FAUSTO FANTI (1978-2014)

fausto fanti hermes e renato1 FAUSTO FANTI (1978 2014)

Muito triste e chocado com a morte de Fausto Fanti, do grupo humorístico “Hermes e Renato”.

Depois do surgimento do “Casseta e Planeta”, a trupe do “H & R” foi a mais talentosa a aparecer na TV brasileira, e isso não é pouca coisa.

O humor dos caras misturava roteiros muito bem escritos a uma tosquice estética impagável. O cenário de um telejornal podia ser apenas uma mesa, duas cadeiras e um pano no fundo; uma fantasia de mulher se limitava a uma peruca e peitos falsos.

Quando o “Casseta” apareceu, provou que um humorista não precisava ser ator de verdade para fazer sucesso na TV. Ninguém ali tinha experiência de palco, como Agildo Ribeiro, Jô Soares ou Paulo Silvino, mas a qualidade das piadas e a cara de pau deles, que sabiam estar “interpretando” de forma exagerada e caricata, resultavam num humor anárquico, que brincava com a tradição “clean” da comédia televisiva.

Foi um choque ver um programa tão delirantemente tosco quanto o “Casseta” na Globo. E esse gosto pela ogrice, o pessoal do “Hermes e Renato” levou a extremos. A impressão era de estar vendo vídeos de amigos fazendo palhaçadas, tal o despojamento e esculacho – no bom sentido, claro.

E os esquetes eram muito bem escritos. A série “Brasil Mulambo”, em que um repórter – Fausto Fanti - acompanhava as desventuras de Charlinho, um pobre coitado que só queria estudar, esculhambava o tom condescendente da visão da mídia sobre a pobreza. É um clássico:

 

 

Um de meus momentos prediletos de Fausto Fanti é a entrevista com a banda Também Sou Hype – “um pouco de indie rock, com eletro e um tiquinho assim, desse tamanhinho, de carimbó” – inesquecível sacaneada no Cansei de ser Sexy.

 

 

Fanti é mais um numa lista longa de comediantes que morreram cedo demais. Chris Farley, Sam Kinison, John Belushi, Phil Hartman, Greg Giraldi, Lenny Bruce... É impressionante como artistas que viveram do humor tiveram, em suas vidas privadas, momentos tristes e sombrios, que ninguém poderá compreender.

DEAD KENNEDYS: CARIOCA ÜBER ALLES

barca DEAD KENNEDYS: CARIOCA ÜBER ALLES

Acaba de sair no Brasil “Dead Kennedys – Fresh Fruit For Rotting Vegetables” (Editora Ideal), livro do inglês Alex Ogg sobre a banda punk liderada por Jello Biafra.

Não é uma biografia completa da banda, mas o relato de seus primeiros três ou quatro anos, da fundação ao lançamento do disco de estreia, em 1980. O livro é uma versão ampliada de um texto que Ogg escreveu para o relançamento comemorativo de 25 anos do disco, em 2005.

A edição que está saindo no Brasil é caprichada, com muitas fotos, reproduções de cartazes de shows e flyers, e colagens de Winston Smith, o artista gráfico que fez o logo e as capas do DK.

Para quem quiser saber mais sobre a origem do Dead Kennedys, como Jello, Klaus Flouride e East Bay Ray se conheceram e montaram a mais original e inventiva banda hardcore de todos os tempos, vale a pena a leitura.

Mas uma história que não está no livro e que pouca gente conhece aconteceu no Rio de Janeiro em 1992, seis anos depois do fim da banda.

Naquele ano, lancei “Barulho”, livro sobre o rock alternativo americano. Jello e o então baixista do Ministry, Paul Barker, vieram ao Brasil para o lançamento.  Estupidamente, marquei a festa mo Rio na mesma semana em que acontecia a Rio Eco, uma conferência global sobre meio-ambiente, com presença de políticos e celebridades do mundo todo. A cidade estava lotada.

Uma noite, levei Jello, Paul e um grupo de amigos para jantar no Lamas, tradicional restaurante carioca, ponto de encontro de intelectuais e boêmios. Estávamos traçando filés com cebola frita (menos Jello, que era vegetariano), quando entrou no restaurante um grupo de engravatados. Jello reconheceu um deles e percebi que ficou constrangido na hora.

