TIRIRICA É O NOVO GERALDO VANDRÉ

tiririca 1 TIRIRICA É O NOVO GERALDO VANDRÉ

Pode acreditar: nenhum artista foi tão perseguido no Brasil nos últimos anos quanto Tiririca.

Se a ditadura atacou gente como Geraldo Vandré e Chico Buarque, nossa democracia anda caçando Tiririca com uma ferocidade impressionante.

Esses dias, a gravadora EMI Songs exigiu que o Youtube retirasse do ar um comercial engraçadíssimo, em que Tiririca comete o pecado de ironizar Roberto Carlos, esse ser angelical e santificado, defensor da censura e de Pinochet:

 

 

Em 2010, a Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo quis impugnar a candidatura de Tiririca por suposto “crime eleitoral”. O promotor eleitoral Mauricio Antonio Ribeiro Lopes, do Ministério Público Eleitoral de São Paulo, disse, à época, que via no bordão “Pior que está não fica” infração capaz de levar a uma impugnação da candidatura. “É propaganda irregular. Vislumbro infração ao artigo 5º da resolução 23.191 do TSE”, declarou. Felizmente, a baboseira do promotor não colou.

Em 1996, quando Tiririca estava estourado em todo o país com a música “Florentina”, o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap), entidade com sede no Rio de Janeiro, implicou com a faixa "Veja os Cabelos Dela", que foi considerada racista. O Ceap alegou que a letra ("Essa nega fede/ fede de lascar/ bicha fedorenta, fede mais que um gambá") denegria as mulheres negras e entrou com uma ação criminal contra o artista e a gravadora Sony.

Tiririca me disse, em entrevista, que a música era uma brincadeira com a esposa, Rogéria Márcia, cujo apelido era "Nega": "Eu escrevi a letra depois de um show. A Rogéria não tinha tomado banho e estava com uma catinga braba. Eu nunca quis falar mal de raça alguma." À época, Tiririca declarou aos jornais: "Como é que eu vou ser racista? Minha mãe é preta, meu cachorro é preto, meu carro é preto e eu sou rubro-negro. Preto é minha cor da sorte."

A explicação não convenceu a juíza Flávia Viveiros de Castro, que ordenou o recolhimento de todos os CDs e fitas de Tiririca. A Sony foi obrigada a destruir mais de 125 mil CDs que continham a faixa "Veja os Cabelos Dela" e a reimprimir o disco sem a música. A senadora Benedita da Silva, do PT, depôs contra Tiririca. A seu favor depuseram os cantores Agnaldo Timóteo e Ângela Maria. Em fevereiro de 1998, 18 meses depois da abertura do processo, o juiz Carlos Alfredo Flores, da 23ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, absolveu Tiririca e a Sony e revogou o veto à música. Em sua sentença, o juiz concluiu que o Ministério Público havia se precipitado ao deflagrar a ação penal sem analisar com maior profundidade a letra da música.

Mesmo com a absolvição, Tiririca perdeu muito dinheiro. As vendas do disco caíram, os shows minguaram, e ele sofreu vários processos por racismo. Foram movidas quatro ações cíveis contra o artista em São Paulo, Rio, Bahia e Barbacena (MG), todas pedindo compensação financeira. Cada um dos processos exigia, em média, R$ 1 milhão. Na Bahia, quatro mulheres entraram com um processo pedindo uma indenização por danos morais no valor de 4.000 salários mínimos e mais 35% do dinheiro arrecadado com a venda de 300 mil CDs de Tiririca, o que totalizaria, na época, cerca de R$ 2 milhões.

Mas não foi só. Em 1997. Tiririca escreveu uma letra engraçada, "Eu Vou Comer Você", ironizando os personagens Chapeuzinho Vermelho e Lobo Mau. Na letra, incluiu o verso "pela estrada afora/ eu vou bem sozinha/ levar esses doces para a vovozinha", que fazia parte da cantiga "Chapeuzinho Vermelho", escrita em 1946 por Carlos Alberto Ferreira Braga, o Braguinha, autor de clássicos como "As Pastorinhas" e "Touradas em Madri".

Braguinha não gostou de ter sua obra associada a Tiririca e pediu o recolhimento dos discos. A Sony afirmou que tinha a autorização da editora de Braguinha para utilizar a música, mas, para evitar nova batalha judicial, decidiu pagar uma indenização.

"Como é que eu ia saber que a música era do Braguinha?", defende-se Tiririca. "Eu canto essa musiquinha desde pequeno!"

Infelizmente, Braguinha não está mais entre nós. Mas o “Rei” Roberto está, e eu gostaria de deixar uma pergunta para ele: se, em vez de Tiririca, essa criatura feia, pobre e desdentada, algum artista mais “sofisticado” – digamos, uma Fernanda Montenegro ou um Jô Soares – resolvesse se candidatar e usasse uma de suas canções, Vossa Majestade se revoltaria também? Ou o problema é com Tiririca?

P.S.: Sábado estarei no Porto Iracema, em Fortaleza, para um debate sobre meu livo "Pavões Misteriosos - 1974-1983: A Explosão da Música Pop no Brasil".

