Coppola e seu fiasco “selvagem”

 

No fim de 1983 (ou teria sido início de 84?) vi "O Selvagem da Motocicleta" ("Rumble Fish"), de Francis Ford Coppola. Fiquei tão empolgado com o filme que liguei imediatamente para meu pai e recomendei que ele não deixasse de ver.

Alguns dias depois, perguntei o que ele tinha achado. A resposta me surpreendeu: "Achei péssimo! Que coisa piegas e cafona! E que atores horríveis, não é possível que o Coppola tenha dirigido aquilo!"

Por um bom tempo, tive a convicção de que eu estava certo e ele, errado: o filme era mesmo uma maravilha, uma obra-prima noir e existencialista. Aos 15 anos, a gente sempre tem razão, certo?

Mas nada como um dia depois do outro.

Uns 15 anos depois, revi "O Selvagem da Motocicleta", e tive de dar razão ao coroa: que abacaxi insuportável! Que coisa pretensiosa e vazia!

O que aos 15 anos me pareceu genial - o preto e branco Nouvelle Vague da fotografia, o niilismo do personagem de Mickey Rourke (ridiculamente batizado Motorcycle Boy), as homenagens aos astros "selvagens" do cinema, como Brando e Dean, a trilha sonora percussiva de Stewart Copeland - aos trinta e poucos tinha se tornado um pastiche extravagante e brega dos filmes de delinquentes teens dos anos 50.

E o que era aquele peixe vermelho em meio à fotografia preto e branca, simbolizando a "ânsia pela liberdade" de Motorcycle Boy? E as cenas de lutas que pareciam coreografia de musical da Broadway? Que coisa cafona.

Fora que o elenco todo estava muito mal. Até mesmo bons atores, como Mickey Rourke e Dennis Hopper, que fazia o pai alcoólatra, atuavam em modo Cigano Igor. E Matt Dillon e Nicolas Cage não tinham salvação.

Hoje, às 23h50, o Telecine Cult exibe "O Selvagem da Motocicleta". Vou tentar revê-lo para confirmar sua ruindade. É uma pena que o canal não exibirá o filme dublado. Imagine uma hora e meia de Matt Dillon com a voz de Alexandre Frota:

 

 

Nelson Rodrigues é que estava certo em sua recomendação à juventude: "Jovens, envelheçam!"

Bukowski ralou para ser Bukowski

O canal + Globosat exibe hoje, às 12h, "Bukowski - Born Into This", documentário de John Dullaghan sobre o escritor Charles Bukowski (1920-1994).

O filme tem entrevistas muito boas com Bukowski e com amigos e admiradores como o cantor Tom Waits e os atores Harry Dean Stanton e Sean Penn.

Mas o aspecto mais interessante do filme é a descrição dos anos em que Bukowski penou financeiramente antes de poder dedicar-se apenas à literatura.

O escritor morreu de leucemia, em 9 de março de 1994, aos 73 anos. Mas foi só aos 49 anos de idade que ele virou escritor em tempo integral.

Antes disso, Bukowski penou em vários empregos: dirigiu caminhões, carregou mudanças, trabalhou numa fábrica de picles e foi carteiro. Tudo para ganhar uma grana que o possibilitasse escrever à noite.

No fim dos anos 50, depois de quase morrer de uma úlcera perfurada, conseguiu emprego nos correios, separando correspondência. Ele trabalhava a noite toda e escrevia durante o dia. "Mas eu escrevia tanto que, à noite, meus braços doíam a ponto de eu não conseguir levantá-los quando ia separar as cartas", conta o escritor.

Bukowski trabalhou de separador de cartas por onze anos. Nesse período, escreveu centenas de poemas e contos, que enviava para revistas literárias. Um dia, um sujeito chamado John Martin leu um dos poemas e ficou impressionado com a força e beleza das palavras de Bukowski.

Martin escreveu para o autor elogiando o poema e perguntando se ele tinha mais material. Bukowski tinha pilhas de poemas inéditos. Martin resolveu fundar uma editora, a Black Sparrow Press, só para publicar o trabalho dele (depois publicaria obras importantes de autores como John Fante, Paul Bowles e D.H. Lawrence, entre muitos outros).

É aí que vem o momento mais bonito e emocionante do filme: John Martin conta que perguntou a Bukowski por que ele não largava o emprego nos correios para escrever. "Porque eu preciso sobreviver", disse o escritor.

