O LADO B DOS ANOS 70 EM HOLLYWOOD

O CCBB de São Paulo está exibindo, até o dia 9 de fevereiro, a mostra “Easy Riders: O Novo Cinema de Hollywood” (veja a programação aqui), com uma ótima seleção de filmes produzidos entre o fim dos anos 60 e o fim dos 70, um dos períodos mais criativos do cinema norte-americano.

A mostra inclui “O Poderoso Chefão”, “Tubarão”, “Taxi Driver”, "Sem Destino", “M.A.S.H.”, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” e “A Última Sessão de Cinema”, todos clássicos, que não vou perder tempo indicando.

Listei dez filmes bem menos conhecidos que estão na mostra e merecem ser vistos. Quem não mora em São Paulo pode ver a maioria em DVD, Blu-Ray ou nos Cines Torrents da vida. Lembrando que publiquei, há alguns meses, um texto sobre “O Comboio do medo”, de William Friedkin, que também está na mostra (leia aqui).

 

A Última Missão (The Last Detail, Hal Ashby, 1973)

Adoro esse filme. Jack Nicholson e Otis Young são dois oficiais da Marinha que recebem a missão de escoltar um jovem marinheiro (o ótimo Randy Quaid) para a prisão. Uma pérola anti-establishment do genial Hal Ashby (1929-1988).

 

Amargo Reencontro (Big Wednesday, John Milius, 1978)

Não foi só Coppola em “Apocalypse Now” que juntou surfe e a Guerra do Vietnã no mesmo filme. Esse drama de Milius conta a vida de três amigos surfistas (Gary Busey, Jan-Michael Vincent e William Katt) que tentam escapar da guerra. Há um ótimo documentário sobre Milius passando na HBO, que vale muito a pena assistir.

 

Cada um Vive Como Quer (Five Easy Pieces, Bob Rafelson, 1970)

Que ator era Jack Nicholson nos anos 70, não? Nesse drama, um filme triste sobre a falta de perspectiva e ideais da América nos anos 70, Nicholson faz um trabalhador de perfuração de petróleo que esconde o fato de vir de uma família rica e excêntrica. Quando o pai fica à beira da morte depois de um derrame, Nicholson pega a namorada - a extraordinária Karen Black - e cruza o país para se despedir. Bonito demais.

 

A Outra Face da Violência (Rolling Thunder, John Flynn, 1977)

Um dos filmes mais brutais do período, conta a história de Charles Rane (William Devane), um soldado americano que passa oito anos sequestrado por tropas vietnamitas e sofrendo torturas inimagináveis. Após ser solto, ele volta aos Estados Unidos só para descobrir que a violência em casa é até pior. Tarantino gosta tanto desse filme que batizou sua produtora de Rolling Thunder. O roteiro é de Paul Schrader.

 

Na Mira da Morte (Targets, Peter Bogdanovich, 1968)

Inspirado pelo caso real de um homem que subiu numa torre e matou diversas pessoas a tiros, Bogdanovich fez esse filme B para Roger Corman, inclusive utilizando Boris Karloff de coadjuvante (Karloff devia a Corman dois dias de filmagem). Lançado logo após os assassinatos de Robert Kennedy e Martin Luther King, o filme foi um fracasso de bilheteria, mas depois virou “cult”, sendo inclusive homenageado por Elvis Costello na faixa “Big Tears”.

 

Os Maridos (Husbands, John Cassavettes, 1970)

O cinema de Cassavettes explorou o vazio da vida de classe média americana, e “Husbands” é um de seus melhores filmes: uma história melancólica sobre três amigos (interpretados pelo próprio Cassavettes, além de dois membros constantes de sua trupe, Ben Gazarra e Peter Falk), que saem para uma noitada de bebedeira após saberem da morte de um amigo. Sempre achei que Pietro Germi se inspirou nesse filme para escrever “Meus Caros Amigos” (1975), que acabaria dirigido por Mario Monicelli depois que Germi morreu.

 

Nasce um Monstro (It´s Alive, Larry Cohen, 1974)

“Trashão” da melhor qualidade: um casal vai ao hospital para o nascimento de seu filho, mas o que sai da barriga da mamãe é um monstro mutante que mata tudo que vê pela frente. Os Ramones adoravam esse filme e batizaram seu primeiro disco ao vivo de “It´s Alive” em homenagem a ele.

 

Warriors – Os Selvagens da Noite (Warriors, Walter Hill, 1979)

Vi essa beleza num drive-in na Ilha do Governador e minha vida nunca mais foi a mesma. Numa Nova York dominada pela violência, gangues defendem seus bairros e enfrentam as outras em brigas até a morte.

 

Hardcore – No Submundo do Sexo (Hardcore, Paul Schrader, 1979)

Paul Schrader é um herói. Escreveu “Taxi Driver”, “Touro Indomável” e “A Costa do Mosquito”, dirigiu “Vivendo na Corda Bamba”, “Mishima”, “Affliction” e este “Hardcore”, um dos grandes filmes desconhecidos da “Nova Hollywood”. George C. Scott faz um pai que procura a filha desaparecida e descobre que ela atuou em um filme pornô. Joel Schumacher copiou 90% desse filme em “8mm”.

 

Terra de Ninguém (Badlands, Terrence Malick, 1973)

Martin Sheen e Sissy Spacek saem sem destino pelo meio-oeste americano nesse “road movie” violento e lírico, o primeiro longa dirigido por Malick – e seu melhor. Se você achar parecido com “Assassinos por Natureza”, de Oliver Stone, não é mera coincidência.

 

Corrida sem Fim (Two Lane Blacktop, Monte Hellman, 1971)

O cinema americano do fim dos 60 e início dos 70 abusou do automóvel como metáfora da vida sem limites e  símbolo da contracultura. É só lembrar “Sem Destino”, “Vanishing Point”, “Death Race 2000” e tantos filmes em que a estrada é uma analogia daqueles tempos caóticos em que ninguém conseguia saber o que aconteceria na próxima curva. “Two Lane Blacktop” é um grande “road movie”, uma parábola existencialista sobre a sociedade americana e que tinha no elenco dois músicos famosos: o baterista dos Beach Boys, Dennis Wilson, e o cantor folk James Taylor.

Bom fim de semana a todos.

“MERDA” PRA VOCÊ, BIRDMAN

Há alguns meses, fui com minha mulher a um restaurante. Sentamos ao lado de uma mesa que reunia quatro atores. Eles agiam como se estivessem num palco: falavam alto, faziam gestos exagerados e carregavam as frases de dramaticidade. Em certo momento, dois deles levantaram e interpretaram uma cena de alguma peça ou filme, sei lá. Foi um espetáculo vergonhoso de egos inflados e autoimportância. Só faltou o facho de luz iluminando a mesa dos quatro magnânimos enquanto a patuleia assistia ao espetáculo, embevecida de tanto talento e genialidade.

Contei esse caso porque vi “Birdman (ou a Inesperada Virtude da ignorância)”, de Alejandro González Iñárritu, e tive a mesma sensação constrangedora de ver atores se divertindo mais que o público.

Há muito tempo não assisto a um filme tão ególatra, pomposo e arrogante. Foram duas horas de absoluto vácuo, embaladas como grande fábula moral. Preferiria passar a noite toda no restaurante ouvindo os malas fazendo piadas internas e jogando confete uns nos outros. Pelo menos a comida era boa.

Até o nome é pretensioso: “Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância”). Os personagens são pessimamente escritos e desprovidos de qualquer humanidade. São arquétipos, clichês ambulantes, sem nuance ou mistério. Que esse roteiro pestilento tenha sido indicado a um Oscar (foram nove indicações no total!) mostra o nível rastaquera do cinema “adulto” de Hollywood.

A história gira em torno de Riggan Thomson (Michael Keaton), um ex-herói de blockbusters de ação e ator principal de uma franquia chamada “Birdman” (“Homem-Pássaro”, captou? Keaton fez o “Homem-Morcego”, uau, que sacada!), que decide dirigir e atuar na Broadway em uma adaptação teatral de uma história de Raymond Carver. O objetivo de Riggan é receber a aprovação crítica que nunca teve na época de “Birdman”. Ele – a exemplo de Iñárritu - quer ser relevante.

Em sua cachola perturbada, Riggan tem visões e ouve vozes – na verdade, o próprio personagem Birdman – que lhe orienta sobre a vida. Ao mesmo tempo, o ator tem poderes de poltergeist, movendo objetos e causando acidentes no palco, incluindo uma luz que cai na cabeça de um ator que não está rendendo bem nos ensaios.

O tal ator é substituído por Mike Shiner (Edward Norton), um enfant terrible da Broadway, tão talentoso quanto intempestivo e que nunca “se vendeu” ao comercialismo de Hollywood. Shiner passa 24 horas por dia emulando James Dean, com uma atitude punk de “foda-se o mundo” e um cigarro no canto da boca enquanto trombeteia a própria genialidade. Resumindo: um babaca completo.

Riggan tem uma filha, Sam (Emma Stone, atriz cuja ideia de intensidade dramática é abrir os olhos até atingirem o tamanho de dois pires e quase saltarem das órbitas), uma junkie que acaba de sair de uma clínica de reabilitação e é contratada pelo pai para ser sua assistente pessoal.

Os outros personagens são igualmente caricaturais: temos as atrizes Lesley (Naomi Watts), namorada de Mike, e Laura (Andrea Riseborough), namorada de Riggan, que só aparecem na história como figurantes das idiossincrasias dos respectivos amantes; Jake (Zach Galifianakis), agente de Riggan e que passa o filme todo aos berros ou às lágrimas; e, no fundo do poço, Tabitha Dickinson (Lindsay Duncan), uma temida crítica e último bastião da “resistência” anticomercial do teatro. Tabitha escreve suas resenhas ácidas do balcão de um bar e despreza Riggan como produto do culto a celebridades. Mais clichê, impossível.

“Birdman” acompanha os ensaios que antecedem à estreia da peça. Riggan e Shiner se digladiam para superar ao outro, mesmo que, à vista da equipe, digam “break a leg” (no Brasil, “merda”, expressão usada para desejar boa sorte a um ator). Riggan é extremamente inseguro e não se acha à altura de encarar um palco da Broadway. Já Shiner é um poço de ressentimento contra o sucesso comercial de Riggan e faz de tudo para humilhá-lo.

O filme trata de temas que poderiam ser interessantes, se não fossem mostrados de forma tão maniqueísta e simplória. Iñárritu tem a mão pesada para a sátira e suas piadas sobre a idiotice do cinema comercial hollywoodiano soam óbvias e redundantes.

Pior: ele parece acreditar na própria genialidade e encena todas as sequências do filme com a pompa da abertura de “A Marca da Maldade”. Não há um movimento de câmera que não tenha sido pensado para surpreender pela ousadia ou um diálogo que não termine com algum ator gritando, chorando ou sendo incomodamente histriônico. Não é à toa que Keaton, Norton e Emma Stone foram indicados ao Oscar: a Academia ama atores que dão chilique.

“Birdman” é cheio de cenas claramente inventadas para dar ao filme um verniz de ousadia: Mike Shiner entra no palco com uma ereção de meio metro; Laura e Lesley se beijam; Riggan Thomson fica preso de cuecas fora do teatro e precisa andar por Times Square seminu; e – acredite! – Riggan fuma um baseado enquanto olha para os lados, paranoico, certificando-se de que ninguém o está flagrando nesse crime hediondo. A caretice não tem limites.