P.S. 2: Hoje, estarei fora o dia todo e só poderei moderar e responder comentários no fim da tarde.

 

“CORRIDA CONTRA O DESTINO” É O EPITÁFIO DO SONHO HIPPIE

Nas listas de lançamentos recentes em DVD vejo um filme imperdível: “Corrida contra o Destino” (“Vanishing Point”, 1971), de Richard S. Sarafian.

Se “Easy Rider” foi o road movie da geração hippie, “Vanishing Point” é o filme-símbolo da geração pós-Altamont, quando o sonho hippie estava morto e os ideais de paz, amor e LSD tinham virado cinza.

Como uma visão, o filme começa sem explicar nada: vemos Kowalski (Barry Newman) chegando a uma oficina mecânica no Colorado e recebendo ordens para levar um envenenado Dodge Challenger até São Francisco, na Califórnia. Ele tem 15 horas para percorrer dois mil quilômetros.

Antes de pegar a estrada, Kowalski faz uma parada num bar infestado de Hell’s Angels, traficantes e outros personagens que parecem saídos de algum faroeste de Sam Peckinpah ou de um livro de Jim Thompson. Encontra um amigo, compra um punhado de anfetaminas e cai na freeway.

Ao melhor estilo “Medo e Delírio em Las Vegas”, Kowalski começa a ser atacado por visões – reais e imaginárias. Ele é perseguido por dois policiais de moto, depois por caipiras nazistas. O filme vira uma “Odisséia” lisérgica a 200 km por hora.

Enquanto isso, Super Soul, cultuado DJ de uma rádio de black music (Cleavon Little) capta as transmissões da polícia e passa a contar, em seu programa, a saga de Kowalski (se isso te fez lembrar a DJ que narra as brigas de gangues em “Warriors”, de Walter Hill, não é coincidência; a personagem é claramente inspirada em Super Soul).

O roteiro de “Vanishing Point” foi escrito por um certo Guillermo Caín, pseudônimo do grande escritor cubano Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), de “Três Tristes Tigres”. E você provavelmente conhece o diretor do filme, Richard Sarafian, de filmes de gângster como “Bugsy”, em que ele, com aquela cara de leão-de-chácara, invariavelmente interpreta um brucutu qualquer.

“Vanishing Point” virou um cult movie. Bandas como Primal Scream e Mudhoney lançaram discos com esse título, George Miller se inspirou nele para fazer “Mad Max”, Steven Spielberg disse que era seu filme predileto e o usou como base de “Encurralado”, Quentin Tarantino homenageou Kowalski em “Death Proof”, e o Guns’N’Roses sampleou uma fala de Super Soul na faixa “Breakdown”.

Só falta você assistir. Mas tome cuidado para não alugar a refilmagem, de 1997.

 

 

“EU SEI QUEM MATOU JIM MORRISON… E NANCY SPUNGEN!”

marianne faithfull morisson “EU SEI QUEM MATOU JIM MORRISON... E NANCY SPUNGEN!”

Mais de 43 anos depois da morte do líder do The Doors, Jim Morrison, a cantora Marianne Faithfull fez uma revelação bombástica: foi o então namorado dela, o francês Jean De Breteuil, quem matou o cantor.

Em entrevista à revista inglesa “Mojo”, Faithfull, 67, conta que Breteuil, um traficante e playboy que fornecia heroína a astros como Keith Richards, foi ao apartamento de Morrison em Paris e lhe vendeu uma dose tão potente que o matou. “Tenho certeza que foi um acidente”, diz Faithfull. Meses depois, o próprio Breteuil morreria de overdose, em Tânger, no Marrocos.

A história é boa e possível. Se é verdadeira, só Marianne Faithfull pode dizer. E, convenhamos, em 1971 ela não era das testemunhas mais sólidas. Um ano antes, seu relacionamento com Mick Jagger havia acabado, ela perdera a guarda do filho, tentou o suicídio e acabou vivendo nas ruas de Londres por um bom tempo, chapada de heroína e barbitúricos.

A confissão tardia de Marianne Faithfull me lembrou episódio parecido que vivenciei com outro louco talentoso, Dee Dee Ramone. Aqui vai a descrição, publicada em meu blog em 2011, de um encontro que tive com ele no mitológico Hotel Chelsea, em Nova York:

“Ex-michê, ex-delinquente, ex-assaltante, ex-heroinômano (ex? será?), Dee Dee era um dos sujeitos mais instintivamente brilhantes que já conheci. Praticamente analfabeto, mal conseguia juntar duas frases, mas escreveu letras autobiográficas de um minimalismo poderoso e atordoante, como “53rd and 3rd”.

Nesse dia, descobri outra coisa sobre Dee Dee. Não sei se era alguma doença ou resultado de alguma medicação, mas o fato é que ele sofria de um grave déficit de atenção. Simplesmente não conseguia se concentrar em nada por mais de cinco minutos.

Dee Dee chegava ao cúmulo de parar frases no meio, ficar em silêncio por alguns segundos e depois emendar outro assunto, sem ter terminado o anterior. Digamos que clareza não era o seu forte. Conversar com ele, especialmente para um jornalista, era enlouquecedor.

