STYX: O SHOW MAIS ENGRAÇADO DO ROCK

 

Se você quiser dar boas gargalhadas e desopilar nesse fim de semana de tensão eleitoral, aí vai uma boa dica: o canal MGM HD exibe sábado, às 16h15, o filme-concerto “The Grand Illusion / Pieces of Eight”, do Styx.

Quão engraçado é o filme? Posso dizer que minha mulher, que nunca tinha ouvido falar da banda, estava chorando de rir em menos de cinco minutos.

Gravado em 2010, o concerto mostra o grupo tocando seus dois discos de maior sucesso, “The Grand Illusion” (1977) e “Pieces of Eight” (1978).

Famosíssimo nos Estados Unidos, o Styx felizmente não fez tanto sucesso assim no resto do planeta, onde sua nauseabunda mistura de progressivo, soft rock, pop de arena, hard farofa e discos conceituais não venderam tanto quanto nos rincões brancos de classe média da América.

Este DVD, gravado mais de 30 anos depois da fase de maior sucesso do grupo, mostra que o tempo foi cruel, tanto com a música dos caras, que hoje parece relíquia de uma época de trevas, quanto com a forma dos integrantes, todos mais deformados de botox que a Renée Zellwegger.

O show parece uma versão teatral de “Spinal Tap”, com direito aos clichês mais hilariantes do rock de arena: dancinhas coreografadas, coroas com cabeleiras artificiais, um teclado giratório que possibilita ao músico ficar rodopiando pelo palco, uma bateria maior que um apartamento de três quartos, trocas de roupa, saídas estratégicas do palco para retoque de maquiagem e um figurino à Vegas, com jaquetas de couro branco e franjas, camisas compridas e brilhantes de motivos leopardos e calças justíssimas com berinjelas enfiadas na cueca para impressionar as coroas da primeira fila.

A captação em HD é tão boa que dá para ver o delineador nos olhos do guitarrista Tommy Shaw e a dentadura de James Young, cujo sorriso é tão branco, imenso e perfeito que parece que ele engoliu um teclado de piano. Demais.

Mas o destaque do show é o tecladista Lawrence Gowan, com seu mullet artificial com mechas vermelhas e sua propensão a subir no teclado para balançar a pança na direção das fãs, simulando um coito. That's rock and roll, baby.

Pensando bem, temos muito a agradecer ao Styx:  Joey Ramone cansou de dizer que formou os Ramones porque não aguentava mais ouvir Styx no rádio. E ouvindo “Come Sail Away”, “Aku Aku” e “Lords of the Ring”, dá para entender perfeitamente porque o punk rock nasceu. Obrigado, Styx!

Só lembrando que, logo depois do show do Styx, o canal exibe “Billy Joel – Live at Shea Stadium”. Juro.

E bom fim de semana a todos.

CINEMA “NOIR” EM SEIS LIÇÕES

Finalmente terminei de assistir à caixa “Filme Noir”, lançada pela Versátil. Mesmo com títulos variando muito de qualidade, é um ótimo lançamento e vale cada centavo.

São seis títulos, lançados entre 1947 e 1955, todos produções “B”, filmes baratos, geralmente produzidos para exibição em sessões duplas.

A Morte Num Beijo / Kiss Me Deadly (Robert Aldrich, 1955)

Mais conhecido como o filme que inspirou a célebre “mala misteriosa” de “Pulp Fiction” (o que tem dentro daquela valise?), esta produção de Aldrich, típico filme B do cinema anticomunista e paranoico da Guerra Fria, é na verdade uma tosquice sem tamanho, com atores péssimos - começando pelo ator principal, o canastríssimo Ralph Meeker  - coadjuvantes caricatos (o que é aquele irritante mecânico grego?), uma trama sem sentido, brigas à Trapalhões e diálogos piores que os de “Garota Exemplar”. Apesar de tanta ruindade, virou cult e vale pela única cena realmente memorável, a última, numa praia.

Fuga do Passado / Out of the Past (Jacques Tourneur, 1947)

As coisas melhoram bastante com esse filmão de Tourneur (se você não viu “Cat People”, de 1942, assista AGORA), em que Robert Mitchum faz um bandido contratado por um gângster (Kirk Douglas) para encontrar sua amante (Jane Greer). A trilha o leva a Acapulco, onde ele não só encontra a deusa, como cai de amores por ela. “Fuga do Passado” traz alguns dos ingredientes típicos do “noir” – um homem tentando apagar seu passado, um amor impossível, a mulher fatal – e ver Robert Mitchum enfrentando Kirk Douglas é inesquecível.

