Por que a bailarina Carol abriu a porta para o ex?

No fundo, ela não acreditava que poderia ser agredida, como tantas mulheres vítimas de violência doméstica

A troca de mensagens entre a dançarina Ana Carolina Viera e a prima dela, reveladas na manhã desta quinta-feira (5), mostram que ela não parecia disposta a abrir a porta para o ex-namorado Anderson Rodrigues Leitão, de 27 anos. Ela estava incomodada com a presença dele, tinha deixado ordem na portaria para que nenhum porteiro o deixasse subir e, no entanto, ela vacilou. Carol abriu a porta. E acabou morta pelo cara com quem namorou por quase dois anos.

A prima tentou alertar. "Não abra. Acho um perigo", diz. Carol até imaginou que pudesse sofrer uma agressão. "Se ele me ver é capaz de me dar um murro", supõe. Mas, certamente, nem a própria Carol acreditava realmente nisso. Mulheres que vivem em relacionamentos abusivos, que apanham dos companheiros, são vítimas de uma cegueira afetiva que pode ser difícil de entender.

O  que leva uma mulher agredida a suportar e continuar vivendo com o inimigo? Ou, neste caso, a acreditar que um ex com histórico de violência não representa, de fato, um perigo?

Para o professor da Faculdade de Sociologia da USP, Gustavo Venturi, um dos organizadores da pesquisa 'Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado" da Fundação Perseu Abramo, lançada no final de 2013,  em muitos casos há uma dependência econômica, mas nem sempre.

— É preciso entender que houve algum momento em que naquela relação existia um laço afetivo, amoroso, sexual forte. Na maior parte das vezes, a mulher opta por relevar, acredita que pode ser um fato isolado, justifica que o agressor estava bêbado, ou foi em um momento de raiva. Mas isso não é a causa da violência, é um facilitador para que a violência ocorra.

A mulher que não se separa e continua vivendo com o agressor se sustenta na esperança de que tudo vai mudar. Quando acaba aquele momento de pavor, ela se apega nas outras coisas boas que a relação possui. Mesmo quando a relação já acabou, como era o caso de Carol, há uma crença de que o homem que diz amá-la não terá coragem de lhe fazer mal.

Infelizmente, não é o que dizem os números.  As estatísticas apontam para um quadro sinistro: a cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas violentamente no Brasil. De 2001 a 2006, foi verificada uma taxa de 5,28 feminicídios por 100 mil mulheres, semelhante à encontrada entre 2007 e 2011, de 5,22. Segundo o  Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), os parceiros íntimos são os principais assassinos de mulheres, sendo responsáveis por aproximadamente 40% de todos os homicídios no mundo. Essa proporção é de 6% entre os homens assassinados pelas parceiras.

E, sim, o ciúme é o principal gatilho da violência doméstica. Carol entrou para as estatísticas por não acreditar que seria agredida. Por não perceber que o sentimento de posse faz com namorados e maridos se sintam donos e, portanto, tenham o direito de vida e morte sobre a mulher. Carol abriu a porta não foi por dó. Foi por ter esperança de que, no fundo, o ex era um cara legal. Não era.

O conselho é para todas as mulheres. Quando ultrapassa a barreira física, não tem um tapinha que mereça desculpa. O conselho é violência zero.

 Por que a bailarina Carol abriu a porta para o ex?

A prima sabia do perigo, mas Carol resolveu dar um voto de confiança ao ex. Acabou assassinada

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