Publicado em 11 dezembro 2012 às 06:37
Que Gente é Esta?
"Eu nunca havia visto você sem o uniforme."
Ouvi esta frase ontem à noite, assistindo ao filme "The Help" que trata das empregadas domésticas negras americanas, e que concorreu em várias categorias ao Oscar.
O cérebro da gente é muito curioso. Além de fantástico.
Ele opera por associação.
Imediatamente ao ouvir a frase lembrei-me do fato ocorrido há alguns anos atrás: havia sido convidado para assistir ao Dia D. Uma grande concentração evangélica na Praia de Botafogo.
Tive que ir à pé , da minha casa no Jardim Botânico até lá. As ruas completamente engarrafadas. Centenas de Õnibus transportando fiéis engarrafavam todo o trânsito.
Quando cheguei mais próximo do evento era um formigueiro humano. Milhares de pessoas dirigiam-se a pé para o local. No total 2.500.000 de pessoas reunidas de Botafogo até o Flamengo.
Na porta de um bar saiu um cidadão, destes que fazem do boteco pé-sujo escritório e moradia , olhou aquela gente e disse em alto tom:
- De onde veio esta gente:? Caiu do céu?
Olhei em volta e constatei a surpresa dele. Era a mesma que a minha: uma gente que eu nunca havia visto. Um gestual diferente, roupas diferentes, rostos diferentes do cotidiano.
Onde esteve aquele povo durante toda a minha vida que eu nunca o vira. Estranhos a mim. Ou eu estranho a eles?
Foi então que percebi. Eram os excluídos. Os uniformizados. Aqueles que a gente só vê de uniforme. Não vê como cidadão, sequer como pessoa humana.
São o uniforme que vestem. Personagens subalternos de uma sociedade restritiva. Porteiros, bombeiros, soldados, empregadas, balconistas, caixas, padeiros, office-boys, recepcionistas, babás, guardas,auxiliares de enfernagem, faxineiros, garis...
Só conhecemos seus uniformes. Do alto da nossa presunção, instalados em poltronas fofas, ou cadeiras executivas falamos de povo brasileiro como se o conhecêssemos.
Não sabemos nada sobre nossos próximos, aqueles que trabalham anônimos, sem face, mas com uniformes. Exatamente isto: uniformes - uma só forma.
Por isto o espanto do quase bêbado à porta do bar: Caíram do céu? Porque para ele, e para os que nunca haviam visto este povo sem uniforme, eles eram como Ets.
Pode não parecer, mas a isto chama-se exclusão, discriminação. Veladas. Um véu vela nossa consciência.
Mas são eles os que votam, os uniformizados... são eles que surpreendem os elitistas, os analistas de plantão, os bêbados e os equilibristas, como eu.
PS.: Foi de forma infleiz que a querida Danuza Leão esceveu em sua coluna que perdeu a graça ir a Paris ou nova York e dar de cara com o porteiro do prédio. Pois é...sem uniformes são pessoas, cidadãos...Danuza deve estar se perguntando: de onde veio esta gente? Caiu do céu? kiakiakiá
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