Deixa de ser babaca, Adnet

Este poderia ser o texto mais curto da história deste blog, quiçá da história da literatura mundial, porque tudo que eu gostaria de dizer se resume a uma franca e reduzida frase:

Marcelo Adnet, como você é babaca.

Acabaria aqui, e seguiríamos a vida. Mas não, eu quero me explicar.

Jurei que não escreveria nada sobre o bafafá da sua traição, rapaz, sobre a exposição do seu caso na mídia, a reação da sua mulher ou qualquer coisa que envolvesse aquela noite em que você se atracou com a loira numa esquina do Leblon. Até por que, quem nunca? Pode até ser que eu mesma talvez já tenha me espremido na frente daquele mesmo HSBC depois duns chopinhos marotos no Jobi, e certamente - admito porque não sou hipócrita – já fiz muita merda nessa vida, magoando gente que amo e que me amava por demais.

Enfim. Eu ia ficar SUSSA, calada, na minha, sem meter a colher em nada e guiando meu comportamento com a cabeça na Dani, sua esposa, fazendo aquilo que eu gostaria que fizessem comigo num caso desses: me deixar em paz. Não repercutir. Não me procurar.

Mas, na boa, Adnet, você não tá deixando.

Você tá cagando tudo.

Sei que não tenho nada a ver com isso, e acho mesmo que cada casal sabe dos seus perrengues e do tanto que cada um lhes violenta. Mas, sério, meu, não dá pra ficar calada vendo você perder a mão num nível como esse.

Jura mesmo que você gravou um vídeo pra declarar o seu amor à sua mulher traída?

A propaganda do seu arrependimento é mais que patética, Adnet. Ela é cruel.

Escorregar no tomate todo mundo escorrega, acontece. Mas depois disso você vir a público para expor a maior vítima da sua traição infinitamente sem parar e cada vez mais não é um deslize – é, sim, uma OPÇÃO sua. E, convenhamos, você não podia ter escolhido pior.

Já achei indelicada sua postura de, no dia seguinte ao amasso com a moça, postar uma mensagem no Twitter falando em nome do casal, como se vocês fossem uma entidade e sua mulher não tivesse voz. Mas ok, a hora era de desespero, e você não queria perder sua companheira. Dá pra relevar.

Mas aí você foi entrando numa vibe de usar sua relevância pública – aquela mesma que você usou pra conquistar a loira na mesa do bar – para amenizar o erro que cometeu. Só nos últimos três dias, você virou notícia com o twitte, depois alegando ter sido forçado a trair, e agora com este vídeo embaraçoso, em que deseja um bom fim de 2014 para sua Dani Calabresa.

Toma tento, rapaz. Não é porque sua traição virou assunto coletivo que a solução dela também precisa ser compartilhada. Você pode até se achar engraçadão, mas não é o Jim Carrey, e não está no Show de Truman.

Desligue essa câmera. Saia da internet. Honre seu casamento, sua reputação, seu talento e, sobretudo, a sua mulher, lavando suas sujas roupas todas no tanque de casa. Quem sabe aí, Adnet, ao parar de divulgar uma suposta hombridade, você ainda tenha alguma chance de ser perdoado e seguir em frente.

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Ensaio sobre a (nossa) cegueira

Quando foi que a gente se acostumou com tão pouco?

Em que momento passamos a achar que qualquer coisa tá valendo, que é isso mesmo ou nada mais? Por que mesmo que embaralhamos o ditado e começamos a achar, dando as costas pro que é saudável, que estaremos melhor se mal acompanhadas e não sós?

Eu não sei onde a gente se perdeu. Nem por que isso aconteceu.

Mas sei que viramos todas umas loucas, nos transmutamos em mulheres que nunca fomos, e, vestidas do mais completo desespero, chegamos ao cúmulo de nos vender pelo preço mais barato da xepa – se custamos dois centavos, olha, juro que é muito.

