Joni Mitchell, Neil Young, Nico, David Crosby: discos clássicos do pop angustiado

PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 11/11/2013

 

A revista inglesa “Uncut” traz uma entrevista sensacional com a cantora e compositora Joni Mitchell, que está completando 70 anos.

Com sua verve corrosiva e um ego do tamanho do mundo, Joni é garantia de diversão. Deve ser a única pessoa do planeta com moral para achincalhar Bob Dylan.

 

 

Na entrevista, Joni diz que Dylan é um músico de segunda categoria e um plagiador, que copiou muitas de suas letras de um romance japonês (ela não entrega qual).

A revista traz ainda uma lista dos “50 maiores discos de cantores/compositores”, com LPs de Dylan, Leonard Cohen, Nick Drake, Beck, John Grant... e Joni Mitchell, claro.

A era dos cantores/compositores, marcada por discos confessionais, teve seu auge no início dos anos 70, época em que o pop se recuperava de vários baques.

Entre o fim dos 60 e o início dos 70, os Beatles acabaram, o show dos Stones em Altamont acabou em morte, Charles Manson e sua gangue mataram sete pessoas, a Guarda Nacional matou quatro estudantes em Ohio e o mundo perdeu Brian Jones, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Martin Luther King e Bobby Kennedy. Apesar dos protestos, a Guerra do Vietnã só piorava.

Estava claro que o sonho hippie de paz e amor tinha ido pro brejo.

A reação a esse fenômeno foi o isolamento. Músicos começaram a largar suas bandas e partir para uma música mais pessoal e confessional. De repente, saíram de moda longas jams psicodélicas; o lance era se enfurnar num canto escuro, cheirar pó e cantar sobre seus problemas.

David Crosby saiu do Byrds, Graham Nash deixou o Hollies, Neil Young largou o Buffalo Springfield, Lou Reed abandonou o Velvet Underground e John Lennon aproveitou o fim dos Beatles para iniciar sua carreira solo.

David Geffen, um dos maiores gênios da indústria da música, sacou a tendência e criou a gravadora Asylum, que virou a meca do bloco do eu sozinho. Assinou Judee Sill, Jackson Browne, Joni Mitchell, Linda Ronstadt, Glenn Frey, Tom Waits, Warren Zeavon e até Bob Dylan (quem quiser ler mais sobre essa época, recomendo o livro “Hotel California”, de Barney Hoskins).

O sucesso planetário de Simon & Garfunkel mostrou que o mundo estava pronto para trovadores cantando pop minimalista. Tchau, psicodelia; bem-vinda, introspecção!

Até o fim dos anos 70, vários discos de banquinho e violão foram sucesso mundial: “Sweet Baby James” (James Taylor), “Tapestry” (Carole King), “Harvest” (Neil Young), “Teaser and the Firecat” (Cat Stevens) e “No Secrets” (Carly Simon).

Se os discos soavam plácidos e serenos, traziam algumas das letras mais tristes e desesperadas do pop.

Fiz uma lista, em ordem cronológica, de meus discos prediletos do gênero. Para ouvir e chorar junto...

Dez discos clássicos de solidão e angústia

Nico – The Marble Index (1969) - Aposto um jantar como Siouxsie Sioux, Robert Smith e Peter Murphy passaram longas horas ouvindo esse disco dilacerante. John Cale botou todo seu arsenal vanguardista de drones e distorção a serviço da voz glacial de Nico, e o resultado é um dos LPs mais tristes e bonitos já gravados, com canções sobre heroína, corações partidos e orgias xamanísticas com Jim Morrison. Segundo um executivo da gravadora Elektra, o disco vendeu seis cópias. Nico penou com heroína a vida toda. Morreu em 1988, ao cair de uma bicicleta em Ibiza.

Skip Spence – Oar (1969) - Em 1968, Alexander “Skip” Spence, guitarrista do Moby Grape, atacou seus companheiros de banda com um machado durante um surto psicótico. Internado numa clínica psiquiátrica por seis meses, saiu de lá e gravou esse disco inesquecível, polaróide de uma alma em  conflito.

John Lennon / Plastic Ono Band (1970) – Nem tanto um disco quanto uma sessão de terapia musicada, o primeiro LP solo de Lennon é um triunfo do minimalismo confessional. Nunca um artista tão famoso expôs sua psique de forma tão aberta, em canções sobre Deus (“God”), abandono familiar (“Mother”) e solidão (“Isolation”). O som cru e espartano foi uma reação à superprodução dos últimos trabalhos dos Beatles e prenunciou o punk.

David Crosby – If I Could Only Remember My Name (1971) - Em 1969, Christine Hinton, namorada de David Crosby, se despediu dele, pegou o carro do casal e foi levar o gato no veterinário. Na esquina, o bichano pulou no colo de Christine, que perdeu controle do carro e bateu de frente num ônibus escolar. Christine morreu na hora. Crosby, que já não era das pessoas mais tranqüilas do mundo, entrou em parafuso: trancou-se em casa, cheirou metade da Bolívia e cometeu esse disco extraordinário, cujo título – “Se eu Pudesse Ao Menos Lembrar Meu Nome” – dá uma idéia do estado mental em que se encontrava. Amigos como Graham Nash, Santana, Jefferson Airplane e Joni Mitchell deram uma força. Essa versão de “Traction in the Rain” na BBC é demais:

Joni Mitchell – Blue (1971) – Uma obra-prima lamuriosa sobre o fim dos relacionamentos de Mitchell com Graham Nash e James Taylor e o evento que marcaria a vida da cantora: em 1965, ela descobriu que estava grávida. Sem condições de sustentar a criança, deu sua filha para adoção. A música “Little Green” (“criança, com uma criança, fingindo...”) é sobre essa experiência traumática, que só foi revelada ao público nos anos 90.

