Case com um feio e seja feliz

Não olhe agora, mas o bonitão da empresa vem vindo.

Disfarça, que ele vai passar por você jájázinho. Tá vindo pegar água no bebedouro. Benza Deus, que eu queria ser aquela garrafinha. Sabe de quem tô falando, né? O senhor perfeição do RH, o boy magia de bração e barba, o gato mais gato entre todos os gatos. Aquele de azul, calça cáqui, aquele moço por quem você NÃO VAI se apaixonar.

Isso mesmo, não vai.

Porque você é uma moça que curte meus conselhos, que confia no meu tino, e que vai me escutar, senta aqui com a tia, enquanto eu digo uma coisa que vai doer mas que é pro seu próprio bem, filhota, não chora: homem bonito é só pra olhar.

No máximo, no máximo, pra encostar, pegar, apalpar, dobrar, esticar e dar três lambidas. Mas gostar, putz, não. Sorry.

Quer ser feliz? Ame um feio.

É no feio, aquele ser de proporções mal calculadas, que mora o mapa para a paixão interminável. Em seus braços finos e por demais cabeludos, sempre haverá abrigo e proteção. No quadril ossudo, um colo quentinho eternamente vago e à disposição.

Ao ser amado e acolhido, o feio se transforma em pura gratidão.

Ele retribui, ao passo que os magias, esta espécie acostumada com a admiração perene, seguem sua esteticamente favorecida vida largando amores e corações partidos pelo caminho.

E você, moça esperta, não é uma largada na vida, teve pai e mãe, comeu farinha láctea e papinha Nestlé.

Você, amadinha, não achou seu coraçãozinho no lixo para dá-lo ao primeiro galã que passar. Sossega a periquita. Me ouve.

Gente linda não leva a nada. Gente linda dá trabalho, azia e bolinha de herpes. Gente linda causa insônia, estresse, arritmia e caganeira. Dá nó no trânsito, faz tsunami e aumenta a taxa Selic.

Amar um belo é padecer no Olimpo.

Enquanto que o feio... olhe pra ele, qualquer um, há dezenas cercando você. O feio é luz.

O que lhe falta em harmonia lhe sobra em destreza. São os melhores amantes, os feios, porque aguçam os sentidos como forma de sobrevivência. Pela falta de elementos exteriores admiráveis, lustram e treinam coração, estômago e pulmões para a arte do amor.

Duram horas na cama, vivem saudáveis por séculos.

Sério, olha pro feio. Pode ser o Máicon sentadinho aí do lado.

Ói que bonitinho, que simpático.

E ele tá indo pegar água no bebedouro, menina, olha que coincidência! Até a garrafinha dele é jeitosinha.

Faz assim: aproveita o feriadão pra dar uma chance pro Máicon. Dá, avalia, e depois me conta. Eu estarei viajando com o senhor perfeição do RH, mas, na volta, vou querer saber tudinho, te prometo.

Posts Relacionados

Tira a mão do computador dele AGORA

Calada noite preta, môzão foi pra cama mais cedo porque amanhã levanta com as galinhas. Você ficou. Só, abandonada, entediada, de saco cheio da programação da TV, largada na sala vazia, iluminada apenas pela tela do computador.

Pera. Eu falei computador? Ele largou o computador ligado?

Sim, só que pior: ele largou o computador LOGADO.

Esse é o momento, amiga

O momento de saber, de uma vez por todas, se você é uma mulher ou um rato. Se arrega ou se mantém a compostura. Se segura a onda ou se não aguenta.

Em resumo, essa é a hora de ver se esse relacionamento tem alguma importância na sua vida, ou se dane-se eu bem queria mesmo era ficar solteira.

Porque é isso que vai acontecer com você.

Se você se sentar em frente àquele laptop, se der mesmo seguimento à fagulha maligna de desejo de espionar o que seu amado faz no obscuro mundo da internet, putz, é triste te dizer, mas você vai perdê-lo para sempre.

Pode até ser que ele não descubra exatamente agora que você cutucou a privacidade dele. Que você, por horas, xeretou o inbox do Facebook, que leu todos os emails desde 2007, que abriu download por download dando play em cada vídeo.

Mas, mais cedo ou mais tarde, ele vai saber. E, amada, vai dar merda. Muita merda.

