Histórias diretas

17 Raca Histórias diretas

A líder quilombola Miúda os Santos em cena do documentário Raça, que estreia nos cinemas (Foto: Divulgação)

Filmes criados para defender uma causa – não importa quão justa ela seja – muitas vezes acabam se tornando armadilhas cinematográficas. Imbuído de um sentido de missão, o cineasta facilmente sucumbe aos riscos do sectarismo, dos jargões e do papo entre iniciados. Acaba falando apenas para sua própria turma.

Não é o caso de Raça, de Joel Zito Araújo e Megan Mylan, que entra em cartaz no circuito nacional nesta sexta (17). Assumidamente engajado, este é um filme politicamente “necessário”, como classificou o diretor, mas que consegue, ao mesmo tempo, ser uma experiência de cinema de qualidade.

Durante mais de cinco anos, os realizadores acompanharam as atividades de três personalidades negras com atuações bastante diferentes: o senador Paulo Paim (PT-RS), o cantor e empresário Netinho de Paula e a líder quilombola Miúda os Santos.

saibamais Histórias diretas
 

+ Curta o BlogDoc no Facebook

+ Siga o BlogDoc no Twitter

saibamais 2 Histórias diretas

O registro é o de cinema direto, técnica que já tem mais de meio século de vida, mas que ainda parece fresca e funciona muito bem dentro do propósito da trama de Raça. Mais do que o método de filmagem, a escolha dá certo porque os três personagens de fato têm o que mostrar. E também porque a gravação se estendeu por um longo período, o que faz com que haja um enredo para cada um deles – uma historinha com começo, meio e fim a ser contada.

No caso de Paulo Paim, o documentário acompanha os bastidores da discussão do Estatuto da Igualdade Racial no Congresso Nacional. O projeto ficou cerca de dez anos tramitando na Câmara e no Senado até ser aprovado em julho de 2010. No filme, é possível acompanhar detalhes das negociações que acontecem nos corredores e em conversas de gabinete – ou seja, tudo que se passa antes das entrevistas formais, das votações em plenário e dos pronunciamentos oficiais.

Já o bloco destinado a Netinho de Paula, atualmente secretário de Promoção da Igualdade Racial na Prefeitura de São Paulo, tem como foco o período em que o músico enredou-se no projeto de construção de uma rede de televisão, a TV da Gente, com temáticas e equipe de maioria negra. De novo, o longo período de acompanhamento favorece o resultado, do ponto de vista da trama. O filme acompanha o projeto desde os preparativos, passando pela inauguração com festa, até o seu encerramento melancólico, por falta de recursos e de retransmissoras.

Ao lado de Miúda dos Santos, os cineastas registram a luta dos quilombolas pela titulação de suas terras e os conflitos advindos do crescimento da exploração agrícola. No quilombo Linharinho, do Espírito Santo, a briga é contra as atividades madeireiras da gigante de celulose Aracruz. Mas o filme aborda também o esforço para a manutenção das tradições afro entre as gerações atuais – e mostra que encontrar alguém disposto a cortar a cabeça da galinha para os rituais pode ser um problema hoje em dia.

Se em geral a escolha de cinema direto prestou-se perfeitamente ao tema, há alguns poucos deslizes, em particular no bloco de discussão do Estatuto da Igualdade Racial, quando são expostos os pontos de vista dos parlamentares que se opunham a partes do texto da lei. O problema é que a edição rápida desses discursos e declarações parece ter sido feita mais com o objetivo de fortalecer os argumentos defendidos pelo filme do que de fato abrir o microfone para ouvir uma opinião diversa.

17 Raca diretores 300x168 Histórias diretas

Os diretores Megan Mylan e Joel Zito Araújo, de Raça (Foto: Divulgação)

Como não poderia deixar de ser, Raça provém de uma dupla com vivência prévia no cinema social.

Joel Zito fez carreira principalmente com obras de temática racial, tanto documentários quanto ficção.

Megan é vencedora do Oscar de documentário curta-metragem em 2008, com Smile Pinki. Viveu e trabalhou em uma ONG no Brasil por vários anos.

Por tudo isso, não chega a ser uma surpresa o fato de os realizadores terem decidido doar toda a renda de bilheteria do filme para o fundo Baobá, de defesa da equidade racial.

Raça
Direção: Joel Zito Araújo e Megan Mylan. Brasil, 2012. 104 minutos. Estreia nos cinemas: 17/5/2013. Classificação indicativa: livre. Veja o trailer.

(Por Marcelo Bauer)

  • Espalhe por aí:
    • Digg
    • Facebook
    • Google Bookmarks
    • Live
    • Netvibes
    • RSS
    • Twitter
  • Imprimir:
  • Envie por e-mail:

Posts relacionados

De Curitiba para Cannes, Aly Muritiba vê os presídios por dentro

15 Entrevista Aly Muritiba De Curitiba para Cannes, Aly Muritiba vê os presídios por dentro

Pátio, de Aly Muritiba, será o representante brasileiro na Semana da Crítica durante o Festival de Cannes (Foto: Divulgação)

O nome de Aly Muritiba tem sido recorrente nas notícias de cinema. O cineasta baiano, que mora em Curitiba, levou dois prêmios na última edição do É Tudo Verdade pelo curta-metragem Pátio. Agora, chega à França com o mesmo filme para participar da Semana da Crítica, mostra paralela do Festival de Cannes. O festival tem início nesta quarta-feira (15) e vai até o dia 26 e a Semana da Crítica começa um dia depois.

Não que essa situação seja muito estranha ao diretor. Seu curta anterior, A Fábrica, viajou o mundo por festivais e foi um dos 11 curtas-metragens pré-selecionados para o Oscar deste ano. Nada mal para alguém que iniciou a faculdade de cinema para criar amigos e arranjar uma coisa para fazer, já que estava desempregado após se mudar para Curitiba – distante do tradicional eixo Rio-São Paulo e de Pernambuco.

O BlogDoc conversou com o diretor sobre a Trilogia do Cárcere – que inclui os dois premiados curtas -, as expectativas para Cannes e o cenário do curta-metragem hoje. Veja a entrevista.

De onde surgiu a ideia para o curta-metragem Pátio?
Aly Muritiba - Eu estou fazendo uma trilogia [Trilogia do Cárcere]. Todos esses filmes surgiram da experiência que eu tive. Trabalhei como agente penitenciário durante sete anos e pude não apenas ver o sistema de dentro para fora, como fazer parte da engrenagem dele. Isso me fez olhar as coisas de uma maneira que julguei distinta do que o cinema nacional mostrava. Resolvi fazer os três filmes abordando, cada um deles, uma das partes envolvidas no sistema penitenciário: a família do preso [A Fábrica], o preso [Pátio] e os agentes penitenciários [O Agente].

