Publicado em 10/05/2017 às 18:54

Preste Atenção aos Sinais

Daquilo que se sabe...

Taurina teimosa, a despeito de tantos conselhos e alertas para a não-exposição da figura, cá está a desenrolar o novelo do pensamento, colocando na mesa as questões  mutatis-mutandi, persistindo na mais pura insígnea da teimosia.

Difícil é  falar fácil. Se fazer entender, comunicar. 

Existe coisa mais fácil de assimilar que os sinais que a vida nos manda a todo o momento? A vida,  energia, o "segredo", as estranhas coincidências que aquele "por um segundo" vivenciados todos os dias?

Todos os dias recebemos sinais.

Mandamos e recebemos mensagens em garrafas o tempo todo. Nas redes sociais, os tais "sinais" viram escancaro, pedidos de socorro e declaração de revolta explícita. Se Roberto Carlos queria ter um milhão de amigos pra poder cantar mais forte, os internáuticos do século querem todos de cada canto do mundo para seu bel prazer e só. Likes e views. Monetizar. A comunicação nunca esteve tão democrática. E ninguém quer mudar o mundo. Vivemos a era das celebridades que reinventamos. Criamos e deixamos de lado. Sem glamour ou mistério.  Milhões de participações interativas desavisadas, buscam o quê? Pessoas comuns que querem se divertir e dividir... dividir?

Todos os dias uma nova postagem, um novo capítulo, um café mal passado, um sorriso ao lado, uma música e lembrança. Por segurança uns preferem a não exposição. Outros, não tem ou não querem guardar pra si e seu nicho o que poderiam e podem partilhar, ensinar e aí sim, dividir.

Precisamos parar de julgar

e exigir o que se quer. "Engenheiro de obra pronta" é a profissão mais em alta desde nesses tempos. Não tenha medo de expor seu ponto de vista. Precisamos dele. Não tenha medo de errar uma frase, compreenderemos -  dependendo da situação - o teor do engano. Não nos prive do que você é ou pretende ser. Não recue diante de alguém que aparentemente é mais "culto" que você. Deixe sua opinião, faça sua diferença. Seja um "autor" ou uma "autora" da vida, não apenas "sinaleiros".  E, principalmente, abra sua mente. Perceba outros pontos de vista, compare-se, entregue-se. Cuide-se. Fundamentalmente, cuide-se. Só faça se for para o seu bem, porque ele há de tocar outros e impregnar a sensação de que é possível ser. Não mais uma grande obra, nem tanto a diferença que o mundo nem espera mais.

Exerça seus sinais

Acredite, não tem mal gostar do que gosta. De "música velha", de joguinhos ou sites de relacionamentos. Goste do que gosta. Traga para a superfícies o que espera quando sinaliza para o mundo. Aos poucos. Esse festival de horror que lemos, vemos, ouvimos e absorvemos só é possível porque estamos tecnologicamente democráticos. Vamos usar isso para o nosso bem. Com força e com vontade, antes que seja tarde.

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Publicado em 12/04/2017 às 14:29

Lição de Assédio. Eu estava lá.

***editado em 13/04/2017. No final.

Último semestre da Faculdade e Rádio e TV, FAAP.

Não me lembro ao certo como a conversa começou. Sei que foi dentro da sala de aula do renomado professor da época, conhecido por suas entrevistas dramáticas na TV Cultura de SP, pelo sobrenome e prestígio intelectual. Como tal, vaidoso e auto referente o suficiente para não aceitar confrontos e críticas ou debates com alunos ávidos por mudanças, crentes de suas capacidades. Os 1980 estavam começando. Nada havia que freasse a criatividade ou a vontade de viver.

Cena e Mise-en-scéne:

Sala de aula no laboratório de Rádio e T.  A classe reunida. Provavelmente o tema inicial da conversa fosse oportunidades de trabalho, colocação no mercado, possibilidades de atuação. O vaidoso e intelectual prestigiado professor fazia questão de incendiar os debates com suas observações controversas. Eu e minha amiga, irmãs coragem de sempre, não costumávamos deixar uma boa discussão de lado. Nem podíamos. Saber era uma necessidade. Lutar pelo que hoje é chamado empoderamento feminino era instintivo. A defesa do gênero, também. Não sabíamos o que era  já sendo.

"Uma Mulher Jamais Será Uma Profissional de Televisão se Não fizer o Teste do Sofá".

