Os Limites do Humor

chaplin Os Limites do Humor

A delicadeza e a humanidade no humor de Chaplin

 

Vira e mexe volta à discussão na mídia a questão dos "limites do humor".

Os arrivistas (do verbo francês "arriver", ou os que chegaram depois) da  geração de 80  - a década perdida - babam com um humor insultuoso, agressivo, capaz de jogar baratas vivas sobre uma atriz idosa e acharem isso muito engraçado.

Claro que estes, em nome da liberdade e da democracia acham que tudo pode. Seriam os "black blocs" do humor. A vanguarda.

Ser vanguardista não é viver nas trevas como os bárbaros, semeando  violência.  É estar á frente do seu tempo iluminando os caminhos.

Questiono  se Chaplin, Arrelia, Chico Anysio, Oscarito, Ankito, Cantinflas, Totó, Buster Keaton, Jerry Lewis, José de Vasconcellos,  e tantos outros,  fizeram do humor fúria, ódio, ira, perversão, desprezo?

Humor é amor, alegria, ternura, compreensão e  tolerância. É re/conhecer no outro a nossa própria humanidade e pelo humor buscar a palavra “absolvição”.

O humor baseia-se na capacidade crítica que temos como seres humanos, e quanto mais cultural somos ,mais refinados e mais críticos seremos no humor.

Arte é Dom, relação com a divindade, busca e revelação da inspiração da alma. Enleva e alegra a todos. Nos aproxima da essência sobrenatural do mistério humano.

Brecht fazia uma arte para pensar, sem precisar ofender, chutar, agredir.

O humor consola os tristes e deprimidos, as almas penadas e penosas. Neste ponto o humor, como um Pronto Socorro, não discute nem aprofunda temas, serve como consolo imediato.

O grande valor humano a ser cultivado  é e será sempre a busca do amor e da alegria, da felicidade.

Agredir mulheres, etnias, idosos, deficientes, direitos religiosos faz pensar em quê? Leva alegria a quem? Autoriza o ser humano no que ele tem de melhor ou de pior?

Nazistas ofenderam autistas, anões, crianças, homossexuais,  idosos, etnias, credos... e chegaram onde? A ações tais, antihumanas, que  pertencem ao mundo das  bestas, dos animais irracionais.

A base do humor - mesmo quando durante a Ditadura, para nos defender, tivemos que agredir  os Ditadores de plantão - é a ironia. A fina ironia.

Jamais a grosseria apelativa pelo sucesso a qualquer custo.

 

O Humor de Insulto e o Insulto ao Humor do Grande Othelo

othelo O Humor de Insulto e o  Insulto ao Humor do Grande Othelo

O Grande Othelo, ícone do humor brasileiro

 

No post de ontem , escrevendo sobre os artistas begros do Brasil citei o Grandde Othelo.

O post de amanhã será sobre os tais  limites do humor, ou o chamado humor de insulto.

Mas entre um post e outro lembrei-me de uma passagem na vida de Othelko, que me foi contatda pelo próprio quando compartilhamos a Escolinha do Professor Raimundo.

Trabalhava ele no Cassino da Urca, década de 40, início da sua carreira. Todas as noite entrava em cena, pequeno, frágil, negro e de origem humilde.

Mas era um gigante riquíssimo quando se apresentava no palco.

Não para um espectador grosseirão que a cada tirada de Othelo gritava ofendendo-o e interrompendo sua apresentação:

-"Palhaço!!! Sai daí ô palhaço!!!"

Isto repetidas vezes, aos brados.

Até o momento em que dentro da sua humildade, com voz serena Othelo parou, olhou fundo nos olhos do estúpido e disse-lhe:

-"Sou palhaço sim, mas profissional. Ganho pra isso, mas o senhor está sendo palhaço de graça. Não concorra comigo, deixe-me ganhar o meu pão."

O insulto partira da plateia. Talvez seja este asnático espectador  a origem paterna do tal  humor de insulto que tentam nos  legitimar nos dias de hoje.

Tributo a Ruth de Souza e Tantos Outros

ruth Tributo a Ruth de Souza e Tantos Outros

Ruth e o sorriso de vitória

 

Acostumado a assistir na TV Justiça à vaidade egóica de certos doutores da Lei que tudo podem e a ninguém prestam contas, quiçá a Deus, foi com grata surpresa que zapeando encontrei na noite de ontem uma sessão de cinema nacional neste canal.

