Filho não muda homem

 

Muito se fala que filho não segura casamento.

Pura verdade, porque não segura mesmo. Numa relação, o máximo que um filho faz é jogar luz sobre o que pode estar até então escondido debaixo do tapete. Uma crise que a gente vem fazendo que não vê, um desamor que passava despercebido, ou, por quê não também, o carinho que andava há tempos esquecido, e que agora ressurge no embalo da emoção de se amar infinitamente uma criança.

Mas daí a segurar alguma coisa, ah, isso bebês não fazem. Bebês não seguram mamadeiras, talvez você já saiba. Como segurariam relacionamentos?

E, se não seguram, como se pode esperar deles que detenham o poder extraordinário de modificar alguma coisa? Pior: de modificar seres humanos?

Vejamos. Eu não virei outra pessoa depois de parir. Continuei sendo a mesma mulher, mesma altura, mesma voz, (quase) o mesmo peso, cabelo preto, nariz grande. Ganhei uma cicatriz, responsabilidades, culpas. Passei a amar diferente, sentir diferente, me expandi, mas, sejamos francos uns com os outros: sou ainda a mesma, e não outra. Apenas eu.

Como seria, então, essa história de que filhos podem mudar um homem?

Recém-nascidos com o poder mágico de trancar em casa um marido que vive na rua. Ou de castrar um sedutor compulsivo.

Não, isso não existe. O máximo de magia que seu bebê trará à sua rotina vem da incrível capacidade de sujar fraldas, dormir pouco e, como eu brinco, revelar uma faceta desconhecida e brilhante da vida, mais ou menos como acontece no videogame, quando se destrava a fase secreta e um novo mundo fantástico se abre.

Mas não, nada de domar macho descontrolado. Muito menos despertar paixão dum homem pela mulher – isso é delírio.

Adultos se amam por uma conjunção de fatores como admiração, tesão, respeito e vontade de realizar planos juntos. O amor conjugal não passa nem nunca passou pela existência ou não de descendentes disso tudo. Filho é complemento, e não fundamento.

Se for para engravidar na expectativa de que o pai da criança se apaixone por você – final ou definitivamente -, esqueça. De que os problemas da relação se resolvam, que a infidelidade miraculosamente se cure, que passe a haver harmonia onde antes imperava o caos.

Até porque, além da ilusão ser absolutamente frustrante, ela é ainda injusta com a criança, que vem ao mundo precisando ser instruída pelos pais, e não o contrário.

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Design de sobrancelhas: como NÃO fazer

Trabalho em um portal de notícias há anos, e posso dizer que já perdi as contas de quantas vezes vi matérias com meninas se dando mal na tentativa de conseguir sobrancelhas bonitas. Das que só tiveram probleminhas pequenos até aquelas que viraram piada na internet inteira com resultados medonhos, confesso que nunca tinha me solidarizado muito com a causa.

Até que chegou o meu dia. O dia em que a sobrancelhuda fui eu.

E, mano, dói. Não na cara, porque é tudo seguro e testado antes por médicos, dermatologistas, especialistas, moças cobaias. Mas dói, isso, sim, no coração da gente. Na alma. No lugarzinho onde mora nosso orgulho, agora ferido por uma parada maligna chamada HENNA.

Quer dizer, não sei se foi exatamente henna o que me passaram nos pelos. Só sei que era feio, bem feio, e que por pouco eu não virava personagem de mais uma reportagem no R7.

O caso é que nunca fui das mais privilegiadas nas sobrancelhas. O formato das minhas é semelhante a um telhado dos chalés de Monte Verde, o que sempre dificultou o trabalho das depiladoras que me ajudavam no projeto vamos melhor isso aí. Nunca deu certo.

Há alguns meses, encontrei alguém que acertou a mão no desenho, e é a ela que me mantenho fiel, fazendo visitas quinzenais para dar aquele talento. Só que, como a Monica folga às segundas, e foi bem numa segunda em que eu mais precisei dela, investi, então, um dinheirinho num desses spas especializados que viraram moda recentemente.