Certa hora, começamos a conversar sobre o Chelsea, e eu comentei como era impressionante a quantidade de pessoas que vinham todo dia ao hotel pedindo para ficar no quarto onde Sid Vicious matara Nancy Spungen (só de curiosidade, o quarto não existe mais).

“O quê? Sid matou Nancy? De onde você tirou isso?”, disse Dee Dee. “Todo mundo sabe que não foi isso que aconteceu!”

Seria esse o furo jornalístico do fim de século? Dee Dee revelaria ao mundo o nome do verdadeiro assassino?

“E quem foi, Dee Dee?”

“Porra, foi aquele traficante que vendia heroína pra Nancy… Como é o nome dele… Fuck…Daqui a pouco eu lembro o nome do cara!”.

Foi a última vez que ele tocou no assunto.”

Dee Dee Ramone e Marianne Faithfull… Vocês juram dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade?

COMO SOBREVIVEMOS 25 ANOS SEM RAULZITO?

Dia 21 de agosto é aniversário de 25 anos da morte de Raul Seixas. Raulzito morreu sozinho, no trono de um apartamento, aos 44 anos e muita lenha pra queimar. O que estaria fazendo hoje, aos 69?

Para mim, Raul foi o nome mais radical e inventivo do pop-rock brasileiro. Seus quatro primeiros discos solo, gravados entre 1973 e 1976, em parceria com Paulo Coelho, são marcos de uma época em que grandes LPs apareciam aos montes.

Conheço gente que prefere os quatro primeiros discos dos Mutantes, ou a série que Jorge Ben gravou entre “Ben” (1972) e “África Brasil” (1976). Mas quando se compara níveis de excelência assim, a questão é pessoal. E nada me emociona mais que a parceria entre Raul e Paulo Coelho.

Aqui vão breves comentários sobre cada um dos discos:

Krig-ha Bandolo - 1973 

1 COMO SOBREVIVEMOS 25 ANOS SEM RAULZITO?

Um disco que tem “Ouro de Tolo”, “Al Capone”, “Metamorfose Ambulante” e “Mosca na Sopa” parece uma coletânea. Mas foi o disco de estreia de Raul e Paulo Coelho. A dupla já começou com um clássico.

Gita – 1974

4 COMO SOBREVIVEMOS 25 ANOS SEM RAULZITO?

Inspirado pela filosofia de Aleister Crowley, Raulzito e Paulo fizeram essa ópera-rock-xaxado-country-bolero sobre os ensinamentos do bruxo. Com produção de Mazzola, orquestrações de Miguel Cidras e 62 músicos no estúdio, a faixa “Gita” é a apoteose do disco, um momento ribombante de pura genialidade pop-sinfônica.

Novo Aeon – 1975

2 COMO SOBREVIVEMOS 25 ANOS SEM RAULZITO?

Quem conhecia Raul de perto diz que era seu disco predileto. É o meu também. Outra apologia a Crowley, com algumas das letras mais ácidas e geniais da dupla Paulo/Raul. Ouça “A Verdade sobre a Nostalgia” e confira.

Há Dez mil Anos Atrás – 1976

3 COMO SOBREVIVEMOS 25 ANOS SEM RAULZITO?

Para mim, o menos inspirado do quarteto de discos, marcado por uma crise criativa entre Raul e Paulo Coelho. Mesmo assim é um LP sensacional, com a faixa-título, “Meu Amigo Pedro” e a autobiográfica “Eu Também Vou Reclamar”, que traz os versos “As verdades se misturam / a verdade do universo / e a prestação que vai vencer”, síntese da genialidade de Raul, um músico capaz de falar das questões mais intrigantes de forma simples e direta.

O TOP 10 DO MALUCO-BELEZA

Em 2012, publiquei no blog a lista de minhas dez músicas prediletas de Raul. Compare com a sua:

Ouro de Tolo (Krig-ha Bandolo, 1973)

Existem músicas tão sublimes que demandam atenção total. Não dá para ouvir três segundos de “God Only Knows” ou “My Funny Valentine”, por exemplo, sem parar tudo que se está fazendo. “Ouro de Tolo” é uma dessas.  Sobre uma balada melancólica e grandiosa à Phil Spector, Raul faz uma confissão vitriólica de seu próprio deslocamento, achincalhando as aspirações da classe média propagandeadas pelo milagre brasileiro dos anos 70. Uma obra-prima absoluta, que ninguém na Censura pareceu perceber. E com um dos versos mais incríveis da música brasileira: “Eu que não me sento no trono de um apartamento / com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar”.

Metamorfose Ambulante (Krig-ha Bandolo!, 1973)

OK, você certamente já ouviu muitos cantores péssimos destruindo a coitada em barzinhos por aí. Mas pare e ouça “Metamorfose Ambulante” como se fosse a primeira vez. Repare no clima psicodélico, naquela guitarrinha preguiçosa que precede o coral e na letra sarcástica sobre as verdades absolutas. E então faça justiça a uma das maiores músicas de Raul.

As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor (Gita, 1974)

Um repente/baião com uma das letras mais raivosas e inspiradas de Raul: “Eu já passei por todas as religiões, filosofias, políticas e lutas / aos 11 anos de idade eu já desconfiava da verdade absoluta”.

