CPI da CBF: a jogada mais importante de Romário

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O senador Romário (PSB-RJ) conseguiu aprovar a CPI da CBF (leia mais aqui, na coluna de meu colega de R7, Cosme Rimoli).

O mais importante, no entanto, foi a declaração do senador de que as investigações não vão se restringir à Confederação Brasileira de Futebol. Disse Romário ao UOL: “O objetivo maior da CPI é moralizar o futebol brasileiro como um todo. A CPI, aliás, vai chamar-se CPI do Futebol e não CPI da CBF. (...) Vamos investigar as 27 federações, os clubes, tudo. Quero repaginar de uma vez por todas o futebol brasileiro. Quero que seja exposto tudo o que é verdade e inverdade sobre o futebol.”

Se Romário contar apenas com seus colegas de Brasília, vai levar de goleada. Porque CPI virou sinônimo de pizza. Basta ver o circo em que se transformou a CPI do Petrolão.

Para que as investigações andem, é fundamental envolver Ministério Público, Polícia Federal e Receita Federal. Só uma Operação Lava-Bola é capaz de nos dar alguma esperança.

O ponto de partida, claro, deve ser a CBF, essa entidade sombria e privada que controla, há tantos anos, nosso futebol, sempre com a benevolência de governos diversos.

As suspeitas são muitas: corrupção, superfaturamento de contratos, favorecimento a empresas “amigas”, uso da seleção brasileira como moeda de troca (leia aqui impressionante reportagem do “Estadão” sobre o tema), desvio de verbas de publicidade, etc. Um mar de lama.

E já que Romário garante que a investigação não vai ficar só na CBF, que tal partir depois para uma devassa nas contas das federações estaduais de futebol?

Isso seria fundamental para exterminar décadas de gestões fraudulentas, corruptas e incompetentes e levantar nossos campeonatos estaduais, que dão prejuízo para todo mundo, menos para as federações. Uma federação que Romário conhece bem – a do Estado do Rio de Janeiro, hoje chefiada por um personagem conhecido por Rubinho – seria um ótimo ponto de partida.

O passo seguinte seria de elefante: uma investigação profunda sobre a Copa de 2014. Temos o direito de saber detalhes de cada estádio superfaturado, de cada obra inacabada, de cada centavo desviado ou gasto de maneira irresponsável.

É preciso apontar culpados para os elefantes brancos bilionários que erguemos em Brasília, Manaus, Natal e Cuiabá. Quem responde por eles?

Também seria bom, agora que o FBI põe em dúvida o contrato de patrocínio da Nike com a CBF, saber por que as duas CPIs que investigaram o ex-chefão da CBF, Ricardo Teixeira – a CPI da Nike e a CPI do Futebol – acabaram em pizza, deixando Teixeira livre para continuar recebendo tapinhas nas costas e afagos do governo.

Só lembrando que o relator da CPI da Nike foi o hoje Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, que em 2014 era Ministro do Esporte e passou a Copa toda garantindo que tudo foi feito dentro das regras e que o Brasil não teria nenhum elefante branco após o evento.

Bom fim de semana a todos.

P.S.: Estarei fora até o meio da tarde e impossibilitado de moderar comentários. Se o seu comentário demorar a ser publicado, peço desculpas e um pouco de paciência.

Caiu a casa da FIFA. Só falta a da CBF

José Maria Marin Alexandro AUler Getty Images Caiu a casa da FIFA. Só falta a da CBF

Hoje foi um dia histórico e glorioso, com a notícia da prisão do ex-presidente da CBF, José Maria Marin, e de vários integrantes da alta cúpula da FIFA e do futebol mundial.

Leia aqui a cobertura do R7 sobre a operação de prisão de Marin.

As acusações são inúmeras: corrupção, formação de cartel, formação de quadrilha, favorecimento a empresas “amigas”, comissão em contratos, etc.

Além de Marin, outro envolvido no caso – e bem conhecido dos brasileiros – é o empresário J. Hawilla, dono da Traffic e braço direito de uma figura que certamente ainda dará o ar de sua graça em investigações por aí: o ex-manda-chuva da CBF, Ricardo Teixeira.

Aliás, outras figuras de destaque nas tramoias da FIFA nas últimas décadas ainda não foram citadas nas investigações, como João Havelange e o nocivo Sepp Blatter. Questão de tempo, espero.

Tudo isso ocorre a dois dias da eleição geral da FIFA, uma palhaçada que só serviria para ratificar mais um mandato de Sepp Blatter.

Enquanto comemoramos os acontecimentos internacionais, o importante agora é prever como isso pode afetar o futebol brasileiro.

Segundo os investigadores norte-americanos, vários casos relacionados ao Brasil estão sendo investigados, como a escolha do país como sede da Copa de 2014 e o contrato entre a CBF e a Nike. Ótimo. E não podemos esquecer que, aqui, a CPI da Nike, chefiada pelo valoroso Aldo Rebelo, hoje Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, não achou nada de errado. Vai ser divertido comparar os resultados de nossa CPI com os do FBI.

Que isso seja o ponto de partida para uma limpeza geral no futebol brasileiro, tanto em nível nacional, com uma devassa nas contas e contratos da CBF, quanto nas federações estaduais.

Sonho em ver uma investigação séria nas contas de FERJ, por exemplo, hoje sob o comando de uma figura lúgubre conhecida por Rubinho.

E que a MP do futebol, que tanta resistência tem sofrido de parlamentares ligados à CBF (alguns contratados por ela, inclusive) seja levada a sério pelo Congresso.

Hoje, Sepp Blatter disse: "É um tempo difícil para o futebol e para a FIFA". Errado, cara-pálida: o tempo fechou para a FIFA. Para o futebol, hoje foi o primeiro capítulo de uma grande história. Que venham os próximos...

P.S.: Como o assunto da prisão dos chefões da FIFA era urgente, adiantei o texto de quinta. O blog volta sexta com um texto inédito.

Só a bandalha nos une

gatos Só a bandalha nos une

M. trabalha cinco dias por semana no litoral sul do Rio, mas mora em uma comunidade pobre na cidade do Rio de Janeiro, onde mantém uma casa muito simples.

Há alguns meses, M. recebeu a conta de luz e quase caiu de costas: seu gasto, que normalmente não passava de 50 reais, chegara a mais de 600 reais.

M. reclamou na Light, a concessionária de energia elétrica que atende a região metropolitana do Rio. A empresa mandou um técnico no local. Ele constatou que os vizinhos de M. haviam feito “gatos” em seu medidor.

O problema não terminou por aí. Cada vez que as ligações clandestinas eram desfeitas, os vizinhos, aproveitando as longas ausências de M., as refaziam.

M. foi à Light algumas vezes tentar resolver a pendenga, mas a empresa não abre mão dos 600 reais, que ele não tem condições de pagar. Algumas semanas depois, a luz de M. foi cortada.

O que ele fez? Simples: um “gato” em outro poste.

Anteontem, a Light revelou que a energia elétrica roubada por meio de ligações clandestinas na cidade do Rio de Janeiro seria suficiente para abastecer todo o Espírito Santo. Se os roubos fossem evitados, diz a empresa, o preço da conta de luz cairia, em média, 17% para todos os cariocas.

Outra historinha edificante: na cidade onde moro, Paraty (RJ), o prefeito Cazé (PT), que dias atrás escapou por pouco de ser assassinado a tiros, sem que isso modificasse perceptivelmente o cotidiano da cidade ou provocasse manifestações de protesto, iniciou um importante programa de instalação de redes de água e esgoto na cidade.

Parece mentira, mas Paraty não tinha água tratada ou esgoto. Ninguém paga água, que é coletada de ramais antigos que cruzam a cidade. Quanto ao esgoto, os mais conscientes têm fossas sépticas em suas casas, mas a maioria joga o esgoto nos rios e praias, que é mais fácil e barato (nossa ex-vizinha, que anda com um adesivo do “S.O.S. Mata Atlântica” no jipe e aluga a casa para turistas, simplesmente jogava o esgoto num córrego, o que só descobrimos depois de capinar uma área que exalava mau cheiro).

Pois bem: o comentário mais frequente que ouço sobre o projeto de água e esgoto na cidade é: “Lá vem mais uma taxa da prefeitura!”. As pessoas preferem não pagar nada e ter uma água podre a pagar as taxas e contar com estações de tratamento. É desanimador.

Voltando ao caso da energia elétrica roubada, a Light revela que isso acontece não só em residências, mas também em empresas e fábricas. O que prova que, nesse país dividido, a única coisa que une pobres e ricos é a bandalha.

“Magnífica 70” celebra a Boca do Lixo

Muito promissora a estreia de “Magnífica 70”, nova série da HBO.

A trama começa em 1973, na ditadura de Médici, e gira em torno de um censor, Vicente (Marcos Winter), que proíbe um filme pornográfico, “A Devassa da Estudante”, rodado na Boca do Lixo, em São Paulo.

O filme é estrelado por Dora (Simone Spoladore) e produzido por Manolo (Adriano Garib). Este personagem parece inspirado no cineasta Ozualdo Candeias (1922-2007), que, a exemplo de Manolo, trabalhou de caminhoneiro antes de iniciar a carreira no cinema.

A série cita diversos cineastas e personagens lendários da Boca do Lixo. A consultoria é do cineasta e crítico Alfredo Sternheim, que conheceu os meandros da Boca como poucos. Numa cena aparece José Mojica Marins, o Zé do Caixão, rodando um filme.

A série tem um ar meio giallo, aqueles filmes de terror italianos dos anos 70 que tanto influenciaram cineastas como Carlos Reichenbach. Manolo é vítima de uma maldição e recorre a uma vidente para ajudá-lo. Vicente tem, em seu passado, um acontecimento terrível envolvendo sua paixão pela cunhada, que foi assassinada. E Dora, por alguma razão, o faz lembrar a morta.

A proibição de “A Devassa da Estudante” ameaça levar à falência a produtora Magnífica 70, onde Manolo trabalha para um mafioso/produtor interpretado por Stepan Nercessian.

Obcecado por Dora, Vicente vai à produtora e diz que sabe como conseguir a liberação do filme: tudo que Manolo precisa fazer é rodar um novo final para o pornô, em que Dora se arrepende de seus pecados.