O que seria distinto na sua visão sobre o sistema e a visão que o cinema normalmente tem?
Aly - A visão que o cinema e a imprensa fazem sobre o sistema penitenciário é muito reducionista e desprovida de propriedade e conhecimento, o que é natural. Essas pessoas nunca estiveram lá dentro, ou estiveram durante duas horas. Toda vez que a imprensa entra numa penitenciária, entra em outro lugar, maquiado, que a direção preparou. Como eu estive lá dentro, eu tive uma visão privilegiada.

 De Curitiba para Cannes, Aly Muritiba vê os presídios por dentro

Aly Muritiba dirigiu o curta Pátio (Foto: Divulgação)

Como você enxergou esse lugar do pátio de uma prisão, onde se passa o curta?
Aly - Eu enxerguei o pátio como um microcosmo possível de exercício de liberdade dentro daquele ambiente criado para encarcerar corpos. Resolvi inverter a lógica da coisa e prender o espectador, de modo que ele ficasse vendo o preso exercendo a sua liberdade. Por isso o ponto de vista é de trás das grades.

Faustino, um dos detentos do presídio, é uma espécie de personagem principal do curta. Como se deu a escolha dele?
Aly - O Faustino é mestre de capoeira e eu também sou capoeirista. Por esse gosto em comum, e essa coisa da cultura afro, a gente já se conhecia e conversava na penitenciária sobre capoeira e outros assuntos. Vejo a capoeira como uma espécie de exercício de liberdade.

A Fábrica era um curta-metragem de ficção. Por que a escolha de fazer essa segunda parte como documentário?
Aly - Eu não faço grandes distinções entre documentário e ficção. A linguagem de A Fábrica é de um documentário observacional. Em Pátio, o que é contado na sonora é construído de maneira ficcional, de modo que tem começo, meio e fim. Tem uma narrativa clássica lá. O próximo filme é um híbrido. Eu optei por fazer Pátio de maneira documental porque eu acredito que o realismo da situação pedia isso.

Você poderia antecipar como será a terceira parte?
Aly - O Agente conta a história de 28 pessoas que trabalham numa das equipes de uma penitenciária. Mostra o dia a dia desses caras e os embates que eles têm não necessariamente com os presos, mas muito mais com a burocracia administrativa. Há um personagem condutor dessa história, que é o inspetor, que eu filmo dentro e fora da cadeia. Está filmado e quase finalizado. Mas eu vou segurá-lo porque é ruim dois filmes filmados na mesma penitenciária pelo mesmo diretor circulando juntos. No final do segundo semestre, deve começar a carreira em festivais internacionais e, no ano que vem, deve circular no Brasil.

O que você tem achado dessa receptividade por parte dos festivais, depois de A Fábrica já ter também chamado atenção?
Aly - Eu fico muito feliz. Acredito que como A Fábrica surgiu de alguém do Paraná, distante de tudo que está sendo produzido no eixo São Paulo-Rio-Pernambuco, muita gente devia estar me julgando como azarão. Então é bom que Pátio tenha vindo para mostrar que as coisas que nós estamos fazendo no Paraná são consistentes também. Não foi um golpe de sorte.

Quais são as suas expectativas para o Festival de Cannes?
Aly - Minha expectativa é apresentar o meu filme e conversar sobre ele. Como são várias sessões e todas são seguidas de debates com o público e com críticos, eu estou muito ansioso para poder ouvir o que as pessoas têm a dizer. E compartilhar um pouco do que eu penso sobre o filme com elas.

Muitas pessoas veem o curta como um meio para conseguir fazer longas-metragens depois. A sua intenção é continuar fazendo curta?
Aly - Eu não acredito nessa história de curta como trampolim. Acho que quem estiver fazendo curta pensando assim está equivocado. Devia fazer outra coisa da vida e respeitar um pouco mais o formato. Eu espero fazer longas, curtas, séries... Eu quero fazer cinema, não importa a duração. Se o projeto que me mobiliza couber melhor em um curta, será um curta. Se couber em um longa, será um longa. Se couber em uma folha de papel, será um roteiro.

saibamais De Curitiba para Cannes, Aly Muritiba vê os presídios por dentro

+ Curta o BlogDoc no Facebook

+ Siga o BlogDoc no Twitter

saibamais 2 De Curitiba para Cannes, Aly Muritiba vê os presídios por dentro

Muita gente acredita também que o curta é um filme só de festival. Você acha que o curta consegue hoje alcançar o público?
Aly - Consegue. Infelizmente, eu não tenho dados porque os festivais e as emissoras não nos mandam. Mas A Fábrica foi exibido em mais de cem festivais, só aí deve ter feito muito público. Ele foi vendido para sete canais de televisão, alguns internacionais. Nessas exibições, deve ter feito milhares de espectadores. Ele é exibido constantemente em cineclubes. Recentemente, uma companhia de teatro do Rio de Janeiro que está montando uma peça que se passa no ambiente carcerário entrou em contato comigo para pedir para exibir durante a peça. Ele vai ser exibido no teatro, em um contexto completamente diferente. Na internet, também dá para atingir um público legal. Então, existe um público para o curta.

Do ponto de vista do mercado, é possível viver fazendo curtas?
Aly - Não, não dá. Ninguém quer pagar pelo seu curta. Quando ele é muito bem-sucedido, como A Fábrica, você consegue vender, mas são vendas feitas a um valor baixo. Você consegue se manter por uns poucos meses e olhe lá. Você vai viver de dar aula, de outra profissão, fazendo festivais, como a gente faz aqui. Mas viver de curta, não. Nem acho que a gente deve fazer pensando em viver de curta.

Por que não?
Aly - Se você for fazer curtas-metragens na esperança de ganhar dinheiro com eles, a possibilidade de você se frustrar é tão grande, mas tão grande, que é recomendado que você nem comece. Não estou dizendo que você não deve tentar ganhar dinheiro com o seu curta. Mas a possibilidade de isso acontecer é muito pequena.

