25 ANOS DE ELEIÇÕES E NÃO APRENDEMOS NADA

debate 25 ANOS DE ELEIÇÕES E NÃO APRENDEMOS NADA

Não lembro exatamente o mês, mas deve ter sido outubro ou novembro de 1989. Eu estava no Posto Seis, em Copacabana, onde fui encontrar minha avó, que batia papo com algumas amigas. O assunto, claro, era a eleição presidencial, a primeira depois do fim da ditadura, que confrontava Fernando Collor (PRN) e Lula (PT).

As senhorinhas haviam decidido, quase que por unanimidade, votar em Collor. “Eu não quero uma família de sem-terra morando na minha casa”, dizia uma. “Imagina, a gente trabalha a vida toda pra ter um lugarzinho, e agora vai ter de dividir nossa casa com uns cubanos?”, dizia outra.

Elas não estavam brincando. Havia boatos fortes de que, se Lula fosse eleito, o comunismo se instalaria imediatamente no país e todos os cidadãos seriam obrigados a compartilhar seus bens com os pobres.

Há meses, panfletos apócrifos eram distribuídos pela cidade, contando como a vitória do PT significaria o fim da propriedade privada. Lembro um que trazia um desenho mostrando uma família de classe média dormindo no chão, enquanto estranhos ocupavam suas camas.

O clima era de apreensão, especialmente entre idosos, que dependiam de suas minguadas aposentadorias e temiam ter de dividi-las com camponeses de foice na mão.

Outro boato espalhado na época pela campanha de Collor dizia que, se eleito, Lula confiscaria a poupança dos brasileiros.  Eleito presidente, Collor fez exatamente isso: sequestrou as economias de todo o país.

Teve mais: Miriam Cordeiro, uma ex-namorada de Lula, apareceu no horário eleitoral de Collor, acusando Lula de tentar forçá-la a praticar um aborto. Como ela se negara, disse Miriam, Lula teria repudiado a filha dos dois, Lurian. Foi um escândalo.

Outro escândalo foi a edição do último debate entre os dois candidatos, veiculada na TV Globo, e que claramente favoreceu a Collor.  O candidato do PRN havia se saído melhor que Lula no debate, mas a edição dos "melhores momentos" foi um acinte.

Muita coisa mudou desde aquela época. Para começar, três dos principais candidatos à Presidência, então rivais de morte e que se xingavam em debates e entrevistas, hoje são aliados: Lula, Collor e Maluf. Marina Silva era filiada ao PT e Dilma, ao PDT de Leonel Brizola. Aécio Neves era deputado federal pelo PMDB.

Naqueles tempos, havia uma distinção mais clara entre direita e esquerda, entre governo e oposição. Hoje, esses conceitos se fundiram numa massa amorfa e desbotada. Rivais históricos se juntam em alianças cuja única finalidade é se perpetuar no poder.

Mas uma coisa não mudou: a noção de que uma mentira, se repetida muitas vezes, pode virar “verdade”. E tome acusações falsas, suspeitas que viram crimes e boatos alçados à condição de fatos. Para piorar, hoje temos as redes sociais para ajudar a disseminar a desinformação.

Assisti ao debate da Record domingo à noite. Não foi muito diferente dos debates daquela eleição de 1989. Pareceu mais uma briga que uma discussão, em que os candidatos, em vez de falar de plataformas, preferiam desqualificar os rivais, apontando incongruências em suas declarações. Parecia um show de “pegadinhas”. Isso podia até fazer sentido em 1989, quando o país tinha sua primeira eleição presidencial em quase três décadas e vivia um momento político e ideológico de conflito intenso, onde alguns candidatos claramente representavam o “continuísmo” e outros, a “mudança”. Hoje, as propostas dos principais candidatos são tão parecidas, que é difícil distingui-las.

