Indecisão

Olha só que gostoso, não falei? Não tem nada melhor do que ficar aqui quentinho, juntinho, sentado nesse sofá macio e assistindo o índice do Netflix. Uma pena de fato que não consigamos escolher absolutamente nada, filme algum, série, documentário de golfinhos ou mineiros chilenos, mas o importante, ah, o importante mesmo é que a gente esteja aqui.

Ou também podíamos estar lá, não sei. Nas poltronas reclináveis, ou na cama, de repente.

Quem sabe devêssemos ter ficado na minha casa, né, e não na sua. Onde é melhor? Qual é mais fofinho?

Enfim, como eu dizia, que delícia. Adoro quando a gente não sai e fica aqui assim sem fazer nada. Quer dizer, nada, não, que a gente até que tá tentando fazer alguma coisa. Esse filme, por exemplo, que não sai. Olha só quanta opção. A gente fica querendo escolher o melhor e tá sempre com medo de pegar um mediano e o melhor ficar lá de longe sem dar play só rindo da nossa cara porque, né, optamos por um meia boca que nem era tudo isso mas agora vamos ter que ir até o final. Baita compromisso.

Tô abrindo aqui o site pra gente pedir a pizza, tá? Você quer de quê?

Calabresa, não, poxa, você não lembra que eu não tô comendo carne? Sim, amor, peixe é carne. Tudo bicho. Topa alcaparra? E berinjela? Sei lá, de repente era jogo mudar prum jantarzinho árabe, hein, que lá tem bastante opção de legumes. Aquela pastinha bege pra esfregar no pão.

De sobremesa podia ser um sorvete, eu acho. Com calda de chocolate. Que aí eu ia te convidar pro quarto e levar o potinho e a calda e te fazer umas travessuras deitados na cama ouvindo aquela musiquinha que a gente gosta.

Se bem que eu enjoei daquele disco. E também não ando com saco pra sacanagem.

Tô mais numa vibe mais casta, sabe. Você não? Dizem que relacionamentos têm fases, dia que a gente gosta, dia que não gosta mais. Daí pega e volta a gostar e daí às vezes já é tarde demais.

Mas com a gente, não, né? Que a gente combina. Os dois gostam de filme, de pizza, de sorvete, de cama, de árabe, de índice, de calda, de poltrona. Isso exceto os dias em que a gente não gosta muito, e daí prefere um monte de outras coisas.

Talvez esta seja uma daquelas semanas. Quando a gente não consegue nunca mais escolher nada, se irrita um com o outro, a noite acaba cagada e todo mundo repensa tudo, joga fora aliança, fica sem se falar por horas.

Dias em que a gente se questiona por que escolheu este e não outro. Por que ela e não a outra. Por que um e não dois, branco e não preto, baixo e não alto, pelo ou não pelo. Difícil escolher entre tanta opção boa. Preguiça de analisar todas.

E por isso mesmo que a gente continua junto. Pela constatação de que a-gente-fica-querendo-escolher-o-melhor-e-tá-sempre-com-medo-de-pegar-um-mediano-e-o-melhor-ficar-lá-de-longe-sem-dar-play-só-rindo-da-nossa-cara-porque-né-optamos-por-um-meia-boca-que-nem-era-tudo-isso-mas-agora-vamos-ter-que-ir-até-o-final. Baita compromisso, eu acho.

 

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Eis o que você precisava saber para ser um filho melhor

A vida de pais e filhos do início ao fim se resume assim: primeiro os pais te assistem fazendo um montão de merda e te corrigem. Depois, eles te assistem fazendo um montão de merda e não fazem nada porque você tem mais é que aprender. Daí, é a vez deles começarem a fazer um montão de merda, e de você ir lá e corrigir. Depois, eles continuam fazendo merda, mas você não faz nada porque eles têm mais é que se divertir. Por fim, quando eles já não estiverem mais aqui, é hora de sentir falta de tudo, da merda minha, merda sua, porque, enfim, a vida é complicada pra caralho e só o que salva mesmo é ver neles, em nós e nos nossos, a continuidade de tudo, da merda, da correção, da diversão, da saudade.

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Recado pras inimigas

Quando eu engravidei, sete anos atrás, fui invadida pelo pânico de estar esperando uma menina. Em algum momento da minha vida, meu inconsciente registrou que mulheres devem ser inimigas, e a ideia do afeto ser atropelado pelo sentimento desajustado mirando minha própria filha me deixava triste e impotente – como eu faria para controlar o que sempre pareceu incontrolável?

Um garoto nasceu, e a necessidade de lidar com a questão ficou pra depois. Só que não dava para empurrar com a barriga por muito mais tempo um assunto tão urgente quanto a competitividade feminina. Especialmente porque temer duelar com meu próprio rebento me fez ver não que eu fosse uma criatura medonha e doente, como podia parecer, mas, sim, que eu era alguém completamente imersa na maré na qual nós, meninas, somos educadas sem nem perceber.

A amiguinha na escola tem uma mochila mais bonita? Tudo bem, porque ela deve ser burra e chata. A colega da classe ao lado virou amiga do meu namorado? Vaca, gorda. A menina mais linda da faculdade quer fazer trabalho comigo no meu grupo? Nem morta, que eu não tolero gente metida. Minha vizinha simpática só é assim porque deve dar pra todo mundo. A novinha do escritório, mesma coisa. Ela também, e mais ela, mais ela, e mais ela.

Bando de (preencha aqui com a ofensa à honra que preferir).

Rivalizar indiscriminadamente só causa sofrimento, nos enfraquece e distancia. E qual a vantagem de sermos inimigas? Nenhuma. E olha que nem estou falando aqui sobre luta sexista, união do gênero contra homens, nada parecido. Não quero nem tenho talento pra versar sobre a luta.

Queria apenas que a gente pudesse ser amigas. Será que rola?

Outro dia na academia estávamos no vestiário juntas eu e uma outra garota. O espelho nos flagrava olhando uma pra outra aqui e ali, de cantinho de olho e escancarado de frente, e isso durante o longo tempo que se leva pra trocar a roupa do dia por aquela de treino, justa e chata de se colocar – o que significa, portanto, que a sessão tô te sondando levou bem uns 10 ou 15 longos minutos.

Já pronta para o ódio eterno e prum possível assassinato, senti a moça se aproximar e abrir a boca pra dizer algo. Vai, oponente, convoca pra briga. “Só queria te falar que adorei sua tatuagem”. Fuén.

Perdão, céus, me desculpem, pai, mãe. Eu não queria ser assim. Eu queria ser um ser humano iluminado, menos podre, mais evoluído e feliz.

Em momentos como este, batem a vergonha e o arrependimento, mas, mais que isso, bate um desconsolo pelo tempo que se perde em batalhas imaginárias como esta. Onde não há ninguém contra ninguém, só mesmo rivais fictícios, acuados por um histórico de disputa desnecessário e exaustivo.

Porque é isso: estou cansada de me opor a quem eu poderia amar como uma amiga querida, uma irmã, minha própria filha. E isso pelo simples fato de que se trata de alguém igual a mim, talvez até com mais semelhanças de vida do que eu possa imaginar. Quero a sororidade, não aguento mais o conflito.

Alguém sabe explicar como se faz?

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Não olhe agora, mas tem uma babá criando seu filho

Na ciclovia, à tarde no feriado, lá vem uma mulher pedalando sua bicicleta, tudo bem, tudo normal, não fosse a bicicleta que vinha logo atrás dela, pilotada por outra mulher, esta vestida toda de branco, negra, e se equilibrando para pedalar a si mesma e ao bebê filho da moça da primeira bike.

Ou seja: vou passear com meu filho, mas a babá que o leve. E, se cair, ainda lhe desconto todos os danos, físicos, morais, emocionais, o catzo, porque a responsabilidade é sua, sem debate.

Daí hoje pinga no Facebook um post com a história da outra moça de branco, também babá, também negra, e que precisou guardar lugar pro patrão por horas na fila do restaurante em Ipanema, pra, só depois de liberada a mesa, ser autorizada a voltar pra casa, às onze da noite, a pé, sozinha.

Que lindo, Brasil. Delegar a parte chata da vida aos cuidados dos outros. Que fácil que fica.

Menino fez cocô? Deixa que ela troca. Pituca quer comer? Manda que ela esquenta. Filhinho quer brincar, tem que estudar, quer ganhar carinho? Chama a babá que a babá dá. A babá faz. A babá vai. A babá tá aí pra isso.

Só que a gente sabe que não tá, né, que a ideia original era outra. Era pra ser alguém que ajudasse nos perrengues que todo mundo sabe que rolam na hora de se criar um filho, ou dois, ou quantos sejam. A babá nasceu e ganhou trabalho pra ser o braço direito dos pais numa hora que eles ou não estivessem, ou não pudessem, ou precisassem.

Não sei quando foi exatamente que a descrição do emprego mudou, e de babá a babá passou a professora, e a faxineira, e a enfermeira, e, mais que tudo, a babá passou a mãe e passou a pai. Ganhou mais uns filhos, além dos que já tem em casa, com toda a dor e a delícia que a maternidade envolve, só que, né, toma que este filho aqui é seu, dos meus deixa que eu cuido.

É um trampo lindo, brilhante, necessário. Eu mesma, se pudesse, tinha pedido socorro às babás amadas sempre que o negócio apertava lá em casa e virava tarefa hercúlea conciliar a vida de mãe sozinha, funcionária, mulher. Se não recrutei ninguém nestes momentos, foi só mesmo porque faltava a grana, nada além.

Meu grilo é com quem, como a moça da bicicleta na ciclovia, e o patrão do restaurante em Ipanema, extrapola uma atribuição pelo simples fato de que pode, e não de que precisa.

Pai e mãe que só pegam a criança no colo na hora de tirar fotografia. Ou de aparecer na frente dos amigos, na festinha da escola, sempre que importam as aparências. No resto do tempo, segura aqui que eu vou lá viver minha vida.

Mas e a vida do seu filho, queridos?

Alguém ajuda a lembrar estes pais de que, depois duma certa idade, a cabeça da criança já está formada em relação ao afeto, e o que você conseguiu fazer, boa, o que não fez, já era. É com esta base de estima que os filhos crescem e constroem seus relacionamentos de amizade e amor ao longo de toda a vida, sendo capazes de dar apenas aquilo que recebem.

Não que as babás, deusas, não sejam capazes de amar nossos filhos profundamente. Pelo contrário, elas dão conta dos nossos, dos delas, dos que mais chegarem, e muitas vezes, como na ciclovia e em tantos outros lugares que vemos todos os dias, com ainda mais intensidade do que os próprios pais das crianças.

O ponto é que criança precisa de amor e aconchego de quem ela sabe que está lá disponível, mas que não dá carinho porque não tá a fim, porque tá sem tempo, porque vai sujar a roupa, exigir tempo, cansar os braços. Criança precisa ver que é amada através de pequenos gestos do cotidiano, como ser alimentada, limpa, educada. Dá trabalho, mas é assim que deve ser.

Passou da hora de se criar duas coisas nessa vida: vergonha na cara, e o filho que vocês botaram no mundo.

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Para de se expor no Facebook, amiga

Não me importo em saber detalhes da infecção urinária recente, dos hábitos de higiene da família e colegas de quarto, nem mesmo de preferências sexuais referentes ao cara que pegou você esta semana. É tudo excesso de informação, claro, mas são coisas com as quais consigo lidar.

Mas essa sua mania de chorar publicamente os pés na bunda devo admitir que me dá nos nervos.

Pra quê tanta exposição, meu Deus? Aonde queremos chegar?

