Foi o amor que derrubou o avião

Enquanto nas gravações soterradas na neve o que se ouve são a inércia e os gritos finais dos passageiros, na caixa preta do afeto o cenário é diferente. Brados, sim, mas de apego, estampidos não de diesel, e sim de adoração, sussurros desesperados de pânico e paixão. O medo da perda e da solidão. Que loucura, o quê. Foi, na verdade, o amor quem jogou o avião no chão.

Foi abandonado no altar, o moço, dizem as notícias. E é então quando não mais importam as montanhas de atestados que se encontrem. Que vasculhem gavetas, pastas, memórias rígidas. Que se comprovem diagnósticos cabeludos, doenças inéditas, pedaços faltantes do cérebro ou incapacitantes travas nas mãos, pés, no peito.

No copiloto havia um buraco.

Daqueles que remédios não curam. Que desabafos no ombro de trinta cabras amigos amenizam, mas só pra voltar a latejar e doer na manhã seguinte.

Um homem com uma dor no comando.

Possível que, além da cabine, tenha se trancado em tantas outras clausuras, só pra fugir do desamor de ser largado, a sós com a rejeição.

Possível também que fosse louco, por que não. Afinal, como disse o poeta, nenhuma morte é possível - sua ou de outrem.

Mas se há uma certeza espalhada entre os destroços dos Alpes é a de que, antecedendo a queda e a colisão, um coração já havia explodido bem antes daquele embarque.

 

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De onde vêm

Se pelo menos a gente não tivesse sentado cada um de um lado dessa mesa. Se o garçom oferecesse um canto escuro no lugar das cadeiras com holofote na saída da cozinha. Facilitaria se ele tivesse menos simpatia, aliás, se viesse menos aqui virar minha latinha no copo, que fosse só a cada dez minutos. Se ele me deixasse escolher o quanto de suco de uva eu quero. Se você parasse de falar sem parar, também, ajudava. Se me contasse histórias de família menos trágicas, trocasse a morte da vó por fofuras da infância, assim, talvez fosse lindo. Se eu me arrumasse melhor, quem sabe, ou suasse menos intenso. Se meu nariz fosse menor. Se essa calça jeans tivesse secado direito no varal e você não notasse o cheiro estranho que ela ficou quando sentássemos no carro agora. Se a fila do cinema fosse menos barulhenta e intimidante. Se o filme não tivesse o Will Smith no elenco. Se a pipoca não fosse cozida com manteiga sintética, e melecasse menos os dedos de quem come. Se eu não tivesse avisado que ia ao banheiro só pra lavar as mãos porque tenho TOC. Se o motorista do lado não buzinasse tanto a troco de nada na cancela do estacionamento. Se eu escolhesse outro bar pra saideira. Se eu bebesse Stella e não Skol. Se não pedisse polenta, mas mandioca. Se eu dissesse vamos lá em casa, e não te deixo em casa. Se você tomasse a iniciativa. Se eu não achasse tanta desculpa. Se eu não me envergonhasse tanto. Se eu não hesitasse tanto. Se eu não temesse tanto. Se eu não te quisesse tanto. Talvez eu conseguisse. E isso ia ter sido um amasso, e você gostasse, e prolongasse, e se entregasse. Eu nunca sei quando é a hora certa da estreia – afinal, como nascem os primeiros beijos?

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Próximo

Acabou. Passou. Pronto, pronto, shhh, não chora. Ninguém morreu, viu que bom? Nem foi preciso passar meses tomando remédio pra dormir, dopado no sofá escutando música em depressão. Delícia.

Bacana mesmo é que, agora, leia aqui no pé da cartilha da recuperação, é chegada a hora de seguir em frente. De ampliar horizontes. De expandir a mente. Pegar gente, pra resumir.

Então, se estão soltas as amarras e foi desfeito o relacionamento, se foi cada um prum lado e ninguém quer mais nem se ver, por que raios é que, entre 7 bilhões de pessoas, você vai e escolhe como próximo alguém que é igualzinho ao anterior?