(Por Aline Senzi)

 

  • Espalhe por aí:
    • Digg
    • Facebook
    • Google Bookmarks
    • Live
    • Netvibes
    • RSS
    • Twitter
  • Imprimir:
  • Envie por e-mail:

Posts relacionados

Documentário sobre Os Mulheres Negras vence o festival In-Edit 2013

13 In Edit vencedor Documentário sobre Os Mulheres Negras vence o festival In Edit 2013

O documentário Música Serve para Isso: Uma História dos Mulheres Negras foi o vencedor do In-Edit 2013 (Foto: Divulgação)

Música Serve para Isso: Uma História dos Mulheres Negras, de Bel Bechara e Sandro Serpa, foi o vencedor do In-Edit 2013. A premiação foi anunciada na sexta-feira (10). A programação do festival em São Paulo foi encerrada no domingo (12).

saibamais Documentário sobre Os Mulheres Negras vence o festival In Edit 2013

+ Curta o BlogDoc no Facebook

+ Siga o BlogDoc no Twitter

saibamais 2 Documentário sobre Os Mulheres Negras vence o festival In Edit 2013

O documentário premiado conta a história da “terceira menor big band do mundo”, Os Mulheres Negras. A banda era formada por André Abujamra e Maurício Pereira, que se conheceram em um curso de percussão africana.

Música Serve para Isso: Uma História dos Mulheres Negras resgata a trajetória da banda dos anos 80 que misturava diferentes ritmos e estilos.

O prêmio da competição brasileira foi eleito por júri popular, na única categoria competitiva do In-Edit. Os outros filmes indicados eram: Jards, de Eryk Rocha, A Batalha do Passinho, de Emílio Domingos, e Um Filme para Dirceu, de Ana Johann.

O In-Edit segue agora para Salvador, com programação reduzida entre 16 e 23 de maio.

 

  • Espalhe por aí:
    • Digg
    • Facebook
    • Google Bookmarks
    • Live
    • Netvibes
    • RSS
    • Twitter
  • Imprimir:
  • Envie por e-mail:

Posts relacionados

Programe-se: documentários na TV (de 13 a 19/5)

13 programacao tv Programe se: documentários na TV (de 13 a 19/5)

O documentário Palavra (En)Cantada, de Helena Solberg, será exibido na quinta-feira (16) (Foto: Divulgação)

O Canal Brasil exibe na quinta-feira Palavra (En)Cantada, de Helena Solberg. O documentário conta com entrevistas de músicos de peso para retratar a relação entre poesia e música.

Na terça-feira, Construção, de Carolina Sá, chega às telinhas. O documentário fez sua estreia no circuito comercial em novembro do ano passado.

O Sesc TV apresenta Sentidos à Flor da Pele, de Evaldo Mocarzel. O diretor retrata pessoas com deficiência visual que atuam de maneira não convencional no mercado de trabalho.

A semana ainda tem como destaques Ônibus 174, de José Padilha, e Nana Caymmi - Rio Sonata, de Georges Gachot.

SEGUNDA-FEIRA (13/5)

Touro Moreno
Brasil, 2007
Direção: Juliano Enrico
A saga do lutador e boêmio Touro Moreno dentro e fora dos ringues. Aos 68 anos, enfrenta lutadores mais novos e treina os filhos – que viriam a se tornar medalhistas em Londres 2012.
Onde: Sesc TV
Quando: 20h

Rádio Auriverde - A FEB Na Itália
Brasil, 1991
Direção: Sylvio Back
A seleção do É Tudo Verdade traz documentário que pretende desfazer a festividade acerca da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. O filme expõe a guerra psicológica e as relações do País com os EUA.
Onde: Canal Brasil
Quando: 22h

TERÇA-FEIRA (14/5)

A Coisa Vermelha (The Red Stuff)
Holanda, 1999
Direção: Leo de Boer
A história dos cosmonautas russos durante a corrida espacial. O documentário usa material de arquivo para retratar a coragem desses pioneiros.
Onde: TV Cultura
Quando: 0h

Construção
Brasil, 2012
Direção: Carolina Sá
Em tom intimista, registra três gerações de uma família: a pequena Branca, sua mãe, a diretora do filme, e seu pai, Marcos, já falecido. Ela viaja a Cuba, terra do pai, em época do aniversário da revolução.
Onde: Canal Brasil
Quando: 19h

QUARTA-FEIRA (15/5)

Condor
Brasil, 2007
Direção: Roberto Mader
As diferentes várias visões sobre a Operação Condor, nome dado à aliança entre os governos militares sul-americanos com apoio da CIA.
Onde: Canal Brasil
Quando: 22h

Casada com a Torre Eiffel (Married to the Eiffel Tower)
Reino Unido, 2008
Direção: Agnieszka Piotrowska
A história de Naisho e Amy, duas mulheres que sentem atração por objetos pessoais ou públicos. Naisho, por exemplo, se diz casada com a Torre Eiffel.
Onde: GNT
Quando: 23h30

QUINTA-FEIRA (16/5)

A Special Day (idem)
França, 2011
Direção: Gilles Jacob
O presidente do Festival de Cannes registrou 34 cineastas, como Gus van Sant, os irmãos Coen, Walter Salles, Wong Kar-Wai, Claude Lelouch, os irmãos Dardenne e Jane Campion, durante sua passagem pelo tapete vermelho no aniversário de 60 anos do evento.
Onde: Canal Max
Quando: 16h50

Palavra (En)Cantada
Brasil, 2011
Direção: Helena Solberg
Passando por diferentes estilos musicais, o documentário aborda a relação entre poesia e música por meio de uma viagem na história do cancioneiro brasileiro. Entrevistas com músicos como Arnaldo Antunes, BNegão, Chico Buarque, Lenine, Maria Bethânia, Martinho da Vila e Tom Zé.
Onde: Canal Brasil
Quando: 19h

SEXTA-FEIRA (17/5)

A Retomada - Ou Le Nouveau Cinéma Novo
Brasil, 2009
Direção: Karim Akadiri Soumaila
Depoimentos de cineastas que participaram do resgate do cinema brasileiro, ativos desde a década de 90. Conta com entrevistas de diretores como Fernando Meirelles, Walter Salles e Heitor Dhalia.
Onde: Canal Brasil
Quando: 16h

Sentidos à Flor da Pele
Brasil, 2008
Direção: Evaldo Mocarzel
Acompanha a rotina de pessoas com deficiência visual que atuam de modo não convencional no mercado de trabalho. Registra suas habilidades e capacidades, ao mesmo tempo em que a luta contra o preconceito.
Onde: Sesc TV
Quando: 20h

SÁBADO (18/5)

Ônibus 174
Brasil, 2002
Direção: José Padilha
Em 12 de junho de 2000, o sequestro de um ônibus no Rio de Janeiro foi filmado e transmitido ao vivo. O documentário de Padilha faz um retrato do que há por trás do evento e do cenário de violência urbana.
Onde: Canal Brasil
Quando: 14h40

DOMINGO (19/5)

