Utopia musical

27 Tropicalia divulgacao Utopia musical

Caetano Veloso no documentário Tropicália, de Marcelo Machado (Foto: Eduardo Martino/Divulgação)

Parafraseando Caetano Veloso, quem vê tanto documentário musical?

Tropicália, de Marcelo Machado, lançado este mês em DVD, faz parte de um subgênero que não para de crescer. Somando os filmes lançados em circuito comerciais e em festivais – incluindo aí o especializado In-Edit –, vamos fácil para mais de uma dezena de longas no ano. E a média manteve-se alta também nos anos anteriores.

Mas nem a quantidade de congêneres, nem o fato de o mesmo período histórico já ter sido retratado por outros filmes, tiram o mérito de Tropicália. Com um grande acervo de imagens históricas, algumas delas inéditas na telona, e um uso sabiamente modesto de entrevistas, o filme abre espaço para que velhas e novas gerações curtam o melhor da música produzida naquele período. Os trechos musicais são generosos – estão lá Panis et Circencis, Baby e muitas outras.

Combinado a isso, um pouco de didatismo ajuda os mais novos a entenderem o contexto político e artístico. Mas esse viés explicativo (muitas vezes negado por outros documentários) não chega a incomodar os mais velhos, que viveram essa época. Acho.

Tropicália fala de 1967 e de 1969 e, entre eles, de 1968. A efervescência criativa de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Arnaldo Baptista, Rita Lee e tantos outros em 1967 é abruptamente podada pelo AI-5. Pouco depois, vem o exílio e o “fim” do movimento, anunciado por Caetano em um programa na tevê portuguesa de 1969 (em cena reproduzida logo no início do filme). Incrível pensar que tudo se deu em espaço de tempo tão curto.

Na primeira parte do filme, até o AI-5, predominam cenas de época e canções, entremeadas com alguns depoimentos sonoros (vozes em off). As vinhetas e os efeitos visuais coloridos – e são muitos – tentam mimetizar a estética da época. Com imagens de arquivo tão poderosas, seria preciso toda essa parafernália visual agregada?

Na segunda parte, o tom é um pouco mais soturno. Os personagens principais são chamados a refletir sobre tudo o que ocorreu, por meio de entrevistas. Em uma sacada simples, mas interessante, o diretor coloca Caetano, Gil e Tom Zé em estúdio e diante deles projeta as imagens do passado. “A Tropicália era uma espécie de ilha, uma espécie de território idealizado, uma espécie de utopia”, resume Gilberto Gil.

Passados mais de 40 anos, quase tudo mudou na indústria fonográfica e na sociedade brasileira. As músicas são consumidas sem muita ideologia ou utopia – não há mais ideologias e utopia, a propósito. E os festivais deram lugar ao YouTube e às redes sociais como espaço para consolidação de tendências.  Até que ponto a Tropicália é apenas uma “fotografia na parede”, ou continua viva por meio de seus protagonistas e de suas ideias, é algo que o filme não ousa tentar responder – no que faz bem.

Tropicália.
Direção: Marcelo Machado. Brasil, 2012. Lançamento em DVD: dezembro de 2012. Estreia nos cinemas: 14/09/2012. 87 minutos. Classificação indicativa: livre. Veja o trailer.

(Por Marcelo Bauer)

+ Curta o BlogDoc no Facebook

+ Siga o BlogDoc no Twitter

  • Espalhe por aí:
    • Digg
    • Facebook
    • Google Bookmarks
    • Live
    • Netvibes
    • RSS
    • Twitter
  • Imprimir:
  • Envie por e-mail: