CIÊNCIA CONFIRMA: MOTÖRHEAD FAZ MAL AO CÉREBRO

Lemmy eyeball CIÊNCIA CONFIRMA: MOTÖRHEAD FAZ MAL AO CÉREBRO

Meu amigo Cássio Leite Vieira é especialista em dois assuntos: ciência e heavy metal. E me enviou um artigo que junta os temas de forma inusitada.

Em janeiro de 2013, um homem de 50 anos chegou ao Departamento de Neurocirurgia da Escola de Medicina de Hanover, na Alemanha, com uma forte dor de cabeça, que já durava duas semanas.

O histórico médico do paciente não indicava a causa da dor, mas uma entrevista revelou que, algumas semanas antes, ele havia comparecido a um show do Motörhead. E pior: havia passado o show inteiro batendo cabeça. Ou, como dizem lá fora, “headbanging”.

Uma tomografia do cérebro confirmou o que os médicos temiam: o homem tinha, no lado direito da cabeça, um hematoma subdural – em bom português, “sangramento no cérebro”.

Cirurgiões retiraram o hematoma e drenaram o sangue do cérebro do metaleiro por seis dias. As dores de cabeça diminuíram de intensidade, e ele recebeu alta poucos dias depois.

Uma reportagem em uma revista médica diz: “Bater cabeça, embora geralmente considerado inofensivo, pode causar dissecção da artéria carótida, lesões no pescoço e enfisema no mediastino. Este é o primeiro caso conhecido em que ‘headbaning’ causa um hematoma subdural crônico”.

E termina: “Este caso prova a reputação do Motörhead como um dos grupos mais pesados do planeta, não só pela velocidade e peso contagiantes de seu som, mas também devido ao potencial risco de fãs sofrerem lesões cerebrais ao baterem cabeça”.

Estejam avisados.

JÁ LEU JOSEPH WAMBAUGH?

joseph wambaugh photo JÁ LEU JOSEPH WAMBAUGH?

Já escrevi aqui no blog sobre a crise de qualidade da literatura policial moderna. Quando um abacaxi como “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” é considerado um livro revolucionário, é porque alguma coisa está muito errada.

Isso sem falar em “O Jogo de Ripper”, primeira – e, espero, última – incursão de Isabel Allende pelo romance policial. Tive de ler por obrigação profissional e foi uma experiência das mais torturantes.

Enquanto não chega o novo livro de James Ellroy, “Perfidia” (o meu já está encomendado, sai em setembro), achei no Netflix gringo um grande filme baseado em um de meus livros prediletos: “The Onion Field”.

Dirigido por Harold Becker (dos ótimos “Sea of Love” e “City Hall”) em 1979, é inspirado no livro homônimo de Joseph Wambaugh, lançado em 1973, sobre uma história real ocorrida dez anos antes na Califórnia: uma dupla de policiais, Ian Campbell (Ted Danson) e Karl Hettinger (John Savage) para um carro suspeito numa averiguação de rotina. No automóvel estão dois ladrões, Jimmy Smith (Franklyn Seales) e Gregory Powell (James Woods).

Os bandidos rendem os policias e os levam para uma plantação de cebolas na periferia da cidade, com a promessa de soltá-los. Quando chegam à  plantação, Powell atira nos dois. Campbell morre na hora, mas Hettinger consegue escapar.

O filme acompanha os anos seguintes ao crime e ao julgamento dos assassinos, e conta como os bandidos conseguem, por meio de manobras jurídicas espertas, sair por cima. E Hettinger, o policial sobrevivente, é assombrado pelas memórias do crime e entra numa depressão suicida. As atuações de Woods, Savage e Seales são incríveis.

Não sei se “The Onion Field”, o livro, foi lançado em português. No site Estante Virtual há dezenas de livros de Wambaugh, tanto em português quanto em inglês. Se tiver chance, leia qualquer um. Wambaugh é daqueles escritores obrigatórios para quem gosta de literatura policial.

Antes de virar escritor, Wambaugh foi tira. Seus livros relatam a vida e trabalho dos policiais com uma visão de “insider”. Os diálogos não são cheios de bossa como os de Elmore Leonard ou Lawrence Block, mestres do “thriller” pop, mas realistas. A impressão é de estar escutando uma gravação de tiras batendo papo.