Nana Caymmi - Rio Sonata
Brasil, 2011
Direção: Georges Gachot
Documentário dedicado a Nana Caymmi, filha de Dorival Caymmi. A produção, no entanto, tem como centro a carreira musical da cantora, em vez de sua biografia.
Onde: Canal Brasil
Quando: 0h35

CurtaDoc – Em Nome da Terra
Brasil, 2012
Direção: Kátia Klock
Este episódio do CurtaDoc discute a questão rural em quatro curtas: A Boate Azul, Café Passado Agora, Tio Miguer e Fruto da Terra. O crítico de cinema Marco Antônio Moreira faz os comentários.
Onde: Sesc TV
Quando: 22h

  • Espalhe por aí:
    • Digg
    • Facebook
    • Google Bookmarks
    • Live
    • Netvibes
    • RSS
    • Twitter
  • Imprimir:
  • Envie por e-mail:

Posts relacionados

Veja três oportunidades de financiamento para seu documentário

10 financiamento Veja três oportunidades de financiamento para seu documentário

Horizontes Minímos, de Marcos Pimentel, foi o selecionado brasileiro da terceira edição do Doctv América Latina (Foto: Divulgação)

Se só estiver faltando financiamento para você começar ou finalizar o seu documentário, o mês de maio tem três boas oportunidades. Já estão abertas as inscrições para editais do Canal Futura e do Fundo de Pós-Produção do Festival Internacional de Cinema Documental de Buenos Aires. A partir de 15 de maio, é possível se inscrever para a quarta edição do Doctv América Latina.

Doc Futura
As inscrições para o 4º Doc Futura vão até 3 de junho.

Serão selecionados projetos de documentários de 52 minutos para participar de um pitching para banca avaliadora do Canal Futura, que escolherá o documentário vencedor.

O Canal Futura dará preferência para projetos com temas não abordados com frequência na mídia, que girem em torno da questão de direitos humanos, principalmente aqueles que colocam a educação como instrumento para protegê-los.

O Doc Futura financiará toda a produção do documentário. É necessário que o orçamento do projeto não supere R$ 115 mil e será dada preferência para os produtores que viabilizarem menor orçamento.

Fundo de Pós-Produção do FIDBA
O fundo do Festival Internacional de Cinema Documental de Buenos Aires, na Argentina, oferecerá subsídios para a pós-produção de dois longas-metragens (mais de 60 minutos) ibero-americanos, sendo um deles obrigatoriamente argentino.

Somente serão aceitas versões do corte final do documentário. A inscrição acontece por meio de plataforma web, após envio de e-mail ao FIDBA para liberar a participação.

A pós-produção de imagem e som será realizada em Buenos Aires. Todos os gastos de transporte, hospedagem e manutenção serão por conta do beneficiário do fundo.

Doctv América Latina
As inscrições do quarto Programa Doctv América Latina serão abertas na próxima quarta-feira (15). Ainda não há detalhes sobre o regulamento de inscrição.

Os interessados deverão consultar os sites das autoridades audiovisuais e emissoras de televisão públicas que aderiram ao programa. No caso do Brasil, são a Agência Nacional de Cinema (Ancine), a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, a TV Brasil e a TV Cultura.

O Doctv Latinoamérica é um programa de produção, distribuição e teledifusão de documentários. Ele surgiu de iniciativa da Conferencia de Autoridades Cinematográficas de Iberoamérica (Caci) e da Fundación del Nuevo Cine Latinoamericano. Atualmente, 15 países participam do programa: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, México, Panamá, Peru, Porto Rico, Uruguai e Venezuela.

  • Espalhe por aí:
    • Digg
    • Facebook
    • Google Bookmarks
    • Live
    • Netvibes
    • RSS
    • Twitter
  • Imprimir:
  • Envie por e-mail:

Posts relacionados

Elena traz histórias pessoais com abordagem universal

08 Elena Entrevista Elena traz histórias pessoais com abordagem universal

A diretora Petra Costa em cena do documentário Elena, que estreia nesta sexta-feira (10) (Foto: Divulgação)

Embalado por uma consistente carreira em festivais – o que incluiu diversos prêmios em Brasília e participação no IDFA, principal evento do gênero no mundo –, o documentário Elena estreia nos cinemas nesta sexta-feira (10). Primeiro longa-metragem da antropóloga, atriz e diretora Petra Costa, 29 anos, conta uma história pessoal, mas com uma abordagem universal. Ao revisitar as memórias do fim trágico de sua irmã mais velha em Nova York, Petra na verdade discute os dramas de passagem para a vida adulta e o sentimento de inadequação ao mundo vivenciado por boa parte dos jovens.

Enquanto preparava-se para pré-estreia do documentário, ocorrida na segunda-feira em São Paulo, Petra deu a seguinte entrevista exclusiva ao BlogDoc.

Muitas análises apontam que o filme parece ter sido uma forma de você lidar com uma perda traumática. Mas, afinal, o filme existe para curar essa perda? Ou existe exatamente porque essa perda já foi entendida antes, e por isso pode agora ser mostrada?
Petra Costa - Eu realmente só consegui fazer o filme porque já tinha passado um bom tempo elaborando as questões sobre as quais ele trata e elas já não eram questões que me perturbavam. Eram questões que eu já tinha uma serenidade para poder retratar e contar, mais pelo valor dramatúrgico que encontrava nelas do que pelo valor terapêutico. O processo de fazer o filme foi duro e eu não recomendaria para ninguém como processo terapêutico.

Esse processo de entender e processar os fatos aconteceu em que momento na sua vida?
Petra - Foi principalmente dos 16 aos 21 anos. Com 21, como eu falo no filme, eu fiquei mais velha que Elena e deixei de me confundir com ela. Encontrei um caminho meu.

Seu primeiro curta-metragem, Olhos de Ressaca (2009), tem muito em comum com Elena. A temática familiar, a fotografia, enquadramentos, a cena da piscina, que lembra uma cena de Elena. E a música, também.
Petra - Descobri essa música pela Ava Rocha, filha do Glauber, montadora do filme. A gente pôs no curta e, quando comecei a fazer Elena, achei um trecho [de material de arquivo] em que ela falava “estou dançando com a lua”. Comecei a procurar uma música para acompanhar e reencontrei essa música, que se chama Valsa pra Lua, do Vitor Araújo. Coloquei nas imagens de Elena dançando e colou perfeitamente. Ali descobri um pouco a alma do filme.

A temática familiar, presente nos dois filmes, é algo que você pretende levar na sua obra daqui para frente?
Petra - Posso até voltar a fazer um filme familiar, mas o próximo não é. Será um filme com dois atores da companhia Le Théâtre du Soleil.

