A herança do filho do holocausto

01 Jorge Mautner A herança do filho do holocausto

Cena de Jorge Mautner - O Filho do Holocausto, em cartaz (Foto: Divulgação)

Cantor, compositor, escritor, poeta, violinista, cineasta, filósofo. Essas são apenas algumas das opções para descrever Jorge Mautner. Ele nunca foi, no entanto, muito reconhecido pelo grande público em nenhuma dessas áreas. Pedro Bial e Heitor D'Alincourt se uniram para dirigir o documentário Jorge Mautner – O filho do holocausto com a intenção de expor, e guardar, sua marca na cultura brasileira.

Os dois germinaram a ideia após a publicação do livro O Filho do Holocausto em 2006. Mautner escreveu o livro a partir de suas memórias entre 1941 e 1958, período de sua infância e adolescência. O título permaneceu no documentário, assim como trechos de sua autobiografia, narradas pelo próprio cantor.

Filho de uma austríaca católica de origem iugoslava e de um judeu vienense refugiados da Segunda Guerra, Mautner nasceu no Brasil. Sua irmã, contudo, não conseguiu fugir, o que traumatizou sua mãe para o resto da vida.

Imagens de arquivo e entrevistas, uma delas com a mãe de Pedro Bial, também refugiada, ajudam a compor o panorama da perseguição nazista e a importância do subtítulo do filme. “Essas memórias são a alma e carne viva da minha vida. Tudo que escrevi, compus, falei e senti gira, e girará, em torno disso”, lê o escritor.

Alinhados aos documentários musicais de sucesso recentes, Bial e D’Alincourt se prendem mais ao lado musical do compositor, tido como pai do tropicalismo e responsável por muitos sucessos gravados por artistas mais conhecidos. É o caso de Lágrimas Negras, cantada por Gal Costa, e Maracatu Atômico, na voz de Gilberto Gil ou Chico Science - ambas músicas desenvolvidas em conjunto com Nelson Jacobina.

O filme traz algumas das principais composições de Mautner, interpretadas por ele e sua banda para o documentário. Cada uma delas recebe tratamento diferente com a iluminação definida por Gustavo Hadba, cuja direção de fotografia foi premiada no Festival de Cinema de Gramado, no ano passado.

A preocupação estética está presente em todo o documentário, gravado em quatro dias inteiramente em estúdio. O cenário foi produzido para dar cara de um ambiente caseiro, com sofás e abajures. Adicionam-se ao fundo preto imagens de natureza, ou do Pão de Açúcar, em diferentes momentos. O resultado é um filme belo, embora não muito criativo.

A alternância constante entre os trechos musicais e as entrevistas segue a mesma linha. Não se torna em nenhum momento cansativa devido às histórias do violinista, contadas por ele e por pessoas íntimas na presença dele. Caetano e Gil se divertem relembrando sua experiência com o cineasta em O Demiurgo. Assim como se diverte o público, assistindo às trocas de olhares e risos entre os artistas durante as apresentações.

A vida e a obra de Mautner foram marcadas pelo humor do seu lado filósofo, o que também torna o documentário muito mais leve. Em conversa com sua filha, Amora, diz que não precisa de terapia para resolver seus problemas. Quando ela pergunta então por que ele faz, a resposta é “por pressão pública”.

Quando se trata de alguém tão multifacetado, a dimensão de sua obra nunca será dada por um único registro. Jorge Mautner - O filho do holocausto tenta, mas também não é capaz de fazê-lo. A tentativa, no entanto, embarca na onda dos documentários musicais para relembrar, principalmente para as novas gerações, o nome de um dos cantores, compositores, escritores, poetas, violinistas, cineastas, filósofos de sua geração.

Jorge Mautner - O filho do holocausto
Direção: Pedro Bial e Heitor D'Alincourt. Brasil, 2011. 93 min. Estreia: 01/02/2013. Classificação indicativa: 10 anos. Veja o trailer.

(Por Aline Senzi)

+ Curta o BlogDoc no Facebook

+ Siga o BlogDoc no Twitter

  • Espalhe por aí:
    • Digg
    • Facebook
    • Google Bookmarks
    • Live
    • Netvibes
    • RSS
    • Twitter
  • Imprimir:
  • Envie por e-mail: