Este não é um texto sobre mulheres de cabelos curtos

Cortei os cabelos. Estou irreconhecível.

Se você me visse na rua, não perceberia jamais que sou eu. Bem, você não perceberia de qualquer jeito, porque você nunca me viu na vida, o que por um lado é excelente porque se você é um maratonista e me odeia por causa daquele antigo e polêmico texto não poderá me assassinar no metrô me esmagando com seu Mizuno Wave, mas, enfim, o que importa é que nunca nos vimos mais gordos ou mais cabeludos ou mais dentuços, e o fato é que, acredite, estou parecendo outra pessoa.

Adeus, Rapunzel, olá, (insira aqui o nome de uma famosa princesa de cabelos curtos, porque eu, honestamente, não me lembro de nenhuma).

Pois vejam, mulher de cabelo curto é raridade. A Disney caga pra isso, esticando sempre ao máximo a cabeleira das heroínas. Uma pesquisa recente, aliás, mostrou que 80% das brasileiras preferem os fios longos porque acham mais sexy e que, ao cultivá-los deste jeito, agradarão mais aos homens.

Daí que este texto aqui, a partir deste exato momento, poderia virar justamente uma ode às corajosas que nadam contra a maré, cospem em pesquisas de tendência e esfregam seus cortes Joãozinho na cara da sociedade: vulgo eu. Vulgo você, que tem cabelo curto e que está me lendo agora.

Mas não sou previsível. Sou uma escritora talentosa, criativa, prestes, inclusive, a me candidatar à vaga deixada por um dos recém-falecidos na Academia Brasileira de Letras – e com isso me refiro não ao Ariano ou ao Ubaldo, mas sim ao Severino, que servia chá aos imortais toda tarde e semana passada enfartou, coitado.

Como eu dizia: eu surpreendo. E, por isso, esse texto não exalta as mulheres-de-cabelos-curtos. Primeiro porque não somos piores nem melhores que ninguém, assim como também não são as mulheres-de-cabelos-compridos-até-os-joelhos.

Segundo e principalmente porque esses textos que nós mulheres escrevemos louvando qualquer característica física feminina (as narigudas, as de peito pequeno, as gordas, as cotoveludas, as com pelo, as peladas) são, na verdade, uma tentativa desesperada de nos justificar perante um mundo que nos julga e nos compara a todo minuto.

Eu não quero me defender de nada. Eu não quero ter que fingir que me acho superior a alguém para me sentir segura.

Se eu cortei o cabelo e estou me percebendo mais fodona que antes por causa disso, pô, que bom pra mim. Se você tem um nariz maior que o meu (duvido) e por isso se acha a última Calipso do pacotinho, sério, animal, isso é excelente.

Tudo vale a pena quando a alma não é pequena, já dizia aquele powerpoint que você mandou por email pra todos seus amigos nos anos 2000. O que quer dizer, basicamente, que, se você não é uma megera mesquinha que precisa diminuir os outros para se sentir poderosa, já tá ótimo, pode tudo.

Retomando, este não é um post sobre mulheres de cabelos curtos. É sobre mulheres que fazem escolhas buscando a própria satisfação e felicidade. Sobre meninas que querem ser felizes do jeitinho que acharem melhor naquele momento. É um post sobre aquelas que preferem se unir a competir umas com as outras.

Em outras palavras, um texto sobre mim, basicamente, e, óbvio, um texto também sobre você, sua linda <3

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Como não se tornar alguém igual a mim

Clap clap clap clap clap (salva de palmas, eu digo).

Bem-vindos à minha palestra motivacional.

Durante os próximos 40 minutos, vocês ouvirão dicas sobre COMO NÃO SE TORNAR ALGUÉM IGUAL A MIM, assim mesmo, em caixa alta. Não dá pra ouvir o Caps Lock quando a gente tá falando, óbvio, eu sei, mas acho importante frisar, afinal é o título da palestra, vocês pagaram por ela, acho até que pagaram mais do que valia, mas, enfim, continuemos.