O Cúmplice das Sombras / The Prowler (Joseph Losey, 1951)

A primeira metade desse filme é sensacional, uma pérola de luxúria e voyeurismo: um policial (Van Heflin) seduz uma mulher (Evelyn Keyes), casada com um famoso apresentador de rádio. Os dois se encontram à noite, enquanto ouvem o programa do marido traído. Infelizmente, a segunda metade do filme não é tão inspirada, envolvendo uma complicada trama para liquidar o corno. Tanto Losey quanto o roteirista, Hugo Butler, tiveram de deixar os Estados Unidos nos anos 50 depois de entrarem para a “Lista Negra” de Hollywood por se recusarem a colaborar com a perseguição a supostas comunistas e radicais. O roteiro também teve a participação – não-creditada - de Dalton Trumbo, outro roteirista perseguido em Hollywood.

Anjo do Mal / Pickup on South Street (Samuel Fuller, 1953)

Na minha opinião, o maior filme “noir” de todos. Fuller é incapaz de fazer um minuto de cinema tedioso, e aqui ele está em sua melhor forma. A trama, os diálogos, as atuações, tudo é soberbo. A cena inicial é uma aula de cinema: num vagão de metrô lotado, um bandido (Richard Widmark, antológico) rouba a carteira de uma mulher linda (Jean Peters). O que ele não sabe é que acaba levando um microfilme com segredos de um grupo de espiões comunistas infiltrados em Nova York. Thelma Ritter faz Moe, uma informante da polícia e uma das personagens secundárias mais fascinantes do cinema criminal. “Anjo do Mal” é “pulp” de primeira, uma bomba atômica recheada de paranoia anticomunista e estética de tabloide sensacionalista.

Passos na Noite / Where the Sidewalk Ends (Otto Preminger, 1950)

Escrito por Ben Hecht (pesquise, ele escreveu só “Scarface”, “Quanto Mais Quente Melhor” e “Interlúdio”, entre mais de 70 filmes), este drama policial tem um começo dos mais inusitados: um detetive, Mark Dixon (Dana Andrews), repreendido por seus superiores por conduta violenta, vai investigar um crime que ele desconfia ter sido cometido por um famoso gângster (Gary Merrill), mas acaba matando, por acidente, a principal testemunha. Dixon bola então um plano para incriminar o gângster. “Passos na Noite” tem um final moralista e não é o “noir” mais inspirado de Preminger, que dirigiu “Laura”.

Entre Dois Fogos / Raw Deal (Anthony Mann, 1948)

Outro filme que não merece a fama “cult” que tem. Dennis O’Keefe faz Joe Sullivan, um bandido que foge da cadeia e vai cobrar uma dívida do antigo patrão, Rick Coyle, um gângster sádico interpretado por Raymond Burr. Coyle planeja matá-lo e manda capangas atrás dele. Enquanto isso, Sullivan se divide entre duas mulheres. O roteiro é cheio de furos, as cenas de ação são quase amadoras e a história, no fim, não empolga.

DEBATE SEM JORNALISMO VIRA BRIGA

ok  DEBATE SEM JORNALISMO VIRA BRIGA

Assim como boa parte do país, tenho acompanhado os debates entre Dilma e Aécio na TV com exasperação. Se eles são prova da maturidade e qualidade de nosso embate político, estamos fritos.

Desde que anunciaram que os confrontos de segundo turno não teriam a presença de jornalistas e as perguntas seriam feitas somente pelos candidatos, suspeitei que os debates terminariam como briga de pátio de colégio.

Esse formato pode ser bom para a TV, já que rende faíscas entre os candidatos, mas é péssimo para a democracia. Até agora, o que se viu foram frases de efeito, acusações e mentiras a granel.

Não estou dizendo que a simples presença de jornalistas tornaria os debates melhores. Mas, com profissionais fazendo perguntas, pelo menos teríamos a chance de ouvir um candidato falar de suas propostas sem se preocupar apenas em atacar o outro. E os candidatos certamente teriam mais cuidado ao divulgar dados imprecisos.

No último debate, na Record, fiz um teste: a cada afirmação de um candidato, eu acessava a Internet e tentava confirmar a veracidade dos números e dados apresentados. Por várias vezes, achei informações discrepantes. Dos dois candidatos.

Acontece que o formato escolhido para os programas não privilegia a discussão, mas a briga. Não vence quem tem as melhores ideias, mas quem fala melhor ou escolhe a frase de mais impacto, mesmo que seja absolutamente mentirosa. Com tempo limitado e sem a possibilidade de apartes, um candidato sabe que pode falar o que quiser em sua última réplica, já que seu oponente não terá a chance de revidar.

Para aliviar um pouco a depressão desses últimos dias antes do segundo turno, veja esse clipe do programa de John Oliver na HBO, em que ele fala sobre os candidatos esdrúxulos da eleição brasileira.

 

 

O que mais me chamou a atenção foi a risada da plateia quando Oliver conta que, no Brasil, votar é uma obrigação, não um direito. Já estamos tão acostumados com esse fato que não percebemos como é absurdo. Mais uma distorção de nossa “democracia”.

