Sempre Lindo

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Praça Benedito Calixto tomada durante show promovido pelo Lira Paulistana no início dos anos 80 (Foto: Divulgação)

Um porão sem graça, pequeno e escondido na Rua Teodoro Sampaio foi, por alguns anos, o centro de efervescência da música paulistana. Ali nasceu, cresceu e morreu o Lira Paulistana, berço da chamada “vanguarda paulista” do início dos anos 80.

A definição, além de um pouco pedante, parece não dar conta da diversidade musical produzida. Se havia um sentido de grupo e um happening coletivo que deslumbrava a todos, musicalmente o Lira Paulistana sempre foi um espaço que abarcou todas as tendências, sem uma linha única. A partir de 25 de outubro de 1979, foi o palco principal para artistas muito diversos, como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, grupos que misturavam crítica e humor, como Língua de Trapo, Rumo e Premeditando o Breque, e também formações “de raiz”, como Paranga ou Tarancón, para ficar em poucos exemplos.

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Como sempre acontece, o Lira Paulistana é, ao mesmo tempo, produto e consequência de uma época. A ditatura militar já se encaminhava para o fim e tinha início o processo de redemocratização. As músicas dessa época são em geral menos panfletárias do que as da década de 60, mas trazem uma grande dose de senso crítico e crônica social. Do ponto de vista melódico e harmônico, é também um momento de busca de novidades, de experimentação. Arrigo Barnabé, por exemplo, misturava o atonalismo e o dedecafonismo da música erudita do século 20 a criações inusitadas (na época) como Clara Crocodilo.

Em paralelo, o início dos anos 80 trouxe uma série de avanços tecnológicos que começaram a mudar o panorama da produção cultural. Com a popularização dos videocassetes, a criação audiovisual deixou de ser monopólio dos poucos canais de TV da época. Começavam a surgir as primeiras produtoras independentes de vídeo, trazendo um frescor muito grande ao cenário. Uma das primeiras (e principais) foi a Olhar Eletrônico, encabeçada por trás da câmera por Fernando Meirelles e concretizada na frente dela por figuras como Marcelo Tas – ambos entrevistados no documentário. Lira e Olhar Eletrônico andaram sempre muito juntas e boa parte das imagens de arquivo exibidas no longa é proveniente da produtora.

Além disso, houve o fenômeno das gravações independentes. Até então, praticamente não havia alternativas de divulgação do trabalho para os artistas que não conseguiam (ou não queriam) arranjar uma gravadora. O Lira Paulistana também esteve à frente desse fenômeno, lançando LPs de vários dos grupos que passaram por seu palco.

Nesse clima todo, o Lira acabou se tornando um fenômeno multimídia. Foi gravadora e editora de livros. Promovia esporadicamente sessões de cinema. Passou a produzir um jornal semanal com o roteiro cultural da cidade. O muro ao lado de sua sede virou um grande espaço de exposição rotativa de grafites – algo pouco usual na época. Seus maiores eventos musicais extrapolavam o porão e ocupavam a Praça Benedito Calixto, logo em frente. Enfim, era o centro da cultura independente no início daquela década.

Um pouco depois, o Lira também abriu espaço a um novo fenômeno que surgia em todo o país – a chamada turma do “rock dos anos 80”. Pela Teodoro passaram grupos como Ultraje a Rigor e Titãs. Mas, ao contrário das atrações dos anos iniciais do teatro, essa nova geração teve seu potencial de mercado rapidamente detectado pelos olheiros das gravadoras e foi rapidamente catapultada dos porões da Teodoro para o palco do Chacrinha.

Foi mais ou menos nesse ponto da história que os sócios do Lira começaram a se estranhar e as coisas foram degringolando até chegar ao fechamento final da casa, no final de 1985. Hoje, o 1091 da Teodoro Sampaio é apenas um boteco na frente de um ponto de ônibus.

Existem momentos da história em que as coisas parecem conspirar para que tudo dê certo. O cenário da chamada música de vanguarda paulistana parece ter sido um deles. Em resumo, o Lira Paulistana tem um pouco aquele espírito de “férias de verão inesquecíveis”. Duraram pouco. Acabaram. Mas como foram boas.

Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista
Direção: Riba de Castro. Brasil, 2013. 97 minutos. Classificação indicativa: livre. Veja o trailer.

(Por Marcelo Bauer)

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