Mas nada é mais irritante que a forma como Iñárritu escolheu para filmar “Birdman”. O filme é quase todo composto de longos planos-sequências, cenas sem cortes em que a câmera se move o tempo todo e persegue os atores.

O plano-sequência é uma das ferramentas mais bonitas e complexas do cinema. Os cineastas que sabem usá-la – Hitchcock, Ophuls, Godard, De Palma, Scorsese, Kalatozov, Tarkovsky – a utilizam para destacar grandes sequências de seus filmes. Hitchcock fez um filme inteiro – “Festim Diabólico” - formado por dez longos planos-sequência, mas havia uma razão: ele queria narrar a história em tempo real e no mesmo cenário para dar uma ideia de claustrofobia e suspense. Nesse caso, a técnica foi usada a favor da história.

Já Iñárritu usa o plano-sequência para se mostrar. Não há uma razão plausível para contar o filme todo dessa forma, a não ser uma necessidade patológica de exibir destreza técnica. Iñarritu criou o cinema-ostentação.

Vendo o filme, lembrei na hora uma declaração de Lux Interior, cantor de minha banda predileta, o Cramps, em que esculhambava o grupo new wave B-52s: “Eu até gostava deles, até descobrir que eles tiravam aquelas perucas engraçadas quando saíam do palco.” O que Lux queria dizer é que nada é mais repugnante que a falsidade e que não devemos aceitar o fake.

Se alguém quer comparar essa baba de “Birdman” com um filme verdadeiramente ousado, sugiro ver “Mapas para as Estrelas”, de David Cronenberg, que deve estrear em 19 de fevereiro. O filme traz alguns dos mesmos temas de “Birdman” – egos mastodônticos de astros do cinema, culto a celebridades, uma estrela decadente tentando reerguer a carreira, uma filha junkie – mostrados com um bilhão de vezes mais talento e coragem. Cronenberg não posa de louco, ele é louco de verdade e mostra isso em seu trabalho, sempre pessoal e único. Já Iñárritu é um rebelde poseur que fez um filme calculadamente “muito doido, bitcho”. Periga levar o Oscar.

AFINAL, JIMMY PAGE TOCOU NO THE WHO? E NO KINKS?

Há meio século era lançado o compacto de estreia do The Who, “I Can’t Explain”. Para comemorar os 50 anos a banda lançou uma nova coletânea, “The Who Hits 50”, e anunciou uma grande turnê na Europa e América do Norte. O Bananão, pra variar, ficou de fora.

A banda de Roger Daltrey (vocal), Pete Townshend (guitarra), John Entwistle (baixo) e Keith Moon (bateria) já havia gravado um compacto, “Zoot Suit”, em 1964, sob o nome The High Numbers. Mas “I Can’t Explain” foi a primeira gravação dos quatro com o nome The Who.

“I Can’t Explain” é uma jóia pop: dois minutos de um riff de guitarra memorável e uma letra espertíssima de Townshend, inspirada numa cena que viu na plateia de um dos primeiros shows da banda: rapazes “mods” tão inseguros e tímidos que não tinham coragem de atravessar o salão e convidar uma menina para dançar. Townshend fez uma letra que captava a insegurança adolescente e o sentimento de inadequação de muitos jovens da época. Foi uma das primeiras canções do pop a tratar da angústia teen.

Em “I Can't Explain”, Townshend copiou o riff de guitarra de “All Day and All of the Night”, do Kinks, grande sucesso na época. Seu objetivo era atrair a atenção de Shel Talmy, produtor do Kinks. E deu resultado: Talmy ouviu a canção e aceitou produzir o compacto, gravado no fim de 1964.

Além de ser um famoso produtor, Shel Talmy entrou para a história do rock por outro motivo: foi ele que contratou Jimmy Page, então um músico de estúdio de 20 anos de idade, para tocar em faixas que se tornariam clássicas como “All Day and All of the Night” e a própria “I Can’t Explain”.

Vale lembrar que o uso de músicos de estúdio era comum na época. Produtores usavam instrumentistas mais gabaritados para suprir deficiências técnicas de alguns integrantes das bandas. No primeiro compacto dos Beatles, "Love Me Do", de 1962, Ringo Starr foi substituído por um baterista de estúdio, Andy White. Antes de se tornar um astro do rock com o Led Zeppelin, Jimmy Page foi um dos mais requisitados músicos de estúdio da Inglaterra. Calcula-se que tenha tocado em pelo menos 60% dos discos de pop-rock gravados no país no início da década de 1960, incluindo hits de Tom Jones (“It’s Not Unusual”), Shirley Bassey (“Goldfinger”) e Them (“Gloria”), além das já citadas faixas de Kinks e Who.

Veja essa inacreditável entrevista com Page, em 1963, aos 19 anos, em que ele diz que trabalha como músico de estúdio “há 18 meses” e que planeja ganhar dinheiro com música para se tornar um artista plástico!

Voltando à gravação de "I Can't Explain": quando Talmy chegou ao estúdio acompanhado de Page, Townshend não gostou nem um pouco e exigiu tocar a guitarra principal. A participação de Page se restringiu a uma guitarra de apoio.

Outra gravação em que a presença de Jimmy Page causou atritos foi a de “You Really Got Me”, grande sucesso do Kinks. Talmy e o tecladista Jon Lord, que depois ficaria famoso no Deep Purple e tocou teclados em “You Really Got Me”, garantiam que Page havia gravado o famoso solo de guitarra, mas os irmãos Ray e Dave Davies sempre negaram.

Para irritar Page, Ray disse que ele havia tocado pandeiro na gravação. Page não quis botar lenha na fogueira e disse que não lembrava o que tinha gravado em “You Really Got Me”, "mas certamente não toquei pandeiro!". No entanto, pesquisadores garantem que a gravadora do Kinks, a Pye, ainda tem nos arquivos um take da canção com um solo do guitarrista do Led Zeppelin.