Era de se esperar que, sete eleições presidenciais depois, o país já tivesse superado essa fase e as propostas tivessem mais peso que o marketing. Mas algumas características discutíveis de nosso modelo eleitoral – voto obrigatório, diferença de tempo de TV – continuam tornando nossas eleições um parque de diversões para marqueteiros. Em 25 anos, não aprendemos nada.

ALTERNATIVO, PORÉM LIMPINHO…

manson ALTERNATIVO, PORÉM LIMPINHO...

Enquanto a maioria reclama da vida, alguns poucos trabalham. Sempre foi assim. E aqui no Brasilzão, onde o sonho de boa parte da cena cultural dita “alternativa” é ser funcionário público e ganhar uma bolsa vitalícia do SESC ou de alguma estatal, a coisa é ainda pior.

Mas existem alguns que enfrentam a burocracia oficial, os impostos extorsivos e a indiferença da maioria absoluta do público, e teimam em lançar produtos culturais de qualidade. Eles sabem que apelam a um nicho de mercado e que não vão ficar ricos, mas continuam mesmo assim. Esses loucos precisam ser valorizados.

De vez em quando, tenho de me policiar para não escrever de novo sobre a mesma editora, gravadora ou selo de DVDs que citei dias antes. É o caso, por exemplo, da Ideal, uma editora de livros especializada em música e que tem lançado muita coisa boa.

Do livro novo de Fábio Massari (“Mondo Massari”) à biografia de Ian Curtis escrita por sua viúva, Deborah Curtis, passando por volumes sobre Motörhead, Pantera, Dead Kennedys, Rage Against the Machine, Pitty e Ramones, a Ideal vem montando um catálogo muito consistente.

Acabo de receber o mais recente lançamento deles, “Nós Somos a Tempestade”, de Luiz Mazetto, coletânea de entrevistas com expoentes do metal alternativo americano como Mastodon, Neurosis, Melvins, Kylesa, Corrosion of Conformity e uma penca de outros. Está na fila de leitura e será tema aqui do blog daqui a alguns dias.

Outra editora bacana é a Lote 42, que lançou o muito interessante “Indiscotíveis” (leia minha resenha aqui)além de um livro de quadrinhos de Bruno Maron, da revista “Xula”, dois volumes de tiras do personagem “O Pintinho”, de Alexandra Moraes, e uma coletânea de textos do blog “Já Matei por Menos”, de Juliana Cunha.

Para quem gosta de cinema de horror e assuntos sanguinolentos em geral, vale conferir o catálogo da Darkside Books, que lançou a sensacional biografia de Charles Manson escrita por JeffGuinn (leia aqui um texto que fiz sobre o livro), além de bios de Stephen King e Black Sabbath e livros sobre as filmagens de clássicos do Cinema Nojo como “Evil Dead”, “O Massacre da Serra Elétrica” e “A Noite dos Mortos-Vivos”.

E quem tem alegrado muito as noites aqui em casa é a Versátil, um selo de DVDs com um catálogo extraordinário. A empresa acaba de lançar dois filmaços: “Um Lance no Escuro” (“Night Moves”), policial dos anos 70 dirigido por Arthur Penn (“Bonnie e Clyde”) e estrelado por Gene Hackman, que eu não via há mais de 20 anos, e o inesquecível “A Tortura do Medo” (“Peeping Tom”, 1960), “cult” do terror psicológico, fetichista e voyeurista e que destruiu a carreira de Michael Powell (“Os Sapatinhos Vermelhos”).

 

 

Esses dias, comprei a caixa “Filme Noir”, da Versátil, com seis pérolas do cinema B dos anos 40 e 50, incluindo filmes de Joseph Losey, Jacques Tourneur, Sam Fuller, Robert Aldrich, Otto Preminger e Anthony Mann. Em breve, aqui no blog.

Feliz aniversário, R7!

Hoje é aniversário do R7. Parabéns a todos os colegas. Estou prestes a completar um ano de casa, e a experiência tem sido das melhores.