Vários dos livros de Wambaugh, especialmente os primeiros, escritos na primeira metade dos anos 70, não trazem histórias complexas sobre crimes misteriosos, mas relatos de como policiais são afetados pelo stress e brutalidade do dia a dia.

“The Choirboys”, um dos melhores livros dele, fala de um grupo de tiras que se reúne num parque da cidade de madrugada para beber, fumar, trepar com umas garçonetes taradas por policiais e trocar histórias da batalha nas ruas.

“Os Novos Centuriões” – esse tem em português – conta a vida de três colegas da Academia de Polícia e suas experiências na rua. É o livro mais autobiográfico de Wambaugh.

Leia, e dificilmente você terá paciência para muito do que se passa por literatura policial hoje em dia.

 

Dunga vai dar saudades do Felipão

070622dunga Dunga vai dar saudades do Felipão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se for confirmada a informação divulgada domingo, o novo técnico da seleção da CBF, o homem que comandará a renovação do futebol brasileiro, o visionário que porá nosso futebol, finalmente, no século 21, é... Dunga.

Isso mesmo. Depois de convidar um empresário de jogador – Gilmar Rinaldi – para coordenar a seleção, a CBF agora ressuscita o gênio que levantou a Copa do Mundo em 1994 e só conseguiu pensar em xingar os jornalistas, que levou 34 volantes para a Copa de 2010 e que revelou ao mundo o craque Felipe Melo.

Fica a pergunta: o que um técnico brasileiro precisa fazer para comandar a seleção da CBF? Felipão, é bom lembrar, rebaixou o Palmeiras e ganhou o cargo. Dunga deu vexame em 2010 e vai ganhar o cargo de volta.

Imagino o que Tite deve estar pensando nessa hora. A campanha dele com o Corinthians em 2011/12 não vale nada?

E Cuca, o que pensa quando vê Dunga assumir a seleção? O que ele fez no Atlético-MG em 2012 e vem fazendo há vários anos em vários clubes não tem valor?

Principalmente, gostaria de saber o que passa na cabeça de Marcelo Oliveira nesse momento. O cara monta o time que vem jogando o melhor futebol do Brasil nos últimos 18 meses – o Cruzeiro – e tem de passar pela humilhação de ver um tosco incompetente como Dunga recompensado com o cargo mais desejado por técnicos do país.

Pensando bem, faz todo sentido a CBF se associar a Gilmar Rinaldi e Dunga. Quem pensava que uma entidade liderada por uma múmia como Marin seria capaz de se renovar e olhar pro futuro, errou feio. Marin é a vanguarda do atraso, e a CBF espelha sua visão retrógrada e provinciana.

De minha parte, adorei a escolha de Dunga. Começo, desde já, a torcida pela derrota nas eliminatórias para 2018.

JOHNNY WINTER (1944-2014)

Eu devia ter uns 12 anos quando vi uma foto de Johnny Winter empunhando sua Gibson Firebird. Por um bom tempo, achei que “Winter” (“Inverno”) era um apelido, por causa do cabelo branco como a neve. Não sabia que Johnny, assim como o irmão, Edgar, eram albinos.

Quando comecei a ouvir os discos, me empolguei. Meus dois guitarristas prediletos de blues-rock eram Johnny e Rory Gallagher. Achava que eles tinham uma pegada mais “rock”, suas músicas eram mais rápidas e animadas do que o blues “tradicional”, que eu só viria a apreciar depois (moleque gosta de velocidade, certo?).

Além de grande guitarrista, Johnny Winter foi uma espécie de arquivista do blues, sempre homenageando os pioneiros do gênero. Nos anos 70, ajudou a ressuscitar a carreira de Muddy Waters, produzindo alguns discos e fazendo shows com Waters.

É preciso lembrar que, por um bom tempo, esses patriarcas do blues viveram à margem da indústria musical. Muitos assinaram contratos longos e draconianos com suas gravadoras, e não são poucas as histórias de grandes bluesmen passando por dificuldades financeiras. Keith Richards sempre conta a história de quando foi visitar a gravadora Chess, em Chicago, e encontrou Muddy Waters trepado numa escada, pintando as paredes do lugar.

