É o amor, Zezé

Quando eu estava solteira e queria a todo custo voltar pro meu ex-namorado, era porque eu achava ele a cara de um ator famoso e aquilo me bastava como garantia de que tê-lo ao meu lado significava felicidade e iluminação. Mas, enfim, eu sou uma pessoa com probleminhas, vocês já sabem, então esse meu padrão de medidas e definições do amor verdadeiro realmente não deveria constar de forma alguma no histórico da humanidade.

Só que não é só o meu jeitinho de selecionar homens que é condenável na Terra. Tem outros. E, olha, arrisco dizer que tem outros ainda piores que o meu.

Veja esta moça que namora o Zezé di Camargo, filho de Francisco.

Vou pular a parte em que eu a julgaria por ter ficado nove anos sendo amante do cara porque esta não é uma coluna moralista e, assim, sigo direto para o assunto que de fato me interessa discutir e transformar em argumento que prove que eu não estou sozinha no que diz respeito a mulheres precisando de análise neste nosso Brasil.

Graciele, a agora oficial do cantor sertanejo, segurou a onda de ser a outra por quase uma década certamente sob a promessa de praxe que sempre seduz e paralisa moças que topam viver nesta situação por muito tempo, como ela viveu: um dia ele ia largar aquela chata da mulher, um dia ele ia assumi-la, um dia ele ia fazer e acontecer, e tudo seria muito diferente.

Até está sendo diferente, eu acho. Porque Zezé se separou de fato, largou geral, a ex ficou na lama, e o atual casal agora se acaba de postar foto feliz nas redes sociais, sambando na cara de tudo que ficou pra trás. Normal.

Mas eu acho que a esperança de Graciele era maior que isso. Eu acho que ela acreditava que a mudança de Zezé seria muito além do que o que está previsto no manual do cara que larga a esposa pra ficar com a amante. Eu acho que ela queria mais.

Porque eu duvido que alguém mofa por nove anos na expectativa da oficialização dum amor bandido achando que o cara vai, depois de modificar tudo, continuar sendo um galinhão de marca maior. Há sempre a ilusã..., digo, a fé de que Deus em pessoa desça dos céus e lapide aquela criatura até transformá-la em um ser fiel, devotado, confiável.

Mas Graciele, coitada, se ansiava por isso, melhor que anseie sentada. Porque o que Zezé menos sinaliza até agora é que virará um cara tranquilão. Hoje mesmo tá ele lá nas manchetes dizendo que queria ficar no camarote oba oba felizão com as panicats. Me respeita, Zezé. A moça te aguardou nove anos, mano, n-o-v-e, pra você zoá-la publicamente.

O que nos leva a seguir amando caras assim? Que não largarão a esbórnia por nada, que trocam um amor de verdade por uma piada zuêra sem limites? Que vão continuar usando sunga branca na foto no barco? E tá tão cheio de gente no mundo. E é tão coxuda e malhada essa Graci. Tão paciente, sobretudo.

Há quem vá argumentar que isso “é o amor”, como já esgoelou infinitas vezes o próprio Zezé. Mas eu fico com outro ensinamento mais poderoso da música brasileira, aquele da lírica banda de axé dos anos 90, e que profetiza a história do pau que nasce torto incapaz de se endireitar. Por isso, Graciele, se me permite um conselho, larga agora desse tchan, diz adeus àquele queixo com furinho e vai ser feliz nessa vida, mulher – você merece mais.

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Corta pra mim! Ordinária e Marcelo Rezende têm uma DR no R7

frame DR 2 Corta pra mim! Ordinária e Marcelo Rezende têm uma DR no R7

 

Olha quem foi o entrevistado da semana no Uma DR Ordinária: Marcelo Rezende! O apresentador do Cidade Alerta visitou o programa do Bonitinha, mas Ordinária - O Blog e contou, entre outras coisas, o que gosta em uma mulher, além de revelar por que seus três casamentos não deram certo. Se você acha que Rezende é sério daquele jeito o tempo todo, saiba que lá no estúdio ele ficou soltinho, soltinho. E, antes que você me pergunte, sim, ele cortou pra mim.