S.O.S. (Gita, 1974)

“Hoje é domingo, missa e praia, céu de anil / Tem sangue no jornal, bandeiras na avenida zil…”. Ninguém começava uma letra como Raul. Essa aqui é uma crônica, tão fluida que parece prosa. Começa com a descrição de um lindo domingo no Rio de Janeiro, para depois virar um apelo melancólico de alguém que não se encaixa naquele sol e naquela felicidade toda. E quando Raul pede ao moço do disco voador para levá-lo, e canta “e das janelas desses quartos de pensão / Eu, como vetor, tranqüilo tento uma transmutação”, é difícil suportar tanta tristeza. Pra mim, a música mais bonita de Raul. E pensar que foi chupada de “Mr. Spaceman”, do Byrds...

A Maçã (Novo Aeon, 1975)

Acho inacreditável que essa música raramente seja lembrada quando se fala nas melhores músicas de Raul. É uma balada dilacerante, com um teclado viajandão e uma das interpretações mais corajosas de Raul. Sua voz quase se despedaça, de tão frágil. Bonito demais.

Tu És o MDC da Minha Vida (Novo Aeon, 1975)

A melhor música que Odair José nunca gravou. Um bolerão brega com uma letra bizarra e engraçada, misturando Pink Floyd, Flavio Cavalcanti, Pepsi Cola, Shakespeare e as Casas da Banha.

Meu Amigo Pedro (Há Dez Mil Anos Atrás, 1976)

Sempre adorei essa música, mas ela ganhou outra dimensão para mim depois que vi o documentário de Walter Carvalho e descobri que Raul a tinha escrito em homenagem ao irmão, Plinio. A letra fala de duas pessoas muito diferentes – um doidão, outro careta – e da dificuldade de relacionamento dos dois. No fim, conclui Raul, “tudo acaba onde começou”. Não me lembro de uma música tão bonita sobre dois irmãos.

Eu Também Vou Reclamar (Há Dez mil Anos Atrás, 1976)

Raul ironiza as percepções do público sobre sua obra e imagem, nesse country em que cita até sua conhecida obsessão por Bob Dylan. Essa faixa mostra uma das grandes virtudes de Raul como letrista – e que ele divide com Jorge Ben e Jackson do Pandeiro: uma capacidade quase sobrenatural de espremer palavras onde elas parecem não caber, sem prejuízo da fluidez ou da métrica. E o verso “Dois problemas se misturam / a verdade do universo e a prestação que vai vencer” é um momento de puro sarcasmo à Monty Python.

As Profecias (Mata Virgem, 1978)

Começa com um pianinho romântico à Richard Clayderman, para depois cair num xaxado malemolente sobre filósofos, sábios e visões do Apocalipse. Uma das melhores letras de Paulo Coelho.

Aluga-se (Abre-te Sésamo, 1980)

Faria uma dupla imbatível com “Inútil”, do Ultraje: duas letras irônicas e iradas sobre nosso complexo de inferioridade e síndrome de vira-latas.

ADEUS, MINHOCÃO, JÁ VAI TARDE…

congestionamento minhocao acervo estadao ADEUS, MINHOCÃO, JÁ VAI TARDE...

Uma boa notícia: depois de 44 anos emporcalhando o visual e acabando com a vida de moradores de vários bairros, o Elevado Costa e Silva, conhecido por Minhocão, uma das maiores aberrações arquitetônicas de São Paulo, será finalmente desativado. O novo Plano Diretor, sancionado pelo prefeito Fernando Haddad, prevê que o monstrengo seja demolido ou transformado em parque.

Para quem não é de São Paulo, posso descrever o Minhocão como uma monstruosidade de 2,5 km de extensão e altura que atinge o segundo andar de prédios. Ele corta alguns bairros que, antes de sua construção, estavam entre os mais charmosos da cidade: Santa Cecília, Campos Elíseos e Vila Buarque.

Mas sua construção, feita pelo então prefeito biônico da ditadura, Paulo Maluf, e batizado por ele em tributo a Costa e Silva, general-presidente que o nomeou ao cargo, acabou com a vida de muita gente. Quem morava ali perto viu seu bairro transformado em um lugar lúgubre e sujo, com carros passando a poucos metros das janelas dos prédios, todos pretos de fuligem e poluição. O mercado imobiliário em torno da obra foi dizimado.

Morei muito tempo nas regiões de Perdizes, Barra Funda e Santa Cecília, e todas sofrem demais com a presença do Minhocão. Debaixo do viaduto, mendigos e viciados em crack passam os dias, o lixo se acumula, e o cheiro beira o insuportável.

À noite e aos domingos, com o tráfego de carros proibido, o Minhocão vira uma das poucas opções de lazer para os locais, mas é constrangedor andar de bicicleta ali e bisbilhotar, mesmo sem querer, a intimidade dos moradores.

Sei que muita gente vai chiar e dizer que a obra ajuda a desafogar o tráfego. É verdade. Mas governar é assumir prioridades, e acho muito mais importante melhorar a qualidade de vida dos moradores a diminuir o tempo que levam para chegar à Radial Leste. O que Maluf e seu monstrengo fizeram foi condenar uma parte imensa de São Paulo a tempos sombrios.

