Mel Gibson, Michelle Pfeiffer e Kurt Russell: diversão para adultos

O horário é péssimo, mas sempre dá pra gravar: na madrugada de terça pra quarta, às 5h30, o canal Max Up exibe “Conspiração Tequila” (“Tequila Sunrise”, 1988), de Robert Towne.

Vale a pena assistir. Não é nenhum filmaço, mas é dos exemplares mais representativos de um tipo de cinema que Hollywood deixou de fazer há uns 20 anos: o entretenimento adulto.

Hoje, quando a indústria do cinema concentra esforços em atrair o público infanto-juvenil, bem menos exigente e mais lucrativo que o público adulto, filmes como “Tequila Sunrise” sumiram das telas. Quem tem mais de 20 anos só quer ver séries de TV.

“Tequila Sunrise” é diversão escapista, mas de primeira categoria. Basta ver as credenciais da equipe: o diretor e roteirista é Robert Towne, que escreveu “Chinatown” (Roman Polanski, 1974), “Shampoo” (Hal Ashby, 1975) e “Missão Impossível” (Brian De Palma, 1996), além de ter colaborado, muitas vezes sem crédito, em roteiros como os de “O Poderoso Chefão” (Francis Ford Coppola, 1972), “Bonnie and Clyde” (Arthur Penn, 1968), “The Parallax View” (Alan J. Pakula, 1974) e “Maratona da Morte” (John Schlesinger, 1976), entre muitos outros.

A fotografia é de Conrad Hall (1926-2003), que fotografou só “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (George Roy Hill, 1969), “A Sangue Frio” (Richard Brooks, 1967), “Fat City” (John Huston, 1972) e “Beleza Americana” (Sam Mendes, 1999).

A música é de Dave Grusin, que ganhou 12 Grammys e fez trilha e canções para mais de cem filmes, incluindo “Tootsie” (Sidney Pollack, 1982), “A Primeira Noite de um Homem” (Mike Nichols, 1967), “O Céu Pode Esperar” (Warren Beatty e Buck Henry, 1978) e “Num Lago Dourado” (Mark Rydell, 1981).

O elenco também é fraquíssimo: tem só Mel Gibson fazendo um ex-traficante de drogas que tenta largar o crime e disputa uma lindíssima, inteligente e charmosa dona de restaurante (Michelle Pfeiffer) com um detetive da polícia de Los Angeles – e seu amigo de infância – interpretado por Kurt Russell, em meio a uma caçada da polícia a um chefão do tráfico mexicano vivido por Raul Julia (1940-1994). O elenco de apoio também é de quinta categoria, com o inesquecível J.T. Walsh (1943-1998) no papel de um detetive e Arliss Howard fazendo um advogado bandido.

“Tequila Sunrise” não é nenhuma obra-prima, e nem pretende ser. É um empreendimento comercial, feito para faturar alto nas bilheterias. Mas, diferentemente de hoje, é um filme comercial muito bem escrito, bem atuado, com uma história envolvente e diálogos espertíssimos.

Foi só o segundo filme de Towne na direção. Ele havia estreado comum filme tão bom quanto desconhecido, “Personal Best” (1980), em que Mariel Hemingway interpreta uma corredora norte-americana que tenta se classificar para as Olimpíadas de Moscou, em 1980 (que seriam boicotadas pelos Estados Unidos), e acaba se apaixonando por uma colega de equipe.

Towne é das figuras mais excêntricas de Hollywood: considerado um genial “script doctor”, espécie de revisor que diretores contratam para melhorar roteiros, tem um ego do tamanho de um bonde e se recusou a assinar roteiros em filmes que não julga bons. Em 1984, chateado com o resultado de “Greystoke: a Lenda de Tarzan”, de Hugh Hudson, creditou o filme a P.H. Vazak, seu cachorro. Vakaz tornou-se o primeiro cão indicado ao Oscar de melhor roteiro.

Texto de hoje será publicado mais tarde

Quem segue o blog sabe que os textos costumam ser publicados de manhã cedo. Mas a FLIP, que terminou domingo à tarde, atrapalhou meus planos. O texto de segunda será publicado por volta de 11 da manhã.

Obrigado.