Martin pediu a Bukowski que fizesse uma lista de todos os seus gastos mensais. O escritor começou a listar: "3,50 dólares por mês para cigarros, 20 por mês para comida, 40 para aluguel..." e chegou ao total de cem dólares. "Quer dizer que você viveria bem com cemdólares por mês?" perguntou Martin. "Sim, não preciso mais do que isso", respondeu Bukowski.

"Então está combinado: eu vou te pagar cem dólares por mês até o fim da sua vida, só para você largar os correios e poder escrever em tempo integral", disse Martin.

Os dois assinaram um contrato no dia 2 de janeiro de 1970. No dia 25 de janeiro,  Bukowski entregou os originais de seu primeiro romance, "Post Office", uma história autobiográfica sobre seus anos trabalhando nos correios.

O mais curioso dessa história é que ela aniquila a imagem que muitos têm de Bukowski como um niilista doido, um porra-louca irresponsável e arruaceiro que só queria saber de beber, trepar e escrever. Quer dizer, ele só queria fazer isso mesmo, mas sabia que não tinha condições financeiras para largar tudo e viver de literatura. Por mais de um quarto de século - do momento em que publicou o primeiro conto, aos 24 anos de idade, até receber a "mesada" de Martin - Bukowski se virou como pôde para não morrer de fome.

Até o fim da vida, o escritor foi grato a Martin e às editoras independentes que o publicaram quando ele era um joão-ninguém. Mesmo depois de ficar famoso, nunca deixou de enviar poemas e contos para as pequenas editoras. Bukowski nunca esqueceu de onde veio.

Não tem jeito: “True Detective 2” é mesmo um abacaxi

truedetective 1024x512 Não tem jeito: “True Detective 2” é mesmo um abacaxi

Há cerca de um mês, quando a HBO estreou a segunda temporada de “True Detective”, escrevi aqui no blog que o primeiro episódio não tinha sido lá grande coisa, mas que ainda era muito cedo para avaliar a série.

Hoje, depois de ter visto cinco dos oito episódios (escrevo na sexta-feira, antes da exibição do sexto episódio), dá para dizer sem medo de errar: “True Detective” é um abacaxi.

É inacreditável que o mesmo Nick Pizzolatto, criador e roteirista da série, seja responsável pela segunda temporada, que não tem uma fração da inventividade, tensão e mistério da trama que envolveu Matthew McConaughey e Woody Harrelson na temporada de estreia.

O que era um policial noir-gótico-sobrenatural à David Lynch virou uma trama policial comum, confusa e sem graça.

Tudo é ruim em “True Detective 2”: diálogos, personagens, atuações, situações, direção... um desastre completo.

O principal problema da série, a meu ver, é o excesso de personagens principais. São quatro: o policial Ray Velcoro (Colin Farrell), o mafioso Frank Semyon (Vince Vaughn), e outros dois policiais, Ani Bezzerides (Rachel McAdams) e Paul Woodrugh (Taylor Kitsch).

Cada um deles tem seus próprios demônios: Velcoro está em guerra contra a ex-mulher pela guarda do filho, que pode ter sido concebido depois de um estupro sofrido por ela.

Semyon tenta, há anos, ter um filho, mas perdeu uma fortuna num roubo e agora volta às atividades criminais para recuperar seu dinheiro.

Woodrugh é um ex-militar com uma história cabulosa – e secreta - de guerra, além de ter questões sexuais mal resolvidas - e não tão secretas assim.

Bezzerides é um poço de ressentimento contra os homens. A moça odeia o pai, um guru new age (David Morse) que ela culpa pelo suicídio da mãe, mas não hesita em usar a irmã, que trabalha num esquema de transmissão de filmes pornô pela Internet, para ajudá-la a solucionar um caso envolvendo prostituição.

O tema central da série é a investigação do assassinato de um político, metido num projeto bilionário de uma estrada que corta a Califórnia. Mas as tramas particulares de cada personagem, com seus problemas familiares e dramas pessoais,  acabam por interferir demais na narrativa, e a história principal empaca.

Para piorar, algumas sequências são muito mal filmadas e outras, completamente inverossímeis.