É um filme de ficção?
Petra - Está na borda de ficção e documentário porque tem bastante material da própria vida deles. Parto da estrutura do livro Mrs Dalloway, da Virginia Woolf, mas uso como matéria-prima a vida deles.

Você fez 50 entrevistas para Elena e disse que chegou, em certo momento, a pensar no filme como um documentário mais tradicional. Como foi a transição de um documentário de entrevistas para o que ele se tornou?
Petra - Foi um ciclo. A primeira vez que pensei, queria fazer um filme em que a pessoa pensaria estar vendo um filme de ficção para descobrir só final – ou talvez nem descobrir [que era um documentário]. Algo que estivesse mesmo nesse limiar. O que eu estava interessada era em investigar a confusão entre as irmãs. Quando decidi fazer o filme, vi que para fazer isso eu precisaria descobrir tudo sobre a Elena. Aí comecei um processo mais etnográfico, investigativo, e fiz todas as entrevistas. Com esse material na mão, comecei a montar e foi virando um documentário. Mas aí eu comecei as narrações e ele voltou ao lugar inicial. Em certo momento, tinha as duas coisas e uma não dialogava muito com a outra. Foi quando ganhei confiança na parte narrada – antes achava que um filme todo narrado ia ser muito chato – que eu pude abrir mão das entrevistas. Também porque as pessoas me falavam que a força do filme estava nessa intimidade, e que as entrevistas quebravam isso.

Em algum momento você pensou em fazer um filme de ficção, “baseado em histórias reais”, ou desde o começo você se viu no filme dessa forma?
Petra - Pensei, mas não pensei muito. Foi antes de começar. Quando comecei, já estava muito inspirada pelos filmes do Chris Marker e da Agnès Varda, que têm bastante essa mistura, esse olhar de ensaio, de poesia, e era isso que eu estava interessada em fazer. Acho que um dia pode até ser legal alguém fazer uma adaptação com atores.

As narrações que estruturam o filme foram feitas só no final do processo, depois de sua viagem para Nova York e das entrevistas?
Petra - Infelizmente. Acho que se tivesse feito antes teria feito o filme muito mais rápido.

Então quando você foi para Nova York, por exemplo, e fez imagens suas vagando pela cidade, não sabia que as imagens teriam o uso que tiveram?
Petra - Não sabia que frase ia estar em cima daquilo, mas sabia que o filme iria ter imagens que nos colocariam nos pés da personagem, que vaga pela cidade. Para mim, a cidade era um personagem importante, esse olhar subjetivo sobre a cidade.

Como você vê a existência nos últimos anos de vários documentários que têm uma pegada mais pessoal. Diário de uma Busca, de Flavia Castro, Construção, de Carolina Sá, e outros?
Petra - Acho que a mesma coisa acontece na antropologia. Nos anos 50, a antropologia tinha uma pretensão de ser um retrato objetivo do outro. Nos últimos anos, os autores se colocam cada vez mais, até por reconhecer que é impossível retratar o outro sem se colocar. Já que a gente se coloca, então por que não fazer um filme exatamente sobre essa investigação do eu? Já tinha feito várias experiências no cinema antes, que eram mais etnográficas. Foi justamente por perceber essa incapacidade de representar o outro que eu comecei a querer a falar do íntimo. Fui percebendo quão complicada, e muitas vezes hipócrita, limitada, era essa tentativa. Isso do ponto de vista da antropologia. E, no teatro, os diretores e professores que mais me inspiravam eram os que incentivavam a colocar bastante do próprio depoimento pessoal em cena, tanto para interpretar Ofélia, de Hamlet, quanto para fazer uma cena sobre sua vida pessoal.

Você está fazendo uma campanha diferente de lançamento do filme, que inclui o uso de Twitter e Facebook chamando as pessoas a fazerem cartazes sobre “quem é Elena”, o estímulo para que o público conte suas histórias de “memórias inconsoláveis”, um clipe promocional com atores famosos e diversas outras iniciativas. Como surgiram essas ideias?
Petra - Até por eu vir da antropologia, nunca quis que o filme ficasse preso às salas de cinema. Eu sentia que ele fala de uma crise existencial pela qual muitos jovens passam. Não só jovens. Também fala da perda, questões que são pouco discutidas, tabus. Queria abrir um debate sobre isso e, se possível, incentivar outras pessoas a também fazerem obras sobre suas “elenas”, sobre suas memórias inconsoláveis. Essa campanha de mobilização social era parte integral do meu desejo com o filme.

Como você vê a carreira do filme nos festivais fora do Brasil. Esperava que ele iria ter todo esse respaldo?
Petra - Foi uma surpresa ver a resposta dos públicos, nacionais e internacionais, nos festivais. É muito emocionante. No IDFA, onde foi a estreia internacional, tinha uma delegação da África do Sul de 20 pessoas e todos viram o filme e ficaram muito comovidos.

O que as pessoas comentam?
Petra - Comentam que viram a irmã, o pai, a mãe, a própria infância...

Que comentários mais te marcaram?
Petra - Por exemplo, no festival de Berlim eu dei uma cópia do filme para o Tim Robbins. Nunca achei que ele fosse ver. Ele viu e me escreveu um e-mail maravilhoso, que achou o filme comovente, se encantou. O fato de um ator do porte dele ter a generosidade de chegar e assistir um DVD de uma desconhecida é algo que eu não esperava. Assim como os diretores que eu mostrei aqui no Brasil. Descobri uma generosidade no mundo artístico que eu não sabia que existia.

(Por Marcelo Bauer)

+ Curta o BlogDoc no Facebook

+ Siga o BlogDoc no Twitter

  • Espalhe por aí:
    • Digg
    • Facebook
    • Google Bookmarks
    • Live
    • Netvibes
    • RSS
    • Twitter
  • Imprimir:
  • Envie por e-mail:

Posts relacionados

Programe-se: documentários na TV (de 6 a 12/5)

06 programacao tv Programe se: documentários na TV (de 6 a 12/5)

O Milagre de Santa Luzia será exibido no Canal Brasil nesta segunda-feira (6) (Foto: Divulgação)

O programa do É Tudo Verdade no Canal Brasil exibe nesta segunda-feira (6) O Milagre de Santa Luzia. O documentário de Sérgio Roizenblit faz uma viagem pelo Brasil em busca da sanfona.

Outro filme que já participou do É Tudo Verdade exibido nesta semana é Pan-Cinema Permanente, de Carlos Nader. O longa-metragem foi o vencedor da edição de 2008.

O GNT reexibe o documentário Marcelo Yuka - No caminho das setas, que estreou nos cinemas em novembro.