Porque você não vai conseguir se conter. Porque vai encanar com as tags do site pornô que ele visita todo dia, porque vai surtar com as buscas bizarras do Google, com as conversinhas fiadas no gtalk, os likes do Instagram.

Porque vai finalmente se dar conta de que, por mais santo que seja seu belo cônjuge, ele também faz besteirinhas por aí. Todo mundo faz. VOCÊ faz.

Daí que sua cara emburrada vai te delatar.

Os dias de silêncio que se seguirão à investigação secreta vão incriminar você, bem como todas as vezes em que você responder “não foi nada, me deixa”. Seu bico ficará evidente, e sua greve de sexo não terá outra explicação senão a que ele mais temia: minha mina leu minhas coisas, mano!

A relação nunca mais será a mesma, ninguém vai confiar em ninguém, xi, não tenho nem como detalhar o inferno que se seguirá.

Por isso encarecidamente peço: tira a mão dessa porra. AGORA.

Sim, eu sei que a vontade é grande, e que parece bem que Deus em pessoa e divindade desceu até sua casa e armou o cenário para que você finalmente flagrasse a traição homérica do seu marido, a suruba que ele armou semana passada, e a amante com quem ele fez três filhos e que mora numa pensão paga por ele no Grajaú.

Pare, amiga, simplesmente pare.

Se é isso que você pensa do mancebo, deixe-o agora. Pegue a bolsa, vire as costas e vá-se embora. Quem ama confia e, principalmente, quem ama não futuca.

Pensa assim: tem fogo no computador. Tem lava. Tá queimando. Solta desse mouse que ele é radiotivo. E repita comigo: não eu não quero ler suas coisas, não eu não quero ler suas coisas, não eu não quero ler suas coisas, não eu não quero ler suas coisas.

Sai, capeta, xô, tentação.

E pra você, moça do FEMEN que tá quase mandando um comentário dizendo que sou machista, sugiro reler o texto invertendo a situação desde o início, mandando a namorada primeiro pra cama e deixando o namorado só, abandonado, entediado, de saco cheio da programação da TV, largado na sala vazia, iluminado apenas pela tela do computador.

Pera. Eu falei computador? ELA largou o computador ligado?

E por aí vai.

Posts Relacionados

Mãe é tudo igual

Acorda. Levanta. Tá tarde, já, a gente vai se atrasar. Bom dia. Fez xixi? Deu descarga? Baixou a tampa da privada? Não enrola. Se veste. Se calça. Come. Cuidado com o mingau na blusa. Leva o prato pra cozinha. Coloca na pia. Coloca água. Vai escovar os dentes. Escova direito. Tô de olho. Agora a língua. Faz um bochecho. Bochecho de novo. Lava a escova. Enxuga a cara. Penteia o cabelo. Não exagera no perfume. Pegou o brinquedo? Pegou a lancheira? Bota dentro da mochila. Agora bota a mochila nas costas. Amarra o tênis. Cuidado na escada. Segura no corrimão. Olha pra frente. Não macaqueia. Tira a mão do piru. Vai entrando, vai sentando, vai colocando o cinto. Desce, anda, vem. Se comporta. Almoça direito. Come o lanchinho. Presta atenção na aula. Obedece à professora. Como foi a aula? Vem, rápido, tem gente com pressa. Vai entrando, vai sentando, vai colocando o cinto. Tira o dedo do nariz. Desce. Bate a porta pra mim. Segura sua mochila. Me ajuda. Leva essa sacola. Sobe na minha frente. Cuidado na escada. Segura no corrimão. Olha pra frente. Não macaqueia. Vai lavar a mão. Mais três colheradas. Come, anda. Como não sabe onde tá? Procura direito. Se eu tiver que ir aí, menino. Cadê a lição? Pega o estojo. Guarda o estojo. Tira o uniforme. Bota no cesto. Lava direito esse cabelo. Tira o sabão do rosto. Esfrega bem esse pé. Escova os dentes escova direito tô de olho agora a língua faz um bochecho bochecho de novo lava a escova. Toma, veste. Deita. Se cobre. Sossega. Só mais um desenho e daí chega. Chega. Chega perto de mim. Deixa eu te dar um abraço, cheirar sua cabeça, me dá a mãozinha, meu pequeno, meu mocinho. Você me ama? Promete?