Nina Simone: quando a música importava

Assistir a “What Happened, Miss Simone?”, a cinebiografia da cantora Nina Simone (1933-2003) , é uma experiência deprimente. Não pelo filme, que é ótimo, mas pela comparação entre Nina Simone e o atual cenário musical. O documentário escancara o abismo de talento e relevância que existe entre a música contemporânea e a de 30 ou 40 anos atrás.

Disponível no Netflix brasileiro, o documentário teve a participação da família de Simone e, talvez por isso, ignore algumas passagens mais dramáticas e tristes da vida da cantora, especialmente o terço final de sua trajetória, marcada por depressão, drogas e surtos psicóticos. Nem sinal da célebre história em que Nina Simone deu um tiro num executivo de gravadora, ou de relatos dos inúmeros shows que ela interrompeu para sair na porrada com alguém na plateia.

O essencial está ali: nascida Eunice Waymon numa família pobre de oito irmãos na Carolina do Norte, começou a tocar piano em cultos ministrados pela mãe, uma pastora metodista. Eunice sonhava em ser pianista clássica, “a primeira negra pianista clássica dos Estados Unidos”. Mas a realidade foi bem mais dura, e ela ganhou a vida cantando blues e jazz em clubinhos de Atlantic City. Mudou o nome para Nina Simone para que a mãe não descobrisse.

Em 1959, George Wein, o famoso empresário que criou o Newport Jazz Festival, viu Nina Simone pela primeira vez e ficou marcado para sempre pela experiência: “A profundidade e escuridão daquela voz me fascinaram de uma maneira difícil de explicar”. Wein não foi o único.

Dois anos depois, Simone casou com Andrew Stroud, um policial barra pesada do Harlem, que largou a polícia para virar empresário da cantora. Nina e Andrew tiveram uma filha e ganharam bastante dinheiro, mas a relação do casal era das piores. Ele a submetia a um calendário brutal de shows e, vez por outra, lhe dava surras terríveis.

 

 

Em setembro de 1963, uma bomba explodiu numa igreja em Birmingham, no Alabama, matando quatro crianças negras. O atentado supremacista ocorreu dois meses depois do assassinato do líder negro Medgar Evers, amigo de Nina, e ela entrou em parafuso. Compôs e gravou “Mississipi Goddam”, uma das músicas de protesto mais furiosas de todos os tempos, e efetivamente destruiu a própria carreira. Passou a cantar somente músicas de cunho político. Seus discos pararam de vender e os shows rarearam.

Os assassinatos de John Kennedy (1963), Malcolm X (1965), Bobby Kennedy (1968), Martin Luther King (1968) e Fred Hampton (1969) deram a Nina a certeza de que uma guerra racial estava em curso no país, e ela passou a defender a violência contra o “domínio branco”. Uma das cenas do filme mostra a cantora perguntando à plateia em um show: “Vocês estão prontos para incendiar prédios?”.

 

 

Se hoje a radicalização política de Nina Simone pode soar paranoica e agressiva, é preciso analisar o contexto da época e o passado da cantora para tentar entender suas motivações. Numa época em que amigos e políticos que ela admirava eram mortos, jovens negros eram mandados para o Vietnã em números proporcionalmente muito maiores que jovens brancos, e grupos armados como os Panteras Negras prometiam incendiar o país, todo o ressentimento de uma infância passada em um lugar segregado, onde os pais não podiam sequer entrar nos teatros onde Nina tocava piano, fez explodir nela uma fúria incontrolável.

Por quase dez anos, Nina Simone sabotou a própria carreira. Defendeu o poder negro “por todos os meios necessários”, aproximou-se de grupos radicais e criticou artistas negros que, segundo ela, faziam concessões ao mercado.

No início dos anos 70, falida e cansada de apanhar do marido, separou-se de Stroud e decidiu abandonar os Estados Unidos. Foi para Barbados, onde teve um caso com o Primeiro Ministro local, e depois para a Libéria, onde pôde conhecer suas raízes africanas. Mas sua psique estava abalada, e ela começou a dar sinais de depressão e bipolaridade. A filha conta que, numa viagem à Libéria, apanhou tanto da mãe que fugiu de volta para Nova York.

Se o filme pula alguns momentos mais constrangedores da vida de Nina Simone (a palavra “cocaína” sequer é citada), vale pelas imagens da mulher cantando e tocando piano. O que é aquilo? Já existiu algum performer mais intenso e imprevisível?