No fim do quarto episódio, há um tiroteio sangrento entre policiais e uma gangue de traficantes mexicanos, no meio da rua, que deixa muitos civis mortos. Revi a sequência umas três vezes só para confirmar que foi, sem exagero, uma das piores cenas de tiroteio que já vi. Os policiais agem como patetas, os bandidos são umas bestas que preferem ficar parados no meio da rua trocando tiros a tentar fugir, e a pataquada termina com uma cena ridícula em que o chefão dos bandidos, que está com a arma apontada para a cabeça de um refém, dá uma de kamikaze e mata o refém em vez de atirar nos policiais.

Aqui está a cena inteira. Repare nos policiais andando em fila indiana pela rua como se estivessem indo a um piquenique; a péssima pontaria dos bandidos que não acertam um tirinho sequer de metralhadora em Rachel McAdams enquanto ela faz cooper desprotegida pelo meio da rua; a lentidão da van que foge a 10 km por hora; a passividade dos trabalhadores de um sweatshop, que nem se dão ao trabalho de sair à rua depois que o prédio vizinho EXPLODIU e, finalmente, o bandido careca kamikaze.

 

 

Mas nada se compara à cena do quinto episódio em que uma chefona da polícia faz uma reunião “secreta” com Velcoro, Bezzerides e Woodrugh – no meio da rua, à luz do dia.

Isso não aconteceria nem em filme brasileiro dos anos 80.

Minha única motivação para terminar de ver “True Detective” é conferir se ainda tem algo para piorar ali. Quem sabe uma aparição surpresa de Nicholas Cage?

“Táxi gourmet”: você merece!

uber final1 Táxi gourmet: você merece!

P.S.: Estou em viagem interestadual em meu possante Uber e só poderei moderar os comentários no meio da tarde. Se o seu comentário demorar a ser publicado, peço desculpas e um pouco de paciência. Obrigado.

Nada como um atentado contra o prefeito para a polícia aparecer, não é mesmo?

policia rodoviaria federal blitz br1 Nada como um atentado contra o prefeito para a polícia aparecer, não é mesmo?

No início da noite de 19 de maio, o prefeito de Paraty, José Carlos Gama Miranda (PT), conhecido por Casé, saía da sede da prefeitura acompanhado pelo primo, Sérgio José Miranda, funcionário da prefeitura, quando um sujeito se aproximou numa moto, sacou uma arma e disparou várias vezes contra os dois.

Felizmente, o criminoso errou os tiros. Casé foi atingido de raspão na cabeça, assim como Sérgio. Os dois foram atendidos no precaríssimo hospital local e depois transferidos para um hospital de verdade, em Angra dos Reis.

Na manhã de 21 de julho, uma operação envolvendo pelo menos uma dúzia de homens do Grupo de Atuação Especial do Combate ao Crime Organizado, da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense e da Coordenadoria de Inteligência da Polícia Militar prendeu um suspeito pelo crime.

A operação foi grande. O dono de uma padaria, da qual somos clientes, contou que viu vários sujeitos à paisana, com armas e até metralhadoras, cercando uma casa ao lado do estabelecimento: “Fiquei apavorado. Achei que iam nos assaltar”.  Os policiais invadiram a casa, mas não acharam ninguém. Acabaram encontrando o suspeito em outra casa, momentos depois.

Nos dois meses entre o atentado contra o prefeito e a prisão do rapaz, Paraty mudou. Os moradores passaram a conviver com algo que, até então, não conheciam: policiamento eficiente.

Durante esse período, vimos carros da polícia parando e vistoriando veículos, grupos de policiais dando blitze em conhecidos pontos de tráfico, caminhões recolhendo motos sem documentos, veículos multados por infrações de trânsito, enfim, percebemos a presença do Estado como nunca havia acontecido na cidade.

Só para comparar: em mais de cinco anos morando na região, não havíamos sido parados uma vez sequer no posto da Polícia Rodoviária na Estrada Rio-Santos. No último mês, fomos parados duas vezes.

Com o aumento da fiscalização, diminuiu o número de motos zunindo loucamente pelas ruas sem respeitar placas, faixas e limites de velocidade. Também rarearam os carros estacionados em locais irregulares. Na última Festa Literária de Paraty (FLIP), realizada no início de julho, o policiamento foi intenso.

A situação contrasta com a bandalheira absoluta com a qual a população já havia se acostumado, especialmente durante os eventos mais populares do calendário turístico local.

Ano passado, durante a Festa da Cachaça, quase batemos de frente com um carro que vinha na contramão de uma ponte, com o motorista bebendo uma latinha de cerveja enquanto uma criança de uns oito anos viajava no banco da frente, de pé, com a cabeça para fora do teto solar.