Bem-vindos. Legal vocês aqui.

Estou vendo que são todos muito jovens. Todos, não. Todas. Porque só tem mulher. Ah, desculpa, não tinha te visto. Seu cabelo meio compridinho, também, me deixou em dúvida, e depois dos 30 fiquei meio míope.

Todas + 1. Todas vocês MAIS UM, viu?, tô te incluindo, rapazinho, alegre-se, todo mundo na casa dos vinte e poucos, na flor da idade, justamente meu público alvo. Aqueles a quem, estou aqui para provar, ainda há um caminho de salvação.

Sim, moçada (gosto do vocabulário JOVEM), ainda resta uma esperança. Mirem-se no meu exemplo, e dele corram sem olhar pra trás.

Sim, porque, se há um lugar em que mora a felicidade, ele não é aqui. Neste corpo ligeiramente murcho, nesta cara esgotada, nesta mente ultrapassada e obsoleta.

E sabem por que, meus petizes?

Porque eu fiz escolhas erradas. Péssimas. Execráveis. Fui uma incompetente.

Descasei 14 vezes. Fiz carreira vendendo joias na Vivara, mas botei tudo a perder quando fugi pra Venezuela com um homem casado que comprou comigo alianças e um brinco de jade. Eu podia ter virado gerente. Eu podia ter ganhado bônus. Mas não. Eu caguei.

Caguei e tô aqui, fracassada, cansada, mas ainda com um resquício de fé aceso feito chama dentro do estômago protuberante. E não, eu não tô falando do refluxo que apareceu quando fiz 42.

Enfim.

Cobrei de vocês um preço ligeiramente injusto apenas para recomendar que vocês, quando de frente para aquela bifurcação que subitamente lhes apresenta a vida, sigam pela estrada de tijolos amarelos – eu escolhi a de bolinhas e me fodi.

Não tenham quatro filhos de quatro homens diferentes, como eu fiz. Não façam um financiamento pela Caixa para comprar um apê na Mooca, como eu fiz. Não mudem pra Vivo, não peguem o pacote mais caro da NET, não comprem as sessões promocionais de drenagem linfática do Groupoun – olhem esta bunda e me digam se acham que esta merda adianta alguma coisa.

Pois é, não muda. Nada muda. Mas vocês, garotada, ainda podem mudar. Saiam daqui e façam história. Sejam senhores de seus próprios destinos.

E, depois, se nada der certo, não se desesperem: vocês ainda podem virar palestrantes motivacionais.

Clap cla... (tímidas palmas, eu digo).

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Vamos tomar um café?

Cuidado, mocinha desavisada. Abre o olho, rapaz bonzinho que não desconfia de nada. O novo manual de etiqueta dos relacionamentos fugazes foi revisto e ampliado este ano, e pode ser que você esteja por fora das atualizações.

Tá sabendo da novidade?

Tá a par de que, quando aquela figura do outro lado da tela faz convite prum café, isso significa que, na verdade, ela está querendo dizer (e fazer) outra coisa?

Ou você achou mesmo que ele queria tomar café?

Não, xuxu. O “vamos tomar um café” é o novo “quero te comer todinha” – ou, no caso daquela fofa que te chamou prum cappuccino à tarde, “quero te dar bem gostoso hoje”.

Primeiro que ninguém gosta de café tanto assim.

Sim, você sabe diferenciar um latte dum curto de olhos fechados, e ninguém no mundo tem tantas cápsulas de Nespresso em casa quanto você. Beleza. Só que, mesmo assim, mesmo com todo esse expertise, era bom você tomar cuidado na hora de sair propondo xicrinhas por aí.

Ela pode te entender errado, e esperar de você muito mais que um descafeinado sem compromisso.

No manual, tomar café é eufemismo com adoçante.

