JANTANDO A VACA SAGRADA: FEDERICO FELLINI

fellini and masina on the set of la strada JANTANDO A VACA SAGRADA: FEDERICO FELLINI

O canal Arte1 exibe hoje, às 21h30, “Oito e Meio”, de Federico Fellini. É um grande filme. Na minha opinião, o único grande filme da carreira do diretor e um dos poucos que revejo sem ter um ataque de diabetes.

Fellini dirigiu 20 longas, além de episódios em filmes colaborativos. Gosto de “La Dolce Vita” (1960) e das comédias que ele fez no início da carreira,“Abismo de um Sonho” (1952) e “Os Boas-Vidas” (1953), mas não compartilho do entusiasmo por alguns de seus filmes mais celebrados, como “A Estrada da Vida” (1954), “Noites de Cabíria” (1957) e “Amarcord” (1973).

Fellini adorava três coisas que eu abomino: circo, palhaços e Giulieta Masina. E em “A Estrada da Vida”, ele junta as três: Giulieta faz uma coitadinha que é obrigada a trabalhar num espetáculo circense mambembe e itinerante (a fórmula seria copiada, com resultados igualmente insuportáveis, em “Bye Bye Brasil”, de Cacá Diegues).

“Noites de Cabíria” é outro festival de pieguice, em que Giulietinha faz uma prostituta de coração de ouro que é maltratada pela vida, mas reage sempre com um sorriso e esperança no coração, snif, snif, buá, buá.

E “Amarcord”, a “delirante” homenagem de Fellini à sua infância e aos personagens excêntricos que a marcaram, é uma “Saramandaia” com grife, com direito a Dona Gorda e a sequências nauseabundas de realismo mágico. Tem quem goste.

Já eu gosto de “Oito e Meio” justamente porque não sofre do excesso de sacarina e barroco que costuma acompanhar a marca Fellini (e não vou nem começar a falar de “Julieta dos Espíritos”, “E La Nave Va” ou “Ginger e Fred”).

“Oito e Meio” traz o estilo visual típico do diretor e os mesmos personagens bizarros - palhaços, a gordinha sexy - mas os delírios não parecem colocados ali apenas como bijuteria ou decoração. Veja o trailer:

 

 

Na minha seleção italiana, Federico não fica nem no banco. O time - no 4-3-3 clássico - é Pasolini, Antonioni, Risi, Scola e Monicelli; Rosselini, De Sica e Visconti; Leone, Bertolucci e Argento. Os reservas são Petri, Bolognini, Steno, Ferreri, Zurlini e os irmãos Taviani; o técnico é Dino De Laurentiis e os auxiliares, Age & Scarpelli. Timaço.

Bom fim de semana a todos.

QUEM INVENTOU O ADOLESCENTE?

Acabo de ver um dos documentários mais inventivos e surpreendentes dos últimos tempos: “Teenage”, de Matt Wolf.

Na verdade, não é um documentário comum, mas um filme-ensaio, uma alegoria lúdica sobre um assunto fascinante: a invenção do adolescente.

Baseado no livro “Teenage: The Creation of Youth Culture, 1875-1945”, de Jon Savage – o mesmo Jon Savage que escreveu “England’s Dreaming” (1991), um dos melhores livros sobre a história do punk – o filme conta como o adolescente foi uma criação americana do pós-Segunda Guerra.

Usando apenas imagens de arquivo – cada uma mais espetacular que a outra – recriações de cenas de época e uma trilha sonora atmosférica e marcante de Bradford Cox (Deerhunter), “Teenage” mostra como os jovens passaram de mão de obra barata na época da Revolução Industrial a maior legião de consumidores do planeta.

Antes da Segunda Guerra havia apenas duas distinções de idade: crianças e adultos. Os jovens ajudavam os pais em trabalhos braçais e nas fábricas. Há cenas inacreditáveis de 1904, mostrando crianças de cinco ou seis anos trabalhando em máquinas industriais. O mundo das crianças era um pesadelo dickensiano de cidades cinzas e longas horas de trabalho. No future for you.