Já no primeiro post nas suas redes sociais ficou bem claro que o amor da sua vida foi-se embora. Juro que lamentei, mesmo sem conhecê-lo, justamente porque via que de alguma forma ele te fazia feliz. Só que aí, amiga, foi quando você começou a publicar 14 vezes por dia mensagens que você finge que são cifradas e que eu finjo que acredito, e que, poxa, primeiro que dão no saco, segundo que cadê seu amor próprio, deve ter ido embora junto com ele.

Não pode.

Óbvio que Facebook, Twitter e afins não são lugar só pra júbilo e contentamento. Eu mesma vivo me queixando da vida em posts fartos de autopiedade e sem um pingo de cautela. Mas o que nos diferencia aqui é que, enquanto eu tô lá fazendo piada comparando a lancheira podre do meu filho com a da filha da Bela Gil, culpando o fato de eu ser mãe solteira pela má alimentação do menino e ai ai ai coitada de mim mesma blábláblá, você está aí arregaçando o coração pra que todo mundo veja.

E, por mais que sua lista de amizades anuncie 700 indivíduos, é importante que você se lembre de que nem 10% deles são seus amigos de verdade. Cabem nos dedos duma mão os que vão passar a mão no telefone para oferecer ajuda ao ler sua última postagem dizendo que “não tá fácil ser eu neste momento”.

Os outros - que nem seu número têm, que dirá empatia pela sua dor – vão apenas dar um like e partir pro próximo assunto. No máximo, vão sentir dó. E, amiga, há poucas coisas mais deprimentes nesta vida do que ser motivo de pena de alguém.

As tentativas desesperadas de suprir o buraco aberto pelo fim do relacionamento viram, com suas diárias sugestões de pauta, tema de debate nas rodas de amigos próximos, que vão comentar entre si sobre o fracasso da sua união.

Se isso ainda conseguisse trazê-lo de volta, não é mesmo?

Mas não vai, e você já sabe disso. Assim como já sabe que, de bom mesmo, virar assunto na mesa de bar não traz é nada, exceto julgamentos que te deixam nua e pronta para ser queimada viva.

Lugar de curar dor de amor, minha flor, é no consultório da terapia. Ou em casa, refletindo e olhando pra dentro. Se for pra contar pros amigos, que seja numa conversa franca e particular, sem curtidas ou compartilhamentos.

Autoconhecimento é o único caminho para superar um coração partido, e isso não tem nada a ver com o número de joinhas e carinhas de triste que um post no Facebook consegue.

Campanha por mais atividades que tragam alegria e por menos nudez emocional nas redes sociais. Por mais deixa o tempo passar e por menos lutar contra o inevitável. É esta a fórmula mágica da cicatrização.

A fórmula que, quando você menos esperar, amiga, vai te fazer operar milagres. Tipo trocar aquela foto falseta do perfil, em que você aparece fingindo que superou, por um retrato lindo com um sorriso de verdade, daqueles sorrisos de quem é, e não de quem só parece ser.

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Hoje o cara da NET não vai subir

Volta e meia aparece lá em casa um homem diferente.

Semana passada, foi o homem do gás. Antes, veio o homem da luz de tesoura na mão pra me cortar os fios só porque atrasei oito meses de conta. Teve também o homem do Carrefour com as compras, o do Magazine Luiza e a lavadora, o do bazar com a cama usada.

O calendário mostra que amanhã tem mais visita agendada, mas, olha, tô achando melhor cancelar – parece que a NET não anda com a melhor reputação do mundo no momento, talvez seja o caso de falar com eles pelo telef... OH WAIT.

Em tempos normais, quando a privacidade ainda não fora extinta, o máximo que acontecia de ruim numa ligação pro telemarketing era a gente se estressar e desejar a morte do atendente. Hoje em dia, no entanto, o negócio evolui prum caminho mais dramático. O caminho do xaveco babaca versão deluxe.