Não se salva uma bonita da minha lista imensa de conhecidas no Facebook, ou das amigas realmente próximas, com quem converso de verdade sobre a vida. Estão todas – estamos? – viradas no Jiraia.

Que dó.

Que dó de mim, óbvio, e que dó de vocês todas, que, junto comigo, deram tilte e se ofuscaram de repente, não vendo nunca mais nem a si próprias nem aquilo que de fato vocês merecem. Ninguém merece bosta, tá ligada? Ninguém nasceu pra engolir lixo.

Então por que raios a gente acha que precisa aceitar o primeiro cara que aparece, no pânico de que ele seja o único? Por que consentir com o desastre anunciado, se o descompasso tá tão na cara pra quem queira enxergar?

Tem as que se sujeitam a traições em série. Tem as que abraçam relacionamentos malucos com medo de não acharem nunca mais ninguém que as queira. Tem quem tolere o desamor cuspido na cara e postado na rede. Tem quem apanhe, quem escute, quem rasteje. E tem quem se meta numa micro saia, num mega decote, num salto circense a fim de se fazer mercadoria numa balada, ter mais apelo que a moça do lado, também infeliz escovada apertada dolorida esburacada.

Porque todas temos nossos buracos no peito. Só diferimos na maneira com que tentamos preenchê-los.

Eu achava, honestamente, que ainda havia quem atravessasse essa jornada sem perder pedaços, com integridade e respeito próprio. Mas não.

Não sei quando foi, não sei como, só sei que aquele tempo que houve, quando a gente entendia que era grande e importante e merecia amor amor e só amor, sumiu e virou pó. E do pó ficamos cegas, e da cegueira enlouquecemos.

Que judiação. Como faz pra voltar atrás?

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Quero que você goste da sua ex

Veja bem, eu não estou pedindo que viajemos todos juntos, que sejamos inseparáveis, que ela tenha um lugar cativo à nossa mesa de jantar lá em casa, que a gente partilhe de um grupo no Whatsapp. Na verdade, nem queria que fosse algo assim tão íntimo e frequente com você sozinho, imagina me incluindo.

Mas, do fundo do coração, acho importante que vocês sejam, de verdade, amigos.

Afinal, a relação de um homem com suas ex-namoradas sempre serve como indicativo do tanto que ele poderá ou não ser gentil com você, a ATUAL.

Se eles ainda se falam, se conseguem se tratar com cordialidade, se ele faz questão de apresentar vocês duas, se é capaz duma convivência decente e sem travas. Tudo isso é importante – talvez só não tão importante quanto o fator determinante sobre um cara ser ou não babaca.

Sim, quero alguém que tenha contato com a ex, juro. Mas o que eu não quero, fato, nem de longe nem pintado de ouro, é um cara que mantenha a ex por perto pra qualquer emergência. É pra ser amigo, sacou? A-MI-GO, e só.

Não é pra ficar de tititi. Não é pra fazer gracinha. Não é pra marcar café escondido, pra ligar pro número dela toda vez que se emputecer com o meu, pra pedir arrego a ela quando se emburrar comigo.

Pecar pela falta é uma bosta, mas pecar pelo excesso é uma bosta gigante caindo em cima da cabeça de todo mundo.

Porque, nesta história, ninguém vai conseguir ser plenamente feliz. Eu, que vou enrugar de ciúme, ela, que vai ser tratada como estepe, e ele, que... não, pera, talvez ele seja feliz, mas de homem feliz porém canalha a gente já tá de saco cheio. Não?

Assim como sou amiga dos meus ex, com quem mantenho contato saudável, público, respeitoso e deveras dócil, eu espero do elemento ao meu lado a mesma coisa.

Até porque, como prova a história, é bem provável que um dia eu também ganhe o carimbo de ex na identidade, assumindo o lugar de passado na sua vida. Daí, querido, mais do que nunca, esperarei ansiosa pela conduta recomendável ao mundo dos adultos – a do respeito e admiração mútuos.

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É o amor, Zezé

Quando eu estava solteira e queria a todo custo voltar pro meu ex-namorado, era porque eu achava ele a cara de um ator famoso e aquilo me bastava como garantia de que tê-lo ao meu lado significava felicidade e iluminação. Mas, enfim, eu sou uma pessoa com probleminhas, vocês já sabem, então esse meu padrão de medidas e definições do amor verdadeiro realmente não deveria constar de forma alguma no histórico da humanidade.

Só que não é só o meu jeitinho de selecionar homens que é condenável na Terra. Tem outros. E, olha, arrisco dizer que tem outros ainda piores que o meu.

Veja esta moça que namora o Zezé di Camargo, filho de Francisco.

Vou pular a parte em que eu a julgaria por ter ficado nove anos sendo amante do cara porque esta não é uma coluna moralista e, assim, sigo direto para o assunto que de fato me interessa discutir e transformar em argumento que prove que eu não estou sozinha no que diz respeito a mulheres precisando de análise neste nosso Brasil.

Graciele, a agora oficial do cantor sertanejo, segurou a onda de ser a outra por quase uma década certamente sob a promessa de praxe que sempre seduz e paralisa moças que topam viver nesta situação por muito tempo, como ela viveu: um dia ele ia largar aquela chata da mulher, um dia ele ia assumi-la, um dia ele ia fazer e acontecer, e tudo seria muito diferente.

Até está sendo diferente, eu acho. Porque Zezé se separou de fato, largou geral, a ex ficou na lama, e o atual casal agora se acaba de postar foto feliz nas redes sociais, sambando na cara de tudo que ficou pra trás. Normal.

Mas eu acho que a esperança de Graciele era maior que isso. Eu acho que ela acreditava que a mudança de Zezé seria muito além do que o que está previsto no manual do cara que larga a esposa pra ficar com a amante. Eu acho que ela queria mais.

Porque eu duvido que alguém mofa por nove anos na expectativa da oficialização dum amor bandido achando que o cara vai, depois de modificar tudo, continuar sendo um galinhão de marca maior. Há sempre a ilusã..., digo, a fé de que Deus em pessoa desça dos céus e lapide aquela criatura até transformá-la em um ser fiel, devotado, confiável.

Mas Graciele, coitada, se ansiava por isso, melhor que anseie sentada. Porque o que Zezé menos sinaliza até agora é que virará um cara tranquilão. Hoje mesmo tá ele lá nas manchetes dizendo que queria ficar no camarote oba oba felizão com as panicats. Me respeita, Zezé. A moça te aguardou nove anos, mano, n-o-v-e, pra você zoá-la publicamente.

O que nos leva a seguir amando caras assim? Que não largarão a esbórnia por nada, que trocam um amor de verdade por uma piada zuêra sem limites? Que vão continuar usando sunga branca na foto no barco? E tá tão cheio de gente no mundo. E é tão coxuda e malhada essa Graci. Tão paciente, sobretudo.

Há quem vá argumentar que isso “é o amor”, como já esgoelou infinitas vezes o próprio Zezé. Mas eu fico com outro ensinamento mais poderoso da música brasileira, aquele da lírica banda de axé dos anos 90, e que profetiza a história do pau que nasce torto incapaz de se endireitar. Por isso, Graciele, se me permite um conselho, larga agora desse tchan, diz adeus àquele queixo com furinho e vai ser feliz nessa vida, mulher – você merece mais.

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Corta pra mim! Ordinária e Marcelo Rezende têm uma DR no R7

frame DR 2 Corta pra mim! Ordinária e Marcelo Rezende têm uma DR no R7

 

Olha quem foi o entrevistado da semana no Uma DR Ordinária: Marcelo Rezende! O apresentador do Cidade Alerta visitou o programa do Bonitinha, mas Ordinária - O Blog e contou, entre outras coisas, o que gosta em uma mulher, além de revelar por que seus três casamentos não deram certo. Se você acha que Rezende é sério daquele jeito o tempo todo, saiba que lá no estúdio ele ficou soltinho, soltinho. E, antes que você me pergunte, sim, ele cortou pra mim.

