É Domingo, Leve Sua Loucura Pra Passear

louco É Domingo, Leve Sua Loucura Pra Passear

 

"Só os inconsciente são felizes, são-no ou não?"

"Porque a loucura seria menos sã que a falta dela?"

Estas duas frases (a primeira de Fernando Pessoa,  e a segunda de Antonio Bivar) ilustram a bizarra corrida de táxi que fiz outro dia.

O  motorista, um senhor já idoso, de alva calva , de rosto maltratado pelo tempo, escassa barba  e escassos dentes na boca deitava erudição enquanto levava-me ao destino.

Engrenava um assunto no outro como quem engrena as marchas de um carro.

E deitava falação sem sentido, sem nexo , sem direção, embora continuasse ele à direção do veículo e eu àquela altura já orando para que chegássemos sãos e salvos à minha rua.

Bastou-lhe que eu dissesse o destino para que ele a partir do nome da via dissertasse sobre Sócrates e Platão para explicar a natureza humana, Cromwell para explicar os matizes políticos do Brasil de hoje, deu um passeio por Huxley para situar a divindade, beirou a Física Quântica ao dizer que tudo depende do nosso olhar sobre os fatos... e dizia tudo isto numa enxurrada verborrágica que não admitia intervenções ou diálogo.

Era um monólogo escrito por ele e para ele. Lembrei-me do "Elogio à Loucura" de Erasmo, e comecei a suspeitar da psicopatia do próximo quando num assomo supremo  de erudição ele nomeou os jovens idealistas de hoje classificando-os de "nefelibatas".

Consegui interrompe-lo e disse:

-"Mas um homem como o senhor, que conhece Filosofia e muitas outras sabenças e ciências, e que usa a palavra "nefelibata",  o que faz dirigindo um táxi? O que o senhor fazia antes disto?"

- "Fazia, não. Faço! Faço parte de um grupo seleto de pessoas com cargos diplomáticos, numa repartição onde somos burilados como diamantes para atingirmos o auge da sabedoria e do  conhecimento."

- "Mas...se o senhor tem um emprego diplomático porque dirige táxi?"

-  "Porque hoje estou de folga!"

Aí não tive dúvidas: Instituto Pinel! A repartição era o Pinel! E ele devia estar em alta temporária, entre uma crise e outra. Era a única explicação:enfermeiros e terapeutas aparando as arestas do inconsciente daquele nefelibata ao volante para que entre todos os loucos que somos a loucura dele fosse mansa o suficiente,  permitindo que alimentasse em cada passageiro a certeza de que  louco é sempre o outro.

A dócil loucura do taxista provocou em mim um efeito terapêutico: porque eu, eu sou normal!!! Ou não? (risos)

Envelhecer É Destino do Homem

 

bibi Envelhecer É Destino do Homem

Bibi, 91 anos, cantando, trabalhando e plena de vida e talento.

 

Leio no noticiário que a agressão a idosos aumentou muito no ano que passou. Agressões físicas inclusive.

Por dádiva não passei, não passo - e com proteção -  não passarei por isso.

Porém nas redes sociais sempre que alguém quer me agredir ou ofender verbalmente a primeira palavra que usam é "velho".

Pra mim não é ofensa. Sou velho mesmo, 66 anos. Tenho direito inclusive ao Estatuto do Idoso. Aliás, vale lembrar para os pessimistas natos, que o Brasil pode não ser o melhor dos mundos mas é um dos poucos países que tem leis de proteção ao idoso. No Big Brother do Norte , os EEUU, do qual os "coxinhas"* babam quando falam, não tem essa de velho ter preferência em fila, assento em ônibus, prioridade de julgamento de processos, etc. etc. etc..

Também já fui jovem,  e quando nesse estado agredia os idosos com a palavra "velho". Bobagem de quem é jovem e ainda não sacou que tudo se repete na vida, desde tempos imemoriais.

De quem ainda não compreendeu que a vida longeva é uma bênção, e que morrer jovem não é destino. O destino do homem é viver até fartar-se.

