O sortudo machão de São Roque

Eu sei que eu te enlouqueço. Que eu te boto puto três, quatro, vinte vezes por semana. Que meu ciúme te irrita, que meu choro te cansa. Eu sou um pesadelo, admito. E não somos o único casal com esta dinâmica, aliás, nem é de hoje que a dança mulher-azucrina-homem-homem-azucrina-mulher assucede. O eterno descompasso dos sexos e de seus quereres.

Mas eu sei, no entanto, que mesmo que eu te buzine infernalmente na orelha e encha seu saco até explodir, você nunca vai me encostar um dedo. Nem a mão. Ainda menos o cotovelo.

Uma cena igual àquela que todo mundo viu na TV, da moça caindo no chão depois dum golpe selvagem do animal da latinha, é impensável no nosso mundo, seu e meu, amor. E, na verdade, deveria ser condenável em qualquer universo onde houvesse seres humanos. Mas, ao que parece, não é assim que funciona.

Aplicar um golpe mortal na cara de alguém não é tão execrável quanto eu achava.

Se fosse, não teriam assistido estáticas à agonia da vítima as quase dez testemunhas presentes na hora da agressão. Se fosse mesmo, como eu pensei, um ato assim tão horrendo, alguém teria se mexido, acudido, tirado satisfação.

Mas não – a moça morrendo ganhou plateia, e, se não tivesse apagado inconsciente, poderia ver seu algoz ainda pregando sua doutrina torta para cima dum corpo inerte e desesperado por socorro.

Anderson Lúcio de Oliveira, o agressor sórdido de São Roque, é um sortudo. Ele nasceu num país machista, onde agredir mulheres é admissível e justificável. No mundo de Anderson, uma moça que lhe enche o saco tem mais é que levar porrada, e ai de quem o contrarie. Porque falou demais, que morra a tagarela chata, que lhe vaze o cérebro pelo nariz enquanto todos assistem.

O que todo mundo sabe, Anderson, é que, se a cotovelada tivesse sido num homem, a cena gravada teria sido diferente.

No lugar daquele momento em que você sai andando pro outro lado, praguejando de peito estufado, o roteiro mostraria as testemunhas em cima de você, talvez só te questionando, quem sabe até, oxalá, te ofendendo e entregando à polícia. A agredida seria prontamente atendida, e quem sabe seu destino não lhe reservasse as sequelas que ela terá pelo socorro demorado.

Mas São Roque não fica no mundo ideal. Pelo contrário, fica no Brasil, um dos lugares mais cruéis em que uma mulher pode morar. Onde violência verbal e física são rotina, escapando diariamente do noticiário apenas pelo azar de não haver por perto uma câmera de segurança.

E, mesmo errado, Anderson ainda contou com o apoio dos covardes que não o expuseram em seus depoimentos. Mesmo preso, contará com os benefícios de ser um sujeito influente e coronelão duma cidade interiorana. Anderson, o machão comerciante de São Roque, pode mesmo ser um cara de muita sorte. Mas ele não é HOMEM coisa nenhuma.

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Ele já quer casar comigo. Que fofo!

Em suas aventuras no Tinder, este supermercado de gente virtual, uma amiga conhece um descendente de Apolo, todo exibido e perfeito, pacote completo em promoção, pague 1 predicado leve 20.

As conversas evoluem simpáticas, animadas, e o primeiro encontro acontece. Estão lá, frente à frente, dois egressos de um aplicativo onde o que se busca, a princípio, é conhecer indivíduos, levá-los ao bar, à cama, à cama de novo, ao sofá, à cama mais uma vez, e, um dia, quem sabe, num futuro distante, à troca de status no Facebook, e de alianças no jantar romântico. Em outras palavras, duas criaturas ali dispostas a se comer sem muita expectativa de um relacionamento – se rolar, rolou.

Mas Apolo, o barriga-tanquinho de boné do Tinder, parece que se esqueceu dos termos de uso. Apolo quer mais que apenas uma noite quente de sexo e curtição. Apolo quer descolar uma esposa. Uma mucama. Uma jovem casta, bela e fiel.

“Já tava com saudades”, metralha Apolo, depois de esperar na mesa por quatro minutos e meio enquanto minha amiga levantou para fazer xixi. Apolo detesta ficar sozinho. Apolo merecia um Freud, um Lacan, uma Gestalt e um Jung tudo junto e misturado.

