Posso enganar vocês que me lêem. Posso deixar crer que o tema dessa crônica é a bunda ser-humânica  da Anitta. Posso querer que vocês acreditem que o empoderamento da mulher está mesmo na coragem de mostrar uma bunda brasileira ao natural para milhões de pessoas como a Anitta fez.

Sabem por quê? Porque enquanto discute-se o significado de tal atitude e de tal bunda, eu vou estudando Marketing (sim, sou uma humilde estudante de MBA em Marketing) no modo "mão na bunda", ops, não, "mão na massa" (Hands-On diriam os modernos da educação), risos, ou seja, Marketing na prática.

Como mulher que tem bunda e celulite (mas a segunda não se atém à primeira) só pude me sentir pertencente, incluída, confortada. Como a esmagadora maioria das mulheres, imagino eu, admirei a coragem de mostrar o que todos sabem: bunda de verdade, bunda do povo, bunda brasileira, é daquele jeitão ali do clip da Anitta, com molejo e celulite.

Mas é só.

Dar close na própria bunda não significa nada além do que vimos. Não é empoderamento coletivo,  libertação de papéis e estereótipos, feminismo ou mesmo qualquer simbolismo.

Ela foi livre como todos deveríamos ser.

Usar a liberdade sem medo é poder, claro. E eu a aplaudo por isso.

Num mundo de culto ao corpo perfeito ela realmente arrasou mostrando-se gente como a gente. Afinal, celulite faz parte do jogo, certo mulheres!?

Mas o legal mesmo é pensarmos que tudo foi planejado cuidadosamente por especialistas para que nós mulheres nos identificássemos, admirássemos a cantora e ficássemos bastante tempo falando e nos sentindo exatamente como estamos.

A ideia é provocar a  opinião, polemizar e viralizar. Que vejam  e revejam o clipe e fiquem com aquela letra na cabeça. Que linda é a estratégia criativa. Que belo ver a mágica do trending topic  acontecer!

Vocês já pensaram em quanto tempo e quantas pessoas se debruçaram sobre o roteiro desse clipe pra ele sair do jeitinho que ele saiu?

Genial abrir o video com uma questão tão sensível às mulheres - a beleza e a juventude. Mais genial ainda associar a coragem de exibir formas  gente-como-a-gente às questões de posicionamento feminino na sociedade e consequente empoderamento. E o incrível disso: a pretexto de analisar, aqui  estou eu fazendo mais propagando do novo clipe da Anitta.

Quando vi nas redes sociais tantas mulheres inteligentes e influenciadoras tratando do tema "bunda da Anitta" como sendo um divisor de águas na luta das mulheres e um empoderamento sem precedentes, eu percebi que a genialidade da estratégia de lançamento do clipe tinha sido brutal. Sabe aqueda ideia que nunca tivemos e gostaríamos de ter tido? É mais ou menos isso que senti quando vi.

E se tem uma coisa que deve ser entendida e debatida no melhor sentido é que "Anitta" é nome, marca, empreendimento, e por que não?, inovação.

Seu maior mérito é realizar, causar, lacrar - a ambição e foco da Anitta são empoderadores.

Fazer o que deseja é empoderador, sim. E isso já é muito e está pra lá de bom!

Mais uma vez, a equipe que trabalha na conceituação, fortalecimento e posicionamento da marca Anitta marcou um golaço, vendendo a ideia de empoderamento feminino: a mulher, sujeito de sua própria trama e não objetificada pela sociedade machista que a rotularia.

Não comprei.

O clip mostra muitas bundas viradas pro alto em modo vitrine, mão masculina na bunda da Anitta e letra de música, também em Inglês, referindo-se às mulheres como objetos de seu prazer. Não deixarei de defender a liberdade de ser e fazer do corpo o que quiser. Mas não posso deixar de me lembrar das inúmeras, milhares, de aspirantes a Anitta, por exemplo, que assistirão a todo o vídeo entendendo o que precisam para ter a fama e o sucesso da Anitta. E a mensagem que aprenderão depois de assistir ao novo clipe é tudo menos a de empoderamento feminino. Podem ter certeza.

Para mim, o maior mérito do close do bum bum em close é revelar o que já sei: que homem gosta de bunda sem precisar de retoque digital. Mas empoderamento feminino pra mim e outra coisa. E se bunda em close revelasse todo esse poder, eu ficaria com as hipsters Gretchen e Valeska. Afinal, elas assumiram seus popozões ao natural "before it was cool".

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 O genial marketing do bumbum empoderado