Ele lavou uma louça: isso dá manchete

Na TV, a reportagem é sobre um moço, cuja mulher descobriu que estava com câncer, e que, ao invés de sair correndo, resolveu ficar ao seu lado e cuidar dela até sua morte.

Bonito, concordo. Ainda mais em tempos de escassez de mortais com coração no peito circulando pelo mundo. Não é a gente que anda postando direto que a humanidade acabou?

Só que o que me chama atenção na matéria, na verdade, não é a história do casal em si, da doação e da bondade, e sim o fato de que, de novo, trata-se de uma história em que só se trocam os nomes e os detalhes – o formato permanece o mesmo. Passam os anos, mudam os programas, é jornal, é documentário, e tudo sempre é muito igual.

Ou vai me dizer que já viu alguma pauta dessas em que o protagonista era uma mulher?

A devoção feminina não é notícia.

A sociedade está tão acostumada com o papel subserviente da mulher que, automaticamente, já espera de nós a irrestrita entrega e o total sacrifício. Sobre nosso gênero sempre a expectativa da benevolência.

Mulher que fica ao lado do marido que descobre que tem câncer não dá pauta.

Acontece todo dia. Não surpreende.

E com isso não quero dizer que são todos canalhas os homens, incapazes de gestos de altruísmo e amor. De jeito nenhum.

Fora o que passa na televisão e é tratado como milagre, conheço também, pessoalmente, casos de rapazes devotos a seus relacionamentos, e que deles não fogem por nada, nem sob o susto da revelação da pior das doenças do mundo. Amigos que, ainda que a companheira pegue ebola, se deitarão ao seu lado para assistir novela juntos e comer pipoca.

O que defendo, na verdade, é que somos criadas, há duzentas gerações, para a tolerância.

Até pouco tempo atrás, apenas mulheres viravam enfermeiras, e isso é significativo à beça. A humanidade pega nossa tendência atávica e natural aos cuidados, espreme com força, cozinha, salga a gosto e serve em forminhas simétricas e idênticas.

Daí vem a mídia e, conduzida obviamente pelo machismo que norteia quase tudo, publica apenas o que é fora do comum. Banalidade jamais, abaixo ao trivial.

Tudo isso que você, moça, faz pelo seu amado, é visto pelo mundo lá fora como nada mais que sua obrigação. Mas, se quem recebe auxílio é você, e ainda mais vindo de um homem, minha nossa, liguem as câmeras e filmem agora.

Uma mulher com câncer de mama perderá o seio, os cabelos, a auto-estima - se seu homem lhe deixa, há que se engolir a justificativa de que ele não aguentou a pressão e a revolução na aparência da companheira. Mas, se uma mulher abandona o marido que ficou broxa, ah, olha só, não te disse que era uma vagabunda?

Do homem, expecta-se o comportamento de homem. De nós, o que nos foi concedido e ensinado.

O que escapa ao previsível é pauta. Funciona mais ou menos assim: mulher doando fígado pro marido doente é notícia de rodapé, enquanto macho lavando uma louça ou te comprando um xarope dá manchete.

Posts Relacionados

Alguém vazou minhas fotos

Onde é que eu estava com a cabeça? No que pensava quando tirei aquelas fotos?

Maldita câmera no celular que facilita tudo. Porque, pelo que me lembro, a gente tinha mais preguiça de se fotografar fazendo coisas íntimas quando só tinha máquina fotográfica à disposição, dava o maior trabalho botar o cabo, plugar, passar, baixar, salvar. Afe.

Agora é bem mais simples, e acho que também por isso a humanidade se permite mais ceder à vaidade com frequência.

Naquela noite, além do celular à mão, eu pensei “por que não?”, já que, acho, todo mundo já se imaginou fazendo algo assim. Eternizar um momento tão atávico, tão natural, não há quem não faça, até onde sei.

Encarar na telinha a imagem registrada de um ato comum, mas importante pra mim.