Nas duas guerras mundiais, os jovens foram explorados, tanto na produção de armas e materiais de guerra – carros, uniformes, equipamentos – quanto nos campos de batalha. Alguns se rebelaram, e nos locais mais improváveis: há a história dos jovens alemães que cultuavam o jazz americano de Duke Ellington e Louis Armstrong e arriscaram a vida dançando sons negros na Alemanha nazista. Uma foto mostra dezenas deles, enforcados pelos próprios alemães.

Uma das sequências mais espetaculares mostra um festival de jazz ao ar livre nos Estados Unidos, nos anos 20, em que jovens brancos e negros dançavam juntos o swing. A música ajudava a integrar racialmente um país que, ainda era dividido por um racismo profundo. A expressão de alegria e felicidade na cara dos adolescentes negros e brancos é uma das imagens mais marcantes que já vi.

O filme não tem entrevistas, apenas narrações feitas por jovens de diferentes nacionalidades. Uma alemã narra as cenas da juventude de seu país às voltas com o surgimento de Hitler; uma menina inglesa conta a experiência de viver num país arrasado pela guerra; um americano narra como o fim da Segunda Guerra trouxe ao país um progresso nunca visto até então.

Foi nessa época que a indústria pop percebeu que havia uma legião de consumidores de 16 a 20 anos, velhos demais para serem considerados crianças e novos demais para a vida adulta, e que formariam a base da indústria cultural a partir dali. É quando surge Frank Sinatra, o primeiro ídolo pop em escala mundial.

Mesmo que você não fale inglês perfeitamente, dá para acompanhar o filme numa boa, com legendas em inglês. As cenas de arquivo são impressionantes e dizem mais que qualquer narração. Você pode acessar o site do filme (aqui) e vê-lo no Netflix gringo (o Netflix nacional, essa porcaria que não tem uma fração do catálogo gringo, ainda não oferece o filme).

O CACHORRO MAIS TAPADO DO MUNDO

Animais aprendem com os erros, certo?

Digamos que você é um cão. Num final de tarde qualquer, andando pelo jardim, você dá de cara com esse indivíduo:

foto1 ouriço O CACHORRO MAIS TAPADO DO MUNDO

É um Coendou prehensilis, popularmente conhecido por ouriço-cacheiro. Mas você não sabe disso, nunca viu o tal Coendou mais magro, e reage instintivamente, como reagiria qualquer cão. Você ataca o bicho.

O que você não sabe é que o Coendou tem centenas de espinhos pontiagudos, que solta ao menor sinal de perigo. Se, de longe, a pelagem preta e amarela é bonita, de perto é assustadora: os espinhos têm ranhuras nas laterais, que dificultam sua retirada. Em questão de segundos, você está assim:

foto 2 cão1 O CACHORRO MAIS TAPADO DO MUNDO

Esta foto é de Jorge, nosso boxer. E não foi a primeira ou a segunda vez que Jorge atacou um ouriço-cacheiro, mas a terceira. Em quinze dias. E este ataque foi, de longe, o menos doloroso dos três. No primeiro, o cão ficou com o corpo inteiramente coberto de espinhos, parecia que tinha lutado MMA com o ouriço. Lembrava o Pinhead do filme “Hellraiser”. Achei uma foto de outro cachorro, que dá uma ideia do estrago:

foto3 cao O CACHORRO MAIS TAPADO DO MUNDO

O que leva um animal a cometer o mesmo erro estúpido três vezes seguidas? De acordo com este  artigo, de um site científico americano, ratos aprendem com os erros. Por que não boxers?

A imagem não dá ideia de como os espinhos penetram profundamente na pele. Para ter uma ideia, nas três vezes, nosso boxer teve de ser levado ao veterinário, onde tomou anestesia geral. Só com ele desacordado foi possível retirar, com alicate, os espinhos, alguns cravados no céu da boca. Não dá para imaginar a dor.

O veterinário disse que o ouriço, ao caminhar, provoca ondulações na pelagem, e o tom amarelado dos espinhos dá a impressão de que ele está brilhando. “Não tem cachorro que resista”.

