MENSAGEM NA GARRAFA

bottle message MENSAGEM NA GARRAFA

 

Não sei como o assunto começou, se ela ouviu em alguma história ou viu em algum filme, mas o fato é que, há algumas semanas, nossa filha perguntou o que era uma "mensagem na garrafa".

Expliquei o conceito: você escreve uma carta, põe dentro de uma garrafa, tampa a garrafa e a joga no mar, na esperança de que alguém a encontre e responda à mensagem. Ela ficou fascinada.

Decidimos testar esse método antiquado de comunicação: nossa filha, que tem seis anos e ainda não é alfabetizada, ditou uma cartinha em que se apresentava, falava de sua vida, do que gostava de fazer ("colecionar conchas, pescar e brincar com as amigas") e pedia à pessoa que encontrasse a garrafa que respondesse para nosso e-mail. Para finalizar, juntou à carta um bonito desenho, mostrando ela própria jogando a garrafa ao mar. Achamos uma rolha, tampamos a garrafa e a lançamos no mar. Isso foi há seis semanas.

Depois, pegamos uma tábua de marés e estudamos os possíveis trajetos da garrafa, para tentar calcular onde ela poderia parar. A primeira pergunta de nossa filha foi: "Mas e se a pessoa que achar a garrafa não falar português? Ela não vai entender a carta, né?"

As semanas passaram, e acabamos esquecendo a mensagem na garrafa. De vez em quando, ela lembrava e perguntava onde a garrafa estaria. Na África? Nos Estados Unidos? No Japão? "Ninguém respondeu à mensagem ainda, mamãe?"

Nas últimas duas ou três semanas, o assunto foi completamente esquecido em casa.  A garrafa certamente estaria boiando em algum canto perdido do mar, sem ter sido encontrada por ninguém.

Há três dias, minha mulher abriu o e-mail e deu um grito de espanto: "Não é possível! Olha isso!"

Era uma mensagem de Paulo Rogério, um ambientalista do Inea. Ele havia encontrado a garrafa e mandou uma bonita mensagem para nossa filha, elogiando o desenho dela e sugerindo que ela se juntasse com as amiguinhas para fazer mutirões de limpeza nas praias.

Nossa filha ficou extasiada. Mesmo sem saber ler, passou um tempão olhando para o e-mail de Paulo, e pediu que o repetíssemos umas vinte vezes. Tão emocionada e surpresa estava, que esqueceu de perguntar onde a garrafa havia sido encontrada. Na verdade, Paulo achou a garrafa em um mangue, a menos de um quilômetro de nossa casa.

Bom fim de semana a todos.

P.S.: Estarei sem acesso à Internet até o fim da tarde e impossibilitado de moderar comentários. Se o se comentário demorar a ser publicado, peço desculpas e um pouco de paciência.

“JOGOS VORAZES” E ROCK IN RIO: O TRIUNFO DO “EVENTO-MANADA”

jaredleto JOGOS VORAZES E ROCK IN RIO: O TRIUNFO DO EVENTO MANADA

O Brasil tem pouco mais de 2800 salas de cinema. Dessas, 1310, ou 46%, estão exibindo "Jogos Vorazes".

No mesmo dia em que estreou o filme, terça-feira, ocorreu outro fenômeno comercial de proporções impressionantes: em menos de duas horas, o primeiro lote de 100 mil ingressos do Rock in Rio foi inteiramente vendido.

Os sucessos de "Jogos Vorazes"  e do Rock in Rio simbolizam o triunfo de um estilo de promoção de eventos que vem se consolidando no mundo. Não sei se alguém sugeriu um nome para esse tipo de ação, então ofereço uma sugestão: "evento-manada".

O conceito do "evento-manada" é simples: use todo seu poder de fogo — corporativo, midiático e financeiro — e ocupe todos os espaços possíveis, não deixando nada para a concorrência; transforme seu evento em algo tão desejado, mas tão desejado, que desperte no consumidor a sensação de que, se ele não for, será uma derrota pessoal, uma humilhação reservada a fracassados. Incentive, de todas as formas, a "manada".

As distribuidoras de cinema, tendo nas mãos uma arma poderosa como "Jogos Vorazes", sabem fazer isso como ninguém, e promovem uma blitzkrieg nas salas de todo o país, cientes de que o fã desse tipo de filme — aventura mágica para adolescentes — costuma madrugar nas filas para ser o primeiro a ver e assim poder gabar-se para os colegas e dar seus pitacos nas redes sociais.

Não tenho nada contra quem assiste a "Jogos Vorazes" ou quem vai ao Rock in Rio. Acho que o consumidor é esperto e sabe escolher o que o agrada.