Ele fazia questão  de abaixar a cabeça para que o queixo comprimisse e espalhasse a longa barba pelo rosto numa figura de horror, usando seu tom barítono, palavra por palavra, arqueando as sobrancelhas sobre os óculos. Até ele dizer isso, o "teste do sofá" para as 80's girls era uma lenda. Choque. Havia mais garotas na sala do que garotos. Choque. "Como assim, professor?!"  Todas incomodadas, sentindo o comichão indignado manifestando-se pelo corpo.

"Vocês vão ter que primeiro dormir com o porteiro da emissora para poder entrar, depois com o segurança para poder circular, depois com um assistente qualquer para ter acesso, e com algum chefe generoso para ganhar um cargo de comando".

Isso nos foi dito dentro da sala de aula de uma Universidade referência em Comunicação. Choque. Se era para provocar a discussão entre estudantes e assim abrir a mente para quebra de paradigmas, não deu certo. Quase nunca dava certo com ele. Não havia resposta para nossos argumentos e quase sempre os debates terminavam com sua voz grave concluindo em sabedoria um "porque, sim." E ponto.  Ele quebrou o respeito que nutríamos por ele e e por pouco não jogou no lixo os 4 anos de empenho e estudo para o ofício que havíamos escolhido como profissão. O burburinho começou, todas - e os meninos - indignados com aquela afirmação. "Por quê você dá aulas se não vamos usá-las?", "O que você está fazendo aqui?!", "Quem você pensa que é para definir nosso futuro dessa forma?!".

"Eu sou o poder. Reclamem, gritem, esperneiem. Não vai adiantar. Dos seus atributos, o que menos interessa é a inteligênca".

Discussão generalizada, todos contra a arrogante postura do professor-renomado-intelectual-respeitado. Ele não arredava pé. Lembro que costumávamos desafiá-lo com nossa criatividade e ele não gostava. O pecado da vaidade e egocentrismo tirava-lhe o equilíbrio do formador de opinião diante de recém-saídos da adolescência. A discussão tomou proporções bíblicas. O sinal tocou, a aula terminara. Não importava. As vozes foram aumentando, agora no corredor, fora da sala, com ecos que invadiam as outras portas que se abriam. Os curiosos passando vagarosamente pela área de conflito, os interessados parando em torno da turma que lutava contra a ofensa. Todas as garotas da sala inconformadas.

"Quando vocês estiverem vendendo bombril na feira, vou adorar ir lá comprar. Porque vocês vão vender bombril na feira!"

O professor VIP agora gritava. Havia muitos dedos apontados para ele que jamais recuaria. "vou te mostrar quem vai vender bombril na feira!"; "machista, sujo!".  Lembro pouco de uma discussão que pareceu durar horas. Mas a visão daquele corredor e a arrogância do grande homem grande - ele era enorme em largura, altura e barba e óculos - ainda deve estar gravada na retina de muitas colegas mesmo décadas depois.

Aos poucos a pequena "multidão" foi se dispersando, desistindo, desolada, revoltada, infeliz. Ficaram duas. Eu e minha irmã coragem que apontava o dedo para ele o desafiando a provar o que dizia. Prometendo que ia esfregar na cara dele o sucesso da sua carreira. A epopéia sobre "dar certo" ou não na comuniação.

Pouco sabíamos naquela época, mas aquela "aula" misógina e sexista foi necessária.

Queríamos ser estimuladas a lutar contra o que estava errado, não empurradas pela correnteza do "assim é e ponto final." Foi uma aula sobre assédio jamais esquecida.

Chegou um ponto que eu desisti. A irmã coragem parecia não se conformar. Falei: "chega, não adianta, não adianta...". O renomado e respeitado professor conseguiu sair do cerco e entrar na sala dos professores. Nós fomos ao antigo Pastel e Cia., em frente à Universidade tomar um caldo de cana para acalmar. E discutir. E prometer que jamais faríamos tal coisa. Que venceríamos pela capacidade e força de trabalho. E assim, foi.  Difícil. Dificílimo. A cada dez anos trabalhados, um degrau. Um projeto de resistência contra as investidas, as promessas, as cantadas e piadas. O trabalho triplicado nos transformou em necessárias. Corretas, éticas. Conosco, a "coisa" saía. Não tínhamos rabo preso, medo, nem casos amorosos com superiores que não nos permitissem questionar. Mas vimos tudo isso. E continuamos trabalhando firmes, fortes, focadas. Foi preciso uma vida inteira de trabalho árduo para provar que poderíamos vencer sem dar para o porteiro, o segurança, o assistente, o diretor...