Ver meu corpo em sua mais básica funcionalidade, aquela situação que nos iguala a todos, todos fazemos, todos sabemos, então por que ter vergonha?

É evidente que eu não queria que as fotos vazassem.

Que fossem parar na internet, que eu virasse motivo de chacota.

Vocês que dizem que, se tirei, foi porque queria que me vissem, ah, seus insensíveis, nem ao meu inimigo maior eu desejaria esta angústia da exposição. Os comentários que não cessam, a fama às avessas, ó, a crueldade humana. Parem, me deixem em paz.

Sou eu a bola da vez. Amanhã, será outrem.

Mas saibam que ainda dá tempo, antes que surjam os novos hackers e flagras de quem quer que seja, de botar a mão na consciência, criar empatia e entender o assunto não como um tabu, mas algo superado, resolvido, tratado. Tá todo mundo de boa.

E, não, não vou postar aqui as tais fotos. Não colaborarei com o circo de mim mesma. Tenho vergonha, óbvio. E fora que nem acho que eu fazendo cocô seja algo assim tão interessante para a humanidade.

Posts Relacionados

Mulher não esquece nada

Teve aquela vez do lençol xadrezinho, a gente tomou chá de cidreira depois, te servi numa xícara amarela, você se enrolou na toalha felpuda da Artex. Lembra? E a outra na viagem pro Rio, sabe?, eram três e quinze da tarde, tava passando Footloose na TV do ônibus da Cometa, a gente cruzava o quilômetro 114 da Dutra, bem em frente à lanchonete Arco Íris. Foi mó bom.

Queria tanto saber se homem guarda na memória detalhe de tudo como a gente guarda. E por “tudo” eu me refiro às situações mais diversas da vida, incluindo – e especialmente – as vezes em que fomos juntos para a cama. Vocês guardam?

Você aí, por exemplo, se lembra de mim? De como eu me mexo, do meu perfil, da tatuagem nas costas e se minha unha cresce quadrada ou redonda?

Pra gente, nada escapa, nem na hora nem nunca mais. Nós, mulheres, temos um RAM inesgotável onde moram as fichas completas de vocês e de todas as experiências que tivemos juntos, não importa quanto tempo passe nem quantos caras venham depois.

Eu lembro quanto você calça, se é canhoto ou destro, reconheço seu perfume e o toque da sua mão mesmo que te misturem num exército de homens. Estão guardados aqui o gosto do seu beijo, a velocidade, o índice de umidade e os efeitos que ele provoca em mim.

E olha que a última vez que a gente saiu tem bem uns 12 anos.

Confesso que também até que evoco, de vez em quando, o que de ruim ficou marcado. Defeitinhos, maus jeitos, câimbras, porque, né, quem nunca. Mas nada que arranhe sua reputação, fica tranquilo, aqui seu crédito dá e sobra.

E de mim, o que você guarda? Prometa que não se lembra muito da noite em que peguei no sono, exausta. Nem daquela em que eu, com sono e exausta, soltei um pum enquanto dormia. Ou também de quando eu estava com uns quilinhos a mais, uns pelinhos sobrando, uma preguiça abundando.

Lembre-se de mim com carinho, como eu me lembro de você. Sim?

Conserve-me num canto especial do passado, remeta meu nome às peripécias de qualquer uma das madrugadas que dividimos. Faça, sim, como eu, e mantenha frescas na memória a totalidade das minúcias do tempo que tivemos juntos – uma por uma.

Elas me são em você, e as suas, você em mim.

Posts Relacionados

O sortudo machão de São Roque

Eu sei que eu te enlouqueço. Que eu te boto puto três, quatro, vinte vezes por semana. Que meu ciúme te irrita, que meu choro te cansa. Eu sou um pesadelo, admito. E não somos o único casal com esta dinâmica, aliás, nem é de hoje que a dança mulher-azucrina-homem-homem-azucrina-mulher assucede. O eterno descompasso dos sexos e de seus quereres.