Essa história de um censor ditar o fim de um filme aconteceu de verdade. Em 1967, José Mojica Marins terminou “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, segundo filme da série com o personagem Zé do Caixão.
O chefe da Secretaria de Censura em Brasília era um sujeito chamado Augusto da Costa (1920-2004), que, antes de dedicar-se a destruir carreiras de artistas e diretores, atuava de zagueiro no Vasco e foi capitão da seleção brasileira que perdeu a Copa de 50 em pleno Maracanã.

Augusto proibiu o filme de Mojica. Depois que o produtor Augusto de Cervantes implorou pela liberação, Augusto libertou sua veia dramática e escreveu, de próprio punho, quatro frases que o personagem Zé do Caixão deveria falar ao final, como se estivesse arrependido pelas maldades cometidas:

Deus, Deus... Sim, Deus é a verdade...
Eu creio em tua força... Salvai-me!
A cruz, a cruz, padre...
A cruz, o símbolo do filho!

Cervantes dublou a voz de Zé do Caixão com essas frases e o filme foi liberado. E até hoje, quem assiste a “Esta Noite” não entende o súbito ataque de fé cristã que acomete Zé do Caixão.

Coisas de um Brasil retratado em “Magnífica 70”.

Novidades sobre a série “Zé do Caixão”…

 Novidades sobre a série Zé do Caixão...

Terminaram as filmagens da minissérie "Zé do Caixão", que o canal Space exibe, se tudo der certo, em setembro.

Escrevi o roteiro com Ricardo Grynszpan e o diretor, Vitor Mafra (leia aqui um texto sobre o início das filmagens). A minissérie tem seis episódios e é inspirada na biografia "Maldito - A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão", que fiz, em 1998, em parceria com o jornalista Ivan Finotti.

A minissérie é meu primeiro trabalho ficcional. Digo "ficcional" porque, mesmo sendo inspirada na história de vida do Mojica e em fatos de sua vida, o resultado final é uma versão romanceada da vida dele.

E não poderia ser diferente. Uma minissérie dramática para TV não é um documentário. A ideia foi ser o mais fiel possível aos acontecimentos, mas sem prejudicar a narrativa e a fluência da história.

Aprendi com Grynszpan e Mafra, que já trabalham em ficção para TV há um tempão, que muitas vezes é necessário simplificar a história para não prejudicar o entendimento do espectador.

Um exemplo: ao longo de uma carreira de quase 60 anos de cinema, Mojica trabalhou com dezenas de fotógrafos, editores, iluminadores, figurinistas, etc.. Na minissérie, criamos uma equipe que o acompanha dos anos 1950 aos 1980, com os mesmos integrantes. Isso foi necessário para que o espectador pudesse conhecê-los e se interessar em acompanhar suas histórias.

Quando começamos o projeto da minissérie, não sabíamos exatamente que rumo tomar com o roteiro, mas sabíamos o que não queríamos: não queríamos fazer uma dessas cinebiografias caretas, que começam na infância do biografado e terminam com ele velhinho.

Escolhemos, como tema principal da minissérie, a luta de Mojica para fazer seus filmes. Com exceção de seu último longa, "Encarnação do Demônio" (2008), ele nunca teve ajuda estatal ou verba da Embrafilme, e sempre financiou suas obras por meio de venda de cotas ou grana de investidores privados. Os pais chegaram a vender as alianças para ajudar o filho. E isso rende grandes histórias.

A solução foi dividir os seis episódios em seis filmes importantes da carreira de Mojica. Cada episódio conta a história da filmagem de um longa e, em paralelo, a vida de Mojica durante esses períodos.

Os filmes são:

A Sina do Aventureiro (1958) - Este bangue-bangue foi o primeiro longa finalizado por Mojica (ele tinha tentado fazer outro filme antes, mas foi interrompido pela morte de uma atriz e um acidente que custou a perna de outra).

À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) - Filme que lançou Zé do Caixão, tem cenas clássicas do cineasta, como um banquete de perna de carneiro que Zé saboreia enquanto assiste à procissão de Sexta-Feira Santa, zombando dos fiéis.

Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967) - Imenso sucesso de bilheteria, consagrou Zé do Caixão e tornou Mojica um astro multimídia, com filmes no cinema, programas de TV, discos de Carnaval e até uma linha de cosméticos chamada "Mistério".

Ritual dos Sádicos (1969) - Filme mais transgressor - e, para mim, o melhor - de Mojica, foi proibido pela Censura e quase acabou com a carreira do cineasta.

Perversão (1979) - Soft-porn que Mojica fez inspirado - e usando a grana - de uma famosa socialite que havia matado dois maridos, conhecida por "Milionária Assassina".

24 Horas de Sexo Explícito (1985) - Filme de sexo explícito que incluía uma cena de sexo com cachorro (simulada, claro). Foi um dos maiores sucessos de bilheteria do ano.

Daqui a alguns dias, verei um primeiro corte de um dos episódios. Depois conto como ficou.

Hitchcock contra os nazistas

hitch Hitchcock contra os nazistas

Em 1945, o empresário e produtor de cinema e TV Sid Bernstein foi procurado pelo Ministério de Informação da Grã-Bretanha com uma missão: fazer um filme sobre o fim da Segunda Guerra Mundial e a libertação dos campos de concentração nazistas.

Até então, ninguém – com exceção dos nazistas e dos prisioneiros, claro - tinha ideia do que acontecia nesses campos. Havia relatórios sobre execuções em massa, mas não existiam provas.

O filme se chamaria “German Concentration Camps Factual Survey” (“Pesquisa Factual dos Campos de Concentração Nazistas”) e usaria cenas filmadas por equipes dos exércitos da Inglaterra, Estados Unidos e União Soviética, que acompanhariam suas respectivas tropas na libertação de campos como Bergen-Belsen (Alemanha), Auschwitz (Polônia), Dachau (Alemanha) e Majdanek (Polônia).

Bernstein chamou um amigo, o cineasta Alfred Hitchcock, então morando nos Estados Unidos, para ajudá-lo no projeto. Hitch voou para a Europa e fez diversas reuniões com a equipe do filme. O cineasta deu várias sugestões. Uma delas foi a de filmar entrevistas com moradores das redondezas dos campos e mostrar como muitos deles tinham se beneficiado do trabalho escravo dos prisioneiros.

Quando o material filmado começou a chegar aos escritórios de Bernstein, nem Hitchcock, o mestre do suspense, conseguiu assisti-lo sem fechar os olhos. Eram horas e mais horas de corpos empilhados em covas coletivas, montanhas de cadáveres insepultos, homens, mulheres e crianças esqueléticos e incineradores com restos mortais de dezenas de milhares de pessoas.

Um montador do filme contou: “Estávamos no escritório, quando chegou um furgão cheio de latas de negativos. Não tínhamos a menor ideia do que era o material. Nos reunimos na sala de projeção e começamos a assistir. Eram mais de quatro horas de imagens de Bergen-Belsen. Éramos todos profissionais experientes, com décadas de trabalho em documentários, mas nenhum de nós estava preparado para aquilo. Para piorar, estávamos vendo as imagens em negativo, o que dava a elas uma aparência ainda mais fantasmagórica e surreal. Ninguém deu um pio. Alguns choravam. Até hoje, tenho pesadelos com aquela sessão.”

Bernstein trabalhou no filme por mais de um ano, mas o projeto acabou interrompido. Estados Unidos e Inglaterra viam na Alemanha um aliado precioso contra a Rússia, e acharam que, diplomaticamente, não seria bom exibir o filme. Trechos dele foram usados por Billy Wilder no curta “Death Mills” (“Campos da Morte”), mas a imensa maioria do material permaneceu inédita. Até agora.

No fim de 2014, foi lançado na Europa e Estados Unidos o documentário “Night Will Fall”, de Andre Singer. O filme conta a história do projeto de Bernstein-Hitchcock e mostra sequências inteiras do filme original, montadas por uma equipe do Museu Imperial da Guerra, em Londres, que seguiu à risca o roteiro escrito em 1945.

“Night Will Fall” é um dos mais filmes mais comoventes sobre o Holocausto, por mostrar a primeira reação de militares às imagens dos campos. Nós crescemos vendo as imagens horripilantes das atrocidades nazistas e, quando assistimos a um filme sobre o tema, já nos preparamos psicologicamente para enfrentá-lo. Mas é difícil imaginar a reação de alguém que, sem saber o que encontrará pela frente, chega a Bergen-Belsen ou Auschwitz.

“Night Will Fall” mostra soldados britânicos entrando em Bergen-Belsen e se desesperando com as cenas. Muitos choram. Um deles tenta descrever a sensação de carregar corpos e depositá-los numa imensa cova coletiva.

Há imagens de arquivo, filmadas na década de 1980, de entrevistas com cinegrafistas norte-americanos, britânicos e soviéticos, que relatam suas experiências. Uma cena mais recente mostra um nonagenário ex-soldado britânico, que, setenta anos depois de testemunhar os horrores de Bergen-Belsen, ainda chora com as lembranças.

Há também depoimentos de alguns dos sobreviventes dos campos. Uma cena mostra a libertação, em Auschwitz, de dezenas de pares de gêmeos usados de cobaia nas experiências de Josef Mengele. Na frente da fila há duas meninas húngaras, que não deviam ter mais de seis anos. A cena corta para a entrevista de uma delas, septuagenária, que relata seus encontros com o Anjo da Morte.

Vi “Night Will Fall” na HBO norte-americana. Espero que a HBO Brasil exiba logo o filme. Caso isso não aconteça, sempre resta a opção do Cine Torrent.

P.S.: Parem as máquinas: o leitor Felipe fez o favor de mandar um link para a versão integral e legendada em português de "Night will Fall". Aí vai, com agradecimento especialíssimo ao Felipe:

P.S.2: Outra excelente notícia: a assessora de imprensa do Philos, canal "on demand" da Globosat, escreve para avisar que o filme está disponível lá.

Bom fim de semana a todos.

Alguém tem uma notícia boa, por favor?

well Alguém tem uma notícia boa, por favor?
Um amigo fechou a loja de artigos de jardim que mantinha há uma década e acabou com o emprego de quatro funcionários.

Outro amigo está desempregado há mais de um ano e, por ter mais de 50 anos, está tendo ainda mais dificuldade para conseguir emprego.

A dona de uma pequena confeitaria vendeu o ponto, mandou embora três funcionários e passou a vender bolos e doces por encomenda.

O pai de um conhecido, funcionário de longa data de um conhecido instituto federal de pesquisa, antes um modelo de excelência, está exasperado com a queda na qualidade do trabalho devido ao aparelhamento político da direção do instituto e pensa em pedir demissão.