Vendo Nina cantando “I Put a Spell on You”, “Young, Gifted and Black” ou “Mississipi Goddamm”, a sensação é de ver alguém tirando a roupa no palco. A mulher nunca teve máscaras  ou se escondeu por trás de teatralidades e encenações. Ela era sua música.

 

 

Há uma cena de um show em Montreux, em 1976, que marcou a volta da cantora à Suíça depois de uma ausência de oito anos, em que ela encara a plateia por uns dois minutos, sem dizer nada, como se estivesse tentando entender o que fazia ali. A confusão mental de Nina Simone é evidente. Só ela podia saber o que estava pensando. Mas a plateia ficou muda. Ninguém deu um pio, respeitando aquele momento tão íntimo em que a cantora, mesmo na frente de tantas pessoas, estava sozinha com ela mesma.

Ouvir Nina Simone destrói tudo que vem depois. É impossível ver esse filme e depois ligar a TV, ouvir o rádio ou saber as últimas novidades do Facebook sem pensar na futilidade e no nível rastaquera do nosso cotidiano. Resumindo: a obra de Nina Simone está aí, e a vida é muito curta pra perder com besteira.

Bom fim de semana a todos.

P.S.: Estarei fora até o fim da tarde e impossibilitado de moderar comentários. Se o seu comentário demorar a ser publicado, peço desculpas e um pouco de paciência. Obrigado.

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Killing Joke, The Damned e Carlos Imperial…

Aqui vai a segunda - e última - parte com as dicas dos melhores filmes do In-Edit: Festival Internacional de Documentários. Corra!

 

The Possibilities are Endless

Edwyn Collins foi líder da banda indie escocesa Orange Juice, que influenciou Teenage Fanclub, Belle and Sebastian e muitos outros. Também tece uma carreia solo de sucesso com músicas como “A Girl Like You”.Em 2005, Collins sofreu uma hemorragia cerebral, ficou em coma e quase morreu. Perdeu os movimentos do lado direito do corpo e não conseguia mais se comunicar. Esse filme relata o longo, doloroso e comovente processo de recuperação de Collins, que vive até hoje numa pequena vila na costa leste da Escócia. Bonito demais.

 

The Death and Ressurrection Show

Se você ainda não se converteu ao evangelho do Killing Joke, esse filme pode ajudar. Com cenas de arquivo mostrando 30 anos de shows da banda e entrevistas com os integrantes, colaboradores e admiradores como Jimmy Page, o onipresente Dave Grohl e Alex Patterson (The Orb), “The Death and Ressurrection Show” é imperdível.Se o filme tivesse só as divagações existenciais e obsessões ocultistas de Jaz Coleman, já valeria a pena. Mas as cenas do KJ ao vivo são matadoras, assim como as imagens da banda gravando nas pirâmides do Egito.

 

The Case of the Three Sided Dream

Rahsaan Roland Kirk (1935-1977) foi um dos personagens mais interessantes e radicais do jazz norte-americano. Cego desde criança devido a um erro médico, Kirk tocava sax, clarinete, flautas e quase todos os instrumentos de sopro. Detalhe: ao mesmo tempo. Seus shows eram incríveis, com Kirk subindo ao palco com três instrumentos de sopro pendurados no pescoço e misturando, a seu jazz livre, sons de relógios, gongos e bases pré-gravadas. Kirk não parou de inovar nem depois de um derrame que paralisou o lado direito de seu corpo: ele simplesmente modificou seus instrumentos para poder tocá-los com uma mão só. Não perca esse filme de jeito nenhum.

 

The Damned: Don’t You Wish We Were Dead

O Damned surgiu em 1976 e lançou o primeiro compacto do punk inglês (“New Rose”) e o primeiro LP de uma banda punk britânica (“Damned Damned Damned”), mas nunca teve a moral e sucesso de seus contemporâneos Sex Pistols e Clash. Esse filme, dirigido por Wes Orshoski, que fez o documentário sobre Lemmy, explica a razão: os integrantes simplesmente se odeiam. É impressionante a quantidade de brigas, processos e discussões sobre dinheiro que aconteceram na vida do Damned,e como esses conflitos destruíram qualquer chance de sucesso.

 

Eu Sou Carlos Imperial

Escrevi sobre esse filme no blog (leia aqui). É uma divertida homenagem ao genial, polêmico e cafajeste Carlos Imperial, lenda de nossa cultura pop.

