Depois da entrevista com o adolescente trans Eduardo, pedi a Tania, mãe dele, um depoimento com sua versão e sentimentos. Eis o que recebi e compartilho com vocês.

IMG 1001 Mãe do adolescente trans Eduardo faz o seu relato sobre a transformação

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IMPRESSÕES DE UMA MÃE ACERCA DA TRANSIÇÃO DE SEU FILHO.
Tania Vizeu

Minha “filha” sempre foi uma “menina tímida”, com um olhar penetrante e extremamente inteligente. Única “filha”, “única neta”, “única sobrinha”. Todas as expectativas recaíam nela. Ao contrário do que possa parecer, não tinha trejeitos masculinos ou qualquer sinal que denotasse um desconforto em relação ao seu gênero.

Teve festas de Ursinho Puff, Hello Kitty, banda da Miley Cyrus, ocasiões em que eu fazia questão de lhe comprar vestidos os mais lindos, tudo o que - a princípio – eu supunha que uma menina poderia desejar, muito embora isso seja um estereótipo. Ser menino não a impediria de gostar de nenhuma dessas coisas. Por isso, nunca sequer cogitei que o gênero com o qual “ela” se identificava divergia do seu sexo biológico.

Passo, a partir de agora, a referir-me ao meu filho no masculino, em respeito à sua identidade social, pela qual ele se reconhece e se relaciona com as pessoas.

Ao final de 2013, inicio de 2014, fui aprovada em concurso para a Defensoria Pública do Mato Grosso - levei Eduardo para morar em Campo Novo dos Parecis - mas após quatro meses ele retornou - saudades do Rio, dos amigos e do método de estudo ao qual estava acostumado - momento em que passou a residir com avós e tia.

Durante o ano de 2014, no Carnaval, meu filho, por se sentir um menino, usou roupas masculinas pela primeira vez, perante toda a família. Decisão corajosa! Após, iniciou pedidos para cortar o cabelo, o que veio a se intensificar após janeiro de 2015. Passou a postar várias notícias sobre pessoas transexuais. Sobressaltos !!

Ele tinha um lindo cabelo – enorme – e eu, com medo de ele perder a feminilidade, ser ridicularizado ou sofrer violência - só fui deixá-lo cortar as mechas extremamente curtas, conforme lhe convinha – um pouco antes de irmos a uma viagem para a Argentina, em junho de 2015.

Naquela viagem, ele me falou sobre a estranheza que sentia em relação ao próprio corpo. À época, não entendi bem. Voltamos a falar quando do retorno a casa, oportunidade em que ele começou a se consultar com uma psicóloga.

Achei que tudo ficaria bem, que não era possível aquilo estar acontecendo e que as simples consultas seriam suficientes para que as coisas voltassem ao “normal”.

Entretanto, para minha surpresa, logo após o retorno de férias, agora para a cidade de Arenápolis, em outubro/2015, Eduardo, cuja depressão anterior era mascarada, eis que é muito fechado, entrou em profunda depressão e efetivou diversos cortes em seu braço – estava profundamente desesperado com a impossibilidade de se comportar e viver da maneira como ele se identificava.

Entrei em desespero, saí em busca de diversas psicólogas, mas a maioria não entendia sobre o assunto, sendo certo que algumas propunham “curas gays”, diziam na nossa frente que ele era doente – oportunidade em que ele entrava em total desespero... e afundava na depressão.

Após meses de peregrinação por vários psicólogos e psiquiatras – encontramos uma pessoa que compreendia o que ele falava – conhecia termos e muito importante, não o julgava.

Divisor de águas.

Antes, depressão e possibilidade de suicídio. Após, resgate da autoconfiança e melhora das relações sociais.

Após, com sua autoestima resgatada, passou a se apresentar como Eduardo no Colégio.

Quando me contou o fato, disse como era terrível ser um menino e ter seu nome registral feminino cantado em alto e bom sol, todos os dias, na chamada escolar – momento que não podia se esquivar, tanto do próprio sentimento, quanto dos olhares de inadequação circundantes.

Nesse contexto, tão logo editado o Decreto 8727/16, em abril de 2016, requeri à escola a utilização do nome social, o que foi prontamente atendido.

Antes, tomei uma providência inadiável, já que tornaríamos pública a verdadeira identidade de meu filho, contei aos avós e tia de Eduardo acerca do que estava acontecendo. Achei que eles não iriam suportar, entretanto – SURPRESA!!!! – apoiaram Eduardo em tudo e se tornaram nossos maiores aliados.

Foi quando realmente passou a ser muito difícil vê-lo transacionar, passar a vê-lo como um homem - comecei a sentir extrema falta da minha menina e foi muito difícil vê-lo se modificando... Tinha crises de choro e de negação...

No meio disso tudo, quando estava tão difícil vislumbrar essa mudança, aparece uma mulher trans em Arenápolis, vítima de violência doméstica. Eu, que estava sofrendo tanto em ver a transição do meu filho, abracei aquela mulher e falei que nós iríamos conseguir medidas protetivas de urgência contra o agressor - o que era controvertido em razão de que o sexo biológico da mesma era masculino. Contudo, já que ela se identificava como mulher e assim era reconhecida pela sociedade, logrei êxito em obter a proteção estatal através da Lei Maria da Penha.

Vale ressaltar que aquela pessoa – com a qual eu converso até hoje – não faz ideia de que me ajudou muito mais do que eu a ela.

ELA ME FEZ ENXERGAR MEU FILHO.

A partir daí, fiz muita terapia.

Minha tristeza foi passando à medida que ele, ao assumir sua personalidade, se tornou e vem se tornando uma pessoa cada vez mais feliz.

Antes um filho vivo, feliz e “diferente” do que um morto e/ou deprimido. Quero meu filho comigo! Preconceito, violência, só geram desunião! Cada um é cada um! Respeito à diversidade !

O amor é a única coisa que vale nesse mundo. Ser feliz é o que há !