70% dos brasileiros se informam pelo Facebook, e 187% sabem que isso é mentira

monkey pc 1024x469 70% dos brasileiros se informam pelo Facebook, e 187% sabem que isso é mentira
O site “Observatório da Imprensa” publicou um artigo (leia aqui) em que afirma que 70% dos brasileiros se informam pelo Facebook.

O artigo foi republicado em sites, blogs, e divulgado pelas redes sociais. O número, de fato, era impressionante: sete em cada dez brasileiros usariam o Facebook como fonte de informação.

Assim que li o texto, suspeitei que havia algo errado. Lembrei ter lido, em algum lugar, que apenas metade dos domicílios brasileiros tinha acesso à Internet.

Fiz uma busca rápida. Bingo. Segundo a mais recente PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), divulgada no fim de 2014 pelo IBGE, o percentual de internautas no Brasil subira de 49,2% em 2012 para 50,1% em 2013 (leia aqui).

A matéria do “Observatório da Imprensa” estava furada. Se metade da população brasileira usa a Internet, é impossível que 70% se informem pelo Facebook.

O passo seguinte foi checar a fonte usada pelo “Observatório da Imprensa”. O texto mostrava um gráfico com um suposto “ranking mundial dos países que mais consomem notícias pelo Facebook”, onde o Brasil aparece em primeiro, com “67% de sua população buscando informação, prioritariamente, na rede social”.

O gráfico foi tirado de uma matéria do site Quartz (veja aqui). O Quartz, por sua vez, obteve as informações de um relatório de 2014 sobre jornalismo no mundo digital, elaborado pelo Instituto Reuters de Estudos do Jornalismo (veja o relatório aqui).

Li o relatório do Instituto Reuters. Na página 36, ele informa que apenas 46% dos brasileiros têm acesso à Internet.

Ou seja: o índice de “70%”, divulgado pelo “Observatório da Imprensa”, estava errado. O correto seria dizer que 67% dos brasileiros com acesso à Internet (46% do total dos brasileiros) usam o Facebook para se informar. O número total, portanto, seria de 30,8%.

Ainda parecia demasiado. Chequei a metodologia usada pelo Instituto Reuters e percebi que a “pesquisa” era, para dizer o mínimo, questionável. Para começar, foi feita pela Internet, com 1015 pessoas. Dos dez países pesquisados, apenas no caso do Brasil os pesquisadores resolveram ignorar o interior do país e perguntaram exclusivamente a moradores de centros urbanos. A própria pesquisa trazia um aviso: “No caso do Brasil, o resultado representa a população urbana e não a população nacional, e isso deve ser considerado ao interpretar os resultados”.

Resumindo: a pesquisa falou, pela Internet, apenas com pessoas que moram em cidades e têm tempo para responder a perguntas pela Internet. Parece óbvio que o percentual de usuários de Facebook e pessoas com hábito de navegar pela web nesse grupo seja bem maior do que na população em geral.

O que eu precisava era de uma pesquisa que respondesse a duas perguntas: quantos brasileiros usam o Facebook? E desses, quantos usam o Facebook para se informar?

No fim do ano passado, circulou a notícia de que o Facebook tinha 89 milhões de usuários no Brasil. Mas o dado era da própria empresa e, portanto, sujeito a desconfiança. Fora que não levava em consideração contas abertas e não usadas e usuários que gerenciavam múltiplas contas.

Consegui a resposta, pelo menos parcialmente, numa pesquisa citada na própria reportagem do “Observatório da Imprensa”. A pesquisa foi feita em 2013, pelo Núcleo de Estudos e Opinião Pública (NEOP) da Fundação Perseu Abramo (veja aqui).

A pesquisa do NEOP era muito mais confiável que a do Instituto Reuters. Foi realizada em abordagem domiciliar, com 2400 brasileiros de 120 municípios, urbanos e rurais. E os resultados elucidam muita coisa.

O percentual de brasileiros com acesso à Internet, segundo a pesquisa, seria de 43%. Desses, 38,4% dizem usar o Facebook. Ou seja: segundo a pesquisa, 16,15% dos brasileiros usam o Facebook.

A pergunta seguinte do NEOP foi: “Quais assuntos você lê ou consulta na Internet?”. E 68,6% disseram usar a web para obter informações e notícias.

Não era a pergunta ideal para responder à nossa dúvida. Para isso, a pergunta deveria ter sido “Quem usa o Facebook para se informar?”, e a questão deveria ter sido colocada apenas para os 16,15% que disseram usar o Facebook.

Para efeito de cálculo, vamos SUPOR que 68,6% dos usuários do Facebook o utilizem para obter notícias. Isso significaria que o percentual total de brasileiros que usam o Facebook para se informar é, no máximo, de 11%.

Esse número é exato? Claro que não. Para isso, as perguntas deveriam ter sido outras. Mas é um número muito mais perto da verdade do que os 70% divulgados na matéria do “Observatório da Imprensa”.

A matéria do “Observatório” continha mais um erro grave: citando a pesquisa do NEOP, dizia que a Internet era “fonte primária na busca de informações e notícias para 68,6% da população”. De novo, o autor esqueceu o pequeno detalhe, citado na própria pesquisa, de que só 43% dos brasileiros usam a Internet.