O filme: "Sinhá Moça". Uma superprodução da Companhia Vera Cruz de cinema, ganhador de prêmios nacionais e internacionais, e produzido há exatos sessenta anos: 1953.

Espantou-me o esmero, o profissionalismo da cenografia, dos figurinos, da iluminação, fotografia,  e da interpretação e direção da obra, entre tantos.

Pude ver representando o grande mestre do teatro Eugênio Kusnet, no papel de Frei josé. Nunca havia visto sua interpretação. Era seu fã sem o conhecer, sómente pelo seu livro "Ator e Método"

Ele que foi um dos pioneiros introdutores do método de Stanislavski no Brasil.

Mas sobretudo emocionou-me a presença de Ruth de Souza, hoje com 92 anos,  premiada com este filme.

Enquanto as cenas se desenrolavam à minha vista fiquei pensando na batalha dos atores e atrizes negros para conquistar seu espaço nas artes cênicas de hoje.

Ruth de Souza, Léa Garcia, Abdias do Nascimento, Zózimo Bulbul, Jorge Coutinho, Jacyra Sampaio,  Henricão,  Isaura bruno, Antonio Pitanga, Mário Gusmão, Grande Othelo, Milton Ribeiro, Chica Xavier,  Milton Gonçalves e tantos outros anônimos ou conhecidos, que vieram na vanguarda das artes Cênicas do País.

Veio-me à lembrança a figura de Benjamin de Oliveira, o grande palhaço negro brasileiro do início do século XX;  o vitorioso João do Rio; Oswald de Andrade e muitos mais...

E meditei sobre todo o sofrimento e persistência que tiveram para que hoje todos tenham  um acesso mais democrático à profissão de artista.

Enquanto alguns entediados privilegiados dedicam-se à arte do insulto, estes lutadores negros  dedicaram-se á arte da conquista. E são vitoriosos. Têm que ser sempre lembrados com orgulho e respeito.

Sabemos que muito ainda há que fazer  e percorrer.  Mas relembro os versos de Brecht no poema "Aos que Vão Nascer": "Vocês que vierem depois de nós, pensem em nós com simpatia".

Neste domingo todo o meu aplauso para esta vanguarda afrobrasileira na pessoa de Ruth de Souza.

O Humor Latino, Tradição Brasileira

comedia O Humor Latino, Tradição Brasileira

Tipos da Commedia Dell'Arte

 

Hoje muito se discute os limites do humor.

Eu particularmente não gosto do moderno humor feito no Brasil. Ele rompe com a nossa tradição de comédias populares de origem latina, e a substitui pela invasão cultural anglo saxônica, a bem dizer do numor norte amrericano.

Nossa origem da comédia é a Commedia Dell'Arte.

Para a época em que se apresentava também rompiam limites. Havia em cena muitos falos, clisteres, bundas, pornografias e escatologias.

Claro que na naquela época mão havia esta coisa americanóide desagradável que chamamos hoje de "politicamente correto".

O teatro moderno começa na Itália do século XVI (1500 em plena Renascença), rompendo com as tradições medievais populares e tentando imitar os mais antigos.

Forma original italiana é a Commedia dell'Arte, com tipos regionais  e textos improvisados, que no século XVII (1600) dominará os palcos da Europa.

Os Artistas da commedia dell'arte deram à atividade teatral organização profissional, estruturas e normas que se incorporaram a todo o teatro posterior.

Abriram espaço para a participação das mulheres no elenco, criaram um público estável e uma linguagem própria, que transcende a palavra ou o texto poético.

Difundiu-se pela Europa ao longo dos 200 anos seguintes. E terá ecos em Portugal e  por consequência na comédia popular brasileira

Algumas de suas características, como a improvisação (Sábato Magaldi disse em artigo publicado que Dercy Gonçalves e eu éramos herdeiros remotos da Commedia Dell'Arte) e o emprego de personagens fixos, levaram certos especialistas a entendê-la como herdeira da atelana, farsa popular da antiguidade romana, embora tal parentesco não tenha sido historicamente comprovado.

O Teatro de corte italiano, ao qual não faltavam recursos materiais, promoveu a valorização da cenografia em detrimento do ator e evoluiu para a ópera e o balé.