Coloca exclusivo, minha filha! Dá trabalho pra fazer! Assista AQUI

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Soterrada segurando minha pelúcia

Homem às vezes me dá preguiça. E por “às vezes” eu quero dizer o tempo todo.

Deve ser porque estou velha. Daí a gente, por conta de tudo que já viveu, vai ficando mais resistente aos truques capengas que os caras tentam aplicar nos seus números de mágica que têm conosco, e que eles chamam de relacionamentos. Uma ova. Tá mais para número de desaparecimento ou giro chinês de pratinho de louça, isso, sim.

Não tenho mais saco de ir prum bar paquerar. De conhecer alguém incrível duas mesas pro lado, de mandar meu número pelo garçom num guardanapo, de passar a madrugada toda na casa de alguém que nunca vi e que guarda tupperware com coisas bizarras e verdes dentro da geladeira.

Nunca tive - e agora tenho ainda menos - tolerância para conquistas virtuais.

Minha lista de solicitações de amizade é maior que minha lista de amigos aceitos – e a desproporção só tende a aumentar.

O último que me cutucou no Facebook virou meme, depois que dei um print e o viralizei.

Tinder?

Ah, me respeitem.

Inventem um aplicativo em que eu possa ver os livros que esse cara leu, o jeito que ele trata a mãe, e se ele é ou não assinante da Veja. É baseada nisso que eu escolho se quero ou não dar pra ele, e não na foto que ele escolheu pra se vender pro mercado – photoshopada, uma hora e meia em frente ao espelho, três filtros, roupa emprestada do amigo.

E, justamente por ser inflexível, exigente e incontentável, sei que morrerei sozinha. Talvez bem velha, amarga, careca, talvez amanhã mesmo, afogada em rancor e fel, caída no box e comida pela gata faminta sem quem lhe dê o Whyskas matinal.

Eu queria sabe o quê? Queria tipo aquilo lá daquela famosa foto linda, do casal soterrado que morreu abraçado, se protegendo do mundo. Exatamente isso: proteção.

Entender que aquele relacionamento, aquele que eu escolhi pra mim, é como uma bolha, um bunker, um consolo em meio a um mundo que está rapidamente virando algo abominável e arrepiante. Mas isso, convenhamos, não existe mais. Nicete Bruno e Paulo Goulart foram os últimos exemplares desta linhagem, e então a espécie se extinguiu.

Eu, Marcella Franco, estou fadada ao fracasso. À solidão e ao fracasso. E, ao contrário do casal de Bangladesh, serei condenada a morrer também soterrada, porém segurando minha coruja de pelúcia. Ou, no máximo, no máximo, abraçada ao meu vibrador rosa importado.

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Uma DR Ordinária – Episódio 1

DR 1 Uma DR Ordinária   Episódio 1

 

DR é que nem depilação - todo mundo faz, mas só a gente sabe o quanto dói. Aqui no Bonitinha, mas Ordinária, seu blog mais lindo e legal de toda a internet, a DR é sempre gostosa e produtiva. Ao menos é essa a ideia do programa que estreio nesta sexta, que leva o sugestivo nome de Uma DR Ordinária. Funciona assim: uma vez por semana vou ter uma DR com algum convidado especial, seja ele famoso, seja ele alguém que manja pra caramba do assunto. No primeiro, conversei com um especialista em inteligência emocional para pegar dicas poderosas e ensinar vocês, leitores, a só saírem vencedores da porra toda quando rolar uma DR na sua casa. Mentira. Eu até quero ajudar vocês, mas não dá pra "ganhar" uma DR, segundo ele explicou. Porque DR, pessoal, não é a mesma coisa que briga (TCHÃÃÃÃN, revelação).

Assiste nesse link AQUI EMBAIXO e vai anotando tudo. Juro que vai ajudar um monte
Um DR Ordinária - Veja dicas de como ter uma DR eficiente e menos traumática

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O amigo babaca

Um homem pode ser australiano, havaiano ou suíço, alto, baixo, gordo ou magro, ser advogado ou ser carpinteiro, cultivar barrigão ou tanquinho, enfim, não importa – ele sempre terá no seu rol de brodágens um amigo babaca.

É importante atentar para as peculiaridades desta sorte de comparsa.

Por exemplo, ao fato de que é impossível ter mais de um babaca na famiglia – é cargo de vaga única. Mesmo que o sujeito seja o Roberto Carlos com um milhão de amigos, apenas um, e só este, será eleito para ocupar o posto de personalidade imbecil do ano.

Não que a renovação do nomeado aconteça a cada ciclo de janeiro a dezembro, o sentido não é este. Até porque o amigo babaca será aquele para sempre, caso seu proprietário não se dê conta da má influência e rompa os laços definitivamente.

É algo raro na história da humanidade, aliás. Um amigo perceber a babaquice do amigo babaca e eliminá-lo de seus contatos.

Até porque, entre os inúmeros efeitos colaterais da testosterona, há uma certa medida de estupidez que todo homem carrega no sangue – nos babacas, no entanto, ela extrapola os valores de referência e, pãns, ele se transforma num ser diferente da maioria.

Por isso, por se saberem similares ainda que em níveis díspares, os rapazes têm dificuldade de entender que aquele amigo babaca é por demais babaca, e que o ideal seria não tê-lo mais por perto. Nem ele, nem suas atitudes babacas.

E são muitas, benza deus, as ações babacas.

O amigo babaca, por exemplo, crê ser aceitável cobiçar a mulher do próximo – e, para o babaca, quanto mais próximo, melhor. O que significa que (caso você ainda não tenha notado) o amigo babaca vai tentar comer sua namorada. Talvez já tenha até comido, só você não sabe.

Aliás, ele é daqueles, o babaca, que ignoram completamente o conceito do compromisso.

Não só para si próprios, óbvio, que babaca que é babaca não namora, muito menos casa. Mas são famosos, os amigos babacas, por sentir prazer em desfazer a convenção alheia. Se o telefone dum moço comprometido toca no sábado à noite convidando para uma balada de solteiros, pode checar o remetente: é o número do amigo babaca.

O babaca recomenda a infidelidade velada aos amigos casados. Estimula a mentira, justamente porque dela também pode arrancar uma casquinha.

Até por isso é que o amigo babaca é odiado em unanimidade pela raça feminina. Ninguém quer um babaca rondando sua freguesia.

Daí, quando acontece de ficar dividido entre seu apreço pela amada ou pelo amigo, no geral a confusão é tamanha que o rapaz toma a atitude que qualquer homem em seu lugar tomaria, honrando seu gênero, seus valores e inúmeras gerações de bravos machos em sua família: termina com a namorada.

Afinal, mulher tem em todo canto, né mesmo? E um bom amigo, ah, gente, um bom amigo não é assim tão fácil de se encontrar.

 

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Ele lavou uma louça: isso dá manchete

Na TV, a reportagem é sobre um moço, cuja mulher descobriu que estava com câncer, e que, ao invés de sair correndo, resolveu ficar ao seu lado e cuidar dela até sua morte.

Bonito, concordo. Ainda mais em tempos de escassez de mortais com coração no peito circulando pelo mundo. Não é a gente que anda postando direto que a humanidade acabou?

Só que o que me chama atenção na matéria, na verdade, não é a história do casal em si, da doação e da bondade, e sim o fato de que, de novo, trata-se de uma história em que só se trocam os nomes e os detalhes – o formato permanece o mesmo. Passam os anos, mudam os programas, é jornal, é documentário, e tudo sempre é muito igual.

Ou vai me dizer que já viu alguma pauta dessas em que o protagonista era uma mulher?

A devoção feminina não é notícia.

A sociedade está tão acostumada com o papel subserviente da mulher que, automaticamente, já espera de nós a irrestrita entrega e o total sacrifício. Sobre nosso gênero sempre a expectativa da benevolência.

Mulher que fica ao lado do marido que descobre que tem câncer não dá pauta.

Acontece todo dia. Não surpreende.

E com isso não quero dizer que são todos canalhas os homens, incapazes de gestos de altruísmo e amor. De jeito nenhum.

Fora o que passa na televisão e é tratado como milagre, conheço também, pessoalmente, casos de rapazes devotos a seus relacionamentos, e que deles não fogem por nada, nem sob o susto da revelação da pior das doenças do mundo. Amigos que, ainda que a companheira pegue ebola, se deitarão ao seu lado para assistir novela juntos e comer pipoca.

O que defendo, na verdade, é que somos criadas, há duzentas gerações, para a tolerância.

Até pouco tempo atrás, apenas mulheres viravam enfermeiras, e isso é significativo à beça. A humanidade pega nossa tendência atávica e natural aos cuidados, espreme com força, cozinha, salga a gosto e serve em forminhas simétricas e idênticas.

Daí vem a mídia e, conduzida obviamente pelo machismo que norteia quase tudo, publica apenas o que é fora do comum. Banalidade jamais, abaixo ao trivial.

Tudo isso que você, moça, faz pelo seu amado, é visto pelo mundo lá fora como nada mais que sua obrigação. Mas, se quem recebe auxílio é você, e ainda mais vindo de um homem, minha nossa, liguem as câmeras e filmem agora.

Uma mulher com câncer de mama perderá o seio, os cabelos, a auto-estima - se seu homem lhe deixa, há que se engolir a justificativa de que ele não aguentou a pressão e a revolução na aparência da companheira. Mas, se uma mulher abandona o marido que ficou broxa, ah, olha só, não te disse que era uma vagabunda?

Do homem, expecta-se o comportamento de homem. De nós, o que nos foi concedido e ensinado.

O que escapa ao previsível é pauta. Funciona mais ou menos assim: mulher doando fígado pro marido doente é notícia de rodapé, enquanto macho lavando uma louça ou te comprando um xarope dá manchete.

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Alguém vazou minhas fotos

Onde é que eu estava com a cabeça? No que pensava quando tirei aquelas fotos?

Maldita câmera no celular que facilita tudo. Porque, pelo que me lembro, a gente tinha mais preguiça de se fotografar fazendo coisas íntimas quando só tinha máquina fotográfica à disposição, dava o maior trabalho botar o cabo, plugar, passar, baixar, salvar. Afe.

Agora é bem mais simples, e acho que também por isso a humanidade se permite mais ceder à vaidade com frequência.

Naquela noite, além do celular à mão, eu pensei “por que não?”, já que, acho, todo mundo já se imaginou fazendo algo assim. Eternizar um momento tão atávico, tão natural, não há quem não faça, até onde sei.

Encarar na telinha a imagem registrada de um ato comum, mas importante pra mim.

Ver meu corpo em sua mais básica funcionalidade, aquela situação que nos iguala a todos, todos fazemos, todos sabemos, então por que ter vergonha?

É evidente que eu não queria que as fotos vazassem.

Que fossem parar na internet, que eu virasse motivo de chacota.

Vocês que dizem que, se tirei, foi porque queria que me vissem, ah, seus insensíveis, nem ao meu inimigo maior eu desejaria esta angústia da exposição. Os comentários que não cessam, a fama às avessas, ó, a crueldade humana. Parem, me deixem em paz.

Sou eu a bola da vez. Amanhã, será outrem.

Mas saibam que ainda dá tempo, antes que surjam os novos hackers e flagras de quem quer que seja, de botar a mão na consciência, criar empatia e entender o assunto não como um tabu, mas algo superado, resolvido, tratado. Tá todo mundo de boa.

E, não, não vou postar aqui as tais fotos. Não colaborarei com o circo de mim mesma. Tenho vergonha, óbvio. E fora que nem acho que eu fazendo cocô seja algo assim tão interessante para a humanidade.

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Mulher não esquece nada

Teve aquela vez do lençol xadrezinho, a gente tomou chá de cidreira depois, te servi numa xícara amarela, você se enrolou na toalha felpuda da Artex. Lembra? E a outra na viagem pro Rio, sabe?, eram três e quinze da tarde, tava passando Footloose na TV do ônibus da Cometa, a gente cruzava o quilômetro 114 da Dutra, bem em frente à lanchonete Arco Íris. Foi mó bom.

Queria tanto saber se homem guarda na memória detalhe de tudo como a gente guarda. E por “tudo” eu me refiro às situações mais diversas da vida, incluindo – e especialmente – as vezes em que fomos juntos para a cama. Vocês guardam?

Você aí, por exemplo, se lembra de mim? De como eu me mexo, do meu perfil, da tatuagem nas costas e se minha unha cresce quadrada ou redonda?

Pra gente, nada escapa, nem na hora nem nunca mais. Nós, mulheres, temos um RAM inesgotável onde moram as fichas completas de vocês e de todas as experiências que tivemos juntos, não importa quanto tempo passe nem quantos caras venham depois.

Eu lembro quanto você calça, se é canhoto ou destro, reconheço seu perfume e o toque da sua mão mesmo que te misturem num exército de homens. Estão guardados aqui o gosto do seu beijo, a velocidade, o índice de umidade e os efeitos que ele provoca em mim.

E olha que a última vez que a gente saiu tem bem uns 12 anos.

Confesso que também até que evoco, de vez em quando, o que de ruim ficou marcado. Defeitinhos, maus jeitos, câimbras, porque, né, quem nunca. Mas nada que arranhe sua reputação, fica tranquilo, aqui seu crédito dá e sobra.

E de mim, o que você guarda? Prometa que não se lembra muito da noite em que peguei no sono, exausta. Nem daquela em que eu, com sono e exausta, soltei um pum enquanto dormia. Ou também de quando eu estava com uns quilinhos a mais, uns pelinhos sobrando, uma preguiça abundando.

Lembre-se de mim com carinho, como eu me lembro de você. Sim?

Conserve-me num canto especial do passado, remeta meu nome às peripécias de qualquer uma das madrugadas que dividimos. Faça, sim, como eu, e mantenha frescas na memória a totalidade das minúcias do tempo que tivemos juntos – uma por uma.

Elas me são em você, e as suas, você em mim.

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O sortudo machão de São Roque

Eu sei que eu te enlouqueço. Que eu te boto puto três, quatro, vinte vezes por semana. Que meu ciúme te irrita, que meu choro te cansa. Eu sou um pesadelo, admito. E não somos o único casal com esta dinâmica, aliás, nem é de hoje que a dança mulher-azucrina-homem-homem-azucrina-mulher assucede. O eterno descompasso dos sexos e de seus quereres.

Mas eu sei, no entanto, que mesmo que eu te buzine infernalmente na orelha e encha seu saco até explodir, você nunca vai me encostar um dedo. Nem a mão. Ainda menos o cotovelo.

Uma cena igual àquela que todo mundo viu na TV, da moça caindo no chão depois dum golpe selvagem do animal da latinha, é impensável no nosso mundo, seu e meu, amor. E, na verdade, deveria ser condenável em qualquer universo onde houvesse seres humanos. Mas, ao que parece, não é assim que funciona.

Aplicar um golpe mortal na cara de alguém não é tão execrável quanto eu achava.

Se fosse, não teriam assistido estáticas à agonia da vítima as quase dez testemunhas presentes na hora da agressão. Se fosse mesmo, como eu pensei, um ato assim tão horrendo, alguém teria se mexido, acudido, tirado satisfação.

Mas não – a moça morrendo ganhou plateia, e, se não tivesse apagado inconsciente, poderia ver seu algoz ainda pregando sua doutrina torta para cima dum corpo inerte e desesperado por socorro.

Anderson Lúcio de Oliveira, o agressor sórdido de São Roque, é um sortudo. Ele nasceu num país machista, onde agredir mulheres é admissível e justificável. No mundo de Anderson, uma moça que lhe enche o saco tem mais é que levar porrada, e ai de quem o contrarie. Porque falou demais, que morra a tagarela chata, que lhe vaze o cérebro pelo nariz enquanto todos assistem.

O que todo mundo sabe, Anderson, é que, se a cotovelada tivesse sido num homem, a cena gravada teria sido diferente.

No lugar daquele momento em que você sai andando pro outro lado, praguejando de peito estufado, o roteiro mostraria as testemunhas em cima de você, talvez só te questionando, quem sabe até, oxalá, te ofendendo e entregando à polícia. A agredida seria prontamente atendida, e quem sabe seu destino não lhe reservasse as sequelas que ela terá pelo socorro demorado.