Há quem diga que o sujeito da central da NET mandar mensagens pessoais no celular duma cliente depois do atendimento é algo inofensivo, que não há nada de mais. Ahã. Devem ser estas as mesmas criaturas que não enxergam problema em mandar um fiu fiu pra moça na rua, chamar de gostosa a menina no trem.

É tudo invasão.

Do mesmo modo que o fato das pernas suculentas duma mulher estarem expostas debaixo da saia não significa que ela se comporte como uma vadia, a simpatia da cliente com você, TELEMARKETER, tem apenas um significado: ela é um ser humano legal. Só.

Porque, se beleza nenhuma é convite para assédio, a cordialidade com o próximo também não é ingresso para nada.

O atrevimento do atendente da NET com a jornalista, que veio a público esta semana, é injustificado e asqueroso e, acima de tudo, olha que triste, é cada vez mais comum numa sociedade que entende que mulher é objeto coletivo. Que encara uma quebra de privacidade como algo legítimo, desde que não haja violência.

Afinal, que mal tem em passar uma cantada? Mulher não gosta de elogio?

Sim, mulher gosta. A gente só não curte ser acossada.

Há mil maneiras de se aproximar de alguém nesta vida. Sempre houve. Problema é que, em um mundo acostumado com cada vez mais facilidades para desvendar o outro, com aplicativos de cortar caminho do flerte direto pra cama, parece que a propriedade do indivíduo sumiu.

Se não se tem mais direito ao próprio corpo, o que dizer da privacidade de algo aparentemente tão besta quanto um número de celular?

O jeito agora é vedar tudo, do telefone às portas. Deixar o porteiro avisado de que nem adianta interfonar falando que o moço da NET vai subir – porque não, ele não vai subir coisa nenhuma.

Lá em casa, só sobe mesmo quem me demonstra respeito, seja como cliente, seja como indivíduo. Gente desaforada espera pra sempre lá embaixo, de ordem de serviço mofando na mão, e, humilhado, com o cabo enrolado entre as pernas.

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Hoje, só amanhã

Se de noite estou semi-morta, gelada e com o coração parando, de manhã é outra história. Esqueça meus notívagos cabelos molhados e sem forma, a carência de rímel e corretivo, que, ao nascer do sol, sou pura luz e magia clara.

A disposição matinal, no entanto, é algo pontual. Não faz ter vontade de me meter num par de tênis brilhantes e correr quatro quilômetros. Nem de faxinar a casa, escrever crônicas, enfrentar fila no banco. Estou disposta, mas, calma, que o vigor é outro.

Se eu acordei animada, é por um só motivo: eu quero lhe amar, amor meu, vida minha.

Enquanto no fim do dia só desejo o óbito, me embrulhar em esgotamento e falecer em silêncio, no seu começo eu me assanho em raios brilhantes de fogo autêntico.

Quer dizer, nem poesia eu quero, pra ser sincera. Esquece os raios, esquece o fogo, dane-se a pureza. Eu quero outra coisa. Eu quero é, bem, você sabe o que eu quero, que eu sei.

Porque somos do mesmo tipo. Do tipo que aproveita o dia e de noite dorme.

Sabemos que a melhor hora pro chamego é antes de levantar da cama.

Antes que a rotina toda atropele o tesão com a louça pra lavar, a lancheira das crianças pra arrumar, a loucura do trânsito e do trabalho todo. Alimentar o corpo antes de enfrentar a vida, recomendou o doutor. E óbvio que não era de sucrilhos com morango e leite que ele falava na receita.

A saúde se mantém mais fácil com a prática da manhã vadia.

Enroscada na sua quentura, ativa e radiante, me perco do que me obrigam os dias, e tudo flui de maneira tão linda que o universo conspira pra que o relógio breque uns instantes e não deixe a hora passar.

Por isso que quem ama antes de levantar nunca se atrasa para nada.

O cotidiano fica lá, suspenso e respeitoso, esperando que a gente termine. E ainda dá uma força na hora de descer da cama, nos calçando as pantufas discretamente enquanto flutuamos em direção ao banho.