A figura era ninguém menos que Jerry Brown. Brown tinha sido governador da Califórnia de 1975 a 1983 (e seria novamente em 2011), e era o alvo de uma das melhores e mais virulentas letras de Jello, “California Über Alles”, composta em 1979.

Nela, Jello espinafrava o que considerava “hippismo” de Brown e previa uma América onde “zen-fascistas” executariam cidadãos em câmaras de “gás orgânico venenoso” e onde crianças seriam obrigadas a meditar na escola. Brown era descrito como “Big Brother num cavalo branco”.

Em nossa mesa estava um amigo meu, Lance Gould, jornalista que trabalhava para várias revistas americanas. Lance e eu decidimos promover o encontro de pedra e vidaraça. Fomos à mesa de Brown, nos apresentamos e dissemos que Jello estava na mesa ao lado e “adoraria conhecer o governador”. Jello, constrangido, cumprimentou Brown, que foi simpático e não demonstrou nenhum ressentimento. Os dois falaram por um tempo sobre a conferência.

Até ler o livro de Alex Ogg, eu achava que aquele fora o primeiro encontro de Jello e Jerry Brown, mas o jornalista conta que, depois do fim dos Dead Kennedys, Jello acabou meio que se arrependendo da letra, percebeu que Brown era um político muito acima da média, e até participou de grupos ativistas apoiados por Brown. Os dois já haviam se encontrado antes.

De qualquer forma, foi um encontro inusitado e improvável entre um punk revoltado e seu alvo, num templo da boemia carioca.

 

FLIP: PREÇOS DAS POUSADAS ASSUSTAM MAIS QUE LIVRO DO STEPHEN KING

flip paraty 3c FLIP: PREÇOS DAS POUSADAS ASSUSTAM MAIS QUE LIVRO DO STEPHEN KING

Começa hoje, em Paraty, a 12ª edição da Flip.

A cidade nunca esperou o evento com tanta ansiedade, até pelo prejuízo que a Copa trouxe para o comércio e turismo locais. Nos últimos dias, falei com vários donos de pousadas, lojas e restaurantes, e todos tiveram movimento menor em junho e julho do que em anos anteriores. Para alguns, a diminuição chegou a 50%.

Talvez para compensar, muitos aumentaram seus preços absurdamente agora na Flip. Os valores pedidos para os pacotes em pousadas e hotéis chegaram a níveis ridículos.  Pousadas simples, que normalmente cobram 100 ou 150 reais por um quarto, pedem 500 ou 600, aproveitando a demanda maior que a oferta. Um amigo ligou para uma pousada bacana no Centro Histórico e ficou chocado com o preço: um pacote de quatro noites saía por 10 mil reais. Desse jeito, o turista até pode vir para a Flip, mas não volta à cidade nunca mais.

Da programação, o mais interessante, para mim, deve ser a entrevista dos “Cassetas”(e ex-“Pasquim”) Hubert e Reinaldo com Jaguar, falando sobre Millôr Fernandes (hoje, 19h).

Não vou perder o colunista do “The New York Times”, David Carr, autor da ótima autobiografia “A Noite da Arma” junto à repórter argentina Gabriela Mochkofsky na mesa “Narradores do Poder” (sábado, 21h30), nem o trio Sérgio Augusto, Claudius e Cássio Loredano falando sobre Millôr na mesa “O Guru do Méier” (sexta, 10h).

Também quero muito ver o paquistanês Mohsin Hamid na mesa “Livre Como um Táxi” (sexta, 17h15). Gostei muito de seu “Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente”, que li em inglês. E para finalizar, não perco o arquiteto Paulo Mendes da Rocha e o historiador de arquitetura italiano Francesco Dal Co na mesa “Paraty, Veneza no Atlântico Sul” (quinta, 19h30).

Se você tiver como vir à Flip sem gastar as economias todas numa pousada, vale a pena, mesmo que os ingressos já estejam esgotados para as mesas. Sempre dá para ver os debates pelo telão.

E se sobrar um tempinho, vá à Casa Folha na sexta, 17h, onde participo, com Guilherme Arantes, de uma conversa sobre meu novo livro “Pavões Misteriosos: 1974-1983: a Explosão da Música Pop no Brasil”. Depois conto como foi.

Até lá.