Quando fui convidado a vir para o R7, o portal me prometeu liberdade total. Eu poderia escrever sobre o que quisesse, da forma que quisesse. E a promessa está sendo cumprida. Nunca recebi nenhum tipo de censura ou “orientação”. Quem vive de escrever não pode pedir mais que isso.

Claro que, vez por outra, as editorias solicitam textos sobre determinados assuntos, de acordo com os acontecimentos. Morreu Garcia Márquez? Vai rolar a entrega do Oscar? Começou a Copa do Mundo? É normal que editores peçam textos que completem a cobertura do portal. Mas apenas os assuntos são sugeridos, nunca a abordagem.

Quem acompanha o blog sabe que me esforço para responder ao maior número possível de comentários dos leitores. Muitas vezes, acabo escrevendo mais nas respostas aos comentários do que no próprio texto.

Acho muito bom esse intercâmbio com o leitor. Não é exagero dizer que pelo menos metade das pautas do blog são sugeridas ou inspiradas por comentários de leitores. E cansei de descobrir filmes, discos ou livros por dicas dos leitores.

Mas nem sempre a relação com o leitor é tão amistosa. Na série que fiz sobre a Copa do Mundo, em que malhei a selecinha da CBF, a chucrice do Felipão e a pachequice que dominou o país, fui bastante xingado por leitores que não concordaram com a abordagem.

Um dos textos mais polêmicos foi este, publicado imediatamente após os gloriosos 7 a 1 da Alemanha. Foram 230 comentários, além de dezenas de outros que não foram ao ar por conter palavrões e palavras pouco elogiosas à minha progenitora. Democracia é isso aí. Como diria o saudoso Vicente Matheus, quem está na chuva é pra se queimar.

A babá que fotografava

vivianmaier1 A babá que fotografava

Vivian Maier morreu sozinha e miserável, em 2009, aos 83 anos. Passou os últimos anos de vida catando lixo na rua e vivendo da caridade de amigos, que pagavam seu aluguel e lhe davam dinheiro para comer. Era conhecida como uma mulher excêntrica, que vivia tirando fotos na rua.

Cinco anos depois, Vivian Maier é considerada uma das grandes fotógrafas da segunda metade do século 20 e tem sua obra comparada a pesos-pesados como Robert Frank, Diane Arbus, Helen Levitt e Weegee. Suas fotografias de pessoas comuns, quase sempre capturadas na rua, trazem uma mistura de humor negro e drama, sempre com uma pitada de grotesco. São imagens sublimes.

A história da descoberta da genialidade de Vivian Maier parece obra de ficção. Em 2007, um sujeito de 26 anos chamado John Maloof, rato de leilões de antiguidades, comprou uma caixa de negativos. Eram cerca de 30 mil fotos de Maier. Empolgado pela qualidade do material, ele fez um pequeno site sobre a fotógrafa e publicou 200 imagens na Internet. A reação foi impressionante: centenas e centenas de comentários empolgados. Muitos diziam não acreditar que um trabalho tão bom fosse tão desconhecido.

vivianmaier2 A babá que fotografava

Maloof começou a pesquisar sobre a vida de Vivian Maier e descobriu que ela ganhava a vida como babá.

Durante mais de 40 anos, Vivian Maier saiu todo dia com uma Rolleiflex para passear com as crianças de quem tomava conta. Não era incomum levar os pequenos a áreas barra pesada, só para fotografar mendigos e velhinhos. Vivian também fotografava as crianças e fazia autorretratos.

Ela fotografava todo dia, mas nunca mostrava as fotos para ninguém. O trabalho era meticulosamente guardado em caixas e lá permanecia. Vivian era obcecada por colecionar qualquer coisa – jornais, botões, moedas – e por guardar registros de tudo que acontecia em sua vida. Além de fotografar, ela fazia filmes em Super-8 e gravava fitas cassete em que falava sobre assuntos do dia.