SEGUNDA-FEIRA (6/5)

Do Lado de Fora
Brasil, 2005
Direção: Paula Zanettini e Monica Marques
A história de seis mulheres cujas vidas foram modificadas com a prisão de filhos, maridos, irmãos ou companheiros.
Onde: Sesc TV
Quando: 20h

O Milagre de Santa Luzia
Brasil, 2008
Direção: Sérgio Roizenblit
A seleção do É Tudo Verdade traz documentário que faz um mapeamento da sanfona no Brasil a partir de viagem conduzida por Dominguinhos, conhecido como o maior sanfoneiro do País.
Onde: Canal Brasil
Quando: 22h03

TERÇA-FEIRA (7/5)

Eles a Chamam de Mianmar: Levantando a Cortina (They Call It Myanmar: Lifting The Curtain)
EUA, 2012
Direção: Robert H. Lieberman
O escritor Robert H. Lieberman filmou clandestinamente durante dois anos a Birmânia, um dos países mais isolados do mundo. Entre os registros, há a história da vencedora do Prêmio Nobel da Paz, Aung San Suu.
Onde: TV Cultura
Quando: 0h

Luto como Mãe
Brasil, 2009
Direção: Luís Carlos Nascimento
O documentário é centrado em mães cujos filhos foram mortos nas Chacinas de Acari, da Via Show e da Baixada Fluminense. Elas lutam por justiça, contra o esquecimento e a impunidade.
Onde: Canal Brasil
Quando: 19h

QUARTA-FEIRA (8/5)

Pan-Cinema Permanente
Brasil, 2007
Direção: Carlos Nader
Carlos Nader acompanhou por quase 15 anos o poeta baiano Waly Salomão, para quem ficção e poesia eram ferramentas para combater pretensões naturalistas. Vencedor do É Tudo Verdade em 2008.
Onde: Canal Brasil
Quando: 14h30

Cadê Profiro?
Brasil, 2004
Direção: Hélio Brito
A Revolta Camponesa de Trombas e Formoso, que aconteceu na década de 50, no estado de Goiás, a partir do líder camponês José Porfírio de Souza. Procurado pelo regime militar, Porfírio é tido como desaparecido ainda hoje.
Onde: Sesc TV
Quando: 20h

QUINTA-FEIRA (9/5)

O Dia em Que o Brasil Esteve Aqui
Brasil, 2005
Direção: Caíto Ortiz e João Dornelas
A passagem da Seleção Brasileira no Haiti, o país mais pobre das Américas, para o chamado "Jogo da Paz", como um intervalo entre a miséria e as décadas de ditaduras naquele país.
Onde: Canal Brasil
Quando: 11h40

Marcelo Yuka - No caminho das setas
Brasil, 2011
Direção: Daniela Broitman
A vida de Marcelo Yuka, ex-líder da banda O Rappa, foi transformada quando levou nove tiros em um assalto, em 2000. O incidente o colocou em uma cadeira de rodas. Hoje, o músico luta por sua saúde física e espiritual, enquanto busca justiça social e paz.
Onde: GNT
Quando: 23h30

SEXTA-FEIRA (10/5)

O Cozinheiro do Tempo - Bené Fonteles
Brasil, 2009
Direção: André Luiz de Oliveira
Com depoimentos e Gilberto Gil, Egberto Gismonti e Arnaldo Antunes, o documentário resgata a vida e a obra do artista plástico, poeta e compositor Bené Fonteles.
Onde: Canal Brasil
Quando: 11h50

A História De Jimi Hendrix (Jimi Hendrix)
EUA, 1973
Direção: Joe Boyd, John Head e Gary Weis
Realizado três anos após a morte de Jimi Hendrix, o documentário reúne apresentações do guitarrista e depoimentos de ícones como Eric Clapton e Peter Townshend.
Onde: Max
Quando: 17h20

SÁBADO (11/5)

CurtaDoc – Consumo
Brasil, 2012
Direção: Kátia Klock
Este episódio do CurtaDoc discute o consumo em dois curtas: Irmãos Collyer - Uma fábula do acúmulo, de Alfeu França, e Consumo: Qual é o limite?, de Ricardo Bruini. O professor de cinema Marcelo Esteves faz os comentários.
Onde: Sesc TV
Quando: 18h

DOMINGO (12/5)

Detropia (idem)
EUA, 2012
Direção: Heidi Ewing e Rachel Grady
O caos e a decadência de Detroit, considerada um dos lugares mais miseráveis e violentos dos EUA, impactada pela crise econômica de 2008. O documentário mostra as ruínas da cidade e as pessoas que se recusam a sair dela.
Onde: Max
Quando: 12h20

+ Curta o BlogDoc no Facebook

+ Siga o BlogDoc no Twitter

  • Espalhe por aí:
    • Digg
    • Facebook
    • Google Bookmarks
    • Live
    • Netvibes
    • RSS
    • Twitter
  • Imprimir:
  • Envie por e-mail:

Posts relacionados

Gênero: thriller/comédia/documentário

03 Searching for sugar man Gênero: thriller/comédia/documentário

Vencedor do Oscar, Searching or Sugar Man estreia em São Paulo no In-Edit 2013 (Foto: Divulgação)

Conflito Israel-Palestina, violência sexual no exército americano, agência antiterrorista israelense, políticas anti-HIV/Aids. Como uma produção sobre um músico desconhecido levou o Oscar de melhor documentário em 2013 frente a concorrentes com temas políticos tão fortes?

Nas redes sociais, alguns comentários diziam que o Oscar teria se acovardado. Talvez seja isso mesmo. Mas é interessante observar que, em um ano em que filmes se prezavam por ter um ar realista normalmente atribuído ao gênero documental – entre eles, Argo, o grande vencedor -, o documentário premiado da noite foi um longa-metragem que pode ser visto como uma ficção, Searching for Sugar Man.

saibamais Gênero: thriller/comédia/documentário

+ Curta o BlogDoc no Facebook

+ Siga o BlogDoc no Twitter

saibamais 2 Gênero: thriller/comédia/documentário

A história de Rodríguez é de fato uma daquelas verdades inverossímeis. “Só idiotas acreditariam”, diz o jornalista sul-africano Rian Malan, entrevistado sobre a trajetória do músico. “Mas eu estava errado.”

Sixto Rodríguez nasceu em Detroit, nos Estados Unidos. Ele foi conhecido tocando em bares da cidade por dois produtores musicais que estavam certos de que haviam encontrado um artista tão grande quanto Bob Dylan.

No entanto, o público não concordou. Seu primeiro álbum, Cold Fact, de 1970, foi um grande fracasso. O segundo, Coming from Reality, de 1971, também passou despercebido e levou o músico a ser dispensado pela gravadora.