A reportagem do “Observatório da Imprensa” foi ao ar dia 21 de abril. Li o texto na quinta, 23. Na manhã de sexta, 24, alguém notou o erro e trocou o título original (“Cerca de 70% dos brasileiros se informam pelo Facebook”) por “Cerca de 70% dos brasileiros ativos no Facebook se informam pela rede social”. Mas o texto continuava com os mesmos erros de informação e dava a impressão de que 70% do total de brasileiros se informam pelas redes sociais.

Aí, o estrago já estava feito. O "fato" de que "70% dos brasileiros se informam pelo Facebook" já se espalhara como uma praga pelas redes sociais.

O que me entristece nessa história não é o erro de informação da matéria. Errar, todo jornalista erra: eu erro, meus colegas erram, vencedor do Pulitzer erra. Triste mesmo é perceber que uma informação pode circular livremente por incontáveis pessoas e ser espalhada pelo mundo digital, sem que ninguém questione sua veracidade.

As pessoas reclamam da qualidade do jornalismo brasileiro, e com razão. Mas e a qualidade dos leitores?

Como pode alguém ler uma matéria que traz uma informação absolutamente incredível e cheia de números estapafúrdios, e não parar por 15 segundos para pensar no que está lendo?

O pior é saber que, nesse exato instante, alguém está fazendo uma pesquisa no Google sobre hábitos de leitura dos brasileiros e vai ler a “informação” de que “70% dos brasileiros se informam pelo Facebook”. Garanto que essa cascata já está sendo propagada em agências de publicidade digital e redações por aí, num tsunami devastador de desinformação.

Enquanto isso, outra pesquisa – essa, aparentemente, verídica – da Federação do Comércio do Estado do Rio de Janeiro (Fecomércio-RJ), diz que sete em cada dez pessoas no Brasil não leram nenhum livro em 2014. Devem ser os mesmos 70% que se informam pelo Facebook.

123 Comentários

"70% dos brasileiros se informam pelo Facebook, e 187% sabem que isso é mentira"

27 de April de 2015 às 07:05 - Postado por André Barcinski

* preenchimento obrigatório



Digite o texto da imagem ao lado: *

Política de moderação de comentários:
A legislação brasileira prevê a possibilidade de se responsabilizar o blogueiro pelo conteúdo do blog, inclusive quanto a comentários; portanto, o autor deste blog reserva a si o direito de não publicar comentários que firam a lei, a ética ou quaisquer outros princípios da boa convivência. Não serão aceitos comentários anônimos ou que envolvam crimes de calúnia, ofensa, falsidade ideológica, multiplicidade de nomes para um mesmo IP ou invasão de privacidade pessoal / familiar a qualquer pessoa. Comentários sobre assuntos que não são tratados aqui também poderão ser suprimidos, bem como comentários com links. Este é um espaço público e coletivo e merece ser mantido limpo para o bem-estar de todos nós.
Comentários
  • Afonso
    - 27/04/2015 - 14:32

    André, vou fugir do tema. Mas precisamos e queremos ler seus comentários sobre esta nova realidade: http://musica.uol.com.br/noticias/redacao/2015/04/27/com-publico-mais-maduro-monsters-of-rock-vira-festival-de-metal-gourmet.htm

    Responder
  • pabloREM
    - 27/04/2015 - 13:50

    Redes sociais são exatamente os lugares onde não se devem procurar notícias. É só ver o monte de barbaridade que foi escrita na época das eleições presidenciais.

    Responder
  • Jose Glaucio
    - 27/04/2015 - 13:46

    Barça, eu não acredito muito em pesquisas de opinião por inúmeros motivos, principalmente, porque muitas delas servem apenas para embasar a opinião do próprio pesquisador, seja induzindo as pessoas a responderem o que ele espera, criando perguntas capsiosas, ou indo a um nicho onde ele sabe que as pessoas pensam igual. E existem outras razões que não caberiam aqui. Mas vim dizer mais que eu achei preocupante o parágrafo final e que casa muito bem com o conteúdo do texto. Eu convivi durante muito tempo numa cultura na qual as pessoas tinham orgulho em dizer que não liam, e que ler era coisa de "nerds", usado com um tom bem pejorativo. Ou eu não lia e me enturmava, ou eu me rebelava e fazia o que eu queria. Escolhi a segunda opção. Pude sair desse contexto e ir a outro, no qual as pessoas liam e debatiam aquilo que liam, ensimavam a pensar, o que me ensinou que para se ter uma boa opinião a respeito de algo é necessário conhecer mais do que o mínimo sobre o assunto. Se for debater sem isso, faz-se papel de idiota, como muitas vezes eu presenciei vendo pessoas de abordagens diferentes discutindo sobre qual delas era melhor ou pior. Voltando ao que eu falei sobre o parágrafo casar com o restante do texto, essas pessoas que não liam e que não lêem por ter orgulho de fazer isso são as que mais compartilham besteiras no Facebook ou acreditam em tudo o que lêem na mídia, sem fazer uma distinção sobre a razão de a matéria existir, sobre o porquê de tal veículo ter criado daquela forma a manchete e a coluna etc. Absorvem tudo e depois vomitam sem saber por quê. Enquanto isso, os poderosos, sejam os políticos ou a mídia, deitam e rolam nessa cultura que acredita que ler é coisa para idiotas.