Infelizmente, o plano do prefeito não estipula um prazo para a desativação do Minhocão. Espero que seja rápido, e me ofereço para dar a martelada inicial. Aquele lixo já vai tarde.

O blog volta segunda

Amigos,

Estou em São Paulo para entrevistas sobre o lançamento do meu livro "Pavões Misteriosos". Foram tantos os pedidos de entrevistas que não terei tempo de escrever um texto novo para hoje e responder aos comentários. Volto segunda com um texto novo. Peço desculpas e espero que entendam.

“CÃO BRANCO”: O FILME MALDITO DE SAMUEL FULLER

Já escrevi bastante sobre “Cão Branco”, de Samuel Fuller. É um de meus filmes prediletos e foi lançado recentemente em DVD no Brasil pela Cinemax. Se você ainda não viu, corra à locadora.

"Cão Branco" é um caso clássico de filme incompreendido: um manifesto antirracista, foi acusado de preconceito e banido dos cinemas e TV por muito tempo.

Lançado em 1982, quando o cineasta tinha 70 anos, conta a história de uma atriz, Julie Sawyer (Christy McNichol), que atropela um pastor alemão. Ela socorre o animal e passa a cuidar dele. O que Julie não sabe é que o pastor é um "cão branco", treinado para atacar pessoas negras. A atriz leva o animal para um treinador negro (Paul Winfield), para que ele tente domar o cão e acabar com seu instinto assassino.

A exemplo de outros filmes de Fuller, cineasta que nunca primou pela sutileza, “Cão Branco” foi considerado apelativo e preconceituoso. Atacado por todos os lados, foi jogado de escanteio pelo estúdio Paramount, que o lançou em poucas salas, e banido de exibições em TV. O filme só teve um lançamento mais amplo nos Estados Unidos em 2008, nove anos depois da morte de Fuller.

Além de ser um “thriller” de primeira, "Cão Branco" levanta questões sociais relevantes: o racismo é "aprendido" em casa? O preconceito pode ser extirpado pela razão?

Essas questões sempre intrigaram Fuller, um ex-repórter policial que lutou na Segunda Guerra, ajudou a libertar campos de concentração dos nazistas e levou para as telas do cinema uma visão pessimista e crua do mundo.

“Cão Branco” deveria ter sido o auge de sua trajetória de cineasta, aquela obra-prima que consagra um cineasta veterano. Em vez disso, acabou com sua carreira nos Estados Unidos. Arrasado com o fracasso do filme, Fuller se mudou para a França e nunca mais filmou na América.

P.S.: Estarei hoje em São Paulo para o lançamento de meu livro “Pavões Misteriosos”, que acontece 18h30 na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Paulista com Augusta). Publico um novo texto no blog na sexta-feira.

ROBIN WILLIAMS (1951-2014)

Robin Williams in 1978 011  ROBIN WILLIAMS (1951 2014)

Quando um artista morre, especialmente de suicídio, como parece ser o caso de Robin Williams, é natural procurar em seu trabalho pistas que podem ajudar a explicar a tragédia.

Os filmes de Williams sempre alternaram entre a comédia escrachada e dramas sombrios. Em vários de seus papéis no cinema, o ator interpretou personagens melancólicos ou alguém que tentava ajudar uma alma perdida.

Em "O Pescador de Ilusões" (1992), fez um mendigo que ajuda um apresentador de rádio (Jeff Bridges) que havia tentado suicídio. Em “Gênio Indomável" (1988), filme que lhe valeu um Oscar, o ator interpretou um psicólogo que tratava o protagonista do filme (Matt Damon), um instável gênio da matemática.

Outros filmes de sucesso, como “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989) e "Patch Adams - O Amor é Contagioso" (1998) mostravam Williams tentando ajudar e guiar outras pessoas. Em um de seus últimos filmes, “World’s Greatest Dad” (2009), ele fez um professor cujo filho adolescente se mata por acidente, asfixiado.
Williams teve sérios problemas com álcool e cocaína nos anos 1970 e 1980. Era amigo e companheiro de balada de John Belushi, grande comediante que morreu em 1982, aos 33 anos, de uma overdose de pó e heroína. Em 1983, quando seu primeiro filho nasceu, Williams largou a bebida e as drogas, mas teve uma recaída em 2003 e foi internado várias vezes. Nos últimos anos, batalhava contra uma severa depressão.

Quem conhece o trabalho de Williams só do cinema, especialmente de comédias juvenis como "Uma Babá Quase Perfeita" (1993), "Jumanji" (1995) e "Flubber - Uma Invenção Desmiolada" (1997) pode não saber que, nos anos 1970 e 1980, ele foi um dos comediantes mais inventivos e transgressores do humor norte-americano. Seus shows de “stand-up” eram verdadeiras maratonas de improviso, em que interpretava dezenas de personagens – muitas vezes, pulando de um para outro com velocidade espantosa – e, aparentemente, sem seguir um roteiro fixo.

