artigo de Bia Willcox


Aprendi ao longo da minha formação que as brigas, desentendimentos e rompimentos se dão por algo, às vezes bobo, que se falou ou fez. Ou seja, briga-se, ressente-se, fere-se mutuamente por ações - algo que se fez ou se entendeu que se fez e que fez mal de alguma maneira ao outro ou outros. Assim se faz um desentendimento, afastamento ou um barraco mesmo, entendia eu.

Entendia até pouco tempo atrás.

Precisei viver e amadurecer um pouco (pra não dizer que envelheci)  pra descobrir que o desamor, o ressentimento e o distanciamento não são resultado unicamente das atitudes que se toma ou do que se diz ao outro. Quiséramos nós que fosse objetivo assim. Não é.

Entendo hoje que há pseudo brigas que jamais terão um fim. Há mágoas que resistirão a qualquer tempo e adversidade, há o rancor eterno que jamais desaparecerá completamente.

Segundo Cervantes não há ressentimento que o tempo não faça esquecer e nem dor que a morte não cure.

Concordo que tudo se esvai com a morte: o ressentimento, a dor e, inclusive, a possibilidade de se reverter, se reconciliar e se dar e doar ao outro. E essa é a maior agonia. Mas Cervantes chutou na trave, apesar do belo chute.

Perdoe-me Cervantes, talvez a vida tenha sido menos contundente e a perspectiva de paz e amor mais provável e nítida, mas há ressentimentos que tempo algum faz esquecer, há raivas que não passam e rancores que se auto nutrem para sempre.

Sabe por que? Porque o que o outro fez é só a desculpa, o motivo falso (e muitas vezes fazem parte de um processo pouco consciente). Porque a razão verdadeira da briga e do afastamento não é o que se faz, mas o que se é.

Muitas vezes pessoas se afastam, somem e não entendemos bem o que fizemos. Fazemos elocubrações mentais para entender o tamanho do que fizemos ou dissemos (se é que aconteceu mesmo) e de que forma pudemos aborrecer tanto o outro a ponto de uma aproximação com bandeira de paz depois de uma bela dose de tempo cervântico, não funcionar como trégua, aproximação, ou popularmente, um fazer-as-pazes.

E aí veio a vida, o tempo e as surras solitárias que levamos de nós mesmos ao longo dele, pra me ensinar a maior de todas as lições: pessoas se afastam ou mesmo brigam com outras pessoas e nem sempre é porque as outras pessoas fizeram algo que justificasse tal medida mais radical.

As brigas-para-sempre acontecem pelo incômodo de ter que conviver com o que o outro é, como ele se coloca, como ele vê a vida e se relaciona. Briga-se por disputa, por ciúme, por inveja, por irritação, por impotência ou impaciência, sem que o outro tenha feito nada tão denso e profunda para justificar tal guerra.

Sendo assim, se alguém brigou com você e você não acha que o que fez (se tiver feito mesmo)  justifique algo tão duro e duradouro, considere o fato de que pode não ser mais pelo que disse ou fez e sim por ser você, por se tratar de você, do jeitinho que você é.

Aliás, infelizmente, já que adoraria crer na afirmativa de Cervantes e esperar a cura do tempo.

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fotosbia 179 Coisas que nem o tempo faz esquecer