Diz o que ninguém tem culhão de dizer na lata, e ajuda os mais tímidos a levar pro sofá do Starbucks o objeto de desejo sem precisar abrir o jogo com honestidade.

A amiga do seu namorado mandou Whatsapp pra ele convidando pra um café? Abra o olho, minha querida, porque um espresso é a última coisa que ela quer dividir com seu amado.

Menos mal seria se ela tivesse falado “vamos tomar um chope”.

Juro.

Não tema o happy hour, bonita, libere-o sem medos, não há qualquer risco de traição. Diga pode ir, meu amor, deixe-o chafurdar na cevada, no lúpulo, na pinga, na cachacinha de tonel.

Nestes tempos loucos em que vivemos, a cerveja se transformou numa das coisas mais inocentes de todo o cardápio sexual.

Mas o café, ah, pro café abra o olho, fique esperta, e já pense em contratar um detetive.

*Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos ou acontecimentos terá sido mera coincidência

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Não vai ter cópula

Já era, não vai ter cópula.

Pode recolher sua bandeirinha e baixar o mastro, desencana, não vai rolar. Manda cada um dos seus onze homens de volta pro vestiário, cabeça tombada, humilhados, chuveiro gelado e direto pra cama.

Não vai ter cópula, amor.

Culpe os metroviários. Eles me deixaram cansada. Foram horas até o trabalho, séculos pra conseguir voltar, um trânsito da porra, estresse, quase infarto, então por isso repito: não vai ter, esquece.

A chuva também tem sua responsabilidade, vamos combinar. Armou meu cabelo, arruinou meu make, tô aqui toda cagada e sem autoestima nenhuma. Como é que você quer que tenha cópula assim?

Sem condições.

Fora que aquele monte de dívida ainda me assombra, penso nisso noite e dia, tem o problema da sua mãe que só me critica, tem a cama que faz barulho e acorda o vizinho de baixo, não se pode mais nem ser feliz nessa cidade.

Em São Paulo, é difícil ter cópula.

Como botar a bola em campo se ela anda murcha e fora de forma? Como esperar que o zagueiro dê conta da pressão se a torcida é cruel e desalmada? Como é que a gente se concentra no pênalti com a barulheira dos manifestantes fechando a Paulista?

Sinto muito, baby, mesmo, mas é melhor assim.

Até porque, imagina na cópula.

Você ia dar conta de mim, sua fogosa Larissa Riquelme de celular nos peitos e gritando histérica? Duvido. Você ia dar um chutão pro alto, que eu bem te conheço, meter um Baggio e envergonhar seus cachinhos ridículos diante da multidão.

Esquece a cópula. Tira a cerveja do gelo, joga esse bando de amendoim temperado no lixo, e ajeita o sofá com chaise – é lá que você vai dormir hoje, sem TV, sem vitória, sem gol.

*Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos ou acontecimentos terá sido mera coincidência

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Festa junina FAIL

Seu filho tem manual? O meu também não. Nem o da minha prima Sofia lá de Marília, nem o da Rosa moça que trabalha comigo, nem a filha da minha amiga de infância Patrícia.

E aí a gente que é mãe fica assim, tudo desorientada. Tudo agindo no improviso.

Sou uma profissional do stand up materno. Me viro nos 30, giro pratinho, abro os nove braços feito deusa indiana na hora de criar sozinha um cara que conheci tem pouco tempo, mas que me dobra mais que qualquer homem no mundo.

Meu filho me quebra as pernas – que ótimo, cheia de braço e perneta, bem útil.

Ontem teve festa junina na escola.

Puta esquema, turno trocado no trabalho, plantão de madrugada descabelada e sem maquiagem pra poder sair na hora certa e acompanhar a dança. Tanto ensaio na semana, né, tanta marcação decorada, camisa xadrez passada, chapéu de palha da Teodoro Sampaio. Tava tudo lindo, tava tudo dando certo.