Não sei se você já foi a um deles. É uma espécie de salão de cabeleireiros onde só o que se corta, tinge, enrola e estica são as sobrancelhas das pessoas.

Quando marquei hora, fui esperando cabininhas tipo as que a gente entra na hora de depilar as outras partes do corpo, mas, na verdade, são várias cadeiras tipo de dentista, todas colocadas lado a lado em uma sala grande, e por isso dá pra ver o que acontece com cada uma das meninas que está sendo atendida junto com você.

Posso dizer que não é algo animador.

Todo mundo segurando as bolsas no colo, porque não tem ganchos pra pendurar nada por perto, e as funcionárias trabalhando em cima da cara de cada uma. A primeira vem e pergunta, de maneira retórica e muito alta, se aquela é a minha primeira vez ali. Bem, ela sabia que era, mas talvez precisasse que todas as clientes também soubessem da minha virgindade facial. Obrigada, moça, por me embaraçar. Assim fica tudo mais fácil.

Duas profissionais se revezam desenhando quadradinhos no meu rosto, mas me asseguram que é só uma marcação para sabermos qual pelo sai e qual pelo fica, pode ficar tranquila, querida. Tento relaxar. Respiro.

Depois da pinça, a moça da coloração quer saber se uso algo no dia-a-dia para corrigir as falhas, e me oferece um tonzinho acima do natural. Jura que vai ficar bom. Eu acredito nela e, então, meus quadradinhos antes só com pelinhos ganham agora uma camada espessa de tinta. Henna. Whatever.

E é aí que vem minha redenção. Meu momento de profunda conexão com o divino. Quando alguém lá de cima resolve que não, este não é o dia em que ficarei ridícula. Inspirada por esta mensagem dos céus, resolvo conferir o whatsapp e, na tela ainda preta do celular, vejo meu reflexo.

Susto.

Eu sou tipo aquela imagem da irmã do Neymar, só que piorada. Nove vezes. Dez. Mil.

Tenho ganas de chorar. Mas, como uma garota crescida, chamo a mulher de volta e peço pra tirar aquilo de mim. Rápido. Gostaria de poder dar um chilique, mas sinto que pegaria mal dada a lotação das cadeirinhas do lado. Preciso me conter. Não grite, não corra.

Lá fora, a menina da recepção diz que minhas sobrancelhas ainda semipretas e traumatizadas ficaram lindas. Mentirosa.

Pago os R$ 49 pelo serviço, agradeço e, já na escadaria de saída, tento limpar o estrago com o único líquido que tenho à mão: baba.

Hoje, uma semana depois e com tudo de volta ao normal, já posso finalmente sair de casa e retomar a rotina. Posso abraçar as pessoas, olhá-las de perto, tirar os óculos e sorrir pra vida. Nunca mais spa, nunca mais tonzinho, nunca mais quadradinho de delimitação. Eu quero minha depiladora de volta. Você me perdoa, Monica, por favor?

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Até que não é tão ruim dirigir a 50 km/h na Marginal

Tava lá no sofá sem fazer nada, segundona à noite, jornal na TV e pensei: vou dar um rolê na Marginal né, por que não? Passar o tempo, experimentar essa parada de novos limites, radares, multas, emoção.

Fui direto pra Tietê, onde agora na pista local só dá pra chegar a 50 km/h. Mais ou menos a velocidade que tinha, deixa ver, a Montanha Encantada do Playcenter. Ou aquele carrinho de compras motorizado do supermercado lá perto de casa.

Achei bacana, viu.

A cinquenta por hora, descobri um novo estilo de vida. Algo na linha contemplativa, de observação do cotidiano. Um viver assim mais relaxado.

Ao invés de me estressar e lutar contra, me entreguei ao prazer da locomoção moderada.

Percebi que, me arrastando pela pista, dá pra fazer mais um montão de coisa junto com a direção. Tipo espiar dentro da casa das pessoas. Devagarinho desse jeito, a gente vê tudo que se passa em cada apartamento da Marginal.