Mas eu sei, no entanto, que mesmo que eu te buzine infernalmente na orelha e encha seu saco até explodir, você nunca vai me encostar um dedo. Nem a mão. Ainda menos o cotovelo.

Uma cena igual àquela que todo mundo viu na TV, da moça caindo no chão depois dum golpe selvagem do animal da latinha, é impensável no nosso mundo, seu e meu, amor. E, na verdade, deveria ser condenável em qualquer universo onde houvesse seres humanos. Mas, ao que parece, não é assim que funciona.

Aplicar um golpe mortal na cara de alguém não é tão execrável quanto eu achava.

Se fosse, não teriam assistido estáticas à agonia da vítima as quase dez testemunhas presentes na hora da agressão. Se fosse mesmo, como eu pensei, um ato assim tão horrendo, alguém teria se mexido, acudido, tirado satisfação.

Mas não – a moça morrendo ganhou plateia, e, se não tivesse apagado inconsciente, poderia ver seu algoz ainda pregando sua doutrina torta para cima dum corpo inerte e desesperado por socorro.

Anderson Lúcio de Oliveira, o agressor sórdido de São Roque, é um sortudo. Ele nasceu num país machista, onde agredir mulheres é admissível e justificável. No mundo de Anderson, uma moça que lhe enche o saco tem mais é que levar porrada, e ai de quem o contrarie. Porque falou demais, que morra a tagarela chata, que lhe vaze o cérebro pelo nariz enquanto todos assistem.

O que todo mundo sabe, Anderson, é que, se a cotovelada tivesse sido num homem, a cena gravada teria sido diferente.

No lugar daquele momento em que você sai andando pro outro lado, praguejando de peito estufado, o roteiro mostraria as testemunhas em cima de você, talvez só te questionando, quem sabe até, oxalá, te ofendendo e entregando à polícia. A agredida seria prontamente atendida, e quem sabe seu destino não lhe reservasse as sequelas que ela terá pelo socorro demorado.

Mas São Roque não fica no mundo ideal. Pelo contrário, fica no Brasil, um dos lugares mais cruéis em que uma mulher pode morar. Onde violência verbal e física são rotina, escapando diariamente do noticiário apenas pelo azar de não haver por perto uma câmera de segurança.

E, mesmo errado, Anderson ainda contou com o apoio dos covardes que não o expuseram em seus depoimentos. Mesmo preso, contará com os benefícios de ser um sujeito influente e coronelão duma cidade interiorana. Anderson, o machão comerciante de São Roque, pode mesmo ser um cara de muita sorte. Mas ele não é HOMEM coisa nenhuma.

Posts Relacionados

Ele já quer casar comigo. Que fofo!

Em suas aventuras no Tinder, este supermercado de gente virtual, uma amiga conhece um descendente de Apolo, todo exibido e perfeito, pacote completo em promoção, pague 1 predicado leve 20.

As conversas evoluem simpáticas, animadas, e o primeiro encontro acontece. Estão lá, frente à frente, dois egressos de um aplicativo onde o que se busca, a princípio, é conhecer indivíduos, levá-los ao bar, à cama, à cama de novo, ao sofá, à cama mais uma vez, e, um dia, quem sabe, num futuro distante, à troca de status no Facebook, e de alianças no jantar romântico. Em outras palavras, duas criaturas ali dispostas a se comer sem muita expectativa de um relacionamento – se rolar, rolou.

Mas Apolo, o barriga-tanquinho de boné do Tinder, parece que se esqueceu dos termos de uso. Apolo quer mais que apenas uma noite quente de sexo e curtição. Apolo quer descolar uma esposa. Uma mucama. Uma jovem casta, bela e fiel.