O HENDRIX DO DESERTO

Até três meses atrás, eu não tinha ouvido falar de Bombino. Mas fui ao Austin Psych Fest, festival da música psicodélica de Austin, onde ele se apresentou, e alguns leitores recomendaram não perder o show.  Segui o conselho. Hoje, não consigo parar de ouvir Bombino, especialmente seu terceiro disco, “Nomad”, produzido por Dan Auerbach, do Black Keys.

Bombino é o nome artístico do guitarrista Omara Moctar, 34. Moctar nasceu em um acampamento Tuareg no deserto perto de Agadez, no Níger, oeste da África. Os Tuaregs são um povo nômade do Níger, Mali, Burkina Faso e outros países africanos, que habitam o norte do Saara.

O grupo musical Tuareg mais famoso é o Tinariwen, do Mali, que existe há mais de 30 anos e tem nove discos. Bombino cresceu ouvindo Tinariwen, Terakaft e outras bandas que fazem uma mistura de sons africanos com blues e rock. Adorava Hendrix e Mark Knopfler. Aos dez anos de idade, foi forçado a ir com a família para a Argélia e depois para a Líbia, fugindo da perseguição do governo de Níger, que sempre teve uma relação conflituosa com os Tuaregs.

Bombino trabalhou como pastor de cabras enquanto praticava guitarra. Aos 17 anos, voltou a Agadez. Foi chamado por um famoso guitarrista Tuareg para integrar seu conjunto e virou músico profissional.  Em 2007, houve uma grande rebelião Tuareg, um período de lutas intensas contra o governo de Níger. Os Tuaregs exigiam melhores condições de vida e uma divisão dos lucros da exploração de urânio (as maiores minas do mundo estão no país). Dois músicos, colegas de Bombino, foram mortos por tropas do governo, que proibiu o uso de guitarras elétricas entre a população Tuareg. Bombino fugiu de novo, dessa vez para Burkina Faso.

Veja um trecho emocionante de um show de Bombino num acampamento Tuareg no Níger, em 2007:

Do outro lado do mundo, Dan Auerbach, guitarrista e cantor do Black Keys, viu vídeos de Bombino no Youtube e ficou obcecado pela música dele. Chamou o guitarrista e banda para gravarem em seu estúdio em Nashville. “Foi a primeira vez que gravamos em um estúdio de verdade”, conta Bombino (leia uma boa entrevista dele, em inglês, aqui).

O resultado foi “Nomad”, um dos melhores discos de 2013 que eu, estupidamente, só conheci mais de um ano depois. Veja aqui o clipe de “Azamane Tiliade”:

A música de Bombino é uma porta de entrada para uma cultura que poucos conhecem. Ele é um bluesman do deserto e faz a ponte entre as tradições Tuaregs e a música pop ocidental, que conheceu criança. É um som diferente, original e inesquecível. Espero que alguém traga logo Bombino para tocar por aqui.

 

ROGER EBERT: UM ADEUS DE CINEMA

Todo cinéfilo tem seu crítico predileto: André Bazin, Pauline Kael, Andrew Sarris... Mas ninguém pode discordar que o crítico mais influente e conhecido da história do cinema foi Roger Ebert.

Por quase 30 anos, Ebert, em parceria com Gene Siskel, apresentou um programa de TV nos Estados Unidos em que faziam críticas dos filmes da semana. Os filmes recebiam “thumbs up” (polegares para cima) ou “thumbs down” (para baixo), e a opinião dos dois influenciava o resultado de bilheteria.

Outros críticos malharam Siskel e Ebert por “banalizarem” a crítica cinematográfica. Ebert sabia que o curto tempo na TV não permitia análises profundas sobre filmes, mas via seu trabalho como uma peça de resistência do bom cinema no “mainstream” e sempre fez questão de elogiar o trabalho de jovens talentos. Martin Scorsese, Errol Morris e Michael Moore são apenas alguns dos muitos cineastas que receberam grande incentivo do crítico no início de suas carreiras.

Ebert não começou na TV. Em 1967, foi contratado como crítico do jornal “Chicago Sun-Times”, onde permaneceu por mais de 40 anos. Foi o primeiro crítico de cinema a ganhar um Pulitzer (em 1975) e ajudou a popularizar a geração de jovens cineastas que surgia: Coppola, Scorsese, Bogdanovich, Arhtur Penn e e outros.