O DISCO MAIS PESADO DO ROCK FAZ 50 ANOS

capa O DISCO MAIS PESADO DO ROCK FAZ 50 ANOS

Em maio de 1958, os deuses do rock’n’roll sorriam para Jerry Lee Lewis: seu compacto “Breathless” escalava as paradas; “High School Confidential”, lançado poucos dias antes, tinha pinta de hit monstruoso. Seu maior rival, Elvis, estava no exército. Aos 22 anos, Jerry Lee estava prestes a embarcar na turnê mais importante de sua carreira: 30 shows em 37 dias na Inglaterra.

Mas a história foi outra. Cinco dias depois de chegar a Londres, Jerry Lee foi despachado de volta aos Estados Unidos, humilhado e sem um centavo no bolso. A turnê fora cancelada, e sua carreira começaria a despencar mais rapidamente que as “Grandes Bolas de Fogo” que ele descrevera em sua canção mais famosa.

Tudo culpa dos repórteres que insistiram em perguntar quem era aquela criança que acompanhava Jerry à Inglaterra. “É minha esposa, Myra Gale”, respondeu o “Killer”. “Quantos anos ela tem?” indagaram os jornalistas. “Quinze”, respondeu Jerry. “É meu terceiro casamento”.

Não demorou para a imprensa britânica descobrir que Myra não tinha 15, mas 13 anos. Foi um escândalo. Editoriais foram publicados pedindo a deportação do cantor. Jerry Lee foi chamado de “Rouba-Nenê” e “Ladrão de Berços”. No aeroporto, antes de embarcar de volta a Memphis, foi perguntado se a polêmica poderia prejudicar sua carreira. Em seu típico estilo blasé, Jerry Lee ajeitou o cabelo, olhou nos olhos do repórter e disse: “Nos Estados Unidos, eu tenho duas casas, três Cadillacs e uma fazenda. Você acha que estou preocupado?”

Corta. Seis anos depois. 1964. A carreira de Jerry Lee Lewis, o performer mais incendiário do rock, está acabada. Seus discos não vendem. Seu cachê caiu de 10 mil para 250 dólares por show. Ele aceita qualquer gig: em puteiros, espeluncas, cassinos de quinta categoria. E pior: viu novatos como Beatles e Stones dominarem o mundo. Como escreveu Nick Tosches na antológica biografia de Jerry Lee, “Hellfire”: “Ele havia imaginado que os Beatles, que conhecera em sua última turnê na Europa, teriam desaparecido rapidamente. Mas não só eles continuavam por lá, como estavam maiores do que nunca – eles e os tais dos Rolling Stones, arrumadinhos como umas bichinhas no último dia do Mardi Gras – e ficando ricos. E ali estava ele, Jerry Lee Lewis, melhor que todos eles, melhor que todos eles juntos, sem conseguir um hit sequer.”

Nesse período pós-Myra Gale, uma coisa aconteceu com Jerry Lee Lewis: ele soltou os bichos de vez. Seus shows, que já eram explosivos, viraram festivais de pura insanidade e violência. Confrontado com o abismo, Jerry Lee não recuou, mas se jogou de cabeça.

Achei um clipe de Jerry Lee na Inglaterra, em 1964, que dá uma ideia de como eram suas apresentações. É uma das coisas mais lindas de todos os tempos:

 

 

O que nos leva a “Jerry Lee Lewis – Live at the Star Club, Hamburg”. Gravado em 1964, no meio de seu período de trevas, é o disco mais raivoso e virulento que o rock já conheceu. Trinta e sete minutos de barulho e caos.

Ouça a versão proto-heavy metal de Jerry para “Money”, de Gordy & Bradford, e compare com a gravada pelos Beatles, que parece uma canção de ninar; ouça o “Killer” fazendo a versão definitiva de “Your Cheatin’ Heart”, que põe no chinelo até a original de Hank Williams; ouça dois mil alemães bêbados gritando “Zerry, Zerry!”, enquanto um alucinado assobia tão alto no início de “Great Balls of Fire” que dá para ouvir o fiu-fiu do chucrute sobre o piano de Jerry.

“Live at the Star Club” é um disco tão demente que consegue acalmar bebês e cães. Aqui em casa sempre dá certo: é só a voz de Jerry Lee ecoar na sala, que todos ficam assustados e quietos. É o triunfo do instinto e da irracionalidade. Isso é rock. O resto é perfumaria.

 

DAVID BOWIE, MÚSICA A MÚSICA

Há dois anos, implorei que alguma editora lançasse no Brasil “The Man Who Sold the World – David Bowie and the 70s”, de Peter Doggett, um estudo, música a música, de toda a obra de Bowie nos anos 70. Felizmente, a Editora Nossa Cultura ouviu o apelo e lançou a versão nacional: “O Homem Que Vendeu o Mundo”.

 

bowielivro DAVID BOWIE, MÚSICA A MÚSICA

 

O livro é inspirado em “Revolution in the Head” (1994), volume fundamental de Ian MacDonald sobre os discos dos Beatles (MacDonald, um dos grandes críticos musicais ingleses, foi convidado a escrever um livro semelhante sobre Bowie, mas cometeu suicídio em 2003). Doggett, autor do ótimo “A Batalha pela Alma dos Beatles”, assumiu o projeto e fez um livro brilhante, em que contextualiza a obra de Bowie nos anos 70 e ajuda o leitor a entender aquela época tão conturbada.