Aparentemente, os ouriços gostam de sair mais nessa época, quando o tempo está esquentando. E com a abundância de ouriços e a teimosia dos cachorros, a única coisa a fazer é torcer para que eles não se esbarrem por aí.

CSN&Y: NENHUMA BANDA SE ODIOU – E FATUROU – TANTO

Acaba de sair “CSNY 1974”, uma caixa de três CDs e um DVD com trechos da célebre turnê de 1974 do grupo Crosby, Stills, Nash & Young. A doçura das melodias e a sonoridade zen das músicas não reflete em nada os bastidores da turnê, uma das mais conturbadas do pop, em que os músicos saíam na porrada nos bastidores, cheiravam pó como tamanduás e  se comportavam como prima donnas enquanto tocavam baladas de paz e amor para 70 mil pessoas por noite em estádios lotados de fãs que só queriam reviver o espírito libertário e otimista da era Woodstock.

O CSN&Y foi um dos primeiros – senão o primeiro – “supergrupo” do rock, formado no fim dos anos 60 por músicos que já haviam feito sucesso em outros grupos: Stephen Stills e Neil Young no Buffalo Springfield, Graham Nash no The Hollies e David Crosby no The Byrds. O projeto começou como CSN. Neil Young foi adicionado depois, por sugestão do chefe da gravadora Atlantic, Ahmet Ertegun.

Não é à toa que os dois grupos mais populares do início dos 70, o Led Zeppelin e o CSN&Y, foram, basicamente, projetos criados por gravadoras ou produtores (Jimmy Page escolheu os músicos do Zep, um a um). A música pop já havia se tornado um big business. Não havia mais espaço para o amadorismo saudável de dez anos antes, quando bandas se conheciam na escola ou na faculdade. As gravadoras sabiam o que o público queria e criaram projetos que apelavam ao gosto médio.

Não importava que os músicos se odiassem, contanto que os discos vendessem bem. O caso do CSN&Y é emblemático daquela era de ganância: os quatro não se suportavam e haviam prometido nunca mais pisar num palco juntos. Cumpriram a promessa por quatro anos, até que, em 1974, a gravadora Atlantic e o empresário Bill Graham vieram com uma proposta tão alta que eles não resistiram. Seriam 31 shows em estádios, com públicos variando de 40 mil a 90 mil pessoas. A maior turnê de rock até então.

Quando Cameron Crowe, então repórter da revista “Creem” (e depois diretor de “Quase Famosos”), perguntou a Stephen Stills por que a banda estava saindo novamente em turnê, Stills respondeu: “A primeira tour foi pela arte e música, a segunda pelas garotas. Esta é pela grana”.

E grana não faltou. A equipe tinha mais de 80 pessoas e incluía traficantes, massagistas, acupunturistas e até um sujeito que tomava conta dos tapetes persas onde os quatro sentavam durante o show (leia aqui uma hilariante matéria da “Rolling Stone” americana, com entrevistas com vários participantes da turnê).

Crosby e Nash eram mais tranquilos, mas Stills e Young, donos de gênios fortes e egos do tamanho de rinocerontes, brigavam por qualquer coisa: arranjos, ordem das músicas no setlist, e quem iria cantar o quê. Neil Young se recusava até a viajar junto com os companheiros.

Os shows foram caóticos. A música de CSN&Y era adequada a pequenos teatros, não a estádios de futebol, e o volume altíssimo das montanhas de caixas dificultava a harmonização dos quatro cantores. Naquela época, não existiam telões que transmitissem o show ao vivo, e deve ter sido uma experiência frustrante para o público. Mesmo assim, o resultado é muito bom. Ainda prefiro ouvir CSN&Y no estúdio – acho que as versões ao vivo tendem a obscurecer as sutilezas das gravações – mas é divertido ouvir “Wooden Ships” ou “Old Man” seguidos do barulho de 150 mil mãos aplaudindo.

“CSNY 1974” é o registro perfeito daquela época pós-hippie, em que os sonhos de paz, amor e liberdade tinham virado case de marketing e as gravadoras já vendiam nostalgia.

