Fiz uma entrevista com Eduardo Vizeu, adolescente transgênero.

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IMG 0978 A transformação do corajoso transgênero Eduardo

Nascido no sexo feminino, hoje aos 16 anos ele é Eduardo. Como foi a sua infância? Se sentia inadequado em algumas situações? Como professora sua, só me lembro de certa timidez, sagacidade e momentos de alegria. A provável tristeza eu atribuía à timidez. Sempre fui, me senti muito inadequado, no Marly Cury (escola de quando tinha 6 anos) sempre fui dito como estranho. Não brincava com as garotas pq sempre fui excluído e não brincava com os garotos por ser socialmente na época uma garota. Nunca gostei de futebol também, brincadeira de costume dita tipicamente masculina para a idade. Eu nunca me senti uma garota, numa roda de garotas eu nunca me via como uma delas. Inadequado? Sempre me senti em toda a situação. Esse sentimento que vivi por muito tempo não era traduzido por um rótulo ou em palavras. Eu nunca soube verdadeiramente explicar. Que tipo de pensamentos e angústias lhe passavam pela cabeça nessa época e especialmente quando entrou na adolescência? Eu nunca me senti bem com meu corpo, falando de forma individual. Eu sempre tive diversos problemas em ter uma vagina, não conseguia reconhecê-la como minha. Eu tocava nela e me assustava com a sensação que causava em mim. Tinha uma desconexão enorme desde criança. Com o tempo, fui tentando me adaptar ao modelo, tentar ser menos estranho, menos excluído. Sempre me senti tão errado sendo visto como garota e conversando com elas como uma delas... Nunca fui, simplesmente assim. Todas as minhas amigas queriam que os peitos crescessem e quando isso começou a acontecer comigo eu não parava de levantar meus braços para ver meu peitoral mais liso e para que eles não aparecessem. Queria emagrecer de qualquer forma para que eles não se tornassem maiores. Me zoavam por não usar sutiã, que tentei evitar até o último tempo. Elas começaram a me encher falando que eu deveria usa-lo então me adequei. Eu sempre me senti totalmente deslocado, sempre. E agora? Se sente pertencendo mais? Fitting in? E os amigos? Novos ou os mesmos? Não necessariamente me encaixando, mas tudo parece mais natural e menos forçado. Quando eu fiz a cirurgia e me recuperei, senti como se meu corpo sempre tivesse sido assim. Sendo assim, posso afirmar que me relaciono muito melhor com pessoas, tanto de forma romântica como em amizades. Tenho menos vergonha, sou muito mais eu. A autoestima subiu. E a parte amorosa e sexual. Quem te atrai hoje? Existe um gênero alvo? Um perfil especifico? Eu sempre gostei de meninos. Minha orientação sexual é diferente da minha identidade de gênero. Minha identidade só diz respeito ao gênero a qual pertenço (masculino). Minha orientação sexual é questão ao meu desejo. Mesmo sempre me atraindo por garotos, também me atraio por garotas. Acho que muito independente de qualquer identidade, expressão ou genital, me apaixono por alguém e essas características pouco importam. Rótulos são limitadores e geralmente negativos, mas se vc tivesse que se colocar um tag, qual seria ele? Reconheço a importância de se rotular na nossa sociedade atual, de forma política para existir e conseguir diretos. Entretanto, a ideia de ter que me encaixar e lidar com o fato de que me atrairia por apenas um dos gêneros me assusta. Atração pra mim acontece, pode até acontecer com mais frequência com garotos ou garotas,  mas não deixaria de me sentir atraído por pessoas do outro gênero. A noção de sexualidade é muito limitante e é muito diferente para cada pessoa. Todo mundo se sente de uma forma, rótulos não passam de generalizações. Por isso, acabo me identificando como pansexual que funciona basicamente como rótulo de quem não se rotula realmente. Tenho a potência de me sentir atraído por qualquer gênero, independente se é um homem, uma mulher ou uma pessoa que não se identifica com nenhum dos dois. Até o rótulo de ser homem é muito limitante. O que é ser homem afinal? Da mesma forma que é muito social se torna algo e uma pergunta extremamente subjetiva. Me identifico como homem