Publicado em 5 dezembro 2012 às 06:34
Costinha, Dercy, e o “Humor de Insulto”
Passado o golpe de marketing pessoal digno de um Goebbels, protagonizado pelo "enfant gaté" paulistano para "épater les bougeois", volto hoje ao tema do Humor.
Uso os termos em francês: "criança mimada" e "chocar os burgueses", para que se veja como o que parece novo é mais velho do que andar em pé.
Tudo o que falo e escrevo vem da minha praxis, do que aprendi, vi e vivi nestes quase 50 anos de profissão. Aliás todo discurso, seja ele oral ou gestual, escrito ou corporal denota a ideologia de quem o expressa.
Este tal "humor de insulto" pode ser divertido para a garotada enquanto é xingada a mãe dos outros, mas quando xingam a deles...aí o bicho pega. Ou seja: pimenta é refresco...mas no dos outros.
Essa malcriação, (porque se é insulto está mais pra Código Penal que para Humor), essa bobajada insultuosa independente de qualquer análise sociológico, cultural ou econômica mais profunda que ainda possa ser feita, leva-me a pensar que isso antes de mais nada é coisa de quem não cresceu, não atingiu ainda maturidade, coisa de menino mimado. Lembra-me a Palavra: "Quando eu era menino falava como menino, eu pensava como menino, raciocinava como menino; mas quando me fiz homem deixei de lado as coisas de menino".
Em resposta às críticas que são feitas a estes insultos seus defensores vez-por-outra buscam Costinha e Dercy como exemplos.
Profundo equívoco. Desconhecimento de quem e do quê se fala.
O humor dos dois tem origem latina, diferente do insulto como show, que tem recente origem anglosaxônica. Para ser mais claro que azeite: localizada na decadência moral e econômica dos EEUU.
"Seu" Costa, como chamávamos respeitosamente o Costinha, era um homem sério, de pouca conversa, educado,e um cavalheiro. E para quem o acompanhou sabe que em suas apresentações jamais disse um palavrão. Por incrível que possa parecer.
Os "insultuosos" que o tomam por exemplo nunca o acompanharam. O que conhecem dele é a "raspadinha" do youtube, uma brincadeira particular que ele se permitiu fazer. Mas põem-se a falar como se conhecessem sua obra.
Oriundo do Teatro de Revista, de influência francesa, e do show de bar ( influencia espanhola) Costinha trabalhava usando do "double sense", o "duplo sentido" das palavras - a interpretação do pornográfico ficava por conta de quem o ouvia. Esta era uma das bases do Teatro de Revista.
Já Dercy, seria herdeira direta da Commedia D'Lart italiana no dizer do crítico maior Sábato Magaldi, que teve a generosidade de nesta categoria também me incluir.
Enquanto Costinha vinha do Teatro de Revista , Dercy veio do Circo e posteriormente da Revista também.
Ambos , comediantes populares. De um humor vulgar , não refinado, mas ambos com origem profissional clássica e ciosos de como exercer seu oficio seguindo os mestres.
Dercy exagerava no escracho como forma de responder aos ataques classistas que recebeu durante toda a sua vida, sendo vitoriosa ao final, mais por respeito á sua luta e perseverança, somadas á idade, do que à sua arte.
Ambos tem pedigree, marca de origem, são descendentes, tem estirpe. São Cômicos, uma categoria dentro da Comédia, para citar o italiano Marco de Marinis em seu livro "Compreender el teatro" (Editorial Galerna. B Aires . Arg.)
Compará-los ao grosseiro fastfood estadunidense que nos chega copiado e requentado pelos neocolonizados é, além de grande equívoco e desconhecimento, ofensa à consciência profissional destes dois ícones do humor brasileiro.
Hoje temos uma nova e brilhante geração de humoristas e cômicos: Rodrigo Santana, Leandro Hassoun, Paulinho Gogó, Fábio Porchat, Fernando Caruso, Marcos Veras, Marcelo Adnet, Felipe Absalão, Ben Ludmer, e mais outros tantos que me perdoem se não os nomeio aqui por falha de memória.
Esta nova geração herda o ofício de seus antecessores, e quanto mais crescerem mais sábios se tornarão. Serão homens de fato, e poderão repetir com a autoridade conquistada: "Quando eu era menino falava como menino, pensava como menino, raciocinava como menino;mas quando me fiz homem deixei de lado as coisas de menino".
- Espalhe por aí:
- Imprimir:
- Envie por e-mail:










