George Martin: a máquina do som

george martin 81 140634c George Martin: a máquina do somSe alguém pode ser considerado o “Quinto Beatle”, certamente foi George Martin, o produtor, arranjador, maestro e compositor que ajudou a banda a gravar algumas de suas melhores canções (leia aqui um texto que fiz na “Folha” sobre Martin, que morreu terça, aos 90 anos).

Martin foi um bruxo de estúdio, um gênio maluco que usou seu amplo conhecimento de música clássica, música de vanguarda, música eletrônica e experimentalismos dos mais variados para criar algumas das canções mais importantes da música pop. Aqui vão sete delas, que escolhi para a “Folha”:

"A Day in the Life" (1967)
Martin fez o que nenhum arranjador faz: pediu para sua orquestra de 40 músicos tocar caoticamente, cada músico em completa falta de sintonia com os colegas. Depois gravou essa bagunça quatro vezes e empilhou tudo em uma única faixa, dando a impressão de 160 instrumentos gritando em direções diferentes. Era a impressão de caos que a faixa pedia.

"Being for the Benefit of Mr. Kite" (1967)
Para obter a estranheza e ambientação de parque de diversões que John Lennon queria para essa música, Martin gravou cerca de 60 fragmentos de sons de órgão, mandou cortar as fitas em pedaços, jogou todas para o alto e colou tudo sem a menor preocupação com sequência.

"I Am the Walrus" (1967)
O coral de 16 pessoas foi instruído a cantar gritos e frases sem sentido, para adicionar ao clima anárquico da música de John Lennon.

"Tomorrow Never Knows" (1966)
Sons de gaivota, a voz de Lennon captada de um alto-falante de teclado e guitarras gravadas de trás para frente compõem a cacofonia psicodélica desse clássico. As "gaivotas", na verdade, eram uma risada de Paul gravada de trás para frente.

"Strawberry Fields Forever" (1967)
A faixa foi gravada duas vezes, em versões de velocidades e tons diferentes. Martin juntou as duas, reduzindo a velocidade de uma delas.

"Eleanor Rigby" (1966)

Martin não só fez um brilhante arranjo de cordas, mas teve a ideia de colocar os microfones muito próximos dos violinos, violas e cellos —oito no total— para captar um som mais "duro" e realçar a angústia da canção mórbida de McCartney, certamente uma de suas letras mais tristes.

"Goldfinger" (1964)
George Martin produziu essa obra-prima —vjunto com o coautor da faixa, John Barryv — para o tema do filme "Goldfinger", do agente James Bond. A vox é de Shirley Bassey e o guitarrista, não creditado, foi um jovem prodígio de 20 anos chamado Jimmy Page.

Tão importante quanto admirar pela enésima vez as bruxarias de estúdio de George Martin é entender o papel fundamental que ele teve na evolução do conceito de produtor musical.

Martin deu sorte de pegar uma banda jovem e talentosa num período – o início dos anos 60 – quando as tecnologias de gravação começavam a permitir voos criativos mais ambiciosos. Até surgirem gênios como Martin e Joe Meek na Inglaterra e Phil Spector e Brian Wilson nos Estados Unidos, o papel do produtor era, basicamente, captar o artista da mesma forma como ele soava ao vivo.

Mas Martin queria mais. Ele trabalhou anos na gravação de álbuns de comediantes como Peter Sellers e Spike Milligan, que vinham do rádio e adoravam experimentar com sons e efeitos. Quando encontrou Lennon e McCartney, dois gênios que sabiam ouvir conselhos, achou os parceiros perfeitos para engendrar uma mudança radical na forma de gravar discos.

Com os Beatles, Martin usou um arsenal vastíssimo de experimentações: manipulou a velocidade de fitas, gravou sons de trás pra frente, adicionou gravações de diálogos, testou diferentes tipos de microfones para diferentes objetivos, enfim, fez tudo que não estava no manual.

Eram outros tempos. Bandas ainda ganhavam a maior parte de seu dinheiro com a venda de discos. Não havia a facilidade de viagens aéreas e transporte global de hoje, e turnês não eram tão extensas.
Depois que os Beatles pararam de fazer turnês, em 1966, a banda e Martin mergulharam de cabeça nos experimentalismos sônicos que resultariam em álbuns clássicos como “Rubber Soul” (1965), “Revolver” (1966) e “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (1967). Do outro lado do Atlântico, Brian Wilson fez o mesmo: ficou no estúdio compondo e gravando “Pet Sounds” (1966), enquanto sua banda, os Beach Boys, tocava mundo afora.

