O dia em que Kid Vinil tentou salvar Marcelo Bonfá

kid vinil O dia em que Kid Vinil tentou salvar Marcelo Bonfá
Acaba de sair “Kid Vinil – Um Herói do Brasil”, de Ricardo Gozzi e Duca Belintani, uma biografia curta e divertida de Antonio Carlos Senefonte, 60 anos, conhecido do Oiapoque ao Chuí por Kid Vinil.

Por mais de 40 anos, Kid tem sido um defensor ferrenho dos bons sons, tanto em seus programas de rádio quanto em suas reportagens e nos discos que gravou com Magazine, Verminose e outras bandas. Todo mundo que gosta de rock no Brasil deve muito a ele.

Em homenagem a esse personagem mitológico do pop brasileiro, vou relatar um caso que não está no livro.

No início de 2000, Kid trabalhava na gravadora Trama, onde lançou discos importantes de Belle & Sebastian, Meat Puppets, Galaxie 500 e muitos outros.

Nessa época, eu apresentava na rádio Brasil 2000, em São Paulo, o programa “Garagem”, com os amigos Paulo Cesar Martin e Álvaro Pereira Jr.

Um dia, Kid foi ao programa levar alguns discos da Trama para sortear pros ouvintes. Assim que entrou no estúdio, viu, em cima da bancada, uma cópia do CD “O Barco Além do Sol”, de Marcelo Bonfá, baterista da Legião Urbana, que a Trama tinha acabado de lançar.

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Kid perguntou se iríamos tocar o disco. Respondemos que não, mas iríamos furá-lo com Ana Maria Broca, nossa fiel furadeira, que toda semana se encarregava de aniquilar o pior disco da semana. Kid riu, sem graça, e não tocou mais no assunto.

Fizemos o sorteio de discos da Trama. Kid se despediu e foi embora.

No fim do programa, quando chegou a vez de Ana Maria Broca entrar em ação, descobrimos que o disco de Bonfá tinha sumido. Procuramos por todo o estúdio, mas nada do CD. Alguém disse: “Só pode ter sido o Kid!” Fazia todo sentido: Kid não iria deixar um bando de cretinos furar um disco de sua própria gravadora.

Abrimos os microfones e fizemos uma proposta que Kid não podia recusar: “Kid, a gente sabe que você está ouvindo. Faltam 20 minutos pro programa terminar. Ou você volta aqui com o CD do Bonfá, ou vamos furar um disco dele por semana durante um ano!”

Quinze minutos depois, Kid entra no estúdio, esbaforido e suando em bicas. Parecia que tinha corrido uma maratona carregando o Marcelo Bonfá nas costas. “Desculpem, acabei me confundindo e botei o disco na bolsa por engano!” E assistiu, resignado, à aniquilação de “O Barco Além do Sol”.

Bom fim de semana a todos.

“Babadook”: terror é coisa de criança

Dia desses, vi um dos filmes de terror mais legais dos últimos tempos: “The Babadook”, da australiana Jennifer Kent. O filme ainda não tem previsão de estreia no Bananão, mas está no Netflix gringo.

“The Babadook” não é lá muito inovador. O filme usa temas ligados ao imaginário infantil e tem como protagonistas uma mãe, Amelia (Essie Davis) e o filho de seis anos, Samuel (Noah Wiseman).

Amelia e Samuel são traumatizados por uma tragédia familiar. No caminho do hospital para o nascimento de Samuel, Amelia e o marido, Oskar (Benjamin Winspear) sofrem um acidente de carro, e Oskar morre na hora.

Samuel torna-se uma criança fechada em um mundo fantasioso. Adora magia e vê monstros por todos os lados. O mais assustador é The Babadook, uma criatura sombria e de cartola, que assombra os pesadelos do menino – e, depois, sua realidade, claro.

Mesmo reciclando fórmulas de outros filmes, “The Babadook” é tão bem feito e bem escrito que assusta demais. É um filme barato. O elenco não tem mais de uma dúzia de atores. Os efeitos especiais são simples, mas a forma como Jennifer Kent usa efeitos sonoros e música compensa a modéstia de recursos.

Top 5 – Filmes assustadores com crianças

Inspirado por “The Babadook”, fiz uma lista de meus filmes de terror prediletos envolvendo o imaginário infantil. Não coloquei obviedades como “O Exorcista”, “O Bebê de Rosemary” e “O Iluminado”, mas escolhi filmes menos conhecidos e que merecem ser vistos. Faça sua lista e compare. Em ordem cronológica, aqui vão os melhores filmes de “terror infantil” que já vi:

O Mensageiro do Diabo (Charles Laughton, 1955)


Um de meus filmes prediletos em qualquer gênero. Foi o único filme dirigido pelo ator Charles Laughton e é uma obra-prima do terror psicológico, usando uma estética inspirada no cinema Expressionista alemão dos anos 20. Robert Mitchum faz um pastor serial killer que descobre que duas crianças estão de posse de uma boneca com uma fortuna em dólares escondida. O dinheiro fora colocado ali por um ladrão de bancos. O pastor começa a perseguir as crianças pelas florestas da Virginia. O roteiro é do brilhante crítico James Agee e a fotografia, do genial Snatley Cortez, que fez só “Shock Corridor”, de Samuel Fuller, e “Soberba”, de Orson Welles.

A Aldeia dos Amaldiçoados (Wolf Rilla, 1960)


Uma produção americana e britânica dirigida por um alemão, é uma das joias do cinema anticomunista da Guerra Fria. Uma pequena cidade inglesa é atacada por uma força misteriosa que põe todos os habitantes para dormir. Quando acordam, percebem que todas as mulheres da cidadezinha estão grávidas. Meses depois, todas dão à luz no mesmo instante a crianças de cabelos platinados e olhos brilhantes. Foi refilmado em 1995 por John Carpenter, mas ainda prefiro o original.

Nasce um Monstro (It´s Alive, Larry Cohen, 1974)


Adoro esse lixão de Larry Cohen sobre um casal que concebe um bebê monstrengo que mata tudo que vê pela frente. Os Ramones adoravam esse filme e batizaram seu primeiro disco ao vivo de “It´s Alive”, em homenagem a ele.