De prima, já vi uma família inteirinha sentada pra jantar, comendo cuscuz marroquino com passas, frango assado no molho acompanhado de salada de aipo. Parecia gostoso, as crianças riam, o som tocava Sinatra.

No prédio do lado, uma moça sozinha lia Paulo Coelho, sublinhando aquele parágrafo que fala da pedra filosofal e da importância de confiar em si mesma. Quando me viu passar, acenou e batemos os punhos pelas janelas, exclamando “força, miga”, antes de nos despedir devagarinho.

No segundo quilômetro, isso uns 40 minutos depois de começar minha jornada, lembrei que no porta-luvas tinha uma revistinha de palavras-cruzadas que adoro. Aproveitei para completar aquela onde faltava o nome do deus grego do sono, algo que eu não sentia fazia tempo, pelo menos não antes de decidir pegar o carro e vir aqui dirigir na Marginal.

Pronto. Acabou Picolé nível Médio Letrão inteiro.

Acho que vou ligar pra minha mãe. Dar um oi, saber das coisas. Sim, eu sei que não pode dirigir e usar o celular ao mesmo tempo, mas, convenhamos, isso aqui não se parece muito com direção. Alô? Quanto tempo, que saudade. Me ajuda a passar o tempo, manhê, que o negócio tá complicado.

Depois de me atualizar sobre todas as tias de Laranjal, o que cada uma tem feito, quem morreu, quem desquitou, a bateria acabou e precisei desligar. Droga. O que é que eu faço agora?

Ainda faltam três quilômetros até o meu destino, algo em torno de sete horas e meia de itinerário.

Ahhhh, olha lá que legal, agora pelo menos dá pra ler as letrinhas miúdas dos anúncios no outdoor. Quer dizer então que este medicamento também não deve ser utilizado em casos de suspeita de dengue? E que iogurte grego pode dar dor de barriga, mas o fabricante não tem nada a ver com isso?

O motoboy do meu lado buzinou. O que foi que eu fiz agora? Ninguém consegue fechar ninguém a cinquenta por hora, moço, me deixa. O quê? Você tá carente? Poxa, não fica assim. Sua namorada brigou com você e agora você não sabe o que fazer da vida? Ô, dó. Dá aqui a mão. Quer um abraço? Não, nem precisamos estacionar, relaxa, continua acelerando de boa, até porque nessa velocidade a gente já tá quase parado mesmo.

Vai com Deus, motoqueiro. Se cuida. Dá notícias. Já tá amanhecendo e finalmente cheguei ao meu destino.

Em resumo, achei a viagem de boa, foram só 14 horas e 6 minutos de ponta a ponta, da Ponte dos Remédios até o Imigrante Nordestino. Fiz amigos, completei a revistinha, tive notícias da família e me apeguei ao motoqueiro. É bastante coisa, e vou levar isso pra vida.

Estivesse eu a 70 km/h, como antigamente, nada disso seria possível. Eu até chegaria mais rápido, claro, mas de que vale a velocidade perto dum passeio assim tão profícuo? Não tem nem comparação.

Hora do caminho de volta. Revivo o lirismo marginal, ou opto pela agilidade das ruazinhas do bairro?

Resposta óbvia. Até porque, cortando por dentro a milhão e sem radar, chego rapidinho em casa de volta, a tempo de ainda assistir à edição do jornal da noite desta terça-feira.

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O sonho acabou

Adoro sonho. O creminho de recheio, a massa fofinha, o açúcar fininho cobrindo tudo. Nham. Na padaria da vida, ele sempre foi meu doce favorito. Sempre teve meu amor profundo, muito mais que os pastéis de belém, as fatias de bolo, as bombas francesas.

Embora elas sejam bem mais vistosas, com aquele açúcar e o chocolate foscos dizendo “me come” na vitrine, a calmaria e a segurança dos sonhos cativam e me fazem continuar fiel ao creminho, à massa, ao açúcar. Team sonho forever o/.

