TRIBUTO A KIM FOWLEY, “REI DO LIXO”

Kim Fowley fuck you TRIBUTO A KIM FOWLEY, REI DO LIXO

Kim Fowley morreu em 15 de janeiro, aos 75 anos. Demorei para escrever sobre ele aqui no blog porque queria ler “Lord of Garbage”, primeira parte de sua autobiografia, lançada ano passado pela Kicks Books, editora da ex-batera do Cramps, Miriam Linna (aliás, que catálogo tem a Kicks, com títulos de Sun Ra, Royston Ellis, Nick Tosches e uma biografia de Bobby Fuller!).

“Lord of Garbage” começa em 1939, no nascimento de Fowley, e vai até o início dos anos 70. Fowley estava trabalhando na segunda parte quando foi diagnosticado com câncer na bexiga e não suportou. Espero que outra pessoa termine o livro, até porque a primeira parte é tão estrambólica e inacreditável que terminei a leitura achando que sabia menos sobre Kim Fowley do que antes.

A imaginação de Fowley é, para dizer o mínimo, surpreendente: o que dizer de um parágrafo assim:

Kim Fowley falava aos dez meses de idade e lia e escrevia com um ano e meio (...) minhas primeiras palavras, antes de completar um ano, não foram “Mama” ou “Papa”, mas “Eu tenho uma pergunta: por que vocês são maiores que eu?

A trajetória artística de Fowley se confunde com a história da música pop da segunda metade do século 20. Ele compôs ou produziu alguns dos compactos mais legais do pop – “Alley Oop” (The Hollywood Argyles), “Nut Rocker” (B. Bumble and the Stingers) e “Papa-Oom-Mow-Mow” (The Rivingtons) – montou bandas falsas com músicos de estúdio e trabalhou com Cat Stevens, Frank Zappa, Slade e Jonathan Richman, além de ter criado o grupo pré-punk feminino The Runaways e ser o co-autor de “Do You Love Me” e “King of the Night Time World”, do Kiss.

Foi amigo e parceiro de Alan Freed, o radialista que popularizou a expressão “rock and roll” (e que morreu de tanto beber depois de perder o emprego e o respeito por seu envolvimento com o jabá nas rádios) e companheiro de balada de P.J. Proby e Brian Jones. Conheceu os beats, os hippies, os glams e os punks.

“Lord of Garbage” não é um testemunho jornalístico dos mais confiáveis. Fowley tem um ego do tamanho do rombo da Petrobras e uma memória, digamos, "seletiva". O texto passa batido por passagens que poderiam ser inesquecíveis e se estende demais em louvações a amigos e detonações a inimigos. Um bom jornalista faria um livro extraordinário com o material, em mais uma prova de que não basta ter muita história pra contar, é preciso saber contá-las (e quem leu a horrorosa autobiografia de André Midani sabe o que estou falando).

De qualquer forma, "Lord of Garbage" tem passagens de pura poesia pop. Que tal: “Sim, eu trabalhei para P.J. Proby. Eu fui o bobo da corte, o mestre de cerimônias, ocasional produtor-fantasma e sedutor. Brian Jones, Graham Nash, Lulu, todos frequentavam a casa. Nós éramos Super-Homens do Esperma (“Sperm Supermen”). A vida era boa”.

Vi Kim Fowley uma vez, num show de Brian Setzer no clube Roxy, em Los Angeles. A figura era exatamente o que eu imaginava: estranha, toda de preto e cara de poucos amigos. Usava uma bengala, resultado da poliomielite que contraiu na infância, e andava pelo Roxy como um rei, bajulado por todos. Ali, entre rockabillies, punks, bikers e figurinhas carimbadas do jet set rocker angeleno, todo mundo batia continência para o Rei do Lixo.

Veja aqui uma entrevista – em inglês – com Fowley.

 

 

P.S.: Estarei fora até o início da tarde e impossibilitado de moderar comentários. Se o seu comentário demorar a ser publicado, peço desculpas e um pouco de paciência.

PETROBRAS NÃO É VÍTIMA

petrobras PETROBRAS NÃO É VÍTIMA

Se levarmos em conta o que lemos em entrevistas e o que ouvimos nas ruas, a Petrobras, snif, snif, é uma virgem vestal que foi corrompida por homens maus e sem escrúpulos. A empresa, buá, buá, não teve culpa de nada e foi só uma vítima de armações malévolas dignas de novela de Janete Clair. Patético.

A Petrobras é tão culpada quanto os funcionários, políticos e empreiteiras que a saquearam. A empresa permitiu que a corrupção ocorresse e não fez nada para impedir. Seu controle interno não acusou o sumiço e desvio de bilhões de reais ou as estranhas “modificações” em projetos e obras.

A Petrobras tampouco usou, com as empreiteiras “amigas”, o “Performance Bond”, uma espécie de seguro, previsto no regulamento da empresa, que garante a execução das obras nos prazos e custos estipulados em contrato. Não usou porque não interessava a ninguém cumprir prazos e orçamentos.

As únicas vítimas dessa história são os acionistas da empresa, que viram seu patrimônio diminuir devido à roubalheira, e o povo, que viu seus impostos usados para sustentar a mamata e ainda paga uma das gasolinas mais caras do planeta.