Suas críticas positivas a filmes polêmicos como “Bonnie e Clyde” (Arthur Penn, 1967), “Meu Ódio Será Tua Herança” (Sam Peckinpah, 1969) e “Caminhos Violentos” (Scorsese, 1973) ajudaram a bilheteria dos filmes e a carreira de seus diretores. Ebert também ajudou a popularizar, na América, cineastas estrangeiros como Kurosawa, Bergman e Fellini, e escreveu o roteiro de “Beyond the Valley of the Dolls”, clássico trash/pornô de Russ Meyer.

Em 2002, Ebert foi diagnosticado com câncer na tireoide e, logo depois, na glândula salivar. Passou os anos seguintes entrando e saindo de hospitais, fez inúmeras cirurgias, retirou parte do maxilar e passou a se comunicar por meio de um sistema computadorizado de reprodução de som, usando, como base, gravações de sua própria voz. Morreu em 4 de abril de 2013, cercado por amigos e pela esposa, Chaz, com quem casou aos 50 anos e que, segundo Ebert, o salvou de “passar os últimos anos de vida em completa solidão”.

Acaba de sair nos Estados Unidos “Life Itself”, documentário de Steve James (“Hoop Dreams”) sobre a vida de Roger Ebert. Enquanto nenhum iluminado lança por aqui, dá para ver no Cine Torrent.

O filme começou a ser produzido seis meses antes da morte de Ebert e traz entrevistas com amigos, colegas de trabalho, cineastas (Scorsese, Herzog, Errol Morris) e críticos (Richard Corliss, A.O. Scott, Jonathan Rosenbaum). A entrevista de Scorsese, em especial, é muito emocionante. Ele lembra como Siskel e Ebert o homenagearam em um festival de cinema em 1980, quando ele passava por uma fase braba de cocaína e havia quase morrido de overdose. Foi a primeira vez que vi Scorsese quase chorar numa entrevista.

“Life Itself” também mostra, em detalhes agonizantes, todo o processo clínico a que Ebert se submeteu. É comovente a luta dele para continuar trabalhando em meio à dor. Em 2008, e até seus últimos dias, manteve um blog, onde falava sobre cinema e a vida, e onde escreveu sua despedida:

“Eu sei que ela está chegando, e não temo, porque acredito que não há nada do outro lado da morte para temer. Espero ser poupado de sofrimento nesse caminho. Sempre fui perfeitamente feliz antes de nascer, e penso na morte da mesma forma. Sou grato pelo dom da inteligência, do amor, do deslumbramento e do riso. Não dá para dizer que não foi interessante. As memórias de minha vida são o que eu trouxe dessa viagem. E não preciso deles, para a eternidade, mais do que preciso daquele pequeno souvenir da Torre Eiffel que eu trouxe de Paris.”

Dois dias antes de morrer, Roger Ebert escreveu:

“Nesse dia de reflexão, digo novamente: obrigado por terem me acompanhado nessa jornada. Vejo vocês no cinema.”

MUSSUM FORÉVIS

Dia 29 é aniversário de 20 anos da morte de Mussum. Para homenageá-lo, Selecionei seis momentos dele nos “Trapalhões”.

Mussum vira chefe – Adoro esse quadro, que brinca com sexismo e racismo no ambiente de trabalho.

 

Mussum Sommelier – É uma piada velha, que os Trapalhões adaptaram nesse esquete curtinho.

 

Mussum e o xadrez – Todos os coadjuvantes dos Trapalhões eram divertidos, mas eu gostava especialmente de Carlos Kurt, que sempre fazia o “alemão” nervoso.

 

O governo tá certo – Este é um dos quadros mais bizarros de sátira política, em que Mussum defende o governo.

 

Ponto de ônibus – O esquete não é dos mais criativos, mas a frase sobre a “ambulância preta” é sensacional.

 

Criolovil – Já postei esse vídeo aqui no blog, mas não dá para fazer uma seleção dos melhores momentos de Mussum sem incluí-lo. Dá para perceber que boa parte do monólogo é improvisado, e que Mussum esculhamba vários amigos e colegas. Imagino a equipe passando mal de rir atrás das câmeras.

Bom fim de semana a todos.