Essa história não teria relevância sem o caso José Meyer

Décadas comentando o assunto, vendo colegas de trabalho ascendendo vertiginosamente, outras despencando inexplicavelmente. Assuntos proibidos falados a boca pequena.  A educação e cultura mudaram pouco. E o que mudou parece em retrocesso. Não se iludam. O tipo de assédio relatado pela figurinista da Rede Globo é a ponta de um iceberg tão gelado quanto a consciência de quem comanda a coisa toda.  Só o voto e a união tem a força para mudanças reais. Que o caso José Meyer tenha sido um passo importante. Por nossas filhas.

 *EDIT (13/04/2017)

São tantos os canais de divulgação e redes sociais que não espero mais comentários aqui, salvo anônimos e  leitores descuidados cujo prazer de partilhar conhecimento e vida ainda não tive. As respostas aos meus posts quase em sua totalidade vêm no Facebook, twitter, linkedin.  No problem. O importante é que nossa emoção sobreviva.  O fato é que algumas colegas presentes nesse episódio responderam via Facebook, onde postei o link para divulgação. Uma delas (irmã, é preciso coragem!) lembrou de um fato sexista extremamente importante dessa discussão. Outra, colaborou com a formação do perfil ególatra, auto e auto referente com outra lembrança. Subtraí os nomes e os perfís porque não pedi autorização. Creio que não haverá problemas, mesmo assim, desde aquela época aprendemos que respeito é bom e todo o mundo gosta. Eis:

memory1 Lição de Assédio. Eu estava lá.

 

memory2 Lição de Assédio. Eu estava lá.

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Publicado em 03/04/2017 às 13:33

A Ignorância Feliz ou a Consciência Atormentada

Como diria Maria Bethânia (by Gonzaguinha, Sir):

São tantas coisinhas miúdas, comendo, roendo, arrasando aos poucos com o nosso ideal...

Saltemos de uma canção de amor atormentado para a realidade que nos cerca e os desejos que nos mantém de pé. Desejos de sorte de um amor tranquilo. Desejos de que o belo se sobreponha às imagens terríveis de violência e perdição jorrando das telas pequenas, médias, grandes, portáteis, espertas... Difícil não se atormentar com uma visão de realidade imposta. Basta abrir a janela para ver o lindo azul de outono que um grito vem, um acorde, um suspense, mais uma tragédia aconteceu.

Claro que dói.

Penso muito e sempre no papel do comunicador. Na importância desacompanhada de consciência que perturba. Creio que já passamos da fase "celebridade", visto que todos o são, em seus grandes ou pequenos espaços. As estrelas e outrora já mostram sinais de cadência num samba descompassado. A esmagadora maioria seguindo o tempo, adaptando-se à história recente como deve ser (?). Camaleões de seu espaço e tempo, alguns continuam dando certo com as fórmulas já vistas, mas nunca desgastadas. As novas estrelas contam histórias dos desvalidos e comovem, se comovem. Repito que não há história que já não tenha sido contada. A diferença é a maneira, a forma como você vai recontar a mesma história. E para isso é preciso muito mais talento do que os livres e deliciosos pioneiros das ideias.

Vantagem de um pais Sem Memória

Criativos duram mais. Os que conseguem ver o óbvio que os outros não enxergam, ouro. Qual o momento exato de repetir a fórmula? Quem assumirá o papel diante das câmeras? Qual a grande revelação? Como reinventar o "elo perdido"? Não tem mais Hebe, Flávio, Abelardo e sua democracia deliciosa, palco dividido com reis e plebeus da música. Bancada julgadora eclética, parça do povo mesmo. Dias de glória. Novamente o papel do comunicador e do veículo. A política da não educação para que as fórmulas perdurem, funcionando por mais e mais tempo.
Simples seria se não estivéssemos vivendo a banalização da violência gravada e publicada em sites de relacionamento como se no seu "próprio canal" pudesse tudo.  A vida como quiseram que fosse. Porque "a vida como ela é" é cheia de dramas psicológicos, dúvidas cruciais, encontros e desencontros, mas não essa carnificina cultuada todos os dias, em todas as janelas. Banalizamos a morte. Simples assim. E o perigo não  é "pivilégio" dos desvalidos. O perigo está para todos. Pode acontecer com qualquer um em qualquer lugar.

Ignorar e ser Feliz?
Pararemos de pensar sobre tais banalizações. Sigamos a vida nos carnavais, micaretas com picaretas. Vamos parar o dia por uma partida de futebol. Um churrasco, uma breja, uma boa piada e a confissões sobre sair do pais. Ai, é muita coisa pra pensar, muita consciência pra pesar... a vida está curta, cada vez mais rápida. Não, não... vamos aproveitar o que podemos enquanto podemos. Fazer o quê? A vida é assim. Se tornou assim. Vamos nos fechar em nichos familiares e recorrentes e discutir se o churrasco de berinjela depende do tempero. Se vamos comer carne envenenada ou não. A vida pode acabar logo ali, não é mesmo? Estamos num continente onde não é possível planejar por muito tempo. À não ser que você tenha o dinheiro para isso e compre sua liberdade no mundo. A busca, então, por dinheiro.