O mestre de obras está sem trabalho pela primeira vez em mais de dez anos.

O vendedor de água de coco na praia diz que não teve um verão tão ruim desde que começou na profissão, há mais de uma década.

Um amigo, dono de três restaurantes, diz que pensa em vender tudo e abandonar o ramo.

Podem me chamar de catastrofista ou pessimista, não me importo. O fato é que não ouço uma notícia boa sobre o país há muito, mas muito tempo. Aliás, se você não é banqueiro ou especulador, não tem do que se alegrar hoje em dia.

E não se trata de questão partidária. Já passamos disso. Quem ainda reduz o problema a brigas de petistas e tucanos está perdendo tempo. Temos um governo inepto e uma oposição igualmente ruim, e nenhum sinal de melhora pela frente.

E ainda tem gente que culpa a Lava-Jato pela paralisia nacional, como se a investigação, e não a corrupção, fosse culpada de algo. A Lava-Jato não é causa, mas consequência. Se há alguma esperança de melhora, ela começa justamente pela Lava-Jato.

Não vejo as pessoas tão desesperançadas com o país e tão pessimistas com a economia desde a época de hiperinflação de Collor e Sarney.

É um tal de fechar, reduzir e despedir. Ninguém pensa em abrir um novo negócio ou investir em nada. Também, ninguém é bobo ou masoquista. Quem vai botar dinheiro num país em que empresários e comerciantes são tratados como inimigos do Estado? Quem é louco de arriscar sua grana com os juros mais extorsivos do planeta?

E as últimas notícias são desanimadoras.

O que dizer de um ajuste fiscal que pretende “poupar” 66 bilhões reduzindo direitos trabalhistas, enquanto temos 900 mil funcionários – 114 mil deles comissionados – em 39 ministérios, que nos custam 214 bilhões por ano só de salários?

O governo prometeu, até o fim da semana, o anúncio de cortes de mais de 70 bilhões. Será “na carne”, disse Levy.

Na carne de quem? Na nossa, certamente. Os cortes nunca virão nos 114 mil funcionários empregados sem concurso, na farra dos carros oficiais, nos jatinhos ou no Fundo Partidário, que os políticos acabam de triplicar para quase um bilhão de reais por ano.

Não acredito em nenhum “ajuste” que não comece pelos custos da máquina governamental, mas acreditar que o governo vai abdicar disso é história da Carochinha. E tome mais impostos e cortes em programas sociais e investimentos, mais verbas emergenciais para obras atrasadas das Olimpíadas e mais grana pública para partidos comprarem aviões, como mostrou uma reportagem de “O Globo”.

Top 10 – grandes momentos de David Letterman

Depois de 33 anos no ar, David Letterman faz hoje, nos Estados Unidos, seu último “talk show”.

Letterman foi, para os programas de entrevistas televisivos, o que o “Saturday Night Live” foi para o humor na TV: um modernizador, alguém que pegou uma fórmula velha, careta e desgastada e deu a ela uma nova roupagem, mais jovem e divertida.

Selecionei dez momentos antológicos de Letterman na TV, alguns legendados.

Grandes Momentos em discursos presidenciais
Adorava esse quadro, que reunia gafes, grunhidos e burrices em geral de Bush:

Bill Murray vira Liberace
Muray foi o primeiro convidado de Letterman na TV, em 1982, e um de seus maiores amigos. Essa entrada é antológica:

Drew Barrymore paga peitinho
Em 1995, no aniversário de Letterman, Drew o presenteou com uma dança sensual. Legal demais.

Andy Kaufman sai na porrada no ar
Kaufman foi um comediante, homenageado pelo REM na música “Man on the Moon” e por Milos Forman no filme “O Mundo de Andy”. Ele era fascinado por luta-livre e encenou uma briga com um lutador profissional, Jerry Lawler, no programa de Letterman. Assista:

Warren Zevon se despede
Em 2002, o músico Warren Zevon foi diagnosticado com câncer terminal e falou sobre isso em uma emocionante e bem humorada entrevista a Letterman, seu amigo de muitos anos. Zevon morreu menos de um ano depois.

Borat constrange até Letterman
Poucas pessoas no mundo são capazes de constranger David letterman. Mas Borat, o personagem criado pelo humorista britânico Sacha Baron Cohen, conseguiu a façanha. Foi uma das entrevistas mais engraçadas do programa. Assista, legendada:

Madonna perde a estribeira
“Nossa próxima convidada é uma das cantoras mais populares do mundo, vendeu 80 milhões de discos, e dormiu com alguns dos maiores nomes da indústria do entretenimento”. Assim Letterman anunciou Madonna, em 1994. A reação dela, você confere aqui, legendada:

As Férias Gays de Dave e Steve
Outro dos convidados favoritos de Letterman era Steve Martin. Em 1998, os amigos interpretaram um quadro que ficou famoso:

Kevin Spacey encarna Al Pacino
Letterman chama Kevin Spacey, de surpresa, para imitar Al Pacino – na frente de Al Pacino.