Coloca exclusivo, minha filha! Dá trabalho pra fazer! Assista AQUI

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Soterrada segurando minha pelúcia

Homem às vezes me dá preguiça. E por “às vezes” eu quero dizer o tempo todo.

Deve ser porque estou velha. Daí a gente, por conta de tudo que já viveu, vai ficando mais resistente aos truques capengas que os caras tentam aplicar nos seus números de mágica que têm conosco, e que eles chamam de relacionamentos. Uma ova. Tá mais para número de desaparecimento ou giro chinês de pratinho de louça, isso, sim.

Não tenho mais saco de ir prum bar paquerar. De conhecer alguém incrível duas mesas pro lado, de mandar meu número pelo garçom num guardanapo, de passar a madrugada toda na casa de alguém que nunca vi e que guarda tupperware com coisas bizarras e verdes dentro da geladeira.

Nunca tive - e agora tenho ainda menos - tolerância para conquistas virtuais.

Minha lista de solicitações de amizade é maior que minha lista de amigos aceitos – e a desproporção só tende a aumentar.

O último que me cutucou no Facebook virou meme, depois que dei um print e o viralizei.

Tinder?

Ah, me respeitem.

Inventem um aplicativo em que eu possa ver os livros que esse cara leu, o jeito que ele trata a mãe, e se ele é ou não assinante da Veja. É baseada nisso que eu escolho se quero ou não dar pra ele, e não na foto que ele escolheu pra se vender pro mercado – photoshopada, uma hora e meia em frente ao espelho, três filtros, roupa emprestada do amigo.

E, justamente por ser inflexível, exigente e incontentável, sei que morrerei sozinha. Talvez bem velha, amarga, careca, talvez amanhã mesmo, afogada em rancor e fel, caída no box e comida pela gata faminta sem quem lhe dê o Whyskas matinal.

Eu queria sabe o quê? Queria tipo aquilo lá daquela famosa foto linda, do casal soterrado que morreu abraçado, se protegendo do mundo. Exatamente isso: proteção.

Entender que aquele relacionamento, aquele que eu escolhi pra mim, é como uma bolha, um bunker, um consolo em meio a um mundo que está rapidamente virando algo abominável e arrepiante. Mas isso, convenhamos, não existe mais. Nicete Bruno e Paulo Goulart foram os últimos exemplares desta linhagem, e então a espécie se extinguiu.

Eu, Marcella Franco, estou fadada ao fracasso. À solidão e ao fracasso. E, ao contrário do casal de Bangladesh, serei condenada a morrer também soterrada, porém segurando minha coruja de pelúcia. Ou, no máximo, no máximo, abraçada ao meu vibrador rosa importado.

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Uma DR Ordinária – Episódio 1

DR 1 Uma DR Ordinária   Episódio 1

 

DR é que nem depilação - todo mundo faz, mas só a gente sabe o quanto dói. Aqui no Bonitinha, mas Ordinária, seu blog mais lindo e legal de toda a internet, a DR é sempre gostosa e produtiva. Ao menos é essa a ideia do programa que estreio nesta sexta, que leva o sugestivo nome de Uma DR Ordinária. Funciona assim: uma vez por semana vou ter uma DR com algum convidado especial, seja ele famoso, seja ele alguém que manja pra caramba do assunto. No primeiro, conversei com um especialista em inteligência emocional para pegar dicas poderosas e ensinar vocês, leitores, a só saírem vencedores da porra toda quando rolar uma DR na sua casa. Mentira. Eu até quero ajudar vocês, mas não dá pra "ganhar" uma DR, segundo ele explicou. Porque DR, pessoal, não é a mesma coisa que briga (TCHÃÃÃÃN, revelação).