Não vá dizer que não percebeu. Ok, há uma relativa diferença na altura, cerca de cinco, sete centímetros, mas pelamor, olhe pro resto. São sósias. Ruth e Rachel. Clones, tipo Murilo Benício de Lucas e Léo.

Queda por um tipo físico é uma coisa. Obsessão já é probleminha pra tratar na análise.

Tenho uma prima, por exemplo, que só namora rapazes ruivos com tatuagens orientais no braço esquerdo. No direito não vale, ela descarta. Pelo Tinder, onde às vezes não dá pra ver direito todos os pedaços das pessoas, ela vai pela premonição: identifica o cabelo, xereta as fotos e segue o feeling de que, naquele muque, mora uma carpa turquesa que lhe mostrará o caminho da felicidade. Match.

Esta semana visitei um amigo que não via fazia anos, desde a época em que ele namorava uma mulata lindíssima chamada Tânia. Pelo Facebook, acompanhei o rompimento, a sofrência de ambos, Tânia seguindo a vida e agora ensinando salsa em Hortolândia. Até soube que depois meu amigo saiu com outras, volta e meia surgiam fotos dele sorrindo enlaçando uma garota nova – quer dizer, nova naquelas. Porque eram todas iguais à Tânia.

Ontem ele me abriu a porta de casa animado, tinha passado café e me pediu pra levar biscoitos. Avisou que era ótimo que fosse à tarde, porque me apresentaria Andressa, a moça que ele conheceu na praia.

Antes mesmo que me pulasse cheirando as calças o cachorro, me salta aos olhos a visão de Andressa. Andressa, que é tipo Tânia, que é tipo todas, que é tipo uma só. Blergh.

Eu até tenho meus padrões. Meu médico diz, por exemplo, que gosto de barba porque sofri rejeição paterna – eu acho que é porque é legal e pinica, mas tudo bem. E que eu quero homens mais altos porque minha mãe é anã e não conseguimos nos comunicar.

Mas, mesmo curtindo os altos barbados, isso não quer dizer que eu seja obcecada por eles. Sair sempre com o mesmo cara me dá preguiça, acho que o bom mesmo é variar. E, justo por isso, asseguro ser impossível que descarte os nanicos imberbes. Ou os ruivos tatuados no braço esquerdo. Ou a Tânia, a mulata lindíssima que atualmente me ensina a dançar colado todo sábado e domingo à tarde.

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Doente imaginária

Quer uma cestinha? Quero. Muito. Me dá logo três. Não tem carrinho? Sabe como é, quando entro numa farmácia fica meio impossível me controlar. Deslizo feliz entre as gôndolas, desando a precisar de tudo, acho que tenho diabetes, joanete, lábio rachado, onde fica mesmo a seção do mertiolate?

A moça me estende uma promoção do pack com três desodorantes. Haja cecê. Mas, veja, tá mega em conta, economia total de 7 reais, poxa vida. Isso dá o quê, uns dois cafezinhos e meio? Me dá que eu vou levar.

Só tem um problema: eu quero cheirar esse troço. Que cheiro tem o algodão em inglês? Qual o aroma da atração, da sedução, da vida ativa? Esses nomes também não ajudam. Nem o gerente, que não deixa a gente provar. Talvez se eu me esconder aqui atrás do Rexona 48 horas de duração e der uma espirradinha... Merda. Rompi o lacre. Quem nunca.

O bom dos sabonetes é que a violação não fica tão evidente. É só futucar um buraquinho no fecho da lateral, ninguém nem vê que tá descolado, e aí apertar pra sair o perfume. Curto sabonete de velhinha. Sabão de tocador. E sou totalmente atraída por embalagens com fotinhos de famílias saudáveis sem bactérias.