Só que isso não significa, no entanto, que eu deixe de notar a presença da bomba ali. Que eu deixe de sonhar com a bomba. De pensar na bomba. De piscar pra ela toda vez a caminho do caixa com meu saquinho de sonhos na mão.

Tipo o mundo, né.

Quando a gente tem um relacionamento legal, calmo, com recheio de creminho e açúcar fininho cobrindo tudo. O conforto, o conhecido, o sabor cotidiano. Daí vem a tentação da bomba forçando a gente a questionar as decisões.

E olha que o mundo é pior que a padaria. Porque na Bela Flor Paulista até tem umas cinco ou seis bombas expostas, mas, na vida, benza Deus, é uma oferta de bomba nova a cada esquina. E é cada bomba vistosa, musculosa, perfumada, alta, com braços fortes, alguém me acode. É bomba na rua, no trabalho, no facebook, na academia, no mercado, na farmácia.

Óbvio que incita a dúvida e confunde.

Será que eu fiz a melhor escolha?

Não é que o sonho seja ruim, entende? Ele tá gostoso e a gente se diverte com ele. Mas é que, putz, será que não seríamos mais felizes comendo bomba?

Uma amiga me abordou justamente com este questionamento por estes dias. Sofrendo com o impasse do fico com o sonho ou arrisco a bomba. Apresentei meus argumentos, defendi com carinho o sonho, e até mesmo expliquei que, um dia, quando ainda era jovem, eu já fui de consumir tudo ao mesmo tempo, sonho, bomba, justamente por não conseguir me decidir. E que, hoje, mais calma e mais focada, optei pelo doce que, acho, me traz mais benefícios no final das contas.

Óbvio que não adiantou nada. Que ela continuou sofrendo com a bomba exposta. Mas prometeu pensar e não tomar decisões impensadas. Até porque, eu acrescentei a ela, vai que ela arrisca tudo, faz a troca do doce e, nhac, ao morder a bomba ela é farelenta e com pouco açúcar.

Decepção, né? Vontade de voltar pro sonho. Pro calorzinho, pro quentinho, pro seguro. Só que aí, amiga, ao fazer no balcão aquele pedido de sempre, corre-se o risco de ouvir aquela frase clássica, mas muito significativa numa situação como esta.

Sinto muito, fulana, mas o sonho acabou.

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Indecisão

Olha só que gostoso, não falei? Não tem nada melhor do que ficar aqui quentinho, juntinho, sentado nesse sofá macio e assistindo o índice do Netflix. Uma pena de fato que não consigamos escolher absolutamente nada, filme algum, série, documentário de golfinhos ou mineiros chilenos, mas o importante, ah, o importante mesmo é que a gente esteja aqui.

Ou também podíamos estar lá, não sei. Nas poltronas reclináveis, ou na cama, de repente.

Quem sabe devêssemos ter ficado na minha casa, né, e não na sua. Onde é melhor? Qual é mais fofinho?

Enfim, como eu dizia, que delícia. Adoro quando a gente não sai e fica aqui assim sem fazer nada. Quer dizer, nada, não, que a gente até que tá tentando fazer alguma coisa. Esse filme, por exemplo, que não sai. Olha só quanta opção. A gente fica querendo escolher o melhor e tá sempre com medo de pegar um mediano e o melhor ficar lá de longe sem dar play só rindo da nossa cara porque, né, optamos por um meia boca que nem era tudo isso mas agora vamos ter que ir até o final. Baita compromisso.

Tô abrindo aqui o site pra gente pedir a pizza, tá? Você quer de quê?

Calabresa, não, poxa, você não lembra que eu não tô comendo carne? Sim, amor, peixe é carne. Tudo bicho. Topa alcaparra? E berinjela? Sei lá, de repente era jogo mudar prum jantarzinho árabe, hein, que lá tem bastante opção de legumes. Aquela pastinha bege pra esfregar no pão.

De sobremesa podia ser um sorvete, eu acho. Com calda de chocolate. Que aí eu ia te convidar pro quarto e levar o potinho e a calda e te fazer umas travessuras deitados na cama ouvindo aquela musiquinha que a gente gosta.