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JÁ VIU “A CAÇADA”?

Estava tão ocupado com meu livro que acabei deixando passar batido um dos melhores lançamentos no cinema em 2014: “A Caçada” (“The Rover”), de David Michôd.

Michôd é um australiano de 41 anos que estreou no cinema em 2010 com “Animal Kingdom” (“Reino Animal”), um dos filmes policiais mais impressionantes dos últimos tempos, em que a veterana Jackie Weaver (indicada ao Oscar pelo filme) faz a matriarca de uma família de criminosos de Melbourne. Passa sempre na TV e é imperdível.

“The Rover” é tão bom quanto. Passado num futuro próximo, “dez anos depois do colapso econômico global”, tem Guy Pearce no papel de um homem misterioso que anda de carro pelo deserto australiano (o release do filme diz que o nome do personagem é Eric, mas não lembro isso ser mencionado no filme).

O cenário é desolador: quilômetros e quilômetros de poeira, com um armazém /posto de gasolina de vez em quando, sempre protegido por um capanga armado com um rifle. Numa dessas paradas, Eric sai para tomar água e seu carro é roubado por um grupo de bandidos fugindo de um assalto.

Ele acaba encontrando Rey (Robert Pattinson, de “Crepúsculo”, que meu amigo José Mojica Marins chama de “o vampirinho emo do Crespulinho”), irmão de um dos bandidos. A gangue abandonou Rey, ferido, no local do assalto. Eric sequestra Rey e o obrigado a levá-lo até o esconderijo da gangue para recuperar seu carro.

Quando se pensa em filmes distópicos passados no deserto australiano e envolvendo carros, a primeira reação é pensar em "Mad Max”. Mas “The Rover” é diferente. Tem um ritmo lento e um minimalismo estético que o afasta da fórmula “carros explodindo e tiros a granel”.

É um filme barato. Não tem efeitos especiais, os cenários são todos naturais, e conta com uma dúzia de personagens (o elenco todo, incluindo figurantes, é de 25 pessoas). Deve ter custado menos que uma dessas comédias com o Leandro Hassum pulando numa piscina.

Alguns críticos o chamaram de “faroeste moderno”, mas não concordo. Diferentemente do que ocorre em “westerns”, a violência aqui não é estilizada e amplificada com música e efeitos, mas mostrada de maneira seca e realista. Não há duelos ao pôr do sol ou mocinhos cerrando os olhos antes de matar os bandidos. A brutalidade surge em explosões breves e chocantes. Como metáfora de nosso futuro cinza, faria uma sessão dupla sensacional com “Sob a Pele”, com Scarlett Johansson, outro filme inventivo e surpreendente.

“The Rover” abre com um close de Guy Pearce dentro do carro, imóvel, olhando para a desolação à sua volta. A cena parece levar vários minutos e, mesmo sem ação, é angustiante. Ao longo do filme, o diretor Michôd cria diversas situações em que os personagens agem de maneira estranha e inesperada. Rey, personagem de Pattinson, é indefinível: numa hora parece um limítrofe, incapaz de manter uma conversa; em outra surpreende pela visão e se torna a criatura mais sensata da história. E o Eric de Guy Pearce vai se revelando, pouco a pouco, até descobrirmos por que diabos ele se importava tanto com aquele carro.

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ROGER CORMAN VEM AÍ

ate ROGER CORMAN VEM AÍ

Se você se interessa por cinema independente e de baixo orçamento, tem uma chance rara de aprender com o homem que é o Papa do assunto: o cineasta e produtor norte-americano Roger Corman.

Corman, 88, virá a Curitiba para o evento Madrugada Sangrenta (29 de outubro a 1 de novembro), onde ministrará uma “master class” sobre produção de filmes baratos. Isso é absolutamente imperdível.

A esposa de Roger, a produtora Julie Corman, que trabalha com ele há mais de quatro décadas, fará uma palestra sobre o processo de distribuição de filmes fora do “mainstream” hollywoodiano.

Além disso, o evento exibirá uma retrospectiva de filmes de Corman e terá também uma oficina de efeitos especiais ministrada pelo capixaba Rodrigo Aragão, o talentoso diretor de filmes de terror como “Mangue Negro” e “Mar Negro”.