Nem tudo foi perdido. Searching for Sugar Man mostra como a música de Rodríguez fez enorme sucesso no cenário alternativo ao apartheid na África do Sul. Lá, ele foi “maior que o Elvis” e autor de hinos contra o governo, sem saber disso.

A conturbada política do país, explicam os entrevistados, tornava-o praticamente isolado do mundo. Os sul-africanos não tinham, portanto, nenhuma informação sobre o músico além do que estava no álbum: uma foto obscura, algumas letras que mencionam lugares contraditórios e três nomes diferentes para Rodríguez (Sixto, Jesus e apenas Rodríguez).

Boatos começaram a surgir sobre a morte poética ou dramática do músico. Ele teria tocado fogo em seu corpo durante um show, teria se matado com um tiro durante uma apresentação após a reação negativa do público...

Apresentado esse contexto, Searching for Sugar Man começa, como indica o nome, a busca pelo desconhecido músico. Ou melhor, um resgate da busca – ela aconteceu, na verdade, na década de 90. Dois fãs de Rodríguez resolveram ir atrás de quem, de fato, foi o músico e como ele morreu.

Partindo de uma história naturalmente intrigante, o diretor sueco Malik Bendjelloul soube escolher uma estrutura que a torna ainda mais misteriosa. São selecionados muito bem os comentários que ressaltam o ar obscuro de Rodríguez – tanto como pessoa, quanto como paradoxo de ser fracasso e ídolo. Até então, por exemplo, o documentário apresenta Rodríguez apenas por relatos, por sua música ou por fotos, usando sempre óculos escuros que escondem seu rosto.

Quando a busca começa, o espectador já está intrigado. Cada passo dela é acompanhado como uma busca de qualquer filme de ficção – exceto mais engraçada, principalmente quando descobrimos a história “real” do que aconteceu com o músico.

O documentário não tenta apresentar respostas para os dilemas levantados em torno do jogo de sucesso e fracasso da indústria musical. Searching for Sugar Man intriga o espectador, seja para refletir sobre elas, seja para apenas acompanhar a história.

A maneira com que o documentário lida com as informações pode resultar em algumas críticas – como já aconteceu. Searching for Sugar Man não chega a mentir, mas esconde informações. Muitos questionam se ele teria de fato sido “maior que o Elvis” na África do Sul, o que é a visão apresentada por seus fãs. Outros lembram que ele fez turnês pela Austrália e Nova Zelândia, onde foi gravado um álbum ao vivo, em 1981.

A escolha desses pontos de vista, no entanto, torna o documentário ainda mais divertido. A contraposição entre o enorme sucesso e o tremendo fracasso do músico ressaltam o absurdo da história que já existe.

Malik Bendjelloul conheceu Stephen ‘Sugar’ Segerman, um dos responsáveis pela redescoberta de Rodriguez, em uma viagem que fez pela África em busca de inspirações. Segundo o diretor, ele escolheu gravar esse documentário por ser a melhor história que ouviu.

O mesmo pode ser dito da escolha do Oscar, ou de muitos outros prêmios que o documentário venceu - grande parte votada pelo público, como em Sundance e no IDFA. Searching for Sugar Man sabe contar uma excelente história.

Searching for Sugar Man
Direção: Malik Bendjelloul. Suécia/Reino Unido, 2012. 86 minutos. Estreia em São Paulo: In-Edit 2013. Veja o trailer.

(Por Aline Senzi)

 

  • Espalhe por aí:
    • Digg
    • Facebook
    • Google Bookmarks
    • Live
    • Netvibes
    • RSS
    • Twitter
  • Imprimir:
  • Envie por e-mail:

Posts relacionados

Filme com alma

03 Paulo Moura Filme com alma

Paulo Moura - Alma brasileira, de Eduardo Escorel estreia no circuito comercial nesta sexta-feira (3) (Foto: Divulgação)

Ao apresentar Paulo Moura – Alma brasileira, na abertura do É Tudo Verdade 2013, em São Paulo, o diretor do festival, Amir Labaki, assim definiu o realizador do longa-metragem: Eduardo Escorel é uma bússola “ética e estética” no panorama do documentário no Brasil. Na réplica, Escorel modestamente disse que desculpava o anfitrião “pelos exageros”. Muitos aplausos, os dois saem do palco, começa o filme, termina o filme... E vem a conclusão. Nada há de excessos na constatação de Labaki.

Paulo Moura, que estreia hoje no circuito comercial de cinemas em diversas capitais, é uma obra simples na estrutura e cativante no conteúdo. A produção do documentário estava para ser iniciada quando o clarinetista adoeceu e pouco depois faleceu, em julho de 2010. Com isso, todo o plano teve de ser alterado. Escorel optou por criar um “tributo musical”, intercalando entrevistas, incluindo inéditas, a um belo mosaico de 25 apresentações do talento de Moura no palco.

Além desses dois pilares, música e depoimento, algumas poucas imagens do Rio de Janeiro, um passeio pelo escritório do intérprete e uma visita do diretor à viúva do músico, Halina Grynberg, na qual ela mostra um álbum de fotos do Moura a Escorel, completam a estrutura básica do longa-metragem. Há, ainda, pequenas narrações em primeira pessoa feitas pelo diretor, no início e no final, situando o documentário e seu contexto de realização.

A exuberância musical é reforçada pela singeleza da forma: não há pirotecnias gráficas, nem cortes rápidos, nem legendas que voam e aterrissam em algum canto da tela, nem documentaristas performáticos. O minimalismo da estrutura narrativa está a serviço da música, e do intérprete homenageado.

Entende-se, então, o que Labaki quis dizer quando falou em bússola “estética”. No filme de Escorel, menos é mais. Na contramão de dezenas de documentários musicais que se querem “ágeis” e com “edição dinâmica”, o diretor propõe um fruir lento, mais introspectivo, aproveitando-se dos silêncios. É cinema, não televisão, muito menos videoclipe.

Assim como a preocupação estética, a questão ética também se faz presente. Trata-se de uma discussão – igualmente sutil e não verborrágica – a respeito do uso de imagens de arquivo. Até que ponto o detentor de uma imagem, ou qualquer outra obra de interesse histórico, tem o direito de negar o acesso público a esse bem? A partir de que momento a questão da propriedade intelectual deixa de ser uma discussão sobre vontades ou interesses comerciais individuais e passa a ser um debate sobre o acesso a bens que podem ser considerados parte do patrimônio imaterial de um país?