Assiste nesse link AQUI EMBAIXO e vai anotando tudo. Juro que vai ajudar um monte
Um DR Ordinária - Veja dicas de como ter uma DR eficiente e menos traumática

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O amigo babaca

Um homem pode ser australiano, havaiano ou suíço, alto, baixo, gordo ou magro, ser advogado ou ser carpinteiro, cultivar barrigão ou tanquinho, enfim, não importa – ele sempre terá no seu rol de brodágens um amigo babaca.

É importante atentar para as peculiaridades desta sorte de comparsa.

Por exemplo, ao fato de que é impossível ter mais de um babaca na famiglia – é cargo de vaga única. Mesmo que o sujeito seja o Roberto Carlos com um milhão de amigos, apenas um, e só este, será eleito para ocupar o posto de personalidade imbecil do ano.

Não que a renovação do nomeado aconteça a cada ciclo de janeiro a dezembro, o sentido não é este. Até porque o amigo babaca será aquele para sempre, caso seu proprietário não se dê conta da má influência e rompa os laços definitivamente.

É algo raro na história da humanidade, aliás. Um amigo perceber a babaquice do amigo babaca e eliminá-lo de seus contatos.

Até porque, entre os inúmeros efeitos colaterais da testosterona, há uma certa medida de estupidez que todo homem carrega no sangue – nos babacas, no entanto, ela extrapola os valores de referência e, pãns, ele se transforma num ser diferente da maioria.

Por isso, por se saberem similares ainda que em níveis díspares, os rapazes têm dificuldade de entender que aquele amigo babaca é por demais babaca, e que o ideal seria não tê-lo mais por perto. Nem ele, nem suas atitudes babacas.

E são muitas, benza deus, as ações babacas.

O amigo babaca, por exemplo, crê ser aceitável cobiçar a mulher do próximo – e, para o babaca, quanto mais próximo, melhor. O que significa que (caso você ainda não tenha notado) o amigo babaca vai tentar comer sua namorada. Talvez já tenha até comido, só você não sabe.

Aliás, ele é daqueles, o babaca, que ignoram completamente o conceito do compromisso.

Não só para si próprios, óbvio, que babaca que é babaca não namora, muito menos casa. Mas são famosos, os amigos babacas, por sentir prazer em desfazer a convenção alheia. Se o telefone dum moço comprometido toca no sábado à noite convidando para uma balada de solteiros, pode checar o remetente: é o número do amigo babaca.

O babaca recomenda a infidelidade velada aos amigos casados. Estimula a mentira, justamente porque dela também pode arrancar uma casquinha.

Até por isso é que o amigo babaca é odiado em unanimidade pela raça feminina. Ninguém quer um babaca rondando sua freguesia.

Daí, quando acontece de ficar dividido entre seu apreço pela amada ou pelo amigo, no geral a confusão é tamanha que o rapaz toma a atitude que qualquer homem em seu lugar tomaria, honrando seu gênero, seus valores e inúmeras gerações de bravos machos em sua família: termina com a namorada.

Afinal, mulher tem em todo canto, né mesmo? E um bom amigo, ah, gente, um bom amigo não é assim tão fácil de se encontrar.

 

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Ele lavou uma louça: isso dá manchete

Na TV, a reportagem é sobre um moço, cuja mulher descobriu que estava com câncer, e que, ao invés de sair correndo, resolveu ficar ao seu lado e cuidar dela até sua morte.

Bonito, concordo. Ainda mais em tempos de escassez de mortais com coração no peito circulando pelo mundo. Não é a gente que anda postando direto que a humanidade acabou?

Só que o que me chama atenção na matéria, na verdade, não é a história do casal em si, da doação e da bondade, e sim o fato de que, de novo, trata-se de uma história em que só se trocam os nomes e os detalhes – o formato permanece o mesmo. Passam os anos, mudam os programas, é jornal, é documentário, e tudo sempre é muito igual.

Ou vai me dizer que já viu alguma pauta dessas em que o protagonista era uma mulher?

A devoção feminina não é notícia.

A sociedade está tão acostumada com o papel subserviente da mulher que, automaticamente, já espera de nós a irrestrita entrega e o total sacrifício. Sobre nosso gênero sempre a expectativa da benevolência.