Mas ele não quis dançar.

Esfregou com o dedo o bigode maquiado, borrou a cara de lápis da Vult do queixo à testa, batendo o pé e botando bico: não vou.

Cadê a psicóloga ali do meu lado? Cadê a Super Nanny comigo na quadra dizendo o que eu devo fazer e falar?

Se vira, bonita. Fala qualquer coisa. Apela pra chantagem, compra a criança com figurinha da Copa, diz que vai dar bala se ele dançar bem bonito e sorrir pra foto. Ameaça. Belisca. Ou chora junto, dizendo que não tem outro filho pra bailar quadrilha e que ele pode ser o divino salvador.

Daí, quando nada funcionar, pede pra mãe do amiguinho olhar o moleque enquanto vai lá fora fumar um cigarro e chorar baixinho, mandando mensagem no whatsapp dizendo que eu sou mesmo uma bosta, um fracasso. Que nem pra isso eu sirvo.

Porque mãe é tudo um bando de culpada. Acorda com culpa, dorme com culpa, se culpa pela culpa de sentir culpa a toda hora.

Na volta, pode ser que o moleque tenha decidido dançar o finalzinho da coreografia. Pode ser que suba no palco ao menos pra dar um tchau e uma voltinha. Pode ser que ele desça com cara de dúvida, sem saber o que você pensa do que ele decidiu. Pode ser que você também não saiba o que pensar e, no improviso, escolha ficar orgulhosa e, mais rindo que chorando, acolha o carinha sem manual num abraço, quase confusa sobre quem mesmo cuidava de quem.

*Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos ou acontecimentos terá sido mera coincidência

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Tô chorando, me deixa

A gente é forte, segura, fodona, maravilha. Mas - não espalha - a gente chora.

E chora não só naqueles momentos que todo mundo também se debulha, dedinho na quina, vídeo de velhinho, saudade, solidão, fossa.

Mulher chora sem motivo. Quer dizer, motivo a gente até tem, mas pode ser que você não saiba qual é. Ou que a gente mesmo não faça ideia dele, ou fazia e esqueceu, ou não existia nada e a gente inventou. E chorou.

Daí chorou mais um pouquinho.

Daí chorou no trânsito. Chorou na balada. Chorou baixinho dissimulado, chorou berreiro com catota escorrendo do nariz pra boca.

Depois a gente chorou porque bateu um negócio assim esquisito sem explicação.

Mesmo que a gente estivesse toda de boa e contente, nua na sua frente, pronta pruma noite mara. Beija, amassa, vira de quatro, tira a roupa - e chora.

Chora pelada de pé na porta da copa encostada no batente.

Vai chorando abrir a geladeira, pede chorando pra levar de volta pra casa, deita chorando na cama abraçada no bolinho de roupa até acordar de manhã melequenta de rímel, de ressaca de vinho, e sorrindo feliz.

Porque era isso, choro sem razão. Agora a gente tá contente. Agora a gente quer tomar café e ler jornal.

Bipolar é a mãe. E TPM, o caralho. É outra história, bobo.

A gente até chora, sim, naquela semana terrível de hormônios revoltos, mas é muito diferente, outra angústia. Nem é frescura, que de frescura a gente não chora, a gente faz barraco, compra roupa e come sorvete.

Quando a gente chora assim, é mais pra exercitar um instinto. Ou pra não perder o costume.

Exatamente igual a quando vocês fazem o que de inconfundível fazem homens. Quando a vontade vem, tipo coceira com agonia, e tudo se acaba com uma coçadinha ligeira no saco. A gente, bem, a gente sente igualzinho, só que coça e aperta no meio não das pernas, mas do estômago.

Coisa pouca, trivial. Nada que uma choradinha discreta e rápida não consiga resolver.

*Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos ou acontecimentos terá sido mera coincidência

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Cheiro de macho

O que você quer tomar? Cerveja, vinho, licor, pinga com mel?

E um banho, você não quer tomar não?

Dar um trato nesse cecê e no bacalhau?

É que a gente meio que gosta, sabe, de cheiro gostoso e homem limpinho. Do bem que faz uma lavanda, capim limão, musk, qualquer coisa que rescenda à natureza e não à fábrica, ao busão, à feira.

Sim, seu cheiro macho contém feromônios. Sim, há testosterona neste chulé.

Mas eu, se fosse você, ficava de boa dessa de que mulher tem tesão em homem fedendo a homem e investia mais no capricho higiênico da cabeça aos pés. Eu, se fosse você, me esfregava e esfregava de novo até brilhar. Se eu fosse você, eu reluzia, eu aromatizava, eu entalcava as partes.

Pode usar o meu Dermacyd, eu não ligo. Você equilibrando esse PH da mucosa, mesmo que sua xoxota na verdade seja um piru, já vai ser lindo – e perfumado, nham nham.

Porque não tem nada pior que virilha suada e azeda. Do que gorgonzola quando a gente não quer queijo. Do que peixinho podre onde a fragrância certa é de meia fofinha dobrada e guardada com amaciante.

Outra coisa. Sabe seu desodorante 48 horas? Aquele que tem gente que diz que é pra usar não só na axila mas também na barriga mas que você que é um homem esclarecido lido ciente e esperto sabe que aquilo é tosquice de propaganda e que na barriga a gente passa creme ou perfume e olhe lá?

Pois bem, duas coisas sobre o seu Axe cafona, digo, sobre seu desodorante:

1- ele pode até durar 48 horas, mas isso não significa que não é pra você se banhar nesse meio tempo

2- ele gruda, meu filho, mas GRUDA muito nos pentelhos do suvaco, então cabe a você se dedicar e investir na lavagem com sabonete até ele sair e você pode passar de novo

Abre os dedinhos, tira as minhoquinhas de baixo da unha. Derrama com gosto o shampoo nesse cabelo cheio de sebo e fricciona. Besunta a mão no sabão líquido e povoa de espuma o rego de baixo a cima.

Eu sei que a Sabesp discorda, que o Cantareira grita, mas um banho de sete minutinhos vai dar certinho pra se aprimorar no asseio e deixar a gente contente.

Com você brilhando, o amor vai correr mais solto, a gente vai te devorar com gosto, não vai sobrar um só pedacinho seu sem beijo, fungada, lambida. Vem cá, querido, deixa eu falar no seu ouvido o quanto eu quero te da... eca, Paulo Roberto, quanta cera nesse buraco, cê nunca ouviu falar em cotonete, não?

*Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos ou acontecimentos terá sido mera coincidência

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Hoje é noite de amor, bebê

Hoje é quarta. Hoje tem.

E eu sei que tem porque hoje é o dia perfeito para isso.

Tá frio pra cacete, e a gente vai deitar pertinho mesmo que não esteja assim tão a fim, ou mesmo que ainda de mal por causa da briga de hoje de manhã que eu já nem me lembro por que mesmo que aconteceu.

Eu tô disposta, você sabe. Hoje é quarta.

Eu sei que você vai assistir ao jogo na TV, vai bocejar logo em seguida dizendo que precisa acordar cedo amanhã, tomar um banho e tirar o bafo de cerveja, e eu sei – e como sei – que isso tudo é um sinal: você me quer.

Quase meia-noite, aquele horário cravado e invariável, e você vai sair naquele seu charmoso roupão de cetim furado de dentro do banheiro enfumaçado e eu, que mal vou conseguir te enxergar direito porque já tirei a lente e botei meus sensualíssimos óculos, vou te achar lindo e sexy e vou me animar toda dentro do pijama dos ursinhos carinhosos.

Hum. Hoje tem.