 

P.S.: Estarei fora até o fim da tarde e impossibilitado de moderar comentários. Se o seu comentário demorar a ser publicado, peço desculpas e um pouco de paciência. Obrigado.

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Pop cambojano, James Brown, rock da Groenlândia…

Começa hoje e vai até 12 de julho em São Paulo (e de 14 a 19 de julho em Salvador) o 7º In-Edit – Festival Internacional do Documentário Musical.

É um dos festivais mais legais do Brasil, não só pela qualidade da programação, mas por trazer filmes que dificilmente seriam exibidos em circuito comercial por aqui.

A programação está muito boa e eclética. Há filmes sobre bandas de rock da Groenlândia, hip hop panamenho e pop cambojano; cinebiografias de Jaco Pastorius, James Brown, Paco de Lucía e Aracy de Almeida; documentários sobre os Racionais, Slint, Killing Joke, The Damned, NAS e Premeditando o Breque. Tem de tudo (veja a programação completa aqui).

O cineasta homenageado desta edição é o norte-americano Murray Lerner, diretor de clássicos filmes-concerto de Bob Dylan, Jimi Hendrix, The Who e do Newport Folk Festival, com Son House, Johnny Cash, Joan Baez, Howlin’ Wolf e muitos outros. O festival vai exibir também “From Mao to Mozart: Isaac Stern in China” (1980), sobre o histórico concerto do violinista Isaac Stern com a Orquestra Sinfônica da China.

Assisti a vários filmes da programação do In-Edit e fiz uma seleção de dez títulos imperdíveis. Aqui vão os cinco primeiros e amanhã, mais cinco:

 


Don’t Think I’ve Forgotten: Cambodia’s Lost Rock and Roll
Em abril de 1975, a capital do Camboja, Phnom Pehn, foi tomada pelas tropas do Khmer Vermelho, sob o comando do líder comunista Pol Pot. Cerca de dois milhões de pessoas foram executadas, e qualquer resquício cultural e social do passado foi exterminado.
Escritores, atores, músicos e pintores foram alguns dos alvos mais procurados. A rica história da música pop cambojana dos anos 1950 e 1960 foi sepultada nos “Campos da Morte”, com a matança de vários ídolos musicais do país. Esse filme resgata essa história. Imperdível.

 


Mr. Dynamite: The Rise of James Brown
O filme é bem careta, mas as cenas de arquivo e os depoimentos – incluindo músicos extraordinários como Maceo Parker e Bootsy Collins, que tocaram na banda de James Brown – são excepcionais.
Melhor história de todas: certa vez, Little Richard, com quem Brown dividia um empresário, precisou cancelar 30 shows para gravar um disco. O empresário colocou Brown, de peruca, para se fazer passar por Little Richard e cantar nos shows. Ninguém notou a diferença.

 


Autoluminescent: Rowland S. Howard
Nick Cave, Thurston Moore, Wim Wenders, Lydia Lunch e outros falam da importância de Howard (1959-2009) em suas vidas e carreiras. Howard foi guitarrista do Birthday Party, uma das bandas mais inovadoras e influentes do pós-punk, e tocou também no Crime and the City Solution e These Immortal Souls.
O som único, sujo e abrasivo de Howard influenciou muita gente. Difícil imaginar as cenas góticas, noise e shoegazer existindo sem o Birthday Party abrindo os caminhos.

 


Jaco
“Meu nome é John Francis Pastorius Terceiro e sou o maior baixista do mundo”. Era assim que Jaco Pastorius (1951-1987) costumava se apresentar, mesmo quando era um músico desconhecido, ganhando a vida em bares na Flórida. E quem discorda?
Nesse documentário, gente como Flea, Bootsy Collins, Santana, Joni Mitchell, Herbie Hancock, Wayne Shorter e outros confirmam: nunca houve um baixista como Jaco. As cenas de arquivo e trechos de shows são de cair o queixo, e o fim da vida de Jaco – drogas, álcool, e uma morte estúpida – das mais tristes.
E atenção, classe artística brazuca: o documentário foi inteiramente financiado por Robert Trujillo, baixista do Metallica e fã de Pastorius. Quando será que nossos artistas vão parar de mendigar dinheiro público e botar as mãos nos bolsos por boas causas?

