Publicado em 20 abril 2013 às 06:07
SUS: A Saga – 01
Começo hoje uma série de posts sobre minha penitência no SUS do Rio de Janeiro. Preciso de um tipo de insulina que custa muito caro que o Estado tem obrigação legal de me fornece-la. Não fornece. Preciso entrar com uma ação judicial para isto. E para esta ação preciso de um laudo médico que só tem validade se dado por Endocrinologista do Serviço Público. Assim começa minha via dolorosa pelo SUS e congêneres.A burocracia para conseguir este laudo valerá em outro dia um post. Hoje falarei sobre minha presença num Posto Médico do SUS. Espero que tenham um pouco da paciência que tive estes dias para com ela lerem este artigo até o final.
Pra começar reafimo aos robertos freires da vida, e aos carreiristas da traição em geral, que a luta de classes não acabou.
Lá estava eu, um inadequado ao ambiente do Posto de Saúde , quase um ET, sentado entre os pobres e desvalidos do País.
Minha presença era similar a uma excrescência afrontando a grotesca harmonia do local.
Munido de um Ipad para aguentar a espera de atendimento, vestido com roupas de grife, com um gestual e tons de voz paradoxais às dezenas de pessoas ali na espera eu era a contradição das classes sociais, constrangendo com a minha presença
o povo humilde, que talvez preferiria esconder sua humilhação de tantas horas de espera .
Tentei ser mais um cidadão exercendo o direito dos impostos pagos. Um simples cidadão, em busca de um laudo médico do Serviço Público para obrigar o Estado através de ato da Justiça a fornecer-me a insulina que a Lei já garante mas que o Estado não cumpre.
Sentado num banco, de cabeça baixa, evitando ao máximo ser reconhecido e não provocar escândalos ainda assim não fui bem sucedido.
O povo humilde ali presente me reconhecia e me festejava. Sobretudo as classes C e D , são minhas telespectadoras e sou grato por isto.
Os funcionários, gentis; o Posto, cuidado, higiênico, limpo. Mas falta tudo, de médicos a medicamentos.
No primeiro dia depois de cumprir a burocracia de chegada esperei tanto que tive que ir embora pois comecei a ter hipoglicemia por passar da hora da colação (refeição ligeira necessária aos diabéticos).
Voltei nos segundo dia, e com dois torrôes de açucar burlei a hipocglicemia que 4 horas de espera iam formando.
Ao meu lado uma senhora de 63 anos esperava há 8 hs. na fila para ser atendida.
Reconheci na mesma fila mais umas tres senhoras que no dia anterior desistiram e voltaram agora como eu.
Comecei este post falando da luta de classes pois mesmo sendo de origem humilde, senti-me com um peixe fora dágua ao tentar exercer minha cidadania como pessoa comum. Como um deles.
A pergunta que todos me faziam era: porque o senhor veio aqui? O senhor não precisa disto aqui?
E eu tentava explicar a eles sobre o Laudo e sobre a prática e direitos da cidadania.
De Laudo eles entendiam, mas da Cidadania parecia que eu falava aramaico ou qualquer outra língua morta, latim por exemplo.
Pelo celular Doia me dizia: Não vai dar em nada, está perdendo seu tempo.
Mas eu precisava , já que estava lá, saber, ver, sentir, como o povo se vira, como funcionam ou não estas coisas.
Amanhã continuarei, falando das pessoas presentes lá, da riqueza da vida dramática e tragica destes cidadãos dos quais fiquei ouvindo relatos de suas vidas desvalidas.
Estes cidadãos simples que as elites desta Sul América a partir dos golpistas venezuelanos, e de governos omissos, insistem em manter sob controle e custódia, martírio e humilhação.
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