Jimmy Page sempre odiou falar sobre sua carreira de músico contratado, até para não causar brigas com outros artistas. Mas acabou revelando à revista “Uncut” uma história curiosa: “Outro dia eu estava ouvindo a BBC e eles tocaram uma canção. Eu disse: ‘Meu Deus, sou eu que estou tocando!’ Era ‘I’ve Got Everything You Need, Babe’, de Bern Elliot & the Fenmen’. Então eu certamente gravei essa canção, porque sou eu sem sombra de dúvida.”

Continua Page: “Naquela época a gente gravava e nem sabia de quem era a música. As sessões eram ininterruptas, uma depois da outra, sem intervalo. Nem eu tenho a lista de tudo que gravei e, sinceramente, não lembro muita coisa. Posso estimar quantas são. São muitas, posso garantir. Fiz isso por três anos seguidos, três sessões de gravação por dia.”

A MORTE DE UMA COELHINHA DA “PLAYBOY”

O coreógrafo, dançarino, ator e roteirista Bob Fosse (1927-1987) dirigiu cinco filmes. E pelo menos quatro são espetaculares: “Cabaret” (1972), “Lenny” (1974), “All That Jazz” (1979) e “Star 80” (1983).

Este último é uma raridade na TV brasileira e foi exibido recentemente no canal Max, que promete uma reapresentação para 2 de fevereiro, às 4h30 da manhã. Tome café, tome remédios, faça qualquer coisa, mas fique acordado para assistir.

O filme é baseado numa famosa reportagem do jornal “Village Voice”, vencedora do prêmio Pulitzer de jornalismo em 1981, sobre o assassinato de Dorothy Stratten, uma “coelhinha” da revista “Playboy” que foi morta pelo marido, Paul Snider.

A história de Dorothy envolve figurões do high society de Hollywood. Descoberta por Paul Snider quando trabalhava em uma lanchonete em Vancouver, no Canadá, Dorothy acabou nas páginas da “Playboy”. O dono da revista, Hugh Hefner, odiava Snider e o achava um aproveitador, que usava Dorothy para se aproximar de agentes e astros do cinema.

Hefner encorajava Dorothy a largar Snider e a apresentou ao cineasta Peter Bogdanovich (“A Última Sessão de Cinema”). Bogdanovich caiu de paixão pela moça. Dorothy pediu divórcio a Snider, que a chamou para uma conversa em sua casa e a matou a tiros. Dorothy tinha 20 anos.

Para tornar a história ainda mais escabrosa, Bogdanovich não só escreveu um livro sobre Dorothy (“The Killing of the Unicorn”, 1984), como acabou casando com a irmã caçula dela, Louise. Os tabloides fizeram a festa.

No filme, Fosse trocou o nome do cineasta, poupando Bogdanovich. Dorothy é interpretada pela neta de Ernest Hemignway, Mariel Hemingway (“Manhattan”, de Woody Allen), mas o destaque é Eric Roberts no papel de Paul Snider.

Irmão mais velho da atriz Julia Roberts, Eric é um ator extraordinário que despontou no início dos anos 80 com grandes atuações em “The Pope of Greenwich Vilage” (Stuart Rosenberg, 1984) e “The Coca-Cola Kid” (Dusan Makavejev, 1985), mas teve sérios problemas com drogas e viu sua carreira no cinema declinar. Nos últimos 20 anos, Roberts tem se dedicado mais a trabalhos para TV.

Na verdade, o personagem mais interessante e complexo de “Star 80” não é Dorothy Stratten, mas Paul Snider, um trambiqueiro que alimenta ilusões de grandeza e um ressentimento profundo contra o “sistema”, que não enxerga sua genialidade. Na pele de Snider, Roberts consegue ser ao mesmo tempo assustador e frágil.

Veja esse trecho de “Star 80”, com a fenomenal coreografia e montagem de Bob Fosse, e diga se Paul Thomas Anderson não se “inspirou” bastante nele para fazer “Boogie Nights”:

E se você gostar de “Star 80”, assista a outra cinebiografia genial e trágica dirigida por Bob Fosse: “Lenny”, sobre o comediante Lenny Bruce (1925-1966), um iconoclasta que chocou os Estados Unidos com suas piadas sobre raça, drogas e a caretice reinante no país. Para mim, é a maior atuação da carreira de Dustin Hoffman . Achei esse trecho no Youtube, com uma das cenas mais impactantes do filme (as legendas são ruins, mas dá para ter uma ideia do tom)...

Bem que alguma emissora poderia programar um “Especial Bob Fosse”. Seus filmes andam sumidos da TV e precisam ser vistos.

MACONHA MEDICINAL NÃO É CRIME

Uma excelente notícia: depois de anos protelando uma decisão, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) aprovou semana passada a liberação do uso medicinal do canabidiol, um dos princípios ativos da maconha (veja aqui). Com isso, o canabidiol sai de uma lista de substâncias proibidas no país e passa para uma lista de substâncias controladas. O canabidiol tem sido muito eficaz no tratamento de pacientes com epilepsia.

No fim do ano passado, estreou no Brasil o documentário “Ilegal”, de Raphael Erichsen e Tarso Araújo, que mostra a luta de pacientes para obter o medicamento. Vale muito a pena ver o filme e perceber como a burocracia, a ignorância e a incompetência do Estado praticamente condenaram um grande número de brasileiros a um sofrimento abjeto.

Uma das personagens principais do filme é Katiele Fischer, mãe de Anny, uma menina de cinco anos que sofre de um tipo incurável de epilepsia. Anny sofre oito a dez convulsões por dia, e o único remédio que alivia os ataques é o canabidiol. Katiele e o marido passam meses brigando para conseguir a liberação de carregamentos do remédio, que compraram nos Estados Unidos e estão retidos nos Correios.

