Hoje o cara da NET não vai subir

Volta e meia aparece lá em casa um homem diferente.

Semana passada, foi o homem do gás. Antes, veio o homem da luz de tesoura na mão pra me cortar os fios só porque atrasei oito meses de conta. Teve também o homem do Carrefour com as compras, o do Magazine Luiza e a lavadora, o do bazar com a cama usada.

O calendário mostra que amanhã tem mais visita agendada, mas, olha, tô achando melhor cancelar – parece que a NET não anda com a melhor reputação do mundo no momento, talvez seja o caso de falar com eles pelo telef... OH WAIT.

Em tempos normais, quando a privacidade ainda não fora extinta, o máximo que acontecia de ruim numa ligação pro telemarketing era a gente se estressar e desejar a morte do atendente. Hoje em dia, no entanto, o negócio evolui prum caminho mais dramático. O caminho do xaveco babaca versão deluxe.

Há quem diga que o sujeito da central da NET mandar mensagens pessoais no celular duma cliente depois do atendimento é algo inofensivo, que não há nada de mais. Ahã. Devem ser estas as mesmas criaturas que não enxergam problema em mandar um fiu fiu pra moça na rua, chamar de gostosa a menina no trem.

É tudo invasão.

Do mesmo modo que o fato das pernas suculentas duma mulher estarem expostas debaixo da saia não significa que ela se comporte como uma vadia, a simpatia da cliente com você, TELEMARKETER, tem apenas um significado: ela é um ser humano legal. Só.

Porque, se beleza nenhuma é convite para assédio, a cordialidade com o próximo também não é ingresso para nada.

O atrevimento do atendente da NET com a jornalista, que veio a público esta semana, é injustificado e asqueroso e, acima de tudo, olha que triste, é cada vez mais comum numa sociedade que entende que mulher é objeto coletivo. Que encara uma quebra de privacidade como algo legítimo, desde que não haja violência.

Afinal, que mal tem em passar uma cantada? Mulher não gosta de elogio?

Sim, mulher gosta. A gente só não curte ser acossada.

Há mil maneiras de se aproximar de alguém nesta vida. Sempre houve. Problema é que, em um mundo acostumado com cada vez mais facilidades para desvendar o outro, com aplicativos de cortar caminho do flerte direto pra cama, parece que a propriedade do indivíduo sumiu.

Se não se tem mais direito ao próprio corpo, o que dizer da privacidade de algo aparentemente tão besta quanto um número de celular?

O jeito agora é vedar tudo, do telefone às portas. Deixar o porteiro avisado de que nem adianta interfonar falando que o moço da NET vai subir – porque não, ele não vai subir coisa nenhuma.

Lá em casa, só sobe mesmo quem me demonstra respeito, seja como cliente, seja como indivíduo. Gente desaforada espera pra sempre lá embaixo, de ordem de serviço mofando na mão, e, humilhado, com o cabo enrolado entre as pernas.

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Hoje, só amanhã

Se de noite estou semi-morta, gelada e com o coração parando, de manhã é outra história. Esqueça meus notívagos cabelos molhados e sem forma, a carência de rímel e corretivo, que, ao nascer do sol, sou pura luz e magia clara.

A disposição matinal, no entanto, é algo pontual. Não faz ter vontade de me meter num par de tênis brilhantes e correr quatro quilômetros. Nem de faxinar a casa, escrever crônicas, enfrentar fila no banco. Estou disposta, mas, calma, que o vigor é outro.

Se eu acordei animada, é por um só motivo: eu quero lhe amar, amor meu, vida minha.

Enquanto no fim do dia só desejo o óbito, me embrulhar em esgotamento e falecer em silêncio, no seu começo eu me assanho em raios brilhantes de fogo autêntico.

Quer dizer, nem poesia eu quero, pra ser sincera. Esquece os raios, esquece o fogo, dane-se a pureza. Eu quero outra coisa. Eu quero é, bem, você sabe o que eu quero, que eu sei.

Porque somos do mesmo tipo. Do tipo que aproveita o dia e de noite dorme.

Sabemos que a melhor hora pro chamego é antes de levantar da cama.

Antes que a rotina toda atropele o tesão com a louça pra lavar, a lancheira das crianças pra arrumar, a loucura do trânsito e do trabalho todo. Alimentar o corpo antes de enfrentar a vida, recomendou o doutor. E óbvio que não era de sucrilhos com morango e leite que ele falava na receita.

A saúde se mantém mais fácil com a prática da manhã vadia.

Enroscada na sua quentura, ativa e radiante, me perco do que me obrigam os dias, e tudo flui de maneira tão linda que o universo conspira pra que o relógio breque uns instantes e não deixe a hora passar.

Por isso que quem ama antes de levantar nunca se atrasa para nada.

O cotidiano fica lá, suspenso e respeitoso, esperando que a gente termine. E ainda dá uma força na hora de descer da cama, nos calçando as pantufas discretamente enquanto flutuamos em direção ao banho.

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Sacolinha

Boa tarde, tudo bem? Tem o cartão fidelidade? CPF na nota? Não encontrou algum produto? Tá frio, né? Poxa, essa marca de queijo é muito boa, não? Já experimentou aquele de cabra que o concorrente lançou no mês passado? Sabia que fica bom combinar com geleia de figo? Sua alimentação é sempre assim saudável? Ahá, sei não, senão pra quem é esse Fandangos? Quantos filhos você tem? Mas queria ter mais? Dá um trabalho, né? E escola hoje é caro, né? E o mundo anda tão louco que dá medo, né? Eles gostam de Danete? Sabia que tá em promoção a bandeja com catorze? É que ninguém precisa de catorze Danetes, né? E doce demais dá dor de barriga, não é mesmo? Você trouxe sacola retornável? Vai querer sacolinha? Vai ser mais que três? Sabia que se forem só duas eu te dou de graça? Esse prefeito é bem confuso, né? Ouvi dizer que ia ter a lei de que sacolinha branca não pode, mas verde pode, sim, sabia? E que só pode até as três da tarde, não tinha algo assim? Ou em dias nublados com previsão de garoa de noite, né? Tinha alguma coisa a ver também com a altura do cliente? Tô tão confusa, você pode me ajudar? Era para baixinhos que podia, ou pros altos que autorizaram? Você tá sentindo o chão balançar também? Será que sou só eu que tô tonta? A esteira tá só rolando ou começou a girar também? Você trouxe a retornável? Vai querer a sacolinha? Quantas sacolinhas? É branca ou verde? É sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha? Ai, você me perdoa? Que vergonha, né? Débito ou crédito? Você promete que volta?

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Feliz Dia das Mães Solteiras

Tem o feliz Dia das Mães, e tem o feliz Dia das Mães Solteiras. Sou do segundo grupo.

Não que a gente seja mais, que a gente seja melhor, que a gente seja as suprassumos do Bairro Peixoto – a gente até é, mas este não é o caso. O caso é que a gente é, acima de tudo, diferente.

Enquanto vocês da primeira equipe vão ganhar café da manhã na cama no domingo, eu vou ganhar o meu no mesmo lugar de sempre: de cara pro fogão, fritando panqueca e gritando da cozinha pro quarto que é hora de levantar ou a gente se atrasa de novo.

Até haverá um quê de especialidade, talvez eu substitua o queijo xumbrega por, sei lá, um gouda bem cheiroso, mas o fato é que, como sou eu mesma que me preparo tudo, acaba que vira um dia meio que igual a outro qualquer.

Talvez até haja presente. Ontem rolou um cartão feito na escola, todo fofo, umas colagens e aquelas letras ainda tortas se escorando umas nas outras. Muito bonitinho, era mesmo uma graça, só acho que a mensagem interna podia ser mais exclusiva. “Neste dia quero viajar com você e o papai”. Putz, jura?

E olha que se não vier nada, se eu não ganhar qualquer coisa além de um abraço apertado, um suspiro dobrado e o amor sem fim, confesso que tá de boa.

Até porque minha prenda mesmo veio na semana passada, na viagem a trabalho, quando cobri um congresso em outro estado e me botaram hospedada num hotel de luxo no bairro chique da cidade. Se eu soubesse, tinha levado meu longo e os cílios postiços.

E, óbvio, um biquíni maneiro, que teria me proporcionado altos mergulhos na piscina aquecida do último andar, aquela mesma que fiquei olhando de longe puta da vida e cogitando invadir portando apenas sutiã e calcinha.

A organização do evento até chamou pra festinha de noite, um bar famoso no centro, mas, ó, festinha mesmo, pessoal, acontece aqui dentro do quarto, privê, no carpete, no edredon, e, obviamente, no banheiro.