Mais uma vez recordo-me da magistral Bibi Ferreira respondendo a um jovem que a chamou de velha:

-"A minha velhice é permanente, mas a sua juventude é passageira!"

Então -  ó jovens flores ainda em botão - quando na vossa soberbia hormonal quiserem agredir um idoso, ( quer como transferência das figuras paternas, quer como projeção do seu medo de viver e  envelhecer )  sejam mais criativos, mais originais, e  usem outra palavra, porque "velho" é realidade não é ofensa.

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*"Coxinha", diz-se do jovem que tem muita massa e pouco conteúdo.

No Tempo Que Um Burro Calado Era Doutor

burro No Tempo Que Um Burro Calado Era Doutor

Na minha infância amava a história do "Burro Falante"

Lutamos muito pela Democracia, pelo restabelecimento da Cosntituição e da ordem democrática no Brasil. E ganhamos a batalha.

Ganhamos o direito sobretudo de expressar nossas opiniões. Sobre tudo, sobre todos.

E aí virou uma geléia geral e bem tropical.

Através dos meios midiáticos mais modernos a gente fala de tudo, dá palpites sobre tudo como se doutores fôssemos de qualquer assunto.

Direito nosso, conquistado.

É no mínimo  curioso ver, por exemplo, um estudante de balé clássico dando palpites e emitindo opiniões sobre a relação diplomática do Brasil com o Irã e com os países árabes.

Ou um professor de inglês dissertando sobre pesquisas de câncer de cólon com a autoridade de quem foi formado em Medicina em Harvard.

Direito nosso.

Falamos o que queremos. E as bobagens vem juntas, para divertimento de uma galera, e indignação de outra.

Eu sou dos que sew divertem. E falo bobagens também. Tenho formação sobre  muitas das coisas que falo, mas como falo e escrevo bobagens sobre assuntos que nem sei o que são exatamente.

É a experimentação do direito de expressão que nos foi furtado por décadas de regime militar.

Sobre programação de tv então...é espetacular: só porque o sujeito é telespectador acha que entende de grade, patrocínios, escalação de elencos e por aí vai.

Engenharia de trânsito basta dirigir um carro para virar engenheiro...e quando se trata de sexualidade mesmo sendo virgem cada um é Sexólogo formado.(Risos)

A mesma coisa sobre o futebol: temos 200 milhões de técnicos no Brasil. (Mais risos).

Não pode e não deve  ser de outra maneira. É a única forma de crescermos como Nação, exercendo os direitos cidadãos.

Porém a mais das vezes é estapafúrdio. Isso é.

Para Viver a Vida Plena É Preciso Ousadia

quixote Para Viver a Vida Plena  É Preciso Ousadia

"Quixote", o Intrépido Cavaleiro

Ousadia jamais faltou-me.

Meditando sobre a palavra vem-me à mente alguns dos meus atos de ousadia, e dos quais jamais arrependo-me.

O primeiro que tenho lembrança ocorreu em Esmeraldas - MG: tinha eu 8 anos e fui ao cinema da cidade. Uma matinê. Paguei o ingresso, passaram a série (naquele tempo tinha seriado no cinema) e quando ia começar o filme acenderam as luzes e mandaram que eu e mais alguns meninos nos retirássemos. O filme era impróprio para 10 anos.

Até aí tudo bem. Mas...e o meu dinheiro? Eu pagara por horas de diversão: seriado e filme. Agora me punham pra fora e iam ficar com meu dinheiro todo? Se era impróprio porque me deixaram entrar? Minha cabecinha de menino ousado remoía essas perguntas enquanto recusava-me a sair do meu lugar.

Sozinho, levado ao saguão do cinema,  fiz um escândalo de abrir o berreiro porque exigia o valor  proporcional do ingresso,devolvido.

Naquele tempo não havia Defesa do consumidor, Leis sobre o assunto, nada. Mas meu berreiro foi tão grande que devolveram meu dinheiro. Justiça foi feita: por minha ousadia fui o único dos meninos a ter o dinheiro de volta.