A morte de Robin Williams acontece menos de duas semanas depois do aparente suicídio do brasileiro Fausto Fanti, talentoso comediante da trupe “Hermes e Renato”. É perturbador notar como artistas que vivem de fazer rir, destacando, com seu humor, os absurdos e estranhezas do mundo, muitas vezes não conseguem superar seus próprios demônios pessoais. “O único riso verdadeiro vem do desespero”, já disse Groucho Marx, um homem que entendia uma coisa ou outra sobre humor.

CUIDADO COM O DÉBITO-FANTASMA!

ghost with bag CUIDADO COM O DÉBITO FANTASMA!

Não conheço uma pessoa que esteja feliz com a empresa de celular que escolheu. Os brasileiros pagam as ligações mais caras do mundo e têm um serviço podre. Isso não é novidade. Mas o que aconteceu comigo, há algumas semanas, merece ser dividido com os leitores.

Há pouco menos de um ano, comprei dois celulares e fiz planos da empresa que vou chamar de Estrume (para ninguém achar que estou fazendo propaganda das outras operadoras, Dejeto, Asco e Ranho). Botei as contas dos dois telefones da Estrume em débito automático.

Três meses depois, nossos telefones foram cortados por falta de pagamento. Chequei o extrato bancário e vi que os débitos da Estrume tinham sido realizados. Liguei para a Estrume, e a atendente disse que o pagamento não constava no sistema da empresa. Seguindo as orientações da moça, imprimi os comprovantes e enviei ao SAC da Estrume.

Mais duas semanas passaram, e nossos telefones continuavam cortados. A Estrume sequer confirmou o recebimento dos comprovantes. Fui a uma loja da Estrume em São Paulo, esperei 50 minutos para ser atendido e falei com o gerente, que confirmou que os pagamentos não constavam do sistema. Ele sugeriu que eu pagasse de novo as contas, para que os aparelhos fossem religados, e depois brigasse com a Estrume para receber o dinheiro de volta.

O gerente imprimiu os dois boletos. Percebi que os valores que constavam dos boletos eram diferentes dos valores que haviam sido pagos em débito automático. Coisa pequena, um ou dois reais em cada conta. Liguei para o banco e tive mais uma surpresa: sem que eu tivesse pedido, os débitos automáticos haviam sido suspensos. Como diria o Dalto, muito estranho...

Pedi ao gerente do banco uma carta explicando que os débitos havia sido solicitados pela Estrume. Mostrei a carta ao gerente da filial da Estrume em São Paulo. Ele ligou para a empresa e disse que aqueles débitos, apesar de terem o nome da empresa, não foram solicitados por ela. “Isso está acontecendo direto”, disse. “Parece até um débito-fantasma. Quer uma sugestão? Tira suas contas de débito automático”. Nem precisei, já que as contas haviam sido tiradas do débito sem que eu pedisse.

Paguei as contas novamente e nossos telefones foram religados. Depois, escrevi pelo menos três vezes e liguei sete ou oito vezes para a Estrume, mas ninguém resolveu nada.

Há poucos dias, para nossa imensa surpresa, uma funcionária da Estrume ligou. Disse que a empresa havia analisado o meu caso, mas não pôde concluir nada, porque – é aqui que a história fica mais cabulosa – as contas pagas em débito automático não haviam chegado à empresa.

Quer dizer que o cliente paga dois débitos automáticos em nome da Estrume, o banco confirma que o pagamento foi feito para a Estrume, e a Estrume diz que não recebeu? E as contas somem do débito automático? E aparecem no extrato bancário com valores diferentes?

A essa altura, eu estava tão possesso que ameacei processar a Estrume, o presidente da Estrume e toda a família Estrume. Devo ter soado convincente, já que a moça aceitou reembolsar os valores que eu havia pago em duplicidade. 

Mas a história não acabou ali. Sexta passada, imprimi o boleto para pagar a última conta da Estrume. E o valor que constava no site da empresa era diferente do valor do boleto. Liguei para a Estrume, e uma atendente disse: “Ignore o valor do site, senhor, pode pagar o boleto. Deve ser uma falha do sistema.”

Torço para que não, mas aposto que a saga da Estrume não acabou...

P.S.: Estarei fora o dia todo e impossibilitado de moderar comentários até o início da tarde. Se o seu comentário demorar a ser publicado, peço desculpas e um pouco de paciência.

 

 

NELSON NED: O PEQUENO GIGANTE DA CANÇÃO

nelson1 NELSON NED: O PEQUENO GIGANTE DA CANÇÃO

Este ano, Nelson Ned completaria 50 anos de carreira profissional. Foi em 1964 que lançou seu primeiro LP, “Um Show de Noventa Centímetros”.

Em homenagem a Nelson, aqui vai uma de suas últimas entrevistas, gravada seis meses antes de sua morte. Publiquei trechos dela depois da morte de Nelson Ned, mas o texto, em sua versão integral, é inédito.

 

O local marcado para a entrevista é um pequeno sítio, a cerca de 50 km de São Paulo. A propriedade está longe de ser luxuosa, mas é bem cuidada e cercada de árvores. A casa tem uma varanda, com uma bonita vista de um vale verde. Nessa manhã de inverno e céu azul, não há sinal de nuvens, e uma brisa agradável sopra do vale.