Que mãe solteira não pode ver um banheiro sozinha que já se refastela.

O quê, não tem NINGUÉM pra me encher o saco enquanto ligo o chuveiro? Não tem NINGUÉM pra me chamar vinte vezes de fora do box interrompendo meu banho? Não há NINGUÉM pra puxar conversa enquanto faço cocô? Vou chorar de emoção.

Até vou comer um negocinho no almoço domingo agora, convidar desconhecidos pra ir ao restaurante com a gente e fingir que são nossa família feliz. Mas, juro, meu Dia das Mães eu já comemorei bastante, sentada no chão do box, pelada e contente, tomando uma chuveirada quente de 70 minutos nas costas em profundo silêncio e com o espírito em paz.

 

 

 

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A síntese do paulistano

Nasci no bairro do Ibirapuera, cresci no Paraíso, estudei na Vila Mariana e passei a adolescência no Jabaquara. Sou paulistana, infelizmente. Depois de investir na relação e tentar um acordo, desisti definitivamente da cidade aos 19 anos, quando consegui fugir para o norte e deixar pra trás o que me irritava – e ainda irrita – em São Paulo: tudo.

O paulistano não tem cordialidade.

Atropela do porteiro à mãe com sua falta de delicadeza, evita vínculos, esnoba a candura e a autenticidade. Busca a homogeneidade porque só assim encontra conforto. E, ao topar com o afeto, fica confuso e mostra a língua. São todos uns infantis.

A síntese do paulistano é o motorista do carro gigante fazendo lutinha pra ocupar espaço. Espaço público, diga-se, mas que o paulistano sempre acha que é privado.

De dento da SUV, todo egoísta, ele não te dá passagem, mesmo que seja só pra parar na frente e andar a dois por hora junto com todo mundo. É que o paulistano, fã que é das corridas elitistas no Jóquei Clube, acha que tudo na vida é um páreo. E que bom mesmo é romper a linha de chegada com o Range Rover Evoque roncando e pagando R$ 20 pro flanelinha.

Que paulistano paga pra tudo. Ele pode.

Mesmo que seja de graça, ele já abre a carteira sacando notas – não, mentira, porque paulistano não trabalha com espécie, só com débito. Até no farol o vendedor de chiclete tem maquininha.

Daí lá vai ele de Visa Electron em punho pagar uma rodada de paletas mexicanas pros amigos, paleta sendo aquele sorvete que no resto do Brasil chama Frutilly e vem com palito de plástico decorado. Versão gourmet da minha mão na sua cara que é bom fazer ninguém faz, né, paulistano.

No dilúvio de Noé, ninguém divulga, mas tinha uma área vip na arca. Lotada de bichos nascidos todos na capital de São Paulo. Espremidos no cercadinho, de pulseirinha colorida na pata, tinha girafa, bode e elefante paulista, todo mundo uniformizado de camisa Reserva e barba e cabelo hype. Parece que houve um castor gaúcho tentando furar o bloqueio, mas, porque não tinha tatuagem moderna, foi expulso e mandado de volta pra Poa.

É que nem o bicho paulistano é fraterno.

Caga na calçada dos outros e finge que esqueceu o saquinho. Ou até quis levar uma no bolso, mas acabou impedido pela nova lei das sacolas plásticas – cocô duro na verde, molenga na preta, o senhor quer investir em uma das nossas bolsas retornáveis?

O que salva o paulistano é que ele tem bons amigos. Poucos, mas desde a infância e extremamente unidos. Só assim se livra do completo isolamento e da morte por solidão. Tá certo que a maioria deles só existe mesmo no Facebook, mas se a razão da vida não é ganhar chuva de like num post, olha, eu realmente não sei o que é.

Chame de rancor, malquerer, malcomer, dá na mesma. Sou paulistana, sim, já tentei fugir, sim, não nego. O fato é que acabo sempre de volta a São Paulo na esperança de que ela esteja cada vez mais cheia de cariocas sublimes, todos determinados a salvar a organização da volta à babel.