Johnny Winter nasceu no Mississipi, cresceu no Texas e se revelou como músico em Chicago. Três capitais do blues. No início dos anos 60, conheceu em Chicago uma turma de músicos talentosos e obcecados pelo blues, da qual faziam parte Mike Bloomfield e Paul Butterfield. Mas Johnny só faria sucesso em 1968, quando Bloomfield o chamou para dar uma canja num show em Nova York. Ele subiu no palco, tocou “It’s My Own Fault”, de B.B. King, e pôs o lugar abaixo. Na plateia estavam executivos da gravadora Columbia, que o contrataram na hora.

Johnny Winter era adorado por outros músicos. Os Stones gravaram “Silver Train” (do álbum “Goat’s Head Soup”, de 1973), em homenagem a ele. Em 1974, John Lennon permitiu que ele gravasse “Rock and Roll People”, faixa então inédita do ex-Beatle. E os Smashing Pumpkins lançaram “Tribute to Johnny”, faixa instrumental que emula o estilo do guitarrista.

Bom fim de semana a todos. E lembrem que ele pode ficar melhor. É só ouvir Johnny Winter.

TRABALHAR NO RIO DE JANEIRO DÁ UM TRABALHO…

cristo redentor TRABALHAR NO RIO DE JANEIRO DÁ UM TRABALHO...

Pra começo de conversa: cresci no Rio de Janeiro, tenho família lá, adoro a cidade e meus amigos e amigas cariocas. Agora, pra trabalhar, o Rio periga ser um dos piores locais do planeta. Não vou especular as razões, mas a verdade é que, toda vez que preciso fazer um trabalho na Cidade Maravilhosa, especialmente um que envolva equipes numerosas – filmagens, gravações, etc. - já sei o que esperar: atrasos, frustração e desculpas esfarrapadas.

Dia desses, participei de uma entrevista e sessão de fotos com artistas famosos da música brasileira. Todos os astros chegaram na hora, mas o maquiador deixou todo mundo esperando por uma hora. Detalhe: a produção havia mandado um carro buscá-lo em casa. Quando a produtora ligou, desesperada, perguntando onde ele estava, o gênio do pincelzinho deu chilique: “Ai, fofa, não me apressa não, que o trânsito está hor-rí-vel!”

Claro que, no fim, as coisas sempre dão certo. A simpatia e competência das pessoas acabam compensando o esculacho. O tal maquiador era tão engraçado e boa praça que, em cinco minutos, os artistas estavam gargalhando de suas piadas. Quando uma cantora brincou que era “pau pra toda obra”, o sujeito respondeu na lata: “Ah, querida, pau e obra, é comigo mesmo!”

O maior choque de culturas que já presenciei foi quando fiz um show da banda gótica The Sisters of Mercy no Circo Voador, na Lapa.  O Sisters é inglês, mas sua equipe inteira é formada por alemães. Os caras parecem um exército, de tão disciplinados. Todo dia, o tour manager imprimia o cronograma do dia seguinte: “08h30 – café da manhã no hotel; 10h15 – encontro no saguão e embarque no ônibus”. Me sentia na Wehrmacht.

No dia do show, chegamos ao Circo às 11 da manhã para montagem de palco e passagem de som. O lugar estava trancado. O primeiro funcionário apareceu duas horas depois, de chinelo, regata e cara de ressaca. Os alemães espumavam. Pouco antes do show, o tour manager me chamou: “O Andrew (Eldritch, líder da banda) quer que você tire aquela mulher daqui”, apontando para a baiana que vendia acarajé. Eldritch estava preocupado com a panela de óleo fervente e disse que aquilo “não era seguro”. Expliquei pro sujeito que a baiana estava lá há 30 anos e não dava para expulsá-la assim.

Mas a pior experiência profissional que tive em terras cariocas foi uma festa de Réveillon em um clube na beira do mar. Contratamos dez garçons, mas nenhum apareceu. Durante a montagem da festa, alguém roubou a máquina de raio laser da equipe de som, que só foi recuperada depois que um policial deu uma prensa no flanelinha que guardava carros perto do lugar.

Meses antes, quando fui alugar banheiros químicos para o evento, ouvi a seguinte frase do gentilíssimo atendente da empresa: “O quê? Tá achando caro? O preço tá bom porque você tá pagando com antecedência; tenta alugar em cima da hora pra ver a trolha que você vai levar!”