Consciência Atormentada
Quem precisa saber que o mundo vai acabar? Por quê fazer murchar esperanças? Pra quê o sofrimento de não conseguir colaborar com o que pode ser feito? Pra que sofrer? Pra que saber? Que tormento! Impossível não. Quem se preocupa com o que tem sido mostrado, ensinado e não dividido? A guinada está no quarto poder. No quinto também. Infelizmente não há sinalização de tal interesse. Talvez lá fora. Trump? Talvez tenha vindo para rodar moinhos de vento...

A opção pela felicidade é sua. Suas escolhas, a poeira que vai sacudir, a volta por cima.
Deus é o Tempo que tudo descortina, mostra. Querer ser uma pessoa não o torna essa pessoa. Tomar uma distância dos fatos e enxergá-los como são ou foram, é um processo de amadurecimento. Quando chegar a hora do grande asteróide, ou dos homenzinhos coloridos, ou máquinas, quando a vida imitar a arte, quem sabe também façamos parte dessa encenação e nos unamos, países autônomos por um bem maior: salvar quem destrói? Aguardemos. Alguns terão a sorte desse momento. Outros a mesma sorte de não.

A maior glória é aprender, perdoar. E reconhecer que tudo foi válido. Tirar lições do recolhido ao longo do tempo. Não se revoltar. A sorte está nas mãos de outro, porque o timão da história está sempre em suas mãos.

Por isso, viva.  Não prejudique o outro, não se prejudique.

Tenha coragem e seja bondoso. O resto vem. Desabrocha. Faça sua escolha. Humildemente, acredito que um pouco lá, um pouco cá nos faça não perder a vontade de devolver a visão àqueles que há décadas lobotomizados por impulsos elétricos perderam seus valores. É preciso que os bons se juntem mesmo.  Difícil viver sem razão. Mortífera razão. Sejamos felizes  ainda que conscientes. Essa coisa que o otimismo traz é milagrosa.

Assistam filmes clássicos. Séries lúdicas. Mas não se esqueça do seu olhar ao redor.

 

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Publicado em 17/02/2017 às 16:44

Quantos Links Você Tem?

A Década era 80.

Mais precisamente, do meio para o final. Links - transmissões ao vivo como eram e ainda são chamadas - custavam muito caro às emissoras e nem todas se dispunham à criar quadros para entretenimento ou prestação de serviços. O jornalismo detinha toda a prioridade sobre o equipamento e editoria. Não era raro uma ideia de link surgida em reunião de conteúdo de programa ser transformada em pauta jornalística. E link jornalístico. Com sua linguagem jornalística. O tempo necessário para o inédito e informação imediata, ao vivo.

Em 1986 a TV Gazeta de São Paulo transbordava criatividade e dificuldades. Talvez por isso tamanha criatividade. Era o tempo do icônico "TV Mix", de onde saíram Serginho Groissman e Astrid Fontenelle, citando apenas alguns. Programas eram dirigidos por Fernando Meirelles Muitos programas e apresentadores consolidados foram gerados naqueles anos. Como essa temporada de grande sucesso tem muitos pais, mães e controvérsias, não vou me aprofundar. Embora lembre e muito bem de toda a rotina dos estúdios montados entre as janelas da enorme redação do sétimo andar da Paulista 900, muitos outros detém informações precisas, experiências próximas, intensas e pesquisadas.

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Claudete Troiano e Ione Borges

Eu era Produtora do Programa Mulheres em Desfile, apresentado por Ione Borges e Claudete Troiano, as "parceirinhas". Outro apelido carinhoso dado por Chacrinha, "as fadinhas ta televisão brasileira", não colou. Ficou para a história. Rolava uma colaboração entre o núcleo "TV Mix" e o Mulheres em Desfile, programa que resistiu e resiste até hoje bravamente às mudanças criativas. Participei de muitas delas. Quase todas. Mas isso é outra história. Vamos falar do links.