Posts Relacionados

A bunda do José Wilker

Se você é bem novinha, vai se lembrar do Zé Wilker pelas coisas mais recentes, mas gente mais antiga tipo eu, na faixa dos 30 pra cima, sabe que Zé foi bem mais que um ator competente, uma voz marcante e um terno bizarro na transmissão do Oscar - ele era a bunda mais famosa e delícia do Brasil.

A adaptação do romance "Dona Flor e Seus Dois Maridos" foi a maior bilheteria do cinema nacional por 34 anos, até arregar e pedir pra sair por causa dos gritos do Capitão Nascimento em "Tropa de Elite". Sim, sou doida naquele Wagner Moura e toda aquela brabeza, mas é que, poxa, nunca houve bunda como a do Zé.

Bronzeada, torneada, nem pelada nem peluda, bonita, desfilante, atrevida.

Por causa dela, desenvolvi um tesão eterno pelo Zé Wilker.

Ele envelheceu, a bunda sumiu, nunca mais foi vista nas rodas sociais.

Escondeu-se, a bunda, debaixo dumas calças de linho toscas, envergonhou-se acuada detrás da pança que Zé (como escapar da idade?), judiação, viu nascer, danando aquele corpo dourado que tanto me alegrou nas noites solitárias da adolescência sem internet porém com uma abençoada e safada TV aberta.

Mas, mesmo assim, pagando meia, quase careca, inchado e cada vez mais chato, eu achava o Zé o máximo.

Daí ele agora pega e morre de novo.

Que pena, Zé. Você não estava bêbado no carnaval, não vestia a fantasia de baiana e, o pior do pior, dessa vez é de verdade e não tem graça. Especialmente porque com isso, olha que merda, caem de vez meus planos de inventar um pretexto prum dia te entrevistar e, sorrateira, roubar um beliscãozinho na tua bunda.

O único consolo, pra mim ao menos, é pensar que talvez ele volte pra me confundir, feito no filme antigo.

Com o invólucro de antigamente, no corpão igual ao do filme (a fantasia é minha, me deixa), vou imaginar que ele se deita na minha cama, no meio da madrugada, e me obriga a me dividir entre dois homens, um bonzinho e outro menos valioso que uma bala de hortelã chupada.

Acho até que veio do Zé e do seu Vadinho minha preferência pelos canalhas. Que puta insight, nunca tinha pensado sobre isso. Que veio dele meu gosto por quem não presta, mas sabe como enlouquecer uma Dona Flor, com marido, sem marido, não importa.

Alô, doutor Amadeu? (tô ligando pro meu analista, só um segundinho)

Descobri, Amadeu, a razão de todos os meus problemas. Anota aí: a culpa é toda da bunda do José Wilker.

Posts Relacionados

Um dia de legging

 

Antes de começar, preciso que você olhe no meu olho. Não na minha virilha, mas no-meu-OLHO. Aqui em cima, colega. Mais um pouquinho, mais. Isso, melhor.

Este, aliás, é um belo resumo do dia de hoje, em que resolvi vestir uma legging para trabalhar, levar e buscar filho na escola, ir ao mercado, jantar com a família: quando se está vestindo uma legging, é como se sua cara ficasse invisível.

Você vira uma xoxota ambulante. Seus olhos, sua boca e sua alma se transferem para a região pélvica, e não há meios de fazer com que te mirem em outra parte do corpo que não aquelas cobertas pela legging.

Porque, né, a legging COBRE o corpo. Igual à calça jeans da minha amiga de bancada, igual à saia da moça na fila do restaurante da firma, estou COBERTA por roupas. Não vim pelada. Mas, sério, não é o que parece.

Ainda estamos no meio da tarde, e até agora já fui comida por uns 37 homens.

Eles chegam, dão oi pras minhas coxas, e então seguem batendo papo com meu quadril. Se despedem com dois beijinhos de bochecha, mas sem tirar a vista da legging preta de vinil.

E olha que nem gostosa eu sou. As fotos estão aí pra comprovar.

Sou magrela, ossuda, peso 55 kg. Não tenho bunda, me sobra culote, e a celulite quase que aparece por baixo do tecido. Enfim, não sou nenhuma assistente de palco, e mesmo assim virei atração de circo na rua.

Na verdade, eu hoje queria ter vindo de pijama. Mas como não pode, senão me demitem, pensei em qual seria a roupa mais confortável do meu armário, e assim separei a legging. Antes tivesse vindo com uma calça velha de moletom.