“Já tava com saudades”, metralha Apolo, depois de esperar na mesa por quatro minutos e meio enquanto minha amiga levantou para fazer xixi. Apolo detesta ficar sozinho. Apolo merecia um Freud, um Lacan, uma Gestalt e um Jung tudo junto e misturado.

E o fenômeno de carência do deus sarado e grego não se manifesta apenas durante a micção alheia. O fortão também já está, enquanto sorve a PRIMEIRA garrafa de cerveja, fazendo planos para a posteridade: a moça não pulará carnaval em 2015, porque estará com ele; a moça não viajará com a família, porque estará com ele; a moça vai precisar trocar de emprego, eliminar o decote e esconder as pernas, porque estará com ele.

Mas Apolo – ele diz - está só brincando. Ah, Apolo, seu cômico. Piadista nato, ele, tão galhofeiro. Porque Apolo quer só mostrar, ao que esclarece, que está mega na vibe dum relacionamento sério com a menina que ACABOU de conhecer no Tinder, aquele aplicativo feito pra comer gente. Ah, tá.

Ele acha que está sendo doce, como acham todos os homens que decidem pular etapas. Ele acha que minha amiga, como qualquer outro exemplar do sexo oposto, se sentirá sortuda por ter alguém assim tão disposto a ficar com ela.

Daí eu pergunto, Apolo: e se fosse o contrário? E se quem estivesse falando em casamento no primeiro encontro fosse uma mulher?

Porque, quando a gente queima a largada e dá sinais de ansiar alucinada por um compromisso, vocês, homens, não acham fofo porra nenhuma. Vocês, ao contrário, nos chamam de desesperadas. De precipitadas. Louca tarada encalhada, e aí, o que cês fazem? SOMEM.

E vocês, acho, estão certos em sumir. Porque ninguém pode querer namorar alguém que conheceu há uma hora e meia. Alguém de quem não se sabe nada. Se vai roubar nosso rim e nos mergulhar numa banheira gelada, ou se vai nos dar respeito, amor e uma vida calma.

O compromisso, mocinho, vem do amor, que vem da familiaridade e da convivência.

Isso que você está sentindo agora não é paixão à primeira vista. Não mesmo. Isso se chama tesão. E você não encontrou a mulher da sua vida, não, não, você simplesmente está carente. E carência, Apolo, a gente trata na terapia, e não no aplicativo do celular.

Posts Relacionados

Os meninos do Jardim 2

Meu filho foi pedido em casamento semana passada.

Ele recusou a mão da moça, mas, ao contrário do que qualquer outro homem faria em seu lugar, ele foi honesto na justificativa. Mandou a real, na lata, sem enrolação.

Meu filho é uma criança pequena, bem pequena.

E, ainda assim, bem que podia servir de exemplo prum montão de macho por aí. Afinal, o mundo seria um lugar muito mais legal se todos os caras respondessem como ele respondeu à minha amiga, que, tentando ser fofa, sugeriu “Teodoro, casa comigo?”.

- Eu estou no Jardim II. Eu tenho 5 anos.

No caso do meu filho, é uma justificativa literal. Ele está REALMENTE no ensino infantil, e é, de corpo e alma, um molequinho ainda.

Mas, pense, que delícia imensa, um universo em que eles, os boy, falam o que realmente pensam? A gente saindo assim já há um tempinho, minha escova de dentes morando na sua pia, e eu, como era de se esperar, comento ei fofo xuxu mozão isso é um namoro, não é não?

E, no lugar dessa cara medonha que você faz, engasgando e tossindo tudo seguido, você diria de pronto “Marcella, eu ainda me comporto como se estivesse no Jardim II. Eu ainda tenho 5 anos mentais”, e ninguém ia precisar passar por todo aquele aperto, todo aquele constrangimento, todo aquele trabalho que dá assumir e depois dessassumir uma relação DE-GENTE-GRANDE.

Até porque, vamos combinar, cês tão tudo no Jardim II ainda, mesmo. Tão não?