A história da babá-fotógrafa começou a se espalhar, e logo Maloof estava viajando pelos Estados Unidos organizando exposições das fotos de Vivian Maier. Ele dirigiu, em parceria com Charlie Siskel, um bom documentário sobre a artista, “Finding Vivian Maier”, e editou alguns livros com as fotos. Um deles, "Vivian Maier: Uma Fotógrafa de Rua", acaba de sair no Brasil, pela editora Autêntica.

 

 

Vale muito a pena comprar o livro e conhecer o trabalho de Maier. No site oficial da fotógrafa (clique aqui) há uma grande galeria de suas imagens.

Bom fim de semana a todos.

P.S.: O grande fotógrafo J.R. Duran, leitor do blog, mandou o link de um artigo do "The New York Times" (leia aqui) sobre recentes complicações judiciais envolvendo o espólio de Vivian Maier. Aparentemente, um parente distante de Vivian - tão distante que nem a conhecia - agora quer receber seus "direitos" pelo trabalho da artista. 

 

LEONARD COHEN NO BRASIL: UM DELÍRIO

leonard cohen 1 LEONARD COHEN NO BRASIL: UM DELÍRIO

Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas ou situações reais é mera coincidência.

Depois de 80 anos, Leonard Cohen finalmente desembarca no Brasil. O cantor e compositor canadense fará dois shows em São Paulo. O primeiro será num megafestival no Autódromo de Interlagos, e o segundo, numa casa de shows que leva o nome de um cartão de crédito.

No festival, Cohen se apresentará por 45 minutos, entre Capital Inicial e Bruno Mars.

O show será interrompido algumas vezes, ora pelo próprio Cohen, assustado com a proximidade de pessoas que passam zunindo pelo palco de tirolesa gritando “Uhuuuuu!”, ora por gigantescas bolas infláveis de patrocinadores, que o público arremessará nos músicos para dirimir o tédio da apresentação.

A massa aproveitará o ritmo lento e medidativo das músicas para entreter-se cantando “Sou brasileiro, com muito orgulho...” e tirando selfies. A profusão de flashes atrapalhará Cohen, que sofrerá crises de cegueira momentânea e será levado às pressas para um neurologista.

A apresentação na casa de shows será ainda mais problemática. As primeiras oito músicas do concerto serão interrompidas pelo barulho do público, que chega atrasado às mesas da área Mega-Premium-Vip em frente ao palco. Leonard Cohen pede silêncio e um retardatário não gosta: “Não fode, coroa, paguei três paus nesse ingresso e chego na hora que quiser!”.

Logo depois, irrompe uma briga feia entre um grupo de bem-nascidos vestidos de jogadores de pólo e meia dúzia de fortões de chapéus de caubói. Um berrante de chifre de boi é lançado ao palco e atinge a cantora Sharon Robinson.

No meio de “Tower of Song”, uma equipe de TV acende uma luz fortíssima na frente do palco, que cega Cohen e toda a banda. A equipe está entrevistando a atriz-sensação da novela das duas da manhã, uma “grande fã” de Cohen e que “ama de paixão” suas músicas chiques e sofisticadas.

Vendo a celebridade ali, dando sopa, várias acompanhantes das turmas dos jogadores de pólo e caubóis aproveitam e posam para fotos com a estrela. Os fotógrafos da “Caras” se regozijam e pedem para que as meninas façam coraçõezinhos para Leonard Cohen.

No dia seguinte, o cantor embarca para a Escandinávia, onde fará 17 apresentações para 12 mil pessoas cada. No saguão do aeroporto, deixa uma última mensagem Aos fãs locais: “Daqui a 80 anos eu volto pro Brasil. Podem esperar.”

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TOP 5: PIORES REFILMAGENS DO CINEMA

Dia 20, morreu, aos 82 anos, o cineasta holandês George Sluizer. Em 1988, Sluizer dirigiu “Spoorloos”, um “thriller” de suspense sobre um casal holandês que viaja pela França de carro e a mulher desaparece misteriosamente num posto de gasolina. Se puder, assista. É um filme estranho e aterrorizante, e fez bastante sucesso no circuito alternativo.