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Somos amigos, mas eu te pegava fácil

No imenso rol de amizades da minha agenda do celular, há nomes pra todos os gostos. Os que eu nem sei quem são, e que foram parar ali por motivos que desconheço mais do que suas próprias pessoas. Os que não vejo há anos, mas de quem tenho sempre notícias. Os que já morreram, mas de quem apagar o número ainda é por demais doloroso. Os colegas de trabalho, os de infância, os do Facebook, os do coração. É gente, muita gente.

Mas há, entre tantas centenas de amigos, um que se eleva da categoria de mortal standard e que, olha, brilha muito nesse Brasil.

Não pelo carisma, que ele não tem. Nem por gentileza, que ele não sabe o que é isso. Aliás, na competição dos amigos grossos, ele vence por um (belíssimo) nariz de vantagem. Detesta contato físico, empurra quando ganha abraço, ajeita o cabelo se ganha cafuné e vira as costas se o assunto não lhe agrada. Sabe se vestir, ok, mas seu guarda-roupa não é dos mais memoráveis. O motivo pelo qual este amigo, e este amigo only, é o grande vencedor top de mercado é outro.

Ele é gato.

Mas só isso, você perguntará, e eu respondo: sim. Só isso. Mas mais um pouco. E outro pouco, até arrebentar. Ele é tudo. Ele é universo. Imprescindível, indispensável, primordial.

E olha que eu nem encosto nele. Só relo de vez em quando, em dias de sorte, quando a conjunção astral amanhece favorável.

Sim, gatos temos aos montes nas nossas listas de amizades, eu, você, qualquer pessoa. Trabalhamos com gatas, estudamos com gatos, os temos aos montes nas redes, nos cursos, na agenda, em casa. Só que o que pega, na verdade, é a subcategoria. Porque, enquanto existem os gatos, existem os gatos perto dos quais não nos responsabilizamos por nosso comportamento porventura inadequado.

Se se controlar frente a um amigo gato é algo que aprendemos a fazer por contingências da vida, perder o equilíbrio e as estribeiras na companhia desta subcategoria de amigos bonitos é totalmente possível e esperado – em outras palavras, cada pessoa no mundo tem 1 (um) amigo ou amiga perto de quem fica difícil pensar em outra coisa.

Como eu digo, não é privilégio meu. Não precisa cobiçar meu irresistível amigo gato. Você tem o seu, ele tem a dela, e assim por diante. Tipo um trem de afeto e sensualidade.

Às vezes coincide de você ser a amiga gata do seu amigo gato e, sorte, vocês podem parar de sofrer e se entregar. Mas, salvo estes raros casos, em que é permitido abandonar o anonimato, dar nome aos bois e se pegar com alegria, o destino da subcategoria é ganhar toda a sua admiração, encanto e fantasias. E assim o ciclo continua, e assim segue o curso da vida. Até que você resolva escrever um texto sobre o assunto e, ops, ele descubra o que você pensa. Foi mal, Xavier, eu queria te contar já tinha um tempo.

 

 

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Não vim à academia fazer amigos

Já se vão quase 35 anos desde que mamãe me viu pela primeira vez e deu aquele sorrisão animado dizendo “tão feia, coitada, mas como já amo”, e posso garantir que o tempo passa rápido, voando, quase tão veloz quanto o movimento que diariamente fazem hoje meus peitos desde o sutiã de que são privados até o geladíssimo chão, onde encostam quase sem estardalhaço, e como eu dizia, já foram 35 anos mas não parece ter sido nem 10.

De modo que, lutando contra a gravidade, a idade, a flacidez e a sordidez do tempo, e tendo começado a batalha bem depois do que deveria, já há um ano corro atrás do prejuízo de cima duma esteira elétrica, e debaixo duma outra dezena de ferros, manivelas, barras e instrumentos diversos que deveriam me deixar gostosa, mas que, até o presente momento, só têm me feito parecer estúpida e me confirmado desengonçada além do limite tolerável pelo mundo fitness.

Estou longe da Gabriela Pugliese, e pertíssimo da Betty Faria. De chapada, só minha memória.

E, posto que vivo bem com isso, a ida ao templo da saúde, do bem-estar e da beleza acontece sem grandes cobranças, suave, de boa. Empurro minhas coisas, puxo minhas paradas, ajoelho, levanto, e aquilo que chamam de treino corre ausente de trancos ou graves acidentes. No máximo, no máximo, um pesinho de 4 kg caindo no pé, mas nada que no ambulatório não se resolva.