Se bem que eu enjoei daquele disco. E também não ando com saco pra sacanagem.

Tô mais numa vibe mais casta, sabe. Você não? Dizem que relacionamentos têm fases, dia que a gente gosta, dia que não gosta mais. Daí pega e volta a gostar e daí às vezes já é tarde demais.

Mas com a gente, não, né? Que a gente combina. Os dois gostam de filme, de pizza, de sorvete, de cama, de árabe, de índice, de calda, de poltrona. Isso exceto os dias em que a gente não gosta muito, e daí prefere um monte de outras coisas.

Talvez esta seja uma daquelas semanas. Quando a gente não consegue nunca mais escolher nada, se irrita um com o outro, a noite acaba cagada e todo mundo repensa tudo, joga fora aliança, fica sem se falar por horas.

Dias em que a gente se questiona por que escolheu este e não outro. Por que ela e não a outra. Por que um e não dois, branco e não preto, baixo e não alto, pelo ou não pelo. Difícil escolher entre tanta opção boa. Preguiça de analisar todas.

E por isso mesmo que a gente continua junto. Pela constatação de que a-gente-fica-querendo-escolher-o-melhor-e-tá-sempre-com-medo-de-pegar-um-mediano-e-o-melhor-ficar-lá-de-longe-sem-dar-play-só-rindo-da-nossa-cara-porque-né-optamos-por-um-meia-boca-que-nem-era-tudo-isso-mas-agora-vamos-ter-que-ir-até-o-final. Baita compromisso, eu acho.

 

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Eis o que você precisava saber para ser um filho melhor

A vida de pais e filhos do início ao fim se resume assim: primeiro os pais te assistem fazendo um montão de merda e te corrigem. Depois, eles te assistem fazendo um montão de merda e não fazem nada porque você tem mais é que aprender. Daí, é a vez deles começarem a fazer um montão de merda, e de você ir lá e corrigir. Depois, eles continuam fazendo merda, mas você não faz nada porque eles têm mais é que se divertir. Por fim, quando eles já não estiverem mais aqui, é hora de sentir falta de tudo, da merda minha, merda sua, porque, enfim, a vida é complicada pra caralho e só o que salva mesmo é ver neles, em nós e nos nossos, a continuidade de tudo, da merda, da correção, da diversão, da saudade.

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Recado pras inimigas

Quando eu engravidei, sete anos atrás, fui invadida pelo pânico de estar esperando uma menina. Em algum momento da minha vida, meu inconsciente registrou que mulheres devem ser inimigas, e a ideia do afeto ser atropelado pelo sentimento desajustado mirando minha própria filha me deixava triste e impotente – como eu faria para controlar o que sempre pareceu incontrolável?

Um garoto nasceu, e a necessidade de lidar com a questão ficou pra depois. Só que não dava para empurrar com a barriga por muito mais tempo um assunto tão urgente quanto a competitividade feminina. Especialmente porque temer duelar com meu próprio rebento me fez ver não que eu fosse uma criatura medonha e doente, como podia parecer, mas, sim, que eu era alguém completamente imersa na maré na qual nós, meninas, somos educadas sem nem perceber.

A amiguinha na escola tem uma mochila mais bonita? Tudo bem, porque ela deve ser burra e chata. A colega da classe ao lado virou amiga do meu namorado? Vaca, gorda. A menina mais linda da faculdade quer fazer trabalho comigo no meu grupo? Nem morta, que eu não tolero gente metida. Minha vizinha simpática só é assim porque deve dar pra todo mundo. A novinha do escritório, mesma coisa. Ela também, e mais ela, mais ela, e mais ela.

Bando de (preencha aqui com a ofensa à honra que preferir).

Rivalizar indiscriminadamente só causa sofrimento, nos enfraquece e distancia. E qual a vantagem de sermos inimigas? Nenhuma. E olha que nem estou falando aqui sobre luta sexista, união do gênero contra homens, nada parecido. Não quero nem tenho talento pra versar sobre a luta.

