16388381 1929800533906839 8949223753144167519 n Calma, gente, é só um turbante! Ativismo de apropriação cultural precisa de limite

Thauane e o turbante da discórdia: deixem a menina usar o que bem entender!

Como muitos de vocês, acompanhei a história da Thauane Cordeiro, uma jovem de Curitiba que postou um desabafo em seu Facebook, depois de ter sido abordada por uma mulher negra questionando o fato de ela — que está em tratamento de câncer e, portanto, careca — estar usando um turbante. Thauane, então, contou o caso em sua rede social.

"Vou contar o que houve ontem, pra entenderem o porquê de eu estar brava com esse lance de apropriação cultural: Eu estava na estação com o turbante toda linda, me sentindo diva. E eu comecei a reparar que tinha bastante mulheres negras, lindas aliás, que tavam me olhando torto, tipo " olha lá a branquinha se apropriando dá nossa cultura", enfim, veio uma falar comigo e dizer que eu não deveria usar turbante porque eu era branca. Tirei o turbante e falei "tá vendo essa careca, isso se chama câncer, então eu uso o que eu quero! Adeus.", Peguei e sai e ela ficou com cara de tacho. E sinceramente, não vejo qual o PROBLEMA dessa nossa sociedade em, meu Deus!
#VaiTerTodosDeTurbanteSim
Foto dá negra branca mais chave que vocês conhecem, Juro que tentei tirar uma foto decente, mas não deu. Foi mal!"

O post viralizou, e o que era um desabafo de uma garota com câncer buscando uma forma estilosa de esconder a careca virou mais uma guerra entre os descabeçados das redes sociais. O caso ainda está rendendo, Thauane fez no fim de semana mais um textão no Facebook. Teve gente que ficou bravinha com a ironia dela, ao se intitular "negra branca". Como tudo o que viraliza, teve gente contra, teve gente a favor, um auê.

16602841 1575956489099521 1877324281621200182 n Calma, gente, é só um turbante! Ativismo de apropriação cultural precisa de limite

Se não fossem as trocas culturais o que seria de nós?

Só faltou bom senso, como sempre. Esse discurso de "apropriação cultural" precisa ter um limite. Tudo é compreendido de forma muito literal, e não se aceita mais aquele que faz ou pensa diferente. Turbante não pertence a uma raça, a um credo, a um povo. E, mesmo se pertencesse, imaginem o que seria do mundo sem as trocas culturais?

Vamos imaginar se, a partir de agora, comida vire bandeira de apropriação cultural. Olha, amiguinho, você não pode comer sushi pois estará se apropriando da cultura japonesa... Faça-me o favor!  A mim, sinceramente, parece muita falta do que fazer.

Enquanto essa gente fica brigando para menina branca não usar turbante, ou para mudar letra de marchinha de Carnaval, a vida está correndo e tem coisa mais séria para resolver. Acho de uma estupidez atroz. Cuidem das próprias vidas e colaborem no que for possível para que haja respeito entre as pessoas. Um primeiro passo, acreditem, é respeitar a liberdade dos outros de usarem o que bem entenderem, a começar por cobrir uma careca com turbante.

Reproduzo, aqui, a refelxão de Thauane sobre a repercussão do episódio. Vale refletir um bocadinho sobre isso. Quando a gente acha que o problema de uma garota com câncer está no turbante dela, o mundo está virado. Pessoas, melhorem...

"Primeiramente quero agradecer a todos que vieram falar comigo, que de alguma forma desejaram coisas boas. Agradeço de coração mesmo, tudo isso, todas as palavras de apoio e conforto! Quero dizer que ontem a tarde foi bem tumultuada, eu nunca pensei que aquela foto, que aquela minha explicação iria causar uma repercussão assim tão grande, e se tornar viral de uma forma positiva e negativa ao mesmo tempo! Porque quem acompanhou desde o primeiro post meu explicativo, sabe que isso era uma das últimas coisas que eu queria. Porém quando eu vi já estava em uma proporção assustadora!

Quero enaltecer certos pontos aqui, primeiro, pedir perdão as pessoas que se sentiram ofendidas com a expressão "negra branca". Que, como já havia dito no post, foi um sarcasmo. Uma ironia, não foi pra banalizar nenhum movimento, muito menos pisar/menosprezar a luta do movimento negro. Eu já havia dito, e digo novamente aqui, essa é minha forma de enxergar a vida, o meu jeito de levar, na zoeira na brincadeira. Eu me zoo com isso, mas eu não vou banalizar outras pessoas, longe de mim, e se fiz, me perdoa! Mas eu vejo isso como uma forma de levar a vida sorrindo, porque se eu fosse me entregar a tristeza, eu me afundaria ainda mais em uma depressão. Então eu brinco com isso, mas isso é um jeito meu, minha forma de ser. Como disse, nem Jesus agradou a todos, como eu, na minha simplicidade vou agradar? Não dá né.

Eu ainda tô bem assustada com a repercussão que teve tudo isso, alguns blogs compartilhando, algumas páginas. Informações erradas aí no meio também, não vou mentir, em uma primeira instância foi engraçado, porque eu não tava sabendo reagir a isso. Depois se tornou uma guerra, viral na internet, povo no Twitter brigando e etc. Pessoas falando que era uma fanfic, olha, eu juro que queria que fosse uma fanfic, assim eu conseguiria acreditar mais na humanidade! Mas fica a critério de cada um acreditar ou não, eu sei o que aconteceu aquele dia, sei a revolta que eu fiquei. "Fazer textao" no Facebook, foi um jeito que achei de expressar essa minha revolta sem jogar ninguém contra a parede.

Todos os comentários negativos do meu post, tentei comentar dá forma mais coerente possível, sem ofender ninguém ou determinada coisa. Mas acabou se tornando uma guerra entre militâncias fora do controle. Eu sinceramente fiquei chateada com certas coisas que li, nao pelo fato de ser algo relacionado a mim, mas sim o jeito que o ser humano vem encarando as coisas, o jeito que foi comentado, palavras, ódio, preconceito destilado ali. Eu sei que existem muitas pessoas maravilhosas no mundo, mas assim como existe pessoas babacas. Tudo que é extremo, tudo que é demasiado, faz mal, até água se eu tomar demais faz mal! A gente precisa aprender a se amar mais, precisa aprender a sentir a dor alheia! A ter empatia pelas pessoas. Porque se o mundo continuar assim, sinceramente, não sei onde vamos parar!

"Não pode falar de uma dor se não a sentir'', sinceramente? Isso é muito sem nexo, porque como já disse, não quero banalizar movimento nenhum. Muito pelo contrário, há muitas coisas que precisam ser ajustadas na sociedade, muita coisa que precisa ser mudada. Mas tantas coisas importantes para se debater, vem pessoas implicar com um pano na cabeça de fuluna? Vamos ter aulas de história, aulas de sociologia e filosofia! E principalmente, ter aulas de respeitar o coleguinha. Porque a partir do momento que acaba o direito dele, começa o meu. Eu/nós, temos que aprender a primeiramente respeitar nossas diferenças e aceitarmos cada pessoa como ela é. A chave principal para desconstruir uma sociedade preconceituosa assim, é o respeito, e não importa de onde ele vem, ele sempre tem que existir.

Se você leu até aqui, parabéns, se não, parabéns também e a vida continua. Mais uma vez, obrigada a todos que vieram me desejar coisas boas, de coração! E pra quem não tava, desejo muita coisa boa também, quero que saibam que cada ser humano é especial a sua maneira. Enfim, obrigada e bom dia!"

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