Paguei a facada e combinei com o sujeito que eles recolheriam os banheiros químicos no dia seguinte à festa, até porque o clube estava alugado para outro evento. A festa aconteceu. Cinco ou seis dias depois, eu estava em casa, quando tocou o telefone. Era o dono do clube, furibundo: “P... que pariu! Tem um monte de família aqui na piscina e esses banheiros tão fedendo pra c....! Manda esses filhos da p... tirarem essas m.... daqui agora!” A empresa ainda não recolhera os infectos banheiros químicos, que estavam empesteando o clube todo. Liguei para a empresa, mas ninguém atendeu. Depois de um tempão, consegui falar no celular do gerente. Ele disse que estava em Rio das Ostras e “já, já” mandaria uma equipe retirar os banheiros.

Foi o último evento que fiz no Rio.

P.S.: Amanhã, um pequeno tributo a um grande músico: Johnny Winter.

MEU NOVO LIVRO, “PAVÕES MISTERIOSOS”

capa pavoesmist 1000x1500 1 MEU NOVO LIVRO, “PAVÕES MISTERIOSOS”

 

Em agosto sai meu novo livro, “Pavões Misteriosos: 1974-1983: A Explosão da Música Pop no Brasil” pela editora Três Estrelas, da “Folha de S. Paulo”.

Quem quiser ler um trecho antes do lançamento pode conferir a revista “Piauí” de julho (edição 94), que traz um capítulo sobre a indústria dos covers que proliferou na cena musical brasileira dos anos 1970 e o fenômeno dos falsos gringos – cantores brasileiros que se faziam passar por estrangeiros, como Fábio Júnior (Uncle Jack), Jessé (Christie Burgh) e o mais famoso deles, Morris Albert.

Voltarei a falar do livro quando ele estiver disponível nas lojas. O que posso adiantar é que “Pavões Misteriosos” conta a história de um período pouco abordado pela bibliografia musical brasileira: a explosão da cena pop nacional, em meados dos anos 1970.

Logo após o Milagre Econômico, a indústria do disco se multiplicou no Brasil. O público consumidor tornou-se muito maior e mais jovem. Se, até então, a música romântica havia dominado as paradas, a partir de 1973/74 uma nova geração de artistas se tornaria campeã de vendas: Secos e Molhados, Novos Baianos, Raul Seixas, Guilherme Arantes, Frenéticas, Fagner, Gretchen, Rita Lee, Sidney Magal, Ritchie e muitos outros (todos foram entrevistados – com exceção de Raul, claro – além de dezenas de artistas, produtores e executivos da indústria musical).

“Pavões Misteriosos” conta a história de como a música jovem dominou o Brasil, abrindo caminho para a geração do BRock de Legião Urbana, RPM e Ultraje a Rigor. Entre os temas abordados estão o sucesso dos discos de novela, a popularização das rádios FM, a explosão da discoteca no Brasil, o jabá nas rádios e TV, a "invenção" de astros como Sidney Magal e Gretchen, o fenômeno dos “falsos gringos”, o tsunami Sullivan & Massadas e a descoberta do gigantesco mercado de música infantil, com Xuxa e A Turma do Balão Mágico.

Tento explicar, também, por que tantos discos bons foram lançados na primeira metade da década de 1970, como "Secos e Molhados", "Gita" (Raul Seixas), "Acabou Chorare" (Novos Baianos), "A Tábua de Esmeralda" (Jorge Ben), "Roberto Carlos", "Carlos, Erasmo" (Erasmo Carlos) e tantos outros.

Em 1º de agosto, participo de um debate com um dos principais entrevistados do livro, Guilherme Arantes. Será na Casa Folha, durante a FLIP, em Paraty.

Dia 12 de agosto, estarei no MIS de São Paulo para o debate “Música Para Ler”, junto a três grandes jornalistas/autores: Fábio Massari (“Mondo Massari”, “Malcolm”), Ricardo Alexandre (“Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar”) e André Forastieri (“O Dia em que o Rock Morreu”). E dia 13, lanço “Pavões Misteriosos” na Livraria Cultura, em São Paulo.

Mais detalhes em breve.

O HORROR, O HORROR

Difícil passar um dia tranquilo depois de ler essa noticia sobre abuso sexual de um pai contra as próprias filhas.