Mulher que fica ao lado do marido que descobre que tem câncer não dá pauta.

Acontece todo dia. Não surpreende.

E com isso não quero dizer que são todos canalhas os homens, incapazes de gestos de altruísmo e amor. De jeito nenhum.

Fora o que passa na televisão e é tratado como milagre, conheço também, pessoalmente, casos de rapazes devotos a seus relacionamentos, e que deles não fogem por nada, nem sob o susto da revelação da pior das doenças do mundo. Amigos que, ainda que a companheira pegue ebola, se deitarão ao seu lado para assistir novela juntos e comer pipoca.

O que defendo, na verdade, é que somos criadas, há duzentas gerações, para a tolerância.

Até pouco tempo atrás, apenas mulheres viravam enfermeiras, e isso é significativo à beça. A humanidade pega nossa tendência atávica e natural aos cuidados, espreme com força, cozinha, salga a gosto e serve em forminhas simétricas e idênticas.

Daí vem a mídia e, conduzida obviamente pelo machismo que norteia quase tudo, publica apenas o que é fora do comum. Banalidade jamais, abaixo ao trivial.

Tudo isso que você, moça, faz pelo seu amado, é visto pelo mundo lá fora como nada mais que sua obrigação. Mas, se quem recebe auxílio é você, e ainda mais vindo de um homem, minha nossa, liguem as câmeras e filmem agora.

Uma mulher com câncer de mama perderá o seio, os cabelos, a auto-estima - se seu homem lhe deixa, há que se engolir a justificativa de que ele não aguentou a pressão e a revolução na aparência da companheira. Mas, se uma mulher abandona o marido que ficou broxa, ah, olha só, não te disse que era uma vagabunda?

Do homem, expecta-se o comportamento de homem. De nós, o que nos foi concedido e ensinado.

O que escapa ao previsível é pauta. Funciona mais ou menos assim: mulher doando fígado pro marido doente é notícia de rodapé, enquanto macho lavando uma louça ou te comprando um xarope dá manchete.

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Alguém vazou minhas fotos

Onde é que eu estava com a cabeça? No que pensava quando tirei aquelas fotos?

Maldita câmera no celular que facilita tudo. Porque, pelo que me lembro, a gente tinha mais preguiça de se fotografar fazendo coisas íntimas quando só tinha máquina fotográfica à disposição, dava o maior trabalho botar o cabo, plugar, passar, baixar, salvar. Afe.

Agora é bem mais simples, e acho que também por isso a humanidade se permite mais ceder à vaidade com frequência.

Naquela noite, além do celular à mão, eu pensei “por que não?”, já que, acho, todo mundo já se imaginou fazendo algo assim. Eternizar um momento tão atávico, tão natural, não há quem não faça, até onde sei.

Encarar na telinha a imagem registrada de um ato comum, mas importante pra mim.

Ver meu corpo em sua mais básica funcionalidade, aquela situação que nos iguala a todos, todos fazemos, todos sabemos, então por que ter vergonha?

É evidente que eu não queria que as fotos vazassem.

Que fossem parar na internet, que eu virasse motivo de chacota.

Vocês que dizem que, se tirei, foi porque queria que me vissem, ah, seus insensíveis, nem ao meu inimigo maior eu desejaria esta angústia da exposição. Os comentários que não cessam, a fama às avessas, ó, a crueldade humana. Parem, me deixem em paz.

Sou eu a bola da vez. Amanhã, será outrem.

Mas saibam que ainda dá tempo, antes que surjam os novos hackers e flagras de quem quer que seja, de botar a mão na consciência, criar empatia e entender o assunto não como um tabu, mas algo superado, resolvido, tratado. Tá todo mundo de boa.

E, não, não vou postar aqui as tais fotos. Não colaborarei com o circo de mim mesma. Tenho vergonha, óbvio. E fora que nem acho que eu fazendo cocô seja algo assim tão interessante para a humanidade.

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