Cinco anos depois, Sluizer ganhou uma bolada da Fox para ir aos Estados Unidos dirigir uma refilmagem de “Spoorloos”, chamada “O Silêncio do Lago”, com Sandra Bullock e Kiefer Sutherland interpretando o casal e Jeff Bridges no papel de um homem misterioso, que poderia ser responsável pelo sumiço da moça.

Lembro que, na época, participei das entrevistas de lançamento do filme, em Los Angeles, e foi um constrangimento só. Sluizer claramente sabia que havia destruído seu próprio filme. “O Silêncio do Lago” era um abacaxi monstruoso.

 

Selecionei outros quatro casos de filmes clássicos destruídos por refilmagens pavorosas. Lembra mais algum? Mande sua lista, por favor.

 

Straw Dogs / Sob o Domínio do Medo

Se você não viu “Straw Dogs” (1971), de Sam Peckinpah, com Dustin Hoffman no papel de um pacato professor de matemática que se refugia com a esposa, uma coisa de louco chamada Susan George, numa vilinha na Cornualha (não, não é a terra dos chifrudos, mas um condado no sudoeste de uma península na Inglaterra), onde é atormentado por caipiras sádicos, assista. É um dos melhores filmes de Peckinpah. Infelizmente, nunca passa na TV, ao contrário de seu nauseabundo “remake”, dirigido em 2011 por Rod Lurie, que passa quase todo dia.

 

Bad Lieutenant / Vício Frenético

Se Nicolas Cage se preocupasse apenas em estragar os próprios filmes, a gente até aceitava. O problema é quando ele se mete a refazer filmes dos outros. O Cigano Igor de Hollywood atuou em três ou quatro dos piores “remakes” do mundo (“Cidade dos Anjos”, “O Sacrifício”), mas nenhum tão engraçado quanto “Vício Frenético”, em que pegou o personagem do policial fora de controle vivido por Harvey Keitel no original de Abel Ferrara, de 1992, e o interpretou como se fosse o Sargento Pincel depois de cheirar um quilo de metanfetamina. O pior é saber que essa tosquice foi dirigida por Werner Herzog. Ferrara resumiu bem: “Espero que todos os envolvidos com este filme queimem no inferno”.

 

Diabolique

Em 1955, o francês Henri-Georges Clouzot dirigiu “Les Diaboliques”, uma obra-prima do terror psicológico. Quarenta e um anos depois, Hollywood destruiu a bagaça com uma das refilmagens mais vagabundas de todos os tempos, estrelado por Sharon Stone (indicada, com méritos, ao Framboesa de Ouro), Isabelle Adjani e Chazz Palminteri. O final merece ser visto, de tão grotesco.

 

The Ladykillers / Matadores de Velhinha

Onde os Irmãos Coen estavam com a cabeça em 2004, quando decidiram refilmar essa comédia negra clássica de 1955, com Alec Guiness no papel do chefe de uma quadrilha de ladrões? Aliás, que diretor Alexandre MacKendrick, não? Só por este e “Sweet Smell of Success”/ “Embriaguez doSucesso” (1957), obra-prima da velhacaria jornalística com Burt Lancaster e Tony Curtis, merecia entrar no panteão. Já os Coen vão esperar mais um pouco, especialmente depois de cometer uma das comédias mais insossas dos últimos anos.

 

O MAIOR CINEASTA QUE O BRASIL NÃO CONHECE

 

Nos últimos 20 anos, algum documentarista fez mais filmes interessantes do que Joe Berlinger? Só consigo pensar em dois: Errol Morris e Eduardo Coutinho.

Berlinger tem 52 anos e um currículo excepcional. Estreou no cinema em 1992, em parceria com Bruce Sinofsky, com “Brother’s Keeper”, história de três irmãos miseráveis de uma área rural no estado de Nova York que são acusados de matar o quarto irmão. O filme é um drama gótico bizarro e cheio de personagens inesquecíveis. Mais estranho que ficção.

