Paulo Henrique Brazão, não vou negar um certo tombo por você e os seus textos. Fui sua editora e hoje, em seu novo livro, assino orgulhosamente uma das orelhas. Acompanho o seu blog e seus posts nas redes.
 

Como começou essa história de escritor?

 
Escrever na minha vida se confunde com a minha própria história e existência. Se me alfabetizei dos cinco para os seis anos, lembro que com sete já tinha poesias escritas. Aos oito entrei num concurso interno do meu colégio e fiquei entre os primeiros dez colocados – tudo bem que era um plágio e a minha turma toda reparou, o que me rendeu uma sonora vaia quando li o poema em voz alta. Dois anos depois, participei novamente, dessa vez com uma obra realmente original, e fiquei entre os oito. Com uns 14 anos, comecei a escrever prosa de forma mais consistente. 
 
Acho curioso o que a escrita permitiu a mim e minha família. Meu pai, por exemplo, viu o pai dele morrer analfabeto e hoje tem um filho jornalista, escritor, com dois livros lançados e co-autor de um terceiro. Meus pais sempre foram entusiastas dessa minha vertente, embora não necessariamente compactuem com o que eu escrevo (rs).

 
Você é um cara de comunicação e progresso. Como vê o futuro da literatura, da aquisição de conteúdos e do entretenimento em geral?
 
Ao mesmo tempo que sou uma pessoa que trabalha com comunicação e utiliza as redes sociais como plataformas importantes de trabalho (e da vida), me considero um pouco tradicionalista, apegado ao papel, ao cinema, ao DVD...
 
Acredito que a literatura já passa por uma grande transformação: ao mesmo tempo em que temos gerações que sequer pegaram num livro de papel direito, nunca se leu tanto na História da Humanidade. Lemos o tempo todo, diversos conteúdos, e creio que o livro enquanto formato nunca irá morrer. Aliás, o livro sempre fez o que a TV está aprendendo a fazer agora: ser um conteúdo a ser consumido sob demanda, à vontade do leitor. Nesse ponto, sempre empoderou quem o tinha em mãos. Faltava apenas permitir mais acesso a quem queria ter suas ideias publicadas e vejo essa barreira finalmente no chão hoje em dia, com as publicações online, ebooks e impressão sob demanda.
 
 
Agora, conta, livro novo: Perversão. Textos eróticos, provocantes... E até "agoniantes" rs. De onde surgiu a ideia, a inspiração e a coragem?
 
Costumo dizer que os contos do Perversão não são necessariamente eróticos: são sexuais. Afinal, nem tudo que é do sexo é excitante e é exatamente isso que está em debate nesse livro. Existem as histórias que têm cenas bastante explícitas, carregadas em palavrões e termos chulos, quase pornográficas. E há aquelas que retratam questões bastante delicadas, como abuso, pedofilia, negligência, incesto...
 
Não foi fácil decidir por escrever um livro inteiro assim. Tudo começou com a ideia de um conto, "O Abraço do Capeta", que é o maior da coletânea. Vi que não teria como publicá-lo como um romance e, nem mesmo, junto a outros contos de temas diversos. Ele é, talvez, o mais "pesado" de todos os 12 contos do livro. Daí surgiu a ideia de fazer uma obra inteira com o sexo como fio condutor: já aviso no título, em letras garrafais na capa, a que o livro veio. 
 
Admito que estou tenso com a recepção, sofrendo um pouco por antecipação com julgamentos...(rs). Imagino a cara da minha mãe, da minha madrinha, e já fico nervoso.. hahahaha. Mas acredito na força das histórias e creio que faltam, hoje em dia, contadores de histórias de fato. Andamos muito preocupados em escrever coisas pretensiosas e edificantes e esquecemos do entretenimento de qualidade, de oferecer algo para pura diversão. Creio, inclusive, haver pouquíssimos autores que se enveredaram por esse caminho de escrever histórias de sexo explícito, mas com outras pegadas, como thriller, humor, dramas pessoais... É um gênero pouco explorado, provavelmente pelo tabu ou o medo de se rotular.
 
Você é casado com outro homem e assume o seu casamento e homossexualidade de maneira natural, tranquila e muito bonita. Sentimos todo esse afeto quando visitamos o seu perfil nas redes. Também lá, vemos as suas atividades religiosas: você é umbandista. Algum medo de mostrar aspecto da sua vida que tem sido alvo de tanto ódio e preconceito? Como vê os próximos dias, meses e tempos futuros com essa onda de discriminação e ódio, como recentemente os assassinatos em massa numa boate gay em Orlando? Qual é a luz que podemos esperar ver no final desse túnel?
 
Creio que o mundo está saindo do armário e, quando digo isso, não falo em relação a sexualidade ou religiosidade apenas: as pessoas têm mostrado mais a sua cara, para o bem e para o mal. Assim como cada vez mais vemos maior aceitação à diversidade, também encontramos a mesma aceitação à intolerância. A intolerância e ignorância sempre existiram, assim como a homossexualidade e a diferença de credos, mas agora encontram mais reverberação, provavelmente potencializadas pelas redes sociais, que democratizaram o espaço para ideias e deram voz a qualquer tipo de pensamento, mesmo os mais ignóbeis. 
 
Quando acordei e soube do atentado à boate gay em Orlando, foi um grande baque. Já seria de qualquer forma, mas se potencializou porque no exato momento eu estava em uma festa gay com amigos queridos celebrando o meu aniversário. Vendo aquelas centenas de pessoas brincando e dançando felizes, a grande maioria desconhecidos, mas unidos por um só sentimento: a possibilidade de serem eles no talvez único espaço social em que seriam menos julgados e não teriam sua integridade física ameaça simplesmente por serem quem são. E daí você vê essa única garantia, tão pequena mas necessária, se esvair pelas mãos de um intolerante, que se achou no direito de arbitrar sobre a vida de quase 50 pessoas, por um ideal que defendia. 
 
Não vejo outra forma de enfrentar isso se não com mais diversidade explícita, mais amor e mais educação inclusiva. Acredito muito nessa geração que hoje cresce e que, nas próximas décadas, chegará no auge nas grandes corporações e mesmo nos Governos. Acredito que veremos uma bela transformação pelas mãos deles, já que a nossa geração falhou um pouco nessa questão do altruísmo e da alteridade. Ainda tenho fé na Humanidade. 
 

Quais os planos pra divulgar e dar desdobramentos  ao novo livro Perversão? Alguma incursão no mundo audiovisual?

 
Há algumas ideias, ainda bem iniciais, de transformar alguns contos em peças ou curta-metragens. Acredito que vários deles têm apelo audiovisual; afinal, tenho muita influência do cinema e de seriados em minhas ideias. Vamos ver o que sai disso aí!
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13451132 10208460944693706 1085890705 n Perversão de jornalista carioca
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*LANÇAMENTO DE PERVERSÃO:
Local: Livraria da Travessa de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 572)
Data: 17/06 (sexta-feira)
Horário: a partir das 19h
Preço: R$ 44,90
cleardot Perversão de jornalista carioca