A Profecia (Richard Donner, 1976)


Perdi a conta de quantas vezes assisti à saga de Damien, um órfão que é dado, na maternidade, a um casal que acabara de perder o filho. O pai, um poderoso diplomata americano interpretado por Gregory Peck, não conta à esposa (Lee Remick) sobre a troca. Logo o casal vai descobrir que o menininho é, literalmente, o diabo. Revi “A Profecia” há alguns meses e continua sendo um dos filmes mais assustadores já feitos. E a trilha de Jerry Goldsmith é fabulosa.


Deixe Ela Entrar (Tomas Alfredson, 2008)


Espetacular filme sueco sobre um menino tímido que faz amizade com uma amiguinha da escola. O que ele não sabe é que a menina é uma vampira. Um dos filmes mais bonitos e comoventes sobre a insegurança infantil e a solidão da infância.

Odair José gosta é de AC/DC!

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Odair José acaba de lançar seu 35º disco de estúdio, “Dia 16”, uma ótima coleção de rocks e baladas pop com influência clara de Beatles, Dylan e – acredite – AC/DC.
A faixa-título é AC/DC puro, um baladão pesado que não faria feio na programação de uma rádio rock, se nossas rádios de rock tocassem música boa. Ouça:

No texto de apresentação do disco, o próprio Odair se diz fã de AC/DC. Também cita influências de outros ídolos, como Roy Orbison (na balada "Sem Compromisso") e Beatles (Começar do Zero"), que lembra "Drive My Car".
Outras influências ele não menciona, mas são evidentes: o teclado que abre "A Moça e o Velho" lembra muito Dylan em "Like a Rolling Stone", para depois cair num rock brejeiro com uma letra divertida, que poderia ser de Raul Seixas (aliás, o Maluco-Beleza era fãzaço de Odair e o homenageou na música “Eu Quero Mesmo”). Relembre:

Quem conhece a carreira de Odair não se surpreende com as influências exibidas em “Dia 16”. Há muito tempo, ele é um de nossos grandes compositores pop. Infelizmente, ele conviveu, por décadas, com uma pecha de brega e cafona.

Nada contra a música brega, muito pelo contrário. Nomes como Waldik Soriano, Nelson Ned e Agnaldo Timóteo têm trabalhos importantíssimos e influentes. Mas o estilo de Odair era diferente. Bolero não era a sua praia. Ele sempre cultuou o pop/rock. Amava Beatles, Paul Anka, Bobby Darin e Little Richard.

Mas Odair cometeu um grande pecado nos anos 70: fez sucesso. Suas canções –crônicas de pequenas tragédias suburbanas embaladas em pop radiofônico– foram execradas pela patrulha do "bom gosto" da MPB e jogadas no balaio do brega e do cafona.

Em meu livro “Pavões Misteriosos”, entrevistei Odair sobre sua carreira. Ele falou bastante sobre os problemas que teve com gravadoras e a crítica musical e sobre o fato de ter sido rotulado de cafona. Peço licença para reproduzir alguns trechos:

Quem conhecia bastante sobre patrulhamento era Odair José. Desde que surgira na cena musical brasileira, no início dos anos 1970, ele fora tachado de brega por causa dos temas fortes e inusitados de suas canções. Quando Caetano Veloso o convidou para um dueto no Festival Phono 73, promovido pela gravadora Philips no Centro de Convenções do Anhembi, em São Paulo, o público não aceitou e começou a vaiar a dupla durante a música “Eu vou tirar você desse lugar”. Caetano reagiu: “Não existe nada mais Z do que público classe A”.

As letras de Odair narravam, de forma simples e sem metáforas, dramas pessoais do dia a dia. Sua identificação com as classes sociais menos favorecidas era total. “Eu vou tirar você desse lugar” contava, em primeira pessoa, a história de um homem que visitava um bordel e se apaixonava por uma prostituta. Em “Deixe essa vergonha de lado”, ele falava do drama de uma empregada doméstica que escondia sua profissão do namorado. A música “Na minha opinião (Eu te quero, te adoro, te gosto)” era uma surpreendente crítica à instituição do casamento (“Na minha opinião/ o importante é se querer/ assinar papel pra quê?/ Isso não vai prender ninguém”). Outra música, “Uma vida só (Pare de tomar a pílula)”, era uma súplica de Odair à mulher amada para que ela parasse com os anticoncepcionais e tivesse um filho com ele.

Odair José nasceu em 1948, em Goiás, em uma família de posses. “Meu pai tinha fazendas, e a gente nunca precisou trabalhar.” Adolescente, ouvia o pop-rock dos anos 1950: Brenda Lee, Pat Boone, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Elvis Presley, Bobby Darin, Neil Sedaka e Paul Anka. Em 1968, sem avisar os pais, largou tudo e foi tentar a carreira de músico no Rio de Janeiro. “Fiz uma sacanagem com minha família: só fui dar notícia um ano depois. Eu sabia que, se eles descobrissem onde eu estava, iriam atrás de mim.” Depois de alguns dias em um hotel na praça Tiradentes, o dinheiro acabou. Odair dormiu na escadaria do Teatro Municipal, na praia e até no banheiro do aeroporto Santos Dumont.

Para sobreviver, tocou violão em bares e boates da cidade. Na Barreira do Vasco, se apresentou em um bar com Jamelão, puxador de samba da Mangueira. “A gente tocava a noite toda. De vez em quando, o Jamelão dormia em pé, encostado na parede.” Odair correu o circuito de boates do Rio, do centro até Copacabana. O repertório era o mais variado: tango, bolero, rock, Ataulfo Alves, Dolores Duran, Altemar Dutra, Nelson Gonçalves. Também cantou “Yesterday” e “Michelle”, dos Beatles. “Quando o cliente de um puteiro pedia uma música, você tinha de saber de qualquer maneira.”

Levado à CBS pelo produtor e compositor Rossini Pinto, Odair gravou dois LPs, mas logo percebeu que precisava se livrar da “sombra” do maior astro da companhia: Roberto Carlos. “Todo mundo que gravava na CBS usava os mesmos músicos: Renato Barros na guitarra, Lafayette nos teclados, Miguel Cidras no piano, Pachequinho na regência, Paulo Cesar Barros no contrabaixo. Eram os caras que gravavam com o Roberto Carlos e eram grandes músicos, mas todos os discos ficavam com o mesmo som. E eu queria fazer uma coisa diferente.” No LP Meu grande amor, de 1971, Odair convidou instrumentistas fora do “esquema” da CBS, como o pianista Dom Salvador e o baterista Wilson das Neves. Mas Evandro Ribeiro, presidente da gravadora, não gostou.