Pessoalmente, só verei "Jogos Vorazes" a trabalho, e achei o Rock in Rio de 2013 o pior evento musical que presenciei, uma Disneylândia corporativa em que as pessoas pareciam mais preocupadas em pular de tirolesa ou ganhar brindes de uma marca de carros do que em ouvir música.

O próprio "dono" do Rock in Rio, Roberto Medina, admite que a música não é o foco principal de seu evento. Questionado sobre a diferença entre o Rock in Rio e outros festivais, Medina disse: "Somos um projeto de comunicação, enquanto os outros são eventos com bandas."

Nem o fato de o festival só ter anunciado três atrações — Katy Perry, John Legend e System of a Down, convenhamos, nenhuma de cair o queixo — esfriou o ânimo dos compradores.

O Rock in Rio não é o único festival do mundo que vende ingressos antes de anunciar o line-up. Esses dias, meu festival favorito, o Austin Psych Fest, festival da música psicodélica de Austin, no Texas (evento que em 2015 vai mudar de nome para "Levitation") anunciou o início das vendas, sem ter divulgado um artista sequer.

Da mesma forma, quem quiser assistir ao festival All Tomorrow's Parties na Islândia, em julho de 2015, já pode comprar o ingresso, mesmo que só uma atração — o Belle & Sebastian — tenha sido anunciada.

Nos dois casos, aposto que as vendas antes do anúncio do line-up serão significativas. O público desses festivais confia na curadoria e sabe que a seleção de artistas será boa e surpreendente. Já o público do Rock in Rio espera exatamente o oposto: que não haja nenhuma grande surpresa. É mais do mesmo, e viva a mesmice!

QUEM QUER CANTAR NO JOURNEY?

Alguns documentários musicais são tão bons que você não precisa nem gostar da música dos artistas para se interessar.

Acho que nunca ouvi um disco inteiro do grupo canadense de metal Anvil, mas o filme "The Story of Anvil" (2008), de Sacha Gervasi, é um dos melhores documentários que já vi. Perdi o interesse na música do Metallica no início dos anos 90, mas adoro "Some Kind of Monster" (2004), de Joe Berlingner e Bruce Sinofsky, sobre as gravações do disco "St. Anger" e a fricção interna da banda.

Dia desses, vi um filme sobre uma banda que nunca me interessou: "Don't Stop Believin': Everymans's Journey", de Ramona Diaz, sobre o grupo americano Journey. O filme está passando no canal Sundance (aliás, que ótima adição ao repertório de nossa TV a cabo, não?) e merece ser visto (sugiro checar a programação; a próxima exibição está marcada para quinta, mas não consegui descobrir o horário).

 

 

O documentário conta a história de Arnel Pineda, um cantor filipino que ganhava a vida se apresentando em boates vagabundas de Manila, quando foi visto no Youtube pelo guitarrista  do Journey, Neal Schon, e convidado a participar de uma audição para a banda. Pineda acaba contratado como novo vocalista do Journey.

O filme tinha tudo para virar um desses contos de fadas moderno - rapaz pobre do Terceiro Mundo realiza o sonho de virar popstar milionário - mas, felizmente, é muito mais que isso: é um relato informativo e bem feito sobre os bastidores de uma famosa banda pop e sua politicagem interna.

O Journey é um dos grandes expoentes do rock comercial da virada dos anos 70 para os 80 - chamado por alguns de soft rock - junto a nomes como Foreigner, Styx, REO Speedwagon, Chicago, Kansas, Toto e outros.

No filme, o próprio Neal Schon conta que o Journey - formado por alguns membros da banda de Santana - começou como um grupo de longas jams instrumentais, na linha do Grateful Dead, mas resolveu mudar de estilo por imposição da gravadora. "A CBS nos deu um ultimato: ou vocês começam a fazer música comercial, com ênfase nos vocais, temas 'pra cima' e apelo radiofônico, ou serão demitidos".

Schon e cia. não pensaram duas vezes: abandonaram qualquer pretensão artística mais séria e se dedicaram a fazer a música mais inócua, apelativa e inofensiva possível. E tome tecladinhos "futuristas", refrães bombásticos, a voz aguda e irritante de Steve Perry e letras sobre superação pessoal, que viraram hinos na América careta de Reagan. A definição imortal de Ezequiel Neves para o rock progressivo - "som de penteadeira de bicha" - cairia como uma luva no Journey.

E que ninguém pense que essa guinada ultracomercial do rock foi um fenômeno espontâneo. Na verdade, foi a culminação de um processo de "profissionalização" das gravadoras, iniciado em meados dos anos 70, que resultou no fenômeno da discoteca, do soft rock, e culminou nos superastros da "Era Michael Jackson". A música acompanhou a onda conservadora e corporativista que varreu os Estados Unidos e Europa no início dos 80.

