Conhecimento para quê? Academia pra quê?

 

O conhecimento para ser degustado, apreciado e aplicado de forma individual e pessoal ou coletiva e menos pessoal, precisa do meio adequado para se mover, fluir e se moldar dentro de cada um: o que transmite e o que recebe esse conhecimento.

Só fazemos bom uso do que adquirimos quando transformamos conhecimento simples em virtude, adicionando sabedoria a ele. Sócrates foi um precursor do que hoje chamamos de habilidades de vida, ou habilidades socioemocionais. O maior saber é aquele que diz respeito ao próprio homem - "Só sei que nada sei". Eis o verdadeiro objeto do conhecimento - a alma humana, onde reside a verdade e a possibilidade de alcançar a felicidade.

Eis que chegamos a um novo ponto da linha do tempo onde habilidades cognitivas não bastam, o conteudismo desenfreado dá lugar gradativamente a uma proposta de educação de valores e habilidades. 

Num mundo acelerado pela informação instantânea e pela mudança de demandas e paradigmas do mercado, tornou-se indispensável formar cidadãos mais preparados para o século 21. Especialmente em tempos em que as famílias terceirizam muito do que antes eram suas atribuições. O afeto familiar, o amor maternal e a sensação plena de ter um porto seguro são decisivos para um melhor ou pior desenvolvimento e desempenho da criança. Lembrando que o afeto familiar demandado pela criança  é sobretudo composto de atenção (o que os americanos chamam de quality time), formação de caráter e personalidade e , claro, os limites para que a mágica da boa educação aconteça.

 

Nesse aspecto, há hoje alguns gaps nas famílias - muitos são fruto da falta de tempo e da demanda frenética do mundo online e off-line dos adultos, e outros, fruto de certa anestesia ou apatia no que tange à real necessidade de se formar com valores e habilidades de vida. Descuida-se da atenção, compensa-se isso com falta de não, superprotege-se mais, compensa-se a ausência com excessos materiais e terceiriza-se tudo o que está faltando no processo de formação dos filhos.

 

É aí que entra a escola. Sem qualquer juízo de valor, é fato que a escola hoje assumiu uma responsabilidade que antes não lhe cabia exclusivamente: desenvolver habilidades não-cognitivas: as ditas habilidades socioemocionais. Como equilibrar? Como manter a excelência dos conteúdos sem descuidar dos ensinamentos de sabedoria e virtude dos quais Sócrates já falava?

 

O Grupo Eleva Educação promoveu no dia 1o de julho último, um encontro para apresentar sua mais nova criação: uma plataforma diversificada (atividades escritas, vídeos, jogos e projetos colaborativos) para trabalhar habilidades socioafetivas. Eu brinquei quando me deparei com o projeto: "a melhor terceirização do que um dia esperamos que a família cuidasse". Claro que não é só isso e eu simplifico ao brincar, mas hoje a escola cuida de mais e o fato de sistematizar a missão, faz com que as chances de terem sucesso nisso aumentem muito.

LIV - Laboratório de Inteligência de Vida, cujos norteadores beberam de algumas fontes entre elas, a obra do jornalista  Paul Tough - 'Como as Crianças Aprendem'.

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A defesa da força do caráter e do desenvolvimento de habilidades como autocontrole, perseverança, determinação, resiliência não é o que mais me chamou a atenção no discurso de Tough. A abordagem do assunto é muito convincente, baseada em suas extensas observações, e tem como uma de suas bandeiras a superação de fracassos para chegarmos onde queremos. Isso é o que de melhor podemos ensinar na escola.

Mas o que mais me chamou à atenção no texto do Paul Tough é que ele vai além do óbvio manual para pais educarem seus filhos. Ele trata das ironias e perversidades advindas das desigualdades sociais na sociedade americana. Ele mostra crianças privilegiadas e pobres, ambas privadas de certas experiências emocionais e intelectuais que formam um caráter consistente. Paul nos mostra os efeitos psicológicos da desigualdade social através de histórias de quem mais sente e se ressente dos efeitos disso: as crianças. Esse é o lado mais genial da obra de Paul Tough, espero ardentemente que não passe despercebido pelos leitores ávidos por um manual de instruções de problemas solucionados, na educação de seus filhos.

 

No mais, encerro meu humilde ensaio batendo palmas para toda e qualquer iniciativa que vise a formar cidadãos mais humanos, empáticos e determinados em causas próprias ou bandeiras maiores, sem jamais deixar o lado bom da força. Ashla!!

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