A Petrobras não precisa que ninguém a defenda. Ela precisa é defender a si mesma. Qualquer tentativa de vitimizá-la não passa de jogo de cena.

Às vésperas da divulgação, pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, dos nomes dos políticos envolvidos na Operação Lava-Jato, é importante acabar com esse “coitadismo” associado à Petrobras.

Se a empresa quiser começar uma nova fase em sua trajetória, marcada pela eficiência e lisura que faltaram até agora, a primeira providência seria assumir os erros. Até porque, ao que tudo indica, as delações da Camargo Correa vão abrir uma nova frente de denúncias, envolvendo agora a Eletrobras. E já é possível ouvir, à distância, os gritos de “Coitadinha da Eletrobras!” e “A energia elétrica é nossa!” ecoando por aí.

P.S.: Estarei fora até o início da noite e impossibilitado de moderar comentários. Se o seu comentário demorar a ser publicado, peço desculpas e um pouco de paciência.

ROCK IN RIO? NÃO, OBRIGADO!

O idealizador do Rock in Rio, Roberto Medina, tem uma frase que adora repetir: “O Rock in Rio é o maior festival de música e entretenimento do mundo”.

Medina tem razão. O festival não é apenas musical. Quem foi às últimas edições viu a Cidade do Rock transformada numa mistura de Disneylândia com shopping center: pessoas pagavam 300 mangos pra ficar seis horas na fila da tirolesa e ainda saíam de lá sorrindo depois de ganhar um brinde de uma fabricante de carros ou tirar um “selfie” com alguma subcelebridade do “BBB”.

A música, na verdade, não importa mais. Importa ter atrações tão imensas que agradem a todo mundo e garantam a lotação do evento. Tanto que o primeiro lote de ingressos esgota antes de anunciados os artistas.

O Rock in Rio é uma espécie de “fast food” da música. O negócio é escalar as bandas mais manjadas, tocando repertórios embolorados. Ninguém quer saber de novidade ou risco.

Na última edição do evento, houve uma overdose de tributos a ídolos mortos. Na “Folha”, escrevi:

“Capital Inicial homenageia Chorão, Champignon e Renato Russo. Detonautas, Zeca Baleiro e Zélia Duncan tocam Raul. Maria Gadú, Rogério Flausino, Bebel Gilberto e Ney Matogrosso cantam Cazuza. Maria Rita faz tributo a Gonzaguinha. Marky Ramone toca Ramones. Sebastian Bach revista sua ex-banda, Skid Row. Frejat canta Tim Maia. O Rock in Rio 2013 lembra o Dia dos Mortos, a tradicional festa mexicana que celebra aqueles que se foram. (...) se um festival apela tanto à música dos mortos, é porque há algo errado com a música dos vivos.”

Há uma coisa sobre o Rock in Rio que nunca entendi: se as atrações principais já são capazes de esgotar os ingressos, porque não trazer atrações mais alternativas e de qualidade para o palco secundário? Na verdade, entendo sim: porque o objetivo não é esse. O Rock in Rio não é pra quem gosta de música, mas pra quem gosta de Las Vegas e parques temáticos.

Em setembro, acontece outra edição do evento, que está sendo vendida como uma homenagem aos 30 anos do primeiro Rock in Rio.

O line-up, até agora, é uma piada: temos bandas boas, mas que praticamente moram no Brasil, como Metallica, Faith No More e Queens of the Stone Age; uma atração pra garotada (Katy Perry), outra pra publicitários (John Legend), uma para headbangers (System of a Down, que tocou no RiR em 2011) e uma para órfãos do anos 80 (A-ha).

E temos também as bandas cover, como The Hollywood Vampires, um “supergrupo” formado por Alice Cooper, Johnny Depp e Joe Perry (Aerosmith), que fará sua estreia no Rock in Rio. Segundo relatos, devem tocar músicas próprias e versões de clássicos de Stooges, Hendrix, Beatles, Doors... e Alice Cooper, claro. Deve ser triste.

Mas o pior é ler que o Queen voltará, com Adam Lambert nos vocais. Adam quem??? Confesso que apelei ao Google pra saber quem é Adam Lambert, e descobri que o cururu foi vice-campeão do “American Idol” de 2009. Belo currículo.

Estão abertas as apostas: que outros tributos a cadáveres Roberto Medina vai bolar? Seu Jorge canta Michael Jackson? Roberto Carlos interpreta Elvis? Ana Carolina ressuscita Janis Joplin? Sandra de Sá canta Whitney Houston?

De uma coisa tenho certeza: quando Adam Lambert fechar os olhos para cantar “Love of My Life”, o megaultrafodãotelãoHD do Rock in Rio vai mostrar a imagem de Freedie Mercury, sem camisa e com aquela calça de lycra cinco números menor que o recomendável, regendo a plateia no festival de 85. E algum atorzinho da Globo, escalado para comentar o evento, vai dizer como está tudo lindo e arrepiante. Tô fora.

“SNIPER AMERICANO” É MAIS UMA BOMBA DE CLINT EASTWOOD

Não gosto de analisar filmes ou diretores por suas posições ideológicas. Grandes filmes já foram feitos defendendo causas abjetas (a obra da alemã Leni Riefenstahl, por exemplo), e diretores “de direita”, como Don Siegel, ou “de esquerda”, como Gillo Pontecorvo, podem ser igualmente talentosos.

