Publicado em 21/08/2013 às 09h48

A liberdade veste pijama

Os olhos ainda estavam inchados, como se tivesse acordado há pouco mais de meia-hora. De fato, acordara há exatos vinte minutos.

Em meio àquela paz forçada de domingo, cruzo com a moça. Moça? Menina, talvez. Quase mulher. Aquela fase da adolescência em que fica difícil entender o tamanho dos braços, das pernas, a postura, mas que, estranhamente, em conjunto, combina.

Levava dois cachorros para passear. Mini criaturinhas, serelepes, presas à coleira e guia e que teimavam, cada qual a seu jeito, ir para direções opostas. Ela tentava livrar-se do emaranhado de cordões e latidos quando passei a observá-la.

A liberdade já foi definida por escritores e historiadores de maneira bem mais nobre, mas para mim é esta simplicidade com o que os quase jovens circulam pelas ruas sisudas de uma cidade que não sorri vestindo apenas seus pijamas.

Sim, faltavam-lhe apenas as pantufas, mas a sandália Crocs fazia as vezes sem fazer feio. Feiúra, por sinal, era o que não se via na cena. Calça de algodão branca com bolinhas pretas e camiseta de grife devidamente desbotada, como cabe aos bons trajes de dormir.

Quando finalmente conseguiu resolver a pendenga entre os dois bichinhos, saiu trôpega, bocejando como só os inocentes conseguem.

Ao seu lado, chispando, passava um corredor de bicicleta. Capacete, luvas, bermuda, squeeze (hoje em dia, garrafa d’água é isso, não?).

No contraste do tempo de cada um, tive saudades de quando a vida nos permitia acordar aos poucos, dar uma boa espreguiçada e pensar em nada. Nem que fosse apenas em manhãs de domingo como aquela.

Tempo que não volta mais. Tempo que poderia ter parado no tempo.

E pensar que tudo o que ela quer, nesta idade, é crescer. Ah, se ela soubesse...

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