Começamos visitando ao vivo casa de artistas

Cada pauteiro era responsável pelos seus convidados, roteiro, produção. Cabia à secretária de produção a parte burocrática. Todo o conteúdo era gerado pelo produtor/pauteiro. Pré-entrevistas, briefing (resumo e informações da história) para as apresentadoras, assuntos inéditos. Conheci e fiz amizade com muitos artistas e personalidades que abriam as portas de suas casas sem medo algum. Serviam um café, cantavam uma canção, ouviam sua música preferida com as apresentadoras. Abriam suas lojas, faziam desfiles.  Era uma delícia. Nos revesávamos nas visitas. Assim como as apresentadoras. Cada link, uma ia enquanto a outra dividia o estúdio. Tempos iguais para o link e estúdio. Regina Duarte, Sérgio Reis até Jorge Amado e Zélia Gatai nos receberam no jardim do Macksoud Plaza onde estavam hospedados em São Paulo. Aliás, dona Zélia foi até o fim uma colaboradora generosa do programa, entrando ao vivo por telefone quando solicitada para opinar sobre este o aquele assunto.

Tudo inédito e na raça.

Quando sentimos que precisávamos ser menos glamourosos e mais sociais, passamos a mostrar como eram por dentro instituições, prisões e abrigos de minorias. Mostramos para as mães ao vivo como era a então FEBEM por dentro. Como viviam os índios numa casa-abrigo no centro de São Paulo. Nos tempos de festa, os links eram nos shopping-centers mais frequentados. Pouquíssimos na época. Tudo inédito tanto para os visitados quanto para nós. Na raça. A equipe técnica tinha que checar se o 'link fechava" com alguns dis de antecedência. "Fechar link" significava achar um local para nosso caminhão-furgão sobre o qual ficava uma antena e esta antena tinha que se direcionada à da Avenida Paulista. Ou seja, a antena da Paulista tinha que ser visualizada do local da transmissão. Caso não fosse, o link teria que ser em dois lances, algo como rebater o sinal. Aí entrava outras batalhas: convencer o vizinho a deixar que instalássemos nossos equipamentos, que usássemos sua energia, que pisássemos na sua grama e destruíssemos seu jardim. Cabos grossos tinham limite de alcance também. A câmera só ia até a extensão de seu cabo permitisse. O mesmo para a iluminação em locais internos. Profissionais heroicos se dependuravam em postes de luz, em lajes de casa, coberturas de prédios... uma aventura.

Ione Borges e Claudete Troiano suportavam calores inimagináveis sobre os holofotes quentes muitas vezes instalados em ambientes minúsculos e de pouca ventilação, como o abrigo indígena. Foram feras.

Ao Vivo, de uma Rua do Seu Bairro

Ao vivo, direto do Anhembi nas festas-show de aniversário (incríveis, um capítulo à parte) com mais de 5 mil pessoas na platéia que acampavam dias antes em busca de melhores lugares e rendiam matérias deliciosas na fila.

Ao vivo e pulsando

Hoje, quando nos transmitimos cortando o cabelo ao vivo do celular, não dá pra lembrar sem imenso carinho  do sapato fone do agente 86. E do quanto foi feito para chegar até aqui. E como tudo é cíclico. É de ficar perplexa.

 

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Publicado em 23/01/2017 às 20:03

Não é o que Pensei

É  preciso assistir "La La Land"

Fui ao cinema esperando um bom filme, recheado de referências aos clássicos norte-americanos. Musicais, claro.  Segui para a fila com em pleno processo de análise insolente, quase uma arrogância "eu-já-sei-o-que-vai-acontecer-e-como" . Fila boa.   Gosto desse cinema. O shopping descolado com várias salas exibindo filmes para plateias exigentes, o capuccino e cheiro de pipoca amanteigada, tribos e pequenos diferenciais no ambiente devolvendo a importância do  espetáculo que é a exibição de um filme.

lalaland Não é o que Pensei

divulgação

Houve um tempo em que todos os cinemas contavam com uma cortina vermelha antes da tela branca. Como um "espetáculo". As cortinas se abriam enquanto as luzes se apagavam. Hora do silêncio, do "shhhh", alguns pigarros. Respeito. As salas de dinema onde assisti La La Land  não são tão rígidas, mas o respeito está sempre lá. Alguns cinemas me aproximam dos atores, do enredo, da indústria pela sua frequência e cuidado. Pessoas que gostam de cinema, respeitam o cinema.

Arrebatador

Logo de cara 0 tremendo e já bastante comentado plano-sequência, ou "ilusão" de plano sequência, ou, ou ou, faz a gente querer estar naquele congestionamento, misturada àquelas cores vivas respirando o otimismo dos bailarinos, cantores, contorcionistas e cinegrafistas voadores (ou, ou, ou... e daí?). Ponto positivo. Falaram tanto... não foi decepcionante. Não, não. Foi muito bom.  E quando você acha que vai demorar para acontecer alguma coisa, acontece tudo. Emma Stone em mais uma sequência inesperada. Surpresa boa. O filme continua bom, olha só...

E depois da cena de Emma Stone... ah... não pára mais. Me encolho humilde e envergonhada na poltrona. Aperto a mão de meu companheiro que retribui o gesto. Estamos comovidos. E as sequências continuam. E continuam, e continuam....

Cidade dos Sonhos

Los Angeles, Los Angeles... Pessoas comuns, sem grana e sonhadoras. La La Land fala de correr atrás dos seus sonhos impossíveis, lutar, vencer o inimigo invencível. Quantas pessoas neste  mundo terrorista e economicamente aflito ousam sonhar? Arrisco: todas. Quantas assumem ou se envergonham da "fraqueza de amar" é outra história. Esse filme me pôs ao chão. Parei de raciocinar. O sentimento tomou conta e assim fui durante toda a viagem para a Cidade das Estrelas; um pouco mais de duas horas numa imersão deliciosa como há muito tempo não acontecia. Excelente fotografia, Direção, Canções, Interpretações, Figurino, Cenografia... maiúsculas para tudo isso.

Não é passado.

Temos cores, carros diferentes, e celulares que tocam na hora errada, na hora certa, Temos jazz, temos talento, temos uma história de amor. De amizade. De fé. De verdade. Tudo sobre o que nos falta atualmente. Aquelas qualidades humanas empurradas para baixo do tapete que neste caso é mágico, voa e descobre o que podemos e gostaríamos de ser.

A arte do encontro...

...mudando o destino, fazendo valer. Três minutos mudando uma vida. Duas horas terminando uma história. É preciso ver La La Land. E sentir-se num espetáculo, com vontade de aplaudir. De saber quem fez tudo aquilo acontecer. Que grande cara, esse Damien Chazelle Diretor do espetáculo. 32 anos. Dá gosto, orgulho de uma geração. Inteligente, inovador, competente, sensível, corajoso. Humano.

Bye-Bye, So long, Farewell

Uma história de amor. Um amor de história. Capricho. A estranha melancolia que faz a gente sorrir. O bem, afinal. Nos sentimos cúmplices aqui  da história que só os protagonistas conhecem em La La Land. Esse aprochego, essa cumplicidade é um segredo de sucesso. Um blockbuster parecer só nosso não tem explicação, não, não, não tem.

 

 

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Publicado em 10/01/2017 às 15:40

Irmão, é Preciso Coragem!

Receita de terça-feira:

Exprema um limão siciliano bem amarelo num copo que se ajuste confortavelmente em uma de suas mãos. Daqueles que quando chegar a hora a "chacoalhadinha" tenha gosto sem provar e glamour nas pedrinhas de gelo derretidas.  Isso. Pedrinhas de gelo. Muitas. Pequenas para dar volume, temperatura e estética agradável.  Açúcar à gosto. Muito gelo. Está calor. Acrescente uma boa vodka importada levemente perfumada com bauniha. Misture tudo.  Misture bem.  Não reserve, deguste. Porque é terça-feira.

Se tiver sido poupado da vista curta de outro edifício em sua janela, vá até o parapeito. Debruce-se e... deguste. Algum horizonte, há. Meu deus, esse calor... e tantas coisas dentro dele e ao redor.

Assim a inspiração começa para uns e mal acontece para outros. Num terça-feira.  Imagens paradisíacas nas páginas da internet. O carro pra desamassar, o sofá pra trocar, a TV que não é nem um pouco esperta, esquenta demais. Que calor. Desarrume-se. Desajeite-se.  Conforte-se.  Leia. Sobretudo, pense. Pense muito em como afastar os maus-pensamentos. Proteja-se. Reveja um tempo em que na sua vida só havia amigos e festas e acontecimentos de contar mais velho. Procure identificar quantos permanecem. Veja bem: permanecer não é ver todo o dia. Permanecer é estamos: conosco e consigo independente da quantidade de "olá, como vai, tudo bem?" trocadas na vida real. Permanecer é ter a certeza de que quando for preciso, eles estarão ali. Aqui.  Em todo o lugar. Seja feliz por um triz nesse mundo que jaz. Não é fácil. Não são tempos fáceis. Talvez se a guerra fosse declarada as políticas nos ajudassem a calcular futuros, permanecer presentes, arrojar momentos. Mas, não. Tudo subjetiva à deriva nesse mar de coisas desencontradas e distantes.

Distantes dos reais lugares que pertencemos, distantes das pessoas que queremos perto. Do curso de fotografia, do documentário que vai mudar o mundo, dos quintais verdes e tablets maravilhosos. A vida é como São Paulo. Nos oferece tudo sem dar condição de participar desse "tudo".