JABÁ, PIRATARIA E TRAMBIQUE: O LADO SOMBRIO DA MÚSICA

Simon JABÁ, PIRATARIA E TRAMBIQUE: O LADO SOMBRIO DA MÚSICA

Você sabe quando começou o jabá na música?

Foi na década de trinta. Mil oitocentos e trinta e quatro, para ser exato, quando o inglês Thomas Chappell pagou à cantora lírica Clara Butt uma grana para que ela adicionasse algumas canções ao seu repertório. E quem vendia a partitura das canções? A Chappel Music, claro.

E o primeiro caso de pirataria musical?

Aconteceu em 1905, quando um meliante foi preso nas ruas de Londres vendendo cópias falsificadas de partituras de famosas músicas da época, por um quinto do preço das partituras legítimas.

Há também o caso do empresário de uma banda desconhecida que procurou dois escritórios especializados em publishing (edição musical) para representar seus artistas. Ele foi ao primeiro escritório, da Essex Music, esperou quinze minutos para ser atendido, perdeu a paciência e decidiu ir ao segundo, onde foi recebido por um sujeito chamado Dick James. James ouviu a única música que o grupo havia gravado até então e concordou em representá-lo.

O empresário era Brian Epstein, a banda, os Beatles, e Dick James virou bilionário. Por décadas, ganhou 32,5% dos direitos de publishing de todas as canções de Lennon e McCartney. Ganhava mais que os compositores, que só ficavam com 29,25%. E a Essex Music ficou conhecida como a casa que rejeitou os Beatles.

Essas histórias – e dezenas de outras – sobre o lado sombrio da indústria musical estão em um livro obrigatório para quem se interessa pelas maquinações da indústria: “Ta-ra-ra-boom-de-ay: The Dodgy Business of Popular Music”, do inglês Simon Napier-Bell.

Napier-Bell tem 75 anos e é uma lenda dos bastidores do showbiz. Nos anos 60, escreveu letras para Dusty Springfield e empresariou os Yardbirds; nos 70, descobriu Marc Bolan e depois inventou o duo pop Wham!, com o então desconhecido George Michael (na foto do alto, ele bate papo com Michael e Andrew Ridgeley, em 1985). Napier-Bell é um estudioso da história da música e conhece todo mundo. No livro, junta a erudição de décadas de pesquisa com o veneno de quem testemunhou, como insider, várias das histórias que relata.

Ele conta, por exemplo, como Paul McCartney ficou furibundo ao descobrir que suas músicas já não lhe pertenciam, e como o Beatle resolveu se vingar do mundo fazendo exatamente o mesmo com outros artistas, comprando todo o catálogo de Buddy Holly e vendendo suas músicas para comerciais de TV.

Mas Macca não demoraria a experimentar do próprio veneno: certa noite, jantando com Michael Jackson, comentou como estava ganhando uma fortuna com músicas de outros artistas. Jacko brincou: “Sabe, Paul, um dia eu vou comprar as músicas dos Beatles”. McCartney riu e não deu muita bola.

Mas Jacko não esqueceu a história. E depois de embolsar 100 milhões de dólares com as vendas de “Thriller”, usou metade da grana para comprar as músicas dos Beatles. Enquanto McCartney espumava, Jacko vendia “Revolution” para um anúncio da Nike e “All You Need is Love” para a Panasonic.

O livro começa no início do século 19, com o primeiro caso de jabá registrado, e acompanha todo o desenvolvimento da indústria musical. Ficamos sabendo como Duke Ellington, Benny Goodman e todos os líderes de big bands recebiam grana de empresas de publishing para tocar determinadas canções e incentivar a venda de partituras, o negócio mais rentável da música na época.

Napier-Bell fala da “Taxa Elvis” – um percentual de 30% que todo compositor precisava pagar a Elvis se quisesse que ele gravasse sua música; conta como se formaram as maiores gravadoras do planeta – Columbia, RCA Victor, Atlantic – e faz perfis dos executivos que as comandaram. E explica, de forma clara, como um artista que vendeu 200 mil cópias de um disco conseguia dever dinheiro à gravadora.

