estupro 21 1024x538 Estupradores nos aplicativos: todas ingenuazinhas, nasceram ontem?

Homens usam aplicativos de namoro para atrair e estuprar mulheres. Todo cuidado é pouco...

Jogar a culpa do estupro em cima das vítimas, seja pelo comportamento, pela roupa usada ou o lugar onde estava, sempre acontece. No caso dos estupros cometidos por homens que se utilizam de aplicativos de paquera, a coisa fica ainda mais complicada.

Reportagem desta quarta-feira (27), publicada pela Folha de S. Paulo, mostra a forma que esses criminosos usam para se valer da confiança das vítimas para dar o bote.  É muito fácil criar um perfil falso, fingir ser o que não é, e ir ganhando a mulherada na conversa. O objetivo de um app de pegação é, na maioria das vezes, um só: sexo casual. Há exceções, todo mundo conhece alguém que namora ou até se casou com um gatinder. Mas é raro.  Homem de aplicativo está ali para transar com facilidade. E muitas mulheres também.

No entanto, ninguém vai para um encontro ou se dispõe a conhecer uma pessoa imaginando que será abusada sexualmente. Que entrará para as macabras estatísticas de estupro no Brasil. O problema é que se nos casos em que a vítima é agredida os julgamentos já são duros, quando se trata de um estupro cometido por um cara de aplicativo, desmerecer a mulher fica ainda mais fácil.

A presença da mulher no aplicativo, para muita gente, é suficiente para colocar a moral dela contra a parede. Se está ali é porque boa coisa não é. Piora muito quando ela, como em alguns casos citados na reportagem da Folha, abre a porta da própria casa para seu algoz. Ou vai até a casa do cara. É um estupro com hora marcada. Mas, de novo, ninguém se arruma e se perfuma para um date esperando por isso.

Aos que acreditam quem são todas "ingenuazinhas, nasceram ontem", é importante bater na mesma tecla. Talvez não haja um componente da ingenuidade "clássica", mas obviamente há um componente forte de confiança. Conhecer alguém num aplicativo, às vezes, pode parecer mais seguro do que na balada.

Da conversa pós match, é possível checar a identidade da pessoa em outras redes sociais, coisa que leva mais tempo com alguém que se conhece num boteco ou boate. Existe, obviamente, a construção de uma confiança mútua. O mínimo que se espera é que aquela criatura seja real e esteja falando a verdade. Porém...

Os casos relatados na reportagem da Folha mostram que há perfis falsos, há mentira, há muita enganação. Mesmo quando as regras de segurança são seguidas, como conhecer a pessoa em um lugar público, o risco sempre existe. A vulnerabilidade é imensa. E, para desenhar um cenário de caos, quando a mulher vira vítima de um abuso num caso desses, a palavra dela pouco valerá.

Ela esteve ali, naquele encontro, por livre e espontânea vontade. Por isso, é urgente que se entenda o estupro como ele é definido em lei: constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso.

O artigo 213 do Código Penal fala em violência ou grave ameaça, o que, no entendimento de muitos, exige uma arma na cabeça. Não é bem assim. A violência precisa ser entendida em toda sua dimensão, assim como a grave ameaça.

Uma mulher que foi a um encontro de aplicativo pode ter ido também querendo sexo. Mas se ela disser que não quer certas "modalidades", e for forçada a isso, é estupro.  Se for dopada é estupro. Se disser que mudou de ideia e não quer mais transar, e for obrigada a isso, é estupro.

Ninguém precisa ser ingenuazinha, nem ter nascido ontem, para cair numa armadilha dessas. Todo cuidado é pouco, muito pouco.

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