Na academia de ginástica, sou feliz como sou: flácida e impopular.

Driblando a sofrência que envolve fazer muita força e ao mesmo tempo respirar, sigo rumo à medalha olímpica concedida aos que completam o plano anual sem desistir. Confesso que já quis bastante, mas a pressão dos duzentos e catorze reais pingando na conta do banco sempre me faz voltar atrás e vestir a legging. Bate esse whey e toma, garota, coragem.

Sou do tipo que malha sem fone, o que denunciaria, das duas, uma, ou minha total abertura a novos contatos, ou minha falta de verba para investir em fones que funcionem por mais de uma semana sem dar defeito. Uma dica: comprei todas as minhas roupas de ginástica no outlet. Sou pobre, não vim aqui fazer amigos.

No entanto o prestativo homem que sabe meu nome, mas de quem tenho pouquíssimas informações além de 1) é homem 2) é prestativo, puxa conversa e, atencioso, quer saber de mim. Veja, nem eu sei de mim. E, ainda que soubesse, não conseguiria te contar, porque puxar estes 19 quilos e respirar e falar ao mesmo tempo é demais pra mim. Não me leve a mal. É descoordenação, não falta de apreço.

No vestiário lotado, disputo espaço na pia com duas garotas que têm cada uma metade da minha idade e o triplo do meu sex appeal. Tudo bem, sei conviver com isso. Como eu disse, já são quase 35 anos de conformismo. Só dói um pouco em momentos como quando o manobrista traz o carro delas bem mais rápido que o meu, que eles escondem no fundo da garagem por ser sujo e humilde. Da próxima vez, estou pensando em vir a pé.

Passarinho quer voar?

Não há nada no mundo mais revigorante que a visão de um rapaz bonito caminhando em sua direção. Mesmo que seja um desconhecido, rumando ao infinito e além, mas apenas o simples fato de que, uau, como ele é esbelto e vai passar aqui pertinho, ah, isso já muda o dia e alegra a vida. Mas, espera. O que o rapaz bonito está fazendo?? Não. Diga que não é verdade. Não acredito. Você arruinou tudo, moço. Você descompôs tudo. Você, você, você...

... você botou a mão no seu PIRU. Sim. Você estava fazendo tudo direitinho, sendo você, sendo maravilha, mas não dava para aguentar, né? Você TINHA que cutucar suas partes. Na rua. Em público. Sem pudor.

Ninguém aqui está dizendo que seu passarinho não mereça um carinho. Afagar o seu bichinho é coisa que todo dono faz, eu mesma mimo minha amiguinha todos os dias e não me culpo. Mas, olha, agradar um animalzinho desse tipo é coisa pra acontecer em casa.

Compreensível, evidente, que não era esta a espécie de contato que você buscava naquele gesto com que - embora quase gracioso de início - conseguiu aniquilar toda a harmonia mundial em um segundo. Mas é importante explicar que, mesmo o mais sutil toque no seu bilau no meio da rua é coisa das mais indelicadas que existem.

Imagino, sim, que às vezes ter algo pendurado no meio das pernas possa ser deveras incômodo. Possa, como já li em publicações especializadas, repentina e inoportunamente grudar-se a outras partes do corpo, tornando imperativa uma urgente manobra de emergência.

Só que nem esta é uma boa justificativa. Porque, veja só, quando há, por exemplo, uma meleca bloqueando sua respiração, você enfia o dedo na narina para brutalmente removê-la, não se importando com o mundo que gira à sua volta? Óbvio que não. Mesma coisa com o fiapo de carne pendurado em seu dente, incômodo à beça, mas que só no banheiro, escondido da humanidade, será deposto e devidamente engolido em reparação.

Com seu bigulim deveria ser a mesma coisa, e não do jeitinho singelo que você faz, METENDO A MÃO no meio das pernas como se o amanhã não houvesse, como se a rua apenas sua fosse, e como se eu e todo mundo que passa obrigados fôssemos a te ver ajeitando as bolinhas melhor dentro da cueca box.

Ou coçando as coisas, que eu, bem da verdade, não sei exatamente qual a intenção de seu tão sutil gesto – e não me corrija nem me informe, que, juro, não preciso desta informação para seguir a vida.