 

 

Depois, Berlinger e Sinofsky dirigiram três filmes da série “Paradise Lost”, em que acompanharam, por 15 anos, o desenrolar do famoso caso ocorrido em West Memphis, no estado de Arkansas, quando três adolescentes foram presos injustamente pelo assassinato de três crianças em um suposto ritual de magia negra.

Em 2004, a dupla de cineastas lançou “Some Kind of Monster”, documentário que acompanhava a gravação do disco “St. Anger”, do Metallica, e,  em 2009, Berlinger dirigiu “Crude”, sobre a luta de uma tribo de índios do Equador para processar a Texaco por crimes ambientais que causaram o nascimento de dezenas de crianças com defeitos de nascença e problemas mentais.

 

 

Berlinger acaba de lançar seu novo filme: “Whitey – The United States vs. James Bulger”, história do gângster James “Whitey” Bulger, um assassino sádico que reinou na região de Boston do início dos anos 1970 a 1994, quando sumiu de circulação e só foi capturado 17 anos depois. Bulger foi a inspiração para o personagem de Jack Nicholson em “Os Infiltrados”, de Martin Scorsese.

O tema central do filme é o relacionamento de Bulger com o FBI. Há fortes indícios de que o criminoso era informante do FBI e que teria ajudado a polícia local a acabar com a máfia italiana na região de Boston, em troca de imunidade.  Sua fuga, em 1994, teria sido facilitada por agentes do governo americano.

Mas o filme de Berlinger levanta outra hipótese, ainda mais estarrecedora: Bulger não era informante, mas parceiro do FBI e da polícia local em todo tipo de crime: tráfico de drogas, extorsão, exploração de prostituição e jogos ilegais. Segundo alguns dos entrevistados, foi o próprio FBI que divulgou a suspeita de que Bulger era informante. Se ficasse comprovado seu relacionamento criminoso com o FBI, as famílias das 19 pessoas que ele matou, além das dezenas de comerciantes que extorquiu, poderiam processar o governo.

“Whitey” traz entrevistas com policiais, jornalistas, parentes das vítimas e com ex-parceiros de Bulger na gangue de Winter Hill, o grupo brutal que chefiou o crime organizado em Boston. O filme tem personagens fascinantes, como Bob Fitzpatrick, o lendário agente do FBI que participou de algumas das investigações mais importantes da agência (foi Fitzpatrick que achou o rifle que matou Martin Luther King e levou à prisão de James Earl Ray, além de ter chefiado o caso dos jovens ativistas mortos, contado no filme “Mississipi em Chamas”, e o caso de espionagem “Abscam”, contado no recente “A Trapaça”).

Assim como todos os outros filmes de Berlinger, “Whitey” não deve ser lançado no Brasil. A esperança é esbarrar no filme em algum canal a cabo durante uma noite insone, daqui a uns dois ou três anos. Juro que tentei assistir de maneira “oficial”: procurei no Netflix, mas não tinha; a Amazon Prime tem, mas não oferece para nós, moradores do Bananão. A solução foi achar no Cine Torrent. De novo.

FELIZ ANIVERSÁRIO, LEONARD COHEN!

leonardcohen 1 FELIZ ANIVERSÁRIO, LEONARD COHEN!

Ontem, Leonard Cohen completou oitenta anos. E amanhã sai seu 13º álbum de estúdio, “Popular Problems”.

Como bem escreveu Alexis Petridis, do “The Guardian”, os fãs de Cohen têm muito a agradecer a Kelley Lynch, a ex-agente e secretária pessoal do cantor. Se não fosse por ela, boa parte de nós bateria as botas sem ver Leonard Cohen em cima de um palco.

Explico: Cohen nunca foi de excursionar muito, e tinha feito sua última turnê no meio da década de 90. Continuou gravando, mas seus pensamentos estavam em um monastério budista na Califórnia, onde sonhava se aposentar.

Em 2004, gravou o que seria seu último disco, “Dear Heather”, um trabalho preguiçoso e abaixo de sua capacidade. Parecia o canto do cisne. Os monges o esperavam.