O autor chega a uma conclusão: ninguém, naquela década, foi tão ousado e genial quanto Bowie. Que outro artista pop lançou uma sucessão de obras-primas como “Space Oddity” (1969), “The Man Who Sold the World” (1970), “Hunky Dory” (1971), “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” (1972), “Aladdin Sane” (1973), “Pin Ups” (1973), “Diamond Dogs” (1974), “Young Americans” (1975), “Station to Station” (1976), “Low” (1977), “Heroes” (1977), “Lodger” (1979) e “Scary Monsters (and Super Creeps)” (1980)?

Ninguém.

Entrevistei Peter Doggett sobre o livro. Aqui vai a integra do papo:

Bowie sempre foi visto como um artista à frente de seu tempo. Você era adolescente nos anos 70, quando ele estava lançando seus maiores discos. Naquela época, você reconheceu a importância daqueles álbuns?

Você está certo, eu era um adolescente e, por isso, não tinha muito dinheiro e não pude comprar certos álbuns quando lançados. Por isso, ouvi muito do catálogo de Bowie fora da ordem. Eu conhecia os singles, claro, mas, por exemplo, não ouvi “Hunky Dory” até depois de comprar “Young Americans”, por exemplo. O que me impressionou não foi como os discos eram importantes, mas como eram variados e diferentes. Era difícil acreditar que todos haviam sido gravados pelo mesmo sujeito. Eu já era fã de Dylan e Beatles, então estava ciente de que grandes artistas podiam criar diferentes estilos e sons em cada disco (no caso de Dylan, ele chegava a mudar de voz de disco para disco). Bowie parecia estar trabalhando na mesma tradição – e talvez ele tenha sido o último artista capaz de fazer isso. Acho que o trabalho de Bowie nos anos 70 foi tão brilhante que sua relevância cultural só foi percebida depois que a década terminou. Foi uma década confusa e cheia de grandes acontecimentos, e seus temas mais relevantes não foram percebidos facilmente na época (especialmente para um teenager!). Foi só depois que eu pude apreciar o gênio de Bowie para capturar todos os temas e obsessões da era.

 

peter Doggett entrevista DAVID BOWIE, MÚSICA A MÚSICA

 

Você acha que existe outro artista pop que tenha refletido, em seu trabalho, o caos e confusão dos anos 70 tão bem quanto Bowie? Stevie Wonder, talvez?

A comparação com Stevie Wonder é interessante, porque seu trabalho nos anos 70 foi eclético, abrangente, e um comentário sobre a sociedade e sobre ele mesmo. Mas a música de Stevie era, claramente, o trabalho de um mesmo homem. A mudança de um álbum para outro não foi tão dramática. Bowie, por sua vez, parecia mudar completamente entre discos. Ele estava desesperado para explorar tudo, descobrir tudo, experimentar tudo. Seu trabalho também era muito fragmentário, incluindo a forma como usou a técnica “corte e cole” de William Burroughs para escrever letras [Burroughs costumava recortar seus textos e rearranjá-los aleatoriamente, dando-lhes novos significados]. Quanto mais eu analisava os anos 70, mais fragmentada a época parecia. Ela não tinha o senso de progressão que você via na cultura dos anos 60. Era uma época de caos e confusão, e acho que Bowie refletiu essas qualidades melhor e com mais imaginação do que qualquer artista de qualquer meio, seja música, literatura, pintura ou filme.

Como você acha que o trabalho de Bowie nos anos 70 é visto hoje, analisado fora do contexto da época em que foi feito?

Virou um clichê dizer que Bowie, nos 70, era um “camaleão”, mudando de disfarce o tempo todo. Acho que havia muito mais do que só isso, mas esse aspecto de sua carreira tem sido uma grandes inspiração para muitos artistas que amam trabalhar na superfície, como Madonna e Lady Gaga. Em particular, Gaga parece um tributo a Bowie, embora não soe em nada como ele. O trabalho de Bowie nos 70 é tão rico e diversificado, que há algo para todo mundo se inspirar. Você pode encontrar a influência de Bowie no punk, na discoteca, no movimento New Romantic e no grunge. É quase impossível para um artista, hoje, NÃO ser influenciado por Bowie.

Eu estava revendo “Laranja Mecânica” outro dia, e mesmo sendo indubitavelmente uma obra-prima, pareceu um pouco datado, talvez por ter sido tão copiado.  Por outro lado, os discos de Bowie, lançados no mesmo período em que o filme, envelheceram muito bem e não parecem datados. Você concorda? Por que a obra de Bowie sobreviveu ao tempo?