    Responder
  • Igor
    - 27/04/2015 - 13:45

    Barcinski, nesse teu post também tem alguns erros, e a menção à autoridade do ganhador do Pulitzer (que também erra) define a tua posição na dura realidade ideológica. Um erro é considerar como "acesso à internet" somente pontos de conexão domiciliar. No Brasil existe mais linhas de celular que gente, e qualquer pangaré velho de estância hipotecada sabe que o alcance dos aplicativos hoje em dia é brutal, e provavelmente (e convenientemente) não-contabilizado. Outro é menosprezar a força do Facebook na disseminação de informação. Esse é um fenômeno sem precedentes na história, onde a estatística (arma positivista consagradora de seriedade) é substituída por uma corrente de análise quantitativa e qualitativa chamada Big Data. Uma rápida explicação: Em estatística tradicional uma amostra (N) é tirada de um todo/universo (U), e todo trabalho estatístico é construído em cima desse recorte precário. Em Big Data N=U. O volume de dados é esmagador, e qualquer relação pode ser observada. Atacar o Observatório da Imprensa por deslizes matemáticos e depois classificar a questão em "boa informação x má informação" é jogar lama num deslizamento. Esse é o velho american way, pulitzer-praising type of journalism. O verdadeiro inimigo não é o Alberto Dines, mas um esquema corporativo que se nutre desses factóides. Conta quantas vezes foi citada a palavra Facebook no teu texto, quantos visitantes acessaram o teu blog, o número de indexadores gerados nos mecanismos de busca (Google), e o lucro que uma pequena discussão dessas gerou. O esquema é maior, mais obscuro e mais difícil de ser combatido.

    Responder
  • Daniel Costa
    - 27/04/2015 - 13:08

    André, parabéns pelo artigo, excelente. Tenho uma filha de 7 anos e um filho de 4 anos, e a preocupação minha e de minha esposa é justamente incentivar a leitura de livros e revistas pelas crianças e tentar fugir da superficialidade que a internet pode trazer.

    Responder
  • Ana Luisa
    - 27/04/2015 - 13:05

    Toda vez que entro em uma livraria ou abro o caderno de cultura de um jornal, ou uma revista, e vejo a lista dos livros para adultos mais vendidos encabeçadas por almanaques de atividades e, agora, por "livros" para colorir, fico me perguntando se esses produtos são levados em consideração no cálculo da média anual dos livros comprados por brasileiros. Se sim, o resultado pode ser totalmente enganoso. Esse tipo de passatempo tá vendendo horrores. Nada contra, mas não tem nada a ver com leitura. Não são livros no conteúdo, só no formato. No caso dos livros para colorir, é puro trabalho manual. Um total analfabeto pode muito bem comprar e aproveitar 100% do conteúdo.

    Responder
  • Hernandez Martinez
    - 27/04/2015 - 13:05

    Lembra daquela pesquisa (sic e sci-fi) feita tempos atrás, por um desses órgãos governamentais que serve de cabide emprego, que causou frisson ao revelar que 66% dos brasileiros eram a favor do estupro de mulheres que se vestiam de maneira vulgar? Aquela que foi "corrigida" duas semanas depois, e o número caiu pra 20%? Pois bem, o responsável pelo tal órgão alegou que houve "erro nas transcrição dos dados", o que em bom português significa "Não sabemos copiar e colar de uma planilha pra outra". Além das distorções, metodologias erradas, manipulações, ou "erros de transcrição", eu me pergunto se boa parte dessas pesquisas não são, como direi... imaginadas. Assim, mais pra invenção mesmo.

    Responder
  • Will Madchester
    - 27/04/2015 - 12:30

    Espetacular sua caça pelos números Barça, da até uma satisfação ser seu leitor a tanto tempo e ver que se preocupa com o leitor e também em checar com tanto esmero as notícias.

    Responder
  • Junior242
    - 27/04/2015 - 12:15

    Belo texto, a incapacidade de interpretar estatísticas é generalizada em qualquer meio, inclusive o acadêmico, (principalmente pela forma medieval que é ensinada estatística hoje em dia) e isso não é exclusividade do Brasil . Tem dois livros fantásticos que abordam o tema, o innumeracy do john Allen paulos e o bad science do Ben goldacre, acho que você ia curtir muito eles se ainda nao os leu. Abs!

    Responder
  • Júnior
    - 27/04/2015 - 12:13

    Concordo com você de que a maioria lê a manchete da notícia e sai replicando, muitas vezes sem checar. Mas acredito sim que uma porcentagem (menor do que 70% claro) se informa pelas redes sociais. Esses dois fatos (ler sem checar e se informar pelo facebook), podem explicar o fla-flu ideológico, e a pobreza do debate político, por exemplo.

    Responder
1 2 3 4 5 6