O filme conta casos escabrosos: uma mulher usa maconha medicinal para aliviar dores causadas pela arrasadora quimioterapia a que teve de se submeter depois de um câncer, e acaba acusada de tráfico internacional de drogas; médicos temem prescrever canabidiol com medo de serem proibidos de trabalhar; mães agem como traficantes, recebendo os remédios do exterior escondidos em caixas de presentes.

No filme, Katiele vai ao Congresso Nacional pedir a deputados a retirada do canabidiol da lista de remédios proibidos. Os nobres parlamentares fazem promessa em cima de promessa. "Agora vai!", diz ela, cheia de esperança. Numa reunião marcada pela Anvisa para discutir o tema, o balde de água fria: a agência nega a liberação do medicamento.

Felizmente, a Anvisa voltou atrás e viu a besteira que fez. Pacientes e parentes de pessoas com epilepsia e outras doenças agradecem.

NOVA YORK OU CALIFÓRNIA?

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Muitos leitores escrevem para o blog perguntando sobre a experiência de viver no exterior. Fui correspondente de jornais nos Estados Unidos por oito anos, primeiro em Los Angeles e depois em Nova York, além de ter morado no país por um bom tempo quando adolescente, e posso falar um pouco sobre isso.

Pra começo de conversa, acho que qualquer experiência fora do Brasil é válida. Morar em outro lugar nos dá uma perspectiva diferente sobre nosso próprio país. Nada como a distância para fazer enxergar com mais clareza o que o Brasil tem de bom e de ruim.

Conheço bem algumas cidades norte-americanas – Nova York, Los Angeles, São Francisco, Washington, Chicago e Boston – além de ter passado algum tempo em Seattle, Vancouver e Portland. Recentemente, estive em Austin e gostei demais. Voltarei lá este ano.

Meus lugares prediletos na América do Norte são, disparado, Nova York e São Francisco. A primeira é uma megalópole fervilhante, com 8,5 milhões de pessoas espremidas em 789 km2 (ou 10.700 habitantes por km2, densidade populacional mais de três vezes superior a de Los Angeles), enquanto São Francisco é uma “grande pequena cidade”, com uma população - 837 mil habitantes - menor que a de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, mas uma vida cultural absurdamente rica.

Nos Estados Unidos sempre existiu uma rixa entre as costas leste e oeste. Os nova-iorquinos zombam de uma suposta falta de cultura da Califórnia (quem não lembra a famosa esculhambada que Woody Allen dá em Los Angeles em “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”: “Não quero viver numa cidade onde a única vantagem cultural é poder entrar à direita no farol vermelho”)? Já os californianos criticam o esnobismo nova-iorquino. Numa recente pesquisa feita no país (veja aqui), os americanos votaram em Nova York como a cidade mais rude a arrogante dos Estados Unidos. São clichês, claro, mas que possuem um fundo de verdade. De fato, Los Angeles é uma cidade muito ligada ao culto a celebridades, e Nova York não é exatamente conhecida pela gentileza de seus cidadãos.

Se eu pudesse escolher uma cidade para morar nos Estados Unidos, hoje, com dois filhos pequenos, iria para São Francisco. Nova York tem uma oferta muito maior de atividades culturais (é impossível passar um dia na cidade sem achar um show, uma exposição, uma peça ou uma palestra bacana para ir) e de restaurantes, mas gosto demais do tamanho de São Francisco e da oferta de atividades ao ar livre. O sistema de ciclovias é uma beleza, e basta sair um pouco da cidade para achar parques lindos para caminhar e pedalar.

Outra vantagem da costa oeste é o clima. Quem mora no Brasil pode achar São Francisco, com suas rajadas de vento, um tanto fria, mas nada que se compare ao inverno em Nova York. Conheço gente que adora a neve e as temperaturas abaixo de zero, mas eu não me incluo nesse grupo. Acho neve linda por meia hora. Mas experimente passar dois meses trancado em casa por causa de nevascas, como já aconteceu comigo em Nova York, e dá para entender porque Jack Nicholson terminou daquele jeito em “O Iluminado”.

Não é nada barato morar em Nova York ou São Francisco. Numa recente lista publicada pelo site da rede de TV CBS (veja aqui), a região metropolitana de Nova York ficou com três posições entre as cinco cidades mais caras do país: Manhattan em 1º, Brooklyn em 2º e Queens em 5º. São Francisco ficou na quarta posição, enquanto Honolulu, no Havaí, ficou em terceiro.

Mas uma coisa precisa ser levada em conta: a imensa quantidade de coisas que você pode fazer de graça ou quase de graça.

Quando morei em Nova York, nos anos 90, quase não precisava alugar filmes em locadoras, já que a oferta do acervo da Donnell Library, parte do sistema da New York Public Library, era descomunal. A Donnell tinha um acervo fantástico de filmes de arte, inclusive em película. Você podia reservar uma cabine particular e assistir a filmes antigos em 16mm. Passei uns cinco anos indo à Donnell pelo menos três vezes por semana. Infelizmente, a biblioteca fechou em 2008, quando o prédio foi vendido para um hotel.

Talvez uma boa saída para morar em um lugar legal sem gastar os tubos seja procurar uma cidade menor e menos falada. Tenho amigos que moram em Portland, Seattle e Austin, e adoram (se bem que os aluguéis em Austin estão subindo absurdamente).

Mas cada cidade tem seus prós e contras. Experimente achar um restaurante aberto às 10 da noite em Portland. Impossível. Um conhecido mudou de Los Angeles para Seattle e durou quatro meses na cidade. Ele contou que choveu por quase cem dias seguidos e lhe bateu uma depressão desesperadora.

