Dança em dois atos

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Ivaldo Bertazzo e jovens da Maré no palco em A Alma da Gente, documentário que estreia nesta sexta nos cinemas (Foto: Fernando Filho/A Alma da Gente/Divulgação)

Em 2002, mais de 60 jovens do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, tiveram suas vidas cotidianas alteradas para acrescentar ensaios de dança no Corpo de Dança da Maré, coordenado por Ivaldo Bertazzo. Uma década depois, A Alma da Gente, de Helena Solberg e David Meyer, investiga se o efeito transformador dessa participação se propagou para além de seu dia a dia.

O Corpo de Dança da Maré foi criado em 2000 pelo encontro de Bertazzo com o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré – uma das muitas organizações não governamentais da região. A iniciativa resultou em três espetáculos. O filme acompanhou a preparação do último deles, Dança das Marés.

Os diretores visitaram os ensaios pela primeira vez a partir de amigos. Voltaram uma semana depois com uma câmera para registrá-los, sem intenção clara do que seria feito com aquele material. Nos meses que se seguiram, acumularam mais de 50 horas gravadas, com a ajuda de amigos contagiados pelo entusiasmo dos dois. Sem patrocínios ou incentivos, no entanto, retornaram a outros projetos.

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Essas cenas são as que compõem maior parte de A Alma da Gente. Com estilo observacional, a câmera capta os movimentos, as repetições e os gritos que marcavam os ensaios. “O Ivaldo é meio estressado, né? Mas a gente tem que aturar. Eu aturo minha mãe em casa que é estressada, por que eu não posso aturar ele?”, diz uma das meninas.

Bertazzo, por sua vez, defende o confronto como maneira de provocar reação dos jovens, também chamados de “cidadãos dançantes”. O coreógrafo é reconhecido pelo seu trabalho em comunidades carentes, assim como por sua teoria das técnicas corporais para conquista de autonomia e descoberta de identidade.

A dança seria, portanto, um meio que possibilitaria às crianças das favelas da Maré dar novos significados a seus futuros e sonhos. Seja indicando uma possível profissão, seja mostrando novas possibilidades. “O mundo não seria para isso [morte, guerra e violência]. Seria para arte, arte, arte”, afirma outra das meninas.

Toda essa carga de conhecimento apreendida pelos jovens dançarinos culmina na emocionante apresentação do espetáculo Dança das Marés, que abordava a passagem da infância para a adolescência.

Esse é, no entanto, apenas o final do primeiro ato de A Alma da Gente. No segundo ato, Helena Solberg e David Meyer vão em busca dos integrantes do projeto, que foi encerrado pouco tempo depois. A dança teria, de fato, mudado suas vidas?

O documentário evidencia que não há uma resposta simples para uma realidade tão complexa. Se a dança foi transformadora ativa nas escolhas posteriores de alguns, pode não ter sido tão determinante para outros.

A Alma da Gente não nega a validade do projeto, no entanto. Assim como as experiências das crianças foram levadas para a montagem do espetáculo, a dança fez parte de suas experiências. De uma maneira ou de outra, a memória está registrada não apenas pela câmera, mas também em seus corpos.

A Alma da Gente
Direção: Helena Solberg e David Meyer. Brasil, 2013. 83 minutos. Estreia em circuito comercial de cinemas: 23/8/2013. Classificação indicativa: 10 anos. Veja o trailer.

(Por Aline Senzi)

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