Por isso, não me importei tanto com a patriotada rastaquera que é “Sniper Americano”. Era esperado. Clint Eastwood tem uma sensibilidade de elefante para tratar de questões mais delicadas. Clint é um maniqueísta: heróis são heróis, bandidos são bandidos, e não existe nada no meio. Na mão dele, personagens complexos como Nelson Mandela (em “Invictus”) viram figuras de cartolina, unidimensionais, verdadeiras máscaras de Carnaval.

Esse dualismo de Clint pode explicar o imenso sucesso de “Sniper Americano”. O grande público não gosta de complicação ou crises de consciência. O filme funciona na bilheteria justamente porque é um faroeste moderno, em que o bonitão, fortão e brancão americano cavalga - ou melhor, voa - até o território dos índios – no caso, o Iraque – pra mostrar aos bárbaros do que é feito o espírito americano. É, no fundo, ridículo, como parecem hoje todos os faroestes racistas de John Wayne e os filmes anticomunistas dos anos 50. O que não tira o brilhantismo de muitos desses filmes.

Um de meus “thrillers” prediletos é “Telefone” (1977), de Don Siegel, uma presepada americanóide da Guerra Fria em que Charles Bronson faz um oficial russo que caça um insano agente da KGB (o incomparável Donald Pleasence) pelos Estados Unidos, para evitar que este ponha em prática o plano de “acordar” dezenas de outros terroristas russos infiltrados no país, hipnotizados quando crianças para viver uma vida normal de americanos, e que só despertariam da hipnose ao ouvir um poema de Robert Frost. É um filmaço, mas de envergonhar até o Tio Sam. Pra começo de conversa, o filme parte do princípio que nenhum desses sujeitos jamais leria o poema de Frost por conta própria.

Voltando a “Sniper Americano”: o problema maior do filme é sua qualidade, não sua ideologia. O roteiro é fraco, os personagens, rasos, Bradley Cooper é um canastra e as cenas de ação são derivativas e iguais a centenas de outras que você já viu. A parte mais complexa e fascinante da vida do "sniper" - sua fracassada tentativa de readaptação ao cotidiano norte-americano - é mostrada aos pulos, com pressa, como uma novela de TV ou um telefilme. Fora que o abacaxi tem uma cena que põe qualquer filme brazuca dos anos 80, safra Embrafilme, no chinelo: a já mitológica sequência em que Bradley Cooper nana uma boneca de plástico.

Clint poderia ter explorado o fato de os Estados Unidos terem invadido um país por engano (atrás de "armas de destruição em massa" que Bush e Cheney sabiam não existir) e matado centenas de milhares (alguns falam em um milhão) de iraquianos, mas não era esse o objetivo (para isso, sugiro ver “The Hurt Locker”, criminosamente traduzido no Brasil por “Guerra ao Terror”). O que ele queria mesmo era reviver Dirty Harry, só que no Iraque e de uniforme.

Faça um exercício de imaginação: tente pensar em um filme com o mesmo roteiro de “Sniper Americano”, os mesmos diálogos, os mesmos cenários, os mesmos personagens, mas substitua Bradley Cooper por Chuck Norris, Stallone ou Dolph Lundgren. O resultado seria uma obra-prima do trash, que arrebataria todos os prêmios Framboesa de Ouro e viraria um clássico do cinema-testosterona como “Braddock 3 “, “Cobra” ou “Red Scorpion”.

E para alegrar a sexta-feira, aqui está a cena capital do filme, em que Bradley Cooper, catatônico como só ele, contracena com a melhor atriz do filme: Debbie, a boneca de plástico.

Bom fim de semana a todos.

QUANDO “O SEXTO SENTIDO” ENCONTRA “TRUE DETECTIVE”

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Ontem, mediei um debate com M. Night Shyamalan, diretor de “O Sexto Sentido”, e Cary Fukunaga, diretor da série de TV “True Detective”. O evento aconteceu no Rio Content Market, uma grande feira de negócios de TV e cinema.

Shyamalam aproveitou para mostrar o piloto de sua nova série de TV, “Wayward Pines”, que estreia mundialmente em maio. É uma história de suspense e mistério sobre um agente do Serviço Secreto americano, interpretado por Matt Dillon, que investiga o sumiço de dois colegas. Pelo piloto, deu para perceber um toque de “Twin Peaks” ali...

Separei alguns trechos da conversa com os dois.

Diferenças entre trabalhar na cinema e TV

M. Night Shyamalan – Fiz dez filmes, e “Wayward Pines” é meu primeiro trabalho para a TV. Fui oferecido muita coisa antes, mas sempre recusei, ou porque não tinha gostado do roteiro, ou porque era só uma adaptação de um de meus filmes para a TV. Mas essa série me pegou desde que li o roteiro do piloto. Acho que a ficção na TV vive um grande momento. Antigamente, o cinema parecia um território mais livre e aberto a experimentações, mas hoje acho que esse papel é da TV. Você pega um filme como “Five Easy Pieces” (“Cada Um Vive Como Quer”, 1970), com Jack Nicholson, por exemplo: quando ele foi feito, os estúdios escolhiam os projetos baseados, primeiramente, na ideia dos filmes, e davam uma importância menor à “marketabilidade” deles. Na TV era o oposto: para aprovar um projeto, você precisava de grandes astros e um tema popular, e a ideia ficava meio que em segundo plano. Hoje a situação se inverteu: o cinema vive de pesquisas de mercado e marketing, e a TV está arriscando mais em projetos ousados.