Assim os profissionais da commedia dell'arte, sem recursos para ricas produções, tornaram-se grandes intérpretes e levaram a teatralidade a sua expressão mais elevada.

A ausência de unidade linguística na Itália pós-renascentista favoreceu o predomínio da expressão corporal sobre o texto, fato que imprimiu aos espetáculos sua vitalidade cênica característica.

As companhias eram formadas por 10 a 12 atores desempenhavam papéis fixos, tocavam, cantavam e dançavam, dominavam a mímica e a acrobacia.

O texto funcionava como roteiro indicativo do enredo, pois o que dominava a cena era a improvisação. Quer dizer: o texto era pretexto.

As peças giravam em torno de desencontros amorosos, com inesperado final feliz. Os personagens eram arquétipos: os enamorados, o doutor, o velho, (Pantaleão), os criados  (Arlequim, Polichinelo., Colombina), entre outros.

Os tipos eram caracterizados por indumentárias próprias (ícones) de cada personagem.

Os artistas e técnicos, esses animais políticos

Índice Os artistas e técnicos, esses animais políticos

Artistas de mãos dadas em passeata "Contra a censura pela Cultura". Da esquerda para a direita: Tônia Carrero, Eva Wilma, Odete Lara e Norma Benghel.

Acabo de ser convidado pelo Sindicato dos Artistas e técnicos do Rio de Janeiro para compor um Conselho de Veteranos para dar orientação, quando necessária, à Diretoria. O que muito me honra.

Deste conselho fazem parte entre outros: Batista (um dos mais antigos cenotécnicos do Brasil) o cenógrafo José Dias, o ator e produtor Ginaldo de Souza e eu.

Volto assim à cena política da minha categoria profissional.

Mas como não ser político sendo artista ou técnico em artes cênicas?

Desde os primeiros tempos do Império todos os grandes atos políticos deste País aconteceram também nos palcos e plateia dos teatros brasileiros.

A nossa categoria profissional, a dos artistas e técnicos, foi formada no Brasil desde sua origem no fragor das batalhas e atos políticos.

As lutas pela Abolição da Escravatura aconteceram muitas delas em seus manifestos e manifestações nos teatros do Rio, SP, Bahia, Maranhão...

Nas lutas contra a Ditadura Civil-Militar de 1964 os teatros foram trincheiras da sociedade civil para manifestações, leituras de manifestos e abrigo de perseguidos da repressão antidemocrática.

E na data de hoje, há 191 anos, em 1822 o Príncipe Regente, D. Pedro é apresentado ao povo no Palco do Teatro São João (hoje o Teatro João Caetano).

Renunciar ao caráter político da nossa categoria é o auge da alienação a que podemos ser submetidos.

O ser humano é um animal político, e os atores e técnicos mais ainda.

Quanto Mais Falamos Mais Tolices Dizemos

jumenta Quanto Mais Falamos Mais Tolices Dizemos

Diante do tolo até uma jumenta é sábia

 

Abriram-se as comportas da comunicação e da informação.

Agora todo mundo - inclusive eu - pode ter blog, vlog, site, msn, sms  etc. etc. etc..

E pode dar palpite em tudo.

Juntou-se a democracia, com a comunicação e  a informação.

Isto seria impossível durante a Ditadura Militar , mas também é impossível a subsistência de Ditaduras com a revolução Informática.

A queda das que restam no Mundo é questão de tempo ligado à evolução da ciência e economia. Até o Afeganistão se renderá à ela.

A Revolução Cibernética exige a Democracia. Caminham de mãos dadas, uma é complemento da outra.

Posto isto valho-me destas linhas para comentar que ao mesmo tempo quanta besteira é dita hoje por dezenas, centenas, mihares de pessoas  que se consideram doutas em tudo.

Fico observando nas mídias pessoas sendo solicitadas a dar sua opinião e palpite, seu "achismo" sobre tudo. E sem pudor, dão.

A mesma pessoa vira "doutor" em segurança pública, economia, culinária, nutrição, teologia, artes, corte e costura, política internacional,  e quejandos outros.

E tome bobices.

Diante de tamanha falta de senso faço também minha autocrítica e relembro Eclesiastes, escrito há milhares de anos e que diz: "Quanto mais falamos mais tolices dizemos".