Mas São Roque não fica no mundo ideal. Pelo contrário, fica no Brasil, um dos lugares mais cruéis em que uma mulher pode morar. Onde violência verbal e física são rotina, escapando diariamente do noticiário apenas pelo azar de não haver por perto uma câmera de segurança.

E, mesmo errado, Anderson ainda contou com o apoio dos covardes que não o expuseram em seus depoimentos. Mesmo preso, contará com os benefícios de ser um sujeito influente e coronelão duma cidade interiorana. Anderson, o machão comerciante de São Roque, pode mesmo ser um cara de muita sorte. Mas ele não é HOMEM coisa nenhuma.

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Ele já quer casar comigo. Que fofo!

Em suas aventuras no Tinder, este supermercado de gente virtual, uma amiga conhece um descendente de Apolo, todo exibido e perfeito, pacote completo em promoção, pague 1 predicado leve 20.

As conversas evoluem simpáticas, animadas, e o primeiro encontro acontece. Estão lá, frente à frente, dois egressos de um aplicativo onde o que se busca, a princípio, é conhecer indivíduos, levá-los ao bar, à cama, à cama de novo, ao sofá, à cama mais uma vez, e, um dia, quem sabe, num futuro distante, à troca de status no Facebook, e de alianças no jantar romântico. Em outras palavras, duas criaturas ali dispostas a se comer sem muita expectativa de um relacionamento – se rolar, rolou.

Mas Apolo, o barriga-tanquinho de boné do Tinder, parece que se esqueceu dos termos de uso. Apolo quer mais que apenas uma noite quente de sexo e curtição. Apolo quer descolar uma esposa. Uma mucama. Uma jovem casta, bela e fiel.

“Já tava com saudades”, metralha Apolo, depois de esperar na mesa por quatro minutos e meio enquanto minha amiga levantou para fazer xixi. Apolo detesta ficar sozinho. Apolo merecia um Freud, um Lacan, uma Gestalt e um Jung tudo junto e misturado.

E o fenômeno de carência do deus sarado e grego não se manifesta apenas durante a micção alheia. O fortão também já está, enquanto sorve a PRIMEIRA garrafa de cerveja, fazendo planos para a posteridade: a moça não pulará carnaval em 2015, porque estará com ele; a moça não viajará com a família, porque estará com ele; a moça vai precisar trocar de emprego, eliminar o decote e esconder as pernas, porque estará com ele.

Mas Apolo – ele diz - está só brincando. Ah, Apolo, seu cômico. Piadista nato, ele, tão galhofeiro. Porque Apolo quer só mostrar, ao que esclarece, que está mega na vibe dum relacionamento sério com a menina que ACABOU de conhecer no Tinder, aquele aplicativo feito pra comer gente. Ah, tá.

Ele acha que está sendo doce, como acham todos os homens que decidem pular etapas. Ele acha que minha amiga, como qualquer outro exemplar do sexo oposto, se sentirá sortuda por ter alguém assim tão disposto a ficar com ela.

Daí eu pergunto, Apolo: e se fosse o contrário? E se quem estivesse falando em casamento no primeiro encontro fosse uma mulher?

Porque, quando a gente queima a largada e dá sinais de ansiar alucinada por um compromisso, vocês, homens, não acham fofo porra nenhuma. Vocês, ao contrário, nos chamam de desesperadas. De precipitadas. Louca tarada encalhada, e aí, o que cês fazem? SOMEM.

E vocês, acho, estão certos em sumir. Porque ninguém pode querer namorar alguém que conheceu há uma hora e meia. Alguém de quem não se sabe nada. Se vai roubar nosso rim e nos mergulhar numa banheira gelada, ou se vai nos dar respeito, amor e uma vida calma.

O compromisso, mocinho, vem do amor, que vem da familiaridade e da convivência.

Isso que você está sentindo agora não é paixão à primeira vista. Não mesmo. Isso se chama tesão. E você não encontrou a mulher da sua vida, não, não, você simplesmente está carente. E carência, Apolo, a gente trata na terapia, e não no aplicativo do celular.

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