“Heroes”: como fazer um clássico de Bowie

Escrevi ontem aqui no blog sobre a série “Music Moguls”, da BBC Four (leia aqui).

Um dos trechos mais interessantes mostra o produtor Tony Visconti contando como gravou “Heroes” (1977), a faixa clássica de David Bowie, no estúdio Hansa, em Berlim.

Achei no Youtube uma versão estendida do papo com Visconti.

- Ele começa contando que a fita original da sessão está muito velha e corre o risco de quebrar se usada repetidas vezes, por isso todas as pistas foram copiadas digitalmente.

Visconti mostra a “backing track”, a base da música, apenas com George Murray no baixo, Carlos Alomar na guitarra, Dennis Davis na bateria, Bowie tocando piano e Brian Eno fazendo “lindos barulhos espaciais” com um pequeno sintetizador. “Aqui estão os cinco músicos tocando juntos”, diz Visconti. “A canção ainda não tinha vocal, melodia, forma ou estrutura. Não tínhamos nem o nome para ela”.

- Murray usa no baixo um flanger, uma espécie de eco. Visconti diz que os produtores costumam gravar instrumentos “limpos”, sem efeitos, e adicionar os efeitos depois, mas que ele e Bowie sempre preferiram gravar o instrumento com o efeito, para que isso não pudesse ser mudado depois.

- Visconti mostra sons feitos por Brian Eno em seu pequeno sintetizador e por Bowie num velho sintetizador chamado Solina (foto abaixo): “Um som meio brega”.

download 4 Heroes: como fazer um clássico de Bowie

- Uma semana depois, chamaram Robert Fripp, guitarrista do King Crimson, para colaborar. Fripp gravou três solos, todos usando microfonia, que ele obtinha se aproximando e se afastando do amplificador, enquanto Brian Eno manipulava o som com um sintetizador. “Não existe um pedal de guitarra que faça esse som. Ele é resultado de dois caras muito espertos trabalhando em conjunto”. Na foto abaixo, Eno, Fripp e Bowie trabalham em "Heroes":

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- Visconti diz que os três pequenos solos de Fripp eram muito bonitos e marcantes, mas que não funcionavam na canção. Até que ele teve a ideia de juntar os três. “E aí veio aquele som celestial de Fripp!”.

- Bowie tinha um Chamberlin (foto abaixo), um antigo synth com diferentes timbres. Ele tocou um “riff” que, segundo o produtor, lembrava as canções da gravadora norte-americana Stax, meca da soul music dos anos 60, e usou o timbre de “Naipe de Metais”. “Não é um bom som de metais, mas está na mixagem”.

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- “Bowie é muito impaciente no estúdio. Se queremos um cowbell (espécie de agogô) e não tiver nenhum, ele sai batendo em qualquer pedaço de metal até conseguir o som que deseja. Esse sou eu batendo com uma baqueta de bateria ou um garfo, não lembro bem, em um rolo metálico.”

- Visconti diz que Bowie não tinha a letra da música e escrevia no próprio estúdio. Um dia, incapaz de se concentrar, pediu a Visconti e à cantora Antonia Maass, com quem Visconti estava namorando, que saíssem por algum tempo do estúdio para ele terminar de escrever a letras. Tony e Antonia foram dar um passeio próximo ao Muro de Berlim, que ficava ao lado do estúdio, e se beijaram. Bowie viu a cena da janela e a incorporou na letra:

I can remember / standing, by the wall / and the guns, shot above our heads / and we kissed, as though nothing could fall

Eu me lembro / de pé, junto ao muro / e as armas disparando sobre nossas cabeças / e nos beijamos, como se nada pudesse cair

- Visconti conta que, ao fim das gravações, só tinha uma pista (“track”) livre para gravar os vocais. Ele e Bowie queriam que os vocais, do meio da canção para a frente, tivessem um grande eco. “Se eu tivesse três pistas poderia gravar os trechos separadamente, mas só havia uma pista, então tivemos de ser criativos”.