A única coisa que preciso, reafirmo, é que você pare de mexer aí embaixo. Ou, melhor, que mexa só quando ninguém estiver olhando – e, acredite, na rua SEMPRE tem alguém olhando. De modo que, para acarinhar seu pet de maneira anônima e segura fora de casa, o único jeito é se trancar no banheiro sozinho, bonito, no conforto. Como fazem as meninas na hora de ajeitar a calcinha que escorrega lá pra dentro e incomoda.

Espero muito reencontrá-lo na rua, rapaz bonito, pra gente flertar de novo, de maneira extrema e promissora. Só me jure, pelamor, que desta vez manterá as mãos sempre à vista, de preferência segurando, no máximo, o cano brilhante do vagão do metrô.

O homem sempre online

Morreu o homem inacessível. Depois de tanto penar na boca delas, de sentir a orelha esquentar pelas reclamações à distância, sumiu do mapa aquele que nunca esteve alcançável, nem mesmo para a própria mãe.

Alguém se lembra dessa espécie? O cara que, antes da invenção do celular, podia ser descrito como o eremita da comunicação. Fulano não está, vai querer deixar recado? Não, senhora, não sei quando volta, muito menos aonde foi. Sumido por horas e dias, largando as pretendentes à deriva sem notícias, na expectativa do iminente retorno e do improvável papo de dupla mão.

Tão sortudas as novas gerações. Não? Livres do sofrimento da eterna espera, agora podem comemorar felizes a conquista: não há ninguém no mundo mais atingível que este cara. Olha ele ali, aberto, conectado, disponível o tempo todo.

É talvez um castigo divino, essa acessibilidade toda. De tanta queixa acumulada desde os tempos de Graham Bell, lá veio o destino aplicar a justiça. Não querem um homem possível? Então tomem.

Tomem e não lamentem, pois ele estará online o dia todo. E, se reclamarem, ele estará online de madrugada também. E depois de te deixar de volta em casa pós-encontro romântico e promissor. E de manhã cedo, quando ele te disser que estava dormindo. E no restaurante, e no clube, e no cinema, e, óbvio, quando aquela garota bonita que ele chama de grande amiga também estiver.

As otimistas talvez foquem o pensamento na possibilidade de se tratar apenas de um rapaz trabalhador. Tanto tempo conectado ao whatsapp só pode significar muitos projetos, clientes, reuniões, briefings. E a mãe dele, que sofre de insônia, definitivamente prefere chats noturnos, quando o silêncio da madrugada embala com mais carinho a relação filial.

Mas não.

Que se desfaça agora a ilusão – bolinha verde, amiga, é bolinha verde mesmo. Para você e para toda a lista de contatos.

Daí cabe à interlocutora decidir a proporção que divide o-homem-sempre-online entre alguém que facilita e alguém que tumultua. Pesando mais pro lado prático, é só clicar em cima e desfrutar da felicidade. Mas, óbvio, sem se esquecer de desativar a confirmação de leitura – porque sangue frio é uma coisa, mas masoquismo é outra história.

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Foi o amor que derrubou o avião

Enquanto nas gravações soterradas na neve o que se ouve são a inércia e os gritos finais dos passageiros, na caixa preta do afeto o cenário é diferente. Brados, sim, mas de apego, estampidos não de diesel, e sim de adoração, sussurros desesperados de pânico e paixão. O medo da perda e da solidão. Que loucura, o quê. Foi, na verdade, o amor quem jogou o avião no chão.

Foi abandonado no altar, o moço, dizem as notícias. E é então quando não mais importam as montanhas de atestados que se encontrem. Que vasculhem gavetas, pastas, memórias rígidas. Que se comprovem diagnósticos cabeludos, doenças inéditas, pedaços faltantes do cérebro ou incapacitantes travas nas mãos, pés, no peito.

No copiloto havia um buraco.

Daqueles que remédios não curam. Que desabafos no ombro de trinta cabras amigos amenizam, mas só pra voltar a latejar e doer na manhã seguinte.

Um homem com uma dor no comando.

Possível que, além da cabine, tenha se trancado em tantas outras clausuras, só pra fugir do desamor de ser largado, a sós com a rejeição.

Possível também que fosse louco, por que não. Afinal, como disse o poeta, nenhuma morte é possível - sua ou de outrem.

Mas se há uma certeza espalhada entre os destroços dos Alpes é a de que, antecedendo a queda e a colisão, um coração já havia explodido bem antes daquele embarque.

 

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