Publicado em 17/05/2013 às 09h54
Histórias diretas

A líder quilombola Miúda os Santos em cena do documentário Raça, que estreia nos cinemas (Foto: Divulgação)
Filmes criados para defender uma causa – não importa quão justa ela seja – muitas vezes acabam se tornando armadilhas cinematográficas. Imbuído de um sentido de missão, o cineasta facilmente sucumbe aos riscos do sectarismo, dos jargões e do papo entre iniciados. Acaba falando apenas para sua própria turma.
Não é o caso de Raça, de Joel Zito Araújo e Megan Mylan, que entra em cartaz no circuito nacional nesta sexta (17). Assumidamente engajado, este é um filme politicamente “necessário”, como classificou o diretor, mas que consegue, ao mesmo tempo, ser uma experiência de cinema de qualidade.
Durante mais de cinco anos, os realizadores acompanharam as atividades de três personalidades negras com atuações bastante diferentes: o senador Paulo Paim (PT-RS), o cantor e empresário Netinho de Paula e a líder quilombola Miúda os Santos.
|
O registro é o de cinema direto, técnica que já tem mais de meio século de vida, mas que ainda parece fresca e funciona muito bem dentro do propósito da trama de Raça. Mais do que o método de filmagem, a escolha dá certo porque os três personagens de fato têm o que mostrar. E também porque a gravação se estendeu por um longo período, o que faz com que haja um enredo para cada um deles – uma historinha com começo, meio e fim a ser contada.
No caso de Paulo Paim, o documentário acompanha os bastidores da discussão do Estatuto da Igualdade Racial no Congresso Nacional. O projeto ficou cerca de dez anos tramitando na Câmara e no Senado até ser aprovado em julho de 2010. No filme, é possível acompanhar detalhes das negociações que acontecem nos corredores e em conversas de gabinete – ou seja, tudo que se passa antes das entrevistas formais, das votações em plenário e dos pronunciamentos oficiais.
Já o bloco destinado a Netinho de Paula, atualmente secretário de Promoção da Igualdade Racial na Prefeitura de São Paulo, tem como foco o período em que o músico enredou-se no projeto de construção de uma rede de televisão, a TV da Gente, com temáticas e equipe de maioria negra. De novo, o longo período de acompanhamento favorece o resultado, do ponto de vista da trama. O filme acompanha o projeto desde os preparativos, passando pela inauguração com festa, até o seu encerramento melancólico, por falta de recursos e de retransmissoras.
Ao lado de Miúda dos Santos, os cineastas registram a luta dos quilombolas pela titulação de suas terras e os conflitos advindos do crescimento da exploração agrícola. No quilombo Linharinho, do Espírito Santo, a briga é contra as atividades madeireiras da gigante de celulose Aracruz. Mas o filme aborda também o esforço para a manutenção das tradições afro entre as gerações atuais – e mostra que encontrar alguém disposto a cortar a cabeça da galinha para os rituais pode ser um problema hoje em dia.
Se em geral a escolha de cinema direto prestou-se perfeitamente ao tema, há alguns poucos deslizes, em particular no bloco de discussão do Estatuto da Igualdade Racial, quando são expostos os pontos de vista dos parlamentares que se opunham a partes do texto da lei. O problema é que a edição rápida desses discursos e declarações parece ter sido feita mais com o objetivo de fortalecer os argumentos defendidos pelo filme do que de fato abrir o microfone para ouvir uma opinião diversa.
Como não poderia deixar de ser, Raça provém de uma dupla com vivência prévia no cinema social.
Joel Zito fez carreira principalmente com obras de temática racial, tanto documentários quanto ficção.
Megan é vencedora do Oscar de documentário curta-metragem em 2008, com Smile Pinki. Viveu e trabalhou em uma ONG no Brasil por vários anos.
Por tudo isso, não chega a ser uma surpresa o fato de os realizadores terem decidido doar toda a renda de bilheteria do filme para o fundo Baobá, de defesa da equidade racial.
Raça
Direção: Joel Zito Araújo e Megan Mylan. Brasil, 2012. 104 minutos. Estreia nos cinemas: 17/5/2013. Classificação indicativa: livre. Veja o trailer.
(Por Marcelo Bauer)
- Espalhe por aí:
- Imprimir:
- Envie por e-mail:




