Judee Sill – Heart Food (1973) – A vida de Judee Sill foi punk: órfã, viciada em drogas ainda adolescente, acabou na cadeia por furto e se prostituiu para comprar heroína. Gravou dois discos minimalistas e arrasadores, com influência de ocultismo e temas religiosos. Não venderam nada, mas influenciaram gente como Beth Orton, Jeff Buckley, Bill Calahan (Smog), Mark Eitzel e Beck. Sill morreu em 1979, aos 35 anos, de overdose.

Neil Young – Tonight’s the Night (1975) – Em 1973, depois das mortes por overdose de Danny Whitten, guitarrista do Crazy Horse, e do roadie Bruce Berry, Neil Young reuniu amigos em seu rancho e promoveu sessões de gravação que se estendiam madrugada adentro, regadas a tequila e pó. O exorcismo rendeu o disco mais dark de sua carreira. Tão dark que Young levou dois anos para ter coragem de lançá-lo.

Arnaldo Batista – Lóki (1974) – Depois de sair dos Mutantes e terminar o romance com Rita Lee, Arnaldo gravou este disco, tão lindo quanto doloroso de ouvir. Sua voz é tão frágil que parece que Arnaldo vai se despedaçar a qualquer momento. Oito anos depois, ele se jogaria de uma janela.

Dennis Wilson – Pacific Ocean Blue (1977) – Por anos, Dennis viveu nos Beach Boys à sombra dos irmãos Brian e Carl e do primo, Mike Love. Era o mais rebelde dos irmãos Wilson e o que mais apanhou do pai, Murray, um psicopata cujo hobby era torturar a prole. Cultivando um complexo de inferioridade gigantesco, Dennis, um playboy cocainômano e viciado em sexo, amigo de Charles Manson, penou por quase oito anos para tomar coragem e gravar suas próprias canções. O resultado é o majestoso “Pacific Ocean Blue”, jóia do soft-rock orquestral. Só os Wilson para fazer a tristeza soar tão bela. Dennis morreria seis anos depois, ao mergulhar bêbado no Pacífico.

Marvin Gaye – Here My Dear (1978) – Quando se divorciou de Anna Gordy, irmã de Berry Gordy, chefão da gravadora Motown, Marvin Gaye estava na pior: cheirava 500 dólares por dia e não tinha dinheiro para pagar o divórcio e a pensão do filho pequeno. Seu advogado fez um trato com Anna: Marvin gravaria um disco e dividiria os royalties com ela. O resultado foi um LP duplo que periga ser o mais arrasador documento musical sobre um casamento desfeito. Em 1984, Marvin Gaye, 44, seria assassinado a tiros pelo próprio pai.

 

Menções (muito) honrosas:

Syd Barrett - The Madcap Laughs (1969/1970), Nick Drake – Pink Moon (1972), Leonard Cohen – Songs of Leonard Cohen (1967), Erasmo Carlos – Carlos, Erasmo (1971), James Taylor – Sweet Baby James (1970), Gram Parsons – Grievous Angel (1974), Gene Clark – No Other (1974), Bob Dylan – Blood on the Tracks (1975).

P.S.: O blog está de férias até 5 de janeiro. Infelizmente, não poderei moderar ou aprova comentários até lá. Ótimo fim de ano para todos!

MELHORES FILMES DE 2014

Aqui vai, sem ordem de preferência, a lista dos dez melhores filmes que vi em 2014. Alguns são de 2013, mas só foram exibidos no Brasil este ano; outros não chegaram e provavelmente não chegarão aos cinemas daqui, mas podem ser encontrados com um pouco de trabalho. Aproveitem...

 

20,000 Days on Earth

Jane Pollard e Iain Forsyth fizeram um filme-ensaio sobre a alma negra de Nick Cave. Bonito, sombrio e fascinante como a música dele.

 

O Lobo de Wall Street

Já vi umas cinco vezes e cada vez gosto mais. Scorsese faz “o” filme sobre os anos 80, a “Década do Eu”.

 

Relatos Selvagens

Os hermanos fizeram a comédia de humor negro que não fomos capazes de fazer, apesar de vivermos os mesmos tempos selvagens.

 

A Caçada

Futuro distópico no deserto australiano? Não, não é “Mad Max”, mas “A Caçada”, de David Michôd. E com Robert Pattinson, o galãzinho de “Crepúsculo”, que está construindo uma carreira surpreendente.

 

Bem-Vindo a Nova York

Ainda bem existem caras como Abel Ferrara para bagunçar um pouco o cinema. Essa versão para a história escabrosa de sexo, perversões e poder envolvendo o chefão do FMI, Dominique Strauss-Kahn, traz Gerard Depardieu em um de seus melhores papéis.

 

Boyhood

Poderia ter sido um filme-truque - Vejam como o menino cresce em onze anos! - mas Richard Linklater soube criar uma história bonita para sustentar as imagens reais da passagem do tempo.

 

 

Life Itself

Ótimo documentário sobre Roger Ebert (1942-2013), um dos críticos de cinema mais influentes de todos os tempos. O diretor Steve James (“Hoop Dreams”) acompanha Ebert nos últimos anos de sua carreira, quando lutou contra um câncer devastador.