Foi aí que a filha de Cohen percebeu algo estranho na conta bancária do pai: Kelley havia surrupiado todas as economias dele, algo em torno de oito milhões de dólares. Subitamente falido, Cohen só teve uma alternativa: voltar à música.

Sorte nossa. Desde então, ele lançou um antológico disco ao vivo, “Live in London”, excursionou pelo mundo três vezes, tocando para os maiores e mais entusiasmados públicos de sua carreira, e gravou dois excelentes discos de estúdio, “Old Ideas” (2012) e “Popular Problems” (você pode ouvir este aqui no site da National Public Radio, o sistema de rádios públicas dos Estados Unidos).

- Leia aqui um texto que fiz sobre um show de Cohen em Madri, em 2012.

- E aqui uma entrevista com Sylvie Simmons, autora de uma sensacional biografia do cantor.

Diferentemente de vários artistas veteranos que só lançam novos trabalhos para ter a desculpa de excursionar, Leonard Cohen ainda parece ter muito o que dizer. Seus dois últimos discos são marcados por letras irônicas e mordazes sobre a finitude e a proximidade da morte.

Ele sempre conseguiu falar de temas sombrios sem parecer lúgubre ou apelar à autocomiseração, e o novo disco não é diferente. Quem mais poderia escrever versos como “Há tortura, há morte... e também minhas críticas ruins” (“Almost Like the Blues”)? Ou de relatar uma noite de amor com uma amante bem mais nova, em que pede que ela desacelere o ritmo para que possa acompanhá-la: “Deixe-me recuperar o fôlego / Achei que tínhamos a noite toda” (“Slow”)?

Aqui vau um clipe de “Almost Got the Blues”, aparentemente feito por um fã. Tem a letra completa da canção:

[youtube Quus1kcrbPk] 

Não posso esperar pelo anúncio da próxima turnê. Sugestão? Comece a economizar agora, e não perca o velhinho em ação.

JANTANDO A VACA SAGRADA: FEDERICO FELLINI

fellini and masina on the set of la strada JANTANDO A VACA SAGRADA: FEDERICO FELLINI

O canal Arte1 exibe hoje, às 21h30, “Oito e Meio”, de Federico Fellini. É um grande filme. Na minha opinião, o único grande filme da carreira do diretor e um dos poucos que revejo sem ter um ataque de diabetes.

Fellini dirigiu 20 longas, além de episódios em filmes colaborativos. Gosto de “La Dolce Vita” (1960) e das comédias que ele fez no início da carreira,“Abismo de um Sonho” (1952) e “Os Boas-Vidas” (1953), mas não compartilho do entusiasmo por alguns de seus filmes mais celebrados, como “A Estrada da Vida” (1954), “Noites de Cabíria” (1957) e “Amarcord” (1973).

Fellini adorava três coisas que eu abomino: circo, palhaços e Giulieta Masina. E em “A Estrada da Vida”, ele junta as três: Giulieta faz uma coitadinha que é obrigada a trabalhar num espetáculo circense mambembe e itinerante (a fórmula seria copiada, com resultados igualmente insuportáveis, em “Bye Bye Brasil”, de Cacá Diegues).

“Noites de Cabíria” é outro festival de pieguice, em que Giulietinha faz uma prostituta de coração de ouro que é maltratada pela vida, mas reage sempre com um sorriso e esperança no coração, snif, snif, buá, buá.

E “Amarcord”, a “delirante” homenagem de Fellini à sua infância e aos personagens excêntricos que a marcaram, é uma “Saramandaia” com grife, com direito a Dona Gorda e a sequências nauseabundas de realismo mágico. Tem quem goste.

Já eu gosto de “Oito e Meio” justamente porque não sofre do excesso de sacarina e barroco que costuma acompanhar a marca Fellini (e não vou nem começar a falar de “Julieta dos Espíritos”, “E La Nave Va” ou “Ginger e Fred”).