Queria apenas que a gente pudesse ser amigas. Será que rola?

Outro dia na academia estávamos no vestiário juntas eu e uma outra garota. O espelho nos flagrava olhando uma pra outra aqui e ali, de cantinho de olho e escancarado de frente, e isso durante o longo tempo que se leva pra trocar a roupa do dia por aquela de treino, justa e chata de se colocar – o que significa, portanto, que a sessão tô te sondando levou bem uns 10 ou 15 longos minutos.

Já pronta para o ódio eterno e prum possível assassinato, senti a moça se aproximar e abrir a boca pra dizer algo. Vai, oponente, convoca pra briga. “Só queria te falar que adorei sua tatuagem”. Fuén.

Perdão, céus, me desculpem, pai, mãe. Eu não queria ser assim. Eu queria ser um ser humano iluminado, menos podre, mais evoluído e feliz.

Em momentos como este, batem a vergonha e o arrependimento, mas, mais que isso, bate um desconsolo pelo tempo que se perde em batalhas imaginárias como esta. Onde não há ninguém contra ninguém, só mesmo rivais fictícios, acuados por um histórico de disputa desnecessário e exaustivo.

Porque é isso: estou cansada de me opor a quem eu poderia amar como uma amiga querida, uma irmã, minha própria filha. E isso pelo simples fato de que se trata de alguém igual a mim, talvez até com mais semelhanças de vida do que eu possa imaginar. Quero a sororidade, não aguento mais o conflito.

Alguém sabe explicar como se faz?

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Não olhe agora, mas tem uma babá criando seu filho

Na ciclovia, à tarde no feriado, lá vem uma mulher pedalando sua bicicleta, tudo bem, tudo normal, não fosse a bicicleta que vinha logo atrás dela, pilotada por outra mulher, esta vestida toda de branco, negra, e se equilibrando para pedalar a si mesma e ao bebê filho da moça da primeira bike.

Ou seja: vou passear com meu filho, mas a babá que o leve. E, se cair, ainda lhe desconto todos os danos, físicos, morais, emocionais, o catzo, porque a responsabilidade é sua, sem debate.

Daí hoje pinga no Facebook um post com a história da outra moça de branco, também babá, também negra, e que precisou guardar lugar pro patrão por horas na fila do restaurante em Ipanema, pra, só depois de liberada a mesa, ser autorizada a voltar pra casa, às onze da noite, a pé, sozinha.

Que lindo, Brasil. Delegar a parte chata da vida aos cuidados dos outros. Que fácil que fica.

Menino fez cocô? Deixa que ela troca. Pituca quer comer? Manda que ela esquenta. Filhinho quer brincar, tem que estudar, quer ganhar carinho? Chama a babá que a babá dá. A babá faz. A babá vai. A babá tá aí pra isso.

Só que a gente sabe que não tá, né, que a ideia original era outra. Era pra ser alguém que ajudasse nos perrengues que todo mundo sabe que rolam na hora de se criar um filho, ou dois, ou quantos sejam. A babá nasceu e ganhou trabalho pra ser o braço direito dos pais numa hora que eles ou não estivessem, ou não pudessem, ou precisassem.

Não sei quando foi exatamente que a descrição do emprego mudou, e de babá a babá passou a professora, e a faxineira, e a enfermeira, e, mais que tudo, a babá passou a mãe e passou a pai. Ganhou mais uns filhos, além dos que já tem em casa, com toda a dor e a delícia que a maternidade envolve, só que, né, toma que este filho aqui é seu, dos meus deixa que eu cuido.

É um trampo lindo, brilhante, necessário. Eu mesma, se pudesse, tinha pedido socorro às babás amadas sempre que o negócio apertava lá em casa e virava tarefa hercúlea conciliar a vida de mãe sozinha, funcionária, mulher. Se não recrutei ninguém nestes momentos, foi só mesmo porque faltava a grana, nada além.