Vivi uma Nova Iorque de sonhos, com a neve que pedi à deus e  Carneggie Hall.  E o Central Park. Não importa que não me dão lhufas, que sou mais uma se esbaldando como um pinto na neve. Não importa. O que importa e faz a diferença é como o meu coração bate. Brega, Pop, Hit, Over, Cover, down, up, meu, nosso... Nunca gostei de definições. Decidi não definir quanto achei, lá pelos idos final dos 1970, que era uma pessoa diferente. Embora a vida tenha revelado que de diferente sou espectdora de mestres e heroínas maravilhosas. Me sinto na pirâmide de Marx, sustentando o que acredito. Com o maior e máximo prazer. Farei a força que for necessária para sempre e todo o sempre. Estou na base da pirâmide mas poderia tranquilamente viajar no iate triplex em alto mar verde maravilha desse mundão Jacques Custeau. Saber o seu lugar em detrimeto de seu potencial é uma dádiva. É, sim.

Na Escócia, dizia.

Numa ilha da escócia. Uma casa no alto, nas pedras poderosas e fortes que aguentariam tsunamis. Casa de pedra sobre as pedras com um imenso farol sinalizando para todos os perdidos e necessitados. Uma casa auto-suficiente, tecnológica, grande, forte, com o farol, numa ilha da escócia. Nunca fui à escócia realmente.

Vivi Paris. Sempre haverá Paris e aquele cheiro de gosto.... Sempre e nunca mais apagado de minha história, como um pinto no Quartier Latin. Como uma amadora de sotaques dando licença e ouvindo "mercis" e "abientô" carregando o caminhãozinho de esperanças. Vivi o amor.

Não é preciso lisergia para encarar outsider essa vida de espertos. É preciso coragem. Irmão, é preciso coragem!

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Publicado em 01/01/2017 às 22:25

2017. Isso Mesmo

Como todo o final de período, procuro não pensar no que passou.

Nada vai mudar enquanto estiver lamentando as trombadas do povo que habita o entorno de nós mesmos. Nada mesmo. Foi. Cantamos essa canção desde sempre,  mas não temos consciência do que ela diz. Não mesmo. Tudo o que se vê não é igual ao que a gente viu à um segundo. Tudo muda o tempo todo no mundo. No entanto, sentimos que do mesmo lugar esse tudo é igual ao que a gente viu no capítulo da semana passada. Não, "minhas amiga", não é.

Acontece que recebemos lotes e mais lotes do mesmo. Variações sobre o mesmo tema que nos pasma. Não de susto. Pasma de pasmar, estagnar,  ensimesmados, frouxos, fracos. Somos muitos e fracos, é verdade sim. Verdade mesmo.

Tenho muitas histórias para contar sobre minha vida profissional e pessoal. Pessoalmente falando, parece até mais interessante, porque provei venenos que até valeria a pena dar um toque "pásamiga" e coisa e tal...  valeria. Mas não vale. Não vale mesmo. Se aprendi uma boa coisa é que não se ensina decência na teoria. Não mesmo.

Este espaço, por exemplo.  Jogo muitas mensagens na garrrafa nesse marzão... quanta letra! Quantas possibilidades, nénão? O medo do julgamento já foi, ô se foi... a tristeza da sentença vai aos poucos. Algumas coisas são de difícil digestão, por mais consciente que sejamos, não desce.

Ronnie Von, meu querido, disse um dia: "engolir sapo fica facinho quando se tem um jacaré de boca aberta para dar conta".  Tanta regra, tanta onda! Tanto funk, tanto samba, quanta música, quanto bamba! Tantas visualizações, tanta necessidade.  Santa vaidade...  Mais um ano se passou. Passou mesmo.  Já pensou? Há 17 anos do bug do milênio e ainda estamos aqui achando que inventamos o novo de novo.

2017. Vamos nos jogar de onde já caímos.

Isso mesmo.

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Publicado em 14/12/2016 às 19:07

Primeira em Paris

Desembarcamos em Paris num sábado de novembro.

Marais borbulha de gente e sotaque. Fui apresentada ao Senna no final da tarde e noite (Paris anoitece às 17h30 no outono). Perdi a luva direita e procuro um bom casaco para o frio. Seguimos para estudiozinho que alugamos muito simpático, simples e todo equipado . Andamos pelo bairro e não compramos gordices ou água para o frigo.

3h55 e eu tomaria uma água agora. Não acendi a luz. Não devo me mexer muito, a cadeira range e pode acordar o amado que completamente dorme.