Fica a pergunta: se o tal suspeito for, de fato, culpado pelo atentado contra o prefeito, quanto tempo vai demorar para o policiamento e a fiscalização desaparecerem da cidade e tudo voltar ao normal?

Bom fim de semana a todos.

“Vício Frenético”: um filme feio, sujo e malvado

 

Cansei de encher a bola da Versátil Filmes aqui no blog. Os caras lançam muita coisa boa (em tempo: não conheço ninguém lá, não tenho nenhuma ligação com a empresa e faço questão de comprar os lançamentos que me interessam).

Minha próxima aquisição será o DVD de um de meus filmes prediletos, que acaba de ser relançado: “Vício Frenético” (“Bad Lieutenant”, 1992), de Abel Ferrara.

A exemplo da maioria dos filmes de Ferrara, não é para todos. Muita gente pode achar de mau gosto, exagerado e sensacionalista. E é mesmo. Mas para quem gosta do cinema marginal e sujo de Ferrara, está no topo da lista, junto com “O Rei de Nova York” (1990), “Os Chefões” (1996) e “Bem-Vindo a Nova York” (2014).

Leia aqui sobre minha tentativa frustrada de entrevistar Abel Ferrara, em 1996.

Voltando a “Vício Frenético”: o filme acompanha alguns dias na vida do “tenente mau”, interpretado por Harvey Keitel. O sujeito é um demônio: rouba cocaína de cenas de crimes, faz negócios com traficantes, explora sexualmente duas jovens depois de pará-las por uma infração de trânsito, tudo isso enquanto investiga um caso de violência sexual contra uma freira e tenta negociar com um bookie de apostas ilegais para quem está devendo uma pequena fortuna.

Ferrara não perde tempo explicando por que o personagem é assim. Ele é, e pronto. Keitel o interpreta com o olhar perdido de quem sabe que sua vida não tem volta. É, no fundo, um filme extremamente religioso e espiritual, e talvez por isso tenha emocionado tanto outro diretor que sempre gostou de histórias de homens de fé habitando as ruas imundas de Nova York: Martin Scorsese.

Quando fez sua lista dos melhores filmes dos anos 90, Scorsese colocou “Vício Frenético” em quinto lugar, atrás apenas de “O Ladrão de Cavalos” (Tian Zhuangzhuang), “Além da Linha Vermelha” (Terence Malick), “Duo Sang” (Nien-Jen Wu) e “De Olhos Bem Fechados” (Stanley Kubrick).

“Vício Frenético” pode parecer, na superfície, uma apologia à violência ou um “manifesto” kamizake. Mas o filme trata de temas como redenção e moralidade. A violência de Ferrara nunca é gratuita ou recompensadora. Seus filmes podem ser, por vezes, desagradáveis e repulsivos. Mas quem não é?

Depois de assistir ao filme, sugiro ver a refilmagem dirigida por Werner Herzog e “interpretada” por Nicholas Cage, só para notar como um grande filme pode ser completamente destruído por más escolhas. Sinta o drama:

 

 

Quando assistiu à refilmagem, Abel Ferrara declarou: “Quero que todos os envolvidos com esse filme queimem no inferno!” Não dá para culpá-lo.

O dia em que os punks expulsaram o prefeito

 O dia em que os punks expulsaram o prefeito

Morreu na terça-feira, aos 81 anos, o ex-prefeito do Rio de Janeiro, arquiteto Luiz Paulo Conde (PFL). Minhas condolências aos familiares e amigos.

Além de prefeito e Secretário Municipal de Urbanismo, Conde foi presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil e professor e diretor da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) da UFRJ (Universidade Federal do Rio).

conde O dia em que os punks expulsaram o prefeitoMas a carreira política de Luiz Paulo Conde começou com um evento traumático: na noite de sábado, 16 de novembro de 1996, ele e seu staff resolveram comemorar a vitória na eleição para prefeito. E escolheram um lugar tradicional da noite carioca: o Circo Voador.

Só que nenhum assessor do prefeito eleito se deu a trabalho de verificar que show estava acontecendo no Circo. Se Conde soubesse a roubada em que estaria se metendo, certamente teria escolhido outro local. Naquela noite, estavam se apresentando no Circo  duas bandas punks de São Paulo: Ratos de Porão e Garotos Podres.

