Doente imaginária

Quer uma cestinha? Quero. Muito. Me dá logo três. Não tem carrinho? Sabe como é, quando entro numa farmácia fica meio impossível me controlar. Deslizo feliz entre as gôndolas, desando a precisar de tudo, acho que tenho diabetes, joanete, lábio rachado, onde fica mesmo a seção do mertiolate?

A moça me estende uma promoção do pack com três desodorantes. Haja cecê. Mas, veja, tá mega em conta, economia total de 7 reais, poxa vida. Isso dá o quê, uns dois cafezinhos e meio? Me dá que eu vou levar.

Só tem um problema: eu quero cheirar esse troço. Que cheiro tem o algodão em inglês? Qual o aroma da atração, da sedução, da vida ativa? Esses nomes também não ajudam. Nem o gerente, que não deixa a gente provar. Talvez se eu me esconder aqui atrás do Rexona 48 horas de duração e der uma espirradinha... Merda. Rompi o lacre. Quem nunca.

O bom dos sabonetes é que a violação não fica tão evidente. É só futucar um buraquinho no fecho da lateral, ninguém nem vê que tá descolado, e aí apertar pra sair o perfume. Curto sabonete de velhinha. Sabão de tocador. E sou totalmente atraída por embalagens com fotinhos de famílias saudáveis sem bactérias.

Por falar em bactéria, tô precisando de álcool gel. Seria bom também uma água boricada, porque nunca se sabe. Gaze é ótimo, violeta genciana, nossa, olha que fofo esse negócio de tirar calo todo cor de rosa!

Meu maior problema, moço, é na verdade a celulite. Me mostra alguns daqueles seus cremes caros que emagrecem. Sim, eu sei que não emagrece, mas remove o aspecto de casa de laranja. Tem uma moça com uma almofada na bunda na propaganda. Sabe de qual que eu tô falando?

Virge, credo, muito caro. O que você tem de mais barato?

E pra rugas?

Queria que esticasse aqui, ó, tá vendo onde faz um vinco? Sim, eu uso protetor solar todo dia. Eu sei me cuidar. Tô só te mostrando pra você entender. Aliás, é tão bom vir aqui, vocês me escutam, vocês me cuidam, eu me sinto tão importante.

E, mais do que tudo, eu gosto muito e especialmente da hora em que o moço bonzinho do balcão me ajuda a preencher a receita do antidepressivo. Aquelas duas folhinhas juntas, com o cheirinho bom do carimbo para os dados, ah, que coisa boa.

Claro que eu vou avaliar o atendimento no caixa. Óbvio que eu tenho o cartão fidelidade. Obrigada, amiguinhos. E amanhã eu volto pra buscar alguns esmaltes.

Posts Relacionados

Enchendo a cara de botox

Depois de sofrer por uma semana, finalmente se faz a luz. Depois de chorar nos últimos sete banhos com a testa encostada no blindex, de soluçar entre as garfadas dadas nas suas vinte e uma refeições mais recentes, parece que agora vai. Ao que tudo indica, você está se recuperando de um pé na bunda.

Não que não vá doer nunca mais – a cura não é linear. Mas, mesmo sendo algo assim tão recente e frágil, talvez mereça uma comemoração. Um marco. Uma efeméride a ser lembrada na posteridade.

Sendo assim, acho que vou cortar o cabelo. Ou pintar de ruivo. Talvez compre um cachorro, não sei. Entrar pra academia é clichê demais pra mim, mesma coisa terapia. Vou ousar. Vou pra revolução. Vou me mudar de casa, será? Quem sabe encher a cara todo dia. Quem sabe encher a cara de botox de vez em quando.

Daí eu apareço toda maquiada e escovada e de longo no tapete vermelho dalgum lugar, nem que seja da portaria lá do prédio, e me fotografam e se colocam a questionar o que terei eu feito na cara para mudar tanto de expressão e não me parecer mais comigo mesma.

Porque não vou mesmo me parecer. Não terei nem mesmo a sombra da pessoa feliz que fui um dia, só mesmo um olhar de vidro de boneca Estrela, e um nariz fininho que eu nunca fui capaz de ter.

Atribuirei tudo isso – a infelicidade, o olho torto, o nariz da Anitta – à falta que ele me faz. Ao buraco que ele me abriu no peito quando disse que ninguém nunca mais ia me querer.