Quando o contrato de Odair com a CBS terminou, em 1972, ele ficou no limbo. A gravadora não disse nada sobre um novo lp, e Rossini Pinto sugeriu lançar um compacto. Odair gravou “Eu vou tirar você desse lugar”. Rossini ficou furioso: “Você tá maluco? Fez uma música de puta? Por que não faz que nem o Roberto Carlos, fala de namoro, essas coisas?”. A CBS lançou o disco, mas Rossini colocou uma música dele, “Meu coração ainda é seu”, no lado A, e “Eu vou tirar você desse lugar” no lado B.

Sem apoio da CBS, Odair juntou alguns músicos, entrou em uma Kombi e partiu para uma excursão pelo Nordeste. Ficou três meses na estrada, se apresentando em pequenas cidades. Em todas, as rádios estavam tocando “Eu vou tirar você desse lugar”. Certo dia, o cantor estava em Ilhéus, na Bahia, quando foi abordado por um vendedor da gravadora: “Odair, pelo amor de Deus, a companhia tá louca atrás de você, você precisa ir urgente a São Paulo, tua música tá estourada!”. Odair voltou e foi diretamente para o programa do Chacrinha. “Eu vou tirar você desse lugar” estava em primeiro lugar nas paradas.

A CBS queria que Odair entrasse em estúdio imediatamente para fazer um novo lp. Ele disse que já tinha um disco na cabeça, com título e repertório, mas se recusou a trabalhar com Renato Barros [do grupo Renato & Seus Blue Caps], então diretor artístico da cbs. Odair queria gravar com o tecladista José Roberto Bertrami – que tocava com Elis Regina – e o baterista Ivan Conti, o Mamão. “Meu som não era mais o som do órgão da cbs, eu estava de saco cheio dessa coisa de namoro no portão.” Evandro Ribeiro foi contra e, segundo o cantor, ameaçou fazer com ele o mesmo que diziam que ele havia feito com o cantor e compositor Sérgio Murilo: “Havia uma lenda de que o Sérgio Murilo tinha peitado a CBS, e a gravadora o tinha colocado na gaveta, sem gravar. Então eu disse ao seu Evandro que meu contrato estava vencido. Ele ficou louco, chamou o pessoal do jurídico: ‘É verdade, seu Evandro, o contrato dele está vencido há seis meses’. E eu fui pra Philips”.

Na nova casa, Odair conseguiu trabalhar com quem queria. Até 1979, gravou todos seus discos com José Roberto Bertrami e Mamão, que acabariam por montar o Azymuth, grupo de jazz fusion de fama internacional. O sucesso de Odair José durante os anos 1970 foi imenso. André Midani nunca escondeu que usava os lucros dos discos do cantor para bancar as produções mais “experimentais” de outros artistas da Philips. Até a TV Globo se rendeu: um dia, Odair foi chamado ao escritório de Boni: “Que besteira eu fiz pro Boni me chamar?”. Segundo Odair, a Globo decidira pagar uma quantia por mês para que ele não se apresentasse em outras emissoras, especialmente no Chacrinha, que havia se mudado para a Tupi. “Chacrinha ficou louco, tentou me sabotar de todo jeito. Ele tinha coluna no jornal, vivia falando mal de mim. E olha que eu tinha um relacionamento antigo com ele e com a sua programadora, a Ana Lígia, uma grande amiga minha, tanto assim que dei pra ela parceria em algumas músicas, como ‘Cristo, quem é você?’.”

Odair José classifica seu trabalho, pelo menos até o fim dos anos 1970, como “de alto nível”, mas admite que os discos caíram de qualidade na década seguinte: “Eu perdi o foco, minhas produções ficaram mais vulgares. Comecei a beber muito, fumava muita maconha, só queria saber de ir pro Baixo Leblon e de fumar maconha na praia do Pepino. Eu deixei de me interessar pelas coisas, e minha música, que sempre falou da realidade, de coisas que eu via acontecerem na minha frente, sofreu”.

Caçadores de discos perdidos

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Ano passado, jornais do mundo inteiro publicaram artigos sobre o empresário brasileiro Zero Frietas, um ricaço do setor de transportes que coleciona discos, tem cinco milhões de vinis e contratou uma equipe de 17 pessoas para comprar coleções por todo o planeta, catalogar os LPs e guardá-los em imensos galpões.

A história de Zero é curiosa, mas, sinceramente, não consigo respeitá-lo como “colecionador”. Ele me parece mais um acumulador, um homem que usa sua fortuna para sair comprando discos sem a menor cerimônia ou senso crítico.

Tenho muito mais admiração pelos sujeitos perfilados no livro “Do Not Sell At Any Price: The Wild, Obsessive Hunt for the World’s Rarest 78 Rpm Records” (em tradução livre: “Não Venda por Preço Algum: A Louca e Obsessiva Busca pelos Discos de 78 Rotações Mais Raros do Mundo”), de Amanda Petrusich.

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Petrusich, colaboradora do jornal “The New York Times” e do site Pitchfork, conta a história de uma subcultura pequena, porém muito influente, que ajudou a escrever a história da música folk norte-americana: a dos colecionadores de discos de blues e folk lançados nas primeiras três décadas do século 20.

Vários dos sujeitos perfilados no livro – e é um mundo essencialmente masculino – não têm coleções imensas. Algumas coleções não passam de 200 ou 300 discos, mas possuem vinis tão raros que adquiriram status de lendas. A autora cita discos com duas ou três cópias em circulação no mundo e relata a incansável busca de colecionadores por outras cópias dessas raridades.

Um dos trechos mais interessantes conta uma viagem que Petrusich faz com um colecionador, Chris King, a uma imensa feira de objetos usados na Virginia. King é um obsessivo, que viaja por todo o país visitando velhas fazendas e lojas de penhores, em busca de raridades para sua coleção. Mas eles dão azar: um dia antes, outro colecionador encontra, na mesma feira, um velho vinil do bluesman Blind Blake, a única cópia do disco conhecida no mundo.