Uma vez eu conheci um cara que tava no sexto ano, e já achei um baita avanço. Adolfo, quarentão, boa pinta, barba e óculos. Mais maduro que a maioria, mas nada assim que se dissesse “nooossa, que ensino médio!”.

Na faculdade, então, juro que não me lembro de nenhum.

Triste, é verdade. Mas seria bem menos dramático e trágico se vocês assumissem a imaturidade quando é preciso. Sejam sinceros, criançada, estufem o peito e, recusando abraçar qualquer tipo de compromisso, façam cara de choro e assumam:

- Tia, eu quero a minha mãe.

Posts Relacionados

O amor nos tempos da frescura

Num passado remoto, pré-frescuras e confortos, conseguíamos ser felizes de fato. Na carne, no roots, na frugalidade de um amor sem loja de conveniência. Lembra? Quando a gente sentia prazer sem firula, você se lembra?

Na época em que nem se sonhava com colchões box super queen king e todo um baralho de micagens, com pillow tops, lençóis egípcios, impensadas molas individuais ensacadas. A gente queria mais, no passado, era se mexer e o outro sentir mesmo, rolar pro lado caindo no buraco da cama velha. Amassar o cônjuge e dormir apertado.

E dormir, na verdade, era o que a gente menos fazia, pelo que me lembro.

Não só porque conforto não era o forte do passado, mas porque naqueles tempos, aqueles de que a gente sente falta, nós, amantes, nos ocupávamos mais de amar e ranger a madeira barulhenta do que deitar pra ver filme numa tela imensa na parede em frente.

Aliás, tinha vezes em que a gente não tinha TV. E tinha outras em que a gente não tinha parede. Um cômodo só, qualquer que fosse ele, era o suficiente pra felicidade.

Ser feliz, no pretérito perfeito, se traduzia no xodó do lado e mais nada. Zero exigências.

O sofá não precisava ter chaise, que dirá ser de quatro lugares. Melhor ainda se fosse de dois, se fosse poltrona, cadeira de balanço embalada num ritmo bom, um pufe, uma banqueta da cozinha - onde desse pra se apoiar e se amar já tava ótimo.

Quando foi mesmo que a gente criou essas necessidades?

Quando alguém decidiu que só dá pra tomar banho junto numa banheira cafona de hidro?

Que cortem-lhe a cabeça do canalha que caluniou e acabou com a ducha a dois. Que alegou frio nos poucos minutos que passou fora do raio de alcance da água quente do chuveiro. Ora, homem, não era só abarcar a mulher? Não era só dividir o banho que nem banho é, porque quem é que pensa em higiene numa hora dessas?

O negócio mesmo é ensaboar a moça. É lavá-la, esfregá-la, encostar no azulejo gelado e correr pro abraço.

Eu quero uma casa no campo. Quero um chalé, uma barraca, um lençol na grama. Às favas os casais que só sabem bem querer no luxo. Comigo, o amor será sempre agreste.

Posts Relacionados

Quando uma mulher trai

Homem esperto sabe que não é entre os copos de cerveja e petiscos dela, numa mesa de bar rodeada de amigas, que mora o perigo do adultério. Ele é mestre em enigmas e, em seu sudoku da psiquê feminina, não há quadradinhos vazios – ele já matou a charada.

Este cara, um gênio, bem dizer, entendeu em algum ponto da vida que a traição feminina não é nunca uma coisa abrupta. Que não há sem querer na nossa infidelidade.

Ao contrário dos homens, que via de regra escorregam depois de encher a cara de álcool e esquecer o nome de batismo, nós, as moças, somos diferentes. No universo feminino, não há espaço para crimes passionais fortuitos – somos do tipo que premedita.

Enquanto homens traem no impulso, especialmente ao fim daquela noite embalada por uma acalorada DR lá em casa, a gente se programa pra isso. Somos frias, calculistas, vingativas.