Deixo o relato por conta de meu amigo Pedrão, então roadie do Ratos (o trecho é da biografia que fiz de João Gordo, que sai no início de 2016 pela Darkside Books) :

Pedrão:

Fomos ao Circo fazer um show com o Garotos Podres. Alguém chegou no camarim e disse: “O prefeito tá aí!”. Nós achamos que era o Perfeito Fortuna, um dos donos do Circo. “O Perfeito? Legal, chama ele pra fumar um beque com nós!”. Mas era o prefeito, Luiz Paulo Conde, que tinha acabado de ser eleito. Quando o público viu aquela comitiva de políticos, com charanga e tudo, começou a vaiar, jogar lata e xingar: “Filho da puta! Filho da puta!”, e o Conde fugiu dali rapidinho. Mas a gente nem se ligou no que tinha rolado.

Voltamos pra São Paulo naquela mesma noite. Quando chegamos, um monte de gente começou a ligar pra nós: “O que vocês fizeram? Vocês fecharam o Circo Voador?”. A gente não entendeu nada, não sabíamos o tamanho da merda que tinha dado. O mais engraçado foi que o Garotos Podres esqueceu o pano de palco no Circo, e um jornal do Rio publicou uma foto das crianças que eram atendidas pela creche que funcionava lá, todas com carinhas tristes e, no fundo, o pano: “Garotos Podres”.

CesarMaia CircoVoador2 O dia em que os punks expulsaram o prefeito

No dia 19 de novembro, a “Folha de São Paulo” publicou:

O prefeito do Rio, Cesar Maia, anunciou ontem a cassação do alvará de funcionamento do Circo Voador, uma casa de espetáculos localizada na Lapa (centro do Rio) de onde o prefeito eleito, Luiz Paulo Conde (PFL), foi expulso na noite de sábado por um grupo de jovens punks.

Segundo Maia, o incidente serviu para dar um motivo concreto à Prefeitura do Rio para fechar o Circo Voador, objeto, afirmou, de muitas queixas relativas a barulho e confusão.
Maia não se sensibilizou com argumentos de que o local seria um dos pontos de maior tradição na cidade. “Tradição de que? De bagunça? De desordem? De maconha? De cocaína?”, disse o prefeito.

Achei no Youtube esse vídeo que mostra todo o incidente:

 

 

O Circo Voador ficou fechado por quase oito anos e só foi reaberto em julho de 2004.

Uber? Não, obrigado!

 Uber? Não, obrigado!

Não tenho nada contra o Uber ou contra quem usa o serviço. Boa sorte a todos. Que sejam felizes. Mas o Uber nunca verá um centavo do meu suado dinheirinho.

Não uso o Uber pela mesma razão por que evito comprar pão em posto de gasolina, jornal em padaria, chiclete em farmácia e isqueiro em banca de jornal.

Não uso o Uber porque acredito que o comércio precisa de uma ordenação lógica, em que um comerciante, na medida em que paga impostos e oferece um tipo de serviço específico, merece a primazia na oferta dos produtos e serviços em que se especializou.

Quero deixar uma coisa bem clara: sou 100% a favor da livre concorrência. Mas a concorrência só é livre se não for desleal, e casos como o do Uber configuram, sim, concorrência desleal.

Ponha-se no lugar de um motorista de táxi que pagou 60 mil, 80 mil ou até 100 mil reais pela licença para trabalhar (e, por favor, não venham com esse papinho furado de que "a licença é de graça"; quem acredita nisso que vire taxista e tente conseguir uma licença de graça pra ver o que acontece), paga impostos, gasta uma grana com o sindicato e tem o preço das corridas tabelado pelo governo, e que subitamente sofre a concorrência do Uber, cujos carros não precisam pagar pela licença e cobram até 30% a menos que os táxis (há também uma versão "chique" do Uber, mais cara que táxis normais).

Se isso não é concorrência desleal, não sei o que é.

Imagine então a situação dos taxistas que não têm carro próprio e usam veículos de frota. Eles trabalham umas 12 horas por dia só para pagar os custos fixos de aluguel do carro e combustível, e depois disso é que começam a rodar para ganhar o próprio dinheiro. O Uber pode simplesmente aniquilar esses profissionais.

Diante de situações como essa, a reação de muitos é dizer: "Ah, isso é do mercado, e a concorrência é boa para o público."

Mas as coisas não são bem assim.