Cary Fukunaga – Pra começar, a velocidade do trabalho em TV é muito maior. O ritmo de filmagem é insano. Em “True Detective”, tivemos 12 dias para filmar cada episódio, o que é muito pouco, se você pensar na quantidade de locações e externas. Mas adorei ter a possibilidade de trabalhar os personagens ao longo de oito episódios. Meu trabalho anterior tinha sido uma adaptação de “Jane Eyre”, um livro de 800 páginas que tive de condensar em duas horas. Em “True Detective”, tentei filmar como se fosse um filme de oito horas de duração, exibido em oito partes. Tive mais tempo e liberdade para explorar o mais importante para mim, que era a relação entre os dois detetives (Cohle, vivido por Matthew McConaughey, e Hart, por Woody Harrelson).

Preparação de atores

MNS – Fiz o mesmo que faço sempre: levei o elenco todo para minha casa e passamos muitos dias lá, ensaiando e construindo os personagens. Acho que esse processo é muito importante e não pode ser apressado. É preciso imaginar um passado para cada personagem e tentar chegar a uma forma ideal de interpretação para cada ator com seu personagem. Claro que ajuda muito ter atores excelentes, e nisso foi muito sortudo, com Matt (Dillon), Melissa Leo (“O Lutador”), Terence Howard (“Crash”, “Homem de Ferro”).

CF – Inicialmente, convidamos McConaughey para fazer o papel de Hart. Mas ele leu o roteiro e disse que queria fazer Cohle. Fiquei um pouco receoso, porque não me lembrava de ele ter feito um personagem tão estranho e sombrio daqueles. Precisamos lembrar que isso foi no início de 2012, antes dessa grande onda de papéis dele em “Killer Joe”, “Mud” e “Clube de Compras de Dallas”. Matthew era mais conhecido por papéis de galã e herói. Mas ele é um ator tão bom e um sujeito tão inteligente, que criou um personagem que surpreendeu a todos. Ele tinha pesquisado e refinado o personagem de tal forma que até eu me surpreendi com as coisas que ele trazia pro set todo dia. Já Woody veio por sugestão de Matthew, eles são melhores amigos. Na época, Woody tinha acabado uma produção longa, acho que foi "Jogos Vorazes", e tudo que queria era voltar pra Maui (Harrelson mora no Havaí) e fumar maconha. Mas Matthew o convenceu a aceitar. Quanto a ensaios e preparação, a verdade é que você nunca tem tempo de ensaiar para uma série de TV de muitos episódios, é impossível. O que fiz foi uma imersão de duas semanas com todo o elenco, buscando o tom certo para os personagens.

A importância do diretor numa série de TV

CF – Outro dia, ouvi um comentário sobre uma série de TV que teve cada episódio dirigido por uma pessoa diferente. A pessoa dizia que, naquele caso, os diretores pareciam mais guardas de trânsito do que cineastas, porque se limitavam a direcionar a narrativa em um sentido pré-estabelecido. Aquilo me deixou com mais certeza ainda de que nunca vou querer fazer isso. Se eu for colocar meu nome em um projeto, gosto de fazê-lo por inteiro.

MNS – Sei exatamente o que você quer dizer. Em “Wayward Pines” eu só dirigi o piloto, mas supervisionei todos os outros episódios, e deu um trabalho imenso conseguir uma unidade para toda a série. Chegou um momento em que fiquei inseguro com a direção que a série estava tomando. Sabe, eu nunca tinha feito TV antes, muitos atores do elenco também não, e achei que a coisa estava indo por um caminho que não era o ideal. Tive de marcar várias reuniões com todo o elenco e equipe para pôr as coisas nos trilhos.

Shyamalam fala sobre o humor em seus filmes:

MNS - Com exceção de “O Sexto Sentido”, que fiz numa época em que estava meio triste e querendo mostrar como eu era um diretor de cinema sério (risos), todos meus outros filmes têm senso de humor. Acho muito importante misturar cenas mais sombrias e assustadoras com alguns momentos leves e engraçados. Quando fiz “Sinais”, eu costumava assistir a “Tubarão” com a equipe. É um de meus filmes prediletos e tem o balanço ideal entre tensão e diversão. Até gosto de filmes mais violentos e sombrios, desses que parecem longas sessões de tortura, e é inegável que eles realmente mexem com o espectador, mas sempre preferi balancear o escuro com o claro.