Pós-11 de setembro
No primeiro show após os atentados terroristas de setembro de 2001, Letterman fez um monólogo emocionado sobre Nova York, os policiais nova-iorquinos, e o então prefeito, Rudolph Giuliani. Só consegui uma versão legendada em italiano. Foi um dos momentos mais bonitos do programa:

Levitation 2015: cobertura completa

levitation1 Levitation 2015: cobertura completa

O Levitation é um festival de música que acontece anualmente em Austin, Texas. O evento está em seu oitavo ano e até 2014 chamou-se Austin Psych Fest. A curadoria é da banda The Black Angels, heróis da cena local e colecionadores obsessivos de discos.

Apesar de ser conhecido como um evento de música “psicodélica”, a verdade é que o Levitation tem uma seleção das mais ecléticas. Você pode ouvir de prog a stoner, de metal a ambient, de bandas indianas tocando cítaras a guitarristas africanos, de shoegazers a folk, de krautrock a country, de pós-punk a noise. Só música boa e estranha.

A edição de 2015 aconteceu entre 8 e 10 de maio (leia aqui minha cobertura da edição 2014). Foi a melhor experiência musical que já tive. Nunca ouvi tanta música de qualidade num só lugar.

E pensar que, por muito pouco, o evento não foi cancelado: dois dias antes do início, um temporal bíblico desabou sobre Austin. Foi a chuva mais forte registrada na região desde 1919 e alagou o rancho Carson Creek, que fica a 20 minutos de carro do centro de Austin. O rio Colorado, que corta o local do show, subiu cinco metros. Por sorte a chuva parou no dia seguinte, ou o festival certamente teria sido cancelado.

O alagamento forçou a organização a mudar a posição dos três palcos. O mais bonito deles, que fica à beira do rio Colorado, foi transferido para um local mais alto. Os outros dois – o palco principal, ao ar livre, e outro, menor, embaixo de uma enorme tenda - trocaram de lugar, o que diminuiu o espaço do festival e causou problemas de vazamento de som de um palco para o outro.

A logística, especialmente no primeiro dia, foi muito prejudicada. Os acessos ao festival estavam cheios de lama, assim como o estacionamento. Caminhões de carga tiveram dificuldade para chegar. Quando o evento abriu as portas, na tarde de sexta, 8 de maio, estruturas ainda estavam sendo montadas. O transporte de ônibus ao local foi caótico.

Felizmente, a chuva deu uma trégua, e os dois últimos dias do evento transcorreram sem maiores problemas. O festival divulgou uma nota na noite de sexta, explicando os problemas que teve com a chuva e pedindo desculpas pelas mudanças estruturais. O público, que adora o festival e parece ter grande orgulho de ter um evento desses em Austin, entendeu.

Para quem está acostumado a frequentar imensos festivais corporativos, ir ao Levitation é uma experiência transformadora. O staff do festival é formado por voluntários. A cordialidade é total. Não há sinal de logotipos de nenhuma empresa. Comida e bebida são vendidas por pequenos fornecedores locais a preços justos. Ninguém te revista na porta. Em três dias, não vimos uma discussão, uma briga, ninguém furando filas, nenhum carro buzinando no estacionamento.

No dia mais cheio, o público não deve ter passado de oito ou nove mil pessoas. Com exceção de alguns shows mais concorridos no palco principal, era possível chegar com facilidade a 15 metros de qualquer palco. O tempo para andar de um palco a outro não passava de cinco minutos.

Era comum esbarrar com artistas vendo os shows. Bobby Gillespie, do Primal Scream, estava sozinho, do nosso lado, vendo o show do Earth. Vi Joel Gion e Matt Hollywood, do Brian Jonestown Massacre, curtindo o show do Jesus and Mary Chain, Sean Lennon, do GOASTT, vendo o Fat White Family, e Wayne Coyne, do Flaming Lips, fotografando o show da banda de Lennon.

Mais importante: descobri várias bandas que não conhecia e passei a acompanhar por causa do evento.

Aqui vai um resumo do que vimos em três dias de Levitation:

SEXTA, 8 DE MAIO

A chegada ao local foi difícil, com o estacionamento ainda cheio de lama. Mas a alegria de ver a barulheira à My Bloody Valentine do trio Ringo Deathstarr, de Austin, compensou. Emendamos em outro grupo local, o quarteto Holy Wave, que mostrou uma bonita mistura de psych rock à Pink Floyd dos primórdios com partes mais barulhentas que lembravam o rock de garagem sessentista de 13th Floor Elevators e Seeds.

E como há bandas boas no Texas, não? Depois do Holy Wave, fomos ver outra banda texana, o quarteto Indian Jewelry, com seus experimentos eletrônicos à Suicide, misturando bateria eletrônica, noise e guitarras altíssimas. Bom demais.

Demos uma parada rápida no palco principal para conferir os ótimos nova-iorquinos do DIIV (pronuncia-se “Dive”) antes de ir à tenda para o show mais aguardado da noite (pelo menos por nós): o duo de noise-jazz-hardcore Lightning Bolt.

Eu tenho os discos do LB, mas só tinha visto a banda no Youtube e no DVD “The Power of Salad”. Os discos são excelentes, mas não fazem justiça ao LB. A experiência de vê-los ao vivo é muito mais intensa e impressionante do que qualquer gravação.