Por falar em bactéria, tô precisando de álcool gel. Seria bom também uma água boricada, porque nunca se sabe. Gaze é ótimo, violeta genciana, nossa, olha que fofo esse negócio de tirar calo todo cor de rosa!

Meu maior problema, moço, é na verdade a celulite. Me mostra alguns daqueles seus cremes caros que emagrecem. Sim, eu sei que não emagrece, mas remove o aspecto de casa de laranja. Tem uma moça com uma almofada na bunda na propaganda. Sabe de qual que eu tô falando?

Virge, credo, muito caro. O que você tem de mais barato?

E pra rugas?

Queria que esticasse aqui, ó, tá vendo onde faz um vinco? Sim, eu uso protetor solar todo dia. Eu sei me cuidar. Tô só te mostrando pra você entender. Aliás, é tão bom vir aqui, vocês me escutam, vocês me cuidam, eu me sinto tão importante.

E, mais do que tudo, eu gosto muito e especialmente da hora em que o moço bonzinho do balcão me ajuda a preencher a receita do antidepressivo. Aquelas duas folhinhas juntas, com o cheirinho bom do carimbo para os dados, ah, que coisa boa.

Claro que eu vou avaliar o atendimento no caixa. Óbvio que eu tenho o cartão fidelidade. Obrigada, amiguinhos. E amanhã eu volto pra buscar alguns esmaltes.

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Enchendo a cara de botox

Depois de sofrer por uma semana, finalmente se faz a luz. Depois de chorar nos últimos sete banhos com a testa encostada no blindex, de soluçar entre as garfadas dadas nas suas vinte e uma refeições mais recentes, parece que agora vai. Ao que tudo indica, você está se recuperando de um pé na bunda.

Não que não vá doer nunca mais – a cura não é linear. Mas, mesmo sendo algo assim tão recente e frágil, talvez mereça uma comemoração. Um marco. Uma efeméride a ser lembrada na posteridade.

Sendo assim, acho que vou cortar o cabelo. Ou pintar de ruivo. Talvez compre um cachorro, não sei. Entrar pra academia é clichê demais pra mim, mesma coisa terapia. Vou ousar. Vou pra revolução. Vou me mudar de casa, será? Quem sabe encher a cara todo dia. Quem sabe encher a cara de botox de vez em quando.

Daí eu apareço toda maquiada e escovada e de longo no tapete vermelho dalgum lugar, nem que seja da portaria lá do prédio, e me fotografam e se colocam a questionar o que terei eu feito na cara para mudar tanto de expressão e não me parecer mais comigo mesma.

Porque não vou mesmo me parecer. Não terei nem mesmo a sombra da pessoa feliz que fui um dia, só mesmo um olhar de vidro de boneca Estrela, e um nariz fininho que eu nunca fui capaz de ter.

Atribuirei tudo isso – a infelicidade, o olho torto, o nariz da Anitta – à falta que ele me faz. Ao buraco que ele me abriu no peito quando disse que ninguém nunca mais ia me querer.

Só que, né?, pode parar com isso. Ninguém leva de ninguém mais do que discos, uma aliança, camisetas de banda, algumas fotografias e, no máximo, o gato adotado juntos na feirinha da Cobasi. Não tem como roubar o ego de ninguém.

A menos que você deixe. E, o primeiro passo pra isso acontecer, é, enquanto ainda estão juntos, você entregar seu eu ao outro. Na confusão da cama, da mesa e do banho deixar escapar mais que palavras e carinhos – olha lá sua alma indo embora de bandeja para ele, diga adeeeeeus!

Querer fingir que superou e virar outrem depois do fim é o maior sintoma de que você já no durante não existia mais. Por isso, agora é hora de um reencontro (não com ele, sossega). De fuçar aí dentro pra achar o que um dia foi sua personalidade, e, então, recolocá-la de volta em ação. Nada de tinta azul na cabeça, nada de preenchimento na testa.

Não há jeito melhor de descolar alguém que decida te achar musa e para sempre te querer – a começar por adivinha quem: você.