O cinema, tanto o de ficção quanto o documental, tem tratado do assunto de abuso sexual de menores com bastante freqüência. Mas a historia em Santa Catarina periga ser mais aterrorizante que a de qualquer filme.

Lembro “A Caça”, de Thomas Vinterberg, sobre um professor (Mads Mikkelsen) injustamente acusado de molestar uma aluna de quatro anos. É um grande filme, indicado ao Oscar.

O documentário norte-americano de média-metragem “Child of Rage”, feito para TV, conta uma história tétrica: a de uma menina que foi abusada pelo próprio pai quando tinha menos de dois anos de idade. O filme está disponível na Internet e é uma paulada.

Outro filme difícil de assistir é “Just Melvin, Just Evil”, sobre Melvin Just, patriarca de uma família que é acusado por filhas, sobrinhos e netos de molestá-los.

Mas o caso de Santa Catarina é ainda mais chocante, não só pela violência contra as filhas, mas pela duração do martírio que, segundo as vítimas, vinha ocorrendo há quase 20 anos.

DEPOIS DE ABRAÇAR O CINEMA, POR QUE VOCÊS NÃO ABRAÇAM O CAPETA?

cineleblon DEPOIS DE ABRAÇAR O CINEMA, POR QUE VOCÊS NÃO ABRAÇAM O CAPETA?

Só existe uma coisa que artista brasileiro gosta mais do que aplauso: é participar de alguma manifestação totalmente inócua em prol de uma iniciativa fadada ao fracasso, mas que renda linhas elogiosas em jornais e uma foto na coluna social.

Veja o caso do Cine Leblon, no Rio de Janeiro: há algumas semanas, foi anunciado o fechamento da sala, que existe desde 1951 e, segundo os proprietários, dá prejuízo há anos. O prédio é tombado e, por isso, os donos não puderam construir uma garagem subterrânea e um edifício comercial no local.

Mais rápido do que você poderia dizer “Pizzaria Guanabara”, um grupo de artistas e moradores do bairro se juntou e promoveu um “abraço coletivo” ao cinema. Teve gente que – snif, snif – se ajoelhou e botou velas na porta do cinema. Tudo muito odara, uma coisa de pele, de gente do bem, saca?

Numa sociedade civil organizada e atuante, o que aconteceria? Fácil: artistas e associações de moradores se juntariam, promoveriam uma coleta de doações e organizariam uma entidade para gerenciar o cinema. Ou comprariam a bagaça e a doariam ao bairro.

Foi o que ocorreu em 1988 em Brookline, cidade perto de Boston, quando o tradicional cinema Coolidge Corner estava ameaçado fechar. Hoje, a associação que toma conta do cinema tem quase três mil membros.

No fim dos anos 80, quando Martin Scorsese percebeu que negativos de filmes antigos estavam se deteriorando, o que fez o cineasta? Juntou os amigos e deu um abraço coletivo numa lata de filme? Não: botou grana do próprio bolso e criou a Film Foundation, que já salvou mais de seiscentos filmes antigos.

Um exemplo mais recente: ano passado, o músico Jack White doou 200 mil dólares à Fundação Nacional de Preservação de Fonogramas, organização que preserva a história dos discos e gravações norte-americanos.

Mas aqui ainda não compreendemos como funciona uma sociedade capitalista de verdade. Ninguém parece entender que um cinema precisa de público que pague ingresso (aposto que boa parte dos que abraçaram a sala só iam ao cinema no Shopping Leblon). E a solução, em vez de botar a mão na massa e trabalhar, ou doar seu próprio dinheiro, é apelar ao Estado nhonhô: “Ah, o governo tem de dar um jeito nisso”.

Ninguém está dizendo que o Estado não tem de apoiar a cultura. Claro que tem. Mas o Cine Leblon é privado e precisa sobreviver com seus próprios recursos.

Mas o nhonhô sempre dá um jeito, não é mesmo?

E a solução veio rapidinho: o prefeito do Rio, Eduardo Paes, prometeu destombar a sala (como se "destomba" algo? Quer dizer que um prédio pode perder a importância histórica e arquitetônica de uma hora pra outra?). Isso permitiria aos donos construírem a garagem subterrânea e um prédio comercial anexo ao cinema. Claro que o destombamento vai desfigurar a arquitetura do cinema - um representante dos donos da sala disse ao "Globo" que a fachada será restaurada e as salas, "modernizadas" - mas isso não parece ser empecilho para o prefeito, que já apoiou a destruição das marquises tombadas do Maracanã e não parece ter nenhum respeito pela tradição arquitetônica da cidade. Destombar é com ele mesmo.