Só que, né?, pode parar com isso. Ninguém leva de ninguém mais do que discos, uma aliança, camisetas de banda, algumas fotografias e, no máximo, o gato adotado juntos na feirinha da Cobasi. Não tem como roubar o ego de ninguém.

A menos que você deixe. E, o primeiro passo pra isso acontecer, é, enquanto ainda estão juntos, você entregar seu eu ao outro. Na confusão da cama, da mesa e do banho deixar escapar mais que palavras e carinhos – olha lá sua alma indo embora de bandeja para ele, diga adeeeeeus!

Querer fingir que superou e virar outrem depois do fim é o maior sintoma de que você já no durante não existia mais. Por isso, agora é hora de um reencontro (não com ele, sossega). De fuçar aí dentro pra achar o que um dia foi sua personalidade, e, então, recolocá-la de volta em ação. Nada de tinta azul na cabeça, nada de preenchimento na testa.

Não há jeito melhor de descolar alguém que decida te achar musa e para sempre te querer – a começar por adivinha quem: você.

Posts Relacionados

Profissão: mulher bonita

Fulana de Tal. Vinte e tantos anos. Formação: jardim de infância, colégio, faculdade, essas coisas. Arranha no inglês, manja de Windows, boa profissional. Mas, ó, tem uma coisa. Fulana é bonita. Tá lá no currículo. Competente, garanto. Difícil de acreditar, eu sei.

Porque é essa a regra. Bastou ser acima da média pra virar um fenômeno digno de estudo. De matéria na TV. Ela é linda e - pasme, mundo - tem uma profissão como todas as outras mulheres do mundo! Oh! Ela é gata e – liguem as câmeras – trabalha das 10h às 17h todos os dias!

E não só trabalha, né. Que o espanto vem também do fato de trabalhar DIREITO. De fazer bem feito tudo aquilo a que se presta, sem se valer do fato de ser bela.

Na cabeça miúda de quem ainda vive em 1800, a beleza é sinônimo de vida ganha. Ou, às vezes, de invalidez. Dependendo da cara com que se nasce, se for harmoniosa além da conta, as chances de não precisar ralar aumentam. Assim como as de não saber fazer nada também.

Daí vira um acontecimento o fato de se encontrar uma moça gata que se dispõe a, sei lá, fritar pastéis na feira. Mas ela não podia estar sentada em casa de pés pra cima se abanando e só sendo linda?

Não, não podia. Quer dizer, de repente até podia, porque existe mesmo gente que não precisa trabalhar, mas aí, amiguinhos, é algo que tem a ver com dinheiro na conta e não com o formato da cara ou o olho assim ou o nariz assado.

Beleza não tem a ver com currículo. Não condiciona competência.

Por isso, uma manicure bonita não tem nada de extraordinário. Assim como também não é exótica uma engenheira linda.

Mas ela é tão gata, impossível que não se ache! Ela é tão tudo, não se nasce com mais de um predicado na vida!

Possível, sim. Nasce, sim. Não tô eu aqui toda humilde e talentosa escrevendo esse texto espetacular para vocês?

Posts Relacionados

Vamos dividir?

O moço vem chegando com aquele treco de couro na mão e dá pra sentir a tensão mais forte que o cheiro de fritura empesteando o ar do restaurante. Logo se vê que é um momento complicado. Sua cara de pânico talvez tenha alguma conexão com um trauma da infância, pode ser também que seu saldo esteja mega negativo, mas o fato é que eu já saquei o que é que tá pegando aqui – você acha que eu quero que você pague o jantar pra mim.

Mas você está enganado. Olha que sorte.

E o fato de não ser dessas, do tipo que curte ser bancada por alguém, não tem nada a ver com orgulho nem feminismo. Tem a ver com bem estar, com o que me deixa confortável. Em um relacionamento, curto dividir a vida com quem amo – isso inclui planos, pipoca no cinema, criação dos filhos, e também a conta no final de tudo.

Nem se o Eike, em tempos áureos, quisesse me mimar, eu acho que deixaria. E olha que, pelo homem que adoro, eu até topo usar coleira no carnaval, desfilando pela Sapucaí ocupada e radiante. Mas, quando o assunto é grana, conto moeda e como no dogão pra não precisar que me custeiem.

Até porque o verdadeiro amor se prova na pindaíba. Se mostra inteiro – ou sai correndo – na hora em que não há prestígio nenhum. É só quando se tem um sobrenome xumbrega, daqueles que não abrem portas nem no hotel pulguento no centro da cidade, que se mede com precisão o tamanho e a validade de uma paixão.