trans exatamente para existir e conseguir direitos. Politicamente é necessário "se traduzir". De qualquer forma, me identifico muito como garoto e não por uma questão de estereótipos de gênero. Nunca gostei de quase nada que um garoto "deveria gostar" segundo a sociedade. Sou extremamente feminino e sempre fui. De outro lado, me identifico com a forma que sou. Simplesmente sou o que sou. Não consigo explicar de outro jeito, me sinto assim desde que tenho conhecimento da minha pessoa. No final, ser trans é mais uma forma de existência e libertação da caixinha do gênero. Transgredir essas normas de forma direta.Ser trans talvez seja o único rótulo com que me identifico e que abraço completamente. Quais são as suas aspirações, metas e sonhos pra um futuro nem tão próximo? Tem planos profissionais? Algum sonho? Ainda não sei muito bem o que quero fazer, mas queria trabalhar em algo que ajudasse diretamente pessoas trans. Não sei se quero ser psiquiatra ou psicólogo. Profissionalmente ainda não tenho certeza de nada. Tenho o sonho de fazer a faloplastia  mas ainda tenho muitas dúvidas sobre isso. Como foi a participacao da sua família nesse processo de transformação? Minha família com certeza foi a parte mais importante do meu processo de transição. Sem eles eu provavelmente estaria ainda numa depressão profunda. No início foi muito difícil e ainda é. Com o tempo todos foram aceitando melhor e se conformando que eu sou assim e que essas são as coisas que eu quero fazer para estar mais confortável. Qualquer passo foi um grande alarde e toda a família conversou, todos tiveram muita calma para conversar. Sem ajuda do João Nery (primeiro homem trans operado do Brasil e ativista dos direitos humanos) eu não teria conseguido nada. Ele que lançou as ideias na cabeça da minha mãe com mais delicadeza falando o quão iria me ajudar. Sem suporte familiar e financeiro eu não sei o que seria de mim icon smile A transformação do corajoso transgênero Eduardo Para finalizar, como acha que pode ajudar pessoas em situação semelhante à sua? Em 27 de julho de 2017 15:48, Bia Willcox <bia@interfaceenglish.com.br> escreveu: Fiz uma entrevista com Eduardo Vizeu, adolescente transgênero. Nascido no sexo feminino, hoje aos 16 anos ele é Eduardo. Como foi a sua infância? Se sentia inadequado em algumas situações? Como professora sua, só me lembro de certa timidez, sagacidade e momentos de alegria. A provável tristeza eu atribuía à timidez. Sempre fui me senti muito inadequado, no Marly Cury (escola de quando tinha 6 anos) sempre fui dito como estranho. Não brincava com as garotas pq sempre fui excluído e não brincava com os garotos por ser socialmente na época uma garota. Nunca gostei de futebol também, brincadeira de costume dita tipicamente masculina para a idade. Eu nunca me senti uma garota, numa roda de garotas eu nunca me via como uma delas. Inadequado? Sempre me senti em toda a situação. Esse sentimento que vivi por muito tempo não era traduzido a um rótulo ou em palavras. Eu nunca soube verdadeiramente explicar. Que tipo de pensamentos e angustias lhe passavam pela Cabeça nessa época e especialmente quando entrou na adolescência? Eu nunca me senti bem com meu corpo, falando de forma individual. Eu sempre tipo diversos problemas em ter uma vagina, não conhecia reconhecê-la como minha. Eu tocava nela e me assustava que a sensação era em mim. Tinha uma desconexão enorme desde criança. Com o tempo, fui tentando me adaptar ao modelo, tentar ser menos estranho, menos excluído. Sempre me senti tão errado sendo visto como garota e conversando com elas como uma delas, nunca fui, simplesmente assim. Todas as minhas amigas queriam que os peitos crescessem e quando isso começou a acontecer comigo eu não parava de levantar meus braços para ver meu peitoral mais liso e para que eles não aparecessem. Queria emagrecer de qualquer forma para que eles não se tornassem maiores. Me zoavam por não usar sutiã, que tentei evitar até o último tempo. Elas começaram a me encher falando que eu deveria usa-lo então me adequei. Eu sempre me senti totalmente deslocado, sempre. E agora? Se sente pertencendo mais? Fitting