcia, cujo apelido era "Nega": "Eu escrevi a letra depois de um show. A Rogéria não tinha tomado banho e estava com uma catinga braba. Eu nunca quis falar mal de raça alguma." À época, Tiririca declarou aos jornais: "Como é que eu vou ser racista? Minha mãe é preta, meu cachorro é preto, meu carro é preto e eu sou rubro-negro. Preto é minha cor da sorte."

A explicação não convenceu a juíza Flávia Viveiros de Castro, que ordenou o recolhimento de todos os CDs e fitas de Tiririca. A Sony foi obrigada a destruir mais de 125 mil CDs que continham a faixa "Veja os Cabelos Dela" e a reimprimir o disco sem a música. A senadora Benedita da Silva, do PT, depôs contra Tiririca. A seu favor depuseram os cantores Agnaldo Timóteo e Ângela Maria. Em fevereiro de 1998, 18 meses depois da abertura do processo, o juiz Carlos Alfredo Flores, da 23ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, absolveu Tiririca e a Sony e revogou o veto à música. Em sua sentença, o juiz concluiu que o Ministério Público havia se precipitado ao deflagrar a ação penal sem analisar com maior profundidade a letra da música.

Mesmo com a absolvição, Tiririca perdeu muito dinheiro. As vendas do disco caíram, os shows minguaram, e ele sofreu vários processos por racismo. Foram movidas quatro ações cíveis contra o artista em São Paulo, Rio, Bahia e Barbacena (MG), todas pedindo compensação financeira. Cada um dos processos exigia, em média, R$ 1 milhão. Na Bahia, quatro mulheres entraram com um processo pedindo uma indenização por danos morais no valor de 4.000 salários mínimos e mais 35% do dinheiro arrecadado com a venda de 300 mil CDs de Tiririca, o que totalizaria, na época, cerca de R$ 2 milhões.

Mas não foi só. Em 1997. Tiririca escreveu uma letra engraçada, "Eu Vou Comer Você", ironizando os personagens Chapeuzinho Vermelho e Lobo Mau. Na letra, incluiu o verso "pela estrada afora/ eu vou bem sozinha/ levar esses doces para a vovozinha", que fazia parte da cantiga "Chapeuzinho Vermelho", escrita em 1946 por Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, autor de clássicos como "As Pastorinhas" e "Touradas em Madri".

Braguinha não gostou de ter sua obra associada a Tiririca e pediu o recolhimento dos discos. A Sony afirmou que tinha a autorização da editora de Braguinha para utilizar a música, mas, para evitar nova batalha judicial, decidiu pagar uma indenização.

"Como é que eu ia saber que a música era do Braguinha?", defende-se Tiririca. "Eu canto essa musiquinha desde pequeno!"

Infelizmente, Braguinha não está mais entre nós. Mas o “Rei” Roberto está, e eu gostaria de deixar uma pergunta para ele: se, em vez de Tiririca, essa criatura feia, pobre e desdentada, algum artista mais “sofisticado” – digamos, uma Fernanda Montenegro ou um Jô Soares – resolvesse se candidatar e usasse uma de suas canções, Vossa Majestade se revoltaria também? Ou o problema é com Tiririca?

P.S.: Sábado estarei no Porto Iracema, em Fortaleza, para um debate sobre meu livo "Pavões Misteriosos - 1974-1983: A Explosão da Música Pop no Brasil".

P.S. 2: Hoje, estarei fora o dia todo e só poderei moderar e responder comentários no fim da tarde.

 

“CORRIDA CONTRA O DESTINO” É O EPITÁFIO DO SONHO HIPPIE

Nas listas de lançamentos recentes em DVD vejo um filme imperdível: “Corrida contra o Destino” (“Vanishing Point”, 1971), de Richard S. Sarafian.

Se “Easy Rider” foi o road movie da geração hippie, “Vanishing Point” é o filme-símbolo da geração pós-Altamont, quando o sonho hippie estava morto e os ideais de paz, amor e LSD tinham virado cinza.

Como uma visão, o filme começa sem explicar nada: vemos Kowalski (Barry Newman) chegando a uma oficina mecânica no Colorado e recebendo ordens para levar um envenenado Dodge Challenger até São Francisco, na Califórnia. Ele tem 15 horas para percorrer dois mil quilômetros.

Antes de pegar a estrada, Kowalski faz uma parada num bar infestado de Hell’s Angels, traficantes e outros personagens que parecem saídos de algum faroeste de Sam Peckinpah ou de um livro de Jim Thompson. Encontra um amigo, compra um punhado de anfetaminas e cai na freeway.