Já escrevi bastante sobre Corman aqui no blog. Em 2012, fiz um texto (leia aqui) sobre um ótimo documentário, “O Mundo de Corman: Proezas de um Rebelde de Hollywood”, que passa de vez em quando na TV.

Roger Corman é um herói do cinema alternativo. Somando os filmes que dirigiu e produziu, passam de 300, sempre à margem dos grandes estúdios. Suas produções revelaram cineastas como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, Peter Bogdanovich, Joe Dante, James Cameron, Jonathan Demme, e atores como Jack Nicholson, Bruce Dern e Robert De Niro.

 

 

Os interessados em participar da “Master Class” com Roger Corman, da palestra com Julie Corman ou da oficina de efeitos especiais com Rodrigo Aragão, podem adquirir as credenciais exclusivamente neste site.

Bom final de semana a todos.

MÚSICA PARA LER

1973banner MÚSICA PARA LER

Impressionante a quantidade de livros sobre música lançados no Brasil recentemente. De biografias do Motörhead a entrevistas com Jimmy Page, passando por livros sobre Ronnie Von e um volume de fotos da Pitty, tem para todos os gostos.

Dois dos lançamentos mais interessantes são trabalhos coletivos, compostos de ensaios sobre discos e artistas. O primeiro é “1973 – O Ano Que Reinventou a MPB” (Sonora Editora ), organizado por Célio Albuquerque, e o segundo é “Indiscotíveis” (Editora Lote 42), organizado por Itaici Brunetti.

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O primeiro reúne 51 ensaios sobre artistas que lançaram discos marcantes em 1973, um dos anos mais ricos de nossa música. A lista é incrível: “Secos e Molhados”, “Manera, Fru, Fru, Manera” (Fagner), “Índia” (Gal Costa), “Ou Não” (Walter Franco), “Novos Baianos F.C.” (Novos Baianos), “Pérola Negra” (Luiz Melodia) e “Krig-Ha, Bandolo!” (Raul Seixas), além de LPs importantes de Hermeto Paschoal, Clementina de Jesus, Marcos Valle, Clara Nunes, Chico Buarque, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, Taiguara, Sérgio Sampaio e vários outros.

A lista de autores inclui jornalistas e pesquisadores musicais - Pedro Só, Marcelo Fróes, Silvio Essinger, Roberto Muggiati, Ayrton Mugnaini, Antônio Carlos Miguel, Ricardo Schott – e músicos como Sérgio Natureza, Tavito, Mona Gadelha, Moacyr Luz e Marcos Suzano.

Já “Indiscotíveis” é mais anárquico em sua seleção e reúne textos sobre 14 LPs de estilos e períodos diversos, mas que marcaram várias gerações de ouvintes. Assim, “Os Afro-Sambas” (1966), de Baden Powell e Vinicius de Moraes, analisado por Marcelo Costa, do site “Scream & Yell”, divide espaço com um trabalho lançado trinta anos depois, “Roots”, do Sepultura, em texto de Pablo Miyazawa, editor da “Rolling Stone”.

Há textos de Dafne Sampaio sobre o clássico dos Racionais, “Sobrevivendo no Inferno”, de Kid Vinil sobre “Krig-Ha, Bandolo” (é legal comparar esse texto com o de Sílvio Essinger sobre o mesmo disco, no livro “1973”), de meu colega do R7 Luiz Pimentel sobre “Cabeça Dinossauro” e do rapper Emicida sobre o pioneiro “O Lado B do Hip Hop”, além de ensaios sobre “Racional” (Tim Maia), “Solta o Pavão” (Jorge Ben), “Afrociberdelia” (Chico Science & Nação Zumbi), “Selvagem?” (Paralamas do Sucesso) e outros.

“Indiscotíveis “ tem um formato bacana: vem numa caixa, dividido em sete livrinhos quadrados que simulam capas de discos, cada um com dois textos e capas alternativas para os LPs, criadas por artistas e ilustradores como Luciana Martins, Gustavo Piqueira, Dalton Soares, Luciano Salles e Yara Fukimoto.