E o fenômeno de carência do deus sarado e grego não se manifesta apenas durante a micção alheia. O fortão também já está, enquanto sorve a PRIMEIRA garrafa de cerveja, fazendo planos para a posteridade: a moça não pulará carnaval em 2015, porque estará com ele; a moça não viajará com a família, porque estará com ele; a moça vai precisar trocar de emprego, eliminar o decote e esconder as pernas, porque estará com ele.

Mas Apolo – ele diz - está só brincando. Ah, Apolo, seu cômico. Piadista nato, ele, tão galhofeiro. Porque Apolo quer só mostrar, ao que esclarece, que está mega na vibe dum relacionamento sério com a menina que ACABOU de conhecer no Tinder, aquele aplicativo feito pra comer gente. Ah, tá.

Ele acha que está sendo doce, como acham todos os homens que decidem pular etapas. Ele acha que minha amiga, como qualquer outro exemplar do sexo oposto, se sentirá sortuda por ter alguém assim tão disposto a ficar com ela.

Daí eu pergunto, Apolo: e se fosse o contrário? E se quem estivesse falando em casamento no primeiro encontro fosse uma mulher?

Porque, quando a gente queima a largada e dá sinais de ansiar alucinada por um compromisso, vocês, homens, não acham fofo porra nenhuma. Vocês, ao contrário, nos chamam de desesperadas. De precipitadas. Louca tarada encalhada, e aí, o que cês fazem? SOMEM.

E vocês, acho, estão certos em sumir. Porque ninguém pode querer namorar alguém que conheceu há uma hora e meia. Alguém de quem não se sabe nada. Se vai roubar nosso rim e nos mergulhar numa banheira gelada, ou se vai nos dar respeito, amor e uma vida calma.

O compromisso, mocinho, vem do amor, que vem da familiaridade e da convivência.

Isso que você está sentindo agora não é paixão à primeira vista. Não mesmo. Isso se chama tesão. E você não encontrou a mulher da sua vida, não, não, você simplesmente está carente. E carência, Apolo, a gente trata na terapia, e não no aplicativo do celular.

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Os meninos do Jardim 2

Meu filho foi pedido em casamento semana passada.

Ele recusou a mão da moça, mas, ao contrário do que qualquer outro homem faria em seu lugar, ele foi honesto na justificativa. Mandou a real, na lata, sem enrolação.

Meu filho é uma criança pequena, bem pequena.

E, ainda assim, bem que podia servir de exemplo prum montão de macho por aí. Afinal, o mundo seria um lugar muito mais legal se todos os caras respondessem como ele respondeu à minha amiga, que, tentando ser fofa, sugeriu “Teodoro, casa comigo?”.

- Eu estou no Jardim II. Eu tenho 5 anos.

No caso do meu filho, é uma justificativa literal. Ele está REALMENTE no ensino infantil, e é, de corpo e alma, um molequinho ainda.

Mas, pense, que delícia imensa, um universo em que eles, os boy, falam o que realmente pensam? A gente saindo assim já há um tempinho, minha escova de dentes morando na sua pia, e eu, como era de se esperar, comento ei fofo xuxu mozão isso é um namoro, não é não?

E, no lugar dessa cara medonha que você faz, engasgando e tossindo tudo seguido, você diria de pronto “Marcella, eu ainda me comporto como se estivesse no Jardim II. Eu ainda tenho 5 anos mentais”, e ninguém ia precisar passar por todo aquele aperto, todo aquele constrangimento, todo aquele trabalho que dá assumir e depois dessassumir uma relação DE-GENTE-GRANDE.

Até porque, vamos combinar, cês tão tudo no Jardim II ainda, mesmo. Tão não?

Uma vez eu conheci um cara que tava no sexto ano, e já achei um baita avanço. Adolfo, quarentão, boa pinta, barba e óculos. Mais maduro que a maioria, mas nada assim que se dissesse “nooossa, que ensino médio!”.

Na faculdade, então, juro que não me lembro de nenhum.

Triste, é verdade. Mas seria bem menos dramático e trágico se vocês assumissem a imaturidade quando é preciso. Sejam sinceros, criançada, estufem o peito e, recusando abraçar qualquer tipo de compromisso, façam cara de choro e assumam:

- Tia, eu quero a minha mãe.