Mas o melhor do livro são as pequenas histórias de grandes trambiques e espertezas: como a do sul-africano Clive Calder, que vendeu parte de sua gravadora, a Zomba, para a BMG, com uma cláusula em que a BMG se comprometia a comprar o restante da Zomba por três vezes o lucro médio dos últimos três anos. Calder moveu o mundo e conseguiu contratar, de uma vez, Backstreet Boys, N’Sync e Britney Spears, que venderam, juntos, 50 milhões de discos só nos Estados Unidos. O lucro anual da Zomba chegou a 900 milhões de dólares, e Calder liquidou a empresa por inacreditáveis 2,7 bilhões, tornando-se, de um dia para o outro, um dos 200 homens mais ricos do planeta.

O capítulo sobre a invenção das boy bands é demais. Em especial o perfil de Johnny Kitagawa, um empresário americano que mudou para o Japão nos anos 50 e por quatro décadas montou dezenas de grupos infantis como KinKi Kids, SMAP, Tokio, V6 e Four Leaves, todos soando idênticos e com menininhos adoráveis, que ele traçava sem dó, aproveitando que a idade consensual para sexo no Japão era de 13 anos.

Napier-Bell conta também a história de Lou Pearlman, agente que inventou o Backstreet Boys e o N’Sync (e depois foi processado pelas duas bandas por assédio). Quando um repórter perguntou a Pearlman se esses grupos tinham prazo de validade, ele respondeu: “Boy bands só deixarão de ser populares no dia em que Deus parar de fabricar garotinhas”. Napier-Bell completa: “ou no dia em que Deus parar de fabricar agentes homossexuais”.

CIÊNCIA CONFIRMA: MOTÖRHEAD FAZ MAL AO CÉREBRO

Lemmy eyeball CIÊNCIA CONFIRMA: MOTÖRHEAD FAZ MAL AO CÉREBRO

Meu amigo Cássio Leite Vieira é especialista em dois assuntos: ciência e heavy metal. E me enviou um artigo que junta os temas de forma inusitada.

Em janeiro de 2013, um homem de 50 anos chegou ao Departamento de Neurocirurgia da Escola de Medicina de Hanover, na Alemanha, com uma forte dor de cabeça, que já durava duas semanas.

O histórico médico do paciente não indicava a causa da dor, mas uma entrevista revelou que, algumas semanas antes, ele havia comparecido a um show do Motörhead. E pior: havia passado o show inteiro batendo cabeça. Ou, como dizem lá fora, “headbanging”.

Uma tomografia do cérebro confirmou o que os médicos temiam: o homem tinha, no lado direito da cabeça, um hematoma subdural – em bom português, “sangramento no cérebro”.

Cirurgiões retiraram o hematoma e drenaram o sangue do cérebro do metaleiro por seis dias. As dores de cabeça diminuíram de intensidade, e ele recebeu alta poucos dias depois.

Uma reportagem em uma revista médica diz: “Bater cabeça, embora geralmente considerado inofensivo, pode causar dissecção da artéria carótida, lesões no pescoço e enfisema no mediastino. Este é o primeiro caso conhecido em que ‘headbaning’ causa um hematoma subdural crônico”.

E termina: “Este caso prova a reputação do Motörhead como um dos grupos mais pesados do planeta, não só pela velocidade e peso contagiantes de seu som, mas também devido ao potencial risco de fãs sofrerem lesões cerebrais ao baterem cabeça”.

Estejam avisados.

JÁ LEU JOSEPH WAMBAUGH?

joseph wambaugh photo JÁ LEU JOSEPH WAMBAUGH?

Já escrevi aqui no blog sobre a crise de qualidade da literatura policial moderna. Quando um abacaxi como “A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert” é considerado um livro revolucionário, é porque alguma coisa está muito errada.

Isso sem falar em “O Jogo de Ripper”, primeira – e, espero, última – incursão de Isabel Allende pelo romance policial. Tive de ler por obrigação profissional e foi uma experiência das mais torturantes.

Enquanto não chega o novo livro de James Ellroy, “Perfidia” (o meu já está encomendado, sai em setembro), achei no Netflix gringo um grande filme baseado em um de meus livros prediletos: “The Onion Field”.