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Sacolinha

Boa tarde, tudo bem? Tem o cartão fidelidade? CPF na nota? Não encontrou algum produto? Tá frio, né? Poxa, essa marca de queijo é muito boa, não? Já experimentou aquele de cabra que o concorrente lançou no mês passado? Sabia que fica bom combinar com geleia de figo? Sua alimentação é sempre assim saudável? Ahá, sei não, senão pra quem é esse Fandangos? Quantos filhos você tem? Mas queria ter mais? Dá um trabalho, né? E escola hoje é caro, né? E o mundo anda tão louco que dá medo, né? Eles gostam de Danete? Sabia que tá em promoção a bandeja com catorze? É que ninguém precisa de catorze Danetes, né? E doce demais dá dor de barriga, não é mesmo? Você trouxe sacola retornável? Vai querer sacolinha? Vai ser mais que três? Sabia que se forem só duas eu te dou de graça? Esse prefeito é bem confuso, né? Ouvi dizer que ia ter a lei de que sacolinha branca não pode, mas verde pode, sim, sabia? E que só pode até as três da tarde, não tinha algo assim? Ou em dias nublados com previsão de garoa de noite, né? Tinha alguma coisa a ver também com a altura do cliente? Tô tão confusa, você pode me ajudar? Era para baixinhos que podia, ou pros altos que autorizaram? Você tá sentindo o chão balançar também? Será que sou só eu que tô tonta? A esteira tá só rolando ou começou a girar também? Você trouxe a retornável? Vai querer a sacolinha? Quantas sacolinhas? É branca ou verde? É sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha é sacolinha? Ai, você me perdoa? Que vergonha, né? Débito ou crédito? Você promete que volta?

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Feliz Dia das Mães Solteiras

Tem o feliz Dia das Mães, e tem o feliz Dia das Mães Solteiras. Sou do segundo grupo.

Não que a gente seja mais, que a gente seja melhor, que a gente seja as suprassumos do Bairro Peixoto – a gente até é, mas este não é o caso. O caso é que a gente é, acima de tudo, diferente.

Enquanto vocês da primeira equipe vão ganhar café da manhã na cama no domingo, eu vou ganhar o meu no mesmo lugar de sempre: de cara pro fogão, fritando panqueca e gritando da cozinha pro quarto que é hora de levantar ou a gente se atrasa de novo.

Até haverá um quê de especialidade, talvez eu substitua o queijo xumbrega por, sei lá, um gouda bem cheiroso, mas o fato é que, como sou eu mesma que me preparo tudo, acaba que vira um dia meio que igual a outro qualquer.

Talvez até haja presente. Ontem rolou um cartão feito na escola, todo fofo, umas colagens e aquelas letras ainda tortas se escorando umas nas outras. Muito bonitinho, era mesmo uma graça, só acho que a mensagem interna podia ser mais exclusiva. “Neste dia quero viajar com você e o papai”. Putz, jura?

E olha que se não vier nada, se eu não ganhar qualquer coisa além de um abraço apertado, um suspiro dobrado e o amor sem fim, confesso que tá de boa.

Até porque minha prenda mesmo veio na semana passada, na viagem a trabalho, quando cobri um congresso em outro estado e me botaram hospedada num hotel de luxo no bairro chique da cidade. Se eu soubesse, tinha levado meu longo e os cílios postiços.

E, óbvio, um biquíni maneiro, que teria me proporcionado altos mergulhos na piscina aquecida do último andar, aquela mesma que fiquei olhando de longe puta da vida e cogitando invadir portando apenas sutiã e calcinha.

A organização do evento até chamou pra festinha de noite, um bar famoso no centro, mas, ó, festinha mesmo, pessoal, acontece aqui dentro do quarto, privê, no carpete, no edredon, e, obviamente, no banheiro.

Que mãe solteira não pode ver um banheiro sozinha que já se refastela.