in? E os amigos? Novos ou os mesmos? Não necessariamente me encaixando, mas tudo parece mais natural e menos forçado. Quando eu fiz a cirurgia e me recuperei, senti como se meu corpo sempre tivesse sido assim. Sendo assim, posso afirmar que me relaciono muito melhor com pessoas, tanto de forma romântica como em amizades. Tenho menos vergonha, sou muito mais eu. A autoestima subiu. E a parte amorosa e sexual. Quem te atrai hoje? Existe um gênero alvo? Um perfil especifico? Eu sempre gostei de meninos. Minha orientação sexual é diferente da minha identidade de gênero. Minha identidade só diz respeito ao gênero a qual pertenço(masculino). Minha orientação sexual diz questão ao meu desejo. Mesmo sempre me atraindo por garotos, também me atraio por garotas. Acho que muito independente de qualquer identidade, expressão ou genital, me apaixono por alguém e essas características pouco importam. Rótulos sao Limitadores e geralmente negativos, mas se vc tivesse que se colocar um tag, qual seria ele? Reconheço a importância de se rotular na nossa sociedade atual de forma política para existir e conseguir diretos. Entretanto, a ideia de ter que me encaixar e lidar com o fato de que me atrairia por apenas um dos gêneros me assusta. Atração pra mim acontece, pode até acontecer com mais frequência com garotos ou garotas mas não deixaria de me atrair por pessoas do outro gênero. A noção de sexualidade é muito limitante e é muito diferente para cada pessoa. Todo mundo se sente de uma forma, rótulos não passam de generalizações.Por isso, acabo me identificando como pansexual que funciona basicamente como rótulo de quem não se rotula realmente. Tenho  a potência de me atrair por qualquer gênero, independente se é um homem, uma mulher ou uma pessoa que não se identifica com nenhum dos dois. Até o rótulo de ser homem é muito limitante. O que é ser homem afinal? Da mesma forma que é muito social se torna algo e uma pergunta extremamente subjetiva. Me identifico como homem trans exatamente para existir e conseguir direitos. Politicamente é necessário "se traduzir". De qualquer forma, me identifico muito como garoto e não por uma questão de esteriótipos de gênero. Nunca gostei de quase nada que um garoto "deveria gostar" segundo a sociedade. Sou extremamente feminino e sempre fui. De outro lado, me identifico com a forma que sou. Simplesmente sou o que sou. Não consigo explicar de outra forma, me sinto assim desde que tenho conhecimento da minha pessoa. No final, ser trans é mais uma forma de existência e libertação da caixinha do gênero.Transgredir essas normas de forma direta.Ser trans talvez seja o único rótulo que me identifico e abraço completamente. Quais são as as suas aspirações, metas e sonhos pra um futuro nem tão próximo? Tem planos profissionais? Algum sonho? Ainda não sei muito bem o que quero fazer mas queria trabalhar em algo que ajudasse diretamente pessoas trans. Não sei se quero ser psiquiatra ou psicólogo. Profissionalmente ainda não tenho certeza de nada. Tenho o sonho de fazer a faloplastia mas ainda tenho muitas dúvidas sobre isso. Como foi a participacao da sua familia nesse processo de transformacao? Minha família com certeza foi a parte mais importante do meu processo de transição. Sem eles eu provavelmente estaria ainda numa depressão profunda. No início foi muito difícil e ainda é. Com o tempo todos foram aceitando melhor e se conformando que eu sou assim e que essas são as coisas que eu quero fazer para estar mais confortável. Qualquer passo foi um grande alarde e toda a família conversou, todos tiveram muita calma para conversar. Sem ajuda do João Nery(primeiro homem trans operado do Brasil e ativista dos direitos humanos) eu não teria conseguido nada. Ele que lançou as ideias na cabeça da minha mãe com mais delicadeza falando o quão iria me ajudar. Sem suporte familiar e financeiro eu não sei o que seria de mim. Para finalizar, como acha que pode ajudar pessoas em situação semelhante à sua? Ele respondeu por aqui:

href="http://entretenimento.r7.com/blogs/bia-willcox/files/2017/07/IMG_05952.jpg">IMG 05952 300x300 A transformação do corajoso transgênero Eduardo