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O amor nos tempos da frescura

Num passado remoto, pré-frescuras e confortos, conseguíamos ser felizes de fato. Na carne, no roots, na frugalidade de um amor sem loja de conveniência. Lembra? Quando a gente sentia prazer sem firula, você se lembra?

Na época em que nem se sonhava com colchões box super queen king e todo um baralho de micagens, com pillow tops, lençóis egípcios, impensadas molas individuais ensacadas. A gente queria mais, no passado, era se mexer e o outro sentir mesmo, rolar pro lado caindo no buraco da cama velha. Amassar o cônjuge e dormir apertado.

E dormir, na verdade, era o que a gente menos fazia, pelo que me lembro.

Não só porque conforto não era o forte do passado, mas porque naqueles tempos, aqueles de que a gente sente falta, nós, amantes, nos ocupávamos mais de amar e ranger a madeira barulhenta do que deitar pra ver filme numa tela imensa na parede em frente.

Aliás, tinha vezes em que a gente não tinha TV. E tinha outras em que a gente não tinha parede. Um cômodo só, qualquer que fosse ele, era o suficiente pra felicidade.

Ser feliz, no pretérito perfeito, se traduzia no xodó do lado e mais nada. Zero exigências.

O sofá não precisava ter chaise, que dirá ser de quatro lugares. Melhor ainda se fosse de dois, se fosse poltrona, cadeira de balanço embalada num ritmo bom, um pufe, uma banqueta da cozinha - onde desse pra se apoiar e se amar já tava ótimo.

Quando foi mesmo que a gente criou essas necessidades?

Quando alguém decidiu que só dá pra tomar banho junto numa banheira cafona de hidro?

Que cortem-lhe a cabeça do canalha que caluniou e acabou com a ducha a dois. Que alegou frio nos poucos minutos que passou fora do raio de alcance da água quente do chuveiro. Ora, homem, não era só abarcar a mulher? Não era só dividir o banho que nem banho é, porque quem é que pensa em higiene numa hora dessas?

O negócio mesmo é ensaboar a moça. É lavá-la, esfregá-la, encostar no azulejo gelado e correr pro abraço.

Eu quero uma casa no campo. Quero um chalé, uma barraca, um lençol na grama. Às favas os casais que só sabem bem querer no luxo. Comigo, o amor será sempre agreste.

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Quando uma mulher trai

Homem esperto sabe que não é entre os copos de cerveja e petiscos dela, numa mesa de bar rodeada de amigas, que mora o perigo do adultério. Ele é mestre em enigmas e, em seu sudoku da psiquê feminina, não há quadradinhos vazios – ele já matou a charada.

Este cara, um gênio, bem dizer, entendeu em algum ponto da vida que a traição feminina não é nunca uma coisa abrupta. Que não há sem querer na nossa infidelidade.

Ao contrário dos homens, que via de regra escorregam depois de encher a cara de álcool e esquecer o nome de batismo, nós, as moças, somos diferentes. No universo feminino, não há espaço para crimes passionais fortuitos – somos do tipo que premedita.

Enquanto homens traem no impulso, especialmente ao fim daquela noite embalada por uma acalorada DR lá em casa, a gente se programa pra isso. Somos frias, calculistas, vingativas.

Porque não há maior premissa que encaminhe uma mulher para o pecado do que a sede de revanche. Seguimos, cegas, para dentro do box envidraçado no banheiro e, já ali dentro, estamos traindo alguém.

Traímos com a gilete que depila as pernas para outro. Traímos não com o sabão em barra comum, mas, sim, com o líquido importado, o gel de banho, o óleo perfumado. Traímos depois de ir à manicure, pedicure, massagista.

Separamos, para o grande dia, a nossa melhor roupa – e, se ela ainda não existir, a gente vai lá e compra.

Nos minutos que antecedem o adultério, a mulher arruma o cabelo, se perfuma, passa batom. Ajeita no quadril o elástico da calcinha boa, aquela que no dia a dia mora secreta numa esquina mal iluminada da gaveta, à espera apenas do momento do revide.

A traição da mulher é o troco, nunca o dinheiro inteiro.

É consequência, nunca a causa. É a réplica e não a deixa. É o contraponto, a volta, o segundo passo.

No macrocosmo feminino, não há Vadinho no mundo que justifique arriscar uma relação saudável. Já dizia o perito do sudoku: moça nenhuma se vinga do que não houve.

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Este não é um texto sobre mulheres de cabelos curtos

Cortei os cabelos. Estou irreconhecível.