É o porteiro, é o manobrista no estacionamento, é o executivo atravessando a rua, é o segurança da escola, é o engravatado na fila do quilo. Todo mundo olhando como se eu estivesse cagada. De legging & cagada.

Daí a gente pensa, né, como é que essa gente toda faz quando vai à praia? Fica de pau duro babando tarado enquanto come milho cozido e seca a mulherada? Porque, mano, se uma calça colada desperta este ogro que mora em você, qual o efeito que tem uma bunda de fio dental sobre o seu cérebro?

Eram umas onze da manhã quando resolvi tomar a primeira providência.

Já que não dava pra voltar pra casa – JURO que desejei poder trocar de roupa -, me refugiei no banheiro do trabalho e, de olho no espelho, baixei a calça o máximo que dava. Com pata de camelo é que eu não arrisco ficar.

Com o cavalo da legging quase no tornozelo, virei de costas e puxei a blusa tentando cobrir o pedaço de bunda (que bunda?) que ainda aparecia. Que situação. E se eu botar uma folha sulfite entre a calcinha e a calça, será que marca menos? Alguém tem um moletom pra eu amarrar na cintura?

Talvez eu deva passar o dia todo sentada. Cadê mesmo aquele cardápio do delivery do japonês?

Minha garrafinha de água está vazia, mas nem fodendo que eu vou ao bebedouro. A menos que eu consiga acioná-lo de costas, será? Oi, querido, xuxu, psiuzinho, enche minha garrafa pra mim?

Três da tarde, e aqui estou eu, refém da cadeira giratória. Que Deus seja generoso e não me dê vontade de fazer xixi. Sorte, muita muita muita sorte essa bolsa que escolhi pra hoje, com uma alça carteiro que vai dar certinho pra cobrir as partes enquanto caminho e termino de resolver os afazeres do dia.

Este é um dia de legging, amiguinhos, um dia de muita confiança, descontração e movimento. Um dia em que você acha incrível ter nascido fêmea, agradece à sociedade e corre feliz no meio da rua. Um dia para dar um google em “burcas”, só pra ter uma noção de quanto custaria renovar todo o guarda-roupa. Um dia pra sentir vergonha do próprio corpo, das suas escolhas e da sua liberdade.

Este é um dia de legging, leitora querida. Um dia I-GUAL-ZI-NHO a todos os outros na vida da gente.

Posts Relacionados

A língua do amor

Ai, amor, será que você podia, por favorzinho, fazer um pescoção comigo? Não, não bota calhau aqui, bota outra coisa. Cuidado pra não dar barriga, hein?

Isso é trepar com um jornalista.

Ou, ao menos, isso SERIA trepar com um jornalista, se vivêssemos num mundo onde as pessoas levassem trabalho pra cama. Se, na hora do amorzinho do tapa na bunda e da selvageria íntima, a gente começasse a usar a linguagem típica da nossa profissão, falando dum jeito bizarro e cheio de jargão.

Tipo conhecer o doutor Piovesan, advogado criminalista, na fila da balada, aceitar que ele me pague um drinque, beijar seu cangote cheiroso e levá-lo pra minha casa. Tirar aquela camisa xadrez da TNG, a calça jeans da Zara, e perguntar a ele, com carinho, se ele pode me comer.

- Elucide seu questionamento, por gentileza, para que fique completamente dentro de meu entendimento.

Piovesan tá confuso, ou tá se fazendo de difícil. Lepo lepo, manja, Piovas?

- Há embargos que pedem esclarecimentos, caríssima, para evitar que sejamos expostos a situações obscuras. Mas cabe recurso.

Dar prum médico também não seria muito mais simples que isso.

Primeiro que ficaria complicado mentir dizendo que aquele barulho embaraçoso da minha barriga é de fome, e não um pum preso – ele SABE, ele ESTUDOU pra SABER.

Segundo que, por mais gato alto gostoso e moreno de cavanhaque que ele seja, com mãos destras e firmes, ele poderia apresentar, de uma hora pra outra, a prescrição matadora de clima.

Erga o flanco, gostosa. Agora apoie a lombar nesta almofada previamente esterilizada com álcool 70%. Isso. Incline a pelve. Assim. Que bela linha lateral do esterno você tem, que generosas mamas. Vou beijar do seu ilíaco até o hipogástrico. Abra o orifício. Respire e solte pela boca.

