Minha aldeia

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Documentário Walachai, de Rejane Zilles retrata as comunidades de imigrantes alemães no RS (Foto: Divulgação)

A cerca de 70 quilômetros de Porto Alegre, no município de Morro Reuter, encontram-se as pequenas comunidades rurais de Walachai,  Jammerthal,  Batatenthal, Frankenthal, Padre Eterno e  Boa Vista do Herval. Por lá, o ritmo ainda é o do carro de boi, do arado de tração animal, das moendas manuais, do fogão a lenha. São brasileiros que trabalham duro na roça, participam de bailinhos nos fins de semana, jogam futebol e torcem pela nossa seleção na copa. O contato com o mundo exterior se dá por meio de um Fusca, uma Kombi e uma velha picape que trilham a estradinha de terra para vender o excedente da produção rural nas cidades.

Mas o que diferencia essas localidades de uma infinidade de outras do chamado Brasil profundo é que, por lá, o idioma mais falado não é o português. Tampouco o alemão, embora tenham sido esses imigrantes os responsáveis pela formação dos povoados, há quase dois séculos. Para ser perfeitamente entendido é preciso falar o hunsrückisch, antigo dialeto da região de Hunsrück, hoje em desuso até na Alemanha. Ou, mais especificamente ainda, uma mistura do hunsrückisch com o português, já que o vocabulário original foi sendo mesclado e atualizado com palavras vindas do nosso idioma.

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É essa a história por trás de Walachai, da diretora e atriz de cinema e TV Rejane Zilles. O ponto de partida foi o curta O Livro de Walachai, disponível para visualização na web. O longa estreou na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo de 2009, mas só agora chega ao circuito comercial, embalado pelo Ano Alemanha + Brasil.

As tradições e o idioma fazem dos habitantes da região um povo único. Entre os demais brasileiros das redondezas, são vistos como “alemães”. Mas a imensa maioria deles sequer conhece esse país ou tem vontade de visitá-lo. Por outro lado, os alemães “de verdade” que eventualmente visitam o local não conseguem entender o dialeto utilizado em Morro Reuter (e que é também falado em outras regiões brasileiras de forte imigração alemã).

Nesse ambiente, muitas crianças aprendem o português somente ao chegar à escola. Os mais velhos falam nossa língua com bastante dificuldade. E se lembram dos tempos complicados da Segunda Guerra, quando o uso do alemão foi proibido pelo governo Getulio Vargas após a entrada do Brasil no bloco Aliado.

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A diretora Rejane Zilles (Foto: Divulgação)

Hoje residente no Rio de Janeiro, Rejane nasceu e viveu sua infância em Walachai. Isso evita um risco comum aos filmes etnográficos – aquele olhar “turístico” ou deslumbrado em relação ao objeto de estudo. E faz com que a opção dos personagens por esse estilo de vida peculiar seja vista com naturalidade – nem glorificada, nem criticada por um suposto isolamento da sociedade contemporânea globalizada.

Em outras palavras, parece apenas querer mostrar que é possível ser feliz sem camisetas Abercrombie ou grill George Foreman.  Sem juízo de valor.

Em alemão antigo, a palavra walachai significa lugar longínquo, perdido no tempo. Mas Rejane mostra que, na verdade, os habitantes desses povoados souberam inventar seu próprio tempo e lugar. E estão muito felizes assim.

Walachai
Direção: Rejane Zilles.  Brasil, 2009. 84 minutos. Estreia em circuito comercial: 24/5/2013. Classificação indicativa: livre. Veja o trailer.

(Por Marcelo Bauer)

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