Voltando ao filme, ele motra como a chegada de Pineda causou estranheza nos fãs do Journey - 99% brancos (aliás, não vi um negro sequer na plateia de nenhum dos shows mostrados). Uma fã, entrevistada na entrada de um concerto, diz que "preferia ver um americano cantando".

Também fica claro que a contratação dele foi uma estratégia de marketing para atrair novos fãs asiáticos. "É impressionante a quantidade de filipinos e asiáticos que têm vindo a nossos shows", diz Schon, empolgado. "Não sabia que havia tantos filipinos nos Estados Unidos".

Mas o melhor do filme são as cenas de bastidores: o tecladista Jonathan Cain e Pineda aquecendo as vozes na "sala de preparação vocal"; o empresário da banda contando como o Journey estava batendo as bilheterias de pesos-pesados como Jonas Brothers e The Police; Pineda quase chorando ao encontrar, nos camarins, Jason Scheff, baixista e cantor da banda Chicago.

São instantâneos da vida na estrada e que mostram um pouco dos bastidores de uma banda grande e comercial.

“DÉBI E LÓIDE”: QUANDO A PIADA ENVELHECE

 

Sou muito fã de Jim Carrey e sempre o achei melhor que seus filmes. Suas apresentações de "stand up" e aparições em cerimônias de premiação são antológicas (veja esta, entregando um prêmio a Clint Eastwood)

 

 

Estava torcendo muito para gostar de "Débi e Lóide 2". O primeiro filme, feito 20 anos atrás, é um besteirol irresistível, daqueles que revejo sempre. E a química entre Carrey e Jeff Daniels era perfeita.

Mas o filme novo é uma decepção. Claro, tem meia dúzia de piadas ótimas - a melhor, envolvendo uma confusão entre "remetente" e "destinatário" num envelope - mas, no geral, pareceu requentado e sem graça, com muitas cenas mortas e desanimadas.

Foi a primeira vez que achei Jim Carrey sem graça e sem "timing". Ele parece ter perdido um certo espírito anárquico e explosivo que caracteriza suas melhores atuações. Parecia cansado.

O filme me fez pensar em como a comédia tem prazo de validade. Não consegui lembrar um caso de ator cômico - especialmente os de comédia física, como Carrey - que melhorou com o tempo. Também não lembrei um comediante sequer que fez seus melhores filmes depois dos 50 anos de idade.

Todos os meus prediletos - Keaton, Totò, Groucho, Pryor, Sellers, Eddie Murphy, Jerry Lewis, Steve Martin - fizeram seus grandes filmes até os 40 (Groucho talvez um pouco mais tarde, mas sempre foi mais um cômico do verbo do que da ação).

Todo comediante diz que fazer comédia é extenuante. Na autobiografia de Steve Martin, "Born Standing Up" (saiu no Brasil com o título "Nascido para Matar... de Rir"), ele diz: “Fiz ‘stand up’ por 18 anos. Os dez primeiros , passei aprendendo, os quatro seguintes aperfeiçoando meu número, e os quatro últimos, ficando rico." Ou seja: Martin levou 14 anos para aperfeiçoar sua arte. Não é mole.

Vendo Carrey requentando suas caras e bocas em "Débi e Lóide 2", fiquei com a impressão de que ele nunca vai conseguir replicar a energia maníaca e anárquica de "O Mentiroso", por exemplo. Veja isso e compare:

 

 

Uma dica: se for ver o filme, evite, a todo custo, o buraco chamado Kinoplex São Luiz, no Rio. A projeção parecia de VHS e o projecionista conseguiu deixar a imagem fora de quadro por 15 minutos, até eu sair da sala e alertar um funcionário. Isso sem contar a família tirando fotos COM FLASH dentro da sessão e a fila toda fazendo "selfies" e batendo papo durante o filme. Infernal.

P.S.: Estarei sem acesso à Internet até o fim da tarde e impossibilitado de moderar comentários. Se o se comentário demorar a ser publicado, peço desculpas e um pouco de paciência.

PINK FLOYD: FOI BOM ENQUANTO DUROU

Chegou às lojas “The Endless River”, o 15º - e, segundo relatos, último - disco de estúdio do Pink Floyd. Ou melhor: do que restou do Pink Floyd.

Na verdade, o disco é um apanhado de sobras de estúdio de “The Division Bell” (1994), o último LP em que integrantes do Floyd efetivamente se juntaram para gravar.