 

 

Whitey

Joe Berlinger (“Paradise Lost”) fez esse documentário poderoso sobre James “Whitey” Bulger, mafioso que dominou o submundo de Boston nos anos 70 – e inspirou o personagem de Jack Nicholson em “Os Infiltrados”, de Martin Scorsese.

 

 

Sob a Pele

Scarlett Johansson faz uma alienígena que trepa e devora humanos nessa ficção-científica estranha, sexy e misteriosa de Jonathan Glazer. Como diz um amigo, bela lição pro cinema brasileiro: poderia ter sido filmado em Botucatu, com 200 mil reais de orçamento.

 

 

National Gallery

Frederick Wiseman tem 84 anos e faz documentários há quase 50. “National Gallery” é seu mais recente e um dos melhores dos últimos anos, um perfil emocionante do famoso museu de arte londrino.

 

P.S.: O blog entra de férias até 5 de janeiro. Até lá, republicarei textos selecionados entre os quase 300 que fiz no R7 desde o início do blog, em novembro de 2013. Infelizmente, não poderei moderar comentários até minha volta. Um ótimo fim de ano a todos e muito obrigado pela preferência. É muito bom ter leitores tão fiéis e participativos. Beijos e abraços.

MELHORES DISCOS DE 2014

Aqui vão, sem ordem de preferência, os dez discos que mais ouvi em 2014.

Ty Segall – Manipulator
O novo rei do rock de garagem tem 27 anos e lançou 16 discos nos últimos seis anos. “Manipulator” é um dos melhores, uma coleção de pérolas pop que deve tanto a Bowie quanto a Syd Barrett.

Woods – With Light and With Love
Até maio deste ano, nunca tinha ouvido falar do Woods. Mas uma apresentação no Austin Psych Fest, num fim de tarde lindo à beira do rio Colorado, me fez correr atrás de todos os discos da banda. E o novo, “With Light and With Love”, é dos melhores.

Swans – To Be Kind
Com “The Seer” (2012) e este “To Be Kind”, Michael Gira, o gênio do Swans, conseguiu tocar para os maiores públicos de sua carreira. Que venha logo ao Brasil mostrar sua combinação única de noise, industrial e ambient do inferno.

Beck – Morning Phase
O disco que mais ouvi em 2014. Beck abre mão de ser descolado e faz o melhor disco da carreira. Daqueles que ficam.

War on Drugs – Lost in the Dream
Ainda melhor que “Slave Ambient” (2011), esse novo disco da trupe de Adam Granduciel traz psicodelia, microfonias à Crazy Horse e loucuras cósmicas à Flaming Lips. O beabá do rock americano está aqui.

Thee Silver Mt. Zion Memorial Orchestra - Fuck Off Get Free We Pour Light on Everything
O disco saiu bem no início do ano, mas também não parou de tocar aqui em casa um minuto. O TSMZ é uma espécie de Arcade Fire sem o hype e com um milhão de vezes mais ousadia e talento. Bom demais.

Thee Oh Sees – Drop
No fim de 2013, o líder do The Oh Sees, John Dwyer, anunciou que a banda tiraria férias. Felizmente, o descanso não durou muito: em abril de 2014 ele lançou “Drop”, 13º disco da banda, mais leve e psicodélico que o violento “Floating Coffin” (2013), mas tão bom quanto.

The Men – Tomorrow’s Hits
Se você gosta de power-pop na linha Big Star e Redd Kross, tente The Men, um quarteto do Brooklyn, Nova York. “Tomorrow’s Hits” é cheio de hits de rádio, se o rádio tocasse coisa boa.

Future Islands – Singles
O tecnopop vai bem, obrigado, graças ao Future Islands, uma das histórias de sucesso mais improváveis dos últimos anos: a banda vem de Baltimore, cidade sem nenhuma história no gênero, e tem um vocalista que mais parece um gerente de banco. Mas as músicas são de grudar na memória. Confira:

Hiss Golden Messenger – Lateness of Dancers
Um dos discos mais bonitos e solares de 2014, cortesia de M.C. Taylor e Scott Hirsch, dois punks que mudaram para o interior da Carolina do Norte e descobriram o folk. O disco é de chorar.

Melhores relançamentos e coletâneas: Sun Ra and His Arkestra – “In the Orbit of Ra”, Wilco – “What’s Your 20?” e Cabaret Voltaire – “ #7885 (Electropunk to Technopop 1978-1985)”.

P.S.: A lista estava publicada quando o leitor Valter me alertou para uma omissão absurda: "Sun Structures", disco de estreia do grupo psicodélico inglês Temples, uma coisa linda que não sai do nosso player há meses. Podem incluir na lista. É o melhor disco de 1967 lançado em 2014, se é que vocês me entendem...

P.S. 2: Amanhã, minha lista dos melhores filmes do ano. Até lá.

P.S. 3: Estarei sem acesso à Internet até o fim da tarde. Se o seu comentário demorar a ser publicado, peço desculpas e um pouco de paciência. Obrigado.

PAPAI NOEL, ME DÁ A COLEÇÃO DO CRAMPS?

lux interior poison ivy records PAPAI NOEL, ME DÁ A COLEÇÃO DO CRAMPS?

Não consigo pensar em um presente de Natal melhor: a Vengeance, gravadora dos Cramps, está relançando diversos discos da banda em vinil, MP3 e CDs com faixas-bônus (o site www.midheaven.com vende os títulos em todos os formatos).

