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“Oito Odiados”: Tarantino fala muito

Postado por André Barcinski em 22/01/2016 às 07:05 em Sem categoria | 137 Comments


Quentin Tarantino sempre disse que sua principal inspiração na criação de diálogos foi Elmore Leonard (1925-2013), o cultuado escritor de romances policiais (o terceiro filme de Tarantino, “Jackie Brown”, foi adaptado do livro “Rum Punch”, de Leonard).

Como grande fã de Leonard, Tarantino certamente sabe que o escritor fez uma lista de dez regras para escrever bem (leia aqui [1]). A décima regra de Leonard é das mais importantes: “Tente deixar de fora a parte que os leitores tendem a pular”. Infelizmente, Tarantino não tem obedecido a essa regra de Leonard. E “Os Oito Odiados” é a maior prova.

O filme tem quase três horas de duração, e pelo menos uma hora é dedicada a um blablablá sem fim e sem importância. A primeira metade do filme beira o insuportável. Pouco acontece, e esse pouco vem soterrado em diálogos intermináveis. Tarantino sabe escrever diálogos como poucos, mas parece tão confiante em seus superpoderes de criação que se deixa levar pelo exagero.

“Os Oito Odiados” tem dois cenários: as montanhas geladas do Wyoming e o interior de uma estalagem, onde chega uma carruagem com dois caçadores de recompensas (Kurt Russell e Samuel L. Jackson), uma criminosa (Jennifer Jason Leigh) que o personagem de Russell está levando para uma cidade para ser enforcada, e o novo xerife da cidade (Walton Goggins).

Na estalagem, o grupo encontra alguns personagens – um inglês (Tim Roth), um mexicano (Demian Bichir), um velho soldado (Bruce Dern) e um caubói quieto e misterioso (Michael Madsen). Fica o mistério: essas pessoas são quem dizer ser, ou bandidos que tentarão salvar a criminosa?

É uma premissa interessante, embora a ideia de confinar personagens em lugares pequenos não seja nada nova. Mas estender isso quase três horas?

Tarantino é um cineasta de estilo tão particular e marcante que consegue transformar qualquer lugar, seja a Europa da Segunda Guerra (“Bastardos Inglórios”), o sul escravocrata dos EUA (“Django Livre”) ou as montanhas de Wyoming em cenários que parecem fábulas. Basicamente, ele faz o mesmo filme em qualquer lugar, tempo e circunstância. Suas imagens são irreais e lúdicas, e a maneira peculiar como encena diálogos e confrontos entre os personagens dá aos filmes um tom vagamente surrealista. Nada ali parece real, mas um universo tarantinesco próprio, amplificado, em “Os Oito Odiados”, pela fantasmagórica trilha de Ennio Morricone.

Quando a história é boa, como em “Bastardos Inglórios”, os longos diálogos não atrapalham, mas impulsionam a trama. Já em “Django Livre”, “Os Oito Odiados” e, principalmente, “Prova de Morte”, a falação mais atravanca do que ajuda. Os diálogos são sempre espertos e bem feitos, mas acabam entediando o espectador, que fica à espera que algo de interessante aconteça.

Em “Os Oito Odiados”, isso é exacerbado pelo confinamento dos personagens e a fraqueza da trama. Todo mundo sabe como o filme vai terminar, e as surpresas da história, convenhamos, não são tão surpreendentes assim. Se Tarantino tivesse seguido o conselho de seu mestre Leonard e extirpado as partes que o público tende a pular, suspeito que “Oito Odiados” teria uns 80 minutos de duração. O que o tornaria um filme muito, mas muito melhor.

Um ótimo fim de semana a todos.

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