Beat Happening: nem tudo era grunge

Na virada dos anos 1980 para 1990, o mundo foi apresentado ao “grunge”, graças ao sucesso da gravadora Sub Pop e a bandas como Nirvana, Soundgarden e Mudhoney. Seattle, cidade da Sub Pop, virou a “capital do grunge”, e toda banda que vinha daquela região, o noroeste dos Estados Unidos, acabava incluída no mesmo balaio.

Mas não existia apenas o “grunge” por ali. Na verdade, a região era um celeiro inesgotável de bandas alternativas de estilos diversos.

Havia o power-pop de Fastbacks e Posies, o punk de Coffin Break e 7 Year Bitch, o shock-rock dos Dwarves, os sons rurais de The Walkabouts, o metal-drone do Earth, os sons tortos de Modest Mouse e Built to Spill, o emo do Sunny Day Real Estate, e por aí vai. Elliot Smith não era da região, mas fez sua curta carreira em Portland. E isso falando só do indie rock, sem mencionar bandas de metal e rock de arena como Candlebox, Queensryche, Metal Church, etc.

Depois de Seattle, a cidade mais importante da cena do rock alternativo da região foi Olympia, 70 km ao sul. Foi lá que surgiu o movimento “riot grrrl” que gerou bandas como Sleater-Kinney, Bikini Kill e Bratmobile, e onde Kurt Cobain compôs a maioria das canções que entrariam em “Nevermind”.

Olympia também era a sede da K Records, uma gravadora fundada por um sujeito chamado Calvin Johnson.

Sempre atuando à margem do rock corporativo, o selo lançou discos de Beck, Bikini Kill, Modest Mouse, Built to Spill, Melvins e de uma penca de outras grandes bandas e artistas. Alguns fãs amavam tanto a K Records que tatuaram o logo da gravadora. Foi o caso de Kurt Cobain, que sempre admirou a independência da K Records e via Calvin Johnson como um modelo de integridade.

Além de chefiar a gravadora, Johnson criou, em 1982, sua própria banda, o Beat Happening.

É difícil classificar a música do Beat Happening. Era um som minimalista de músicas muito simples e total despreocupação com a perfeição técnica das composições e gravações. O grupo se resumia a guitarra (sem nenhum tipo de efeitos), bateria e a voz gutural de Johnson. Lembra muito Cramps, The Birthday Party e o início da carreira do The Jesus and Mary Chain. As letras eram de uma simplicidade quase infantil:

Aqui, uma de minhas músicas prediletas da banda, “Cast a Shadow” (que foi regravada pelo Yo La Tengo):

O Beat Happening durou dez anos e cinco discos. No fim do ano passado, a gravadora inglesa Domino lançou “Look Around”, uma coletânea de 23 músicas abrangendo toda a carreira do grupo. O disco está em altíssima rotação aqui em casa e não tem previsão de sair tão cedo. É viciante.

36 Comentários

"Beat Happening: nem tudo era grunge"

20 de January de 2016 às 07:05 - Postado por André Barcinski

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Comentários
  • Andre P
    - 23/01/2016 - 13:37

    Essa música me lembrou muito o Television Personalities. Gosta?

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  • Monikatz
    - 21/01/2016 - 18:55

    Ha! Essa me pegou de surpresa; jurava que "Cast a shadow" era do YLT... e dá pra entender por que regravaram. Aliás, vou pra Seattle em julho, alguma dica boa de lugar ou show imperdível?

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  • Fred
    - 21/01/2016 - 17:28

    Nem acredito que estou lendo uma matéria em 2016 sobre essa que sempre foi uma das minhas bandas preferidas! "You Turn Me On" e "Jamboree" são meus discos preferidos deles. "Bewitched" seguida de "In Between" é um dos melhores combos 'começo de álbum' que conheço.

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  • Denis
    - 20/01/2016 - 23:25

    André, falando de Olympia, vc curte o Unwound, que é dessa região? É uma das minhas bandas "noventistas" favoritas. Eu ainda não escutei essa do Beat Happening, mais uma coletânea que está em alta rotação aqui em casa é o "Splashdown" do The Telescopes, já conferiu esse?

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  • Marcio Martins
    - 20/01/2016 - 23:23

    André, tem um trabalho do Calvin Johnson com o John Spencer que é bem legal também mas nao lembro o nome. Você lembro?

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  • Rafael de Deus
    - 20/01/2016 - 20:42

    Não lembro da última vez que fiquei tão fissurado por uma banda de imediato quanto agora, pelo Beat Happening. Só conhecia Hot Chocolate Boy. Muito obrigado pelo texto!!

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  • Geneuronios
    - 20/01/2016 - 17:45

    Só para informar... Kurt Cobain tinha como disco de cabeceira o LP RED, King Crimson (1974). Melhor álbum do Nirvana, In Utero. Uma neurose leva à outra. Dois grandes discos.

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  • Junior242
    - 20/01/2016 - 15:49

    Uma das minhas bandas preferidas. Gosto muito do primeiro disco solo do calvin johnson também. Conversei com ele em um show em bristol (ele mesmo ficou vendendo os discos nos dois shows que eu fui) e ele me disse que por duas vezes tava fechado para ele tocar no Brasil mas que cancelaram cima da hora.

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  • Dhiancarlo Miranda
    - 20/01/2016 - 15:19

    Para tudo, Barça!!! Death confirmado para show no Sesc em São Paulo no mês de fevereiro!!!

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  • Renato Aguiar
    - 20/01/2016 - 14:49

    André, quando li "o power-pop de Fastbacks e Posies", automaticamente lembrei de uma banda de power pop da mesma época que eu adorava, chamada Jellyfish. Conhece? Gosta? Pra quem curte power pop acho uma excelente recomendação.

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