É a solução mais fácil: artistas não perderão horas preciosas de sol trabalhando para manter o cinema e podem continuar flanando nas calçadas do Leblon enquanto são perseguidos por paparazzi; o cinema vai continuar lá, embora desfigurado, e os moradores, que gostam mesmo é de ver “Transformers” em 3D, poderão se lambuzar de pipoca com azeite trufado.

Vão abraçar o capeta, todos vocês.

P.S.: Estarei fora o dia todo e impossibilitado de moderar comentários. Se o seu comentário demorar a ser publicado, peço um pouco de paciência. Desculpe pelo incômodo.

Ninguém mereceu mais

Final feliz: o time mais organizado, bem dirigido, bem treinado, mais dedicado e com o melhor elenco ganhou a Copa do Mundo.

Futebol não tem sorte, não tem mandinga, não tem jeitinho. Vence quem é mais competente. E o futebol alemão vem sendo o mais competente do mundo desde o início dos anos 2000, quando iniciou um processo de renovação. Hoje tem alguns dos melhores clubes do mundo e, possivelmente, o melhor campeonato.

E tem três jogadores especiais: o goleiro Neuer, o meio-campista Schweinsteiger e o atacante Muller. Na final, Schweinsteiger deve ter corrido uns 16 km e errado uns dois passes durante duas horas de jogo. Foi um monstro.

Isso sem contar Lahm, que joga bem de ala, de volante, de tudo; Klose, o maior artilheiro da história das Copas, e uma zaga absolutamente fenomenal. Inacreditável alguém falar de Thiago Silva e David Luiz como “a melhor zaga do mundo”, depois do que jogaram Hummels e Boateng. Não há comparação.

E, convenhamos, Messi de melhor jogador da Copa foi piada. Robben, Schweinsteiger, Muller e Neuer se destacaram mais.

Sei que isso não vai acontecer, mas tomara que alguém da CBF observe o comportamento da federação, da comissão técnica e dos jogadores alemães, e compare com o papelão que o time da CBF fez nessa Copa.

Depois de tomar dez gols em dois jogos e virar o café com leite da fase final do torneio, com os adversários tirando o pé do acelerador no segundo tempo e a Holanda até botando o terceiro goleiro, o time de Felipão cometeu uma derradeira grosseria, saindo antes de a Holanda receber as medalhas de bronze. Na verdade, era esperado: chefiado por uma entidade tosca como a CBF e dirigida por um chucro como Felipão, esse time de presepeiros seria incapaz de ter uma atitude educada, civilizada e cortês. Uma pataquada vergonhosa pra coroar o vexame.

E se tudo continuar como está, em 2018 teremos Alemanha penta e a seleção da CBF fora da Copa pela primeira vez.

ADEUS TOMMY, O ÚLTIMO DOS RAMONES

Morreu Tommy Erdelyi, mais conhecido por Tommy Ramone. Era o último remanescente da formação original dos Ramones, que incluía Joey, Johnny e Dee Dee.

Tommy tocou bateria nos primeiros discos, mas não gostava da estrada e logo virou uma espécie de mentor/produtor da banda. Quem esteve perto dos caras nos anos 70 diz que Tommy foi o principal arquiteto sônico-estético do grupo.

Impressionante a devastação que o câncer e outras doenças/drogas causaram nessa banda. Além de Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy, morreu recentemente Arturo Vega, designer do icônico logotipo da águia e considerado o "quinto membro" da banda.

Dos que estavam com a banda desde o início, o único sobrevivente é Monte Melnick, tour manager e assessor desde os primórdios. Que viva muito.

QUAL SERÁ O LEGADO DA COPA DO 7 A 1?

din din  QUAL SERÁ O LEGADO DA COPA DO 7 A 1?

Ano passado, em meio à empolgação com as manifestações de rua e ao blablablá do “Gigante Acordou”, muita gente disse que o Brasil tinha mudado para sempre. Cascata. As manifestações viraram desculpa para quebrar agência bancária e joguete no Fla x Flu ideológico PT x PSDB. Não se falou mais em reforma política e nenhuma mudança aconteceu de verdade.