O sucesso deu a Martin carta branca para fazer o que bem quisesse. É incrível pensar que o produtor da maior banda do mundo tinha liberdade total da gravadora para tentar coisas novas e transgressoras, e que os Beatles nunca se acomodaram e sempre buscaram novos caminhos.

Se a lógica de mercado fosse imposta a discos complexos como “Sgt. Pepper’s”, com suas músicas estranhas, orquestrações inusitadas e letras aparentemente sem sentido, o disco nunca teria saído daquela maneira. Felizmente, o fim dos anos 60 foi um período único na história do pop, em que gravadoras – as melhores, pelo menos - ainda não tentavam controlar totalmente seus artistas e confiavam em gente como George Martin.

80 Comentários

"George Martin: a máquina do som"

10 de March de 2016 às 07:05 - Postado por André Barcinski

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Comentários
  • Adilson
    - 12/03/2016 - 03:46

    É por isso e por aquele vídeo, dissecando Heroes do David Bowie, que ainda tenho esperanças de que música bem produzida e maravilhosas sempre surgirão! Sempre tem alguém diferente e com ótimas ideias pra propagar boa música!

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  • Gustavo Dias
    - 11/03/2016 - 20:53

    Barça, na sua opinião qual o melhor e pior disco dos Beatles? Na minha lista: Melhor (Rubber Soul) Pior (Beatles for sale). Abraços

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  • Cassiano
    - 11/03/2016 - 16:54

    Não sei se é verdade ou lenda, mas dizem que quando Paul McCartney escutou Pet Sounds, acho que especificamente God Only Knows, perguntou a George Martin: "podemos fazer isso?", no que respondeu o produtor:"não, podemos fazer melhor". Aí veio Revolver, o preferido de muita gente da discografia dos Beatles. Independente de ser um melhor do que o outro (para mim é tão bom quanto), é impressionante que a guinada rumo a experimentações de estúdio dos Beatles a partir de Rubber Soul não tenha resultado em queda de popularidade. O contexto histórico ajuda a explicar, mas acima de tudo era o talento da banda (e do produtor) em deixar ganchos suficientes para que os fãs não estranhassem a mudança de rumo. E deixo minha lembrança de uma das canções dos Beatles que mais me toca, que é In My Life, do Rubber Soul (o solo de cravo é do próprio Martin), o disco onde verdadeiramente começa a "fase azul" da banda.

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  • Alvaro Jr.
    - 11/03/2016 - 07:33

    Pow... sei lah. Foi o encontro da criatura com o criador... Foi algo meio espiritual e d destino.

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  • Tamir
    - 10/03/2016 - 22:12

    Mais uma grande perda na música. Podemos dizer que foi uma sequência devastadora: primeiro Lemmy, depois Bowie e agora o eterno produtor dos Beatles. OT: Barça vi Tangerine e recomendo. Mostra uma Los Angeles nada glamourosa e suburbana, como pouco se vê no cinema americano, de prostituição, traição e imigrantes. Apesar de filmada em IPhone 5S, não parece um filme amador, a câmera não é tremida e ainda há um certo cuidado com a trilha sonora. Talvez o melhor filme indie do ano passado.

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  • Paulo
    - 10/03/2016 - 19:47

    Barcinski, eu gostaria de saber o que diferenciava o John do Paul, sabe, o que um tinha que o outro não. E qual o que mais te agradava?

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  • Ed Ward
    - 10/03/2016 - 19:16

    Não entendi pq a morte do GEORGE MARTIN (!!!!) passou BATIDA na imprensa brasileira.

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  • Pedro Carlos
    - 10/03/2016 - 19:10

    Vou falar bonito agora. Produtores como George Martin deixaram de ver o estúdio como carimbo e passaram a usá-lo como pincel.

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  • Paulo DeLarge
    - 10/03/2016 - 18:05

    OT: Barça, não tá animado nem com o Tame Impala? Não sei se tu já escreveu sobre a banda... Tu gosta?

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  • Ana
    - 10/03/2016 - 18:01

    Um dos maiores arrependimentos do Sir George Martin, segundo o próprio, era nunca ter dado ao George Harrison a atenção que ele merecia.

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