 


Sumé – O Som de uma Revolução
Em 1973, a banda Sumé (a pronúncia é “Súmi”) lançou o primeiro disco de rock de uma banda da Groenlândia. O LP – cantado inteiramente em gronelandês - foi importante não só por marcar a estreia da ilha no cenário pop mundial, mas por ser um protesto contra a dominação dinamarquesa.
Esse filme é uma revelação: apresenta músicos novos para nós e conta a história de uma nação que desconhecemos quase que por completo.

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“Spiderland”: um disco que nasceu antes do tempo

Vinte e quatro anos atrás, entrevistei o músico e produtor Steve Albini em seu estúdio em Chicago. Albini mostrou alguns discos em que estava trabalhando – Jesus Lizard, Didjits, Volcano Suns – e também faixas de algumas de suas bandas prediletas. Uma dessas faixas era “Breadcrumb Trail”, do Slint. Eu nunca tinha ouvido falar do Slint e não fiquei nada impressionado com a música. Era lenta, repetitiva, e o cantor não cantava, mas narrava a letra. Eu queria mesmo ouvir músicas inéditas do Jesus Lizard, e não dei bola pro Slint.

Quase um quarto de século depois, “Spiderland” periga ser o disco mais tocado aqui em casa. É só começar a guitarrinha aguda de “Good Morning, Captain”, que minha filha já sabe: “É o disco em que o moço fala!”.

No início dos anos 90, época em que o grunge imperava, muita gente desprezou “Spiderland”. O LP vendeu mal até para os padrões de uma gravadora independente como a Touch & Go. Não ajudou o fato de a banda ter se separado imediatamente depois da gravação, sem turnê de lançamento e entrevistas para fanzines e rádios universitárias (a banda voltaria a se apresentar ao vivo, anos depois, mas nunca mais gravaria junta).

Até Steve Albini, que era amigo do grupo e havia produzido o primeiro disco deles, “Tweez”, confessou que não gostou de “Spiderland” quando o ouviu pela primeira vez: “Quando ouvi os vocais de Brian [McMahan] em ‘Washer’, achei horrível e disse que eles deveriam ter deixado a música só instrumental. Hoje, quando lembro minha primeira opinião, acho que foi resultado de um equívoco auditivo.”

Meses depois, Albini faria uma resenha gloriosa do LP na “Melody Maker”: “Vivemos em um tempo de anões: dance music, três variedades de hard rock tosco, rap infantil e repleto de slogans e baladinhas sem tesão. Meus instintos me dizem que a seca vai perdurar por um bom tempo – possivelmente até que as bandas que o Slint vai inspirar atinjam a maturidade.”

O documentário “Breadcrumb Trail”, de Lance Bangs, conta a história do Slint. Bangs entrevistou os integrantes da banda, amigos e colaboradores, e tenta explicar o que fez de “Spiderland” um disco tão especial. Algumas fotos e cenas de arquivo são incríveis: um ensaio, em 1990, mostra a banda em pleno processo de mudança sonora, quando abdicou da velocidade para se concentrar em longuíssimos e repetitivos temas que formariam a base de “Spiderland”.

Há trechos de shows das primeiras bandas do baterista Britt Walford e do guitarrista Brian McMahan, quando não tinham mais de 12 anos de idade. E uma foto deixa claro que eles não eram crianças de gosto comum: Britt aparece, aos 11 anos, segurando um disco de Lydia Lunch, musa da cena vanguardista “No Wave” de Nova York.

O filme será exibido no In Edit – Festival Internacional do Documentário Musical, que começa amanhã e vai até 12 de julho em São Paulo e terá uma edição em Salvador, de 14 a 19 de julho (veja programação completa aqui). Assisti a vários filmes que serão exibidos e preparei uma lista de dez filmes imperdíveis. Amanhã publico textos sobre cinco deles e, na sexta, sobre os outros cinco. A programação está muito boa.

Os punks e o Cristo Redentor

Buzzcocks Os punks e o Cristo RedentorTodo mundo que já organizou turnês de bandas sofreu na mão de um tour manager. Para quem não sabe, tour manager é uma espécie de babá das bandas. Ele é responsável por tudo: check-in em hotéis, deslocamento da equipe em vans, manutenção de horários de passagens de som, etc. E existe, no mundo da produção de shows, uma regra inquebrantável: quanto mais legais os caras das bandas, mais chato será o tour manager.

Na verdade, artistas não são legais, eles só fingem que são legais e põem um mala qualquer pra tratar com os contratantes. O tour manager é o bode expiatório que leva a culpa por qualquer maletice. Uma das frases mais corriqueiras por aqui é: “Os caras da banda são gente fina, mas o tour manager é um mala do cacete!”.