No início do ano, a gravadora já havia lançado os dois primeiros discos do grupo, os clássicos “Songs the Lord Taught Us” (1980) e “Psychedelic Jungle” (1981). Agora chegam outros sete: “A Date With Elvis” (1986), “Stay Sick” (1990), “Look Mom No Head!” (1991), “Big Beat from Badsville” (1997), “Fiends of Dope Island” (2003) e dois discaços ao vivo: “Smell of Female” (1983) e “Rockin' n' Reelin' in Auckland New Zealand” (1987).

Outro grande disco, “Flamejob” (1994), não foi relançado por questões contratuais com a gravadora que os lançou originalmente. Tomara que saia logo.

Meus favoritos são “Songs the Lord Taught Us”, “Psychedelic Jungle”, “A Date with Elvis”, “Stay Sick” e “Smell of Female”, mas a verdade é que o Cramps nunca lançou um disco ruim. Se puder, compre todos.

De todas as bandas que acabaram subitamente, o Cramps foi a que me deixou mais triste. A morte de Lux Interior, em 2009, aos 62 anos, foi uma surpresa, e o fato de eles nunca terem pisado no Brasil, uma frustração imensa.

Nesse clipe, a banda toca na Holanda, em 1990, e dá uma entrevista no camarim. A primeira resposta é uma pérola: quando o repórter comenta que Lux parece “perder o controle” em cima de um palco, ele responde: “Sim, mas não é esse o objetivo?”

Já escrevi muito sobre o Cramps e não vou me repetir. Mas separei dois textos sobre a banda.

O primeiro (leia aqui) foi publicado em fevereiro de 2014, no quinto aniversário da morte de Lux, e traz algumas das melhores frases do vocalista.

O segundo é mais raro: trata-se da “Discoteca Básica”, seção da finada revista “Bizz”. O texto foi publicado em outubro de 1998 e celebra o disco “Songs the Lord Taught Us”, LP de estreia do Cramps. Aproveite:

SONGS THE LORD TAUGHT US

Rockabilly, psicodelia dos grupos de garagem dos anos 60 e microfonia, temperado pelo que a cultura pop já produziu de mais podre: este é o universo de Lux Interior e Poison Ivy, do Cramps.

Os dois se conheceram na Califórnia em 1972, adoravam rock primitivo, pessoas estranhas e alucinógenos. Casaram-se e se mudaram para Nova York, dispostos a montar uma banda. Ali conheceram Bryan Gregory, louco de pedra, fanático por misticismo e vodu - que mal sabia tocar guitarra. Depois, recrutaram o baterista Nick Knox. Estava formada a gangue.

Os Cramps batizaram seu som de psychobilly - rockabilly psicodélico - e fizeram fama. Na Inglaterra, Stephen Morrissey (mais tarde, vocalista dos Smiths) fundou o primeiro fã-clube do grupo. Nos EUA, atraíram a atenção de Alex Chilton, líder do lendário combo pop Big Star, que produziu Songs the Lord Taught Us por um cachê de fome. Chilton exigiu que a maioria das faixas fossem gravadas ao vivo no estúdio. Lux tratou as gravações como show: se jogava no chão, destruía cadeiras e pulava sobre os amplificadores.

Songs the Lord Taught Us abre com a clássica "TV Set", com sua batida marcial de bateria e um riff maravilhosamente imundo. "Sunglasses After Dark" tem aquela microfonia linda e um solinho new wave que só os Cramps teriam a cara-de-pau de fazer. "What’s Behind the Mask" tem uma letra hilariante ("Por que você não tira essa máscara? / É problema de pele / Ou um olho a mais?"). "Garbageman" é obra-prima. "Zombie Dance" goza da platéia modernosa de Nova York, que ficava parada vendo a banda se matar no palco; "The Mad Daddy" é uma homenagem a Pete "Mad Daddy" Myers, um DJ de Ohio que Lux idolatrava; e "Mystery Plane" resumia a filosofia da banda na frase: "Eu não consigo me identificar com este mundo, então nem tento."

Incluindo covers dos Sonics - grupo de garagem dos anos 60 ("Strychnine") -, do pioneiro do rockabilly Johnny Burnette ("Tear It Up") e "Fever" (a mesma gravada por Madonna) de Little Willie John, o disco não envelhece.

Os Cramps não abraçaram o passado do rock’n’roll por oportunismo, eles vivem no passado. Para Lux e Ivy, o mundo acabou em 1965. Sua missão é mostrar como ele era mais divertido e irresponsável.

 

P.S.: Amanhã publico minha lista dos melhores discos do ano. E sexta, a dos melhores filmes.

“TROCANDO DE BIQUÍNI SEM PARAR” E OUTROS ENGANOS MUSICAIS

O leitor Rodrigo Oliveira deu a dica de uma matéria divertida na “The New Yorker” (leia aqui) sobre letras de músicas compreendidas erradamente pelos ouvintes.

Alguns casos são demais. Na clássica “Bad Moon Rising”, do Creedence, “There’s a bad moon on the rise” (“Há uma lua má prestes a surgir”) virou, no ouvido de muitos, “There’s a bathroom on the right” (“Tem um banheiro do lado direito”) e por aí vai.

Lembrei que já havia escrito sobre o assunto Aqui no blog. Foi em 2010, e reproduzo o texto:

Não somos apenas nós, brasileiros, que temos dificuldade para entender algumas letras em inglês. Os britânicos também.

Uma pesquisa, encomendada por um fabricante de remédio para ouvido, mostrou que os ingleses confundem várias letras e acabam inventando novos significados para canções famosas.
“Dancing Queen”, do ABBA, virou uma apologia da pancadaria: “See that girl, watch her scream, kicking the dancing Queen” (“veja esta menina, veja-a gritando, chutando a rainha do baile”).