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Profissão: mulher bonita

Fulana de Tal. Vinte e tantos anos. Formação: jardim de infância, colégio, faculdade, essas coisas. Arranha no inglês, manja de Windows, boa profissional. Mas, ó, tem uma coisa. Fulana é bonita. Tá lá no currículo. Competente, garanto. Difícil de acreditar, eu sei.

Porque é essa a regra. Bastou ser acima da média pra virar um fenômeno digno de estudo. De matéria na TV. Ela é linda e - pasme, mundo - tem uma profissão como todas as outras mulheres do mundo! Oh! Ela é gata e – liguem as câmeras – trabalha das 10h às 17h todos os dias!

E não só trabalha, né. Que o espanto vem também do fato de trabalhar DIREITO. De fazer bem feito tudo aquilo a que se presta, sem se valer do fato de ser bela.

Na cabeça miúda de quem ainda vive em 1800, a beleza é sinônimo de vida ganha. Ou, às vezes, de invalidez. Dependendo da cara com que se nasce, se for harmoniosa além da conta, as chances de não precisar ralar aumentam. Assim como as de não saber fazer nada também.

Daí vira um acontecimento o fato de se encontrar uma moça gata que se dispõe a, sei lá, fritar pastéis na feira. Mas ela não podia estar sentada em casa de pés pra cima se abanando e só sendo linda?

Não, não podia. Quer dizer, de repente até podia, porque existe mesmo gente que não precisa trabalhar, mas aí, amiguinhos, é algo que tem a ver com dinheiro na conta e não com o formato da cara ou o olho assim ou o nariz assado.

Beleza não tem a ver com currículo. Não condiciona competência.

Por isso, uma manicure bonita não tem nada de extraordinário. Assim como também não é exótica uma engenheira linda.

Mas ela é tão gata, impossível que não se ache! Ela é tão tudo, não se nasce com mais de um predicado na vida!

Possível, sim. Nasce, sim. Não tô eu aqui toda humilde e talentosa escrevendo esse texto espetacular para vocês?

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Vamos dividir?

O moço vem chegando com aquele treco de couro na mão e dá pra sentir a tensão mais forte que o cheiro de fritura empesteando o ar do restaurante. Logo se vê que é um momento complicado. Sua cara de pânico talvez tenha alguma conexão com um trauma da infância, pode ser também que seu saldo esteja mega negativo, mas o fato é que eu já saquei o que é que tá pegando aqui – você acha que eu quero que você pague o jantar pra mim.

Mas você está enganado. Olha que sorte.

E o fato de não ser dessas, do tipo que curte ser bancada por alguém, não tem nada a ver com orgulho nem feminismo. Tem a ver com bem estar, com o que me deixa confortável. Em um relacionamento, curto dividir a vida com quem amo – isso inclui planos, pipoca no cinema, criação dos filhos, e também a conta no final de tudo.

Nem se o Eike, em tempos áureos, quisesse me mimar, eu acho que deixaria. E olha que, pelo homem que adoro, eu até topo usar coleira no carnaval, desfilando pela Sapucaí ocupada e radiante. Mas, quando o assunto é grana, conto moeda e como no dogão pra não precisar que me custeiem.

Até porque o verdadeiro amor se prova na pindaíba. Se mostra inteiro – ou sai correndo – na hora em que não há prestígio nenhum. É só quando se tem um sobrenome xumbrega, daqueles que não abrem portas nem no hotel pulguento no centro da cidade, que se mede com precisão o tamanho e a validade de uma paixão.

É muito fácil amar Ronaldos. A chama acende fácil quando se tem em mãos um passaporte para o luxo e a bajulação.

Mas sou daquelas que gostam de desafios. De provar devoção mais na pobreza que na riqueza. Rachando as contas, sou mais feliz. Meiando tudo, sou mais inteira.