É muito fácil amar Ronaldos. A chama acende fácil quando se tem em mãos um passaporte para o luxo e a bajulação.

Mas sou daquelas que gostam de desafios. De provar devoção mais na pobreza que na riqueza. Rachando as contas, sou mais feliz. Meiando tudo, sou mais inteira.

Menos doping, mais amor

UFC o quê? União das Famosas Calcinhas. Unidos do Fecha Comício. Uárever. Sério. Entendo tanto de luta e porrada quanto de astronomia e física nuclear. E, ainda que conhecesse o regulamento, nada me faz sentar pra assistir uma disputa, mesmo que no meio do ringue esteja o Anderson Silva. Não curto.

Até por isso, confesso que não poderia me importar menos com a polêmica do doping ou do não doping – juro que pra mim tanto faz. Até porque, mocinhos drogadinhos, quando longe, são caras inofensivos e dão até barato e ataque de riso no meio duma turma de amigos. O problema, na verdade, é quando eles passam a fazer parte da sua vida.

Tipo aquele cara que precisa sempre fumar um negocinho antes de sair com você. E que, quando chega na balada, encarna o pastor alemão e fica farejando a multidão para tentar encontrar o dono do cigarro proibido.

Tem o drogadinho de desejos simples, que carece “apenas” de um uisquinho antes de te levar pra cama. Ou o drogadinho radical, que cultiva o hábito de visitar longamente os banheiros de todos os restaurantes onde vocês jantam.

Mas, qualquer que seja a classe do moço que te acompanha, todos eles têm algo em comum: empatam sua vida. Atrasam a porra toda, embaçam pra sair de casa, adiam o sexo e interrompem o sono só pra poder dar aquele tapinha no seu estimado vício.

Porque tem isso também. O drogadinho é no fundo um viciado e não admite. Porque ele só fuma pra relaxar. Só bebe pra descontrair. Só cheira pra desestressar.

E todo mundo, de você que acabou de conhecê-lo até os amigos e a mãe do cara sabem que, na verdade, este é um comportamento que tem potencial pra virar um problema e dar trabalho.

O que vai, automaticamente, fazer com que você descarte o drogadinho da sua lista de possibilidades, assim que perceber que não, você não precisa disso. Que é muito mais legal, por exemplo, decidir sair de casa e então sair imediatamente, ao invés de ficar esperando alguém cumprir seu ritualzinho destrutivo.

Ou mesmo poder marcar um compromisso público importante pra dali um mês e passar este tempo de expectativa numa boa, sem ansiedade, sem precisar se encher de bomba pra segurar a onda da insegurança de não dar conta do recado de cara limpa.

Aliás, tá aí algo que modificaria para sempre a humanidade: se os homens incríveis por quem a gente se apaixona se percebessem da mesma maneira que a gente os percebe. Fantásticos, capazes, poderosos. Talvez até dessem um tempo no baixo astral e passassem a se curtir no mesmo tanto que a gente os curte. Não custa nada sonhar.

Posts Relacionados

Procura-se um amor (e água) para o Carnaval

Volto de férias e... VRRRÁ, já me bate na cara a notícia de que não tem água na cidade. Nem luz. De que tem Renan Calheiros, de que tem uma pilha de conta entalada debaixo da minha porta, de que tem dois paus negativos no banco, de que tem minhas gatas morrendo de fome sozinhas, mas, ó, água não vai ter. Isso dói, sabe, especialmente pra alguém que passou 35 dias tomando banho, lavando a mão, dando descarga, tudo feito um ser humano normal e higiênico.

Ainda nem esvaziei a mala de roupas (até porque não tem como lavar nenhuma), mas já dei início ao campeonato mundial de empilhamento de galão de água no corredor de casa. E de lencinho umedecido na gaveta do banheiro. Ouvi na TV que álcool gel é a única coisa que substitui água e sabão de verdade, mas, né, tudo bem passar na mão, já na bunda vamos ter que nos virar com algo mais suave. E shampoo seco é o cacete, que não sou rica, então o estoque de talco já tá lá no gabinete.

A única coisa que ainda me preocupa é o Carnaval.

Não só porque, óbvio, é tanto bloquinho que eu não consigo me decidir, passar sombra azul ou verde, e eu nem sei se minha fantasia bem sacada e divertida será bem recebida pelas multidões. Mas este não é o ponto – o ponto, na verdade, é que este não será um Carnaval típico, justamente porque... VRRRÁ, não tem água.