A segunda lembrança vem-me do colégio interno católico,em Varginha - MG, onde éramos obrigados  a assistir a missa bem cedo, antes do café. Eu achava um saco, acordar ás 6 da manhã, banho frio e com fome ficar em pé ouvindo as orações em latim. Tinha 12 anos. Mas...ideia ousada: declarei-me não católico  e invoquei meu Direito Constitucional de liberdade religiosa. Não precisei mais ir à Missa, mas em compensação era obrigado a ficar sentado em silêncio, e só,  do lado de fora da capela até a missa acabar. Grande vantagem....(risos).

Depois vieram muitas outras ousadias...abandonar os estudos e tornar-me autodidata; a luta armada contra a Ditadura; criar o moderno teatro de rua no Brasil; recusar 5 convites da "Vênus Platinada" mesmo sem dinheiro no bolso; criar o Zebedeu e enche-lo de "cacos" na novela  dirigida pelo austero Avancini...

Cometi  muitas ousadias na vida. Como se diz: "vocês não sabem da missa a metade". Porém narra-las todas  seria cansativo e por demais para este espaço que deve primar por ser objetivo.

Mas,  aos 66 anos continuo ousado, não tenham dúvidas disso, porque este sentimento sempre carreguei na vida: maior que o Mundo é o que trago dentro de mim. E isso me dá coragem.

Reafirmo a minha liberdade parafraseando Drummond: "Vai Bemvindo, ser gauche na vida."

A Velha – e a Nova Comédia – Passada a Ferro

frro11 A Velha   e a Nova Comédia    Passada a Ferro

 

Ontem foi a estreia para convidados no Teatro dos Grandes Atores ( Barra, Rio )  da comédia em que participo: "Por Falta de Roupa Nova Passei o Ferro na Velha".

Até aí, normal. Digo normal porque esta é minha profissão, então o mínino que se espera é que eu esteja trabalhando.

Mas o diferencial para mim nesta estreia é a presença de gerações diversas no palco.

E o exemplo mais claro disso é a presença de Ana Carolina e Selma Lopes*.

selmacarol A Velha   e a Nova Comédia    Passada a Ferro

Selma e Ana Carolina

Ana com seus 20 anos de idade e  em seu primeiro trabalho cênico,  e a Dona Selma Lopes: 85 anos, 60 anos de palco, atriz, dubladora, cantora, autora, professora de artes...

Ana é um talento ainda em botão, bela, no frescor da juventude, singrando voluntariosa o mar das ilusões que abre-se para a juventude.

Selma não precisa provar mais nada, é completa. uma comediante plena. um tempo certo de comédia ( que chamamos de "timing", ), uma voz firme para desfechar cada chiste, cada piada, cada fala.

Selma eternizando-se . Ana Carolina iniciando sua caminhada.

Se trabalhar com Ana Carolina é  semelhante a desfrutar uma ninfa,  trabalhar com Selma Lopes é dádiva olímpica. Flui a comédia entre a sonoridade melódica exigida e os movimentos ágeis que surpreendem numa senhora de 85 anos.

Disciplinada, solidária, excelente bastidor e palco - como dizemos. Ana Carolina por sua vez segue os passos da veterana.

Ver e trabalhar com estas duas em cena , duas distintas e distantes gerações,  é a certeza de que o teatro permanece, de que a arte cênica continua apaixonante, sedutora, e exigindo sobretudo : talento e vocação.

Aos jovens que me perguntam que conselho daria para a profissão não olvido de dizer: vocação!

A pessoa pode ter o talento que tiver, se não tiver vocação não irá a lugar algum. Vocação é persistência, é atitude, é vontade de vencer os obstáculos.

Mirem-se novas gerações de atores e atrizes  no exemplo de Selma Lopes. Há sessenta anos , faça chuva ou faça sol, saindo de casa para cumprir com galhardia o seu ofício com o qual tem sustentado a si e sua família por toda a sua rica vida.