Menos doping, mais amor

UFC o quê? União das Famosas Calcinhas. Unidos do Fecha Comício. Uárever. Sério. Entendo tanto de luta e porrada quanto de astronomia e física nuclear. E, ainda que conhecesse o regulamento, nada me faz sentar pra assistir uma disputa, mesmo que no meio do ringue esteja o Anderson Silva. Não curto.

Até por isso, confesso que não poderia me importar menos com a polêmica do doping ou do não doping – juro que pra mim tanto faz. Até porque, mocinhos drogadinhos, quando longe, são caras inofensivos e dão até barato e ataque de riso no meio duma turma de amigos. O problema, na verdade, é quando eles passam a fazer parte da sua vida.

Tipo aquele cara que precisa sempre fumar um negocinho antes de sair com você. E que, quando chega na balada, encarna o pastor alemão e fica farejando a multidão para tentar encontrar o dono do cigarro proibido.

Tem o drogadinho de desejos simples, que carece “apenas” de um uisquinho antes de te levar pra cama. Ou o drogadinho radical, que cultiva o hábito de visitar longamente os banheiros de todos os restaurantes onde vocês jantam.

Mas, qualquer que seja a classe do moço que te acompanha, todos eles têm algo em comum: empatam sua vida. Atrasam a porra toda, embaçam pra sair de casa, adiam o sexo e interrompem o sono só pra poder dar aquele tapinha no seu estimado vício.

Porque tem isso também. O drogadinho é no fundo um viciado e não admite. Porque ele só fuma pra relaxar. Só bebe pra descontrair. Só cheira pra desestressar.

E todo mundo, de você que acabou de conhecê-lo até os amigos e a mãe do cara sabem que, na verdade, este é um comportamento que tem potencial pra virar um problema e dar trabalho.

O que vai, automaticamente, fazer com que você descarte o drogadinho da sua lista de possibilidades, assim que perceber que não, você não precisa disso. Que é muito mais legal, por exemplo, decidir sair de casa e então sair imediatamente, ao invés de ficar esperando alguém cumprir seu ritualzinho destrutivo.

Ou mesmo poder marcar um compromisso público importante pra dali um mês e passar este tempo de expectativa numa boa, sem ansiedade, sem precisar se encher de bomba pra segurar a onda da insegurança de não dar conta do recado de cara limpa.

Aliás, tá aí algo que modificaria para sempre a humanidade: se os homens incríveis por quem a gente se apaixona se percebessem da mesma maneira que a gente os percebe. Fantásticos, capazes, poderosos. Talvez até dessem um tempo no baixo astral e passassem a se curtir no mesmo tanto que a gente os curte. Não custa nada sonhar.

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Procura-se um amor (e água) para o Carnaval

Volto de férias e... VRRRÁ, já me bate na cara a notícia de que não tem água na cidade. Nem luz. De que tem Renan Calheiros, de que tem uma pilha de conta entalada debaixo da minha porta, de que tem dois paus negativos no banco, de que tem minhas gatas morrendo de fome sozinhas, mas, ó, água não vai ter. Isso dói, sabe, especialmente pra alguém que passou 35 dias tomando banho, lavando a mão, dando descarga, tudo feito um ser humano normal e higiênico.

Ainda nem esvaziei a mala de roupas (até porque não tem como lavar nenhuma), mas já dei início ao campeonato mundial de empilhamento de galão de água no corredor de casa. E de lencinho umedecido na gaveta do banheiro. Ouvi na TV que álcool gel é a única coisa que substitui água e sabão de verdade, mas, né, tudo bem passar na mão, já na bunda vamos ter que nos virar com algo mais suave. E shampoo seco é o cacete, que não sou rica, então o estoque de talco já tá lá no gabinete.

A única coisa que ainda me preocupa é o Carnaval.