Alguns dos discos mais raros do planeta são encontrados das maneiras mais prosaicas: um sujeito vê uma caixa de madeira de uma velha gravadora de blues jogada no lixo de uma casa, e descobre que ali morava um velho fã de blues, morto recentemente. Quando a família joga fora o “lixo” que ocupava o quarto do coroa, lá estão cópias, em perfeito estado de conservação, de velhos vinis da Paramount, uma mitológica gravadora de blues (escrevi sobre a Paramount no blog; leia aqui).

A loucura dos colecionadores é tanta que, ao ouvir a história de que caixas de vinis da Paramount foram jogadas num rio, décadas atrás, depois que um depósito da gravadora pegou fogo, Petrusich faz um curso de mergulho e passa dias vasculhando o fundo lamacento do rio.

Um colecionador bola uma maneira genial para descobrir velhas coleções perdidas em casas particulares: faz acordos com funcionários de funerárias para que esses, quando avistarem velhas caixas de discos na casa de falecidos, o avisem. E dá certo.

Um dos personagens mais interessantes do livro é Harry Everett Smith (1923-1991), um excêntrico, amigos dos beats, chapa de Allan Ginsberg, ocultista e considerado “pai” dos colecionadores de discos. Em 1952, Smith lançou a coletânea “Anthology of American Folk Music”, uma coleção em seis vinis que virou um marco da valorização da música folk norte-americana e divulgou nomes até então esquecidos, como Charlie Patton, The Carter Family, Blind Willie Johnson e Blind Lemon Jefferson, entre muitos outros. Olha aí a figura:

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O mais admirável nessa turma de obsessivos descrita por Petrusich é que eles não são egoístas, mas fazem questão de dividir suas descobertas com outros colecionadores. A autora descreve reuniões em que velhos discos de 78 rotações são tocados para apreciação de todos. Ninguém esconde suas raridades em cofres ou depósitos. A maioria empresta seus discos originais para coletâneas e lançamentos em CDs.

Claro que alguns ganham dinheiro com as coleções, mas o mercado não é grande suficiente para deixar ninguém rico. Ninguém parece estar nessa por grana. Alguns possuem discos que valem dezenas de milhares de dólares, mas nem pensam em vendê-los, por maiores que sejam as ofertas de milionários japoneses e sauditas. Esses colecionadores veem seu trabalho como o de arqueólogos, que buscam preservar antigas culturas e dividi-las com o mundo. Bonito demais.

P.S.: Devido ao feriado, o blog volta com um texto inédito na quarta-feira. Bom feriado a todos.

O Antilollapalooza

Há alguns dias, o leitor Murilo Neuman me escreveu, relatando sua experiência no festival de música Pira Rural, no interior do Rio Grande do Sul.

Murilo disse que não tinha nenhuma ligação com o evento ou com as bandas, era apenas um frequentador do festival, e elogiou demais o evento. Achei o tema muito interessante, até por se tratar de um festival totalmente alternativo e independente, completamente fora do circuito "mainstream", e pedi ao Murilo que ampliasse o texto para publicá-lo aqui no blog.

O resultado é um texto informativo e bacana sobre um festival que, tenho certeza, a grande maioria dos leitores desconhece. Eu, por exemplo, nunca tinha ouvido falar do Pira Rural. Lendo a descrição, fiquei com vontade de ir.

É muito legal saber que existem iniciativas como esta, que fogem do corporativismo e beija-mão estatal de muitos eventos musicais “alternativos” no Brasil. As fotos são de Cleo Henn, Stéphanie Chauvin, Cristofer Dalla Lana e Jéssica Martini.

PIRA RURAL – por Murilo Neuman

No final de semana de Páscoa rolou a sexta edição do festival Pira Rural, na cidade de Ibarama, interior do Rio Grande do Sul. É um festival que procura promover as artes, especialmente a música, sem fins lucrativos, e organizado de forma independente, por um grupo de pessoas da região. Eu não faço parte da organização ou de nenhuma banda, e o meu único envolvimento com o festival é de frequentador.

Para entender o Pira Rural, é preciso localizá-lo. Ocorre em uma chácara, um local com duas cachoeiras, bastante mato e com um espaço perfeito para que haja uma forte interação entre o público, bandas e organizadores. O lugar é lindo, coloca as pessoas em contato direto com a natureza e acaba sendo um dos pontos-chave da festa. Acredito que, se não fosse ali, o festival não teria nem de perto o mesmo clima de união e amizade que tem.

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Como o local tem uma capacidade limitada, e é preciso não lotá-lo tanto pela preservação do espaço, quanto pela comodidade dos frequentadores, estimo que havia cerca de 600 pessoas presentes. Isso torna a experiência muito agradável, pois a todo momento as mesmas pessoas estão se cruzando, os mesmos vizinhos de barraca estão dividindo espaço contigo e isso cria um clima de empatia, aproxima muito as pessoas, criando diversas amizades e dando acesso fácil dos frequentadores com as bandas e organização.

Um segundo ponto a ser destacado é o zelo que a organização do festival tem com quem está lá. Eles fazem de tudo para agradar, facilitar, ajudar e alegrar o pessoal. Os serviços de alimentação e bebidas não podiam ser melhores. Toda refeição preparada vem de matérias-primas da agricultura local, tudo orgânico e delicioso.

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Como é liberada a entrada de alimentos, eu e meus amigos fizemos churrasco no almoço de chegada, na sexta-feira, na beira de um riacho. Não se pode esquecer o delicioso pão com molho que é preparado exaustivamente na festa e é fantástico, sem falar no pinhão, milho verde, sanduíche natural, torresmo, caldos de batata e de feijão, e por aí vai.

As bebidas oferecidas também são de produtores da região, com opções de vinho, destilados, sucos naturais, chopp artesanal e cerveja artesanal.