Ou vai me dizer que você tem coragem de, como em todos os anos anteriores, passar o rodo e catar a primeira que aparecer, sabendo que ela tá sem água em casa? E de pegar outra e mais outra, ciente de que, assim como todas, elas também não têm uma gota do volume morto saindo da torneira no apartamento? Como vai confiar que debaixo daquela odalisca não haverá um gambá disfarçado?

Este Carnaval entrará para a história como o pior dos carnavais para os solteiros. O que significa que você, eu e 90% dos paulistas estamos ferrados. E olha que não sou das mais exigentes, não – topo sem grilos um cabelinho ensebado por estilo, acho cecê masculino algo inevitável, e suor no meio dum momento selvagem acaba que é até um elemento interessante. Mas esquema pegação com desconhecidos na seca total, putz, daí complica.

O certo seria todo mundo agora meio que providenciar companhia fixa, ainda que isso signifique anular boa parte da graça típica da folia. Eu sei, dói, magoa, mas é o jeito. Questão de sobrevivência.

Ao menos assim dá para garantir um amor mais asseado. Vocês podem, por exemplo, brincar de passar baby wipes um no outro, juntinhos, no escuro (tá sem luz, lembra disso). Lambuzar de álcool gel estes pés cansados de tanta andança em blocos, estas mãos imundas das baquetas da alfaia hype na bateria da Vila Madalena.

É um jeito fofo de assegurar que, sim, haverá paixão – pode não ser tanta quanto você queria, mas, pô, já é alguma coisa. E que, sim, haverá condições sanitárias para isso por pelo menos quatro dias. Depois, ah, depois a gente vê o que a gente faz.

Posts Relacionados

Um carro, duas crianças e a morte de toda a humanidade

A cena na TV mostra um carro de portas abertas e dois corpos inertes nos bancos da frente e de trás. O apresentador, confuso, se pergunta se ambos estão mortos. Estão. Embora não seja isso que a legenda com a notícia mostre, porque o adulto ao volante se levanta e abandona o veículo cambaleando, pai e filha morreram, sim, juntos, naquele exato momento.

Não é o primeiro nem será o último caso de criança esquecida dentro de automóvel no mundo. É uma tragédia tão mais comum do que deveria que, ontem, enquanto o canal noticiava o caso de São Bernardo, sites na internet contavam também a história de uma mãe horrorizada na mesma situação em outro canto do país.

E mesmo o fato de ser uma fatalidade relativamente frequente não faz destes pais e mães criaturas irresponsáveis. Pelo contrário: é por sua responsabilidade que estão onde estão. É por ceifar seu bem maior com as próprias mãos mas de olhos vendados que, agora, assistem ao mundo ruir sem qualquer chance de volta.

Estes pais são, junto com seus filhos, vítimas de um murro atroz do destino que os condena, também, à morte – mas uma morte em vida, imutável e infinita.

Viverão pela metade, corroídos pela culpa e pela ausência. Já não é cruz suficiente?

Ao que parece, não. Porque, assim como acontece com qualquer assunto controverso em tempos de juízes convenientemente escondidos atrás das telas de seus computadores, este pai, esta mãe e todos os outros que no passado cometeram o mesmo erro agora são achacados e condenados internet afora, como se carregassem qualquer tipo de intenção de culpa além daquela que já os penalizou para o resto dos dias.

Tais comentários perversos espalhados por redes sociais e sites de notícias não têm serventia alguma exceto funcionar como vitrine da total falta de compaixão da humanidade. Causa nojo testemunhar tanta gente acima do bem, do mal e imune às tragédias do mundo.

Que encontremos a paz, nós que ficamos. E que sejamos capazes de nos perceber como irmãos também na hora do consolo, porque de união pelo ódio já estamos saturados.

Posts Relacionados

Mulher procura sinal onde não tem

Se ele estava de meias soquete, se tirou uma carninha do dente no meio da conversa, se a mensagem no celular chegou às 23h ou à meia noite, se pediu caipirinha com vodka e não cachaça – tudo pode significar alguma coisa. Mas é só isso mesmo: poder. Porque significar mesmo, não significa nada.

Mulher procura sinal em tudo. A gente vê coisa onde não tem.

Diferentemente da praticidade masculina, o detalhismo que nos rege escarafuncha qualquer cena atrás de vestígios, provas, indicativos. Tudo que vocês disserem pode ser usado contra ou a seu favor, vai depender do que a gente quer.