Depois do vexame histórico dos 7 a 1 que a seleção da CBF tomou da Alemanha, ouvi muita gente dizendo que o futebol brasileiro precisava mudar, que era hora de uma chacoalhada geral, de jogar fora as maçãs podres e recomeçar do zero. Teve comentarista esmurrando mesa e dando um “basta” na corja da CBF.

Mas foi só rolar a entrevista coletiva pós-jogo para ver que nada vai mudar.

Fosse num país de homens públicos decentes, a direção da CBF e a comissão técnica inteira teriam pedido demissão na hora. No Japão, o técnico cometeria harakiri. Na Coréia do Sul, pularia de uma ponte. No Brasil, não: Parreira e Felipão juntaram os aspones e agiram como se nada tivesse acontecido. Fingem não entender a gravidade e importância histórica de um 7 a 1 numa semifinal de Copa.

Enquanto isso, a mídia especula quem será o novo técnico da seleção: Tite? Muricy? Um gringo? Guardiola, talvez?

Não importa. Podem invocar os espíritos de Rinus Michels, Saldanha e Telê e juntar Del Bosque, Mourinho, Guardiola e Van Gaal para comandar a seleção, que o desastre será o mesmo. Enquanto o futebol brasileiro e a seleção estiverem na mão da CBF, uma entidade grotesca liderada por um rebutalho da ditadura que não gosta de futebol – assim como seu antecessor, o igualmente soturno Ricardo Teixeira – nada vai mudar.

O que fizeram com a seleção brasileira é uma barbaridade. Privatizaram a camisa mais importante da história do futebol. E o cúmulo do lambe-botas corporativo foi descobrir que a tal campanha “espontânea” de apoio a Neymar no Twitter (#jogapramim), em que “astros” da seleção como Marcelo, Willian e David Luiz desejavam pronta recuperação ao craque, era na verdade propaganda de uma empresa que vende frango. Leia este artigo e vomite.

Como explicar para um moleque de dez anos que idolatra Neymar e mandou mensagens de apoio ao jogador no Twitter que ele foi peão de uma jogada publicitária para vender salsicha? Dá para ser mais asqueroso? Como respeitar uma seleção dessas?

A única coisa espontânea e inesperada que Neymar fez na Copa foi levar uma joelhada nas costas. Até as máscaras dele vistas no Mineirão durante o massacre alemão foram criadas por uma agência de publicidade. Ontem, deu mais uma de suas coletivas inócuas, obviamente mandado pela CBF para tentar apagar o incêndio dos 7 a 1. Mais uma vez, Neymar chorou sem lágrimas e disse um monte de frases ensaiadas. Chegou a dizer que torcia para Messi ser campeão do mundo. Não me surpreenderia se ele tivesse sido orientado pela CBF a dizer isso, para amenizar a vergonha caso a Argentina levante a Copa no Maracanã. Não dá para admirar um "ídolo" como Neymar, por mais que ele jogue.

Sobre o "legado" da Copa, não tenho ilusão: gastamos bilhões em elefantes brancos que nunca serão pagos, destruímos estádios mitológicos para construir arenas que mais parecem shopping centers, tiramos os pobres dos estádios e estamos garantindo que só o público do “Sou brasileiro, com muito orgulho” terá condição de pagar ingresso. Estamos matando os clubes pequenos e aniquilando o futebol do interior.

Depois dos 7 a 1, achei que poderia acontecer uma revolução por aqui. Me enganei de novo. Vão trocar de técnico, e vai ficar nisso. Tite vai assumir, mas a seleção vai continuar rendendo milhões para Marin, Del Nero e cia., nossos campeonatos continuarão deficitários, oc clubes seguirão falidos, todos os craques vão jogar no exterior, teremos jogos às 22h para satisfazer a TV, os estaduais continuarão sendo destruídos, times menores morrerão e as arquibancadas vão se embranquecer de vez.

O que precisaria acontecer pra mudar alguma coisa? Que humilhação seria maior do que levar de sete em casa? Messi erguer a Copa no Maracanã? Os hermanos destruírem a estátua do Bellini e botarem uma do Maradona no lugar?

Que seja isso, então. Vai, Argentina!

*Imagem: brainstorm9.com.br

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