Meu grilo é com quem, como a moça da bicicleta na ciclovia, e o patrão do restaurante em Ipanema, extrapola uma atribuição pelo simples fato de que pode, e não de que precisa.

Pai e mãe que só pegam a criança no colo na hora de tirar fotografia. Ou de aparecer na frente dos amigos, na festinha da escola, sempre que importam as aparências. No resto do tempo, segura aqui que eu vou lá viver minha vida.

Mas e a vida do seu filho, queridos?

Alguém ajuda a lembrar estes pais de que, depois duma certa idade, a cabeça da criança já está formada em relação ao afeto, e o que você conseguiu fazer, boa, o que não fez, já era. É com esta base de estima que os filhos crescem e constroem seus relacionamentos de amizade e amor ao longo de toda a vida, sendo capazes de dar apenas aquilo que recebem.

Não que as babás, deusas, não sejam capazes de amar nossos filhos profundamente. Pelo contrário, elas dão conta dos nossos, dos delas, dos que mais chegarem, e muitas vezes, como na ciclovia e em tantos outros lugares que vemos todos os dias, com ainda mais intensidade do que os próprios pais das crianças.

O ponto é que criança precisa de amor e aconchego de quem ela sabe que está lá disponível, mas que não dá carinho porque não tá a fim, porque tá sem tempo, porque vai sujar a roupa, exigir tempo, cansar os braços. Criança precisa ver que é amada através de pequenos gestos do cotidiano, como ser alimentada, limpa, educada. Dá trabalho, mas é assim que deve ser.

Passou da hora de se criar duas coisas nessa vida: vergonha na cara, e o filho que vocês botaram no mundo.

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Para de se expor no Facebook, amiga

Não me importo em saber detalhes da infecção urinária recente, dos hábitos de higiene da família e colegas de quarto, nem mesmo de preferências sexuais referentes ao cara que pegou você esta semana. É tudo excesso de informação, claro, mas são coisas com as quais consigo lidar.

Mas essa sua mania de chorar publicamente os pés na bunda devo admitir que me dá nos nervos.

Pra quê tanta exposição, meu Deus? Aonde queremos chegar?

Já no primeiro post nas suas redes sociais ficou bem claro que o amor da sua vida foi-se embora. Juro que lamentei, mesmo sem conhecê-lo, justamente porque via que de alguma forma ele te fazia feliz. Só que aí, amiga, foi quando você começou a publicar 14 vezes por dia mensagens que você finge que são cifradas e que eu finjo que acredito, e que, poxa, primeiro que dão no saco, segundo que cadê seu amor próprio, deve ter ido embora junto com ele.

Não pode.

Óbvio que Facebook, Twitter e afins não são lugar só pra júbilo e contentamento. Eu mesma vivo me queixando da vida em posts fartos de autopiedade e sem um pingo de cautela. Mas o que nos diferencia aqui é que, enquanto eu tô lá fazendo piada comparando a lancheira podre do meu filho com a da filha da Bela Gil, culpando o fato de eu ser mãe solteira pela má alimentação do menino e ai ai ai coitada de mim mesma blábláblá, você está aí arregaçando o coração pra que todo mundo veja.

E, por mais que sua lista de amizades anuncie 700 indivíduos, é importante que você se lembre de que nem 10% deles são seus amigos de verdade. Cabem nos dedos duma mão os que vão passar a mão no telefone para oferecer ajuda ao ler sua última postagem dizendo que “não tá fácil ser eu neste momento”.

Os outros - que nem seu número têm, que dirá empatia pela sua dor – vão apenas dar um like e partir pro próximo assunto. No máximo, vão sentir dó. E, amiga, há poucas coisas mais deprimentes nesta vida do que ser motivo de pena de alguém.

As tentativas desesperadas de suprir o buraco aberto pelo fim do relacionamento viram, com suas diárias sugestões de pauta, tema de debate nas rodas de amigos próximos, que vão comentar entre si sobre o fracasso da sua união.

Se isso ainda conseguisse trazê-lo de volta, não é mesmo?