O ator, por sua vez, que já chegaria pelado à minha casa (atores ANDAM pelados na vida), diria do outro lado da linha do meu interfone: “Subir ou não subir, eis a questão”. De certo choraria bem no esquema Fátima Toledo quando gozasse, e aguardaria os aplausos no final.

Mas acho que o mais difícil de lidar neste mundo onde as pessoas levam os trabalhos para cama é o músico.

Além de solar por vinte minutos, o que é uma especialidade da raça, ele se atrasaria por horas antes de subir ao palco da minha queensize, e ainda ficaria puto quando eu pedisse bis. Estrelas, bah.

Posts Relacionados

Ela pediu

Por maltratar, machucar e arremessar pela janela uma criança, um casal foi propriamente preso e condenado. O que os dois não sabem, no entanto, é que talvez houvesse uma maneira de escapar da falha justiça brasileira. Bastava que tentassem alegar que a vítima pediu para morrer.

Eles poderiam explicar, por exemplo, que a morte foi uma simples e inevitável consequência de um mau comportamento.

Dizer que, em um supermercado qualquer, a criança bateu o pé pedindo um pacote de balas e outro de salgadinho. No banheiro, teria feito bagunça e molhado o chão. A caminho de casa, já no carro, talvez tivesse tido um ataque de manha. Quem sabe, por fim, tenha chorado, esperneado, e até tentado estapear um irmão. Diriam que ficou de bico, que mostrou a língua, que cruzou os braços.

Sim, uma alegação revoltante. Obviamente, um disparate completo. Uma justificativa tão criminosa quanto o próprio fato em si.

Acontece que, irado leitor, embora você ache que, como eu, também rechaçaria uma desculpa assim tão absurda, no fundo é exatamente assim que você pensa. Sem tirar nem pôr, esta é sua mentalidade. E, porque eu sei que é complicado admitir defeitos, vou dar uma força e provar, usando uma simples equação, que sua linha de raciocínio segue por este torto caminho.

Você encoxa mulheres no metrô. Ok, não encoxa, mas passa a mão e finge que foi sem querer. Certo, não passa a mão, mas passa cantada. Chama de gostosa, lambe os beiços fazendo barulho, assobia e invoca bem alto: “ê, rabão!”. Tá bom, não diz nada, então, você é mudo mas não é cego, faz questão de mostrar que tá olhando, tá secando, tá comendo com a vista cada pedaço daquela moça decotada, da outra de saia curta, da menina de calça apertada.

Você toma posse do corpo alheio feito objeto porque acha que tem direito. Com o olho, com o verbo, com a mão ou com o pinto, você impõe a si próprio e à sua macheza apoiando-se num único e pífio argumento: elas te querem, elas pediram.

Ou não é isso que tenta provar o babaca preso em flagrante gozando e se esfregando nas passageiras do trem? Segurando a plaquinha com nome e data, debaixo de sua cara de pau, não é isso que ele diz em defesa própria? “Ela botou roupa de puta, foi ela quem quis”.

A roupa de puta, explique-se, é qualquer roupa que mostre partes do corpo que você está acostumado a ver na praia, por exemplo. Braços, coxas, peitos. Imagina se toda moça que vestisse um biquíni sinalizasse, com isso, que tá a fim duma violência, que beleza que ia ficar a areia da sua estimada Mongaguá. Hoje eu vou de cortininha porque quero uma passada de mão. Viva, tô animada!

Importante acrescentar que, ainda que não estupre no transporte público, nem violente com cantadas, nem apavore na praia, ainda há chances de você fazer parte do mesmo grupo de homens. Afinal, se nas horas vagas trabalha como comentarista machista de internet, suas ideias se afinam perfeito com as deles.

Ser autor de pensamentos como “mulher que não se veste direito não merece respeito” debaixo de textos que defendem os direitos femininos te coloca no mesmo patamar do encoxador do metrô. Do assediador no meio da rua. Do tarado do litoral sul. E, por que não dizer?, dos matadores de criança.

Usar ações de terceiros para abonar seu comportamento é trapaça. Ninguém é culpado pelo seu descontrole.

Simplesmente não vale alegar que não se conteve porque a moça desfilou gostosa na sua frente. Daria exatamente na mesma se um pai, incoerente e ilícito, explicasse que jogou a filha pela janela porque ela não se comportou. Crime é crime, e não há nada que abone uma atitude desviada e cruel.