Há dois anos, fiz uma reportagem para a "Folha" sobre o sumiço das pequenas padarias de São Paulo e o surgimento das chamadas "superpadarias", estabelecimentos que mais parecem supermercados e que vendem de tudo: jornais, revistas, sushi, frutas, pizzas... até pão.

Na reportagem, o editor da revista "Panificação Brasileira", Augusto Cezar de Almeida Neto,  contou que a tendência das megapadarias teve início nos anos 80, quando supermercados começaram a abrir padarias dentro de seus estabelecimentos. "Os donos de padarias foram acossados pelas grandes redes de supermercados e precisaram expandir sua oferta de produtos e serviços. As padarias passaram a oferecer refeições e produtos que não ofereciam."

Isso causou o fim de muitas padarias e pequenos restaurantes de bairro, que não tiveram condições de competir com as "superpadocas". Com menos padarias, houve uma redução na oferta para os consumidores e um aumento no preço dos produtos (sugiro ler essa matéria do jornal "O Dia", sobre a diferença de até 114% nos preços do pão em padarias cariocas).

Prejudicadas pelos supermercados, as padarias começaram a vender revistas e jornais, o que causou a falência de muitos donos de bancas.

Novamente, imagine a situação: você compra uma banca de jornal, gasta uma bela grana com a compra do ponto, e de repente vê a padaria que fica em frente à sua banca vendendo revistas. É justo?

Eu acho que padarias não poderiam vender jornais e revistas, assim como postos de gasolina não poderiam vender pão. E isso não tem nada a ver com protecionismo, mas com bom senso. A outra opção, que seria liberar todo mundo para vender o que quiser, acaba quase sempre favorecendo os comerciantes mais poderosos, aniquilando a concorrência e causando aumento de preços.

Francisco Spadoni, arquiteto e professor da FAU, me disse: "O problema é que o Brasil não tem uma legislação sobre o que uma padaria pode ou não vender. Na França, uma ‘boulangerie’ só pode vender pães e bolos."

Tem mais: na França, para receber o nome de "boulangerie", o estabelecimento precisa fazer o pão no próprio local, não pode usar conservantes e não pode congelar o produto. Quem quiser pão congelado ou com conservantes, que compre em um supermercado.

Voltando ao caso Uber vs. taxistas: digamos que o Uber "pegue" em São Paulo, como as "superpadocas". Em pouco tempo, podemos ver o fim dos táxis de rua. Isso seria bom para a cidade? Tenho minhas dúvidas.

O caso está na Justiça. O sindicato dos taxistas alega que o Uber promove "transporte clandestino"; já o Uber apela para a "livre concorrência".

Se a prefeitura de uma cidade qualquer no Brasil decidir liberar o Uber, ótimo. Só espero que o prefeito se lembre de devolver, com juros e correção monetária, o dinheiro que os taxistas pagaram por suas licenças (hoje conversei com um taxista carioca que disse ter gasto 40 mil reais na licença em 1999; faça as contas).

De minha parte, vou continuar a usar o bom e velho táxi. Pode até custar um pouco a mais que a versão chique do Uber, mas prefiro pagar uns trocados a mais agora do que colaborar para a concorrência desleal e lamentar daqui a alguns anos, quando os táxis sumirem e estivermos nas mãos de Ubers ou similares.

Mirem-se no exemplo do Wilco

 

Jeff Tweedy e seu Wilco continuam a surpreender, não só pela qualidade da música que têm feito nos últimos 21 anos, mas pelas estratégias de relacionamento com os fãs.

Há alguns meses, escrevi aqui no blog que o Wilco periga ser a melhor banda norte-americana das últimas duas décadas (leia aqui). E digo mais: é a que melhor trata seus fãs.

 

 

Na sexta passada, a banda liberou gratuitamente o download de seu nono disco de estúdio, "Star Wars". O link ficará disponível no site oficial do Wilco até 13 de agosto.

No dia seguinte, os fãs puderam ver, em streaming, o show do grupo no festival Pitchfork, em Chicago.

Poucos dias antes do lançamento-surpresa de "Star Wars", o Wilco anunciou uma mudança na política de reserva antecipada de ingressos para seus shows. As reservas passarão a ser feitas por uma nova empresa, que, segundo a banda, facilitará a vida dos fãs inscritos no site do grupo,  que têm prioridade na compra de ingressos.

