A humanidade esquecida

25 Caverna dos sonhos esquecidos A humanidade esquecida

Caverna dos Sonhos Esquecidos, documentário de Werner Herzog (Foto: Reprodução)

“Uma perfeita cápsula do tempo.” É assim que Werner Herzog descreve a caverna de Chauvet em seu novo documentário, Caverna dos Sonhos Esquecidos. O filme tem estreia no CineSesc, em São Paulo, nesta sexta-feira (25). Não há previsão para estreia em outras cidades do filme, que já teve exibições no Rio de Janeiro.

Ao longo de dezenas de milhares de anos, deslizamentos de rochas selaram a entrada da caverna, mantendo intactas as pinturas em suas paredes. As inscrições são as mais antigas já descobertas – ou melhor, redescobertas.

Certamente não era o que tinha em mente os espeleólogos Eliette Brunel-Deschamps, Christian Hillaire e Jean-Marie Chauvet, cujo nome foi dado à caverna descoberta em uma expedição no sul da França em 1994. Casualmente, foram encontradas algumas das mais antigas, e impressionantes, obras de arte já produzidas pelos nossos ancestrais pré-históricos, há mais de 30 mil anos.

Desde 1994, o acesso à caverna esteve limitado a fim de preservar seu interior. Herzog e sua equipe, restrita a mais três pessoas, foram autorizados a embarcar em uma excursão com outros cientistas para trazer ao público contemporâneo as inscrições da caverna de Chauvet. Em 3D, é claro.

No que pese a qualidade ruim da técnica empregada no filme – devido ao espaço da caverna, não pôde ser utilizado equipamento profissional nas filmagens, - a escolha do diretor pelo 3D não é um mero recurso para atrair público. As pinturas das paredes são impressionantes não só pela qualidade de seus traços ou pela ilusão de movimento criada, mas também pela maneira como adornam as paredes onduladas e naturalmente belas da caverna.

Herzog parece concordar com Wim Wenders que, em entrevistas sobre o documentário Pina, também em 3D, afirmou que a técnica seria ainda mais bem-vinda em documentários que em filmes de ficção, por permitir ao espectador se aproximar mais do registro. Em Caverna dos Sonhos Esquecidos, pelo menos, o risco dos “olhos vesgos” é um pequeno preço a pagar pela experiência de ver as imagens em sua tridimensionalidade.

As dimensões das pinturas vão além de sua forma, no entanto. Para Herzog, a busca dos cientistas trouxe à tona não apenas desenhos perdidos, mas os sonhos e o espírito de seus artistas. Herzog afirma que sentiu uma estranha sensação de que estava perturbando seus ancestrais, que o observavam pelas paredes das cavernas. O sentimento foi comum a muitos daqueles estiveram no local.

Além de sua narração, Herzog faz passar essa ideia do espírito preservado pelas pinturas e da busca pelos ancestrais por meio de entrevistas com cientistas. Eles utilizam avançadas técnicas para decifrar como viviam os artistas da caverna e o propósito de suas pinturas - a perpetuação da memória do homem pela figuração. “Assim como você faz com sua câmera”, afirma um dos cientistas.

Por mais que o uso da tecnologia tente desvendar e explicar os homens que deixaram sua marca nas paredes da caverna de Chauvet, nada fala mais que a própria obra de arte que produziram. Herzog sabe disso, deixando as imagens na tela por um máximo de tempo – embora muito dos ruídos das gotas do interior da caverna seja disfarçado pela trilha sonora.

Caverna dos Sonhos Esquecidos nos permite embarcar na cápsula do tempo que é o misterioso local. Mais do que isso, o documentário busca as pinturas para encontrar nelas o espírito da humanidade.

Caverna dos Sonhos Esquecidos (Cave of Forgotten Dreams)
Direção: Werner Herzog. França/Canadá/Estados Unidos/Reino Unido/Alemanha, 2010. 90 min. Estreia em São Paulo: 25/01/2013. Classificação indicativa: livre. Veja o trailer.

(Por Aline Senzi)

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