Agora, a questão das bandas. É impressionante a cena musical que se criou no underground autoral. Eu posso falar apenas do Rio Grande do Sul, não sei como funciona em outros estados. De uns quatro anos pra cá, vem surgindo uma leva gigantesca de bandas com som autoral e nada comercial. A seleção de bandas este ano foi a melhor que já vi ali. Na sexta-feira, quem abriu os trabalho foi o Davi Henn, com um show na frente da cascata. Ele toca sozinho, um homem-banda, fazendo a percussão com os pés, e nas mãos o violão. Depois foi a vez da banda da casa, a Xispa Divina, tocar o seu rock rural. A coisa ficou quente mesmo com o show da banda Scarlet, de Santa Catarina. Todo mundo ficou abismado com o rock and roll enérgico, cheio de jams e passagens inesperadas que os caras fizeram. No fim da noite, foi a vez da Célula Soul, um duo de Pelotas, tocar o terror no palco. Nunca vi um baterista bater tão forte que nem aquele. Pra encerrar a noite, a Trabalhos Manuais Espaciais, banda instrumental de Porto Alegre, colocou todo mundo pra dançar com sua mistura de funk, ritmos africanos e brasileiros. Foi sensacional.

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No sábado, o palco abriu cedo, às 13h, com os Cânticos Espacias de Marcos Trubian; apenas ele e uma guitarra no palco, gravando loops em cima de loops e transformando a única guitarra em até 5 ou 6. A tarde inteira foi de música boa (aliás, a pessoa pode até não simpatizar com o estilo de uma banda ou outra, mas é impossível falar que uma banda foi ruim), mas o negócio foi espetacular a partir do show da banda Rutera, de Caxias do Sul, que, como eles mesmo descrevem, fazem um reggae montanhês. Foi diferente de qualquer reggae que já escutei, era psicodélico, tinha uma mensagem muito bonita nas letras e a banda era afiadíssima.

Em seguida, foi a vez da Quarto Sensorial, trio instrumental de Porto Alegre, tocar o seu rock progressivo e dar um nó na cabeça da galera. Depois, os paulistas d'O Centro da Terra subiram ao palco; esse era um dos shows mais aguardados, porque é simplesmente hipnotizante vê-los ao vivo. É um trio com muita influência de Jimi Hendrix, que destrói no palco; parece que é a última vez que eles vão tocar na vida, de tanta gana e vontade que eles fazem aquilo. O tempo todo a coisa é fundamentada em improvisos absurdos, que não se sabe de onde saem e funcionam como se fossem ensaiados à exaustão. Como eles dizem em uma música, foi um verdadeiro Ritual Elétrico.

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Depois foi a vez da Quarto Astral, primeira banda nordestina a tocar no Pira. Eu, particularmente, estava muito ansioso para esse show. O último álbum lançado por eles, “Quarto Astral na Quinta Dimensão”, é fantástico e eu queria muito ver tudo aquilo ao vivo. Foi emocionante demais. Pra fechar a noite, subiu ao palco a banda Rinoceronte, mas eu não consegui manter as energias e apenas escutei o show da barraca.

No domingo rolou o “Palco Livre”, onde quem quisesse, subia e tocava. Eu não pude ver até o fim, pois tive que ir embora, mas o que pude ver foi demais. Os integrantes das bandas se misturando e improvisando, longas jams que iam se transformando, e o baile seguindo num fluxo muito agradável.

Enquanto não tem nenhuma banda no palco, rola o som mecânico com a Rádio Camarim. Só toca coisa boa e da pra conhecer muita coisa nova. Em que outro lugar eu escutaria Herbie Hancock no meio da madrugada? Os caras sabem bem o que tão fazendo.

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Durante o sábado e o domingo choveu o tempo inteiro, molhou tudo, mas era tanta alegria que não existia como reclamar; estávamos no meio da natureza, a chuva faz parte da natureza e estava em seu lugar.

Mas o mais bonito do Pira Rural são as pessoas. É uma sensação um tanto inexplicável estar lá. Você conhece 5% dos rostos e parece que conhece todo mundo. Todos se ajudam, todos apoiam, todos riem juntos. Tem crianças, cachorros, todos em perfeita harmonia e sabendo que estão desfrutando de duas das coisas mais lindas que existem, a música e a harmonia entre seres humanos.

Desejo vida longa ao Pira Rural e que logo chegue o próximo. Afinal, a frase que mais se ouvia por lá era: "eu não quero ir embora nunca mais". Infelizmente tivemos que ir, mas com uma consciência renovada e um gás extra pra passar todos os outros dias do ano em tranquilidade, por saber que ainda existem lugares como aquele.

Quando os Stones metiam medo

O canal BIS está exibindo esses dias “Charlie is My Darling”, um documentário fascinante sobre os primórdios da carreira dos Rolling Stones (o filme será reapresentado 6ª, às 7 da manhã, e domingo, ao meio-dia).

“Charlie” foi filmado em 1965, durante a segunda turnê irlandesa dos Stones, mas não foi lançado oficialmente até 2012, por causa de problemas legais entre a banda e seu ex-empresário, Allen Klein. Por 47 anos, as imagens circularam apenas em cópias piratas.

O filme foi patrocinado pelos Stones e produzido pelo então agente da banda, Andrew Loog Oldham. É uma produção simples, com uma câmera e sem nenhum requinte, mas as imagens revelam uma banda no limiar do sucesso mundial e já consciente de sua posição no imaginário pop.

Quem domina o filme é Mick Jagger. É impressionante ver um moleque de 22 anos com uma noção perfeita de seu papel naquele circo. Suas entrevistas são incríveis.

“Em cima do palco, nossa relação com o público é puramente sexual”, diz Mick, sem nenhum traço de ironia. E as imagens mostram que ele tinha razão: num show em Dublin, fãs invadem o palco para arrancar um pedaço dos Stones. A cena é inacreditável: enquanto duas fãs agarram Brian Jones, Mick foge do palco, Charlie Watts tenta se proteger atrás da bateria e Keith usa sua guitarra de escudo, um solitário policial tenta conter a turba enfurecida. O show, claro, é cancelado, e os Stones precisam fugir por uma porta lateral.

O filme mostra como os Stones eram “inimigos públicos”, execrados por pais e sociedade e amados pelos fãs. O abismo geracional que existia na Europa dos anos 60 é evidente. Em certo momento, Mick diz algo como: “Nosso público tem uma mentalidade nova. São jovens que não querem a guerra, querem o amor livre e não querem ser iguais a seus pais”.

Da janela de um quarto de hotel, Brian Jones e Keith Richards observam os fãs amontoados na calçada, gritando “Nós queremos os Stones!”. Aqueles moleques eram filhos da Segunda Guerra e nasceram em meio aos escombros e cidades arrasadas. É difícil imaginar, hoje, o que os Stones simbolizaram para aquela geração em termos de liberdade social, cultural e sexual.