O básico que se espera de um ser humano é saber lidar com as realidades do mundo, dos problemas reais a irrelevâncias feito uma maquiagem provocante ou um chilique infantil. Se não funciona assim, é barbárie, é abuso, é infanticídio, é pura selva.

Posts Relacionados

O Incrível Caso do Homem Alérgico a Gatos

Era uma vez eu, porque a história é minha, e um homem, porque é disso que eu gosto.

Era um homem bonito, com dois braços, duas pernas, uma boca, um nariz e dois olhos. Este homem, quando a história acabar, ainda será dono de todos estes itens de fábrica, exceto os dois olhos, que terão caído para fora da cara.

Pois o Homem Alérgico a Gatos guardava um segredo.

Não que fosse um indivíduo misterioso, o homem, mas sim porque sentia medo.

Tinha um bom coração, era uma boa pessoa. No entanto, temia que, ao descobrir o grande mistério que guardava em seu pequenino corpo, eu, a princesa deste belíssimo conto, não o aceitasse nem o convidasse para conhecer as instalações de meu rico Palácio da Vila Mariana.

Sendo assim, omitiu, o Homem Alérgico a Gatos, que era, na verdade, um homem com alergia a gatos. Tipo: de verdade. Tipo: edema de glote, urticária generalizada, placas vermelhas no rosto e, por último mas não menos importante, olhos saltando para fora da órbita.

Escondeu de mim, o pequeno grande homem, que teria um AVC caso entrasse em contato com qualquer partícula advinda de um felino. Não me contou, o loiro lorde, que seria garantia de óbito encostar na menor gota de saliva de um gato, ou pelo de um gato, ou unha de um gato, ou um gato em si.

E eu, bem, eu tenho QUATRO gatos.

Pelas riquíssimas instalações do Palácio da Vila Mariana, circulam há anos gordas bichanas, muy livres e muy folgadas, com acesso total e irrestrito aos cômodos e suas finas réplicas de móveis do século 16 compradas a prestações na Tok & Stok.

Mas, voltando, eis que toca o interfone o Homem Alérgico a Gatos.

Eu, a princesa, pronta para abrir os portões e as coxas para o soberbo visitante, ofereço um drinque, um assento, um ósculo, um carinho, e, ei, posso me sentar sobre vossa majestade?

Foi quando deu-se a tragédia. Despido e deitado na luxuosa cama Luís XV, apoiando a cabeça nos finos tecidos do dossel, o Homem Alérgico a Gatos finalmente se revelou, deixando escapar o grande mistério.

Tomado por uma violenta crise de alergia, tossiu, lacrimejou, coçou tudo que pôde e, ainda assim, repetiu que não era nada, embora claramente desfalecesse à beira da morte.

Um fracasso, a noite. Nada de sexo para a realeza.

Mas foi quando eu, a princesa, já excomungava o pequenino príncipe trancada no banheiro, que a surpresa aconteceu. Por saber que história boa é história com final feliz, o Homem Alérgico a Gatos me catou com força, me puxou pelo braço, me arrancou o roupão de bolinhas e me fez rainha.

Apoiados no único lugar sem vestígios felinos de todo o palácio, seguimos madrugada adentro. Na janela, com vista para toda a encantadora vizinhança, o Homem Alérgico a Gatos e eu, a princesa enfermeira, entendemos que um homem pode até perder definitivamente seus globos oculares, mas que nem por isso estará morto ou impotente.

FIM

*Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos ou acontecimentos terá sido mera coincidência

Posts Relacionados

Não é amor, é xixi

Opa, que beleza, bom dia, meu amor. Não, não, bom dia, não, ÓTIMO dia.

Porque, né, começando assim não tem como errar. O princípio do dia e a lindeza de acordar com um homem do lado. De abrir os olhos, dar aquela aprochegada e, eita nóis, dar de cara – ou de bunda, joelho, barriga – com uma ereção matinal. Tem coisa melhor?

A prova da existência divina.

De que, ainda que a gente esteja nesse mundo pra sofrer, alguém lá em cima quer que a gente se divirta de vez em quando. Que a gente sorria, nem que seja só às sete da manhã.

Antes de mais nada, parabéns.

Eu sei, na verdade, que não tem nada a ver com esforço próprio, determinação ou comando das funções corporais. Sei que não depende de você. Mas, ainda assim, mãezinha do céu, vamos todos fingir que foi você quem quis inflar isso tudo aí, aumentar sua massa corporal em 90%, igualar suas medidas verticais e horizontais, vamos apenas dissimular e aplaudir.