O quê, não tem NINGUÉM pra me encher o saco enquanto ligo o chuveiro? Não tem NINGUÉM pra me chamar vinte vezes de fora do box interrompendo meu banho? Não há NINGUÉM pra puxar conversa enquanto faço cocô? Vou chorar de emoção.

Até vou comer um negocinho no almoço domingo agora, convidar desconhecidos pra ir ao restaurante com a gente e fingir que são nossa família feliz. Mas, juro, meu Dia das Mães eu já comemorei bastante, sentada no chão do box, pelada e contente, tomando uma chuveirada quente de 70 minutos nas costas em profundo silêncio e com o espírito em paz.

 

 

 

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A síntese do paulistano

Nasci no bairro do Ibirapuera, cresci no Paraíso, estudei na Vila Mariana e passei a adolescência no Jabaquara. Sou paulistana, infelizmente. Depois de investir na relação e tentar um acordo, desisti definitivamente da cidade aos 19 anos, quando consegui fugir para o norte e deixar pra trás o que me irritava – e ainda irrita – em São Paulo: tudo.

O paulistano não tem cordialidade.

Atropela do porteiro à mãe com sua falta de delicadeza, evita vínculos, esnoba a candura e a autenticidade. Busca a homogeneidade porque só assim encontra conforto. E, ao topar com o afeto, fica confuso e mostra a língua. São todos uns infantis.

A síntese do paulistano é o motorista do carro gigante fazendo lutinha pra ocupar espaço. Espaço público, diga-se, mas que o paulistano sempre acha que é privado.

De dento da SUV, todo egoísta, ele não te dá passagem, mesmo que seja só pra parar na frente e andar a dois por hora junto com todo mundo. É que o paulistano, fã que é das corridas elitistas no Jóquei Clube, acha que tudo na vida é um páreo. E que bom mesmo é romper a linha de chegada com o Range Rover Evoque roncando e pagando R$ 20 pro flanelinha.

Que paulistano paga pra tudo. Ele pode.

Mesmo que seja de graça, ele já abre a carteira sacando notas – não, mentira, porque paulistano não trabalha com espécie, só com débito. Até no farol o vendedor de chiclete tem maquininha.

Daí lá vai ele de Visa Electron em punho pagar uma rodada de paletas mexicanas pros amigos, paleta sendo aquele sorvete que no resto do Brasil chama Frutilly e vem com palito de plástico decorado. Versão gourmet da minha mão na sua cara que é bom fazer ninguém faz, né, paulistano.

No dilúvio de Noé, ninguém divulga, mas tinha uma área vip na arca. Lotada de bichos nascidos todos na capital de São Paulo. Espremidos no cercadinho, de pulseirinha colorida na pata, tinha girafa, bode e elefante paulista, todo mundo uniformizado de camisa Reserva e barba e cabelo hype. Parece que houve um castor gaúcho tentando furar o bloqueio, mas, porque não tinha tatuagem moderna, foi expulso e mandado de volta pra Poa.

É que nem o bicho paulistano é fraterno.

Caga na calçada dos outros e finge que esqueceu o saquinho. Ou até quis levar uma no bolso, mas acabou impedido pela nova lei das sacolas plásticas – cocô duro na verde, molenga na preta, o senhor quer investir em uma das nossas bolsas retornáveis?

O que salva o paulistano é que ele tem bons amigos. Poucos, mas desde a infância e extremamente unidos. Só assim se livra do completo isolamento e da morte por solidão. Tá certo que a maioria deles só existe mesmo no Facebook, mas se a razão da vida não é ganhar chuva de like num post, olha, eu realmente não sei o que é.

Chame de rancor, malquerer, malcomer, dá na mesma. Sou paulistana, sim, já tentei fugir, sim, não nego. O fato é que acabo sempre de volta a São Paulo na esperança de que ela esteja cada vez mais cheia de cariocas sublimes, todos determinados a salvar a organização da volta à babel.

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