O Lightning Bolt é uma dupla formada pelo baterista e cantor Brian Chippendale e o baixista Brian Gibson. O som é massacrante, um hardcore velocíssimo e anguloso, cheio de paradas e partes “quebradas” com influências de free jazz (os caras são fãs de Sun Ra e Ornette Coleman) e de bandas japonesas de noise. Os shows são intensos. A banda frequentemente toca no chão, cercada pelo público. Veja esse trecho de um show no Japão:

Saímos do Lightining Bolt completamente atordoados e felizes. Foi tão bom que compensou perder o White Fence.

Era difícil ver qualquer coisa depois do Lightning Bolt. Vimos cinco minutos do Spiritualized, mas não deu pra aguentar o ar blasé de Jason Pierce, e corremos para pegar o fim do The Soft Moon, excelente projeto de synth-punk do californiano Luis Vasquez. Enquanto o público lotava o palcão pra ver o Tame Impala, preferimos pegar o caminho de casa.

SÁBADO, 9 DE MAIO

O sol saiu forte no sábado. Chegamos cedo para ver o folk jazzístico do guitarrista Ryley Walker. O disco dele, “Primrose Green”, está em altíssima rotação há semanas aqui em casa, e o show foi muito bonito, apesar do calor.

Continuamos no palco menor, ao ar livre, para ver os chineses do Chui Wan e seu psych-rock à Mutantes. Bonito e inusitado. Logo depois subiu ao palco o Spindrift e suas quatro guitarras, fazendo um emocionante folk rock instrumental que lembrava trilhas de faroestes spaghetti de Ennio Morricone. Em que outro festival do mundo você pode emendar psicodelia chinesa com rock tex-mex?

Enquanto alguns amigos, incluindo o grande Fábio Massari, piravam na microfonia pesadona à Velvet do The Black Ryder, corremos ao palco principal para ver John Dwyer e seu Thee Oh Sees.

Que banda única e incomum é o Thee Oh Sees. Sempre me lembrou dos experimentos pós-punk de Pere Ubu, Mission of Burma e outros iconoclastas, só que mais agressivo e barulhento. Dwyer não para de gravar e de mudar a formação do grupo. Essa encarnação mais recente tem dois bateristas e um baixista, além do próprio Dwyer nas guitarras, teclados, efeitos e vocais. Vejam que lindeza:

O show do Thee Oh Sees foi tão bom que nos obrigou a perder duas bandas que queríamos ter visto, Mystic Braves e This Will Destroy You. Vimos o comecinho do Primal Scream, mas logo abandonamos Mister Gillespie e sua turma para rumar ao palco onde ia se apresentar Dylan Carlson e o Earth.

Você pode não conhecer Dylan Carlson, mas certamente conhece a música “In Bloom”, do Nirvana: “He's the one / who likes all our pretty songs / and he likes to sing along / and he likes to shoot his gun” (“Ele é o cara / que gosta de nossas canções bonitos / e gosta de cantar junto / e gosta de atirar com sua arma”). Kurt Cobain escreveu “In Bloom” sobre Dylan Carlson, que era seu melhor amigo, parceiro de drogas e confidente. Era também quem conseguia heroína e outros breguetes para Kurt e Courtney. E a “arma” que Carlson gostava de atirar era a espingarda que Kurt pediu emprestada e com a qual estourou os próprios miolos.

Além de fazer parte da mitologia suicida do rock, Carlson criou, há mais de 20 anos, o Earth, banda considerada fundadora do chamado drone metal. Imagine um Black Sabbath tocando a um terço da velocidade e você terá uma ideia do som do Earth. O oitavo e mais recente disco deles, “Primitive and Deadly”, é o primeiro com vocais e é uma obra-prima.

O show foi uma coisa linda: lento, intenso e viajandão. Seis canções em uma hora e pouco, mantras lúgubres de nomes como “A Serpente Está Chegando”. Carlson anunciava os nomes das faixas, e deu pra entender porque o Earth é uma banda instrumental: a voz do cara lembra a de Roni Cócegas. E seu rosto, apesar de ter só 47 anos, também. Heroína é uma merda. Sorte de Carlson que saiu dessa.
Veja o Earth em setembro de 2014, tocando “Torn by the Fox of the Cescent Moon”, primeira faixa de “Primitive and Deadly”:

Encerramos a noite vendo o Jesus and Mary Chain, uma banda de discos extraordinários e shows nem tanto. Mas este foi bom, com o repertório do clássico álbum “Psychocandy” (1985) e hits como “April Skies”, “Blues from a Gun” e “Happy When it Rains”. Jim Reid até sorriu, coisa rara. E William tá a lata do Leo Jaime.

DOMINGO, 10 DE MAIO

Como é bom chegar num show sem saber nada sobre o artista e sair de lá convertido. Isso aconteceu duas vezes nesse dia: a primeira foi como Samsara Blues Experiment, um trio alemão que mostrou um stoner demencial. A segunda foi ainda mais impressionante: o trio ZZZs, formado por três japonesinhas lindas e estilosas que faz um pós-punk anguloso à Gang of Four com pitadas de noise. A guitarrista deve ter passado a vida escutando East Bay Ray e Andy Gill. Coisa fina. No meio do show, um inglês me perguntou: “What the fuck is this? This is fucking brilliant!”