Se você me visse na rua, não perceberia jamais que sou eu. Bem, você não perceberia de qualquer jeito, porque você nunca me viu na vida, o que por um lado é excelente porque se você é um maratonista e me odeia por causa daquele antigo e polêmico texto não poderá me assassinar no metrô me esmagando com seu Mizuno Wave, mas, enfim, o que importa é que nunca nos vimos mais gordos ou mais cabeludos ou mais dentuços, e o fato é que, acredite, estou parecendo outra pessoa.

Adeus, Rapunzel, olá, (insira aqui o nome de uma famosa princesa de cabelos curtos, porque eu, honestamente, não me lembro de nenhuma).

Pois vejam, mulher de cabelo curto é raridade. A Disney caga pra isso, esticando sempre ao máximo a cabeleira das heroínas. Uma pesquisa recente, aliás, mostrou que 80% das brasileiras preferem os fios longos porque acham mais sexy e que, ao cultivá-los deste jeito, agradarão mais aos homens.

Daí que este texto aqui, a partir deste exato momento, poderia virar justamente uma ode às corajosas que nadam contra a maré, cospem em pesquisas de tendência e esfregam seus cortes Joãozinho na cara da sociedade: vulgo eu. Vulgo você, que tem cabelo curto e que está me lendo agora.

Mas não sou previsível. Sou uma escritora talentosa, criativa, prestes, inclusive, a me candidatar à vaga deixada por um dos recém-falecidos na Academia Brasileira de Letras – e com isso me refiro não ao Ariano ou ao Ubaldo, mas sim ao Severino, que servia chá aos imortais toda tarde e semana passada enfartou, coitado.

Como eu dizia: eu surpreendo. E, por isso, esse texto não exalta as mulheres-de-cabelos-curtos. Primeiro porque não somos piores nem melhores que ninguém, assim como também não são as mulheres-de-cabelos-compridos-até-os-joelhos.

Segundo e principalmente porque esses textos que nós mulheres escrevemos louvando qualquer característica física feminina (as narigudas, as de peito pequeno, as gordas, as cotoveludas, as com pelo, as peladas) são, na verdade, uma tentativa desesperada de nos justificar perante um mundo que nos julga e nos compara a todo minuto.

Eu não quero me defender de nada. Eu não quero ter que fingir que me acho superior a alguém para me sentir segura.

Se eu cortei o cabelo e estou me percebendo mais fodona que antes por causa disso, pô, que bom pra mim. Se você tem um nariz maior que o meu (duvido) e por isso se acha a última Calipso do pacotinho, sério, animal, isso é excelente.

Tudo vale a pena quando a alma não é pequena, já dizia aquele powerpoint que você mandou por email pra todos seus amigos nos anos 2000. O que quer dizer, basicamente, que, se você não é uma megera mesquinha que precisa diminuir os outros para se sentir poderosa, já tá ótimo, pode tudo.

Retomando, este não é um post sobre mulheres de cabelos curtos. É sobre mulheres que fazem escolhas buscando a própria satisfação e felicidade. Sobre meninas que querem ser felizes do jeitinho que acharem melhor naquele momento. É um post sobre aquelas que preferem se unir a competir umas com as outras.

Em outras palavras, um texto sobre mim, basicamente, e, óbvio, um texto também sobre você, sua linda <3

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Como não se tornar alguém igual a mim

Clap clap clap clap clap (salva de palmas, eu digo).

Bem-vindos à minha palestra motivacional.

Durante os próximos 40 minutos, vocês ouvirão dicas sobre COMO NÃO SE TORNAR ALGUÉM IGUAL A MIM, assim mesmo, em caixa alta. Não dá pra ouvir o Caps Lock quando a gente tá falando, óbvio, eu sei, mas acho importante frisar, afinal é o título da palestra, vocês pagaram por ela, acho até que pagaram mais do que valia, mas, enfim, continuemos.

Bem-vindos. Legal vocês aqui.

Estou vendo que são todos muito jovens. Todos, não. Todas. Porque só tem mulher. Ah, desculpa, não tinha te visto. Seu cabelo meio compridinho, também, me deixou em dúvida, e depois dos 30 fiquei meio míope.

Todas + 1. Todas vocês MAIS UM, viu?, tô te incluindo, rapazinho, alegre-se, todo mundo na casa dos vinte e poucos, na flor da idade, justamente meu público alvo. Aqueles a quem, estou aqui para provar, ainda há um caminho de salvação.