A solução foi colocar três microfones no estúdio. Bowie ficou de um lado da grande sala do estúdio Hansa, com um microfone à sua frente. No meio da sala, a cerca de sete ou oito metros, Visconti colocou o segundo microfone, e na outra extremidade do estúdio, a uns 18 metros de Bowie, o terceiro. O segundo e terceiro microfones foram conectados a um dispositivo que os ligava de acordo com o volume da voz de Bowie. Se ele cantasse baixinho, sua voz só seria captada pelo microfone à sua frente. Se aumentasse o volume da voz, o segundo microfone ligaria e captaria a voz de Bowie com um pouco de eco. Se Bowie gritasse, o terceiro microfone dispararia e gravaria a voz com muito eco. O resultado está na canção.

- Por fim, Visconti mostra os “backing vocals” (“vocais de apoio”) que ele e Bowie gravaram para a música. “Se você prestar atenção, vai ouvir um sotaque britânico e um do Brooklyn”.

Isso, amigos, é um produtor.

Um ótimo fim de semana a todos.

97 Comentários

"“Heroes”: como fazer um clássico de Bowie"

12 de February de 2016 às 07:05 - Postado por André Barcinski

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Comentários
  • Anderson
    - 16/02/2016 - 12:20

    Numa época onde todo mundo pensa que basta baixar um programa no computador, colocar uma placa de som externa e gravar, é muito bacana ler você escrevendo sobre isso!

    Responder
  • walter carrilho
    - 15/02/2016 - 17:42

    MARAVILHOSO! É emocionante ver histórias de criatividade e improvisação em música, cinema, etc. Legal mostrar a importância dos produtores!

    Responder
  • Marja
    - 15/02/2016 - 13:02

    Emocionante. Realmente uma obra de arte, uma conspiração entre gênios e bons profissionais.

    Responder
  • Antônio
    - 15/02/2016 - 12:03

    Muito bom, mas só uma dúvida. Existe em versão para Heroes em alemão e, se não estou enganado, uma em francês também. Não me diga que os caras tiveram esta trabalheira toda na hora de captar o áudio em três idiomas diferentes.

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  • Tamir
    - 14/02/2016 - 00:43

    OT. Para tudo!!! Essa apresentação do Ty Segall no programa do Stephen Colbert precisa ser compartilhada. Chegaste a ver Barça? O cara é sensacional. Alguém precisa trazer ele para o Brasil, urgente!

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  • 精神豚
    - 13/02/2016 - 18:12

    Tem um artigo interessante falando do encontro de David Bowie com a Nina Simone em 1974, época que ela tava por baixo, situação oposta a dele: http://time.com/4176079/david-bowie-nina-simone/?xid=tcoshare

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  • Fernanda Machado
    - 13/02/2016 - 15:57

    O.T. Desculpa André falar de outro assunto, mas não lembro em qual post você mencionou sobre como deveria ser a investigação de homicídio no Brasil. Estava lendo essa matéria e lembrei. Uma coisa que não sabia, "Em geral, a investigação de homicídios não acontece em todo o caso. Cada morte suspeita tem que ser avaliada primeiramente por um delegado antes de se decidir se vai ser investigado como homicídio, enquanto em varias cidades do mundo qualquer morte suspeita é investigada como homicídio." http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160210_homicidios_pcc_tg Adorei o post do David Bowie, achei super emocionante a maneira e o amor com que eles tratam a música.

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  • Adriano Oliveira
    - 13/02/2016 - 15:09

    Fala, Barça. Cara, não sei se você deixou passar esta banda, A Place to Bury Strangers, no seu repertório de 2015. Se deixou, sugiro dar uma chance. Sisters Of Mercy dos tempos atuais? https://www.youtube.com/watch?v=3H1miXhLM5g

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  • Elson
    - 13/02/2016 - 11:15

    Só fui ver hoje. Chega a ser emocionante ver isso.

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  • Valdemar
    - 13/02/2016 - 11:00

    ps - 2 dos melhores e mais inusitados covers do Bowie: Astronauta (Chris Hadfield) fazendo um cover de Space Oddity na estação espacial em 2013: https://www.youtube.com/watch?v=KaOC9danxNo#t=292 Seu Jorge, Life on Mars em português: https://www.youtube.com/watch?v=w6l8zrsf4LY Bom findi a todos.

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