(I Can’t Get No) Selfie!

LiveConcerts 1024x434 (I Cant Get No) Selfie!Durante a turnê dos Rolling Stones pelo Brasil, semana passada, a “Folha de S. Paulo” pediu ao jornalista norte-americano Dean Goodman que escrevesse pequenas críticas sobre cada uma das apresentações do giro sul-americano.

Goodman já assistira a 232 shows da banda, e seus textos dizem muito sobre a diferença de comportamento entre fãs argentinos e brasileiros.

Sobre o show em Buenos Aires, dia 7 de fevereiro, ele escreveu:

“O clima de expectativa é febril. Os fãs argentinos dos Stones são os mais malucos, e todo fã dos Stones no mundo sonha em fazer uma romaria até aqui para fazer parte dessa experiência sobrenatural.

Desde os acordes iniciais de "Start Me Up" ("Tattoo You", 1981), a multidão jovem em frente ao palco explode em frenesi, pulando com os braços no ar, com as vozes ao máximo. É um pouco assustador porque você não tem o menor controle enquanto é carregado por todo o campo pela multidão esmagadora.

Você tem medo de que sua perna ou tornozelo sejam fraturados a qualquer momento. No final do show você está completamente encharcado de suor. Mas absolutamente satisfeito.”

No dia seguinte, ainda em Buenos Aires, Goodman diz que os fãs argentinos se superaram:

“Como os fãs poderiam superar a loucura do primeiro show? Cantando. Eles conseguem tomar controle de "Midnight Rambler" ("Let It Bleed", 1969), o blues homicida de 15 minutos que chega na metade do show.

Durante um dos momentos de calma na canção, o público canta o riff da guitarra por vários minutos. O feitiço vira contra o feiticeiro. Mick Jagger vira o espectador pasmo e precisa lançar mão de seus 50 anos de experiência para retomar as rédeas.

Quando Keith Richards vem para frente para tocar seu par de canções previsto, a multidão aplaude e canta por vários minutos. Keith fica claramente maravilhado com a acolhida e parece estar prestes a se dissolver em lágrimas.”

Dois dias depois, em 10 de fevereiro, a turnê chega ao Maracanã. Goodman escreveu:

“É um show dos Rolling Stones ou uma convenção de smartphones? Os brasileiros podem ser belos, mas será que precisam ficar fazendo selfies durante o show inteiro, com as costas para o palco? Definitivamente não estamos mais na Argentina.

Os fãs descontraídos no Maracanã estão ocupados demais se divertindo para acompanhar as músicas. Os Stones fazem uma apresentação descuidada, com alguns erros.

Tocam uma canção mais ou menos nova pela primeira vez na América Latina, "Doom and Gloom" ("GRRR!" 2012), para um mar de rostos sem reação.”

F5vpyWN (I Cant Get No) Selfie!

Quem bom que isso foi escrito por um insuspeito crítico norte-americano e não por um brasileiro, que logo seria acusado de complexo de vira-latas ao dizer o que qualquer um pode comprovar: boa parte do público brasileiro passa mais tempo batendo papo e fazendo selfies do que vendo o show.

Acho que existem algumas razões para isso, mas a principal é o encarecimento no preço de ingressos de shows e espetáculos nos últimos anos. Isso, a meu ver, afasta cada vez mais os fãs do artista e atrai um público mais interessado no “evento” do que na música. Com os preços absurdos cobrados por shows e espetáculos, frequentá-los adquiriu um status que não existia antigamente, e o público parece obcecado em provar que esteve lá.

Isso não acontece só em shows, mas em estádios de futebol. Não dá para comparar a desanimação das plateias de hoje em nossas “arenas” superfaturadas com o comportamento do público de futebol de 20 ou 30 anos atrás, quando estádios ainda ofereciam ingressos a preços populares, torcedores podiam tomar cerveja e levar bandeiras.

Estamos formando gerações que preferem ver shows pela tela de um celular e torcedores mais interessados em aparecer no telão do estádio. Como dizem por aí, 7 a 1 foi pouco.

128 Comentários

"(I Can’t Get No) Selfie!"