Depois de quase uma hora de espera, um carro se aproxima. A motorista sai do carro, abre a mala traseira do veículo e tira uma cadeira de rodas dobrável. A porta de trás do carro se abre. Só aí percebo que ela não estava sozinha no carro: do banco de trás, sai Nelson Ned.

Nelson se acomoda com dificuldade na cadeira de rodas. Usa a cadeira há cerca de cinco anos, desde que sofreu um derrame e perdeu a capacidade de locomoção. A motorista do carro é Neuma, sua irmã. Nos fins de semana, ela cuida de Nelson, que passa a semana em uma clínica próxima ao sítio. Neuma marcou a entrevista para o período da manhã: “Nelsinho sempre está melhor de manhã, depois vai ficando mais cansado ao longo do dia.” Sentado na cadeira de rodas, Nelson Ned parece ainda menor que seus 112 centímetros de altura.

Quem cresceu nos anos 1970 ou1980 certamente já viu Nelson nos programas de Sílvio Santos, Gugu, Chacrinha, Bolinha ou Raul Gil, e já leu sobre ele em colunas sociais – ou policiais. Até o “Planeta Diário”, bíblia do humor descoladex carioca, costumava citar o cantor. Uma famosa manchete dizia: “Nelson Ned é o Novo Menudo”.

Ele era um astro. No ranking de maiores vendedores da Associação Brasileira dos Produorres de Discos (ABPD), está em quinto lugar, com 45 milhões de discos. Nenhum cantor brasileiro cantou para tanta gente no exterior. Nelson se apresentava em estádios – não teatros, estádios mesmo – na Colômbia, México e Venezuela. Cantou duas vezes no Madison Square Garden e quatro no Carnegie Hall, em Nova York. Quando o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez visitou o Brasil, em 1981, surpreendeu ao revelar que era fã de Ned. “Se a sua literatura fosse música, que tipo de música seria?”, perguntou-lhe Chico Buarque. “Seria um bolero cantado por Nelson Ned”, respondeu o prêmio Nobel de Literatura.

Ned foi um fenômeno de popularidade, especialmente nos países latino-americanos. E conseguiu isso apesar de suas limitações físicas e do preconceito que sofreu por toda a vida. “O Brasil é a terra mais preconceituosa que conheço. O preconceito era contra o meu tamanho e contra meu estilo de música.” Diz que nunca teve medo de enfrentar plateias: “Quem passou a vida toda sendo humilhado aprende a se defender. Quando canto eu me transformo, consigo ver o ar transformado em música, é uma sensação gloriosa.”

Nelson Ned nasceu em 1947, em Ubá, Minas Gerais, numa família de classe média. Foi o primeiro filho do casal Nelson de Moura Pinto, 26, e Ned d’Ávila Pinto, 18. Era um bebê de tamanho normal. Quando Nelson completou quatro meses de vida, os pais começaram a perceber que havia algo errado em seu crescimento. O bebê sofria de displasia espôndiloepifisária, uma doença rara que causava nanismo e deformações esqueléticas.

Foi um choque para os pais. Não havia nenhum caso de nanismo na família. O casal fez de tudo para “reverter” a condição de Nelsinho, incluindo massagem com sebo de cordeiro e orações de todos os tipos. A mãe, em especial, não se conformava e buscou apoio e explicação em várias religiões. Frequentou cultos católicos, kardecistas e orientais, como a Seicho-No-Ie e a Perfeita Liberdade. Queria descobrir porque o filho nascera daquele jeito. Na escola, Nelson era alvo da zombaria dos colegas, que o chamavam de “Anãozinho”. Mas Ned se recusou a tirar o filho da escola. Nelson teria de enfrentar o mundo, e não fugir dele: “Vou criar meu filho para o mundo, e não um mundo para meu filho.” O casal teve outros seis filhos – Ned Helena, Nélia, Nedson, Neuma, Neide e Nelci – todos normais.

Desde pequeno, Nelson cantava muito bem. Aos quatro anos, já participava de programas em rádios locais, impressionando a todos com a potência e afinação de sua voz. Aos oito anos, foi apresentado ao grande Ary Barroso, seu conterrâneo de Ubá. Nelson sentou no colo do compositor e cantou “Risque”, uma das grandes canções de Ary: “Risque meu nome de seu caderno / pois não suporto o inferno / do nosso amor fracassado”. Ary caiu na gargalhada quando o pequenino errou o verso “Afogue as saudades / nos copos de um bar” e cantou “...nos copos de Ubá”.

Em 1960, a família mudou para Belo Horizonte.  Nelson arrumou um emprego de office boy na fábrica de chocolates Lacta. Depois de vê-lo cantando no almoço dos funcionários, um gerente convenceu a empresa a botar Nelson como atração em um programa de TV patrocinado pela empresa. Logo ele ganharia seu próprio programa, “Gente, o Tamanho Não Importa!”. Três anos depois, a família foi para o Rio de Janeiro, onde Nelson participou de um concurso de calouros e gravou seu primeiro compacto. Em 1964, lançou o primeiro LP, “Um Show de Noventa Centímetros”: “Eu disse que já tinha 1,12 metro, mas a gravadora achou que noventa centímetros ia chamar mais atenção.”