David Gilmour (guitarra/voz) e Nick Mason (bateria) vasculharam mais de 20 horas de gravações e contaram com a ajuda dos produtores Phil Manzanera (ex-Roxy Music), Youth (Killing Joke) e Andy Jackson para chegar às 18 canções – 17 delas instrumentais – que compõem o novo disco, uma homenagem ao tecladista da banda, Rick Wright, morto em 2008. Veja o clipe da única canção com vocais, “Louder than Words”:

 

 

“The Endless River” é bonito e etéreo, uma coleção de sons “ambient” que não faria feio na trilha sonora de um filme de Sofia Coppola. Mas será que alguém vai ouvir o disco daqui a um ou dois anos? Aposto que não. Porque o Pink Floyd, de verdade, acabou há muito tempo.

Quando alguém me pergunta se gosto do Floyd, sempre respondo: “Depende. De qual deles?”

Para mim, a banda teve quatro encarnações distintas. A primeira durou de 1965 a 1968, quando Syd Barrett reinava e o Floyd lançou uma obra-prima da lisergia, “The Piper at the Gates of Dawn” (1967), gravado no mesmo estúdio em que outra bandinha talentosa criava um tal de “Sgt. Pepper’s” (Macca até dividiu um baseado com Syd enquanto ouvia, maravilhado, “Astronomy Domine” e “Lucifer Sam”).

Mas Syd não segurou a onda, e sua psique frágil despedaçou sob montanhas de ácido e pilhas de Mandrax (o nosso Mandrix) que ele esmagava, misturava a creme capilar e besuntava na cabeça para ser mais rapidamente absorvida pelo cérebro sob a luz forte dos refletores dos shows (só para ter uma ideia da loucura, é um remédio semelhante ao que deixa Leonardo DiCaprio catatônico em "O Lobo de Wall Street"),

Sem Barrett, o Floyd perdeu qualquer traço de humor, alegria e concisão. Dali em diante, o mundo deles foi uma escuridão só. E nenhuma banda foi tão grande cantando sobre temas tão lúgubres como paranoia, ganância, isolamento, esquizofrenia, alienação, solidão e morte.

A segunda fase do Floyd durou até mais ou menos 1975 e é, para mim, o auge deles. A sequência de “Meddle” (1971), “The Dark Side of the Moon” (1973) e “Wish You Were Here” (1975)  é matadora. Foi a única fase em que o Floyd foi,  de fato, uma “banda”, dividindo créditos, deixando os egos de lado e trabalhando em conjunto.

Hoje, “The Dark Side of the Moon” é um ícone do rock de arena, um disco tão marcante e poderoso que simboliza o gigantismo e a pretensão do pop, contra os quais o punk se insurgiria logo depois. Mas é preciso lembrar que, em 1973, ninguém achava que um disco tão sombrio e triste poderia ser um sucesso. Concebido como um experimento temático, sonoro e estético, TDSOTM surpreendeu até a própria banda, que não esperava um colosso daqueles.

O álbum seguinte, “Wish You Were Here”, foi o momento sublime do Floyd. É um disco atípico de uma banda que nunca tinha aberto seu coração daquela maneira. O LP é um tributo a Barrett e tem as duas peças mais comoventes gravadas pela banda, “Shine On You Crazy Diamond” e “Wish You Were Here” – esta acaba com meu dia toda vez que ouço, e está no meu top 5 da música pop em todos os tempos...

 

 

Durante a gravação de “Shine on You Crazy Diamond”, um sujeito gordo, careca e sem sobrancelhas entrou no estúdio de Abbey Road, onde o Floyd gravava. O tecladista Rick Wright perguntou quem era. “Sou o Syd!”. Ninguém o reconhecera. Syd passou alguns minutos no estúdio, falando frases sem sentido, e foi embora. Nenhum dos integrantes do Pink Floyd o viu de novo. Syd Barrett morreu em 2006.

Logo depois do triunfo de “Wish You Were Here”, David Gilmour começou a perder interesse na banda e gravou um disco solo, deixando o terreno livre para que Roger Waters tomasse conta da bagaça. E Waters transformou a maior banda do mundo em seu projeto pessoal, lançando três discos ambiciosos, panfletários e autoindulgentes: “Animals” (1977), “The Wall (1979) e “The Final Cut” (1983), em que destilava uma visão orwelliana e cinza do Ocidente. As vendas foram monstruosas, os shows viraram Las Vegas, e o Floyd, “a” banda da contracultura londrina, se transformou no establishment, em mais um tijolo na parede. Foi a terceira encarnação do grupo: a do ditador Waters.

Mas a vingança de David Gilmour não tardaria: no meio dos anos 80, Waters deixou a banda e processou seus ex-companheiros para que não usassem o nome Pink Floyd. Não deu certo. Foi a vez de Gilmour tomar as rédeas e fazer do Floyd sua banda de apoio, lançando três discos nos últimos 30 anos – “A Momentary Lapse of Reason” (1987), “The Division Bell” (1994) e este “The Endless River”. Mas, a essa altura, o Pink Floyd, que sempre foi mais que a soma de suas partes, já estava morto e enterrado.

P.S.: Estarei sem acesso à Internet até o fim da tarde e impossibilitado de moderar comentários. Se o se comentário demorar a ser publicado, peço desculpas e um pouco de paciência.

UM FILME QUE DEIXA “INTERESTELAR” COMENDO POEIRA CÓSMICA

Que “Interestelar” que nada. O Telecine Cult exibe hoje, às 22h, um filme com um roteiro bem mais inteligente, atores menos caricatos e uma visão mais humana e profunda sobre a exploração espacial: “S.O.S.: Tem um Louco Solto no Espaço” (1987), de Mel Brooks.

 

 

Uma “homenagem” a “Guerra nas Estrelas” e a vários outros clássicos da ficção espacial, “S.O.S.” tem Bill Pullman no papel de Luke Skywalker (Capitão Lone Star”), o saudoso John Candy fazendo Chewbacca (chamado “Barfolomew”) e o sumido Rick Moranis, um metro e meio de pura travessura, como Darth Vader (“Dark Helmet”).

Sem contar Dom De Luise como Jabba (“Pizza the Hutt”), a recém-falecida Joan Rivers dando voz à máquina Dot Matrix, e o próprio Mel Brooks como Yoda (“Yogurt”). E sem esquecer a gatíssima Daphne Zuniga como a Princesa Vespa.

Não revejo “S.O.S.” há uns 20 anos, mas algumas cenas são inesquecíveis: a abertura, com a nave tão imensa que nunca termina, é demais, assim como a participação de John Hurt (o que é aquele bicho saindo de sua barriga, Alien-style?) e a batalha final de espadas de luz entre Lone Starr e Dark Helmet, um dos momentos mais patéticos da história da ficção-científica, superado apenas pela astronauta Anne Hathaway defendendo a superioridade do amor sobre a razão em “Interestelar”.

Vale a pena ver o filme também para lembrar Rick Moranis, sumido das telas desde o fim dos anos 90, depois que a esposa morreu de câncer.

“S.O.S.” é estúpido? Claro que é. É ridículo? Com certeza. Mas “Interestelar” também é, com o agravante de se levar a sério.

Bom fim de semana a todos.

 

E AÍ, HADDAD, QUANDO VAI DESPEDIR SEU SECRETÁRIO DE ESPORTES?

ok E AÍ, HADDAD, QUANDO VAI DESPEDIR SEU SECRETÁRIO DE ESPORTES?

O noticiário e as redes sociais estão lotados de comentários estúpidos, frases sem sentido, boatos e bravatas. O tsunami de bobagens é tão grande, que quando uma frase realmente importante é dita, poucos percebem.

Veja, por exemplo, a declaração do Secretário de Esportes de São Paulo, Celso Jatene, citada em reportagem de Camila Mattoso, da ESPN. Segundo o Secretário – que é vereador e foi indicado à Secretaria pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad - jogos de futebol deveriam ter uma torcida só:

“Eu defendo a torcida do mandante. A torcida do adversário tem que assistir ao jogo em casa, na televisão. O primeiro jogo do Palmeiras na Arena do Corinthians levou 2200 torcedores do Palmeiras, nenhum santo, porque santo não vai nesse jogo. Foram mobilizados 550 policiais militares para acompanhar esse grupo. Isso não existe", disse Jatene, em evento no clube Monte Líbano, em São Paulo, sobre o legado da Copa do Mundo.

"A gente mora em uma cidade que tem gente que não sai de casa com medo de ser assaltado, que tem gente que usa carro blindado, e a gente mobiliza 550 policiais para ter torcida adversária no campo do mandante? Vai assistir ao jogo em casa. Hoje em dia, é uma ilusão achar que o torcedor do Corinthians vai sentar ao lado do torcedor do São Paulo, que eles vão no mesmo metrô juntos. Não vão. O futebol de clube tomou outro rumo. Não vai fazer a menor diferença três mil caras no estádio. Os profissionais estão lá, vão jogar do mesmo jeito. Até que as torcidas voltem a se comportar, tem de ser assim".

Deixa ver se entendi: um funcionário público, cuja missão é incentivar a prática esportiva na cidade, recomenda aos torcedores que fiquem em casa? É isso?

Fôssemos um país mais sério, Jatene teria sido demitido no ato.

Sua declaração é emblemática do modus operandi de nossos políticos: diante de um problema, tome sempre a saída mais fácil: proíba qualquer coisa que atrapalhe, mesmo que isso impeça torcedores de usufruir o direito de acompanhar o seu time.

É revoltante saber que a autoridade máxima do esporte da cidade de São Paulo disse uma barbaridade dessas. Mostra que o dinheiro de nossos impostos não vale nada. Não temos capacidade de fazer um jogo de futebol e ainda temos de ouvir, da boca da pessoa que deveria promover o esporte na cidade, que a  saída é "ficar em casa". É um escárnio.

Jatene acaba de decretar diversas falências: em primeiro lugar, a falência do próprio governo que representa, incapaz de garantir ao cidadão o direito de ir e vir; em segundo lugar, a falência da civilidade, já que, segundo o Secretário, torcedores não têm sequer a capacidade de tomar o metrô juntos; e, finalmente, a falência de nosso futebol, dominado por torcedores profissionais e políticos amadores.

GALO E CRUZEIRO PERDEM A CHANCE DE FAZER HISTÓRIA

dasdsa GALO E CRUZEIRO PERDEM A CHANCE DE FAZER HISTÓRIA

Atlético Mineiro e Cruzeiro entram em campo hoje, no Estádio Independência, para a primeira partida da final da Copa do Brasil. Nada mais justo: são os dois melhores times do país nos últimos dois anos e devem fazer uma final maravilhosa.

Quer dizer, farão uma final maravilhosa dentro do campo, porque, nas arquibancadas, será uma tristeza só. Os times resolveram dar ao adversário apenas 10% dos ingressos de cada jogo. Como a polícia reduziu ainda mais a lotação máxima do estádio para o jogo de hoje, o Cruzeiro, que teria pouco mais de 1800 ingressos, abriu mão de sua cota. Ou seja: a partida só terá torcedores do Atlético.

Galo e Cruzeiro perderam uma chance de ouro: poderiam celebrar sua rivalidade histórica com um show de civilidade e diplomacia e dar ao país uma demonstração do espírito festivo que o futebol brasileiro vem perdendo nas últimas décadas.

Imagine uma final em dois jogos, com torcidas divididas? Seria um espetáculo lindo, possivelmente o mais bonito da história desse clássico, já que os times nunca disputaram entre eles uma final de campeonato de nível nacional.

Seria, principalmente, uma reação forte à covardia e incompetência que tem acometido o futebol brasileiro nos últimos tempos, em que a solução para diminuir a violência nos estádios passa pela proibição da presença de torcedores.

Qualquer um que já tenha visto um clássico com torcida dividida, seja no Rio, em São Paulo ou eu Minas, sabe que não há nada igual.

Infelizmente, as novas gerações de torcedores já se acostumaram com essa barbaridade de jogos de torcida única ou desigualmente divididas, e nunca sentiram a emoção de torcer num estádio lotado e dividido. O futebol virou refém da violência das organizadas. A solução, como sempre, é a mais fácil para a polícia e autoridades: em vez de prender os delinquentes, proíbe-se a torcida.

Há alguns dias, 87 torcedores de organizadas foram presos antes do jogo Galo x Flamengo, em Belo Horizonte, por causa de brigas. Quantos ainda estão presos? Quantos foram fichados e não poderão assistir mais a jogos de seus times?

Enquanto isso ocorrer, a solução mais fácil e conveniente é mesmo fazer jogos de uma torcida só. Estamos criando uma geração de torcedores que não sabem torcer e que não gostam de ir ao estádio.

E, por favor, não venham me dizer que jogo de torcida dividida é perigoso. É só contar o número de mortos e feridos em jogos de torcida 90/10 para ver que os bandidos que tomaram as organizadas agem independentemente da divisão de público. A solução é prender esses caras e deixar os estádios para quem gosta de futebol. Funcionou por uns 70 anos e pode funcionar de novo. Basta competência e boa vontade do poder público.

 

CASA DE FESTEIRO, ESPETO DE PAU

drunk guy passed out CASA DE FESTEIRO, ESPETO DE PAU

 

Durante quase dez anos, trabalhei com produção de eventos, organizando shows de rock e festas de música eletrônica. E um dos maiores problemas de qualquer produtor é a convivência com vizinhos dos eventos.

Em cidades grandes, achar um local onde o som não atrapalhe ninguém, mesmo em áreas mais afastadas dos centros urbanos, é quase impossível. A solução pode passar pelo pagamento de um hotel para os vizinhos ou a contratação deles para trabalhar nos eventos. Em casos mais “amigáveis”, um convite para o show e umas fichas de vodca com energético costumam resolver a parada.

Parei de trabalhar com eventos há cinco anos, mas continuo sofrendo com barulho de festas. Agora, no papel de vizinho.