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*(Selma é  uma das dubladoras mais conhecidas  e imortalizou a madame Patilda de DuckTales, a Fada Azul do clássico da Disney Pinóquio, Marge Simpson de Os Simpsons, Ana Joaquina de El privilegio de amar e é a voz oficial da Atriz Whoopi Goldberg. Começou sua carreira como radio-atriz e comediante na lendária Rádio Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro, migrando com sucesso para a TV, onde se destacou em programas de humor. Foi casada com o humorista Mauro Gonçalves, o Zacarias.)

A Velha Chata Sempre Foi Chata Desde Criança

150px Voluntários da Patria A Velha Chata Sempre Foi Chata Desde Criança

Brasão dos Voluntários da Pátria

 

Se você tem curiosidade sobre a vida então sabe que quanto mais se vive mais se aprende.

Há aquele papo de que os velhos são sábios. Mentira! Ou melhor: não é bem assim. É só meia verdade: só é sábio quem formou sabença durante a vida.

A velhice por si só não traz ciência. É sempre bom ouvir as palavras dos mais velhos, mas nem sempre elas são plenas de sabedoria.

Como dizia minha avó:

_ "Ladrões também envelhecem, canalhas também envelhecem..." .

Portanto não basta ser velho para ser sábio e reto.

A velhice não ocorre de repente.Ninguém dorme jovem estulto e acorda velho e sábio.

A ancianidade é como uma estalagmite, impondo-se a cada ano, a pouco e pouco.

O mau humor, o egoísmo, a avareza do jovem de hoje estará muito maior na sua velhice. Crescerão também as suas boas qualidades.

A vetusta idade é a soma exata de todos os anos vividos. Não creio que exista uma "velha chata". Existe uma pessoa que sempre foi chata e que na velhice ficou mais chata ainda.

Eu por exemplo, desde criança sempre fui disperso, com dificuldade de concentração. Agora piorei  -  a prova do que digo é que este post de hoje era pra relembrar a data comemorativa de

fundação do Corpo dos Voluntários da Pátria em 07 de janeiro de 1865.

Então fica para o post de 7 de janeiro do ano que vem. Acabei me desconcentrando, perdendo o foco e já nem sei mais sobre o que estou escrevendo. (risos descontraídos, ou desconcentrados?).

Mas continuo de bom humor, coisa que trago desde a infância, e que na maior idade maior ficou.

Atenção ingratos, hoje é o Dia da Gratidão

grato2 Atenção ingratos, hoje é o Dia da Gratidão

No calendário oficial, hoje é o Dia da Gratidão.

Considero a Gratidão um dos mais nobres sentimentos humanos.

Numa época de prevalência da língua anglo-saxônica como língua internacional, e, por alienação, quase uma segunda Língua Pátria, vale recordar a origem da palavra Gratidão.

Vem do Latim, berço da nossa real língua lusitana, "última flor do Lácio inculta  e bela".

Em latim "Gratia" é  a raiz de origem que dará em "Gratitude", "Gratus", "Gratum" e por aí vai, e que também nos dá  a palavra Graça.

Gratidão, portanto, é o sentimento que se tem por uma Graça recebida. Graça que é sinônimo de presente, dádiva, mercê, bênção, favor.

Por curiosidade, segundo Mestre Houaiss, a palavra foi impressa pela primeira vez na nossa língua em 1553. Mas o sentimento é muito, muito anterior, nasce com a Humanidade.

Sobre a  Gratidão escreveu Victor Hugo: "Os infelizes são ingratos; isso faz parte da infelicidade deles."

Certa vez a magistral Bibi Ferreira me disse:

-" Bemvindo eu invejo você. Você já acorda agradecendo a vida. Quisera eu poder acordar assim."

Realmente é fato: eu agradeço tudo que recebo de bom. Quem me conhece pessoalmente comprova isso.

Sou grato às árvores que nos dão sombra, oxigênio e frutos.

Sou grato ao Sol, que nos dá vida.

Sou grato ao vento que nos refresca e acaricia.

Grato à água, grato ao alimento que tomo, grato por todos os gestos graciosos que os amigos e até mesmo desconhecidos fazem por mim.