Ontem não teve, porque foi terça e terça é dia de buscar as crianças na aula de circo que acaba bem tarde e fica todo mundo cansado e ainda tem aquele monte de lição pra fazer e lancheira pra preparar. Amanhã, putz, amanhã você toma cerveja com os amigos, eu tenho mercado pra fazer, e amanhã, que pena, não é uma noite excelente nem favorável, salvo exceções como quando a mãe do seu colega Fábio faleceu e o chope foi cancelado e você teve que ficar em casa porque não tinha outra opção.

Mas hoje, ah, hoje vai ter. Tudo indica que vai.

A gente nem vai falar da prestação da casa, nem do empréstimo na Caixa, nem do lustre que caiu na varanda e alguém precisa consertar. A gente vai engatar um papo sexy, algo sobre como foi seu dia e o que teve de mais importante na repartição, você vai falar do elevador enguiçado e, ah, essa é uma deixa, que eu sei.

Você vai tirar o roupão mas vai manter as meias azuis, eu vou ficar com a camiseta de manga longa do ursinho porque não quero que meus mamilos congelem e você não faz muita questão de vê-los, e, puxando pro lado minha calcinha bege, você vai dar início à ação.

Eu sabia! Hoje tem! Quer dizer, hoje TEVE.

Teve porque já passaram dois minutos, e dois minutos é tudo que gente intensa e apaixonada e realizada no casamento assim que nem a gente precisa para curtir e ser feliz.

Selinho, luz apagada, boa noite, até amanhã.

*Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos ou acontecimentos terá sido mera coincidência

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O pai de 15 em 15

Disco a gente divide, livro a gente racha, mas filho, filho a gente não tem como dar um pedacinho pra cada lado e recomeçar a coleção. Filho não é coisa. Filho sente, chora, e, se não tomar conta, quebra.

Daí que tomar conta é todo dia, de quando abre o olho com remela até quando deita de volta, cabelo cheiroso e quente no travesseiro de bichinho. A gente sabe que é assim, e a gente compra o trabalho porque quer ver o resultado grande bonito educado lá na frente, daqui a 20 anos.

Mas tem quem ache o preço alto, tenha preguiça e mão de vaca, e economize no cuidado - só não na propaganda.

Eles são os populares Pais-de-Quinze-em-Quinze.

Não todos, que tem Pai-de-Quinze-em-Quinze que é assim por imposição, mas os de quinze em quinze porque querem, aqueles que podiam ser Pai-de-Todo-Dia mas escolhem diferente, ah, estes sim são duma categoria peculiar e admirável.

Afinal, é de se apreciar alguém que acha que faz tanto fazendo tão pouco.

Que acha que migalha enche barriga e paga colégio. Ou que entende que coração de criança é Tamagochi, que só precisa alimentar de vez em quando e, se morrer, é só dar CONTINUE e começar de novo.

O Pai-de-Quinze-em-Quinze acha que tá abafando.

Reclama do cansaço que dá preparar dois banhos, nossa como cansa esfregar cabeça lavar tudo e passar talco. E olha que são só quatro vezes no mês, duas por fim de semana de sua gerência, um na sexta, um no sábado, e domingo, ah, domingo deixa que a mãe dá, afinal a noite é dela, ela que tome conta.

É super rigoroso, o Pai-de-Quinze-em-Quinze.

Acha importante dar bronca e botar no castigo, confiscar celular e videogame, aplicar palmada. Poxa, educar não é nada fácil, e o Pai-de-Quinze-em-Quinze, que sabe disso, usa seus seis dias no mês para realmente mostrar que ali é ele quem manda, sigam-me os bons, eu sou grande, mereço respeito.

O Pai-de-Quinze-em-Quinze dá discurso, mas não dá exemplo.