E, se o que queremos é que vocês estejam apaixonados, na mesma vibe, daí, então, viramos as loucas das minúcias.

Identificamos no seu modo de chamar o garçom algo de suma importância para o futuro da humanidade. Se disse “amigão” é porque temos chances. Se optou por “chapa” pode esquecer. E é tudo assim mesmo, não fazendo o menor sentido.

Relatamos histórias às amigas esquadrinhando tudo tipo roteirista de animação da Disney. Quadro por quadro, analisamos o jeito que cada pelinho do seu braço se mexeu, a fim de determinar se aquilo é um sim ou não.

Viramos mestres e doutoras em linguagem corporal. Em numerologia. Cromoterapia, perícia criminal, medicina legal, tudo.

Transfiguramo-nos em centrais de telemarketing da TIM – enxergamos e juramos pela família toda que há sinal onde não tem.

Feito tontas segurando o celular lá em cima da cabeça, trepadas na árvore da montanha mais alta do topo do Himalaia, caçamos um quadradinho que seja de indício de que vocês nos amam. Ou nos odeiam. Ou o que quer que nos convenha naquele momento.

O encontro de ontem à noite, que foi legal e durou três horas, leva cerca de 17 para ser descrito por uma mulher à outra. Não podemos deixar passar nada, porque vai que aquilo simboliza um presságio importante, não é mesmo?

Enquanto que, se um sujeito pergunta ao outro como foi o chopinho do amigo com a menina do Tinder na noite passada, ele vai dizer “legal” e boa, acabou a discussão.

No mundo da telefonia romântica, estamos sempre correndo em busca do 4G mais potente e expressivo, enquanto vocês relaxam de boa com o celular desligado mesmo, jogando Angry Birds até que a próxima antena da Vivo apareça.

Aliás, olha aí um sinal de alguma coisa: a operadora que ele escolheu. Isso quer dizer muita coisa. Está relacionado com o desejo dele de falar conosco mais barato ou não. Do tanto que ele quer se comprometer. Tem a ver com sua preferência por SMS ou Whatsa... argh, olha só. Quase que eu faço isso de novo.

O namoro Senhor dos Anéis

Lá vem ele rolando, brilhando, fazendo barulhinho enquanto escorre pelo chão e você – e mais 309 colegas – correm atrás desesperados, tentando agarrá-lo. Sabe o que é isso? É um relacionamento Senhor dos Anéis.

Neste tipo de relação, tudo acontece igualzinho ao filme.

O anel, este que caiu da mão de alguém e agora foge até ser capturado por seu próximo dono, é aquele cara mara, é aquela mina perfeita. O anel é a pessoa dos seus sonhos, e reluz tão cintilante e vívido que quase cega.

Daí sai você, desvairado (ou desvairada, porque o Senhor dos Anéis não escolhe sexo), achando que aquilo ali é o melhor que pode acontecer para sua vida, que aquela relação vai te trazer felicidade, paz, pôneis, e tudo que de bom se pode encontrar num amor de verdade. Só que não.

Porque um namoro Senhor dos Anéis só parece legal, mas é exatamente o contrário disso. Ele é treva, ele é escuridão. Ele é o Elijah Wood todo estragado, pálido, destruído.

Difícil é se dar conta disso. Porque o anel fica tão deslumbrante no dedo, a sensação de poder é tão grande, que mesmo que seus amigos tentem te avisar da roubada em que você se meteu, nada vai adiantar. Você não vai querer se separar dele nunca mais.

O problema maior do relacionamento Senhor dos Anéis é que ele desperta em você o que de pior há na sua personalidade. Aquele lado escuso que todo mundo, aquele defeito que a gente trata por anos na análise, contra quem a gente luta desde que tinha, tipo, seis anos de idade.

O Senhor dos Anéis vai fazer brotar isso em você. Você vai ficar falando “my precious” e não vai nem perceber.

Este tipo de relação vai fazer brilhar essa sua porção desprezível, e apagar tudo que de bom havia no seu ser.

E, mesmo assim, você não vai querer abrir mão do anel. Você vai se achar melhor com ele do que sem, e morrerá só de pensar em, um dia, vê-lo partir.

E, ainda que, um dia, isso de fato aconteça - a relação Senhor dos Anéis escorregar do seu dedo – você vai demorar para se dar conta de que, agora, poderá voltar a ser um Elijah do bem. Uma pessoa saudável, com defeitos, sim, mas alguém em quem as virtudes saltam muito mais aos olhos do que as imperfeições.

