Estupro coletivo: eles não são loucos, ou doentes. São só homens

Os agressores não são loucos: são homens comuns, que se acham no direito de estuprar

Prestem bastante atenção: o caso da menina estuprada no Rio de Janeiro por um bando de calhordas revela o óbvio. Se para cada cinco mulheres, segundo a ONU, uma já foi vitima de estupro ou de tentativa de estupro, os agressores são muitos. Muita gente se apressa em dizer, ah, são loucos, são doentes. NÃO SÃO.

Cerca de 30 homens estupraram uma jovem, fotografaram, filmaram e postaram as imagens dela, nua e violada, nas redes sociais. São 30 (TRINTA) caras comuns que se acharam no direito de violentar uma pessoa com base no seu gênero, como bem resumiu a repórter do R7, Caroline Apple, ao comentar o caso.

O motivo: "vingança", por ela ter saído com outro rapaz, e seu namorado ter descoberto. Segundo li no Facebook de um ex-morador de comunidades no Rio, lá eles denominam isso de "estupro corretivo".

Ou seja: num grupo de 30, nenhum foi capaz de defender essa moça. NENHUM. Nenhum chamou a polícia, armou uma briga. Todos escolheram violentá-la, como bem analisou uma amiga jornalista.

O sentimento que ficou, a todas as mulheres com um pingo de sensatez, como resumiu  Bianca Muller Rubini, foi um desconforto imenso. "Um arrepio que não passa, uma náusea constante.”

E por que? Por que ser mulher é viver esse medo constante de ser violado, por um cara que pode estar bem aí, ao seu lado, na festa, no taxi, no trabalho, no entregador de pizza. Nunca se sabe.

Porque quem estupra não é o doido distante. É o pai, o padrasto, o tio, o colega de turma, o namorado, que, no caso da garota do Rio, juntou os amigos para dar um corretivo na menina. Por tratar mulher como coisa, como propriedade, com a qual pode-se fazer o quem entender. Até estuprar, filmar e divulgar. E digo mais: eles certamente não acham que fizeram nada de errado. "Ela mereceu", são capazes de dizer em sua defesa. É o machismo aliado à impunidade.

Para os homens, pelo menos os que pensam “ah, mas eu não sou assim”, um aviso: não basta ter compaixão por essa menina. Nenhum de vocês vai perder o sono por ela, porque não faz parte do cotidiano de vocês. Nós vamos.

É preciso que se jogue luz sobre esse tema, que os homens enxerguem, de uma vez por todas, que uma mulher estuprada (coletivamente ou não) é uma mácula para todos os seres humanos (ainda) não-degradados.

E, por favor, chega de buscar motivos pra esse tipo de violência. Nem tentem vir falar que “ah, ela pediu, ela bebeu, ela estava drogada, ela estava assim ou assado”. Basta. Chega de arrotar que o feminismo é desnecessário. Como disse outra amiga, o recado vale também para as coleguinhas do "ain eu não sou feminista, não preciso porque me faço respeitar, sou recatada".  Só uma mulher muito trouxa se diz anti-feminista. Você, aí, queridinha, pode ser a próxima.

Estupro não é sexo. Estupro é violência. Mas, reproduzo aqui um post lúcido que li no Facebook: “Tem banalização de estupro na novela global. Tem fabricante de cerveja com campanha de carnaval com apologia ao estupro. Tem série de TV colocando cenas de estupro para "agradar" homens. Tem estuprador conversando com ministro da educação. Tem Gilmar Mendes liberando estuprador condenado para fugir. Tem político querendo dificultar aborto em caso de estupro. Tem juiz que libera estuprador preso em flagrante com a justificativa de que ele não era uma ameaça, em Porto Alegre. Teve estupro em programa global de reality show. Teve estuprador de menores em programa global de reality show acobertado pela emissora de televisão. Tem estupro de mulher por 30 homens e nenhuma palavra do secretário de segurança do estado do Rio de Janeiro".

Como as vítimas de divulgação de vídeos na web podem se defender?