Nelson virou atração em programas de rádio e TV: Sílvio Santos, Chacrinha e Hebe Camargo viam a audiência disparar quando ele se apresentava. No fim dos anos 60, Nelson cantou rock – adorava Trini Lopez - e fez de tudo para ser aceito no programa “Jovem Guarda”, mas não teve sucesso: numa atração dominada por galãs como Roberto Carlos e Ronnie Von, um anão certamente destoaria.

Nelson Ned se especializou em música romântica. Adorava cantores latinos de repertório melodramático, como Lucho Gatica e Miguel Aceves Mejia, além de crooners brasileiros como Francisco Alves, Mário Reis e Orlando Silva. Mas seu cantor predileto era mesmo Tony Bennett. Nelson fez imenso sucesso em rádios AM no Brasil e vendeu muitos discos, mas nunca foi aceito pela elite da MPB. Ronaldo Bôscoli costumava chamá-lo de “anãozinho ridículo”, o que motivou Nelson a compor “Tamanho Não é Documento”: “Você vive sempre a brincar comigo / pode judiar de mim que eu nem ligo / sou pequeno, mas meu coração é grande / bem maior do que o seu (...) tamanho não é documento / pelo menos tenho sentimento / isso é coisa que você não tem.”

Nos anos 1970, Nelson Ned virou um astro: fazia shows lotados no exterior, ganhou oito discos de ouro nos Estados Unidos e muito dinheiro. Tinha apartamentos de luxo no Rio e em São Paulo, andava em limusines e freqüentava boates da moda, como a Gallery, em São Paulo. Também começou a beber, cheirar cocaína e colecionar armas. “Quando eu ia ao Gallery, só queria saber de duas coisas: pó e champanhe Dom Perignon.” Vaidoso, cercava-se de belas mulheres e seguranças armados. Para sacanear os grã-finos da elite paulistana, que torciam o nariz quando viam aquele anão metido entrando no Gallery, Nelson combinou com o DJ da casa que lhe pagaria cem dólares para tocar “Eu Não Sou Cachorro Não”, de Waldik Soriano, toda vez que ele chegasse à boate com sua trupe de mulheres e guarda-costas. “Você tinha de ver a cara de espanto do pessoal!”

celebridades nelson ned 04 size 598 NELSON NED: O PEQUENO GIGANTE DA CANÇÃO

Suas companhias não eram das melhores: depois de um show no México, foi visitado no camarim por Arturo Durazo Moreno, então chefe de polícia da Cidade do México – e depois condenado por corrupção, tráfico de drogas e extorsão. Moreno era grande fã de Nelson e o presenteou com um revólver Colt 45 banhado em ouro, que o cantor repassou a outra figura sombria, o então presidente do Brasil, João Figueiredo. “Figueiredo me recebeu com lágrimas nos olhos.” Toda vez que se apresentava na Colômbia, Nelson era visitado nos camarins por membros dos cartéis de drogas, que lhe ofereciam mulheres e cocaína. Conheceu pessoalmente Pablo Escobar, chefão do cartel de Medellin: “Conheci, claro, cantei várias vezes pra ele. Mataram ele, né?”

Em 1988, Nelson Ned apareceu nas páginas policiais, ao ser acusado de atirar na esposa. Ele diz que a arma disparou acidentalmente quando a mulher limpava um paletó. Mas seu comportamento era errático e imprevisível, causado pela bebida e cocaína. Nelson só andava armado, tomava um litro de uísque por dia e cheirava cinco a dez gramas de cocaína por semana. Um dia, estava tão desnorteado pelo pó que foi de sunga ao tradicional restaurante Gigetto, no centro de São Paulo, e pediu cachaça. Quando os garçons se recusaram a servi-lo, Nelson armou um escândalo. Acabou desmaiando na calçada em frente ao restaurante.

Nelson teve três filhos, todos anões. Aconselhado pelos médicos, fez uma vasectomia: “Sou pequeno, mas não sou burro!” Em 1993, estava no fundo do poço, cheirando, bebendo e passando dias sem dormir. Perdeu quase toda a fortuna e vivia paranóico. Sua casa tinha armas por todos os cantos, escondidas em gavetas e armários. Certa noite, diz ter visto viu um raio rasgar o céu e o atingir em cheio no coração. Converteu-se ao Evangelho e jura que nunca mais bebeu ou cheirou. Passou a gravar apenas músicas religiosas. Diz que ainda conversa regularmente com Roberto Carlos e Julio Iglesias, mas a frase soa mais nostálgica que verdadeira.

Quando perguntei como desejaria ser lembrado, Nelson Ned disse: “Quero que as pessoas se lembrem de mim como um homem romântico, que amou muito e viveu intensamente...” sua frase foi interrompida por um barulho numa árvore. Era um grupo de oito tucanos, lindos, de corpos negros e longos bicos amarelos, parados em um galho, a poucos metros de Nelson. Pareciam fitá-lo. “Olha isso!”, gritou o cantor, comovido pela visão. “Põe aí que eu sou um homem abençoado também!”

Em 5 de janeiro de 2014, Nelson Ned morreu, de pneumonia. Tinha 66 anos.

 

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