Desde 2010, quando largou a gravadora Nonesuch, ligada à Warner, e montou seu próprio selo, o dBpm, o Wilco vem provando que é possível ser independente e continuar aumentando seu número de fãs. A banda é um exemplo de sucesso num mercado musical dilacerado.

A estratégia "faça você mesmo" tem surtido efeito. Em vez de reclamar da qualidade dos line-ups de festivais por aí, o Wilco inventou seu próprio festival, o Solid Sound, que acontece anualmente e é um grande sucesso (veja aqui o line-up de 2015, que aconteceu em junho).

No festival, os integrantes do Wilco geralmente tocam nos três dias, com a banda inteira ou em suas bandas solo. O Wilco já fez shows com pedidos de fãs, só de "covers", e um inédito show acústico. A banda acaba de lançar "Every Other Summer", um documentário sobre o Solid Sound de 2013 (veja aqui um clipe deles tocando uma versão matadora de "Cut Your Hair", do Pavement).

Jeff Tweedy sabe que hoje o dinheiro está muito mais em shows do que em disco, e por isso tem excursionado sem parar, não só com o Wilco, mas em apresentações solo e com o Tweedy, a banda que montou com o filho, Spencer. A maioria dos concertos têm lotação esgotada.

Outro ponto importante a favor do Wilco: há quase 20 anos eles mantêm o próprio estúdio, The Loft, em Chicago, onde ensaiam e gravam não só os próprios discos, mas os que Tweedy produziu para Mavis Staples, Richard Thompson e outros artistas.

Sobre "Star Wars": só consegui ouvir o disco duas vezes, mas gostei demais. O Wilco deixou de ser uma banda de "alt-country" há muito tempo e se tornou um supergrupo que faz uma música extremamente pessoal, única e indefinível. O disco ora lembra Bowie da fase "Scary Monsters", ora remete aos experimentos sônicos do krautrock ("Pickled Ginger" lembra muito o Can).

Há pelo menos três ou quatro faixas - "Taste the Ceiling", "You Satellite", "King of You", "Magnetized" - que perigam virar clássicos do repertório da banda.

Que venham logo para o Brasil, por favor.

Cuidado com o golpe do hospital!

nepal hospitals afp 650 650x400 71430041720 Cuidado com o golpe do hospital!

Passei três dias num hospital acompanhando um familiar que fez uma cirurgia (aliás, muito obrigado pelas muitas mensagens de apoio; a operação foi um sucesso e o paciente já está correndo e escalando trepa-trepas por aí).

No primeiro dia, recebemos a seguinte carta do hospital:

Prezado (a) paciente e familiares,

ATENÇÃO

Com o objetivo de obter vantagens financeiras indevidas, pessoas mal intencionadas podem realizar contatos telefônicos durante a internação no hospital ou após a alta, identificando-se como médicos ou funcionários desta instituição.

Não devem ser feitas transações bancárias antes de confirmadas a origem e veracidade da ligação.

Caso recebam alguma ligação desse tipo, o paciente ou seus acompanhantes devem entrar em contato imediatamente com seu médico e o atendimento do Hospital no telefone...

Já vi muito trambique por aí, mas esse era novidade para mim. Dei uma pesquisada e verifiquei que as primeiras reportagens alertando sobre o golpe datavam de 2013.

Aparentemente, o caso é bem mais comum do que a gente imagina. Familiares de pacientes, ainda fragilizados emocionalmente pela internação de pessoas amadas, não titubeiam em pagar qualquer cobrança, por mais cara e estranha que possa parecer.

O que mais chama a atenção na carta do hospital é o trecho "Podem realizar contatos telefônicos durante a internação no hospital ou após a alta", o que mostra que os bandidos têm a cumplicidade de alguém do staff do hospital, que lhes repassa os contatos de pacientes.

É difícil imaginar o sangue frio de um sujeito que liga para enganar alguém que acabou de passar por uma experiência traumática como uma internação.

Na saída do hospital, depois que nosso familiar recebeu alta, pegamos um táxi de volta para casa. O motorista era um vovô simpático que "errou" o caminho entre duas ruas conhecidíssimas do Rio de Janeiro não uma, não duas, não três, mas QUATRO vezes, transformando uma corrida de 30 reais em uma de 45. Na chegada, disse que não tinha troco para uma nota de 50, numa tentativa de nos extorquir outros cinco reais.

Bom fim de semana a todos.