Ao melhor estilo “Medo e Delírio em Las Vegas”, Kowalski começa a ser atacado por visões – reais e imaginárias. Ele é perseguido por dois policiais de moto, depois por caipiras nazistas. O filme vira uma “Odisséia” lisérgica a 200 km por hora.

Enquanto isso, Super Soul, cultuado DJ de uma rádio de black music (Cleavon Little) capta as transmissões da polícia e passa a contar, em seu programa, a saga de Kowalski (se isso te fez lembrar a DJ que narra as brigas de gangues em “Warriors”, de Walter Hill, não é coincidência; a personagem é claramente inspirada em Super Soul).

O roteiro de “Vanishing Point” foi escrito por um certo Guillermo Caín, pseudônimo do grande escritor cubano Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), de “Três Tristes Tigres”. E você provavelmente conhece o diretor do filme, Richard Sarafian, de filmes de gângster como “Bugsy”, em que ele, com aquela cara de leão-de-chácara, invariavelmente interpreta um brucutu qualquer.

“Vanishing Point” virou um cult movie. Bandas como Primal Scream e Mudhoney lançaram discos com esse título, George Miller se inspirou nele para fazer “Mad Max”, Steven Spielberg disse que era seu filme predileto e o usou como base de “Encurralado”, Quentin Tarantino homenageou Kowalski em “Death Proof”, e o Guns’N’Roses sampleou uma fala de Super Soul na faixa “Breakdown”.

Só falta você assistir. Mas tome cuidado para não alugar a refilmagem, de 1997.

 

 

“EU SEI QUEM MATOU JIM MORRISON… E NANCY SPUNGEN!”

marianne faithfull morisson “EU SEI QUEM MATOU JIM MORRISON... E NANCY SPUNGEN!”

Mais de 43 anos depois da morte do líder do The Doors, Jim Morrison, a cantora Marianne Faithfull fez uma revelação bombástica: foi o então namorado dela, o francês Jean De Breteuil, quem matou o cantor.

Em entrevista à revista inglesa “Mojo”, Faithfull, 67, conta que Breteuil, um traficante e playboy que fornecia heroína a astros como Keith Richards, foi ao apartamento de Morrison em Paris e lhe vendeu uma dose tão potente que o matou. “Tenho certeza que foi um acidente”, diz Faithfull. Meses depois, o próprio Breteuil morreria de overdose, em Tânger, no Marrocos.

A história é boa e possível. Se é verdadeira, só Marianne Faithfull pode dizer. E, convenhamos, em 1971 ela não era das testemunhas mais sólidas. Um ano antes, seu relacionamento com Mick Jagger havia acabado, ela perdera a guarda do filho, tentou o suicídio e acabou vivendo nas ruas de Londres por um bom tempo, chapada de heroína e barbitúricos.

A confissão tardia de Marianne Faithfull me lembrou episódio parecido que vivenciei com outro louco talentoso, Dee Dee Ramone. Aqui vai a descrição, publicada em meu blog em 2011, de um encontro que tive com ele no mitológico Hotel Chelsea, em Nova York:

“Ex-michê, ex-delinquente, ex-assaltante, ex-heroinômano (ex? será?), Dee Dee era um dos sujeitos mais instintivamente brilhantes que já conheci. Praticamente analfabeto, mal conseguia juntar duas frases, mas escreveu letras autobiográficas de um minimalismo poderoso e atordoante, como “53rd and 3rd”.

Nesse dia, descobri outra coisa sobre Dee Dee. Não sei se era alguma doença ou resultado de alguma medicação, mas o fato é que ele sofria de um grave déficit de atenção. Simplesmente não conseguia se concentrar em nada por mais de cinco minutos.

Dee Dee chegava ao cúmulo de parar frases no meio, ficar em silêncio por alguns segundos e depois emendar outro assunto, sem ter terminado o anterior. Digamos que clareza não era o seu forte. Conversar com ele, especialmente para um jornalista, era enlouquecedor.

Certa hora, começamos a conversar sobre o Chelsea, e eu comentei como era impressionante a quantidade de pessoas que vinham todo dia ao hotel pedindo para ficar no quarto onde Sid Vicious matara Nancy Spungen (só de curiosidade, o quarto não existe mais).

“O quê? Sid matou Nancy? De onde você tirou isso?”, disse Dee Dee. “Todo mundo sabe que não foi isso que aconteceu!”

Seria esse o furo jornalístico do fim de século? Dee Dee revelaria ao mundo o nome do verdadeiro assassino?

“E quem foi, Dee Dee?”

“Porra, foi aquele traficante que vendia heroína pra Nancy… Como é o nome dele… Fuck…Daqui a pouco eu lembro o nome do cara!”.

Foi a última vez que ele tocou no assunto.”

Dee Dee Ramone e Marianne Faithfull… Vocês juram dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade?

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