“1973” e “Indiscotíveis” são dois livros feitos com capricho e apurado senso estético, assim como os discos sobre os quais discorrem. É muito bom saber que ainda tem gente que gosta de discutir música.

ALÔ, CLASSE ARTÍSTICA BRASILEIRA: APRENDA COM O TARANTINO…

tarantino ber ALÔ, CLASSE ARTÍSTICA BRASILEIRA: APRENDA COM O TARANTINO...

Há dois meses, escrevi aqui no blog sobre o ridículo “abraço” que artistas e moradores deram no Cine Leblon, no Rio, para salvar a velha sala. Ou melhor, para fingir que a salvavam, enquanto apareciam em colunas de jornal e se gabavam da proeza em redes sociais (leia aqui).

Enquanto nossa classe artística encena essas presepadas por aqui, em outros lugares do mundo, artistas verdadeiramente preocupados com sua arte põem a mão na massa e resolvem os problemas sem ficar choramingando ou esperando o Estado nhonhô resolver a parada. É o caso de Quentin Tarantino.

Esses dias, Tarantino assumiu a função de programador do New Beverly Cinema, um cultuado cinema de Los Angeles.

Tarantino cresceu vendo sessões duplas no New Beverly, um antigo teatro de shows e vaudeville que o então proprietário, Sherman Torgan, transformou em cinema em 1978. Quando a sala de 228 lugares começou a passar por crises financeiras, nos anos 2000, devido à concorrência de TV a cabo e locadoras, Tarantino passou a colaborar com um cheque mensal de 5 mil dólares, que ajudava a equilibrar as contas.

Em 2007, Torgan morreu depois de sofrer um ataque cardíaco enquanto andava de bicicleta. Tarantino comprou o prédio e jurou que, enquanto tivesse condições financeiras, o cinema não fecharia. O filho de Torgan assumiu a direção da sala, e Tarantino passou a programar algumas sessões duplas e exibir filmes de sua coleção particular.

Há alguns dias, o cineasta resolveu assumir de vez o controle do cinema: bancou uma enorme renovação e virou seu principal programador. O New Beverly reabrirá em dois meses, exibindo sessões duplas de filmes antigos e novos, que não encontram espaço no circuito comercial.

Tarantino mostrará filmes e trailers de sua coleção e baniu de vez a projeção digital da sala. “Enquanto eu viver, o New Beverly só exibirá filmes em película”, disse o cineasta que, junto a nomes como Martin Scorsese e Judd Apatow, convenceu a Kodak a continuar fabricando filme para cinema. Numa entrevista ao site Deadline (leia aqui), o cineasta disse: “As pessoas não têm noção de como chegamos perto de perder filme para sempre (...) Para mim, projeção digital é como ver televisão em público, as pessoas saindo de casa para ver um DVD com um monte de estranhos. É a morte do cinema.”

Na noite de Halloween, Tarantino sonha em convidar o cineasta Eli Roth, que interpretou Bear Jew, o soldado que matava nazistas com um bastão de beisebol em “Bastardos Inglórios” e que será homenageado com uma retrospectiva de seus filmes, para encarnar de novo o personagem e destruir todo o equipamento digital da sala. Taí uma sessão que eu viajaria meio mundo para ver.

Enquanto isso, no Leblon, nossos artistas abraçam um poste e reclamam do governo. Bastardos inglórios...

MOJICA: DEPOIS DO ENFARTE, RÃ FRITA


mo MOJICA: DEPOIS DO ENFARTE, RÃ FRITA

Depois de quase três meses internado no Incor (Instituto do Coração) em São Paulo, José Mojica Marins, o Zé do Caixão, finalmente recebeu alta. Mojica, 78, está em casa e se recupera bem.

No início de junho, ele foi internado para fazer um cateterismo, mas sofreu um enfarte pouco antes da cirurgia. Por sorte, escolheu o melhor lugar do mundo para ter o enfarte: dentro do Incor. “A equipe médica aqui é de primeira, só tem fera”, disse Mojica, que recebeu apoio comovente da família. Uma das filhas, Mariliz, conhecida por Liz Vamp, ficou o tempo todo ao lado do pai.

