20170331102658679034i Assédio de José Mayer: tirar do ar o depoimento de Su Tonani não reduz seu impacto

Figurinista acusa José Mayer de assédio, mas tem depoimento tirado do ar

Ela avisou em seu depoimento: "...o meu assédio não vai ser embrulho de peixe. Vai é embrulhar o estômago de todos vocês por muito, muito tempo." A sexta-feira (31) de fato começou deixando um gosto de fel no céu na boca. Ler o texto que a figurinista da Globo Su Tonani havia publicado no blog Agora é que são elas, da Folha de S.Paulo (e foi tirado do ar), causou um revertério, tamanha a quantidade de verdades amargas que trouxe.

Ela acusa José Mayer de assédio.

A Globo, há alguns dias, mandou uma nota oficial ao colunista Léo Dias, que havia contado a história sem dizer quem era a vítima. "As relações entre funcionários e colaboradores da Globo se dão em um ambiente de harmonia e colaboração, de acordo com o Código de Ética e Conduta do Grupo Globo. O desrespeito no ambiente de trabalho não é tolerado pela emissora. A Globo não comenta assuntos internos".

Su Tonani resolveu não se calar, e talvez pague um preço alto por isso. Mas os tempos são outros. O galã coroa que age como garanhão na ficção e fora dela, certo de sua impunidade, ainda não se manifestou sobre o caso. Não há o outro lado dessa história, mas muitas mulheres se reconhecem ali:

~sentir medo de gritar e parecer loucas
~Qual mulher nunca foi oprimida a rotular a violência do assédio como “brincadeira” (ou "exagero da sua parte", ou ainda "a culpa é sua")
~A opressão é aquela que nos engana e naturaliza o absurdo
~Eu me vi só, desprotegida, encurralada, ridicularizada, inferiorizada, invisível. Senti desespero, nojo, arrependimento
~ele gritou. Para quem quisesse ouvir. Não teve medo. E por que teria, mesmo?
~Sinto no peito uma culpa imensa por não ter tomado medidas sérias e árduas antes, sinto um arrependimento violento por ter me calado, me odeio por todas às vezes em que, constrangida, lidei com o assédio com um sorriso amarelo. E, principalmente, me sinto oprimida por não ter gritado
~Dá medo, sabia?
~Tenho de repetir o mantra: a culpa não foi minha. A culpa nunca é da vítima. E me sentiria eternamente culpada se não falasse. Precisamos falar. Precisamos mudar a engrenagem.

O mais chocante, a meu ver, é saber que havia outras duas mulheres ao lado quando ele colocou a mão nela. E elas riram. Como tantas, acharam que era piada. P I A D A.

Não, senhores, assédio não tem graça. Me incomoda profundamente saber que nenhuma daquelas mulheres (talvez pelos mesmos medos de sempre) tenha tentado defendê-la. E ainda se acomodam assim, tão facilmente, no degrau de baixo, nessa subserviência perniciosa que nos mantém vítimas e culpadas.

Que essas mulheres, como muitas, deixem de ser coniventes com esse tipo de comportamento. Precisamos mudar a engrenagem. Quem sai massacrada somos todas nós.

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