De qualquer forma, acho que a experiência de morar no exterior é não só válida, mas necessária. E não só nos EUA, claro: eu moraria tranquilamente em Buenos Aires ou Madri (adoro Berlim, mas o inverno é de lascar, e fiquei alucinado com Budapeste, mas enfrentar os meses de gelo também não deve ser mole). Quero muito conhecer a Austrália, que parece, por relatos, uma mistura ideal de natureza linda e organização. A ver.

Bom fim de semana a todos.

P.S.: Estarei fora até o fim da tarde e impossibilitado de moderar comentários. Se o seu comentário demorar a ser publicado e respondido, peço desculpas e um pouco de paciência. Obrigado.

OSCAR: JAKE GYLLENHALL FORA, ROSAMUND PIKE DENTRO – ALGUÉM EXPLICA?

oscar1 OSCAR: JAKE GYLLENHALL FORA, ROSAMUND PIKE DENTRO   ALGUÉM EXPLICA?
Aconteceram algumas surpresas no anúncio dos indicados ao Oscar (veja lista completa na cobertura do Oscar do R7, aqui).

Para começar, “Foxcatcher”, um dos filmes mais elogiados pelos críticos norte-americanos (não vi ainda, então não posso opinar sobre o filme) não ficou nem entre os oito indicados ao prêmio de melhor filme.

Também achei estranhas as ausências de Jake Gyllenhall (“O Abutre”) e Ralph Fiennes (“O Grande Hotel Budapeste”) na categoria “melhor ator”. Não consegui ver “Mr. Turner”, mas parece que Timothy Spall está fabuloso.

Não vou fazer previsões agora, até porque não vi alguns dos principais indicados. Mas fiquei feliz ao ver três ótimos cineastas - Alejandro González Iñárritu (“Birdman”), Richard Linklater (“Boyhood”) e Wes Anderson (“O Grande Hotel Budapeste”) como os favoritos na categoria de “melhor diretor”.

Alegria incomensurável foi ver os abacaxis “Interestelar” e “Garota Exemplar” praticamente alijados das disputas principais, com exceção da inexplicável indicação da Cigana Igor Rosamund Pike pelo papel da criminosa mais burra do mundo em “Garota Exemplar”.

A lista de indicados este ano reforça uma tendência que vem ganhando força na última década: desde 2003, quando “O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei” venceu, nenhum filme ganhador do Oscar foi um grande sucesso de bilheteria.

Dos favoritos da safra 2014, o mais bem colocado nas bilheterias americanas no ano é “O Grande Hotel Budapeste”, em 54º lugar. “Birdman” está em 94º e “Boyhood”, em 100º.

A explicação é simples: com Hollywood cada vez mais interessada em atrair adolescentes para filmes baseados em gibis e que rendam infinitas sequências, filmes para adultos tem sofrido nas bilheterias. Hollywood, cada vez mais, é da molecada.

A cerimônia de entrega do Oscar acontece domingo, 22 de fevereiro. Alguns dias antes, publico aqui minha lista de favoritos. Até lá.

P.S.: Estarei fora até a noite e impossibilitado de moderar comentários. Se o seu comentário demorar a ser publicado e respondido, peço desculpas e um pouco de paciência. Só devo conseguir responder aos comentários sexta de manhã. Obrigado.

QUEM TEM TEMPO PRA TANTA MÚSICA?

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Que “That’s the Way It Is”, o álbum ao vivo gravado por Elvis Presley em 1970, é um clássico do pop, ninguém questiona. Mas alguém precisa de DEZ discos com as mesmas músicas?

A versão “deluxe” de “That’s the Way It Is” acaba de sair no exterior, trazendo, além do disco original, seis CDs com outros shows da mesma turnê, um CD de ensaios e dois DVDs com versões diferentes do documentário gravado naquela excursão. Ufa.

E que tal seis CDs e um DVD celebrando “Adore”, o disco que o Smashing Pumpkins gravou em 1998, incluindo a versão mono, demos, ensaios e versões ao vivo (tem até faixas gravadas em São Paulo!), além de um DVD com a íntegra de um show? Exagero?

E “The Velvet Underground”, terceiro disco do Velvet e o primeiro sem John Cale? O LP original é uma maravilha – “Pale Blue Eyes”, “Candy Says”, “Beginning to See the Light” – e você certamente o tem em sua coleção. Mas agora pode comprar a versão “Super Deluxe de 45º Aniversário”, com nada menos de seis discos.

Se preferir, pode ter os quatro discos da versão ultra-super-fodona de “Setting Sons”, do The Jam, ou três CDs celebrando um disco que nem é lá grandes coisas, "Defenders of the Faith”, do Judas Priest. Os deuses da indústria musical devem estar loucos.

Ou não. Se você é uma gravadora, relançar discos velhos é a coisa mais lucrativa a fazer.

Para começar, não há custos de gravação ou cachês para os artistas. A divulgação é fácil: esses discos já contam com um fã-clube consolidado, que vai adorar comprar novas versões de discos que já possuem.

Os números são impressionantes: em 2010, pela primeira vez, consumidores norte-americanos compraram mais discos de catálogo do que novidades.

Segundo o site Wondering Sound, dos 450 títulos lançados para o “Record Store Day” de 2014, nada menos de 243, ou 54%, eram relançamentos.

As versões remasterizadas dos discos do Led Zeppelin, lançadas recentemente por Jimmy Page, venderam 90 mil cópias cada, sendo que “Led Zeppelin 4” chegou a número 7 na parada da “Billboard”, 43 anos depois de seu lançamento original.

Pessoalmente, abomino essas versões “deluxe” cheias de extras. Ninguém precisa ouvir os demos de “Doolittle”, do Pixies, a menos que você seja tão fanático pela banda que não consiga dormir sem saber se Black Francis mudou a letra de “Wave of Mutilation”. Existe uma razão pela qual essas versões continuaram demos: o artista não quis lançá-las no disco oficial.