Visitei Mojica no hospital, na manhã de 13 de agosto. Quando cheguei, ele acompanhava a cobertura do acidente que matou Eduardo Campos. “Que horror, o avião caiu no meio de Santos”, comentou.

O quarto tinha duas camas e era compartilhado com outro paciente. Naquela manhã, o segundo leito estava desocupado. Fiquei pensando no desespero do paciente que, ao acordar depois de uma cirurgia, descobre que seu companheiro de quarto é Zé do Caixão.

- Que nada, todo mundo que ficou aqui era fã meu! – disse Mojica.

Ele estava magrinho – perdera 15 quilos – mas de bom humor. Reclamou do Corinthians (“O time só joga na defesa”) e da comida do hospital. Pela primeira vez na vida, alimentou-se regularmente de frutas e verduras, não de linguiça com Steinhager ou de sua especialidade na cozinha, o mitológico Kibe aos Quinze Queijos (não, você não leu errado, são quinze queijos mesmo!).

Sua magreza preocupava a equipe médica. Duas nutricionistas tentavam convencê-lo a comer mais, para ganhar peso.

- Seu Mojica, o senhor precisa comer melhor, pra ganhar peso e receber alta...

- Mas filha, não dá pra fazer uma comidinha mais gostosa? Eu tô louco pra comer um queijinho, um bifinho acebolado...

Uma das nutricionistas prometeu afrouxar um pouco a rigidez da dieta e pediu que ele listasse cinco coisas que gostaria de comer.

- Mas não podem ser muito pesadas, tá bom, seu Mojica?

- Tá bom, filha, deixa eu pensar... Que tal testículo de boi?

- Testículo de boi?

- É, o saco do boi!

- Eu sei o que é, seu Mojica. Mas onde vamos conseguir isso pra cozinhar pro senhor?

- Pede lá no Valadares! – respondeu Mojica, referindo-se ao famoso boteco da Lapa.

As nutricionistas o convenceram a pedir pratos mais leves e fáceis de encontrar.

- Tá bom... E rã frita? Eu adoro rã frita! Ah, já sei: língua ao molho madeira!

Finalmente, chegaram a um consenso: panquecas de carne à parmegiana. Foi o prato mais "light" da vida de Zé do Caixão.

 

R.I.P. MARCOS Z

Muito, mas muito triste com a notícia da morte de Marcos Zomignani, o popular Marcos Z. Muita gente que curte EBM e os sons mais darks da música eletrônica descobriram incontáveis músicas nas discotecagens de Marcos no Madame Satã. Fui cliente de sua ótima loja em Pinheiros, a Indie Records, e perdi a conta de quantos discaços conheci por recomendação dele. Era um empreendedor - foi dono de casa noturna, produziu shows e lançou discos - e vai fazer muita falta. Força à família e amigos.

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O HOMEM QUE INVENTOU A “GERAÇÃO X”

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Em 1991, o canadense Douglas Coupland lançou o romance “Geração X – Contos Para Uma Cultura Acelerada”. O livro foi um fenômeno cultural: não só vendeu muito, como ajudou a eternizar a expressão “geração X”, a massa de jovens que chegou à idade adulta nos anos 90.

Coupland virou uma espécie de porta-voz de uma geração meio perdida em meio à globalização e a inovações tecnológicas que mudaram o mundo no fim do século 20. Pelos últimos vinte e tantos anos, escreveu outros 13 romances, todos lidando, de formas diversas, com a modernidade, a tecnologia e o consumismo.

O que muita gente não sabe é que, antes de ser escritor, Coupland era designer e artista plástico.  Sua carreira na literatura começou por acaso: um dia, mandou um cartão-postal de Tóquio, onde trabalhava como designer, para uma amiga. O marido da amiga, que era editor de uma revista, leu, gostou do estilo e convidou Coupland para escrever.

