Documentários são 14% dos títulos lançados, mas só têm 0,5% do público

raul divulgacao Documentários são 14% dos títulos lançados, mas só têm 0,5% do público

Cena de Raul, o Início, o Fim e o Meio, maior bilheteria entre os documentários exibidos nos cinemas brasileiros em 2012 (Foto: Divulgação)

Quarenta e quatro documentários entraram em cartaz nos cinemas brasileiros ao longo de 2012, de acordo com dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Desses, 36 são brasileiros (incluindo coproduções) e apenas oito de outros países. Comparado com 2011, houve uma queda no número de lançamentos. Foram 56 naquele ano, sendo 45 nacionais, de acordo com levantamento feito pelo BlogDoc com base na agenda semanal de lançamentos do site Filme B. A proporção de nacionais/estrangeiros mantém-se praticamente estável, na faixa de 80/20.

Com 313 filmes lançados até a primeira semana de dezembro (o dado mais recente), os documentários de 2012 representam 14% dos títulos no cinema. Mas, analisando-se o público alcançado, o resultado é bem diferente. Eles levaram para as salas 710 mil espectadores, segundo o dado mais recente da Ancine, ante um total de mais de 134 milhões de frequentadores de cinema no mesmo período. Ou seja, pouco mais de 0,5%. Em relação à renda, os dados são semelhantes. Os docs movimentaram R$ 8,6 milhões, pouco mais de 0,58% do total.

No entanto, à parte a frieza dos números, quem acompanha o mercado de documentários vê sinais de outra natureza. Os festivais e as mostras continuam “bombando” – desde o específico É Tudo Verdade, passando pela Mostra Internacional de Cinema em São Paulo e o Festival do Rio, e também por eventos regionais ou especializados. A conquista de alguns espaços na programação televisiva, embora normalmente em canais de audiência baixa e segmentada, também é outro sinal do interesse de uma parcela da população sobre o gênero.

Afinal, tudo junto e misturado, estamos bem ou estamos mal?

Antes de qualquer coisa, vale lembrar algumas polêmicas sobre o assunto. Em sua coluna Questões Cinematográficas, no site da revista Piauí, o cineasta Eduardo Escorel levantou em meados de 2011 uma série de argumentos que, segundo ele, mostram como o documentário é hoje uma “cultura ameaçada”. Escorel citava a falta de público e a baixa renda de bilheteria – os números de 2011 eram bastante semelhantes aos atuais – entre seus argumentos.

Como resposta, o crítico Amir Labaki, criador do É Tudo Verdade, argumentou em sua coluna no jornal Valor Econômico que a bilheteria restrita é um fenômeno que atinge todo o segmento do chamado “cinema de arte”, no qual o documentário costuma se inserir. E lembrou a criatividade e a vivacidade do setor.

Na tréplica, Escorel alegou que o cinema brasileiro, tanto de ficção, quanto de não-ficção, sofre do mesmo mal: “é mantido numa espécie de unidade de tratamento intensivo” com injeção de recursos públicos, por meio de leis de incentivo.

Os argumentos dos dois especialistas deixam claro que a renda de bilheteria não é o caminho para a viabilização da indústria do documentário como um todo. Talvez alguns filmes se paguem dessa forma, mas poucos.

E, sem entrar no mérito da questão, vale lembrar que a opção pelo baixo público é feita pelos próprios cineastas ao definir seus temas. Quem escolhe fazer um documentário sobre questões indígenas, problemas fundiários, movimentos e conflitos políticos obviamente sabe da limitação de audiência que terá (pelo menos nos cinemas como eles são hoje).

Ao mesmo tempo, o crescimento dos documentários musicais mostra que também há caminhos para conquista de um público mais numeroso. Raul, o Início, o Fim e o Meio, com mais de 170 mil espectadores, é o mais bem-sucedido de 2012 nesse aspecto. Pode não parecer nada frente aos mais de 10 milhões de espectadores de Os Vingadores (até o momento), mas esse número o coloca à frente de Reis e Ratos e 360º, só para ficar em dois exemplos.

Como, então, encontrar uma fórmula que permita aos autores expressar seus pontos de vista e garantir a diversidade do cinema brasileiro? Depender dos incentivos públicos, além de perigoso pelo risco de descontinuidade das políticas públicas (vide Embrafilme), é também um modelo “artificial”, lembra Escorel.

E, para complicar, isso tudo ocorre em um momento de transformação da indústria do audiovisual. A decadência do DVD/Blu-ray como forma de distribuição, graças ao crescimento de opções de vídeo on demand, como Netflix ou Netmovies, é uma realidade. E, embora continue a crescer no Brasil, a indústria de TV a cabo dá sinais de queda nos mercados mais maduros, como os Estados Unidos, minada pelo virtualização dos filmes.

Diante de um cenário cada vez mais virtual, uma saída pode estar em um dos conceitos mais célebres da era da internet – o da “cauda longa”, popularizado por Chris Andersson, editor-chefe da revista Wired. Ele prega que, na economia digital, é possível a convivência pacífica de alguns poucos produtos de venda em massa com um grande número de bens com vendas unitárias baixas, mas espalhadas ao longo do tempo.

No mundo do audiovisual, equivaleria à convivência dos blockbusters com os pequenos filmes “autorais” e do “cinema de arte”. Sem os pesados custos de distribuição física de cópias (seja os celuloides, para os cinemas, ou as caixinhas de DVD, para o varejo), teoricamente poderemos ter uma biblioteca cada vez mais vasta de títulos à disposição.

Vendendo um pouquinho por dia por um período mais longo, os itens da “cauda longa” poderiam se pagar e ter lucro da mesma forma que os blockbusters, que costumam lucrar muito mais, mas num período de tempo normalmente mais curto.

Isso é a teoria. Resta saber como ela se apresentará na prática.

(Por Marcelo Bauer)

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