Brilhante também foi o show de The Ghost of a Saber Tooth Tiger (GOASTT), banda de Sean Lennon e da namorada, Charlotte Kemp Muhl (leia aqui um texto que fiz sobre a banda). “Não posso acreditar que fomos convidados para esse festival, é o melhor evento de música do mundo hoje em dia”, disse Sean Lennon.

Até tentamos descobrir o que as pessoas veem de tão especial no tal Mac De Marco, mas não aguentamos mais de 10 minutos de seu pop engraçadinho e fomos correndo pegar o fim do Eternal Tapestry e seu acid rock espacial, antes de conseguir um bom lugar pra ver o The Black Angels e seu rock de garagem psicodélico à Velvet Underground. Como sempre acontece em Austin, foram ovacionados.

Em certo momento da noite, havia duas bandas excelentes tocando no mesmo horário que o Black Angels, e conseguimos ver uns 20 minutos de cada: a primeira foi o Follakzoid, um trio chileno que faz uma música densa e hipnótica. Veja:

Depois corri pra pegar uma parte do Fat White Family, um bando de squatters ingleses que lançaram um dos melhores discos dos últimos anos – “Champagne Holocaust” – não acreditam que a música salva ninguém e fazem uma barulheira infernal que lembra Birthday Party, Fall, ou qualquer outra banda alta demais, esculachada demais e bêbada demais. Que bom que ainda existem grupos como eles.

Corremos ao palco principal para ver a suposta “maior” atração do festival, o show de reunião do 13th Floor Elevators depois de 47 anos. E foi uma decepção gigante. Claro, o repertório é imbatível, e ver os velhinhos juntos depois de tanto tempo prometia ser emocionante. Mas o tempo é implacável. A voz de Roky Eryckson virou um fiapo e o som da banda não empolgou nem em clássicos como “You’re Gonna Miss Me”. Valeu só pelo acontecimento histórico.

Por sorte, o Levitation teve o encerramento que merecia, com um show colorido e emocionante do Flaming Lips. Difícil pensar em uma banda mais consistentemente brilhante nos últimos 30 anos que esses malucos de Oklahoma, que conseguiram filtrar as sandices do Butthole Surfers, as experiências sônicas do krautrock e o folk rock cósmico de Neil Young e Crazy Horse e criar uma música tão acessível, bonita e pessoal. Steven Drozd é o cara.

levitation 64 1024x682 Levitation 2015: cobertura completa

Saímos do Carson Creek Ranch esgotados, mas já fazendo planos para o ano que vem. Porque o Levitation tornou-se um momento importante para a cultura musical aqui de casa. O que conhecemos de bandas por causa do festival não é brincadeira. Sem pensar muito, posso listar Woods, Dead Meadow, Sleepy Sun, Bombino, La Femme, Kadavar, King Gizzard & the Lizard Wizards, Graveyard, Peaking Lights, Night Beats, Unknown Mortal Orchestra, Mikal Cronin, Moon Duo, White Hills, Bardo Pond e The Myrrors, entre muitas e muitas outras.

Sei que o dólar está pela hora da morte e que ir a um evento desses não sai barato (por sorte, havíamos comprado passagens e ingressos antes da última alta do dólar), mas, se você tiver a oportunidade, vá. O Levitation é um desses festivais que renova seu gosto pela música e abre horizontes.

Quem vai a um festival desses nunca mais põe os pés num Lollapalooza.

Adeus, Rogério Durst!

durst81 Adeus, Rogério Durst!

O blog está em férias até 19 de maio, mas não poderia deixar de escrever algumas linhas sobre o jornalista e crítico de cinema Rogério Durst, que morreu semana passada, no Rio, aos 54 anos.

Conheci Rogério em andanças cineclubísticas de meados nos anos 80. Sempre nos esbarrávamos na Cinemateca do MAM, no Cineclube Macunaína ou no Coper Botafogo, que depois virou Estação Botafogo.

Lembro uma retrospectiva gigante do Kurosawa que o Estação fez, com dezenas de filmes. Encontrei Rogério em quase todas as sessões, e a brincadeira entre nós era tentar achar uma sessão em que José Lewgoy não estivesse também.

Trabalhamos juntos no “Tabu”, o jornal do Estação Botafogo, e foi ali que percebi a genialidade do Rogério para escrever sobre cinema. Nunca esqueço um adjetivo que ele inventou para definir “Dr. Fantástico”, de Kubrick: “sessentoso”.

Depois trabalhamos no “Jornal do Brasil”, onde ele foi crítico e resenhista de filmes para TV. Seus textos eram curtos e engraçados demais.

Não vejo Rogério desde que saí do “JB”, em 1990, mas admiro sua carreira de longe: primeiro no “Globo”, depois na “Veja Rio” e, nos últimos anos, como tradutor.

Tenho na estante seu ótimo livro sobre “Madame Satã”, e na lembrança muitas e muitas horas de papos divertidíssimos sobre cinema.

Às vezes, escolhas pessoais e profissionais nos afastam de algumas pessoas, e só percebemos como sentimos falta delas quando recebemos uma notícia triste como essa.

Meus pêsames à família e amigos do Rogério. Muita gente aprendeu a gostar de cinema por causa dele. Vai fazer uma falta danada.

P.S.: Estou viajando e não poderei moderar comentários com frequência até dia 19, quando o blog retorna com textos inéditos. Se o seu comentário demorar a aparecer, peço desculpas e um pouco de paciência.