Hoje, ele divide o tempo entre livros e o trabalho para museus e escolas de arte canadenses. Em maio, estreou em Vancouver a obra “Gumhead”(“Cabeça de Chiclete”), uma escultura imensa de sua própria cabeça, que ele pede ao público que cubra de chiclete. O trabalho está em exposição no CCBB de São Paulo.

gumhead O HOMEM QUE INVENTOU A “GERAÇÃO X”

Fiz uma entrevista com Coupland para a “Folha”. Por restrição de espaço, publiquei apenas alguns trechos. Aqui vai o papo completo:

- Só vi “Gumhead” em fotografias. Qual foi a inspiração para a obra?

- Foi um projeto que fiz há seis anos, quando dei chiclete a 40 mil estudantes canadenses para que eles construíssem uma torre de chiclete. Faço muito trabalho em museus e escolas de arte e lido com a questão da descaracterização em todas as suas formas. Acho fascinante o que acontece quando o “id” é liberado em um objeto superpúblico. Recentemente, tenho feito vários trabalhos com cabeças grandes, daí decidi juntar tudo numa obra só.

- Como foi a reação do público de Vancouver à obra?

- As pessoas amaram. Há um artigo adorável sobre isso no jornal canadense “The Globe and mail” (leia aqui, em inglês).

- O resultado foi o que você esperava?

- Eu esperava que fosse interessante, mas não bonito. E ficou bonito demais.

- Nas fotos que vi, o rosto da escultura não ficou escondido pelo chiclete, como você disse que esperava...

- As pessoas não só colaram chiclete em tudo, mas modificaram as feições da escultura, colorindo os olhos e adicionando sobrancelhas. Antes de as pessoas começarem a cobrir a escultura de chiclete, ela parecia muito o Lênin!

- No Brasil, você é mais conhecido como autor do que artista plástico. Que reação espera do público brasileiro à sua obra?

- Tudo que você pode desejar com a arte é expandir a noção do espectador do que é possível.

- Vamos falar um pouco sobre seus livros: o subtítulo de seu primeiro romance é “Contos para Uma Cultura Acelerada”. O que você pode dizer sobre a velocidade de nossa cultura hoje? Faz seus personagens da Geração X parecerem tartarugas?

- É engraçado como, naquela época, precisávamos de pouco para que vida parecesse fora de controle. Basicamente, o que fazemos hoje, enquanto cultura, é sentar e absorver onda após onda de tecnologias logarítmicas, que aniquilam qualquer conceito prévio de política, religião e individualidade. A verdade é que 1991 não foi nada perto disso.

- Quando você lê seu primeiro romance, mais de duas décadas depois de tê-lo escrito, o que sente?

- As emoções estão todas ali, então não mudou. Até um livro sobre o “ultra-extremo-presente” como “Microserfs” (romance de 1995, cujos personagens trabalhavam para a Microsoft) mantém a atualidade, pelas mesmas razões. E as pessoas gostam de ler esses livros como se fossem cápsulas do tempo.

- Como você explica o impacto do livro?

- Para muitas pessoas, foi a primeira vez que viram suas vidas interiores descritas.

- Como você compara o processo criativo de escrever um livro e fazer uma obra de arte?

- Livros existem no tempo, e arte existe no espaço. Você precisa ler um livro inteiro, mas eu ‘saco’ uma pintura em três segundos. As sensações são muito diferentes. Escrever um livro me coloca num transe que dura 24 a 36 meses.

- Li em uma entrevista que você mora no meio do mato (Coupland vive com seu companheiro em uma área de florestas perto de Vancouver).

- Sim, vivo.

- Isso é meio surpreendente, já que tantos de seus livros e obras lidam com a tecnologia, o futuro, e os efeitos do consumismo...

- Foi ali que cresci, então, nesse aspecto, sou antiquado. Mas, com acesso à Internet, a natureza se torna uma realidade revisada. É ainda a natureza, ou algo completamente novo?

P.S.: Contagem regressiva: amanhã sai nos Estados Unidos "Perfidia", primeiro romance de James Ellroy em cinco anos. Já encomendei meu ebook e escreverei sobre o livro aqui em breve. Muito breve.

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