Os relançamentos que me interessam são as caixas que reúnem discos do catálogo de certos artistas, e que estão sendo vendidas a preços muito bons. Que tal pagar 170 dólares pela caixa com os dez discos do Roxy Music? Ou a bagatela de 50 doletas na caixa com os 11 primeiros discos de Leonard Cohen?

Recentemente, saíram caixas de Sly and the Family Stone, Sleater-Kinney, Bruce Springsteen, Captain Beefheart, e uma reunindo todos os discos solo de George Harrison de 1968 a 75. Isso sim é música para os ouvidos.

ADEUS, LINCOLN OLIVETTI, “MESTRE DOS MESTRES”

lincolnolivetti ADEUS, LINCOLN OLIVETTI, “MESTRE DOS MESTRES”
Muito triste com a morte do músico Lincoln Olivetti, aos 60 anos.

Um dos maiores arranjadores do pop brasileiro, Olivetti era um tipo recluso, que não gostava de dar entrevistas e se mantinha longe de jornalistas. Levei quase nove meses para conseguir falar com ele para meu livro “Pavões Misteriosos – 1974-1983: a Explosão da Música Pop no Brasil”. Ele só aceitou falar por 20 minutos e pelo telefone.

Olivetti não gostava de jornalistas porque ainda se considerava injustiçado pela avalanche de críticas que recebeu, especialmente no fim dos anos 70, quando foi acusado de “pasteurizar” a música brasileira e torná-la mais comercial.

Seu currículo é impressionante: ele tocou e fez arranjos de metais em Rita Lee, lp que tinha “Lança perfume”, “Baila comigo” e “Caso sério”; fez os arranjos de “Festa do interior” e “Meu bem, meu mal” para Gal Costa, de “Não chore mais” e “Palco” para Gilberto Gil, e de “Eu e você, você e eu” e “Acenda o farol”, para Tim Maia. Trabalhou em centenas de discos de sucesso.

Como a notícia da morte de Olivetti pegou todo mundo de surpresa, resolvi publicar aqui, sob risco de parecer cabotino, mas já me desculpando antecipadamente, outro trecho de “Pavões Misteriosos”, que conta um pouco da vida e carreira desse música excepcional. Aqui vai:

Dos arranjadores e produtores que despontaram no fim da década de 1970, um dos mais polêmicos, influentes e talentosos foi Lincoln Olivetti. Personagem enigmático e recluso, avesso a entrevistas e a marketing pessoal, Olivetti foi, por muito tempo, malhado pela crítica e acusado de “pasteurizar” a música brasileira e torná-la excessivamente comercial. Seus pares, no entanto, o consideram uma sumidade. Perguntei a oito músicos o que achavam dele, e seis usaram a mesma palavra para defini-lo: “gênio”. Lulu Santos o chamou de “mestre dos mestres”; Pepeu Gomes o considera “um músico sempre à frente do seu tempo, fora de série, com um ouvido absoluto”.

Lincoln Olivetti nasceu em 1954 em Nilópolis, na Baixada Fluminense. O pai, Milton, era advogado e trabalhava em cartório, mas também compunha e tocava vários instrumentos. Lincoln começou a estudar piano ainda criança e logo se interessou por gravação e mixagem. Aos catorze anos, era dono de uma mesa de som Tascam e tocava teclados em bailes e festas. No fim dos anos 1960, montou um conjunto de baile que reinou em clubes como Nilopolitano, Ideal, Pavunense, Mesquita, Vasquinho de Morro Agudo e Esportivo da Penha, onde dividia o palco com A Bolha, Os Devaneios e Lafayette [tecladista de Roberto Carlos e da Jovem Guarda]. O repertório era o mais variado. “Eu tocava Jethro Tull, Humble Pie e Iron Butterfly, e emendava Emerson, Lake & Palmer com ‘Aquele abraço’, do Gil”, ele conta.

No início dos anos 1970, Olivetti já era uma lenda no subúrbio e tinha o melhor grupo de baile da cidade. “Eles tocavam Santana, Deep Purple, e eu ficava louco com aquilo”, lembra o compositor Paulo Massadas. Um dia, Massadas e um amigo foram à casa de Lincoln e encontraram o tecladista de pijama, na varanda. Lincoln os convidou para entrar. Massadas viu um piano na sala e começou a tocar “Love”, de John Lennon [“Love is real/ real is love/ love is feeling/ feeling love”]. Lincoln pediu para tocar. “Mas continua cantando, vai”, disse a Massadas. Depois de alguns minutos, Lincoln perguntou:
— Quer tocar comigo?
— Tocar ou cantar?
— Cantor eu já tenho, preciso de um contrabaixista. Quer tocar baixo?
— Mas eu não sei tocar baixo.
— Não tem problema, eu te ensino.
Para Massadas, que não se considerava um músico à altura de tocar com Olivetti, aquilo foi um desafio e uma honra: “Foi como se Paul McCartney me chamasse pra tocar”. Em um mês, ele estava tocando Led Zeppelin, Deep Purple e Humble Pie. Pouco depois, Massadas foi promovido a cantor da banda. “O Lincoln sacou que minha voz era boa pra cantar rock, que não tinha muita voz assim no Brasil, meio rasgada.”

Apesar de dominar técnicas de gravação e mixagem, Olivetti não pretendia trabalhar com produção de discos. Queria mesmo era alugar seus teclados, como fazia José Roberto Bertrami, tecladista do Azymuth: “Isso dava uma boa grana”. Em 1973, foi a São Paulo com o amigo Papi – que depois integraria o grupo Painel de Controle – mostrar músicas para Antonio Marcos, que estava gravando O homem de Nazaré. Lincoln foi à casa Del Vecchio, comprou um violão de doze cordas e acabou tocando violão e teclados nesse disco de Antonio Marcos, que teve arranjo do maestro Chiquinho de Moraes. “O Chico virou pra mim e disse: ‘Em cinco anos, você vai ser o melhor arranjador do Brasil’. Eu disse que não queria fazer arranjo, que isso dava um trabalho fodido.”