No Brasil, temos muitos casos assim. Não apenas de músicas em inglês, mas também de letras em português que se transformam pela criatividade infinita dos fãs. O Youtube está cheio de exemplos engraçadíssimos. Veja um conhecido clipe com algumas das letras estrangeiras que ganharam novas versões em português.

Tem clássicos como Billy Idol cantando “Ajudar o peixeeeee....” (“Eyes Without a Face”) e Eric Clapton pedindo para alguém besuntar suas partes íntimas com óleo (“Tears in Heaven”).

O João Gordo me contou que, nos bailes da perifa, o refrão “Aahhhh... Freak Out!”, do Chic, virou “Aaaaaaaalfredão!”

Outros casos conhecidos:

“I Should Have Known Better” (1984), o hit meloso de Jim Diamond, cujo refrão inesquecível “ai ai ai ai ai ai ai ai ai ai… should have known better!” ora virava “chama o bombeiroooooooo!”, ora “chupa e não berraaaaaaaaaa!”.

“Whoomp! There it is”, do Tag Team, que virou “Utererê!” nos bailes funk do Rio.

“Seu c... só sai de ré”, versão de “Oops Up”, do Snap.

Mas o que eu acho engraçado mesmo são as confusões com letras em português.

Eu tinha um amigo que odiava os Paralamas do Sucesso. “Essa banda é uma merda”, esbravejava. “Que negócio é esse de ‘entrei de caiaque no navio’? Como é que alguém entra de caiaque num navio?”

Ninguém esquece a famosa “trocando de biquíni sem parar” (“tocando B.B. King sem parar”), do hit “Noite do Prazer”, do Brylho. Ou o famoso refrão de “Whisky A-Go-Go”, do Roupa Nova”, que virou “Eu te abraçava, tu e o holandês”.

Na web tem relatos incríveis. Uma menina passou a vida inteira achando que a Irene Cara, no refrão de “What a Feeling” (tema de “Flashdance”), cantava “Glória Piiiiiiires!”

Outra interpretava assim a música do Kid Abelha: "Diz pra eu ficar muda, faz cara de mistério, tira essa verruga que eu quero você sério..."

Nem Chico Buarque escapou: “Mirem-se no exemplo / daquelas mulheres / de antenas!”

Outro dia, eu estava assistindo a “Quanto Mais Quente Melhor”, a comédia clássica de Billy Wilder com a Marilyn Monroe, quando minha filha perguntou: “Papai, quem é essa moça?”
Eu respondi: “Ela se chama Marilyn”. Logo depois, a Marilyn falou pro Jack Lemmon, no filme: “Good morning!” E minha filha disse: “Olha, papai, a Amélia tá chamando a Simone!”

É assim que nascem as lendas.

P.S.: Estarei sem acesso à Internet até o fim da tarde. Se o seu comentário demorar a ser publicado, peço desculpas e um pouco de paciência. Obrigado.

PROJETO DE LEI COMBATE A “ESPANHOLIZAÇÃO” DO FUTEBOL BRASILEIRO

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Torcedores de futebol de todo o país, mesmo rivais históricos, têm uma boa razão para torcer juntos: se a proposta do deputado federal Raul Henry (PMDB-PE) passar, será corrigida uma injustiça absurda, que periga transformar o Campeonato Brasileiro em uma disputa de dois ou três times.

A proposta do deputado revê a distribuição de recursos pagos aos times de futebol pela transmissão de jogos na TV.

Atualmente, as cotas são distribuídas de acordo com acertos individuais de cada clube com a Rede Globo, e os números são revoltantes. Aqui vai a tabela de pagamentos prevista para 2016:

- Grupo 1 – Flamengo e Corinthians: R$ 170 milhões
- Grupo 2 – São Paulo: R$ 110 milhões
- Grupo 3 – Vasco e Palmeiras: R$ 100 milhões
- Grupo 4 – Santos: R$ 80 milhões
- Grupo 5 – Cruzeiro, Atlético-MG, Grêmio, Internacional, Fluminense e Botafogo: R$ 60 milhões.
- Grupo 6 – Coritiba, Goiás, Sport, Vitória, Bahia e Atlético-PR: R$ 35 milhões

Ou seja: o bicampeão brasileiro, Cruzeiro, receberá, todo ano, R$ 40 milhões de reais a menos que o Palmeiras, que quase foi rebaixado em 2014, e pouco mais de um terço do Flamengo, décimo colocado em 2014 e 16º em 2013. O Santos, 17º colocado em média de público em 2014, receberá 33% a mais que o Internacional, quinto colocado em público.

Nem a desculpa da audiência cola mais. Este ano, os jogos do Corinthians na Globo no Campeonato Brasileiro tiveram média de 16,9 pontos na Grande São Paulo, abaixo de Palmeiras (17,1), São Paulo (17) e Santos (17).

Esse sistema de cotas tende a desequilibrar cada vez mais os campeonatos e dá aos times de maior torcida vantagens financeiras injustas.

Logo, o Brasileirão periga virar o campeonato espanhol, onde dois times – Barcelona e Real Madrid – ganham cotas de TV quase três vezes maiores que o terceiro na lista, o Valencia, e vêm dominando quase todas as disputas.

A proposta do deputado Henry, que já está em fase de conclusão na Câmara dos Deputados, prevê uma distribuição semelhante à da Premier League inglesa, em que 50% da receita são divididos igualmente entre os times, 25% são distribuídos de acordo com a classificação da equipe na última temporada do campeonato em questão, e 25% são repassados proporcionalmente à média do número de jogos transmitidos no ano anterior.