 

É uma questão muito interessante. Talvez “Laranja Mecânica” pareça mais datado porque seu aspecto mais visionário é seu estilo visual,que é muito fácil imitar. O livro de Anthony Burgess foi provavelmente mais revolucionário no uso da linguagem do que o filme de Kubrick. Acho que o segredo da longevidade de Bowie é que ele usou a arma secreta de todo grande artista: instinto. E essa é uma qualidade perene. Ele não estava, conscientemente, tentando capturar um momento (ou uma série de momentos) na história cultural. Ele simplesmente o fez, naturalmente, instintivamente, e você ainda pode perceber esse instinto ao ouvir os discos hoje. Talvez você só possa trabalhar assim quando é jovem, empolgado e, no caso de Bowie, sob forte stress químico e psicológico. Quando se é mais velho, você sabe demais e tende a correr menos riscos.

Qual sua opinião sobre o caráter de “mimetismo” da obra de Bowie? Ele sempre “tomou emprestado” de outros artistas, não?

Você conhece a frase que diz “Todos os grandes artistas roubam”, e Bowie não é exceção. Ele foi quase um pioneiro do pós-modernismo nos anos 70, trabalhando com empréstimo de fragmentos de ideias, melodias, letras e conceitos de outros artistas em uma grande variedade de estilos e criando algo inteiramente novo com isso. Ele nunca escondeu o uso do “mimetismo”, mas foi brilhante a ponto de transformar os fragmentos de outras pessoas em algo inteiramente seu. Quando escrevi o livro, tentei fazer uma imersão em tudo que inspirava Bowie em cada fase de sua carreira. Ele sempre foi muito aberto sobre o que estava ouvindo e lendo e que filmes estava assistindo. Então fiz o mesmo e tentei me colocar na cabeça de Bowie quando ele estava criando cada projeto, para tentar entender como ele foi inspirado por Andy Warhol, ou Marc Bolan, ou pelo autor oculto Colin Wilson ou o pintor Egon Schiele.

Por que você usou, no livro, o formato “canção a canção” que Ian MacDonald utilizou em “Revolution in the Head”?

A resposta simples é que fui contratado para escrever o livro que Ian não conseguiu, devido a seus problemas mentais. Mas eu não teria seguido o formato se não achasse que ele funcionava. Como disse, acho a cultura dos anos 70 muito fragmentada, e a obra de Bowie também foi feita de fragmentos. Eu expandi um pouco o formato criado por Ian, adicionando ensaios que me permitiram mergulhar mais profundamente em temas importantes do trabalho de Bowie, do glam rock à homossexualidade.

O que você achou do mais recente álbum de Bowie, “The Next Day”? Você ficou surpreso pela reaparição de Bowie, depois de anos de sumiço e especulações sobre sua saúde?

Fiquei surpreso como qualquer um quando ouvi que ele tinha reaparecido. Um dia, liguei o rádio às seis da manhã e fiquei maravilhado ao ouvir o locutor da BBC dizer que Bowie tinha lançado um novo single. Liguei a Internet, vi o vídeo, e continuei achando que estava sonhando! Gostei muito de “The Next Day”, mas não acho que some nada à obra de Bowie. Parece uma sequência previsível de “Scary Monsters” (1980), e não me surpreenderia se tivesse sido lançado em 1981. Gosto de ouvir o disco, mas não PRECISO ouvir, como os discos dos anos 70. Acho que o mais relevante dessa volta de Bowie foi o vídeo de “Where Are They Now?”, uma comovente exploração da nostalgia e do processo de envelhecimento. Talvez ele só devesse ter lançado essa música e ficado por isso mesmo.

Você sabe se Bowie leu seu livro? Você já o entrevistou?

As respostas a essas perguntas são “Não sei” e “Não”. Ele não dá entrevistas há mais de uma década, e não tentei contatá-lo. Ele sempre deu ótimas entrevistas, mas as histórias que contava variavam muito de uma entrevista a outra, então achei que não fazia sentido perguntar a ele sobre o que tinha feito 40 anos antes. Preferi ouvir muito atentamente os discos e deixar que eles “falassem”. Não tenho a menor ideia se Bowie lê o que é escrito sobre ele, embora algumas pessoas tenham me dito que ele tem várias cópias de meu livro em seu escritório em Nova York. Se ele ler o livro, espero que aprecie o cuidado que tive em explorar o seu mundo nos anos 70 e o respeito que tenho pela música extraordinária que fez no período.

O FILME QUE “PSICOSE” DESTRUIU

Já escrevi bastante aqui no blog sobre filmes que quase acabaram com as carreiras de seus respectivos diretores, como “Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia” (Sam Peckinpah), “Comboio do Medo” (William Friedkin) e “Cão Branco” (Samuel Fuller).

Foram filmes ousados demais e populares de menos, que prejudicaram as carreiras dos cineastas e dificultaram o financiamento de projetos posteriores, mas que acabaram redescobertos depois e hoje são clássicos.

Pode somar a essa lista “A Tortura do Medo” (“Peeping Tom”), de Michael Powell, que acaba de sair em DVD no Brasil.