Porque não há maior premissa que encaminhe uma mulher para o pecado do que a sede de revanche. Seguimos, cegas, para dentro do box envidraçado no banheiro e, já ali dentro, estamos traindo alguém.

Traímos com a gilete que depila as pernas para outro. Traímos não com o sabão em barra comum, mas, sim, com o líquido importado, o gel de banho, o óleo perfumado. Traímos depois de ir à manicure, pedicure, massagista.

Separamos, para o grande dia, a nossa melhor roupa – e, se ela ainda não existir, a gente vai lá e compra.

Nos minutos que antecedem o adultério, a mulher arruma o cabelo, se perfuma, passa batom. Ajeita no quadril o elástico da calcinha boa, aquela que no dia a dia mora secreta numa esquina mal iluminada da gaveta, à espera apenas do momento do revide.

A traição da mulher é o troco, nunca o dinheiro inteiro.

É consequência, nunca a causa. É a réplica e não a deixa. É o contraponto, a volta, o segundo passo.

No macrocosmo feminino, não há Vadinho no mundo que justifique arriscar uma relação saudável. Já dizia o perito do sudoku: moça nenhuma se vinga do que não houve.

Posts Relacionados

Este não é um texto sobre mulheres de cabelos curtos

Cortei os cabelos. Estou irreconhecível.

Se você me visse na rua, não perceberia jamais que sou eu. Bem, você não perceberia de qualquer jeito, porque você nunca me viu na vida, o que por um lado é excelente porque se você é um maratonista e me odeia por causa daquele antigo e polêmico texto não poderá me assassinar no metrô me esmagando com seu Mizuno Wave, mas, enfim, o que importa é que nunca nos vimos mais gordos ou mais cabeludos ou mais dentuços, e o fato é que, acredite, estou parecendo outra pessoa.

Adeus, Rapunzel, olá, (insira aqui o nome de uma famosa princesa de cabelos curtos, porque eu, honestamente, não me lembro de nenhuma).

Pois vejam, mulher de cabelo curto é raridade. A Disney caga pra isso, esticando sempre ao máximo a cabeleira das heroínas. Uma pesquisa recente, aliás, mostrou que 80% das brasileiras preferem os fios longos porque acham mais sexy e que, ao cultivá-los deste jeito, agradarão mais aos homens.

Daí que este texto aqui, a partir deste exato momento, poderia virar justamente uma ode às corajosas que nadam contra a maré, cospem em pesquisas de tendência e esfregam seus cortes Joãozinho na cara da sociedade: vulgo eu. Vulgo você, que tem cabelo curto e que está me lendo agora.

Mas não sou previsível. Sou uma escritora talentosa, criativa, prestes, inclusive, a me candidatar à vaga deixada por um dos recém-falecidos na Academia Brasileira de Letras – e com isso me refiro não ao Ariano ou ao Ubaldo, mas sim ao Severino, que servia chá aos imortais toda tarde e semana passada enfartou, coitado.

Como eu dizia: eu surpreendo. E, por isso, esse texto não exalta as mulheres-de-cabelos-curtos. Primeiro porque não somos piores nem melhores que ninguém, assim como também não são as mulheres-de-cabelos-compridos-até-os-joelhos.

Segundo e principalmente porque esses textos que nós mulheres escrevemos louvando qualquer característica física feminina (as narigudas, as de peito pequeno, as gordas, as cotoveludas, as com pelo, as peladas) são, na verdade, uma tentativa desesperada de nos justificar perante um mundo que nos julga e nos compara a todo minuto.

Eu não quero me defender de nada. Eu não quero ter que fingir que me acho superior a alguém para me sentir segura.

Se eu cortei o cabelo e estou me percebendo mais fodona que antes por causa disso, pô, que bom pra mim. Se você tem um nariz maior que o meu (duvido) e por isso se acha a última Calipso do pacotinho, sério, animal, isso é excelente.