Você ainda tentará reconquistar o namoro Senhor dos Anéis. Ainda mais depois de ver um montão de outras pessoas correndo atrás dele também, iludidas pelo que o anel promete de bom: a paz, os pôneis, as selfies juntos, as viagens pro litoral.

Mas não se iluda. Seja forte. Resista à corrida atrás da relação tóxica, deixe-a rolar solta pelo chão e torça para que ninguém a pegue, e que ela acabe, assim, no fundo de um rio, presa no lamaçal.

Quer dizer, isso se ninguém resolver dar continuidade à trilogia e começar a filmar a parte II.

Posts Relacionados

Andressa vai morrer, e a culpa é de vocês

Qualquer que seja o desfecho do caso de Andressa Urach, o culpado será o mesmo. Quer ela saia do hospital, perca a perna, ou acabe morrendo, não importa – a responsabilidade é toda de vocês, homens.

Claro que nenhum cara a obrigou a injetar nada nas coxas ou em qualquer outra parte do corpo. Nem a fez, desde sempre, perseguir uma beleza e uma perfeição impossíveis, se modificando e violentando com intermináveis cirurgias e intervenções. Não, realmente estas opções foram todas da Miss Bumbum.

Mas, por trás disso tudo, de toda a paranoia sem medidas, há uma entidade que, ainda que sem perceber, controla as atitudes de todas as Andressas espalhadas pelo mundo, provavelmente até mesmo as suas, moça que lê agora este texto.

Esta entidade se chama raça macha.

Por enxergarem cada vez mais as mulheres como itens descartáveis, os homens acabam levando as mulheres à insanidade absoluta. Por sermos tratadas, em nossa grande maioria, como mercadorias que devem estar sempre em sua mais absoluta e reluzente forma, nos concentramos em estar eternamente firmes, apetitosas, lisas, jovens.

É porque os homens nos trocam com tamanha facilidade pela menina mais bonita e mais nova que nos desesperamos. A culpa é de vocês se passamos a nos enxergar como inadequadas, imperfeitas, incompletas.

E óbvio que não foi sempre assim. Estávamos bem até pouco tempo atrás, e foi só quando vocês começaram recentemente a viver como se empurrassem carrinhos numa mercearia, escolhendo tudo pela aparência e abrindo mão por completo de algo que lembrava o amor verdadeiro, que a coisa desandou.

Vocês, agora, amam bundas, peitos, barriguinhas perfeitas. Deixaram no ar uma saudade de quando uma mente sagaz e um coração dócil tinham valor de mercado.

Porque não queremos ser trocadas, porque queremos ser escolhidas e mantidas, nos apressamos atrás das melhorias a qualquer custo, para conseguir um nariz (empinado) de vantagem em relação à nossa concorrente. Óbvio que amamos o belo para deleite próprio, mas há tempos que esse deixou de ser o nosso norte.

Estamos valendo tão pouco que o risco de injetar líquidos escusos no organismo acaba parecendo legítimo. Remendamos não só nossas formas, mas também nossa mente, em busca de ticar os pré-requisitos que vocês, homens, nos impõem. Nos preenchemos, esvaziamos, esticamos, cortamos fora – e é só quando uma tragédia como a de Andressa acontece que somos capazes de enxergar uma luz de coerência no fim do túnel.

Perturbadas com a história medonha da moça que só queria ser perfeita, passamos a nos questionar sobre até onde estamos indo. Nos indagamos se fomos longe demais, se o nível da crueldade que impomos a nós mesmas já não ultrapassou o limite há tempos, e se é chegada, talvez, a hora de parar.

Mas, por mais que a identificação com Andressa nos leve à reflexão, é bem pouco provável que ela nos conduza à conclusão de que não somos os réus nesse processo todo – e que, na verdade, eles é quem são culpados.

Este texto é, sim, pretensioso a ponto de entender que está aqui para ajudar a nós todas. Para nos fazer botar, juntas, o pé no freio, e incentivar a contemplação de que talvez estejamos tentando capturar a atenção e o amor de uma maneira autodestrutiva demais, e que não vai nos levar a lugar algum. É uma guerra perdida – sempre haverá um corpo mais perfeito que o seu, mais jovem que o seu, mais gostoso que o seu.

E é quando vem a pergunta: E DAÍ?

Será só a partir do momento em que passarmos a viver por nós mesmas, e não pela guerra competitiva imposta pelos homens, que teremos, então, alguma chance de sairmos inteiras no final da história.

Posts Relacionados