Ricardo Lisias foi grampeado e a conversa jogada na internet. O resultado? Um bate-papo divertido e informal com Bia Willcox sobre o atual cenário político no Brasil. Confiram!


RL: Quando descobri o motivo da intimação eu tive diversos sentimentos: achei engraçado, depois um pouco patético e ridículo e aos poucos comecei a me sentir mal. Aliás, comecei a me sentir de fato mal quando falei para uma professora que vários intelectuais estavam se oferecendo para me ajudar e ir comigo à delegacia e ela me respondeu uma frase eloqüente: “- Na ditadura também era assim.”

De fato o Brasil parece viver uma regressão no que diz respeito aos direitos básicos e ela vem aparentemente também do Poder Judiciário. O inquérito contra a minha personagem é um absurdo. Reagi escrevendo outro inquérito, esse de ficção de fato, pois é a maneira com que tenho para resistir a tudo isso.

O Brasil realmente vive um estado de alucinação. Não é difícil perceber sintomas de alucinose nas pessoas: quem acha que estamos ficando comunistas, por exemplo, não está normal. O fluxo contínuo de notícias a que a imprensa tem nos condenado é outro sintoma. Alucinados não param de falar. Eu tenho a impressão que a imprensa agora também não para de falar. O tempo inteiro vazam alguma coisa, liberam uma lista, um áudio, fazem uma acusação etc. Não temos mais condição de saber o que é real.

Nesse sentido, de fato a Procuradoria Geral da República ter investigado personagens de ficção é mesmo um sintoma de total descontrole. Eu realmente estou com receio de que a doença não seja aguda, mas sim crônica, daquelas que demoram muito tempo para a cura aparecer.

20.DelegadoTobiasFoto2 300x198 O escritor de esquerda Ricardo Lisias é grampeado!

 RL: Naquele momento eu não sabia, mas se tratava de um experimento “intermídias”. Eu estava querendo discutir a questão da boataria, que me interessava (e incomodava). Não sei dizer quantas pessoas participaram, mas foram muitas. Passei meses ouvindo gente dizer que conhece o Delegado Tobias, que o viu na rua, reclamando do absurdo que ele fez etc. A situação foi tão ampla que terminou com o Poder Judiciário transformando o que era ficção em realidade...

A ideia não era consultar as pessoas sobre como a obra poderia continuar, mas sim torná-las personagens. Enfim, incorporei comentários, prendi (na ficção, por favor!) alguns críticos literários e inclusive fui obrigado a avisar que a narrativa era mesmo entrecortada, pois as pessoas estavam começando a reclamar nas lojas.

Mas para responder com objetividade à pergunta, vou listar aqui algumas das implicações do meu experimento:

a) Algumas pessoas se perderam e fizeram uma denúncia absurda e eu fui parar na polícia;
b) Eu tive a demonstração cabal de que quando o leitor se vê confrontado com a dúvida “é verdade ou é ficção” a tendência, com grande folga, é que opte pela verdade. Na dúvida, para muita gente “tudo isso é verdade”, seja lá o que for.

 RL: Em primeiro lugar, eu me diverti muito fazendo o experimento. Enquanto criávamos os cinco volumes eu estava realmente gostando do processo. Não me importo de o leitor roubar os sentidos da minha criação. Ele pode interpretar como quiser, desde que entenda que a responsabilidade da leitura é dele. Na verdade tenho procurado lidar com isso em toda a minha obra de criação. Então foi exatamente como você diz. É mesmo uma obra colaborativa. Aliás (estou falando sério, não é piada), até o Poder Judiciário colaborou.

Durante a criação não vi meus direitos de forma alguma como autor ameaçados. Era aquilo mesmo. Depois houve alguma tensão com essa história de processo. Algumas pessoas chegaram a levantar a hipótese de censura. Não houve censura direta, não tentaram impedir a circulação da minha obra, pois sequer perceberam que era uma criação. Mas há sim uma censura indireta: as pessoas podem se inibir a fazer uma criação como a que eu fiz, com medo de um processo, que é algo sempre muito desagradável.

RL: Eu me interesso sobretudo pela literatura da primeira metade do século XX, então sem dúvida tenho grande queda pelo modernismo. Peço licença para não tentar explicar os meus “objetivos”. Não que eu não queira, mas eu tenho receio de errar. Vou dar um exemplo concreto: como eu disse acima, eu acreditava que o Delegado Tobias fosse um experimento sobre boataria. Mas não era, ele na verdade falava sobre o poder judiciário e a alucinação da sociedade brasileira contemporânea.
Eu de fato tento discutir nos meus trabalhos protocolos de leitura, o lugar do narrador e do leitor etc, mas eu acho que não estou preparado para compreender exatamente o meu próprio trabalho, ao menos agora. Estou um pouco confuso.


RL: No meu caso não posso dizer que as pessoas leem pouco: o Delegado Tobias foi um sucesso enquanto o experimento se realizava, tendo vendido mais que todos os bestsellers. Nem Cinquenta tons de cinza deu conta! Meus livros também têm boa vendagem. Então tenho leitores. Não são uma multidão, mas posso dizer que é bastante.

Eu acho que é preciso explorar a especificidade do ebook. Ele não pode ser simplesmente uma outra maneira de publicar um texto impresso. Foi o que tentei fazer com o Delegado Tobias. Do contrário, não vai ser uma arte particular. Mas isso impõe problemas: o ebook já surge no interior das grandes empresas: aparece na Amazon e na Apple. São elas que dominam a tecnologia (não era assim com o livro impresso). E sabemos como é difícil uma grande empresa topar experiências estéticas. O Delegado Tobias foi um ponto fora da curva, e se não me engano uma das lojas não quis distribuir o número 4.

Se as grandes empresas fossem mais flexíveis, eu gostaria de fazer novos experimentos!

RL: É um pouco difícil para mim a resposta. Eu trabalho basicamente com três editoras, todas sempre me deram muita atenção. Acho que as editoras estão aos poucos entendendo a mudança. Mas ainda é algo lento. Como eu disse, a lentidão aumenta por conta do engessamento das grandes empresas. Eu não sei pensar em termos de mercado, mas por outro lado sei que minha resposta é paradoxal, já que meus livros vendem um pouco mais que a média da literatura brasileira contemporânea. Eu estou tentando navegar nesse mundo novo usando critérios artísticos: se for para fazer um ebook, ele não pode ter sentido impresso (na época do experimento do Delegado Tobias não adiantava imprimir, pois tinha o perfil no Facebook, por exemplo), se for algo impresso, que force a situação do impresso, como o Inquérito que vou publicar: ele não tem sentido algum na tela do computador. Se for um romance tradicional, uso então as formas tradicionais. Dentro de tudo isso tento achar algo particular e relevante, algo que seja incômodo e que deixe em destaque ao menos a precariedade do poder que nos oprime a todos...

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Giulia Willcox Rosa