2 de March de 2016 às 07:05 - Postado por André Barcinski

* preenchimento obrigatório



Digite o texto da imagem ao lado: *

Política de moderação de comentários:
A legislação brasileira prevê a possibilidade de se responsabilizar o blogueiro pelo conteúdo do blog, inclusive quanto a comentários; portanto, o autor deste blog reserva a si o direito de não publicar comentários que firam a lei, a ética ou quaisquer outros princípios da boa convivência. Não serão aceitos comentários anônimos ou que envolvam crimes de calúnia, ofensa, falsidade ideológica, multiplicidade de nomes para um mesmo IP ou invasão de privacidade pessoal / familiar a qualquer pessoa. Comentários sobre assuntos que não são tratados aqui também poderão ser suprimidos, bem como comentários com links. Este é um espaço público e coletivo e merece ser mantido limpo para o bem-estar de todos nós.
Comentários
  • Júnior
    - 02/03/2016 - 13:37

    Desculpe desviar o assunto, mas e a Glória Pires hein? Entrou na brincadeira, riu de si mesma e ainda vai ganhar um "troco" (lançou camisetas com as frases que o pessoal reproduziu nos memes). Não apaga o vexame, mas ponto pra ela

    Responder
  • Fernando Nunes
    - 02/03/2016 - 13:27

    E tem a questão da "área VIP" também, que aparentemente não existe nos shows na Argentina.

    Responder
  • Pérola
    - 02/03/2016 - 13:24

    Essa geração smartphone é realmente um saco! Acaba sendo chato, tudo tem que ser postado na rede social - Fala sério!

    Responder
  • lucmes
    - 02/03/2016 - 13:24

    Se não me engano, uma vez você comentou que os Stones nos dias de hoje só embalam festas de firma. Pois então, é esse público que estava lá.

    Responder
  • João
    - 02/03/2016 - 13:21

    André, um OT eufemístico: Hoje fazem 20 anos que os Mamonas Assassinas morreram lá na Serra da Cantareira, e como disse o Pondé no link abaixo, não julgando a qualidade das músicas, a gente vê como o Brasil ficou muito mais chato e careta desse tempo para cá, vc não acha?: http://arte.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/03/02/mamonas-assassinas/

    Responder
  • IleJr
    - 02/03/2016 - 13:00

    Fui ao show de sábado no Morumbi, e pelo menos próximo a minha área (fiquei na pista) não vi nenhum comportamento exagerado. Algumas fotos rápidas e filmagens de trechos das músicas mas bem tranquilo e comedido. No mais todo mundo estava curtindo bastante, ao meu lado havia um moleque de menos de 20 anos em transe, babando em cada segundo do show. Reunião de pais, filhos, avós, todo mundo junto e de boa. Cheguei mais cedo e fiquei sentado no chão com a namorada tomando uma cerveja, perto da gente um cara todo tatuado tomando uma e dando altas risadas com o seu pai bem mais velhinho, muito show a cena.Precisamos mais disso! Mas concordo que essa onda de selfie está insuportável, qualquer pastel que o cara come tem de tirar foto (antes que alguém reclame não tenho preconceito contra pastel, até pelo contrário)...

    Responder
  • Jairo Lavia
    - 02/03/2016 - 12:53

    Isso ocorre no mundo inteiro em grandes festivais. Talvez um show "mais selecionado" seja diferente. Não é fenômeno brasileiro os selfies, o descaso, o público que comparece. Já os preços...

    Responder
  • Luciano
    - 02/03/2016 - 12:42

    Uma hipótese absurda. Suponhamos que na hora de comprar o ingresso para o show o preço do caísse pela metade aos que se comprometessem a não levar celular. E que isso fosse fiscalizado na entrada. Daria certo.?

    Responder
  • Thiago Peres
    - 02/03/2016 - 12:24

    Boa a analogia com o futebol. É a geração mosaico. Na última vez que fui ao campo, quase briguei com uns manés porque eu não queria erguer o bendito paninho colocado sob o assento.

    Responder
  • Paulinho Perca
    - 02/03/2016 - 11:56

    Olha que maravilha o nosso Alex Atala renovando o Mercado de Pinheiros: http://www1.folha.uol.com.br/comida/2016/03/1745207-mercado-de-pinheiros-passa-a-vender-produtos-sob-curadoria-de-atala.shtml

    Responder
1 2 3 4 5 6 7 8 9