Grato aos cientistas que pesquisam para que tenhamos mais saúde.

Grato aos professores que se sacrificam para que sejamos cultos.

Grato ao mistério da Vida.

É infindável a lista de coisas, pessoas e passagens pelos quais sou eternamente grato.

Quem gosta de cães conhece a fidelidade e gratidão do animal.

Se até os animais nos são gratos por que não seremos nós também plenos de gratidão pela vida e por tudo e todos que nos cercam e nos ajudam na caminhada?

Finalizo agradecendo a sua leitura desta postagem.

Quem Já Comeu Oitis Levanta a Mão

 

oiti Quem Já Comeu Oitis Levanta a Mão

Nas cores da nossa bandeira

 

Não me recordo de encontrar pelo chão, caídos das árvores,  os doces oitis de outrora.

Há anos   não vejo um oiti.

Oiti, palavra que vem da língua tupi : ui'ti.

O Rio tem oitizeiros plantados pelo Município. Faz parte da arborização de muitas cidades brasileiras, sobretudo no Nordeste.

Árvores garbosas, que dão sombra e frutos...mas os frutos...nunca mais os tenho visto.

Conheci o oiti quando bem pequeno ainda, na pracinha de Faria lemos - MG,  onde minha babá levava-me a passeio nas tardes quentes da Manqiqueira.

Catávamos oitis caídos no chão e os  provávamos com seu aroma e gosto inconfundíveis.

Creio que a maioria dos que me leem já devem ter provado um oiti. Creio que todos tiveram a curiosidade de crianças diante do mundo e seus frutos.

O oiti sequer é  um fruto nobre, é algo tão extra-ordinário como as amêndoas da Ilha do Governador, de Paquetá,  ou do Farol da Barra.

Mas comíamos os oitis. Quando menino não sabia como se chamavam, batizei-os então de "bananinhas".

Pegava-os do chão onde caíam de maduros ( verde-amarelos ) como se fossem retalhos  da nossa bandeira -  e de pronto os mordiscava.

Àquele tempo não creio que houvessem germes em tudo que se levava á boca.

Hoje é um tal de limpa e desinfeta que faz-me crer que todas as doenças, vírus, germes, bactérias  e males do mundo multiplicaram-se em cumplicidade com a indústria de detergente.

Comíamos goiaba bichada; oitis e mangas do chão; jambos e sapotis bicados de morcegos; jabuticabas no pé;  andávamos descalços; brincávamos na lama, e na chuva...e a imunidade em alta.

Hoje...um criança não pode sequer tomar Sol que já tem que ser levada ao dermatologista...sei lá...

Talvez houvesse mais saúde nos oitis caídos que em todos os complementos vitamínicos de que nos cercamos hoje.

As Minhas Minas, Gerais

 

fariofa2 As Minhas Minas, Gerais

Faria Lemos

Nasci em Carangola, na Região da Mata de  Minas Gerais. Mas nasci lá porque não havia maternidade no distrito onde morávamos: Faria Lemos onde vivi meus primeiros 5 anos de vida..

Meu pai foi à região para montar fábricas de laticínios. Tombos, Espera feliz, Guaçuí, Porciúncula...

Mas Faria Lemos  era um distrito avançado. Havia um cinema;  estação de trem; loja maçônica...haviam também as trombas-dágua. Desabavam sobre a cidade numa enchente nunca vista. Tudo boiava. Lembro-me de ver da janela de casa bois e vacas arrastados pela enxurrada que somava-se ao Rio Carangola.

Mesmo sem chuva era comum bois e vacas perdidas entrarem por dentro da casa, para terror e pânico deste mineirinho assustado.

O Distrito  tinha sua mendiga oficial: Maria-Pé-de-Boi. Uma pobre louca que servia de chacota às crianças que gritavam seu apelido enquanto ela corria atrás nos assustando.

Quando eu perdia o apetite  minha mãe mandava-me à casa de algum empregado para almoçar. Eu amava esse momento, porque aí eu comia aquela comida que só mineiros sabem fazer: arroz, tutu, couve refogada, ovo caipira e angu.