Segundo o projeto de lei (veja a íntegra aqui), “esse modelo permitiu, por exemplo, que o Manchester United, campeão em 2008/09, tenha recebido 66 milhões de euros, enquanto o Middlesbrough, penúltimo colocado, tenha encaixado 40 milhões de euros.”

Ninguém está pedindo que os últimos colocados e times menos populares ganhem a mesma coisa que os times que dão mais audiência de TV. Mas não é possível uma distribuição tão sem vergonha. A médio prazo, isso restringirá as chances de título a pouquíssimos clubes e tornará todos os outros coadjuvantes.

Lembrando que os clubes de maior torcida ainda podem faturar mais que os rivais em bilheteria de jogos, venda de merchandise e patrocínios.

O campeonato brasileiro de 2014 acabou, mas está em jogo agora uma disputa bem mais importante, que vai decidir o futuro do futebol brasileiro.

Os gênios que comandam nosso futebol já acabaram com jogos de duas torcidas, afugentaram o torcedor com partidas às 10 da noite e destruíram o Maracanã e o Mineirão. Agora querem acabar com o Campeonato Brasileiro. Vão pro inferno.

QUANDO MEL BROOKS ERA REI

Há exatos 40 anos, era lançado “O Jovem Frankenstein”, de Mel Brooks. Foi o segundo arrasa-quarteirão de Brooks em 1974: meses antes, estreara "Banzé no Oeste” (“Blazing Saddles”), que terminou o ano liderando as bilheterias norte-americanas, batendo “Inferno na Torre”. "O Jovem Frankenstein” ficou em quarto lugar, à frente de “Terremoto” e “O Poderoso Chefão 2”.

O Netflix gringo está exibindo "Make a Noise", um documentário careta, mas informativo, sobre a vida e carreira de Brooks. O filme traz uma longa entrevista com o cineasta e depoimentos de parceiros e amigos como Carl Reiner, Sid Caesar, Gene Wilder, Joan Rivers, Madeline Kahn, Marty Feldman e outros.

A atriz Anne Bancroft (1931-2005), com quem Brooks foi casado por quase 40 anos, aparece numa entrevista antiga contando como foi seduzida por ele: “Foi pura insistência. Ele ficou me perseguindo até eu não poder mais recusar”.

As imagens de arquivo são inacreditáveis: quando Brooks conta que ficou emocionado ao assistir pela primeira vez a uma peça na Broadway, “Anything Goes”, com Ethel Merman, em 1934, o filme exibe uma cena da peça. Surreal.

Há imagens incríveis de Brooks no exército, tocando bateria (ele era músico antes de tornar-se roteirista) e de suas primeiras apresentações como comediante. Trechos de programas de TV estrelados por Sid Caesar dão uma pequena ideia da genialidade cômica de Caesar e da altíssima qualidade dos textos de Brooks.

O que muita gente não lembra é que Mel Brooks, além de ter dirigido algumas das comédias mais populares dos anos 70, ganhou um Oscar em 1968 pelo roteiro de “Primavera para Hitler”, criou com Buck Henry o “Agente 86” e depois virou produtor de sucesso, lançando filmes como “O Homem Elefante”, de David Lynch, e “A Mosca”, de David Cronenberg.

Mas o grande momento da carreira de Brooks foi mesmo “Banzé no Oeste”, que a rede HBO está reprisando nesse fim de semana (veja horários aqui).

Para quem ainda não viu, um breve resumo: “Banzé no Oeste” é uma paródia aos faroestes. O engraçadíssimo Harvey Korman, colaborador frequente de Brooks, faz Hedley Lamarr, um político corrupto que pretende criar caos numa pequena cidade para afugentar os moradores e vender a terra para uma ferrovia. Ele tem uma ideia genial: contratar, para a cidade, um xerife negro, Bart (Cleavon Little), o que certamente causará revolta na população branca e racista do lugar.

Lamarr convence o prefeito local, uma besta quadrada interpretada pelo próprio Brooks, a contratar Bart para o cargo. Bart é ameaçado por uma gangue de bandidos enviada por Lamarr, mas acaba recendo ajuda do pistoleiro Jim “The Waco Kid” (Gene Wilder) na luta contra os meliantes.

Revi o filme há alguns dias e continuo achando uma obra-prima. Impossível não perceber a influência que teve no humor sacana de Zucker-Abrahams-Zucker (“Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu”).

Hoje, seria impossível fazer um filme como “Banzé no Oeste”. O público sairia horrorizado e os estúdios nunca poriam um centavo. Brooks esculhambou o racismo inerente ao gênero “western” e fez um faroeste sobre preconceito racial, que consegue ser incisivo sem parecer panfletário ou "edificante". E, de quebra, tem a melhor cena de refeição em volta da fogueira de todos os tempos.

Bom fim de semana a todos.

TÁ ESTRESSADO? NÃO VÁ PESCAR!

peixe1 TÁ ESTRESSADO? NÃO VÁ PESCAR!

O verão está chegando. Para aproveitar a estação mais agitada do ano, decidimos comprar um bote para pesca e passeio. Depois de pesquisar bastante, optamos por um modelo dos mais simples, de fibra, com cinco metros de comprimento e um motorzinho de popa.

Nada melhor que passar horas jogando o anzol ao mar apreciando o crepúsculo, não é mesmo? Difícil imaginar algo tão relaxante e agradável.