Vale lembrar que, em 1965, os Stones ainda eram, basicamente, uma banda de “covers”, com um repertório centrado em clássicos do blues, soul e rhythm’n’blues norte-americanos. Foi só no ano seguinte, 1966, que e banda lançaria “Aftermath”, seu primeiro disco composto exclusivamente de músicas próprias.

Que ninguém espere de “Charlie is My Darling” um grande filme-concerto. Os shows são filmados amadoristicamente, com uma câmera colocada no palco e um som péssimo, totalmente abafado pelos gritos histéricos do público. Mas se você tem interesse em entender como o rock alargou o abismo geracional do Ocidente na segunda metade do século 20, é um documento indispensável.

Um filme que está sendo feito há meio século

Depois de receber centenas de comentários de leitores sobre os textos de Lollapalooza, Ed Motta e seu Jorge, tenho consciência de que o texto de hoje tem boas chances de ser recordista negativo de número de comentários aqui no blog. Mesmo assim, acho que o tema é tão bom que merece ser divulgado.

A culpa pelo desinteresse será exclusivamente do mercado de DVDs e filmes de arte no Brasil, que vem ignorando, há meio século, uma das maiores séries documentais já realizadas: a série “Up”, do cineasta inglês Michael Apted.

Em 1964, a Granada Television exibiu “Seven Up”, um documentário de 40 minutos em que apresentava 14 crianças britânicas de sete anos de idade e prometia acompanhar a vida delas pelas décadas seguintes. O primeiro filme foi dirigido por Paul Almond. A partir dali, Michael Apted, que havia sido pesquisador em “Seven Up”, assumiu a direção da série. Aqui vai um trecho de “Seven Up”:

A cada sete anos, Apted entrevistou novamente os 14 personagens. E os filmes - “14 Up”, “21 Up”, “28 Up”, “35 Up”, “42 Up”, “49 Up” e o mais recente, “56 Up”, lançado ano passado, formam uma fonte riquíssima sobre a vida, os problemas, as dúvidas, o amadurecimento, as alegrias e tristezas do povo britânico nos últimos 50 anos. Para muitos, a série “Up” é um dos maiores documentários já feitos.

Eu tinha visto cinco dos oito filmes, mas resolvi assistir a todos de uma vez, até para fazer companhia à minha mulher, que não conhecia a série. Terminados os 769 minutos dos oito filmes, ela disse que nunca tinha visto nada tão bonito e emocionante.

Veja aqui, em inglês, o crítico Roger Ebert entrevistando o cineasta Michael Apted sobre a série “Up”:

Diferentemente de “reality shows”, que põem pessoas de verdade em situações inventadas (no meio do mato, ou trancadas dentro de uma casa), a série de Apted não “interfere” com a vida de ninguém, apenas documenta a vida deles a cada sete anos.

Algumas trajetórias são surpreendentes, outras são banais. Originalmente, as 14 crianças foram escolhidas para representar um espectro amplo de origens e condições sociais. Algumas viviam em orfanatos, outras eram ricas e estudavam em escolas caríssimas. O único “pecado” da série – já assumido por Apted – foi ter selecionado apenas uma criança negra, Symon, um menino pobre que fora abandonado pelo pai e vivia num orfanato em Londres.

As histórias dos personagens são tão variadas que é impossível imaginar um padrão. Mas, analisando as trajetórias das 14 crianças, algumas coisas são óbvias: em primeiro lugar, a importância de uma base familiar sólida. Em segundo lugar, a importância da educação. Mesmo as crianças mais pobres parecem ter vidas mais ricas e felizes se não optaram por sair da escola e trabalhar muito cedo.

Acompanhar meio século da vida de alguém é uma experiência e tanto. No fim, você tem a impressão de conhecer intimamente essas pessoas e torce por elas. Um dos personagens, Neil, é um menino engraçado e simpático, que aos sete anos de idade sonha em ser motorista de ônibus. Mas a vida não é generosa com Neil e ele acaba, aos 21, morando num squat em Londres e tendo problemas com drogas e doenças mentais, até dar uma guinada em sua vida e iniciar uma improvável carreira na política.

A série “Up” está disponível, na íntegra, no Netflix gringo, com legendas em inglês. Mesmo que seu inglês não seja perfeito, vale a pena assistir. As entrevistas não são difíceis de compreender e dá para acompanhar a trajetória dos personagens numa boa. Garanto que poucos filmes merecem 769 minutos de sua vida quanto a série de Michael Apted.

P.S.: O leitor Luiz Salviato avisa que a série está disponível, com legendas em português, no canal Philos da NET. Agradeço ao Luiz pela dica.

Filme resgata Carlos Imperial, o cafajeste orgulhoso

Aí está um documentário imperdível sobre uma das figuras mais polêmicas e intrigantes de nossa cultura pop: “Eu Sou Carlos Imperial”, de Renato Terra e Ricardo Calil. O filme será exibido no Espaço Itaú (Praia de Botafogo, 316, Rio), na programação do festival “É Tudo Verdade”, dias 17 (21h) e 18 (15h).

Baseado no livro “Dez, Nota Dez!”, de Denilson Monteiro - que também recomendo demais – o filme conta vida, obra e pilantragem de Carlos Imperial (1935-1992), produtor musical, colunista de jornal, cineasta, apresentador de TV, ator, político e maior “abatedor de lebres” que este país já conheceu.

Imperial foi nosso picareta mais genial. Quando percebeu que a música folclórica “Meu Limão, Meu Limoeiro” era de domínio público, não teve dúvidas: registrou a canção como sua. A mãe revoltou-se: “Mas Carlos, eu cantava essa música pra você quando você tinha três anos!” “Mãezinha”, respondeu Imperial: “Comigo é assim: música e mulher, se não tiverem dono, eu tomo!”

Imperial foi nosso Allan Freed, o homem que trouxe o rock pro Brasil. No meio dos anos 50, apresentava programas de rock na TV. Foi ele que revelou Roberto Carlos, Erasmo, Elis Regina, Tim Maia, Clara Nunes, Paulo Silvino (com o nome de Dixon Savannah) e Eduardo Araújo. No fim dos anos 70, virou defensor da discoteca e lançou Dudu França e Miss Lene.