Não só porque, óbvio, é tanto bloquinho que eu não consigo me decidir, passar sombra azul ou verde, e eu nem sei se minha fantasia bem sacada e divertida será bem recebida pelas multidões. Mas este não é o ponto – o ponto, na verdade, é que este não será um Carnaval típico, justamente porque... VRRRÁ, não tem água.

Ou vai me dizer que você tem coragem de, como em todos os anos anteriores, passar o rodo e catar a primeira que aparecer, sabendo que ela tá sem água em casa? E de pegar outra e mais outra, ciente de que, assim como todas, elas também não têm uma gota do volume morto saindo da torneira no apartamento? Como vai confiar que debaixo daquela odalisca não haverá um gambá disfarçado?

Este Carnaval entrará para a história como o pior dos carnavais para os solteiros. O que significa que você, eu e 90% dos paulistas estamos ferrados. E olha que não sou das mais exigentes, não – topo sem grilos um cabelinho ensebado por estilo, acho cecê masculino algo inevitável, e suor no meio dum momento selvagem acaba que é até um elemento interessante. Mas esquema pegação com desconhecidos na seca total, putz, daí complica.

O certo seria todo mundo agora meio que providenciar companhia fixa, ainda que isso signifique anular boa parte da graça típica da folia. Eu sei, dói, magoa, mas é o jeito. Questão de sobrevivência.

Ao menos assim dá para garantir um amor mais asseado. Vocês podem, por exemplo, brincar de passar baby wipes um no outro, juntinhos, no escuro (tá sem luz, lembra disso). Lambuzar de álcool gel estes pés cansados de tanta andança em blocos, estas mãos imundas das baquetas da alfaia hype na bateria da Vila Madalena.

É um jeito fofo de assegurar que, sim, haverá paixão – pode não ser tanta quanto você queria, mas, pô, já é alguma coisa. E que, sim, haverá condições sanitárias para isso por pelo menos quatro dias. Depois, ah, depois a gente vê o que a gente faz.

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Um carro, duas crianças e a morte de toda a humanidade

A cena na TV mostra um carro de portas abertas e dois corpos inertes nos bancos da frente e de trás. O apresentador, confuso, se pergunta se ambos estão mortos. Estão. Embora não seja isso que a legenda com a notícia mostre, porque o adulto ao volante se levanta e abandona o veículo cambaleando, pai e filha morreram, sim, juntos, naquele exato momento.

Não é o primeiro nem será o último caso de criança esquecida dentro de automóvel no mundo. É uma tragédia tão mais comum do que deveria que, ontem, enquanto o canal noticiava o caso de São Bernardo, sites na internet contavam também a história de uma mãe horrorizada na mesma situação em outro canto do país.

E mesmo o fato de ser uma fatalidade relativamente frequente não faz destes pais e mães criaturas irresponsáveis. Pelo contrário: é por sua responsabilidade que estão onde estão. É por ceifar seu bem maior com as próprias mãos mas de olhos vendados que, agora, assistem ao mundo ruir sem qualquer chance de volta.

Estes pais são, junto com seus filhos, vítimas de um murro atroz do destino que os condena, também, à morte – mas uma morte em vida, imutável e infinita.

Viverão pela metade, corroídos pela culpa e pela ausência. Já não é cruz suficiente?

Ao que parece, não. Porque, assim como acontece com qualquer assunto controverso em tempos de juízes convenientemente escondidos atrás das telas de seus computadores, este pai, esta mãe e todos os outros que no passado cometeram o mesmo erro agora são achacados e condenados internet afora, como se carregassem qualquer tipo de intenção de culpa além daquela que já os penalizou para o resto dos dias.

Tais comentários perversos espalhados por redes sociais e sites de notícias não têm serventia alguma exceto funcionar como vitrine da total falta de compaixão da humanidade. Causa nojo testemunhar tanta gente acima do bem, do mal e imune às tragédias do mundo.

Que encontremos a paz, nós que ficamos. E que sejamos capazes de nos perceber como irmãos também na hora do consolo, porque de união pelo ódio já estamos saturados.

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