Mas não vai, e você já sabe disso. Assim como já sabe que, de bom mesmo, virar assunto na mesa de bar não traz é nada, exceto julgamentos que te deixam nua e pronta para ser queimada viva.

Lugar de curar dor de amor, minha flor, é no consultório da terapia. Ou em casa, refletindo e olhando pra dentro. Se for pra contar pros amigos, que seja numa conversa franca e particular, sem curtidas ou compartilhamentos.

Autoconhecimento é o único caminho para superar um coração partido, e isso não tem nada a ver com o número de joinhas e carinhas de triste que um post no Facebook consegue.

Campanha por mais atividades que tragam alegria e por menos nudez emocional nas redes sociais. Por mais deixa o tempo passar e por menos lutar contra o inevitável. É esta a fórmula mágica da cicatrização.

A fórmula que, quando você menos esperar, amiga, vai te fazer operar milagres. Tipo trocar aquela foto falseta do perfil, em que você aparece fingindo que superou, por um retrato lindo com um sorriso de verdade, daqueles sorrisos de quem é, e não de quem só parece ser.

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Hoje o cara da NET não vai subir

Volta e meia aparece lá em casa um homem diferente.

Semana passada, foi o homem do gás. Antes, veio o homem da luz de tesoura na mão pra me cortar os fios só porque atrasei oito meses de conta. Teve também o homem do Carrefour com as compras, o do Magazine Luiza e a lavadora, o do bazar com a cama usada.

O calendário mostra que amanhã tem mais visita agendada, mas, olha, tô achando melhor cancelar – parece que a NET não anda com a melhor reputação do mundo no momento, talvez seja o caso de falar com eles pelo telef... OH WAIT.

Em tempos normais, quando a privacidade ainda não fora extinta, o máximo que acontecia de ruim numa ligação pro telemarketing era a gente se estressar e desejar a morte do atendente. Hoje em dia, no entanto, o negócio evolui prum caminho mais dramático. O caminho do xaveco babaca versão deluxe.

Há quem diga que o sujeito da central da NET mandar mensagens pessoais no celular duma cliente depois do atendimento é algo inofensivo, que não há nada de mais. Ahã. Devem ser estas as mesmas criaturas que não enxergam problema em mandar um fiu fiu pra moça na rua, chamar de gostosa a menina no trem.

É tudo invasão.

Do mesmo modo que o fato das pernas suculentas duma mulher estarem expostas debaixo da saia não significa que ela se comporte como uma vadia, a simpatia da cliente com você, TELEMARKETER, tem apenas um significado: ela é um ser humano legal. Só.

Porque, se beleza nenhuma é convite para assédio, a cordialidade com o próximo também não é ingresso para nada.

O atrevimento do atendente da NET com a jornalista, que veio a público esta semana, é injustificado e asqueroso e, acima de tudo, olha que triste, é cada vez mais comum numa sociedade que entende que mulher é objeto coletivo. Que encara uma quebra de privacidade como algo legítimo, desde que não haja violência.

Afinal, que mal tem em passar uma cantada? Mulher não gosta de elogio?

Sim, mulher gosta. A gente só não curte ser acossada.

Há mil maneiras de se aproximar de alguém nesta vida. Sempre houve. Problema é que, em um mundo acostumado com cada vez mais facilidades para desvendar o outro, com aplicativos de cortar caminho do flerte direto pra cama, parece que a propriedade do indivíduo sumiu.

Se não se tem mais direito ao próprio corpo, o que dizer da privacidade de algo aparentemente tão besta quanto um número de celular?

O jeito agora é vedar tudo, do telefone às portas. Deixar o porteiro avisado de que nem adianta interfonar falando que o moço da NET vai subir – porque não, ele não vai subir coisa nenhuma.

Lá em casa, só sobe mesmo quem me demonstra respeito, seja como cliente, seja como indivíduo. Gente desaforada espera pra sempre lá embaixo, de ordem de serviço mofando na mão, e, humilhado, com o cabo enrolado entre as pernas.

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