estupro O que Gael e Clara podem ensinar sobre relacionamento abusivo e violência doméstica

Gael abusou sexualmente da mulher na lua de mel e escancarou o tabu do estupro marital em rede nacional

Têm causado comoção as cenas envolvendo o casal formado por Gael (Sergio Guinzé) e Clara (Bianca Bin), na novela O Outro Lado do Paraíso. Já no segundo capitulo da trama, o marido estupra a mulher em plena lua de mel.  No capítulo de sábado (28),  ela tomou a primeira surra. Em um ataque de ciúme, ele parte para cima dela dando tapas na cara. Depois, a arrasta pelos cabelos. "Não grita que te arrebento", diz o agressor. Clara cai da escada, vai para o hospital, mas protege o marido e se recusa a acusá-lo da violência.

O público tem reagido com alguma indignação, como sempre acusando a mulher de não tomar uma atitude. No entanto, quem se embrenha em um relacionamento abusivo não tem sequer noção da encrenca. Segundo a psicóloga Silvia Malamud, autora do livro "Sequestradores de Almas", e administradora da página  Vítimas de narcisistas perversos, no Facebook, a vítima não identifica que o abuso é abuso. "A violência física é só uma das formas de agressão. A vítima se confunde, acredita até que é culpada, passa a se convencer de que não foi tão grave, perde a dimensão do que é drástico. É o resultado da manipulação perversa feita pelo agressor", explica.

O cíume, normalmente usado como desculpa para as agressões, é só uma ferramenta usada pelos narcistas perversos, como Silvia identifica esse tipo de agressor. "Quando a vítima aparece como pessoa, o agressor não suporta, não aguenta ver o outro se iluminar, brilhar, e só pensa em destruir. As construções de si mesma são tão frágeis, que tudo o que surge como ameaça a essa sua 'selfie' será alvo de violência. A melhor defesa para o narcista perverso é o ataque."

O ciclo de agressão, perdão e promessas de que nunca mais isso vai acontecer, mostrado no capítulo desta segunda-feira (30) faz parte de inúmeros relatos do livro de Silvia Malamud.  "A passividade feminina é cultural, e há a questão da manipulação. A mulher acredita na promessa de amor, de fusão, e acaba com dependência emocional.  Se alguém de fora sabe fica horrorizado, mas a vítima não tem a dimensão do problema, acredita que no fundo o agressor é uma boa pessoa e quer tirar migalha do relacionamento".

Walcyr Carrasco está, sem dúvida, mexendo em um vespeiro. A violência doméstica ainda esbarra em ideias como a de em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher. O estupro marital, cometido por maridos contra suas esposas, é outro tabu, que bate de frente com a ideia de que fazer sexo é obrigação no casamento, mesmo sem consentimento. Há muito o que ser escancarado, e o autor já mostrou que está disposto a jogar certas verdades na cara da audiência.

Mais do que a campanha social da novela sobre a violência contra a mulher, que já começou encerrando alguns capítulos com números para denúncia, o que Gael e Clara mostram é que ninguém está a salvo, e é preciso, sim, meter a colher quando o caldo entorna. Que as Claras por aí consigam se enxergar e perceber que, não, ele não te ama. Isso não é amor. E que os Gaels da vida possam também ter um pouco mais de noção do estrago que causam.

http://r7.com/8Y5B