Trabalhei com produção de shows por quase dez anos e passei maus bocados com esses sujeitos.

O tour manager do Cardigans foi um dos piores. O sujeito morava na Tasmânia e era tão chato que logo ganhou o apelido de “Diabo da Tasmânia”. Era o tipo que usava uma trena para medir se a grade de proteção na frente do palco estava colocada na distância estipulada em contrato.

O tour manager do Sisters of Mercy era outro chato de galochas, com o agravante de receber ordens do mala dos malas, o cantor Andrew Eldritch. Num show no Circo Voador, no Rio, o sujeito exigiu que a produção retirasse do local uma pessoa que estava, segundo Eldritch, em “atitude suspeita”: a baiana que vendia acarajé. Explicamos que a coitada da tia estava ali desde a fundação do Circo e não poderia ser retirada.

Mas nenhum desses chatos chegou perto do nível de pentelhação do tour manager do Buzzcocks. Na turnê que o grupo fez no Brasil, em 2001, esse cara bateu todos os recordes. Enquanto Pete Shelley e Steve Diggle, os líderes da banda, tratavam todo mundo super bem e não davam nenhum sinal de estrelismo, o tour manager parecia que estava trabalhando com Elvis na fase Vegas.

No show do Olympia, em São Paulo, o sujeito queria que eu perguntasse às bandas de abertura que camisetas de bandas cada uma iria usar, para ele “aprovar”.

Cada refeição era um tormento. Ele queria saber, de antemão, os cardápios completos de todos os lugares onde a banda almoçaria e jantaria. Naquela época de Internet jurássica, quando nenhum restaurante tinha site, isso significava que tínhamos de ir aos lugares antes e anotar a lista de pratos.

Quando a turnê chegou ao Rio de Janeiro, o bicho despirocou. Não sei se ele achou que estava com o Guns N’Roses no Rock in Rio, mas o fato é que as exigências ficaram ainda mais absurdas.

Um dia, havíamos combinado uma visita ao Cristo Redentor, seguida de um jantar. O tour manager me chamou e pediu um catálogo telefônico: “Hoje EU vou escolher onde vamos jantar!”. O sujeito abriu o catálogo, procurou em “Restaurantes” e apontou um nome qualquer. Era uma churrascaria na Taquara, zona oeste do Rio, depois de Jacarepaguá. Longe pacas. “É aqui que nós vamos jantar hoje!”.

Naquela tarde, fomos ao Cristo. A banda tirou fotos, admirou a paisagem e deu autógrafos para alguns fãs que os reconheceram. Depois todo mundo foi para a lanchonete e começou a tomar caipirinhas. Menos o tour manager, que saiu para verificar alguma coisa completamente inútil e sumiu por um tempo.

Certa hora, eu disse a Steve Diggle que precisávamos ir embora, ou nos atrasaríamos para o jantar.

“Mas já? Está muito agradável aqui, com essa caipirinha e esse visual. Por que precisamos ir tão cedo?”, disse Diggle.

“Porque o restaurante fica a umas três horas daqui”, respondi.

“E por que não vamos num restaurante mais perto?”

Expliquei a Diggle que o tour manager tinha escolhido aquele lugar onde Judas perdera as botas. Diggle deu um suspiro longo, olhou pro horizonte e perguntou: “Ele é um ‘fucking pain in the ass’ (em bom português, “mala do c*ralho”), não?”

Até aquele momento, eu evitara criticar o tour manager na frente da banda, para não causar nenhum tipo de atrito, mas senti que podia ser sincero. Disse que o sujeito não era só chato, mas a figura mais detestável, arrogante e intratável que eu já tivera o desprazer de conhecer, e relatei alguns dos casos recentes envolvendo o pentelho.

Diggle disse: “Sabe de uma coisa? Chama a van. Vamos jantar. E deixa ele aí.”

Até hoje não sei como o mala voltou do topo do Cristo Redentor. A pé, provavelmente.