Fukunaga fala do famoso plano-sequência de seis minutos de “True Detective”:

CF – Foi uma loucura fazer aquilo, mas era a cena final do episódio (o quarto da série), e achei que precisávamos de uma sequência impactante. A produção foi insana. Pedi dois helicópteros, dublês, um monte de figurantes. Conseguimos uma locação ideal, um bairro num conjunto habitacional, mas demoramos a conseguir a permissão, então tive de ensaiar e coreografar a cena toda em outro lugar. Fizemos 12 ou 13 tomadas, e até hoje não fiquei completamente satisfeito com a cena. Na parte em que Cohle está dentro da casa, eu pude parar algumas vezes e refazer, mas uma vez que ele sai da casa, só pude cruzar os dedos e torcer para que nada desse errado. Vendo hoje, acho que os dois caras (a 3m40s) entraram muito cedo em quadro, o que prejudicou o ritmo daquela cena de briga. Mas não deu pra repetir mais uma vez, estava todo mundo esgotado. Quando exigi que a cena fosse um plano-sequência, o produtor disse que aquilo custaria muito caro, mas respondi que, se filmássemos cena a cena, levaria quatro dias, então eu estava economizando dinheiro para a produção.

JACK WHITE E A MAIOR LENDA DO BLUES

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Sou fã de Jack White. O cara teve bandas ótimas - White Stripes, Raconteurs, Dead Weather - lançou discos solos muito bons, e investe grana em projetos musicais bacanas. Ele já pagou pela recuperação de velhos estúdios de gravação, doou dinheiro para a Fundação de Preservação de Discos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e montou um selo, Third Man, especializado em lançamentos em vinil.

O mais recente projeto do Third Man é um verdadeiro tesouro arqueológico: "The Rise and Fall of Paramount Records (1917-1932)" duas caixas - uma de madeira, outra de metal - com 800 músicas cada, escolhidas do repertório da Paramount, uma gravadora lendária para amantes do blues, jazz e folk norte-americanos.

A história da Paramount é fascinante: a gravadora nasceu de uma fábrica de móveis, a Winsconsin Chair Company. No fim dos anos 1910, a empresa começou a fabricar grandes móveis de madeira com vitrola. Só havia um problema: não havia discos para tocar nas vitrolas.

A solução foi mandar uma equipe de técnicos viajar por todo o interior dos Estados Unidos, gravando qualquer músico talentoso que encontrassem. Por 15 anos, a empresa gravou milhares de artistas, a maioria de blues, folk e jazz, e acabou por reunir um dos maiores acervos de música afro-americana de todos os tempos. Entre eles, nomes que se tornariam famosos, como Blind Lemon Jefferson e Ma Rainey.

Outra descoberta da Paramount Records foi uma cantora e guitarrista chamada Elvie Thomas.  Em 1930 e 31, ela gravou, em parceria com outra cantora, Geeshie Wiley, três compactos para a Paramount, que se tornaram obsessões de colecionadores de blues por todo o mundo. Desses três discos, só restam um total de dez cópias das prensagens originais da Paramount. Ouça "Motherless Child Blues", de Elvie Thomas:

 

 

Ano passado, o jornal "The New York Times" publicou um artigo do escritor John Jeremiah Sullivan sobre sua busca por informações a respeito de Elvie Thomas. Se você lê inglês, clique aqui e leia agora. É um dos textos mais emocionantes sobre música que li em muito tempo. Se não lê inglês, tentarei resumir:

Assim como muitos outros colecionadores e pesquisadores de blues, Sullivan passou anos se perguntando quem eram Elvie Thomas e Geeshie Wiley. Não havia nenhuma informação sobre elas. Ninguém sabia ao certo onde haviam nascido, onde haviam gravado, e o que acontecera com elas. Não existia sequer uma foto de nenhuma das duas. Depois que o cineasta Terry Zwigoff usou uma música de Wiley - "Last Kind Words", com vocais de apoio e guitarra de Elvie - na trilha de "Crumb", o ótimo documentário sobre o cartunista Robert Crumb, o interesse pelas duas cresceu ainda mais.

Entra em cena um personagem único: Mack McCormick, um dos maiores pesquisadores e colecionadores do mundo sobre a história do blues.

Desde os anos 50, McCormick vem acumulando material - entrevistas, fotos, documentos, cartas - diretamente da fonte: os próprios bluesmen.

O sujeito era tão obcecado que conseguiu um emprego no Censo americano, para poder ter a chance de entrevistar muitas pessoas, e pediu para ser destacado para uma região específica do Texas, conhecida por sua imensa população de descendentes de escravos. McCormick acabou visitando quase 900 condados no Texas e arredores. Em todos, entrevistou velhinhos, cruzou informações, recolheu fotos e documentos e juntou um acervo tão gigantesco que ele próprio o batizou de "O Monstro".

Só havia um problema: McCormick aparentemente sofre de transtorno bipolar e tem uma incapacidade patológica de organizar sua coleção. Ele é um acumulador, não um organizador.

Em sua casa no Texas, McCormick, hoje um octogenário recluso, convive com dezenas de milhares de fotos e documentos, montanhas de papel e pilhas de fitas cassete com entrevistas, que ele nunca conseguiu investigar e ordenar a fundo. Por todo o planeta, fãs de blues o amaldiçoam por não dividir esse tesouro com ninguém.

Para se ter uma idéia da importância do material, basta dizer que McCormick tem fotos de Robert Johnson, o mitológico bluesman que vendeu a alma ao diabo numa encruzilhada do Mississipi, e só mostrou as imagens a uma pessoa, o escritor Peter Guralnick, biógrafo de Johnson e Elvis Presley. Até agora, só existem três fotos de Johnson no mundo (leia aqui uma matéria do "Guardian" sobre a terceira imagem, achada recentemente).

Voltando a John Jeremiah Sullivan: um dia, ele foi à casa de McCormick e mencionou Elvie Thomas. McCormick levantou-se, foi até uma sala lotada de velhas pastas e voltou com algumas folhas de papel datilografadas. Era uma entrevista com um velho bluesman do Texas em que ele citava uma grande guitarrista que havia conhecido: "L.V. Thomas". O nome verdadeiro da mulher era "L.V.", duas letras que, em inglês, soam "Elvie". Ninguém sabia nada sobre a artista porque ninguém nunca soubera seu nome verdadeiro.

De posse dessa informação, Sullivan começa uma investigação em cartórios, velhos documentos e registros públicos, e acaba descobrindo não só a história verdadeira de L.V. Thomas - nascida no Texas, lésbica e moradora de uma espécie de Cohab em Houston - mas também a identidade de Geeshie Wiley, que, na verdade, se chamava Lillie Mae.  A trilha chega a parentes de L.V. e termina em uma única foto da cantora, a solitária imagem de uma figura mitológica do blues, finalmente revelada.

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POR FAVOR, ALGUÉM TRAGA ESSA BANDA AO BRASIL!

Um dos grandes shows internacionais do ano vai passar raspando pelo Brasil: o grupo Tinariwen, do Mali, tem duas apresentações confirmadas na América do Sul em março, mas nenhuma por aqui.

Dia 13, tocam na versão chilena do festival Lollapalooza, em Santiago, e dia 17 se apresentam no Club Niceto, em Buenos Aires. Se tiver chance, não perca.

O Tinariwen, cujo nome quer dizer “desertos”, é uma banda de músicos Tuaregs do norte da África. O som mistura guitarras, percussão africana e ritmos árabes e norte-africanos. É uma música hipnotizante, quase um mantra, muito bonita e emotiva.

O grupo foi formado há mais de 30 anos e tem seis LPs. Os dois últimos, “Tassili” (2011) e “Emmaar” (2014) estão em altíssima rotação aqui em casa há meses. Veja o clipe da canção "Iswegh Attay”, do disco “Tassili”, com a letra traduzida para o inglês:

 

 

“Emmaar” foi o primeiro disco do Tinariwen gravado fora da África. Segundo o site da banda, os músicos tiveram de fugir do Mali depois de uma rebelião, na qual militantes islâmicos teriam sequestrado um integrante do grupo, e acabaram gravando nos Estados Unidos. O disco tem participação de alguns músicos americanos, como o atual guitarrista do Red Hot Chili Peppers, Josh Klinghoffer.

Aqui vai o clipe de “Arhegh Danagh”, uma das melhores faixas de “Emmaar”:

 

 

Nunca vi o Tinariwen ao vivo, só em vídeo, mas tive a sorte de ver dois outros expoentes desse tipo de som, o guitarrista Bombino (veja meu texto sobre Bombino aqui) e a banda Terakaft, e foram shows extraordinários.

Sei que o prazo está curto, mas torço para que algum promotor ou dono de casa de shows corra e traga o Tinariwen pra cá. Onde está o SESC nessas horas, não é mesmo?

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OSCAR FOI UM TÉDIO SÓ

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É difícil imaginar um momento mais constrangedor na história do Oscar do que "selfie" tirado por Ellen Degeneres, Bradley Cooper, Meryl Streep e outros astros em 2014. Foi uma demonstração grotesca de beija-mão corporativo, um anúncio vendido como ato "espontâneo" e divertido.

Mas vendo Neil Patrick Harris apresentando o Oscar hoje, confesso que deu saudades do "selfie" de Ellen. Aquilo foi uma enganação, mas pelo menos teve vida e quebrou o gelo da cerimônia. Diferentemente de Harris, dono de um carisma de boneco de ventríloquo e que foi um dos piores, senão o pior, apresentador que o Oscar já teve (James Franco, talvez?).

A overdose de discursos lidos, a falta de surpresas na premiação e o ritmo arrastado da cerimônia colaboraram para uma transmissão amorfa, sem graça e tediosa, que durou quase quatro horas e pareceu durar quatro semanas.

Não é possível que a Academia tenha um ano para preparar uma festa e o melhor que pode fazer são as piadas que Neil Patrick Harris contou. Algumas, tão ruins, que só ele riu.

Não é segredo que o Oscar está se distanciando do grande público. Este ano, o único sucesso de bilheteria entre os oito indicados a melhor filme foi "Sniper Americano". "Birdman", maior vencedor da noite, não ficou sequer entre os 80 filmes mais vistos nos Estados Unidos nos últimos 12 meses.

Desde 2003, quando “O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei” venceu, nenhum filme ganhador do Oscar foi um grande sucesso de bilheteria.

Com Hollywood cada vez mais interessada em atrair adolescentes para filmes baseados em gibis e que rendam infinitas sequências, filmes para adultos têm sofrido nas bilheterias. O cinema, cada vez mais, é dos jovens.

Por isso, se Hollywood quer usar a festa do Oscar para atrair mais gente aos cinemas, precisa fazer uma cerimônia mais divertida e menos tediosa. Porque essa de hoje foi dose pra leão.