Em 1976, Olivetti conheceu o músico Robson Jorge durante a gravação de “Fim de tarde”, balada soul que Robson e Mauro Motta fizeram para a cantora Claudia Telles, filha de Sylvinha Telles, pioneira da Bossa Nova. “Essa foi a primeira grande música pop brasileira que ouvi”, lembra Massadas. “Era uma coisa nova no Brasil, com um arranjo supermoderno. Essa música marcou demais e influenciou muita gente.” Certamente marcou Olivetti, que iniciou uma parceria de sucesso com Robson Jorge. A colaboração culminou no disco instrumental Robson Jorge e Lincoln Olivetti, uma joia da soul music brasileira, lançado em 1982.

Olivetti participou, como músico ou arranjador, de muitos discos de sucesso na passagem dos anos 1970 para os 1980. Tocou e fez arranjos de metais em Rita Lee, lp que tinha “Lança perfume”, “Baila comigo” e “Caso sério”. Fez os arranjos de “Festa do interior” e “Meu bem, meu mal” para Gal Costa. Trabalhou com Jorge Ben em “Salve simpatia”, fez arranjos para Gilberto Gil em “Não chore mais” e “Palco”, e para Tim Maia em “Eu e você, você e eu” e “Acenda o farol”. Olivetti se especializou em arranjos festivos e dançantes, que alavancavam a vendagem dos discos, mas que nem sempre tinham os elogios da crítica. “Fui acusado de pasteurizar a mpb, mas eu só estava fazendo o que julgava melhor para os artistas.”

Roberto de Carvalho, marido e parceiro de Rita Lee, diz que contar com Olivetti e sua turma, no estúdio, representava um tremendo upgrade musical: “As gravações eram orgânicas, no primeiro take já estava tudo lá, sem muito playback. De um bom gosto a toda prova”. Lulu Santos lembra a reação negativa da crítica musical quando Gal Costa gravou o arranjo de Olivetti para “Festa do interior”, de Moraes Moreira: “Acho a gravação de Gal um glorioso monumento à melhor mpb. Foi um estouro sem tamanho. A reação da crítica foi de escárnio e fobia. Lembra o ‘Narciso às avessas’ do Nelson Rodrigues, uma incapacidade de lidar com o prazer da realização e a vitória”. Olivetti minimiza sua contribuição em “Festa do interior”, dizendo que a batida que há no começo da música foi uma ideia de Moraes Moreira e já tinha sido aprovada pelo público na temporada que Gal fizera no Canecão. As rusgas de Olivetti com a imprensa aumentaram por causa de seu temperamento fechado: “Sempre caguei e andei pra entrevista, só me preocupava com meu trabalho, não ligava pra festa nem autopromoção”. Seus hábitos de trabalho eram peculiares: ele costumava gravar só de madrugada. Pepeu Gomes apelidou o estúdio de Olivetti de “Morcegão”: “Eu ligava: ‘Aí, Lincoln, hoje tem Morcegão?’. E sabia que ia rolar sessão a noite toda”.

P.S.: Estarei fora até o meio da tarde e impossibilitado de moderar comentários. Se o seu comentário demorar a ser publicado e respondido, peço desculpas e um pouco de paciência. Obrigado.

WHIPLASH: A TORTURA DO SOLO DE BATERIA

Ossos quebrados, sangramentos, esgotamento físico e mental, impulsos suicidas, depressão, tortura psicológica... Não é o resultado de um teste para o BOPE, mas a audição para uma prestigiada escola de música de Nova York, sob o comando de Terence Fletcher (J.K. Simmons), mostrada em “Whiplash”.

Fletcher é um dos personagens mais odiáveis que o cinema mostrou em muito tempo. Seu sadismo, maldade e arrogância só têm paralelo em personagens militares especializados em treinar meninos para a guerra, como o sargento Hartman interpretado por R. Lee Emmey em “Nascido para Matar” (Stanley Kubrick, 1987) ou o sargento Emil Foley vivido por Louis Gossett Jr. em “A Força do Destino” (Taylor Hackford, 1982).

Fletcher é o professor mais temido da escola Shaeffer, e os poucos alunos escolhidos para seu grupo de jazz passam por ensaios torturantes, mas sabem que podem sair dali e conseguir uma vaga em alguma grande banda – ou até, quem sabe, tocar com Wynton Marsalis na Orquestra do Lincoln Center.

É o sonho de Andrew Neyman (Milles Teller), um jovem ambicioso, que chega à escola e logo entra em rota de colisão com Fletcher. Este percebe talento no rapaz, mas o submete a um jogo psicológico para quebrar sua confiança e fazê-lo se esforçar cada vez mais.

O tema de “Whiplash” é a disputa entre mestre e pupilo. O que, na teoria, deveria ser um relacionamento paternal e carinhoso, com o veterano abraçando o novato e o guiando na direção da genialidade, aqui é uma briga de MMA, em que Fletcher tenta destruir a psique de Neyman para fazê-lo perceber que só a transpiração leva à inspiração.

Isso torna Neyman um músico melhor, mas destrói sua vida. Ele é incapaz de manter uma conversa com qualquer um que não envolva falar de jazz e de seus ídolos - Buddy Rich, Bob Ellis, etc. – e vê até sua vida amorosa prejudicada. Não parece haver espaço para romantismo no jazz.

Essa é uma questão interessante do filme: fazer música não deveria ser um prazer? Mas você sai da sessão com sérias dúvidas sobre isso. Durante todo o filme, não há um momento sequer em que os músicos parecem estar se divertindo. “Whiplash” parece um “Survivor” do jazz.

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