É chocante, mas não me supreende. O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) apresentou hoje (27/3), em Brasília, os resultados de duas pesquisas que abordam a questão da violência contra as mulheres. O primeiro estudo é o Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) sobre o tema tolerância social à violência contra as mulheres, que traz um primeiro levantamento de opiniões e percepções da sociedade brasileira sobre questões como o sexismo e a violência contra as mulheres.

A pesquisa de campo obteve, por exemplo, opiniões da sociedade sobre a pertinência ou não de intervenção estatal em brigas de marido e mulher, e sobre se comportamentos femininos supostamente influenciam casos de agressão e estupro. Adivinhe? A maioria da população brasileira acredita que "mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas" e que "se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros".

É a confirmação em números do que qualquer mulher brasileira sente na pele desde que nasce. A culpa por ser violentada, agredida, assediada, é sua, colega! Quem mandou você nascer mulher, e brasileira? A pesquisa entrevistou 3.810 pessoas de todo o País, entre maio e junho de 2013 (bem antes, portanto, dos casos escandalosos de grupos de encoxadores vir à tona). Detalhe sórdido da pesquisa: as mulheres representaram 66,5% do total de entrevistados. Ou seja: o machismo é nosso!

Na pesquisa do Ipea, foram apresentadas frases aos entrevistados, que deveriam concorcordar com elas ou não. Pois 65%  disseram que, sim, a mulher que usa roupa que mostra o corpo merece  -- atenção: MERECE -- ser atacada, sendo que 42,7% concordaram totalmente, e 22,4%, parcialmente. Merece, amigas, merece...

Sobre a frase "se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros", 35,3% disseram estar totalmente de acordo e 23,2% afirmaram concordar parcialmente. Se comportar? Então a rapaziada não se controla e quem tem de se comportar são as mulheres? Sim, é isso o que diz a sociedade brasileira.

Sinceramente, não me espanta. Desde muito pequenas, as meninas aprendem que é delas a culpa por despertar nos homens os piores instintos. E esse conceito, torpe, cruel, transforma as mulheres em algozes onde seriam vítimas. Faz com que culpem a exposição da fêmea como desculpa para a violência dos machos. Aí quando se levantam vozes contra essa postura, como a campanha “Chega de Fiu Fiu”, as meninas ainda são apontadas como “mal-amadas”. É triste.

Até quando? Qual a dificuldade em entender que, independentemente de como a mulher esteja vestida, ou se comporte, é direito dela ter seu corpo e sua vida respeitados? Até quando?