Quando fez "A Tortura do Medo", em 1960, Michael Powell (1905-1990) era um dos diretores mais respeitados do cinema inglês, graças a sucessos como "The Life and Death of Colonel Blimp" (1943), "Os Sapatinhos Vermelhos" (1948) e "Os Contos de Hoffman" (1951), feitos em parceria com Emeric Pressburger (aliás, se você não viu “Os Sapatinhos Vermelhos”, assista de qualquer maneira, é um desses filmes inesquecíveis).

"A Tortura do Medo" conta a história de Mark Lewis (Carl Boehm), um aspirante a cineasta e membro de uma equipe de filmagem. Lewis é um sujeito tímido e calado, que vive sozinho e não tem amigos. Na verdade, é um poço de repressão sexual e neuroses, um assassino serial cuja obsessão é filmar as expressões de horror no rosto de suas vítimas.

Dizer que o filme foi mal recebido pela crítica não é justo; ele foi escorraçado. Os adjetivos eram de “nojento” pra baixo: um famoso crítico sugeriu jogar os negativos no esgoto; outro disse que era “mais nauseabundo e deprimente que colônias de leprosos no Paquistão”. Powell foi chamado de pervertido e doente. O filme saiu rapidamente de cartaz na Inglaterra e foi lançado nos Estados Unidos em pouquíssimas salas e cópias cortadas e em preto e branco.

Dois meses depois do lançamento de “A Tortura do Medo” na Inglaterra, Alfred Hitchcock lançaria outro filme sobre um assassino atormentado por neuroses de infância: “Psicose”. O sucesso deste acabou jogando ainda mais terra na cova do filme de Powell.

No início da década de 70, no entanto, uma cópia completa – e colorida - de “A Tortura do Medo” começou a circular nas escolas de cinema de Nova York. Um jovem Martin Scorsese assistiu, boquiaberto, e começou a falar sem parar sobre o filme. “Tudo que você precisa saber sobre a arte do cinema está em dois filmes: ‘Oito e Meio’, de Fellini, e ‘A Tortura do Medo’, de Michael Powell”. Anos depois, Scorsese iniciaria uma longa parceria com a editora Thelma Schoonmaker, que em 1984 casaria com Powell.

Hoje, “A Tortura do Medo” é considerado um clássico do terror psicológico. É um daqueles filmes - como “O Despertar da Besta”, de José Mojica Marins - em que você não sabe onde começa a loucura voyeur do personagem e termina a do diretor. Um pesadelo neurótico e atormentado, inundado de obsessões freudianas e tão perturbador quanto um “snuff movie” (filme de violência real), mesmo filmado em um tecnicolor saturado e artificial. De entortar a cabeça.

Bom fim de semana a todos.

P.S.: Estarei fora até o fim da tarde e impossibilitado de moderar comentários. Se o seu comentário demorar a ser publicado, peço desculpas e um pouco de paciência. Obrigado.

VOCÊ NUNCA VIU UM FILME COMO “O ATO DE MATAR”

Essa semana, a HBO começou a exibir “O Ato de Matar” (“The Act of Killing”), de Joshua Oppenheimer (veja horários aqui). Foi o melhor filme que vi em 2013. Para dizer a verdade, não vi outro filme melhor desde então.

Uma maneira simplória de resumir “O Ato de Matar” seria dizer que é um documentário sobre os esquadrões da morte indonésios que aniquilaram cerca de um milhão de pessoas depois do golpe de Estado de 1965, que pôs na Presidência o sádico Suharto.

Mas o filme é bem mais que isso. A maneira que Oppenheimer imaginou para relatar a barbárie foi das mais inventivas: ele convenceu alguns dos membros desses esquadrões da morte a reencenar, em forma de musical, faroeste e filme de aventura, algumas das atrocidades que cometeram. Não há uma cena de arquivo ou violência real no filme; tudo é estilizado.

O resultado é um delírio tecnicolor sobre a banalidade do mal, um filme em que a ficção consegue ser mais chocante que a realidade, ao deixar os personagens mitificarem suas próprias “façanhas”.

“O Ato de Matar” acompanha dois velhinhos simpáticos, Anwar Congo e Ady Zulkadry. Eles aparecem brincando com os netos, dançando e passeando por um shopping com a família. É só quando começam a contar suas trajetórias que descobrimos que são dois assassinos em massa. Anwar diz ter matado mais de mil pessoas, a maioria por estrangulamento com uma forca de arame.

Os dois eram bandidinhos comuns e viviam de pequenos golpes, quando Suharto tomou o poder e começou a arregimentar grupos paramilitares para exterminar comunistas – na verdade, qualquer um que se opunha ao regime. Anwar e Ady viraram astros da nova máquina de matar do Estado indonésio, liderando ataques a aldeias, escolas, fazendas, universidades, enfim, a qualquer lugar sob “ameaça” comunista. Até hoje, dão autógrafos na rua e entrevistas na TV.

Oppenheimer não julga nenhum dos entrevistados, mas simplesmente mostra como “o ato de matar” tornou-se tão corriqueiro para essas pessoas. É assustador ver amigos sessentões se reunindo para jogar conversa fora, relembrar os bons tempos e reencenar estupros e chacinas.