Até um ano atrás, morávamos numa casa colada a uma chácara, e o dono da chácara começou a alugar o local para eventos. A maioria eram festinhas tranquilas – pequenos casamentos e aniversários – mas alguns foram duros de aguentar, incluindo um show do Calcinha Preta e uma rave que durou até 9 da manhã.

Nunca reclamamos ou ligamos para a polícia. Conheço os dois lados – o do produtor e o do vizinho – e acredito que possa haver uma solução tranquila. Só pedi ao sujeito que nos avisasse sobre as festas com antecedência, para que pudéssemos nos preparar, quem sabe dormindo na casa de algum amigo. Mas nem isso ele fez. Certa noite, estávamos tranquilos em casa, quando começou um bate-estacas altíssimo, um poperô infernal de “technejo”, mistura diabólica de sertanejo universitário com música eletrônica.

O som era pavoroso, mas o pior era o mestre de cerimônias, que ficava urrando coisas como “Uhuuuuuuu! Vamos botar pra f....!” e passando singelos recados de “correio elegante”, como “Alô, Renatinha da Patitiba, um recadinho do Pepeu: ele quer te comer todinha!”

Lá pelas três da manhã, decidimos ligar para a polícia e pedir que baixassem o som. Mas desistimos assim que o MC anunciou: “Queremos agradecer a presença de uma pessoa muito especial... O PREFEITOOOOOO!!!!! Palmas pra ele!”

Pouco tempo depois, mudamos para nossa atual casa, num lugar bem mais afastado. Nosso vizinho é a pequena pousada de uma amiga, cujo quintal é contíguo ao nosso. A paz reinava.

Digo “reinava” porque, há algumas semanas, o lugar foi alugado para o casamento de uma brasileira com um gringo. Desconfiamos que a festa ia ser de arromba quando um dos organizadores veio até nossa casa, nos presenteou com um espumante e disse que a noiva estava muito preocupada em não atrapalhar os vizinhos. Agradecemos, desejamos feliz casamento pra eles e só pedimos que o som fosse diminuído depois de uma da manhã.

Claro que isso não aconteceu. Foi o contrário: depois de duas da manhã, o lugar entrou em erupção, com um techno altíssimo e gritos de júbilo emanando da pista, que ficava a menos de 20 metros da nossa sala.

De manhã, pudemos comprovar que a festa tinha sido, de fato, muito boa: um sujeito estava desmaiado na areia da praia, com uma fileira de baba seca escorrendo pela boca. Meus filhos riram muito. O som não parara um minuto sequer.

Encontrei o zelador da pousada, um sexagenário matuto que mora no meio da roça e vive contando histórias envolvendo onças, cobras e outros animais selvagens que habitam seu quintal. O sujeito estava impressionado: “Menino, vi coisas que não sabia nem que existiam! Foi um tal de homem com homem, mulher com mulher, gente saindo de arbusto... Vi até a noiva entrando no mato com umas amigas!”

Por volta do meio-dia, como o som continuava ensurdecedor, fui até a pista pedir ao DJ que diminuísse o volume. O sujeito estava de sarongue e com um turbante na cabeça. Não havia ninguém na pista. Os festeiros se espalhavam pela praia. Reconheci várias pessoas de festas em São Paulo. O DJ, um mala que deve se achar o Tiesto, disse que não podia diminuir o som, mesmo que ninguém estivesse dançando, e chamou o noivo. O gringo chegou, com um olho no Oiapoque e outro no Chuí: “Desculpe, mate, nós perdemos o controle”, disse, antes de prometer que diminuiria o som assim que caísse a noite (detalhe: a festa já se arrastava há 14 horas e continuaria por mais dez). E cumpriu a promessa.

Que seja muito feliz com sua esposa.

DIDI, DEDÉ, MUSSUM E CHRISTOPHER NOLAN

 

Esse Christopher Nolan é um fanfarrão. Um poseur.

Seus filmes são todos iguais: besteiróis vendidos com embalagem de profunda divagação existencial. A fórmula é eficiente: empilhe uma cena sem sentido em cima da outra, adicione diálogos supostamente complexos e eruditos, exclua qualquer traço de humor e estenda a gororoba para umas três horas de duração, simulando conteúdo. Depois de algum tempo, nada faz sentido, mas o público confunde tédio com profundidade e acaba achando tudo genial.

“Interestelar” se passa num futuro próximo. Ficamos sabendo que ocorreu uma guerra e que não existem mais exércitos no mundo. Quase todos os cidadãos viraram fazendeiros e plantam milho para abastecer a população.