OSCAR: QUEM VAI GANHAR – E QUEM DEVERIA

trofeu OSCAR: QUEM VAI GANHAR – E QUEM DEVERIA

Acontece domingo, em Los Angeles, a entrega do Oscar. Será uma das premiações mais equilibradas dos últimos anos. Não há um grande favorito, e os principais prêmios devem ser pulverizados entre vários filmes medianos que, devido à abissal queda de qualidade do cinema americano nas últimas décadas, estão sendo tratados como obras-primas.

Os três melhores filmes em língua inglesa de 2014 que vi não receberam nenhuma indicação: “O Ano Mais Violento”, de J.C. Chandor, “Mapas Para as Estrelas”, de David Cronenberg, e “Sob a Pele”, de Jonathan Glazer.

Aqui vão minhas previsões para o Oscar. Faça as suas e compare.

Lembrando que domingo, a partir de 22h, estarei com meus colegas de R7, Odair Braz Jr. e André Forastieri, comentando a cerimônia ao vivo pelo conta do @portalr7 no Twitter. A cobertura terá ainda a colaboração de sites parceiros, como o Cineclick.

 

MELHOR FILME

Quem vai ganhar: Briga dura entre “Boyhood” e “Birdman”. Qualquer um pode levar, mas aposto que “Birdman” ganha no photochart, por uma razão simples: é tão pretensioso que muitos vão confundir sua “ousadia estética” com talento. A simplicidade e despojamento vão tirar o Oscar de “Boyhood”.

Quem deveria ganhar: “Mapas para as Estrelas”, com “O Ano Mais Violento” em segundo lugar. Entre os filmes indicados, eu votaria em “Boyhood”.

 

MELHOR DIRETOR

Quem vai ganhar: Alejandro Gonzáles Iñarritu por “Birdman”, pela mesma razão da categoria “melhor filme”: seu histrionismo estético deve superar o minimalismo realista de Richard Linklater (“Boyhood”).

Quem deveria ganhar: J.C. Chandor, por “O Ano Mais Violento”, a maior reunião de grandes atuações num filme americano em 2014. Entre os diretores indicados, eu votaria em Wes Anderson, por “O Grande Hotel Budapeste”.

 

MELHOR ATOR

Quem vai ganhar: Eddie Redmayne, por “A Teoria de Tudo”. O filme é uma joça, mas o papel foi feito de encomenda pro Oscar: um gênio da física preso a uma cadeira de rodas, vítima de uma doença degenerativa. Bingo. Mas não seria grande surpresa se Michael Keaton levasse por “Birdman”. O Oscar, como sabemos, é mais um prêmio de popularidade do que de qualidade, o ex-Batman não tem nenhum em sua estante, e pode ganhar um de presente dos coleguinhas.

Quem deveria ganhar: Jake Gyllenhaal, por “O Abutre”, que sequer foi indicado.

 

MELHOR ATRIZ

Quem vai ganhar: Julianne Moore, por “Para Sempre Alice”. Essa grande atriz foi indicada cinco vezes e nunca levou. É a vez dela, mesmo que o filme não seja grande coisa.

Quem deveria ganhar: Julianne Moore, por “Mapas para as Estrelas”. É inacreditável que Moore não tenha sido indicada por este papel, o de uma decadente atriz hollywoodiana que tenta reerguer a carreira atuando numa refilmagem de um clássico estrelado por sua mãe. Um pesadelo freudiano típico de Cronenberg e sombrio demais pro gosto da Academia.

 

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Quem vai ganhar: J.K. Simmons, pelo papel do professor de música sádico em “Whiplash”.

Quem deveria ganhar: J.K. Simmons merece.

 

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Quem vai ganhar: Patricia Arquette, por “Boyhood”. Outro caso de atriz querida e veterana que nunca levou um Oscar. Tá na hora, até porque a competição é bem fraca.

Quem deveria ganhar: Jessica Chastain, por “O Ano Mais Violento”. Ela está demais na pele da maquiavélica e misteriosa esposa de um dono de uma distribuidora de óleo para aquecedores (Oscar Isaac, sensacional) às voltas com assaltos e sabotagens.

 

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Quem vai ganhar: “O Grande Hotel Budapeste”, vencendo “Birdman” por pouco. A categoria de “melhor roteiro” é, costumeiramente, um prêmio de consolação para quem não leva melhor diretor ou melhor filme, e Wes Anderson tem boa chance de levar.

Quem deveria ganhar: Bruce Wagner, por “Mapas para as Estrelas”, um dos roteiros mais perversos já escritos sobre a indústria do cinema, cheio de personagens memoráveis. Claro que nem foi indicado.

 

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Quem vai ganhar: Ainda não consegui ver “Vício Inerente”, mas os outros quatro candidatos – “A Teoria de Tudo”, “O Jogo da Imitação”, “Whiplash” e “Sniper Americano” – têm roteiros de medianos para ruins. “Whiplash” é favorito na bolsa de apostas, mas acho que “A Teoria de Tudo”, lacrimejante e soporífera adaptação da história de Jane e Stephen Hawking, vai levar.

Quem deveria ganhar: Pelo amor dos meus filhinhos, cadê “Sob a Pele”?

 

MELHOR DOCUMENTÁRIO:

Quem vai ganhar: Boa seleção este ano. “Citizenfour”, sobre Edward Snowden, o informante que denunciou as práticas de espionagem da CIA, deve levar.