E  a gente não aprende. rsrsrrs.

 

O Vaudeville e a Comédia de Costumes

vaudeville O Vaudeville e a Comédia de Costumes

Apresentação de vaudeville nos EEUU em fins de 1800

 

Em pleno processo de lançamento das Oficina Teatral para 2013 e 2014, com a montagem de "O Mambembe" de Artur de Azevedo (1855-1908), deparo-me com um aluno que me pergunta se o "Mambembe" é um  vaudeville.

Não. Embora o Mambembe tenha arietas e canções como o vaudeville, e mesmo , ainda assim pertence a outro gênero teatral. O "Mambembe" é o que se chamou de burleta. Vem do diminutivo de burla, no sentido de gracejo, brincadeira.

Não creio que Artur de Azevedo se atreveu no "Mambembe" em buscar maior qualidade artística que a burleta. Já que  vaudeville, em seu original é obra de inspiração mais profunda e mais bem construída.

Embora contemporânea do vaudeville que na mesma época atingia seu auge em toda a Europa, Arthur Azevedo não procurou este caminho. Antes o caminho da comédia satírica de costumes, com números musicais, e com  as personagens envolvendo-se em situações equívocas , sem aprofundamento psicológico já caminhando para o período em que o vaudeville clássico começa a ceder lugar às comédias ligeiras.

Uma das características, para nós profissionais, que denota o vaudeville é a trama que apresenta imensa quantidade de portas que se abrem e se fecham em cena durante a apresentação para movimento das personagens, provocando situações engraçadíssimas.

O termo Vaudeville é possivelmente uma corruptela do francês "voix de ville", designação de uma forma de canção cortesã parisiense, em moda no século XVI.

Foi levantada também a hipótese de sua derivação da expressão "vaux-de-vire", alusiva a um gênero de canções satíricas e licenciosas, muito populares no final do século XV no vale (val) da Vire, Normandia.

As canções de vaudeville apresentam elementos em comum com a "air de cour", tipo de canção profana muito popular no reinado de Luís XIII. Nos séculos XVII (1600)  e XVIII (1700) tornaram-se frequentes os versos de sátira política. As melodias perpetuaram-se na tradição oral e a maior parte dos registros escritos que chegaram ao século XX trazem apenas o texto literário, com indicações acerca da canção original.

Imitado no final do século XIX em toda a Europa, o vaudeville perdeu posteriormente sua especificidade ante o auge da comédia de costumes e chegou a converter-se em denominação genérica de comédias ligeiras e frívolas, desprovidas de pretensões artísticas, como aconteceu  no Brasil com muito sucesso durante o século XX (1900).

Para exemplificar este sucesso no século XX  cito "Trair e Coçar é só Começar", típica comédia de costumes, com entradas e saídas por portas, e situações equivocadas que vão num crescendo até seu desfecho final. Mas também não é um vaudeville.

O “Caco” no Teatro e na TV

Bonifácio com Dória O Caco no Teatro e na TV

Eu e Dória em Bonifácio Bilhões: cacos pra todo lado! 

Há poucos dias o autor Walcyr Carrasco disse que não admite que atores ponham cacos no texto dele.  Outro grande autor, Lauro César Muniz é da mesma opinião.

Eles não deixam de ter razão. Afinal colocar "cacos" é dom para poucos e quem não sabe fazê-lo pode estragar um bom texto.

Disse-me dr. Daniel Rocha, benemérito Presidente da SBAT em idos tempos,  que o maior caqueiro do Brasil foi o ator  Leopoldo Fróis( 1882-1932). Disse-me que Leopoldo deixava  Jorge Dória no chinelo em matéria de cacos.

Já o Dória uma vez me disse: "Bemvindo eu não ponho cacos, quem põe cacos é ator menor, eu escrevo textos inteiros". E ria-se  da sua diatribe.

Mas aí me lembrei de Viriato Corrêa, que em 1911 era Deputado Estadual no Maranhão. Foi depois eleito Deputado Federal , permanecendo na Câmara Federal até o advento da Revolução de 1930 que trouxe Getúlio Vargas.

Como Deputado Federal, muito ajudou no curso e aprovação da Lei 5988 que tomaria o nome de Lei Getúlio Vargas, de proteção ao Direito do Autor.