PARAGUAI TEM VITÓRIA TRANQUILA

Na Copa América, deu a lógica: o Paraguai impôs seu melhor futebol e venceu a selecinha da CBF, provando, mais uma vez, que Dunga não é treinador e que essa "Geração 7 x 1" é das piores que já vestiram o uniforme amarelo. A CBF diz que está tudo bem e que Dunga continuará. Então agora é estufar o peito, cantar o hino com lágrimas nos olhos, fazer o sinal de "Tóis", postar "selfie" com careta e não se classificar nas eliminatórias para a a Copa de 2018. Vamos torcer.

Vai uma máquina de escrever aí?

Sim, é verdade, a onda hipster é usar máquina de escrever.

Em praças de Williamsburg e em Starbucks de São Francisco, o pessoal descolado anda revivendo o claque-claque das velhas Remingtons e Olivettis.

Veja esse projeto de Ginsberg, flagrado numa pracinha qualquer criando sua mais nova obra-prima:

hipster 1 Vai uma máquina de escrever aí?

Ou essa catadora de milho se exibindo num coffee shop. Detalhe para o celular vintage (ou “vin-têi-ji”, como gostam de dizer os hipsters brazucas):

Se a modinha está bombando agora em Nova York e Londres, deve chegar à Rua dos Pinheiros em três ou quatro anos. Tempo suficiente para você colocar em prática um plano perfeito para ficar rico explorando o hipsterismo.

O primeiro passo é correr em todos os brechós de sua cidade e vasculhar a Internet atrás de velhas máquinas de escrever, que podem ser adquiridas por uma bagatela.

Depois é só limpar as velharias, inventar nomes bacanas para cada uma – “Olivetti Plinio Marcos”, “Facit João do Rio”, “Remington Correio da Manhã” – e postar as fotos, com respectivos preços superinflacionados, em um site bacanérrimo. Vai chover dinheiro.

Os mais ousados podem abrir uma pequena cafeteria, com um busto de Hunter Thompson na frente, velhas páginas de tabloides nova-iorquinos decorando as paredes e Chet Baker e Orlando Silva em rotação permanente numa vitrola de plástico dos anos 70. Cada mesa teria uma velha máquina de escrever, em que os clientes podem digitar os pedidos.

Meu camarada Adão Iturrusgarai deu uma prévia de como seria o lugar:

 Vai uma máquina de escrever aí?

Não interessa se a máquina estiver quebrada ou faltando alguma tecla. Hipsters amam essas pequenas idiossincrasias da era pré-digital.

Bom fim de semana a todos.

O que Nirvana, Led Zeppelin e Creedence têm em comum?

...e ainda Beach Boys, White Stripes, Mark Lanegan, Van Morrison, Billy Bragg, The Fall, Woody Guthrie, Abba, Cat Power, Johnny Cash e Nick Cave?

Todos gravaram músicas de Huddie Ledbetter (1888-1949), mais conhecido por Lead Belly.

Acaba de sair “Lead Belly – The Smithsonian Folkways Collection", uma caixa com cinco CDs e 108 canções que dá uma geral na carreira desse músico extraordinário que não só compôs clássicos do blues e inspirou o rock, mas gravou, de memória, dezenas de canções antigas da música folk norte-americana que conheceu nos campos de algodão da Louisiana, onde nasceu.

A vida de Lead Belly foi tão dramática quanto suas letras: nascido em uma família de ex-escravos, em 1888 (ou 1885, segundo relatos), passou a juventude trabalhando duro e tocando violão e acordeon em bordéis e casas de má reputação com bluesmen como Blind Lemon Jefferson. Aos sete anos, separou uma briga dos pais ameaçando-os com uma espingarda; aos 18, fugiu de casa depois de engravidar a namorada.

Foi preso ao menos três vezes, uma delas por matar um homem a tiros. Condenado a 30 anos, cumpriu cinco e saiu depois de presentear o governador do Texas com uma canção elogiosa. Não demorou a voltar ao xadrez, dessa vez por tentativa de homicídio. Em 1933, o folclorista e pesquisador musical John Lomax gravou Lead Belly cantando na prisão de Angola, na Louisiana. Dessa vez, foi o governador da Louisiana que ouviu a gravação, comoveu-se com a voz de Lead Belly e o perdoou.

Veja um filme feito em 1935, interpretado por Lead Belly e Lomax, que reencena a libertação do músico:

E aqui, o Creedence tocando “Midnight Special”:

As 108 músicas da caixa formam um panorama riquíssimo da música de raiz dos Estados Unidos. São blues, gospels, spirituals e canções folclóricas, que inspiraram artistas como Pete Seeger, Woody Guthrie e Bob Dylan.