Sim, moçada (gosto do vocabulário JOVEM), ainda resta uma esperança. Mirem-se no meu exemplo, e dele corram sem olhar pra trás.

Sim, porque, se há um lugar em que mora a felicidade, ele não é aqui. Neste corpo ligeiramente murcho, nesta cara esgotada, nesta mente ultrapassada e obsoleta.

E sabem por que, meus petizes?

Porque eu fiz escolhas erradas. Péssimas. Execráveis. Fui uma incompetente.

Descasei 14 vezes. Fiz carreira vendendo joias na Vivara, mas botei tudo a perder quando fugi pra Venezuela com um homem casado que comprou comigo alianças e um brinco de jade. Eu podia ter virado gerente. Eu podia ter ganhado bônus. Mas não. Eu caguei.

Caguei e tô aqui, fracassada, cansada, mas ainda com um resquício de fé aceso feito chama dentro do estômago protuberante. E não, eu não tô falando do refluxo que apareceu quando fiz 42.

Enfim.

Cobrei de vocês um preço ligeiramente injusto apenas para recomendar que vocês, quando de frente para aquela bifurcação que subitamente lhes apresenta a vida, sigam pela estrada de tijolos amarelos – eu escolhi a de bolinhas e me fodi.

Não tenham quatro filhos de quatro homens diferentes, como eu fiz. Não façam um financiamento pela Caixa para comprar um apê na Mooca, como eu fiz. Não mudem pra Vivo, não peguem o pacote mais caro da NET, não comprem as sessões promocionais de drenagem linfática do Groupoun – olhem esta bunda e me digam se acham que esta merda adianta alguma coisa.

Pois é, não muda. Nada muda. Mas vocês, garotada, ainda podem mudar. Saiam daqui e façam história. Sejam senhores de seus próprios destinos.

E, depois, se nada der certo, não se desesperem: vocês ainda podem virar palestrantes motivacionais.

Clap cla... (tímidas palmas, eu digo).

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Vamos tomar um café?

Cuidado, mocinha desavisada. Abre o olho, rapaz bonzinho que não desconfia de nada. O novo manual de etiqueta dos relacionamentos fugazes foi revisto e ampliado este ano, e pode ser que você esteja por fora das atualizações.

Tá sabendo da novidade?

Tá a par de que, quando aquela figura do outro lado da tela faz convite prum café, isso significa que, na verdade, ela está querendo dizer (e fazer) outra coisa?

Ou você achou mesmo que ele queria tomar café?

Não, xuxu. O “vamos tomar um café” é o novo “quero te comer todinha” – ou, no caso daquela fofa que te chamou prum cappuccino à tarde, “quero te dar bem gostoso hoje”.

Primeiro que ninguém gosta de café tanto assim.

Sim, você sabe diferenciar um latte dum curto de olhos fechados, e ninguém no mundo tem tantas cápsulas de Nespresso em casa quanto você. Beleza. Só que, mesmo assim, mesmo com todo esse expertise, era bom você tomar cuidado na hora de sair propondo xicrinhas por aí.

Ela pode te entender errado, e esperar de você muito mais que um descafeinado sem compromisso.

No manual, tomar café é eufemismo com adoçante.

Diz o que ninguém tem culhão de dizer na lata, e ajuda os mais tímidos a levar pro sofá do Starbucks o objeto de desejo sem precisar abrir o jogo com honestidade.

A amiga do seu namorado mandou Whatsapp pra ele convidando pra um café? Abra o olho, minha querida, porque um espresso é a última coisa que ela quer dividir com seu amado.

Menos mal seria se ela tivesse falado “vamos tomar um chope”.

Juro.

Não tema o happy hour, bonita, libere-o sem medos, não há qualquer risco de traição. Diga pode ir, meu amor, deixe-o chafurdar na cevada, no lúpulo, na pinga, na cachacinha de tonel.

Nestes tempos loucos em que vivemos, a cerveja se transformou numa das coisas mais inocentes de todo o cardápio sexual.

Mas o café, ah, pro café abra o olho, fique esperta, e já pense em contratar um detetive.

*Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos ou acontecimentos terá sido mera coincidência

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Não vai ter cópula

Já era, não vai ter cópula.