Dirigido por Harold Becker (dos ótimos “Sea of Love” e “City Hall”) em 1979, é inspirado no livro homônimo de Joseph Wambaugh, lançado em 1973, sobre uma história real ocorrida dez anos antes na Califórnia: uma dupla de policiais, Ian Campbell (Ted Danson) e Karl Hettinger (John Savage) para um carro suspeito numa averiguação de rotina. No automóvel estão dois ladrões, Jimmy Smith (Franklyn Seales) e Gregory Powell (James Woods).

Os bandidos rendem os policias e os levam para uma plantação de cebolas na periferia da cidade, com a promessa de soltá-los. Quando chegam à  plantação, Powell atira nos dois. Campbell morre na hora, mas Hettinger consegue escapar.

O filme acompanha os anos seguintes ao crime e ao julgamento dos assassinos, e conta como os bandidos conseguem, por meio de manobras jurídicas espertas, sair por cima. E Hettinger, o policial sobrevivente, é assombrado pelas memórias do crime e entra numa depressão suicida. As atuações de Woods, Savage e Seales são incríveis.

Não sei se “The Onion Field”, o livro, foi lançado em português. No site Estante Virtual há dezenas de livros de Wambaugh, tanto em português quanto em inglês. Se tiver chance, leia qualquer um. Wambaugh é daqueles escritores obrigatórios para quem gosta de literatura policial.

Antes de virar escritor, Wambaugh foi tira. Seus livros relatam a vida e trabalho dos policiais com uma visão de “insider”. Os diálogos não são cheios de bossa como os de Elmore Leonard ou Lawrence Block, mestres do “thriller” pop, mas realistas. A impressão é de estar escutando uma gravação de tiras batendo papo.

Vários dos livros de Wambaugh, especialmente os primeiros, escritos na primeira metade dos anos 70, não trazem histórias complexas sobre crimes misteriosos, mas relatos de como policiais são afetados pelo stress e brutalidade do dia a dia.

“The Choirboys”, um dos melhores livros dele, fala de um grupo de tiras que se reúne num parque da cidade de madrugada para beber, fumar, trepar com umas garçonetes taradas por policiais e trocar histórias da batalha nas ruas.

“Os Novos Centuriões” – esse tem em português – conta a vida de três colegas da Academia de Polícia e suas experiências na rua. É o livro mais autobiográfico de Wambaugh.

Leia, e dificilmente você terá paciência para muito do que se passa por literatura policial hoje em dia.

 

Dunga vai dar saudades do Felipão

070622dunga Dunga vai dar saudades do Felipão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se for confirmada a informação divulgada domingo, o novo técnico da seleção da CBF, o homem que comandará a renovação do futebol brasileiro, o visionário que porá nosso futebol, finalmente, no século 21, é... Dunga.

Isso mesmo. Depois de convidar um empresário de jogador – Gilmar Rinaldi – para coordenar a seleção, a CBF agora ressuscita o gênio que levantou a Copa do Mundo em 1994 e só conseguiu pensar em xingar os jornalistas, que levou 34 volantes para a Copa de 2010 e que revelou ao mundo o craque Felipe Melo.

Fica a pergunta: o que um técnico brasileiro precisa fazer para comandar a seleção da CBF? Felipão, é bom lembrar, rebaixou o Palmeiras e ganhou o cargo. Dunga deu vexame em 2010 e vai ganhar o cargo de volta.

Imagino o que Tite deve estar pensando nessa hora. A campanha dele com o Corinthians em 2011/12 não vale nada?

E Cuca, o que pensa quando vê Dunga assumir a seleção? O que ele fez no Atlético-MG em 2012 e vem fazendo há vários anos em vários clubes não tem valor?

Principalmente, gostaria de saber o que passa na cabeça de Marcelo Oliveira nesse momento. O cara monta o time que vem jogando o melhor futebol do Brasil nos últimos 18 meses – o Cruzeiro – e tem de passar pela humilhação de ver um tosco incompetente como Dunga recompensado com o cargo mais desejado por técnicos do país.

Pensando bem, faz todo sentido a CBF se associar a Gilmar Rinaldi e Dunga. Quem pensava que uma entidade liderada por uma múmia como Marin seria capaz de se renovar e olhar pro futuro, errou feio. Marin é a vanguarda do atraso, e a CBF espelha sua visão retrógrada e provinciana.

De minha parte, adorei a escolha de Dunga. Começo, desde já, a torcida pela derrota nas eliminatórias para 2018.

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