Coop (Matthew McConaughey) é um ex-piloto da NASA e mora numa fazenda com a filha, Murph, o filho, Tom, e o sogro, vivido por John Lithgow. Por coincidências ridículas demais para detalhar aqui, Coop acaba chefiando uma missão espacial a três planetas desconhecidos, em busca de um novo lugar para abrigar a humanidade.

O mentor da missão é um físico genial, Dr. Brand (Michael Caine), pai de Amelia, uma das companheiras de Coop na empreitada. Amelia (de Amelia Earhart, sacou?) é interpretada - na falta de uma palavra mais adequada - por Anne Hathaway. Ela é um caso raro de cientista que acredita mais no amor – sim, no amor – que na razão, e deve ter passado boa parte de sua formação lendo “Sabrina” em vez de livros didáticos.

Só há um problema: os tais planetas ficam em outras galáxias. Longe pacas. Para chegar lá, Coop, Amelia e amiguinhos precisam penetrar no “Buraco de Minhoca”, uma espécie de atalho no espaço, colocado lá por seres misteriosos chamados apenas de “Eles” (Eles quem? Alienígenas? Deuses? Os roteiristas?).

Fui ver “Interestelar” num cinema de shopping em São Paulo. Lá pela primeira hora de filme, metade da fila estava dormindo ou em vias de. Cogitei ir embora da sessão. De repente, uma coisa fantástica aconteceu: uma cena tão marcante que mudou toda minha perspectiva sobre o filme.

Coop, Amelia e outro Zé Ruela precisavam desembarcar num planeta para ver se o lugar era propício à vida humana. Mas o tal planeta ficava próximo a um buraco negro chamado Gargantua, onde a gravidade faz com quem cada hora fosse equivalente a sete anos de vida na Terra.

O trio deixa a nave-mãe e usa uma navezinha para chegar ao planeta, um lugar coberto de água (Guilherme Arantes já previa!) e onde acontecem mil aventuras. Amelia, em total mode "Perdidos no Espaço", fica presa debaixo de destroços de uma nave e é salva poucos segundos antes de ser varrida por uma onda da altura de um país. O Zé Ruela morre, como é de praxe com coadjuvantes de filmes de ficção-científica, sempre eliminados em ordem crescente de cachês.

Quando voltam à nave-mãe, Coop e Amelia são recebidos por um tripulante, já corcunda e de cabelo branco: “Eu esperei vocês por 23 anos, cinco meses e quatro dias”, diz o neo-velhinho. Parecia um quadro do "Saturday Night Live". Nesse momento, tive um  incontrolável acesso de riso, que durou pelas duas horas seguintes e acordou toda a fileira.

Foi ali que percebi que “Interestelar” é melhor apreciado como filme cômico futurista-trash, na linha de “O Dorminhoco”, de Woody Allen, e “S.O.S. – Tem um Louco Solto no Espaço”, de Mel Brooks. Eureca.

Dali em diante, foi só alegria: frases como “Se o buraco negro é uma ostra, a singularidade é a pérola dentro dela”, “Vamos usar a cúspide como estilingue” e, a melhor de todas,  “Eles criaram um mundo tridimensional dentro da pentadimensionalidade” assumiram novos significados – ou a total ausência deles.

Um parêntese: certa vez, fui entrevistar James Cameron. Eu havia acabado de assistir ao péssimo “Velocidade Máxima 2” e disse a Cameron que o filme todo parecia uma desculpa para o diretor filmar a cena final, em que um navio gigantesco destrói um cais. Cameron disse que era comum cineastas começarem a pensar um filme pelo final. “Só há um problema nisso”, afirmou. “É quando você escreve o filme todo sem fazer muito sentido, só para justificar a cena final”.

Vendo “Interestelar”, lembrei a frase de Cameron. Há várias sequências espetaculosas, claramente pensadas antes de se criar um contexto para elas. A "solução" para a questão central do filme - quem são "Eles" e como atraíram a missão de Coop - é uma delas. Claro que ninguém espera muita lógica de um filme desses - o gênero não é chamado ficção-científica à toa- mas o drama precisa fazer algum sentido, sem apelar a soluções milagrosas para "amarrar" tudo no final.

O roteiro parece um FAQ corporativo: toda frase explica uma pergunta ou charada colocada na frase anterior. E a trama é tão óbvia que todas as “surpresas” são percebidas pelo menos uma hora antes. Vejamos: o filme começa com cenas de entrevistas com velhinhos, que falam de suas vidas no passado. Pouco depois, Coop conversa com a filha e explica como o tempo demora mais a passar nos lugares longínquos que ele vai explorar. “Isso quer dizer que, quando você voltar, você e eu podemos ter a mesma idade?” pergunta a menina.

O resto é com vocês.

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