Palmas, muitas palmas, enquanto você se levanta e, ereto e a postos, anda pela casa de cueca, abre a geladeira, dá oi pro cachorro e alimenta a tartaruga.

Faz um favor pra gente e dá uma sentadinha ali na poltrona de couro?

Eita nóis.

É quase um chamado dos deuses da discórdia pedindo que eu me atrase pro trabalho. Olha lá a torrada queimando, rapaz, vai incendiar a casa e eu continuarei aqui, imóvel e contemplativa, enquanto tudo pega fogo e vira cinza. Levanta? Agora senta de novo. Agora levanta.

Vira de lado de novo, por favor? Ai, que bonito.

Podemos curtir estes últimos quinze minutinhos antes de você ir? Podemos fazer um bom proveito de tudo isso que a mãe natureza te deu esperando que você usasse direito e com frequência? Desperdício, eu acho, se a gente simplesmente seguir com a rotina e deixar pra lá.

Afinal, ele tá de pé e me olhando, cê não tá vendo?

Não, não faça isso. Não, não vá pra lá. Não passe por aquela porta. Você sabe o que tem atrás dela, pode ser o fim. Não, meu amor, não tire a roupa. Ô, querido, tô pedindo, não, por favor, eu imploro: tudo, tudo no mundo, menos você em frente à privada.

Fica comigo, me abraça, me pega um instantinho. E me deixa, só por um pouquinho, paixão da minha existência, fingir que essa ereção é toda por mim, e não por causa da vontade imensa que você está de fazer esse xixi.

*Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos ou acontecimentos terá sido mera coincidência

Posts Relacionados

Da arte de bater sem encostar

A gente conhece bem o seu tipinho. Tipinho que bate em mulher.

Todo gentil, educado, simpático e cheio de amigos. Bom emprego, carteira gorda, gosta de música, lê bons autores. Estudado, diplomado, educado, comportado. Um descontrolado, logo se vê, típico sujeito que enche mulher de porrada.

Mas que absurdo, mas que falácia, se eu nunca levantei a mão nem encostei em ninguém nessa vida.

Verdade, isso nunca. Mas, além de estar faltando pouco, esse seu jeitinho agressivo e dominante te põe no mesmíssimo lugar daqueles que já cruzaram a fronteira.

Vocês são iguais, porque a violência é a mesma.

Uns quebram dentes, deixam roxo, estapeiam. Outros, como você, esbofeteiam com o discurso perverso, ofendem com a força de um soco na boca e humilham sem relar a pele.

Não faz diferença, nasce tudo da mesma fonte. Brotam, os murros e as palavras, da mesma natureza misógina e narcisista.

E como é difícil escapar de você, tipinho. Um ser onipresente.

Tem você morando na nossa casa, você pai irmão ou marido. Tem você namorando a gente. Tem você na escola, se dizendo professor de alguma coisa. Tem você chefe no escritório. Tem você ao volante no trânsito. Tem você jurando ser um bom médico ou analista. Tem você no mercado, de cobrador no ônibus, na fila do banco, na cadeira ao lado na plateia do cinema.

Suas armadilhas, bem feitinhas e estudadas, te exigiram anos de prática. Aulas puxadas sobre como confundir, dissimular e matar sem deixar pingar uma gota de sangue. Graduação e diploma só mesmo depois de provar seu enorme poder de dominação e anulação do outro.

Parabéns, formando, você está pronto para brincar com a presa! Para jogá-la pra cima, feito gato e inseto, ameaçar no dente, segurar com a pata. E ai de quem te flagra e enfrenta, machão, pois vira almoço sem dó.

Ah, sim, esqueci que você bate sem tocar, que dá porrada de pertinho, mas nem chega a atingir. Grande merda, tipinho, seu crime é o mesmo, e só não deixa vestígio.

A gente, repito, te conhece bem. Mas, mais que isso, a gente, a cada dia que passa, te reconhece mais. Te sacando de longe, te vendo despontar na esquina, a gente aos poucos aprende a te evitar e delatar. Não queremos mais, não precisamos mais.

É o princípio de um grand finale, senhor espancador de mulher. Bem-vindo ao fim da linha.

*Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos ou acontecimentos terá sido mera coincidência

Posts Relacionados