Os “filmes” que resultam desses encontros são bizarros ao extremo: coloridíssimos, exagerados e com atuações grotescas. Parecem obra de colegiais refilmando cenas de zumbis de George Romero. As imagens são mais assustadoras que qualquer “thriller”, porque refletem a visão de monstros reais e dão forma aos delírios psicopatas de cidadãos comuns que, amparados pelo Estado, puderam liberar seus instintos selvagens. Que filme!

O PULITZER NÃO É MAIS AQUELE…

De todos os prêmios literários internacionais de ficção, o que mais me impele a comprar um livro vencedor é o Pulitzer. Dos últimos dez títulos vencedores do prêmio, li seis, incluindo o mais recente, “O Pintassilgo”, de Donna Tartt, que acaba de sair no Brasil.

pintassilgo O PULITZER NÃO É MAIS AQUELE...

Vendo a lista dos vencedores dos últimos 11 anos (não houve premiação de ficção em 2012), percebo que o único dos seis livros que realmente me marcou e que pretendo reler é “A Estrada”, de Cormac McCarthy (2007).

Dos últimos três vencedores, penei para terminar dois: “A Visita Cruel do Tempo” (2011), de Jennifer Egan, e “The Orphan Master’s Son” (2013), de Adam Johnson. Gostei de “O Pintassilgo”, apesar de achá-lo longo demais – 728 páginas - e um tanto prolixo.

A história é curiosa – muito resumidamente, um menino de 13 anos perde a mãe em um atentado terrorista em um museu em Nova York e acaba se envolvendo com uma rede internacional de falsificadores de obras de arte – mas poderia ter sido contada em metade das páginas. Estilisticamente, o romance não trouxe nada de novo ou surpreendente.

A maior parte da crítica literária elogiou o livro, mas algumas publicações importantes, como "The New Yorker" e "The Paris Review", o desancaram. James Wood, crítico da "New Yorker" (e autor de um fabuloso livro sobre teoria literária, "How Fiction Works", lançado por aqui com o título “Como Funciona a Ficção”), disse à revista "Vanity Fair": "O sucesso do livro é prova da infantilização de nossa cultura literária, um mundo em que adultos andam por aí lendo Harry Potter'”.

Será que, em alguma outra época, um crítico respeitado comparou um livro vencedor do Pulitzer a um “best seller” de livraria de aeroporto como “Harry Potter”? O que está em crise, a literatura ou o Pulitzer?

Se você pensar nos autores que já mereceram o prêmio – Hemingway, Faulkner, Edith Wharton, Pynchon, Saul Bellow, Philip Roth, Norman Mailer, John Kennedy Toole, etc., – realmente dá pena da seleção dos últimos anos.

Mas quando você lembra que, em 1975, os candidatos ao Oscar foram “Um Dia de Cão”, “Barry Lyndon”, “Um Estranho no Ninho”, “Nashville” e “Tubarão”, e os discos que concorreram ao Grammy foram gravados por Stevie Wonder, Paul McCartney, Joni Mitchell, Elton John e John Denver, percebe que não é só a literatura que já viu dias melhores.

P.S.: Estarei fora até o fim da tarde e impossibilitado de moderar comentários. Se o seu comentário demorar a ser publicado, peço desculpas e um pouco de paciência. Obrigado.

ISSO SIM É UM “THRILLER”!

 

Atenção, fãzocas de “Garota Exemplar”: se vocês quiserem ver um “thriller” realmente bem escrito, com ótimos personagens, diálogos afiados, um elenco extraordinário e uma história surpreendente, corram ao cinema e assistam a “O Homem Mais Procurado”, de Anton Corbijn. Foi o último filme da carreira de Philip Seymour Hoffman e uma despedida à altura do talento do ator.

O filme se passa em Hamburgo, na Alemanha, cidade onde os ataques de 11 de setembro foram planejados. Hoffman interpreta Günther Bachmann, chefe de uma unidade antiterrorista alemã, tão secreta que nem a polícia local sabe de sua existência.

Um dia, chega a Hamburgo um refugiado checheno, Issa Karpov (o ator russo Grigoriy Dobrygin), que vaga pela cidade procurando por um banqueiro local, Thomas Brue (o sempre ótimo Willem Dafoe). Issa é acolhido por uma família turca, que o apresenta a Annabel Richter (Rachel McAdams, uma coisinha de louco), advogada especializada em defender exilados políticos. A equipe de Günther localiza Issa e, acreditando tratar-se de um terrorista, começa a seguir seus passos.

Adaptado de um romance escrito em 2008 por John Le Carré, o filme vira um sombrio “thriller” de espionagem, envolvendo altos escalões do governo alemão, uma agente norte-americana enviada pela CIA (Robin Wright, cada vez melhor) e um milionário saudita suspeito de ligações com a Al-Qaeda. Contar mais seria maldade. Assista.