Lead Belly foi um elo entre o passado e o futuro da música norte-americana. Muitas das canções antigas que conhecemos hoje foram resgatadas por ele, que também inspirou gente como Jerry Lee Lewis e Little Richard a amplificarem o blues e criarem o rock, poucos anos depois da morte de Lead Belly.

GRANDES MOMENTOS DE DISCURSOS PRESIDENCIAIS...

...era o nome de um famoso quadro do programa de David Letterman. Pena que Letterman se aposentou, ou poderia usar este:

Feliz aniversário, Bebê-Diabo!

bebediabo3 Feliz aniversário, Bebê Diabo!Se você esbarrar na rua com um sujeito peludo, ostentando um par de chifres e um rabo pontiagudo, pode parebenizá-lo: o Bebê-Diabo acaba de fazer 40 anos.

A estranha criatura nasceu num domingo, 11 de maio de 1975, na primeira página do jornal “Notícias Populares”.

O dia anterior fora um sabadão tranquilo, daqueles em que até os criminosos pareciam ter tirado folga. Não havia um crime sequer para apimentar o noticiário.

Sem assunto palpitante para manchetar, o então secretário de redação, José Luiz Proença, que comandava o jornal no dia de folga do editor, Ebrahim Ramadan, decidiu dar uma boa chamada para um caso curioso: num hospital do ABC, nascera uma criança com duas saliências na cabeça. O “NP” publicou: “Nasceu o Diabo em São Paulo”.

A reportagem parecia o roteiro de “O Exorcista”: depois de descrever o petiz como “uma criatura com o corpo totalmente cheio de pelos, dois chifres pontiagudos na cabeça e um rabo de aproximadamente cinco centímetros, além do olhar feroz, que causa medo e arrepios”, o texto relatava o dia em que o tinhosinho, furibundo com uma enfermeira que teria deixado entrar a luz do sol no berçário, ameaçara o staff: “Fechem as janelas ou mato a todos!”.

No domingo, poucas horas depois de o jornal chegar às bancas, Proença recebeu um telefonema do departamento de circulação: a edição estava esgotada. O Bebê-Diabo tinha se espalhado como uma praga pela cidade.

Foi o suficiente para o “NP” continuar a história na segunda-feira (“Bebê-Diabo Desaparece”), terça (“Feiticeiro Irá ao ABC Expulsar o Bebê-Diabo”) e quarta (“Bebê-Diabo do ABC pesa 5 Quilos”). A circulação subiu tanto que o “NP” deu 27 manchetes para o filho do capeta.

 Feliz aniversário, Bebê Diabo!

A saga incluiu um taxista que dizia ter levado o Bebê-Diabo para um rolê no centro da cidade, moradores de um bairro do ABC que descreveram o diabinho pulando pelos telhados das casas, e até o suposto “pai” da criaturinha, um fazendeiro que, dizia a reportagem, “tem dois chifres e não tira o chapéu”.

Zé do Caixão, que dois anos antes ajudara o “NP” a expulsar o Vampiro de Osasco, um monstro que aterrorizara os moradores de Osasco ao chupar o sangue de vários cachorros, foi convocado para caçar o Bebê-Diabo na Bahia, onde o monstrinho fora visto, e mandou dois assistentes, Satã e Marcelo Motta, atrás do maldito (curiosamente, Satã foi visto andando com Zé do Caixão pelas ruas do Ipiranga quando deveria estar em terras baianas caçando o capetinha).

Assim como nasceu, o Bebê-Diabo morreu, sem choro nem vela. A explicação, na redação do “NP”, foi a falta de interesse do público, que cansara de acompanhar a trama. Mas não importava: a criaturinha já tinha cumprido sua missão na Terra, que era a de fincar seus caninos na história do imaginário popular e das lendas urbanas brasileiras, assim como o Chupacabras, o Homem-Mãe, e a mais famosa aberração de todas, a Loira-Fantasma, uma lenda do século 19 que fora ressuscitada no fim dos anos 1950 pelo jornalista Orlando Criscuolo, do "Diário da Noite".

O “NP” ainda tentaria faturar em cima de outros petizes amaldiçoados, como o “Bebê-Peixe” e o “Bebê Atômico”, mas nenhum deles chegou ao rabo pontiagudo do Bebê-Diabo. Vida longa ao senhorzinho das trevas.