A discussão surge por conta da proibição de uso das últimas imagens de Moura tocando seu instrumento. Já internado na Clínica São Vicente, no Rio, o clarinetista chamou alguns amigos para o que seria seu último sarau. Escorel estava presente, e registrou o momento. Mas não conseguiu autorização para usar essas imagens no documentário. Expor toda a situação no filme, com uma narração do diretor acompanhada de tela preta, tornou-se uma forma de trazer esse debate à tona.

Tanto em ética, quanto em estética, Escorel fez um filme coerente com seus pensamentos. Em artigo publicado nesta semana por Carlos Alberto Mattos no blog Faróis do Cinema, o diretor elencou seus dez documentários preferidos dos últimos 20 anos e listou oito razões para a escolha:

• Recusa do arquivo & bom uso do arquivo.
• Exegese da imagem, indo além do visível, por oposição à imagem usada como ilustração.
• Narração na primeira pessoa e diretor como personagem.
• Valorização do tempo, resistindo à tentação de cortar, por oposição ao plano curto.
• Desdobramento do olhar e delimitação do espaço, através da visão, da lente e da janela – delimitação do espaço.
• Interdição – restrições auto-impostas como princípio criativo.
• Imprevisto – a magia do inesperado, do que ocorre fora de controle.
• Incorporação do material bruto.

De certa forma, todas elas estão lá presentes, em Paulo Moura – Alma brasileira.

 

Para deixar claro: Escorel foi professor do autor deste texto no curso de Cinema Documentário que coordena na Fundação Getulio Vargas. Talvez até por isso, saberá perdoá-lo “pelos exageros”.

 

Paulo Moura – Alma brasileira
Direção: Eduardo Escorel. Brasil, 2012. 86 minutos. Estreia no circuito comercial de cinemas: 3/5/2013. Estreia em festivais: É Tudo Verdade 2013. Veja o trailer.

(Por Marcelo Bauer)

+ Curta o BlogDoc no Facebook

+ Siga o BlogDoc no Twitter

  • Espalhe por aí:
    • Digg
    • Facebook
    • Google Bookmarks
    • Live
    • Netvibes
    • RSS
    • Twitter
  • Imprimir:
  • Envie por e-mail:

Posts relacionados

Palestra cinematográfica

03 O Brasil Deu Certo Palestra cinematográfica

Idealizado pelo ex-ministro Maílson da Nóbrega, documentário O Brasil Deu Certo. E Agora? chega aos cinemas (Foto: Divulgação)

Dizer que o Brasil está nos trilhos do sucesso econômico parece algo “tão 2010”... Época de aceleração nos investimentos estrangeiros e de saudosos 7,5% de crescimento. Por que, então, um filme chamado O Brasil Deu Certo. E Agora? é lançado exatamente na conjuntura atual, de pibinho e tomatão?

Idealizado e apresentado pelo ex-ministro Maílson da Nóbrega, o filme coloca alguns senões, mas não deixa dúvidas de como vê o momento econômico. “O Brasil deu certo”, resume Mailson. “O Brasil está condenado a ser rico.” Não é à toa que há um ponto final, e não interrogação, após a palavra “certo” do título.

O documentário traz entrevistados de peso – três ex-presidentes, 12 ex-ministros, presidentes do Banco Central, empresários e professores. Mas o único representante dos governos do PT entre eles é Henrique Meirelles, presidente do BC durante os dois mandatos de Lula – um liberal que está longe de ser representativo do pensamento econômico petista, se é que isso existe. Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, o ex-ministro Antonio Palocci e o ministro Guido Mantega foram convidados e se negaram a participar, informa o filme.

Com isso, os entrevistados se dividem basicamente entre os figurões do governo Fernando Henrique Cardoso – o próprio FHC, além de Pedro Malan, Pérsio Arida, Luiz Carlos Bresser Pereira – e remanescentes dos governos militares – como Delfim Netto e Ronaldo Costa Couto. Há muitas coincidências e poucas divergências entre os discursos deles.

Em geral, o que fazem é uma análise economicista, na qual questões sociais são tocadas só de passagem – e muitas vezes vistas de forma utilitarista. O tema desigualdade aparece de relance. Mesmo a educação, apontada por todos como uma das prioridades para o futuro, parece ser considerada como um instrumento de aumento da produtividade e da competitividade do País, não como um valor em si.

Se por um lado a escalação dos entrevistados reduz o filme a certa visão de mundo muito específica, as escolhas fílmicas acabam por limitá-lo de outro. Seguindo uma prática que tem se tornado bastante usual, o longa-metragem começa com alguns minutos de introdução, praticamente igual ao trailer, na qual todos os entrevistados resumem seus argumentos. Depois disso, entramos em uma longa apresentação cronológica do desenvolvimento econômico do Brasil, desde 1500 até os dias de hoje. Tudo didaticamente dividido em capítulos marcados por separações gráficas.

A edição de vídeo rápida abusa do recurso de emendar o raciocínio de um convidado no de outro. Assim, por hipótese, o entrevistado A fala “o Brasil”, o B diz “é um País” e o C completa “do futuro”. Com uma construção dessas, fica difícil saber se o conceito partiu da cabeça de A, B, ou C – ou, ainda, se veio da própria diretora do filme.

Ainda no aspecto formal, o comportamento de Mailson no filme fica um pouco dividido. Visualmente, ele é tratado da mesma maneira dos outros convidados – em posição clássica de entrevista, olhando para o lado, provavelmente mirando o entrevistador atrás da câmera. Mas seu discurso soa mais com o de um palestrante ou apresentador. As falas parecem lidas e servem para complementar colocações anteriores, ou apresentar novos assuntos, papel típico dos moderadores e dos narradores.

Há diversos exemplos de “filmes-palestra” por aí – Al Gore até ganhou o Oscar em 2007 com Uma Verdade Inconveniente, embora os dados de seu documentário tenham sido contestados. Mas a fórmula parece se adaptar melhor a outras maneiras de exibição que não o cinema – DVD, distribuição em escolas ou empresas, eventos etc. Talvez O Brasil Deu Certo possa dar certo para esse público.

O Brasil Deu Certo. E Agora?
Direção: Louise Sottomaior. Brasil, 2013. 70 minutos. Estreia nos cinemas: 3/5/2013 (São Paulo) e 10/5/2013 (Brasília e Rio). Classificação indicativa: livre. Veja o trailer.

(Por Marcelo Bauer)

+ Curta o BlogDoc no Facebook

+ Siga o BlogDoc no Twitter

  • Espalhe por aí:
    • Digg
    • Facebook
    • Google Bookmarks
    • Live
    • Netvibes
    • RSS
    • Twitter
  • Imprimir:
  • Envie por e-mail:

Posts relacionados

1 de 1212345...: ...Último