O filme de Terra e Calil é divertidíssimo. Como é bom ver entrevistas de veteranos como Gerson King Combo, Tony Tornado, Paulo Silvino e Erasmo Carlos, que não têm papas na língua ou “assessores” e aspones pra orientá-los.

Morri de rir com Tony Tornado relatando o convite de Imperial para que Tony fosse morar com ele em Copacabana: “Eu disse pro Imperial que morava no bairro da Chacrinha, em Nova Iguaçu, e ele respondeu: ‘Mas Tony, isso aí é longe pra caralho!’ E ele tinha razão, era mesmo!”

Também fiquei surpreso com a entrevista de Roberto Carlos, numa raríssima ocasião em que colabora com um empreendimento jornalístico, em vez de censurá-lo. Roberto conta como Imperial o ajudou no início da sua carreira. Mas é Eduardo Araújo que traz a informação mais quente sobre a relação de Imperial com o "Rei", ao afirmar que Roberto o chamava de "pai".

Outra qualidade do filme é não ser chapa branca. Imperial é mostrado como um sujeito leal aos amigos, mas extremamente duro – e, muitas vezes, até desleal – com os desafetos. A história da “lenda da cenoura”, que por décadas atormentou o ator Mário Gomes, é revoltante. Imperial não tinha escrúpulos para humilhar os outros.

A vida de Imperial foi tão atribulada e cheia de fatos estranhos, que é natural que o filme passe meio batido por alguns desses acontecimentos, como sua carreia na política, por exemplo. Para a minha geração, Imperial será lembrado por ter inventado a campanha política mais esquisita e bombástica que já vimos: a de prefeito do Rio, em 1985. Reproduzo trechos de um texto que fiz em 2011:

Em 1985, Imperial criou o PTN – Partido Tancredista Nacional - para faturar com a comoção causada pela morte de Tancredo, ocorrida meses antes.

Seu tempo na TV era curtíssimo. Mas ele, velho macaco de imprensa, usava os poucos segundos de que dispunha com táticas chocantes. Cercado de assistentes – as “Zebrinhas” – Imperial aparecia com uma camisa zebrada, ao som de “Cidade Maravilhosa” e sempre gritando seu bordão: “vai dar zebra!”. Na parede, uma foto de Tancredo Neves adicionava ainda mais surrealismo à coisa toda. Veja que beleza:

Já viu um filmaço de Sidney Lumet chamado “Rede de Intrigas” (1976)? Peter Finch faz um apresentador de TV que pira no ar e anuncia que vai se matar em rede nacional. “Estou puto da vida e não agüento mais!”, grita o alucinado. A audiência dispara.

Imperial resolveu imitar Peter Finch. Ele apontava diretamente para a câmera, fazia cara de revoltado e dizia: “Povo do Rio de Janeiro, é, você, meu amigo, que vive sendo sacaneado... vá agora para a janela e grite: ‘Eu não agüento mais!!!!’”

Este virou o bordão meu e de todos os meus amigos. Não tinha uma aula em que algum cretino não levantava no meio da sala e gritava “Eu não agüento mais!!!!!”

Só de zoeira, fui até um comitê dele – se não me engano, próximo à Cinelândia - e peguei todos os cartazes, adesivos e bonés que pude. Imperial pedia que os “patrulheiros mirins” ligassem para ele, denunciando qualquer desmando na cidade. “Você será atendido pessoalmente por uma zebrinha”, prometia. Mandei várias reclamações contra meus professores, mas, infelizmente, nenhuma foi lida no ar. Também nunca consegui falar com nenhuma Zebrinha.

Imperial bolou uma jogada tão pavorosa, deselegante e politicamente incorreta que, por muitos anos, achei que eu a tinha imaginado. Foi só depois de ler o livro de Denilson Monteiro que a imagem voltou, inteira, à minha memória, e me toquei que aquilo tinha acontecido de verdade.

Um dos adversários de Imperial na eleição era Rubem Medina (PFL), que Imperial chamava de “disco voador”: “É baixinho, feio e ninguém acredita nele!”. Rubem era irmão de Roberto Medina, idealizador do Rock in Rio. E Imperial iria usar o festival de Roberto para tentar prejudicar a campanha de Rubem Medina.

Durante vários dias, Imperial anunciou, em seu horário político na TV, que mostraria “o exato instante em que a Aids chegou ao Brasil”.

No dia prometido, Imperial disse: "É agora, meu povo: vocês vão ver o EXATO momento em que a Aids chegou ao Brasil!”. E exibiu trechos do show do Queen no Rock in Rio, com Freddie Mercury cantando “Love of My Life”.

Segundo Denilson Monteiro, o negócio revoltou muita gente. O travesti Jane Di Castro, amigo de imperial, o abordou num bar e rompeu a amizade com ele. Não era pra menos. Aquilo foi constrangedor até para os padrões de Carlos Imperial.

Seu Jorge: “Rock não é um gênero pro negro”

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“Pô, eu sou brasileiro, nasci no Rio. Sou do subúrbio. O rock não chegou. O rock não é um gênero pro negro, apesar de Jimi Hendrix.”

Seu Jorge, em entrevista ao site da “Vice”

A frase de Seu Jorge rende uma discussão muito interessante. Na minha opinião, ela contém uma inverdade e uma verdade.

A inverdade: “Rock não é um gênero pro negro”.

Quem conhece a história do rock sabe que ele não é só um gênero “para o negro”, como foi criado por artistas negros (e a foto acima traz quatro desses pioneiros: Willie Dixon, Little Richard, Bo Diddley e Chuck Berry).

O que não quer dizer que tenha sido criado exclusivamente por negros. Como escreve Nick Tosches em “Unsung Heroes of Rock’n’Roll”, até hoje o melhor livro que li sobre o rock pré-Elvis:

“Rock’n’roll não foi criado somente por negros ou por brancos, e certamente não surgiu de repente. Ele evoluiu lentamente, fomentado por negros e brancos, alguns velhos e outros jovens, no sul, oeste, norte e leste. Seus pioneiros não foram impulsionados por um espírito criativo puro, mas pelo desejo de ganhar dinheiro. Nada une mais um homem negro e um branco, um jovem e um velho, um homem do campo e outro da cidade, quanto um dólar colocado entre eles. O rock’n’roll floresceu porque vendia. E quanto mais vendia, mais florescia. Seus heróis, famosos ou anônimos, tinham uma coisa em comum: eles gostavam de Cadillacs.”