Quem deveria ganhar: O único dos cinco candidatos que não consegui ver ainda é “O Sal da Terra”, sobre o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. Dos outros quatro, o mais emocionante é “Virunga”, sobre a luta de guardas florestais para preservar um parque nacional na República Democrática do Congo. O filme está disponível no Netflix brazuca e é maravilhoso.

 

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

Quem vai ganhar: “Relatos Selvagens”. O filme argentino bateu recorde de bilheteria no país dos Kirchner e fez bonito em festivais na Europa. É o grande favorito.

Quem deveria ganhar: “Ida”, talvez o melhor filme de 2014, um “road movie” triste e arrasador  sobre uma noviça em busca de seu passado na Polônia.

 

O MELHOR FESTIVAL DE MÚSICA DO MUNDO FICOU MELHOR AINDA

 

Não é fácil melhorar um festival que já tem Flaming Lips, Spiritualized, Tame Impala, Jesus and Mary Chain, Primal Scream, Lightning Bolt, Thee Oh Sees, Fuzz, Earth, Black Angels e outras atrações, mas os organizadores do Levitation conseguiram. O evento, que acontece de 8 a 10 de maio em Austin, no Texas (leia um artigo sobre o festival aqui), anunciou o primeiro show da formação original do 13th Floor Elevators em quase meio século.

Não há lugar mais apropriado para essa ressurreição dos Elevators. Não só a banda é de Austin, mas o festival inteiro é uma homenagem a ela - a começar pelo nome, Levitation, título de uma canção do grupo.

Domingo, 10 de maio, Roky Erickson, Tony Hall, John Ike Walton e Ronnie Leatherman subirão ao palco do Levitation para encerrar o evento (o único ausente será o guitarrista Stacy Sutherland, morto a tiros pela esposa, no fim dos anos 70). A última vez que os quatro tocaram juntos foi em 1968, um ano antes do fim da banda.

O 13th Floor Elevators é um dos pioneiros do rock psicodélico. Formado no fim de 1965, fazia uma criativa  mistura de blues e country com psicodelia. O líder era um moleque talentoso de 18 anos, Roky Erickson, dono de uma voz potente e um gênio incomparável para emular, em letras e melodias, as viagens lisérgicas que fazia sob influência de LSD, cogumelos, mescalina e o que mais lhe abrisse as portas da percepção.

A exemplo de outras bandas à frente de seus tempos – Velvet Underground, Ramones, Gang of Four – os Elevators não fizeram grande sucesso comercial, mas influenciaram um monte de gente. De Patti Smith a Michael Stipe, de Butthole Surfers a Iggy Pop, de Joey Ramone a Stiv Bators, todo mundo idolatrava Roky Erickson e os Elevators.

Ouça aqui “Slip Inside This House”, do 13th Floor Elevators. Reconheceu o riff de guitarra? É o mesmo de “Blinding Sun”, do Mudhoney (Steve Turner é texano e obcecado por Roky Erickson).

 

 

A trajetória do 13th Floor Elevators durou pouco. Foram quatro anos e quatro LPs. Poderia ter sido bem mais, se Roky não tivesse sido preso em 1969 pela posse de um cigarro de maconha e, confrontado com a escolha entre passar alguns meses na prisão ou submeter-se a tratamento psiquiátrico, não tivesse optado pela segunda alternativa.

A escolha lhe custou uma vida de sofrimento. Roky foi mandado para um hospital psiquiátrico, onde passou três anos levando choques elétricos e engolindo montanhas de Thorazine (no Brasil, Amplictil), uma droga antipsicótica. Quando saiu, era um zumbi. Não falava coisa com coisa, dizia-se assombrado por espíritos e só fazia letras sobre monstros, alienígenas, vampiros e demônios. Chegou a assinar uma declaração afirmando que seu corpo havia sido tomado por um marciano.

Nos anos 80, falido e demente, sobrevivia da previdência social e da caridade de amigos. Sua casa, num subúrbio de Austin, tinha duas dúzias de aparelhos de TV ligados 24 horas por dia, fora de sintonia e em volume ensurdecedor. Roky dizia que só conseguia relaxar ouvindo o barulho de estática (há um documentário muito bom sobre Roky Erickson, “You’re Gonna Miss Me”, disponível no Netflix gringo e no Youtube. Veja o trailer.).

 

 

O trabalho de Roky Erickson começou a ser redescoberto em 1990, com o lançamento de um disco-tributo, “Where The Pyramid Meets the Eye”, em que nomes como ZZ Top, REM, Primal Scream, Julian Cope e Jesus and Mary Chain regravaram canções do 13th Floor Elevators. Depois, Roky lançou alguns discos, subiu num palco pela primeira vez em 20 anos (em 2005), gravou com o Mogwai e fez uma turnê tendo o Black Angels como banda de apoio.

Os últimos 20 anos da vida de Roky Erickson têm sido uma batalha para reerguer sua saúde, autoestima e carreira. E um dos momentos cruciais será esse show da volta do 13th Floor Elevators. Quem vai perder isso?

P.S.: Domingo à noite participo, junto com diversos colegas aqui do R7, da cobertura do Oscar. Vou comentar a cerimônia pelo Twitter do R7. Mais detalhes amanhã.

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