Pode recolher sua bandeirinha e baixar o mastro, desencana, não vai rolar. Manda cada um dos seus onze homens de volta pro vestiário, cabeça tombada, humilhados, chuveiro gelado e direto pra cama.

Não vai ter cópula, amor.

Culpe os metroviários. Eles me deixaram cansada. Foram horas até o trabalho, séculos pra conseguir voltar, um trânsito da porra, estresse, quase infarto, então por isso repito: não vai ter, esquece.

A chuva também tem sua responsabilidade, vamos combinar. Armou meu cabelo, arruinou meu make, tô aqui toda cagada e sem autoestima nenhuma. Como é que você quer que tenha cópula assim?

Sem condições.

Fora que aquele monte de dívida ainda me assombra, penso nisso noite e dia, tem o problema da sua mãe que só me critica, tem a cama que faz barulho e acorda o vizinho de baixo, não se pode mais nem ser feliz nessa cidade.

Em São Paulo, é difícil ter cópula.

Como botar a bola em campo se ela anda murcha e fora de forma? Como esperar que o zagueiro dê conta da pressão se a torcida é cruel e desalmada? Como é que a gente se concentra no pênalti com a barulheira dos manifestantes fechando a Paulista?

Sinto muito, baby, mesmo, mas é melhor assim.

Até porque, imagina na cópula.

Você ia dar conta de mim, sua fogosa Larissa Riquelme de celular nos peitos e gritando histérica? Duvido. Você ia dar um chutão pro alto, que eu bem te conheço, meter um Baggio e envergonhar seus cachinhos ridículos diante da multidão.

Esquece a cópula. Tira a cerveja do gelo, joga esse bando de amendoim temperado no lixo, e ajeita o sofá com chaise – é lá que você vai dormir hoje, sem TV, sem vitória, sem gol.

*Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos ou acontecimentos terá sido mera coincidência

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Festa junina FAIL

Seu filho tem manual? O meu também não. Nem o da minha prima Sofia lá de Marília, nem o da Rosa moça que trabalha comigo, nem a filha da minha amiga de infância Patrícia.

E aí a gente que é mãe fica assim, tudo desorientada. Tudo agindo no improviso.

Sou uma profissional do stand up materno. Me viro nos 30, giro pratinho, abro os nove braços feito deusa indiana na hora de criar sozinha um cara que conheci tem pouco tempo, mas que me dobra mais que qualquer homem no mundo.

Meu filho me quebra as pernas – que ótimo, cheia de braço e perneta, bem útil.

Ontem teve festa junina na escola.

Puta esquema, turno trocado no trabalho, plantão de madrugada descabelada e sem maquiagem pra poder sair na hora certa e acompanhar a dança. Tanto ensaio na semana, né, tanta marcação decorada, camisa xadrez passada, chapéu de palha da Teodoro Sampaio. Tava tudo lindo, tava tudo dando certo.

Mas ele não quis dançar.

Esfregou com o dedo o bigode maquiado, borrou a cara de lápis da Vult do queixo à testa, batendo o pé e botando bico: não vou.

Cadê a psicóloga ali do meu lado? Cadê a Super Nanny comigo na quadra dizendo o que eu devo fazer e falar?

Se vira, bonita. Fala qualquer coisa. Apela pra chantagem, compra a criança com figurinha da Copa, diz que vai dar bala se ele dançar bem bonito e sorrir pra foto. Ameaça. Belisca. Ou chora junto, dizendo que não tem outro filho pra bailar quadrilha e que ele pode ser o divino salvador.

Daí, quando nada funcionar, pede pra mãe do amiguinho olhar o moleque enquanto vai lá fora fumar um cigarro e chorar baixinho, mandando mensagem no whatsapp dizendo que eu sou mesmo uma bosta, um fracasso. Que nem pra isso eu sirvo.

Porque mãe é tudo um bando de culpada. Acorda com culpa, dorme com culpa, se culpa pela culpa de sentir culpa a toda hora.

Na volta, pode ser que o moleque tenha decidido dançar o finalzinho da coreografia. Pode ser que suba no palco ao menos pra dar um tchau e uma voltinha. Pode ser que ele desça com cara de dúvida, sem saber o que você pensa do que ele decidiu. Pode ser que você também não saiba o que pensar e, no improviso, escolha ficar orgulhosa e, mais rindo que chorando, acolha o carinha sem manual num abraço, quase confusa sobre quem mesmo cuidava de quem.

*Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos ou acontecimentos terá sido mera coincidência

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