Quer dizer, isso se você não for idiota como nós e decidir seguir a lei, registrando seu barco na Capitania dos Portos. Caso você opte por essa insanidade, seus dias se tornarão trevas, as noites, insones, você perderá enorme quantidade de cabelos – metade por queda, metade arrancado – e seu stress atingirá o nível de um controlador de voo em Congonhas.

Um breve resumo de nossa saga:

Quatro ou cinco meses atrás, fui à Capitania dos Portos pedir informações sobre registro de embarcações. Dei de cara com a porta. A Capitania só funcionava até 13h30.

Na segunda visita, o lugar estava sem luz. Na terceira, o “sistema” estava fora do ar. Pelo menos consegui pegar a lista de documentos necessários.

Fui ao banco, paguei as taxas, anexei o recibo de compra do barco, autentiquei os documentos pedidos e voltei, todo pimpão, à Capitania. Faltavam diversos documentos. “Não te deram a lista completa?” perguntou um funcionário. Quando respondi que aquela lista fora passada por alguém da própria Capitania, veio a resposta de sempre: “Ah, mas então a pessoa se enganou”.

A nova lista tinha cinco ou seis itens a mais, vários deles autenticados. Como estava sem paciência para voltar à Capitania pela QUINTA vez e certo de que achariam algum documento preenchido erradamente, optei pela saída covarde: contratei um despachante naval.

Sim, eles existem. Despachantes navais. São iguaizinhos aos despachantes de carros, alvarás, passaportes, foguetes interplanetários, etc.: os mesmos dedos amarelos de nicotina, falando em três celulares ao mesmo tempo, alternando tom de voz forte e impositivo a cochichos quando o assunto chega à resolução dos meandros delicados de nossa burocracia kafkiana.

O despachante disse para eu não me preocupar, que o registro ficaria pronto em uma semana. Dois dias depois, entregou um protocolo, que permite que usemos o barco enquanto o processo está tramitando. “Mas cuidado, que isso só vale por um mês; se demorar mais que isso tem que renovar o protocolo”, alertou. Li o documento de cabo a rabo e não achei prazo de validade. “Não tá escrito, mas vai por mim, só vale um mês”.

Alguns dias depois, o despachante ligou. Achei que era para avisar que o registro estava pronto. “Você não vai acreditar, mas a Capitania está pedindo uma carta do fabricante do barco com as especificações, dimensões, capacidade de passageiros, etc.” Argumentei que essas informações já constavam do recibo do barco, mas o despachante disse que a Capitania exigia a tal carta.

O fabricante do barco ficava a 200 km de casa. Levei mais de duas semanas para conseguir a carta.

Dias depois, novo telefonema do despachante: “Olha, você vai achar que estou de sacanagem, mas agora estão pedindo um laudo de um engenheiro naval atestando as dimensões do barco”. Surreal: a Capitania já tinha dois documentos com as medidas e agora exigia que eu pagasse um engenheiro naval para medir o barco e atestar que os números estavam corretos.

Isso atrasou o processo em mais duas ou três semanas. Para piorar, “a pessoa que estava com o processo entrou de férias”, como explicou a secretária do despachante.

A essa altura, os gastos com despachante, xerox, cartório e engenheiro naval chegavam a quase 25% do valor do bote.

Depois de anexar à papelada o maldito laudo do engenheiro naval, recebi novo protocolo – o terceiro. Isso foi há mais de um mês. Já estamos no fim da validade do quarto protocolo, e nada do registro.

Tomara que saia antes do derretimento das calotas polares, para dar tempo de pegar uns bagrinhos.

NICK CAVE FAZ O FILME DO ANO

A chance de ver esse filme em circuito comercial no Bananão é quase nula. Por isso, recomendo: baixe, compre na gringa, faça o que precisar, mas assista a “20,000 Days on Earth”, sobre Nick Cave. É um dos melhores filmes do ano. Talvez o melhor.

Chamá-lo de “documentário” não é correto. “Filme-ensaio biográfico” chega mais perto da verdade.

Dirigido por Jane Pollard e Iain Forsyth, um casal talentoso que já colaborou em projetos audiovisuais com Gill Scott-Heron, Scott Walker e Jason Pierce (Spiritualized), o filme tenta captar a essência do que é ser Nick Cave. O resultado é fascinante - e aterrador.

Nem sinal daquelas entrevistas posadas em que amigos, parentes e especialistas falam, com voz de Deus, sobre Nick Cave e sua obra. As conversas do filme são realizadas em ambientes inusitados: o próprio Cave é mostrado em sessões com um psicanalista, em que lembra a infância, fala das inspirações para suas músicas, de seus problemas com heroína, da família e de suas mulheres.

Cave conta ao doutor que um de seus passatempos prediletos de infância em Wangaratta, sudeste da Austrália, era correr com amiguinhos em uma ponte sobre um rio e pular segundos antes de ser atropelado por um trem. “As crianças de hoje não experimentam mais o perigo, e acho isso muito ruim.” Logo depois, Cave aparece com os dois filhos pequenos assistindo a “Scarface”, de Brian De Palma.

O próprio cantor “entrevista” alguns amigos e colaboradores, como o ator Ray Winstone, a popstar Kylie Minogue e o músico Blixa Bargeld (Einstürzende Neubauten), seu ex-parceiro por 20 anos no Bad Seeds. Esses papos são antológicos. Cave aproveita a conversa com Blixa para resolver uma questão que o atormenta há anos: “Blixa, por que você deixou o Bad Seeds?” Blixa responde que não se sentia capaz de manter o “casamento” com duas bandas e optou pelo Neubauten, mas aproveita para dar uma cutucada em Cave: “No último disco que fiz com vocês (“Nocturama”, 2003), senti que já não havia aquela colaboração intensa de antes. Você chegou com ideias pré-definidas sobre como seria o álbum.” Cave faz um mea culpa e depois diz: “Sabe, às vezes ouço os discos que fizemos juntos (foram 12) e penso como teria sido bom ter alguém para editar as músicas, que cortasse as canções de seis para quatro minutos, alguém que editasse nosso trabalho. Hoje em dia, sou obcecado por edição e concisão.” É muito raro ver dois grandes artistas se expondo dessa maneira.