Meu pai era vereador em Carangola e chefe político local. Do PSD, em oposição à UDN. A briga era feia, com assassinatos, atentados...por conta disso minha mãe andava com guarda-costas e muitas vezes assisti a tiroteios.Era a região dos chamados  Botas-Amarelas. Certa vez , numa cidade próxima o PSD elegeu o prefeito, o Vice-Prefeito e fez o Juiz de Paz. A UDN  matou os três. Tiveram que fazer novas eleições.

Mas falando em faroeste foi em Faria Lemos que  fui ao cinema pela primeira vez na vida. Assisti um filme do caubói  Hoppalong Cassidy, que vocês nem fazem idéia de quem seja. Rsss.

Naquele tempo as distâncias pareciam  imensas...para irmos a Muriaé distante un 80 km levávamos sete horas de viagem. Feita muitas vezes num Ford bigode, com correntes presas aos pneus para vencer a lama das estradas de terra.

Do Rio para Faria Lemos usávamos o leito do trem noturno da Leopoldina Raillways, uma maria fumaça -  todos os vagões em madeira -  que tinha hora de partir do Rio, mas não tinha hora de chegar nas Gerais.

Hoje Faria Lemos chamada carinhosamente  de Fariofá é município e tem o melhor carnaval da região mesmo sendo tão pequenina com seus  3.307 habitantes. (Censo de 2010).

Mas regrediu no tempo. Perdeu a linha de trem, o cinema... perdeu muito...quase tudo... e eu perdi suas goiabeiras e goiabadas, perdi o paraíso da primeira  infância.

Quem Não Aprende em Casa a Rua Ensina

velha Quem Não Aprende em Casa a Rua Ensina

 

No ônibus lotado a mocinha estava sentada num dos bancos reservados a idosos e pessoas com deficiência.

Dedilhava com habilidade o teclado de um smartphone, enquanto tinha os ouvidos preenchidos por um headphone.

A jovem era toda hitech, embora não tenha eu conferido suas partes íntimas. Mas não o  duvido.

O ônibus sacolejava, freava, adernava como um brigue na tempestade, quase um poema de Castro Alves.

E a mocinha absorta, baixa cabeça, como para evitar o olhar de idosos que iam e vinham e ela sequer se dignava a abrir mão da sua posição usurpadora do assento diferenciado.

Até que entrou uma senhora idosa, humilde, com dificuldade visível de se manter de pé.

A hi-tech do 438 , nada.

Então, para a gota d'água que transborda o copo um senhor tocou a jovem e disse:

- "Dê lugar para a senhora!"

Foi o suficiente para que a mocinha , lourinha oxigenada, frágil e absorta se transformasse num gigantesco gremlim.

Sua face antes inexpressiva tornou-se uma figura de Bosh. Da sua voz saiu um som semelhante ao robô do reality platinado, algo como um Darth Wader suburbano:

-"Não é da sua conta. Quem é você pra me exigir? Pra me dar lição de moral num ônibus!"

Como se houvesse lugar certo para lições de moral. Embora eu continue crendo que o lugar ideal é no lar, mas quando não se tem isso em casa a rua ensina.

E seguiram-se gritos e impropérios que nos levava a crer que estávamos diante não de uma secretária ou balconista de comércio, mas de uma "comerciante" das ruas do baixo meretrício cobrando seus direitos a um freguês recalcitrante.

Os passageiros estupefatos, mantinham-se defensivamente calados. Mas a tirana foi deposta: levantou-se e a velhinha sentou-se feliz, com um sorriso de agradecimento ao cavalheiro-herói.

Aquele tipo de sorriso grato que só os muito idosos sabiamente trazem ao rosto.

O senhor que era vítima das ofensas não respondeu a tais. Apenas disse em baixo tom  para a  candidata a Medusa:

- " Não interessa o que você diz. Fato é que você já está de pé e a senhora sentada".

A jovem megera desceu do coletivo sob as vaias da galera.

A rua dera mais uma lição de moral e civismo.

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