Durante o seu mandato entre outros projetos, apresentou um muito curioso, que criava uma multa para intérpretes que incluíssem no texto “cacos” nas peças teatrais que interpretassem

Ainda bem que o projeto  não vingou. Aliás, eu e Jorge Dória neste caso estaríamos na falência total.

Memória das Artes Cênicas e a Inquisição no Brasil

 

LgoCapim Malta19121 Memória das Artes Cênicas e a Inquisição no Brasil

Largo do Capim em foto de 1888. O Largo desapareceu em 1943 com a construção da Avenida Presidente Vargas

 

A Casa de Ópera  do Padre  Ventura, instalada num barracão de madeira situado no antigo Largo do Capim - Rio de Janeiro - foi o primeiro teatro do Brasil a ser devorado por um incêndio.

Representava naquela noite a peça de Antonio José - O Judeu, "Os Encontros de Medéia". Nessa peça o autor exige no segundo ato que Jasão enfrente um dragão soltando fogo pelas narinas... vai daí...nesse momento o assoalho do tablado foi atingido por uma das incendiárias ventosas do Dragão e o fogo logo se expandiu por todo o teatro que não resistiu.

Assim, em 1769, a Casa de Opera do Padre Ventura desapareceu quase dois anos  após o seu surgimento.

Ficando comprovado que o padre não era tão venturoso quanto o seu nome (Ventura) , e que Antonio José , o Judeu, já era chegado a um fogo, já que foi queimado vivo em Portugal condenado pela Inquisição, pelo "crime" de ser judeu e dramaturgo.

Hoje, acredito,  vivem todos lá no Céu: o Judeu e o Padre.

O Dragão, e o Torquemada devem estar no  Inferno que é lugar de Dragão desastrado e  de Torturador, seja da Inquisição ou não.

torquemada1 Memória das Artes Cênicas e a Inquisição no Brasil

O "bondoso" Torquemada.

 

A Crítica e As Regras Fascistas nas Artes e na Sociedade

rei A Crítica e As Regras Fascistas nas Artes e na Sociedade

O bom-gostismo do Rei Sol, Luís XIV

 

No século XVII (1600) o pensamento aristotélico francês, em plena Renascença, numa  França ainda longe da revolução burguesa, cria um elitismo intelectual...uma vez que  o êxito do dramaturgo passa a estar diretamente ligado  pela adaptação de sua obra às regras então criadas,e quem poderá avaliar esta adaptação às regras senão aqueles que tem o mais perfeito conhecimento das ditas regras, ou seja: a casta dos "eruditos".

Estas regras, mais tarde viriam a ser aperfeiçoadas pela burguesia pós revolucionária.

Um "erudito" da época do rei sol, um tal de La Mesnardiére declara sem rodeios que os únicos juízes autorizados são "as pessoas de espírito, conhecedoras e razoáveis".

Diferentemente de todos os profissionais da cena para quem a principal regra é agradar ao público, os aristocráticos aristotélicos recusam este ponto de vista, alegando que o referido público é desprovido das luzes requeridas, isto é , do conhecimento das regras...assim, os "doutos" fazem de tudo para desacreditar este público, para tornar a sua opinião ilegítima, pois por mais ignorante 'das regras" que seja, é este público que lota as salas e alimenta as apresentações teatrais.

O único "público legítimo" aos olhos dos doutos - essa gente culta que sabe "das coisas",ou essa "gente honesta" que tem opinião acerca de tudo seria constituída  muito mais de  um público leitor que de um público verdadeiramente de teatro.

Todos nós convivemos com este tipo de raciocínio.  Sobretudo nos sucessos populares de teatro, nas comédias, onde o público lota as salas e  aplaude de pé  enquanto  a crítica  desconhece o gosto do público, e bate na tecla do decoro, do bom-gostismo, e "das regras.

São os mesmos "doutos" que dizem que "o povo não sabe votar"; que  "as igrejas exploram a fé do povo"; que "é preciso defender o povo..." etc.etc..

Para esse tipo de gente o povo é uma entidade distinta deles, vista de fora,  e sempre infantil e ignorante que necessita de sábios que o guie.

Esse tipo de pensamento não é de esquerda nem de direita: é fascista por excelência, já que exige que o povo em sua "ignorância" e "ingenuidade" seja comandado por "condottieres" como Mussolini, ou como  o "paizinho" Stalin.

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