“Oito e Meio” traz o estilo visual típico do diretor e os mesmos personagens bizarros - palhaços, a gordinha sexy - mas os delírios não parecem colocados ali apenas como bijuteria ou decoração. Veja o trailer:

 

 

Na minha seleção italiana, Federico não fica nem no banco. O time - no 4-3-3 clássico - é Pasolini, Antonioni, Risi, Scola e Monicelli; Rosselini, De Sica e Visconti; Leone, Bertolucci e Argento. Os reservas são Petri, Bolognini, Steno, Ferreri, Zurlini e os irmãos Taviani; o técnico é Dino De Laurentiis e os auxiliares, Age & Scarpelli. Timaço.

Bom fim de semana a todos.

QUEM INVENTOU O ADOLESCENTE?

Acabo de ver um dos documentários mais inventivos e surpreendentes dos últimos tempos: “Teenage”, de Matt Wolf.

Na verdade, não é um documentário comum, mas um filme-ensaio, uma alegoria lúdica sobre um assunto fascinante: a invenção do adolescente.

Baseado no livro “Teenage: The Creation of Youth Culture, 1875-1945”, de Jon Savage – o mesmo Jon Savage que escreveu “England’s Dreaming” (1991), um dos melhores livros sobre a história do punk – o filme conta como o adolescente foi uma criação americana do pós-Segunda Guerra.

Usando apenas imagens de arquivo – cada uma mais espetacular que a outra – recriações de cenas de época e uma trilha sonora atmosférica e marcante de Bradford Cox (Deerhunter), “Teenage” mostra como os jovens passaram de mão de obra barata na época da Revolução Industrial a maior legião de consumidores do planeta.

Antes da Segunda Guerra havia apenas duas distinções de idade: crianças e adultos. Os jovens ajudavam os pais em trabalhos braçais e nas fábricas. Há cenas inacreditáveis de 1904, mostrando crianças de cinco ou seis anos trabalhando em máquinas industriais. O mundo das crianças era um pesadelo dickensiano de cidades cinzas e longas horas de trabalho. No future for you.

Nas duas guerras mundiais, os jovens foram explorados, tanto na produção de armas e materiais de guerra – carros, uniformes, equipamentos – quanto nos campos de batalha. Alguns se rebelaram, e nos locais mais improváveis: há a história dos jovens alemães que cultuavam o jazz americano de Duke Ellington e Louis Armstrong e arriscaram a vida dançando sons negros na Alemanha nazista. Uma foto mostra dezenas deles, enforcados pelos próprios alemães.

Uma das sequências mais espetaculares mostra um festival de jazz ao ar livre nos Estados Unidos, nos anos 20, em que jovens brancos e negros dançavam juntos o swing. A música ajudava a integrar racialmente um país que, ainda era dividido por um racismo profundo. A expressão de alegria e felicidade na cara dos adolescentes negros e brancos é uma das imagens mais marcantes que já vi.

O filme não tem entrevistas, apenas narrações feitas por jovens de diferentes nacionalidades. Uma alemã narra as cenas da juventude de seu país às voltas com o surgimento de Hitler; uma menina inglesa conta a experiência de viver num país arrasado pela guerra; um americano narra como o fim da Segunda Guerra trouxe ao país um progresso nunca visto até então.

Foi nessa época que a indústria pop percebeu que havia uma legião de consumidores de 16 a 20 anos, velhos demais para serem considerados crianças e novos demais para a vida adulta, e que formariam a base da indústria cultural a partir dali. É quando surge Frank Sinatra, o primeiro ídolo pop em escala mundial.

Mesmo que você não fale inglês perfeitamente, dá para acompanhar o filme numa boa, com legendas em inglês. As cenas de arquivo são impressionantes e dizem mais que qualquer narração. Você pode acessar o site do filme (aqui) e vê-lo no Netflix gringo (o Netflix nacional, essa porcaria que não tem uma fração do catálogo gringo, ainda não oferece o filme).

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