Ele cobra postura disciplina afeto, mas se esquece de ligar durante a semana para dar oi e dizer que ama. É que ele é ocupado, o Pai-de-Quinze-em-Quinze. Tem muitos compromissos, tem o trabalho, tem a namorada, tem os amigos, tem o tempo que é só dele porque todo mundo merece curtir um pouco na sua, de boa, no flow.

Quando o filho fica doente no fim de semana do Pai-de-Quinze-em-Quinze , xi, tragédia. Não pro moleque, coitado, empipocado e ardendo em febre, mas sim tragédia pra mãe, pra quem, do outro lado da linha, chegam juntos e com força os palavrões, a culpa e os impropérios – oras, não fosse ela, a má mãe, cuidando mal de seu rebento, e não estaria no pronto-socorro entediado e puto o pobre do presentíssimo Pai-de-Quinze-em-Quinze .

O Pai-de-Quinze-em-Quinze ajuda na lição um dia e já fica exausto. Faz compra de mercado com o filho na sexta e, putz, precisa correndo estender as pernas pra cima relaxando da tarefa hercúlea e desgastante pacas. Cozinha um miojo, compra um McLanche, e na noite de domingo devolve a menina em casa com a consciência tranquila de quem proveu e alimentou a família com qualidade extrema e total dedicação.

De volta em casa, TV ligada na revista eletrônica da semana, o Pai-de-Quinze-em-Quinze deita a cabeça de cabelo cheiroso e quente no travesseiro xadrezinho ciente de que faz tudo que pode e dá tudo que tem.

Confiante de que vai crescer saudável e instruída a filha, o filho, a prole toda, e que, nada mais óbvio, o mérito é todo seu.

Palmas para o Pai-de-Quinze-em-Quinze. Quem sabe um dia ele se enxerga.

*Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos ou acontecimentos terá sido mera coincidência

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Só a Rihanna é feliz

Não há no mundo mulher mais feliz do que Rihanna.

Não bastasse ser aquilo tudo que é, com cara e corpo que a gente mataria alguém pra possuir, ainda tem uma sorte bem incomum no universo feminino.

Rihanna, diferentemente de você, de mim e da maioria dazamigue, não tem encosto.

Ela não sofre, não delira, não entra em paranoia nem pira olhando o Facebook.

Sabe por quê? Porque Rihanna, essa linda, teve um belo êxito na vida: o de não precisar conviver nem ter notícias do seu ex. NUNCA MAIS.

E óbvio que Rihanna, nossa heroína, moça fina e nos conformes da lei, não faria nada que depusesse contra seu caráter, tipo estrangular ou picar em fatias aquele com quem um dia dormiu de conchinha. Pelo contrário, ela não precisou mover um dedo.

Se Chris Brown é um ex em cana, foi porque assim ele escolheu.

Sorte da Rihanna.

Sorte porque ela não precisa mais evitar os caminhos que ele faz. Ou os lugares aonde vai.

Sorte porque ela não precisa ficar com dor de barriga de esbarrar com ele na balada, de tomar o mesmo ônibus, de passar por ele na calçada e ter que fingir que não viu.

Sorte, muita sorte, porque ele não tem um Facebook pra ela xeretar.

Pra ela se torturar fuçando aonde ele foi ontem à noite ou quem é a menina gata marcada na foto. Pra Rihanna vasculhar quem ele adicionou na última semana, ou quem comentou o post besta com retrato do sanduba trash que ele comeu no boteco de Hollywood.

Rihanna, a bela, tem uma puta sorte.

Sorte de não querer vomitar quando imagina com quem ele trepou no sábado à noite. E de não se torturar imaginando que a nova namorada é mais bela, mais nova, mais tudo.

Óbvio que a gente não deseja pros ex o azar de Chris, que está apenas tendo o troco das cagadas que cometeu. Mas, olha, a sorte de Rihanna, uma das poucas mulheres que não precisam se desapegar do ex à força, ah, essa sorte a gente queria super ter.

*Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos ou acontecimentos terá sido mera coincidência

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