Tudo vale a pena quando a alma não é pequena, já dizia aquele powerpoint que você mandou por email pra todos seus amigos nos anos 2000. O que quer dizer, basicamente, que, se você não é uma megera mesquinha que precisa diminuir os outros para se sentir poderosa, já tá ótimo, pode tudo.

Retomando, este não é um post sobre mulheres de cabelos curtos. É sobre mulheres que fazem escolhas buscando a própria satisfação e felicidade. Sobre meninas que querem ser felizes do jeitinho que acharem melhor naquele momento. É um post sobre aquelas que preferem se unir a competir umas com as outras.

Em outras palavras, um texto sobre mim, basicamente, e, óbvio, um texto também sobre você, sua linda <3

Posts Relacionados

Como não se tornar alguém igual a mim

Clap clap clap clap clap (salva de palmas, eu digo).

Bem-vindos à minha palestra motivacional.

Durante os próximos 40 minutos, vocês ouvirão dicas sobre COMO NÃO SE TORNAR ALGUÉM IGUAL A MIM, assim mesmo, em caixa alta. Não dá pra ouvir o Caps Lock quando a gente tá falando, óbvio, eu sei, mas acho importante frisar, afinal é o título da palestra, vocês pagaram por ela, acho até que pagaram mais do que valia, mas, enfim, continuemos.

Bem-vindos. Legal vocês aqui.

Estou vendo que são todos muito jovens. Todos, não. Todas. Porque só tem mulher. Ah, desculpa, não tinha te visto. Seu cabelo meio compridinho, também, me deixou em dúvida, e depois dos 30 fiquei meio míope.

Todas + 1. Todas vocês MAIS UM, viu?, tô te incluindo, rapazinho, alegre-se, todo mundo na casa dos vinte e poucos, na flor da idade, justamente meu público alvo. Aqueles a quem, estou aqui para provar, ainda há um caminho de salvação.

Sim, moçada (gosto do vocabulário JOVEM), ainda resta uma esperança. Mirem-se no meu exemplo, e dele corram sem olhar pra trás.

Sim, porque, se há um lugar em que mora a felicidade, ele não é aqui. Neste corpo ligeiramente murcho, nesta cara esgotada, nesta mente ultrapassada e obsoleta.

E sabem por que, meus petizes?

Porque eu fiz escolhas erradas. Péssimas. Execráveis. Fui uma incompetente.

Descasei 14 vezes. Fiz carreira vendendo joias na Vivara, mas botei tudo a perder quando fugi pra Venezuela com um homem casado que comprou comigo alianças e um brinco de jade. Eu podia ter virado gerente. Eu podia ter ganhado bônus. Mas não. Eu caguei.

Caguei e tô aqui, fracassada, cansada, mas ainda com um resquício de fé aceso feito chama dentro do estômago protuberante. E não, eu não tô falando do refluxo que apareceu quando fiz 42.

Enfim.

Cobrei de vocês um preço ligeiramente injusto apenas para recomendar que vocês, quando de frente para aquela bifurcação que subitamente lhes apresenta a vida, sigam pela estrada de tijolos amarelos – eu escolhi a de bolinhas e me fodi.

Não tenham quatro filhos de quatro homens diferentes, como eu fiz. Não façam um financiamento pela Caixa para comprar um apê na Mooca, como eu fiz. Não mudem pra Vivo, não peguem o pacote mais caro da NET, não comprem as sessões promocionais de drenagem linfática do Groupoun – olhem esta bunda e me digam se acham que esta merda adianta alguma coisa.

Pois é, não muda. Nada muda. Mas vocês, garotada, ainda podem mudar. Saiam daqui e façam história. Sejam senhores de seus próprios destinos.

E, depois, se nada der certo, não se desesperem: vocês ainda podem virar palestrantes motivacionais.

Clap cla... (tímidas palmas, eu digo).

Posts Relacionados