Sete irmãos e uma prisão: a própria casa


Por indicação dos leitores Ricardo Moraes e Bruno Pacheco, assisti a “The Wolfpack”, um documentário norte-americano disponível no Netflix brasileiro. Estendo a indicação a todos os leitores: não percam.

É um filme dos mais esquisitos e interessantes. Os personagens principais são os sete irmãos Angulo – Mukunda, Narayana, Govinda, Bhagavan, Krisna e Jagadesh, além da irmã caçula, Visnu – que passaram a infância e adolescência trancados dentro de um pequeno apartamento em Nova York, quase sem contato com o mundo exterior.

O pai dos meninos se chama Oscar e vem de um país andino (não fica claro qual). A mãe, Susanne, vem do meio-oeste dos Estados Unidos, é professora, e educou as crianças em casa.
Os meninos passam os dias vendo filmes na TV. A diversão da família é reencenar filmes inteiros – “Pulp Fiction”, “Batman”, “Cães de Aluguel”, “O Poderoso Chefão” – e filmar tudo para assistir depois e comentar as próprias atuações.

Os irmãos Angulo raramente saem de casa. Oscar tem as chaves e decide quando a família pode se aventurar nas ruas de Nova York. Os meninos chegaram a ficar mais de um ano trancados. Num ano bom, saíram do apartamento nove vezes.

Numa dessas saídas, a estudante de cinema Crystal Moselle viu os seis meninos andando pelo bairro, todos de terno e óculos escuros, imitando os personagens do filme “Cães de Aluguel”, de Quentin Tarantino. Curiosa, Crystal se aproximou dos rapazes e ficou surpresa quando eles contaram a história da família.

Por quatro anos, a diretora filmou a intimidade dos Angulo, justamente numa época em que os irmãos mais velhos começaram a questionar as decisões dos pais e as ordens de não sair de casa.

Uma das maiores qualidades de “The Wolfpack” é não carregar na dramaticidade ao mostrar o processo de rompimento dos meninos com o pai. Não há música triunfante quando um deles decide conseguir um emprego e sai de casa, ou quando os irmãos decidem fazer um passeio a uma praia. Tudo é mostrado de uma maneira muitos simples e sem adereços, como se fosse um filme caseiro, o que torna a experiência de assistir ao filme ainda mais impactante.

Imaginar o martírio que essas crianças sofreram é impossível. Em certa hora, um deles diz: “Outras pessoas que tivessem passado pelo que nós passamos teriam ficado completamente loucas”. Vendo o filme, não dá para ter uma ideia clara das consequências – psicológicas, comportamentais, sociais – que o isolamento causou nos irmãos.

57 Comentários

"Sete irmãos e uma prisão: a própria casa"

19 de January de 2016 às 07:05 - Postado por André Barcinski

* preenchimento obrigatório



Digite o texto da imagem ao lado: *

Política de moderação de comentários:
A legislação brasileira prevê a possibilidade de se responsabilizar o blogueiro pelo conteúdo do blog, inclusive quanto a comentários; portanto, o autor deste blog reserva a si o direito de não publicar comentários que firam a lei, a ética ou quaisquer outros princípios da boa convivência. Não serão aceitos comentários anônimos ou que envolvam crimes de calúnia, ofensa, falsidade ideológica, multiplicidade de nomes para um mesmo IP ou invasão de privacidade pessoal / familiar a qualquer pessoa. Comentários sobre assuntos que não são tratados aqui também poderão ser suprimidos, bem como comentários com links. Este é um espaço público e coletivo e merece ser mantido limpo para o bem-estar de todos nós.
Comentários
  • Renato Andrade
    - 29/01/2016 - 11:54

    Ontem assisti "Point and Shoot", se não viu vale a pena.

    Responder
  • Raquel
    - 22/01/2016 - 17:52

    Assisti assim que vi alguém comentado sobre ele e realmente é muito bom mas totalmente estranho. Acho que pela bizarrice da história em si. Torço pra que esses jovens consigam ter uma vida mais próxima do normal. O.T.: grata pela indicação do livro O Homem que Vendeu o Mundo ( do Peter Doggett ). Estou devorando Bowie!

    Responder
  • - 21/01/2016 - 09:12

    Isso me cheira à armação, no mesmo sentido de Catfish e Searching for Sugarman, que são histórias "reais" em que muitos aspectos são bem "aumentados" de forma a criar mito e dramaticidade.

    Responder
  • Dhiancarlo Miranda
    - 19/01/2016 - 23:43

    2016 fez mais uma vítima talentosa: Ettore Scola morreu!!!

    Responder
  • André Reis
    - 19/01/2016 - 22:28

    off topic: Barça vc chegou a conhecer esse cara ou sua história? achei por acaso, e é uma das coisas mais interessantes que li esse ano até agora. http://www.musicnonstop.com.br/a-incrivel-historia-do-que-trouxe-a-musica-eletronica-pro-brasil/

    Responder
  • Tamir
    - 19/01/2016 - 22:06

    O Netflix ta proporcionando muitas produções de qualidade de forma exclusiva. Não tem jeito, vou ter que assinar esse negócio.

    Responder
  • neder
    - 19/01/2016 - 15:55

    R.I.P. Glenn Frey, um dos mais talentosos representantes da cena de Laurel Canyon. https://www.youtube.com/watch?v=bYhsRZe2m0c

    Responder
  • WillMadchester
    - 19/01/2016 - 14:17

    Parece muito bom, vou assistir essa semana, Barça assisti "Os 8 Odiados" filme longo demais me irrita o Tarantino fazer um filme tão longo quando poderia fazer o mesmo em 1h45 por ex, no mais é filme comum, nada de tão fora do gênero Tarantino,

    Responder
  • João
    - 19/01/2016 - 13:00

    André, me desculpe o OT, mas esse é um texto sobre a atual música pop, não sei se vc chegou a ler, mas que pode "linkar" com o tema do blog de ontem que é o eterno embate entre a cultura popular x cultura erudita, o bom gosto x mal gosto, que você já escreveu várias e várias vezes nas suas tribunaslá vai: http://noticias.uol.com.br/opiniao/coluna/2016/01/19/abaixo-o-mito-paternalista-de-que-pobre-precisa-ser-apresentado-a-musica-boa.htm

    Responder
  • Laerte
    - 19/01/2016 - 12:18

    Cadeia é outra coisa. Isso aí é um protecionismo exacerbado. Coisa de família freak. Aposto que no futuro pelo menos um deles vai ressentir o cárcere e rodar de verdade.

    Responder
1 2 3