No início dos anos 50, Sam Phillips, dono da gravadora Sun, dizia: “Se eu conseguir achar um rapaz branco que cante como um negro, farei um milhão de dólares”.

Em 1953, Phillips achou o tal rapaz, um certo Elvis Presley. Elvis não inventou o rock, mas tornou-o palatável à América branca. Enquanto Ike Turner, Little Richard, Chuck Berry, Fats Domino, Bo Diddley e outros pioneiros do rock tocavam, principalmente, para plateias negras, Elvis fez a ponte entre aquela música do diabo e o “mainstream”.

Mesmo naquela época, a expressão “rock and roll” já era batida. Em 1922, a cantora de blues Trixie Smith gravara “My Daddy Rocks Me (With One Steady Roll)”. Em 1931, Duke Ellington gravou “Rockin’ in Rhythm”. O que a indústria musical fez, na década de 50, foi incorporar o nome "rock and roll" a um estilo de som mais “sujo”, agressivo e jovem. O DJ Alan Freed dizia ter criado a expressão "rock and roll", mas era cascata. A exemplo de Elvis, ele simplesmente se apropriou de algo que já existia e o vendeu com uma nova roupagem. E assim nascia o rock como nós o conhecemos.

É inegável que o gênero sofreu um violento processo de "embranquecimento" depois de Elvis. Nos Estados Unidos, jovens negros pareciam mais interessados em soul, funk e rhythm'n'blues (e depois em rap, claro), e grupos de rock formados por músicos negros passaram a ser raridade, como Bad Brains, Death e Living Colour.

Voltando à frase de Seu Jorge: o que há de mais verdadeiro nela, a meu ver, é o trecho em que ele diz que o rock “não chegou” aos subúrbios do Rio. Vou mais longe: o rock nunca chegou, de fato, ao Brasil inteiro. Quem dominou as paradas de sucesso por aqui foi a música romântica.

A verdade é que o Brasil sempre repeliu o rock. Em 1967, enquanto Hendrix tocava fogo em sua Stratocaster em Monterey, jovens artistas como Elis Regina, Gilberto Gil e Jair Rodrigues marcharam contra a guitarra elétrica no centro de São Paulo. Rock era visto como coisa de alienado e imperialista. E o povão concordava. É só verificar as paradas de sucesso para ver como o brasileiro nunca consumiu rock.

Nem os Beatles se deram bem por aqui. Em janeiro de 1965, a Odeon lançou no Brasil o LP “Os Reis do Iê, Iê, Iê!” (“A Hard Day’s Night”). Na Grã-Bretanha, o disco liderou a parada por 21 semanas. Nos Estados Unidos, por quatorze semanas. No Brasil, vendeu menos que “Não me Esquecerás”, do cantor de boleros Carlos Alberto, “O Trovador”, de Altemar Dutra, e “A Bossa é Nossa”, de Miltinho.

Alguns dados esclarecedores: desde 1965, quando o Nopem (Nelson Oliveira Pesquisa de Mercados) começou a listar suas paradas dos discos mais vendidos no país, nenhum LP com predomínio de guitarra elétrica chegou ao topo da lista.

Com raríssimas exceções – “Secos e Molhados” em 1974, “Vôo de Coração”, de Ritchie, em 1984 – a música pop sempre foi superada, em vendas, pela música romântica. Num distante segundo lugar, vinha o samba.

Sabe qual o LP de rock nacional mais bem colocado na parada do Nopem desde 1965? “Nós Vamos Invadir Sua Praia”, do Ultraje a Rigor, terceiro colocado no ranking de vendas de 1986, atrás de Roberto Carlos e Madonna (“Like a Virgin”). E sabe quais os compactos mais vendidos daquele ano? “Prenda o Tadeu”, de Maria Alcina, e “Dona”, do Roupa Nova.

Ou seja: Seu Jorge está certíssimo quando diz que o rock “não chegou” por aqui. Ainda estamos esperando.

Deixem o Ed Motta falar!

Ed Motta POST Sala Funarte 2014 Foto Castellano Deixem o Ed Motta falar!

O Brasil é um país curioso: a gente reclama que nossa classe artística é acomodada, corporativista e chegada num abraço coletivo. Aí, quando um artista resolve falar o que dá na telha, todo mundo cai de pau no sujeito.

O Judas da vez é Ed Motta, que resolveu detonar parte do público brasileiro que vai a seus shows no exterior e que, segundo ele, só ouve música ruim, quer ouvir "Manuel" (um sucesso radiofônico de Ed, gravado em 1988 com o grupo funk Conexão Japeri) e gosta de pular "como se estivesse numa micareta".

Leia aqui a matéria do R7 sobre o caso.

Pessoalmente, acho que Ed Motta pegou pesado nos termos usados. Não precisava chamar esse público de "pedreiro" ou um leitor de "caipira". Pega mal.

Mas o que me interessa no caso, muito mais que discutir se Ed tem ou não razão no que diz, é debater essa mania brasileira de se ofender com opinião.

Ontem, o assunto tomou vários minutos de um telejornal noturno da Globonews. E todos os jornalistas se disseram horrorizados com o cantor. O repórter Gerson Camarotti disse que Motta, que havia classificado axé e sertanejo de "soda cáustica sonora", deveria ter "mais respeito" com outros gêneros musicais.

Por quê?

Por que um artista precisa respeitar alguma coisa? Que problema há se Ed Motta não sentir um pingo de consideração pelo axé e pelo sertanejo e criticar as pessoas que gostam?

Se um cantor de axé odiar a música de Ed Motta e escrever isso no Twitter, alguém vai se horrorizar também?

Por que, em vez de ficar horrorizados, os programas jornalísticos não usam a polêmica para discutir se nossa música contemporânea é ou não uma "soda cáustica sonora"? Que tal um debate entre Ed Motta, Ivete Sangalo e uma dupla caipira?

Prefiro um milhão de vezes ouvir alguém falando o que pensa, mesmo que de maneira preconceituosa e com a qual eu não concorde, do que aturar o jogo de comadres habitual da classe artística brazuca, onde todo mundo é lindo, odara, beija a mão dos veteranos e tem sonhos molhados com uma verbinha pública. Isso sim é o horror.

Bom fim de semana a todos.

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