Philip Seymour Hoffman está, como sempre, extraordinário. Seu Günther Bachmann é um homem melancólico, atormentado por uma experiência traumática em Beirute, onde sua rede de espiões foi descoberta e aniquilada. Ele vê em Issa Karpov a chance de se redimir e desbaratar uma grande rede terrorista.

“O Homem Mais Procurado”, como todas as histórias de John Le Carré, é um “thriller” cerebral. Não espere grandes tiroteios à “Missão Impossível” ou Jason Bournes saltando de prédios. Isso não existe no mundo cinza e traiçoeiro do escritor britânico, onde frases matam mais que tiros e ninguém é o que parece.

E Anton Corbijn faz um trabalho sensacional com essa trama dark. Famoso por fotos e videoclipes icônicos de artistas como U2, Tom Waits, Johnny Cash, Nirvana, Depeche Mode, Joy Division e tantos outros, Corbijn vem se firmando como um cineasta talentoso desde que estreou, em 2007, com “Control”, a ótima cinebiografia de Ian Curtis, líder suicida do Joy Division, e fez também um estranho e marcante filme policial à Wim Wenders, “Um Homem Misterioso”, com George Clooney.

Esses dias, a TV a cabo tem exibido um documentário sobre o fotógrafo holandês, “Retrato de Anton Corbijn”. Se puder, assista.

 

 

Corbijn é um personagem fascinante. Sempre trabalhou com superastros pop, mas odeia o culto a celebridades, vive sozinho e parece não ter amigos. Filho de um pastor, foi uma criança solitária, e essa solidão é transmitida para o seu trabalho. Em certo ponto do filme, ele diz: “Acho que fracassei como ser humano”.

OS PEQUENOS CRÍTICOS NÃO PERDOAM

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Dia desses, fui convidado a participar do júri de um concurso de resenhas de livros escritas por crianças. Os candidatos – de 6 a 12 anos - tinham de escolher um livro e escrever um texto sobre ele. Foi uma experiência sensacional ler as resenhas da molecada.

O que me impressionou, para começo de conversa, foi o alto nível dos textos. Como não se emocionar com uma resenha que começa assim: “Admito: sou uma viciada em livros. Muitas pessoas falam que quem lê são sós os nerds ou sem vida social. Um aviso: estão enganados! Muitos não sabem, mas quem lê escolheu ter várias vidas ao invés de uma”.

Várias resenhas traziam frases curiosas e surpreendentes. Uma menina descrevia um livro como “um ótimo acompanhamento para uma tarde de frio e um chocolate quente”; outra elogiava um título por não terminar com o tradicional “Felizes para sempre”: “Ele nos faz refletir sobre a questão do desconhecido (...) você se surpreenderá com a visão sobre o mundo completamente diferente”.

Alguns “críticos” se arriscavam a dar dicas aos escritores. Um menino de 10 anos deu nota 9,5 ao famoso livro “Diário de um Banana”, do americano Jeff Kinney, e terminava a resenha com uma sugestão: “O livro perde meio ponto porque só conta a vida de Greg na escola. Poderia contar da amizade dele ou algo assim. Se eu fosse Jeff Kinney, contaria como ele convivia com os amigos e não só tentando ser popular”.  Demais.

Nem todos os textos eram elogiosos. Uma menina de 12 anos, fã da série “Percy Jackson”, de Rick Riordan, malhou outro livro do autor, “A Pirâmide Vermelha”. O texto começa elogiando Riordan: “Duas coisas que aprecio muito em Rick: ele consegue encaixar a mitologia para o mundo atual e é o tipo de autor que faz você querer entrar no livro, você participa da história”. Mas, no fim, a menina chega à conclusão de que o livro é decepcionante: “Ele tem pontos negativos: são ideias que juntas não combinariam, o livro se torna cansativo e previsível (...) Tinha tudo para ser bom, um bom escritor, a ideia de mitologia e a proposta da narrativa, só não juntos. Por isso: não recomendo”.

Um dos textos mais ácidos e engraçados é o de uma garota de 11 anos, que malha sem dó o livro “Tem um Fantasma na Minha Calça”, de Jim Benton: “Só quis jogar o livro no chão e botar fogo! Calma, pessoal, foi apenas uma vontade. Nada de botar fogo no livro, hein? Mas já aviso que você poderá sentir essa vontade quando começar a ler o livro”.

Algumas coisas me chamaram a atenção nas resenhas. Em primeiro lugar, a maioria absoluta de meninas. Li cerca de 80 resenhas e 90% tinham sido mandadas por meninas. O que está rolando com os garotos? Não leem tanto? Muito videogame?

Outro fato curioso: vários textos comentam, mesmo que de passagem, como a leitura é uma opção à televisão.  Num texto sobre “O Caso do Bolinho”, de Tatiana Belinky, uma menina de 10 anos escreve: “O livro é um bom estímulo à leitura e uma sugestão para sair da frente da televisão”.  Espero, daqui a alguns anos, acompanhar essa menina escrevendo em algum jornal.

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