
A diretora Petra Costa em cena do documentário Elena, que estreia nesta sexta-feira (10) (Foto: Divulgação)
Embalado por uma consistente carreira em festivais – o que incluiu diversos prêmios em Brasília e participação no IDFA, principal evento do gênero no mundo –, o documentário Elena estreia nos cinemas nesta sexta-feira (10). Primeiro longa-metragem da antropóloga, atriz e diretora Petra Costa, 29 anos, conta uma história pessoal, mas com uma abordagem universal. Ao revisitar as memórias do fim trágico de sua irmã mais velha em Nova York, Petra na verdade discute os dramas de passagem para a vida adulta e o sentimento de inadequação ao mundo vivenciado por boa parte dos jovens.
Enquanto preparava-se para pré-estreia do documentário, ocorrida na segunda-feira em São Paulo, Petra deu a seguinte entrevista exclusiva ao BlogDoc.
Muitas análises apontam que o filme parece ter sido uma forma de você lidar com uma perda traumática. Mas, afinal, o filme existe para curar essa perda? Ou existe exatamente porque essa perda já foi entendida antes, e por isso pode agora ser mostrada?
Petra Costa - Eu realmente só consegui fazer o filme porque já tinha passado um bom tempo elaborando as questões sobre as quais ele trata e elas já não eram questões que me perturbavam. Eram questões que eu já tinha uma serenidade para poder retratar e contar, mais pelo valor dramatúrgico que encontrava nelas do que pelo valor terapêutico. O processo de fazer o filme foi duro e eu não recomendaria para ninguém como processo terapêutico.
Esse processo de entender e processar os fatos aconteceu em que momento na sua vida?
Petra - Foi principalmente dos 16 aos 21 anos. Com 21, como eu falo no filme, eu fiquei mais velha que Elena e deixei de me confundir com ela. Encontrei um caminho meu.
Seu primeiro curta-metragem, Olhos de Ressaca (2009), tem muito em comum com Elena. A temática familiar, a fotografia, enquadramentos, a cena da piscina, que lembra uma cena de Elena. E a música, também.
Petra - Descobri essa música pela Ava Rocha, filha do Glauber, montadora do filme. A gente pôs no curta e, quando comecei a fazer Elena, achei um trecho [de material de arquivo] em que ela falava “estou dançando com a lua”. Comecei a procurar uma música para acompanhar e reencontrei essa música, que se chama Valsa pra Lua, do Vitor Araújo. Coloquei nas imagens de Elena dançando e colou perfeitamente. Ali descobri um pouco a alma do filme.
A temática familiar, presente nos dois filmes, é algo que você pretende levar na sua obra daqui para frente?
Petra - Posso até voltar a fazer um filme familiar, mas o próximo não é. Será um filme com dois atores da companhia Le Théâtre du Soleil.
É um filme de ficção?
Petra - Está na borda de ficção e documentário porque tem bastante material da própria vida deles. Parto da estrutura do livro Mrs Dalloway, da Virginia Woolf, mas uso como matéria-prima a vida deles.
Você fez 50 entrevistas para Elena e disse que chegou, em certo momento, a pensar no filme como um documentário mais tradicional. Como foi a transição de um documentário de entrevistas para o que ele se tornou?
Petra - Foi um ciclo. A primeira vez que pensei, queria fazer um filme em que a pessoa pensaria estar vendo um filme de ficção para descobrir só final – ou talvez nem descobrir [que era um documentário]. Algo que estivesse mesmo nesse limiar. O que eu estava interessada era em investigar a confusão entre as irmãs. Quando decidi fazer o filme, vi que para fazer isso eu precisaria descobrir tudo sobre a Elena. Aí comecei um processo mais etnográfico, investigativo, e fiz todas as entrevistas. Com esse material na mão, comecei a montar e foi virando um documentário. Mas aí eu comecei as narrações e ele voltou ao lugar inicial. Em certo momento, tinha as duas coisas e uma não dialogava muito com a outra. Foi quando ganhei confiança na parte narrada – antes achava que um filme todo narrado ia ser muito chato – que eu pude abrir mão das entrevistas. Também porque as pessoas me falavam que a força do filme estava nessa intimidade, e que as entrevistas quebravam isso.