Visualmente, “20,000 Days on Earth” não poderia ser mais bonito. Uma sequência que mostra Cave visitando seu parceiro musical Warren Ellis em uma mansão à beira de um penhasco no sul da França é impressionante, assim como imagens dos Bad Seeds gravando o disco “Push The Sky Away” e algumas cenas de shows, incluindo uma arrebatadora versão de “Jubilee Street” filmada na Austrália. Veja e chore:

"No fim das contas, não me interesso por aquilo que compreendo totalmente". Lindo.

Nossa única esperança de ver esse filme por aqui é em algum festival como o In-Edit. Enquanto isso não acontece, dê um jeito de assistir, mesmo que você não conheça a obra de Nick Cave. O filme é inventivo, informativo, e mostra como o cinema documental pode surpreender, sem apelar a clichês televisivos.

EIKE E O BRASIL-OSTENTAÇÃO

eike lamborghini EIKE E O BRASIL OSTENTAÇÃO

Quem pega o táxi no Santos Dumont em direção à zona sul do Rio é presenteado com uma das paisagens urbanas mais bonitas do mundo: à direita, o Outeiro da Glória; à esquerda, a Marina da Glória; ao fundo, o Pão de Açúcar emoldurando os barquinhos que repousam na enseada de Botafogo. Um cenário deslumbrante.

Mas há uma imagem que destoa dessa maravilha toda: o Hotel Glória. Construído em 1922, o Glória foi comprado em 2008 pelo então bilionário Eike Batista, que recebeu uma bolada do BNDES – 50 milhões, de um total de 190 milhões aprovados - para deixá-lo pronto para a Copa do Mundo. Hoje, do velho hotel, só resta a fachada. Por dentro, o lugar está em ruínas. É uma analogia perfeita do próprio Eike: por fora, beleza e fleuma; por dentro, decrepitude.

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Acabo de ler “Tudo ou Nada – Eike Batista e a Verdadeira História do Grupo X”, de Malu Gaspar, um relato detalhado da ascensão e queda de “Magic Eike”, como ele próprio gostava de se chamar.

São 545 páginas de falcatruas, números inventados, uso de informações privilegiadas, manipulações, relações escusas com o poder, falta de ética e muita, mas muita ostentação. A autora calcula o rombo deixado por Eike em 65 bilhões de dólares – “um colapso equivalente ao provocado no mercado financeiro americano pela quebra do Lehman Brothers ou pelo esquema fraudulento do banqueiro Bernard Madoff”.

Eike Batista é um dos maiores símbolos do Brasil-ostentação. O empresário surfou na ótima imagem do país na época da capa da “Economist”, da escolha do Brasil como sede de Copa e Olimpíadas e em Obama chamando Lula de “o cara”, e encarnou a imagem do brasileiro arrojado e vitorioso.

Mas era tudo fumaça. As empresas de Eike valiam muito menos do que ele apregoava. A comoção era tanta, e o otimismo cegou tanta gente, que poucos se deram ao trabalho de checar se as informações bombásticas sobre jazidas inesgotáveis de petróleo e montanhas de ouro eram verdadeiras ou pura invenção de um marqueteiro esperto e carismático.

Os políticos deram uma forcinha, claro: Sergio Cabral fartou-se de viajar nos jatinhos particulares de Eike e retribuiu conseguindo permissões e alvarás para obras; Lula tentou ajudá-lo como pôde, mesmo depois que o Império de Magic Eike começou a ruir.

O empresário contou também com a conivência, incompetência e falta de atitude das comissões que deveriam zelar pela lisura do mercado de ações. Todo mundo passou a mão na cabeça de Eikezinho e o deixou brincar à vontade – com o dinheiro dos outros.

tudo ou nada1 195x300 EIKE E O BRASIL OSTENTAÇÃOTão chocante quanto a descrição dos desmandos que botaram Eike abaixo é o perfil que Malu Gaspar faz do sujeito: vaidoso, egocêntrico, cafona – tinha Ferraris e Lamborghinis decorando a sala – e vítima de um intenso complexo de inferioridade do pai, o empresário Eliezer Batista. Eike é o estereótipo do novo-rico, elevado à enésima potência.

Em nenhuma das 545 páginas do livro se vê Eike fazendo uma coisa sequer que não tenha sido motivada pela obsessão em tornar-se o homem mais rico do mundo. Enquanto nos acostumamos a ver magnatas estrangeiros doando dinheiro para as ciências, as artes e a cultura, o brasileiro só dispensava sua grana em doações para puxar o saco de Madonna ou ganhar favores com políticos.

Se eu fosse acionista das empresas X e tivesse perdido as economias da vida inteira com os desmandos do ex-bilionário, não conseguiria terminar o livro, de ódio. E enquanto não sai o resultado do julgamento de Eike por manipulação de mercado e uso indevido de informação privilegiada, sugiro que os escombros do Hotel Glória sejam rebatizados de Hotel Magic Eike. Seria uma homenagem apropriada ao sujeito que fez a mágica de transformar um cartão-postal do Rio em ruína.

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