Em algum momento você pensou em fazer um filme de ficção, “baseado em histórias reais”, ou desde o começo você se viu no filme dessa forma?
Petra - Pensei, mas não pensei muito. Foi antes de começar. Quando comecei, já estava muito inspirada pelos filmes do Chris Marker e da Agnès Varda, que têm bastante essa mistura, esse olhar de ensaio, de poesia, e era isso que eu estava interessada em fazer. Acho que um dia pode até ser legal alguém fazer uma adaptação com atores.
As narrações que estruturam o filme foram feitas só no final do processo, depois de sua viagem para Nova York e das entrevistas?
Petra - Infelizmente. Acho que se tivesse feito antes teria feito o filme muito mais rápido.
Então quando você foi para Nova York, por exemplo, e fez imagens suas vagando pela cidade, não sabia que as imagens teriam o uso que tiveram?
Petra - Não sabia que frase ia estar em cima daquilo, mas sabia que o filme iria ter imagens que nos colocariam nos pés da personagem, que vaga pela cidade. Para mim, a cidade era um personagem importante, esse olhar subjetivo sobre a cidade.
Como você vê a existência nos últimos anos de vários documentários que têm uma pegada mais pessoal. Diário de uma Busca, de Flavia Castro, Construção, de Carolina Sá, e outros?
Petra - Acho que a mesma coisa acontece na antropologia. Nos anos 50, a antropologia tinha uma pretensão de ser um retrato objetivo do outro. Nos últimos anos, os autores se colocam cada vez mais, até por reconhecer que é impossível retratar o outro sem se colocar. Já que a gente se coloca, então por que não fazer um filme exatamente sobre essa investigação do eu? Já tinha feito várias experiências no cinema antes, que eram mais etnográficas. Foi justamente por perceber essa incapacidade de representar o outro que eu comecei a querer a falar do íntimo. Fui percebendo quão complicada, e muitas vezes hipócrita, limitada, era essa tentativa. Isso do ponto de vista da antropologia. E, no teatro, os diretores e professores que mais me inspiravam eram os que incentivavam a colocar bastante do próprio depoimento pessoal em cena, tanto para interpretar Ofélia, de Hamlet, quanto para fazer uma cena sobre sua vida pessoal.
Você está fazendo uma campanha diferente de lançamento do filme, que inclui o uso de Twitter e Facebook chamando as pessoas a fazerem cartazes sobre “quem é Elena”, o estímulo para que o público conte suas histórias de “memórias inconsoláveis”, um clipe promocional com atores famosos e diversas outras iniciativas. Como surgiram essas ideias?
Petra - Até por eu vir da antropologia, nunca quis que o filme ficasse preso às salas de cinema. Eu sentia que ele fala de uma crise existencial pela qual muitos jovens passam. Não só jovens. Também fala da perda, questões que são pouco discutidas, tabus. Queria abrir um debate sobre isso e, se possível, incentivar outras pessoas a também fazerem obras sobre suas “elenas”, sobre suas memórias inconsoláveis. Essa campanha de mobilização social era parte integral do meu desejo com o filme.
Como você vê a carreira do filme nos festivais fora do Brasil. Esperava que ele iria ter todo esse respaldo?
Petra - Foi uma surpresa ver a resposta dos públicos, nacionais e internacionais, nos festivais. É muito emocionante. No IDFA, onde foi a estreia internacional, tinha uma delegação da África do Sul de 20 pessoas e todos viram o filme e ficaram muito comovidos.
O que as pessoas comentam?
Petra - Comentam que viram a irmã, o pai, a mãe, a própria infância...
Que comentários mais te marcaram?
Petra - Por exemplo, no festival de Berlim eu dei uma cópia do filme para o Tim Robbins. Nunca achei que ele fosse ver. Ele viu e me escreveu um e-mail maravilhoso, que achou o filme comovente, se encantou. O fato de um ator do porte dele ter a generosidade de chegar e assistir um DVD de uma desconhecida é algo que eu não esperava. Assim como os diretores que eu mostrei aqui no Brasil. Descobri uma generosidade no mundo artístico que eu não sabia que existia.
(Por Marcelo Bauer)
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