Nesta primeira tarde e noite, informações não param de chegar. Tsunami cultural. Ansiedade à procura dos caretas de Paris. Só vi gente boa, solícita, jovem. Os mais velhos, impacientes bonachões.

O primeiro sentido se manifesta: o cheiro. Cheiro de Paris. Foi assim em Nova Iorque. O cheiro que faz voltar à Nova Iorque. A Paris úmida e cinza de outono cheira temperos sofisticados. O ar  entra absoluto pelas narinas impregna o corpo adaptando-o para a jornada. O ar, agora vento gelado molda as expressões, vem, toca e fica no rosto. Não sai. Não quero que saia. Gosto. Gosto da temperatura da minha pele em Paris.

A opção pelo não-turismo tradicional transformou a viagem em exemplo do que seria viver em Paris. Ainda que sob a graça do encantamento e ineditismo. Essas coisas que fazem a vida valer a pena.

Vimos exposições de rua e queríamos visitar o campo de refugiados. Não tivemos tempo nem oportunidade. Ficou anotado para a próxima que será breve.

Torre, Catedral, Arco, Rio, Museu. Só no Louvre, um dia inteiro e 6 horas em pé, parando alguns momentos para um lanchinho e água.

Um, dois balcões, isolamento por corda e lá ao fundo, protegida por uma moldura de vidro que refletia a luz do teto, a Mona. A popíssima foi afastada dos flashes e fans na maioria gafanhotos predadores por imagens e melhores posições para fotografar. Estar naquele espaço foi como um doit aller sem emoção ou impacto. Frio e bobo, como a foto tirada por obrigação. Alguns empurrões, frenesi coletivo, dialeto desconhecido e nenhum cheiro.  A famosa Mona Lisa me parece viver da fama nos efervescentes tempos de arte pop lá no século passado. Toda a sua importância artístico-humanista até Warhol  a mim não se fez notar. Quase chego a acreditar que vi um turista chinês pedindo um autógrafo para Mona. Delírios de museu.

Voltaremos ao Louvre, à Vênus e às Igrejas de Paris. Às cores de Paris.

Grande parte dos carros parisienses são à diesel. Percebo pelo barulho do motores e o cheiro de marginal lotada de caminhões num rush de qualquer hora. Mas não há rush em Paris. Não me lembro de caminhões. Lembro de ambulâncias. Muitas. E das sirenes. Sirenes de polícia, inclusive. Há muitas bicicletas. Os cidadãos cuidam delas que parecem sempre novas.   E os carros andam. E são lindos. Grandes, bonitos, como tudo naquela cidade.

Há flores e placas nas paredes dos pequenos prédios e casas. Homenagens aos heróis que "ali tombaram" durante a segunda guerra, em 1944.

Senti vontade que meu pais fosse assim. Que o povo do meu pais valorizasse seus heróis. Lembrei que não temos heróis capazes de unir o pais inteiro. Lembrei de Ayrton Senna diante do Rio Sena. Pensei como somos amados longe de nossa terra. Todos gostam de brasileiros.

Uma pontinha de angústia. Onde andarão os heróis e heroínas brasileiras. Com certeza, existem perdidos ao longo da história oficial contada e recontada ao bel prazer da política vigente. Olho em volta e o Brasil se vai. Volto para Paris que é um sonho, de fato. Que cidade! Não há um só lugar onde repousemos nossos olhos sem comoção.

 

 

 

 

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Publicado em 05/10/2016 às 20:15

Tiranias do Cotidiano

Il me semble que je  serais toujours bien là oú je ne sui pas* (algo como "eu estaria melhor se não estivesse onde estou ou não pertenço" - Baudelaire)

Me desculpem os franceses. Sou abusada.

Talvez hoje não seja um bom dia para saber sobre quando os índios foram declarados homens portadores de alma pela bula papal. Ou versar sobre o meio do caminho entre Heráclito e Demócrito ou Demócrito e Heráclito... Falar de risos e choros. Artes, sabe como? Teatro, cinema, TV, Internet, criação.

Talvez hoje seja o dia para cantar  Zeca Baleiro. 

eu não sou cristão 
eu não sou ateu 
não sou japa não sou chicano não sou europeu 
eu não sou negão eu não sou judeu 
não sou do samba nem sou do rock 
minha tribo sou eu 

eu não sou playboy eu não sou plebeu 
não sou hippie hype skinhead nazi fariseu 
a terra se move falou Galileu 
não sou maluco nem sou careta 
minha tribo sou eu 

Mas é preciso falar sobre história

A magia que séries datadas e de época exercem sobre os telespectadores móveis ou não, é inegável. A delícia de reviver momentos bons ou recriar memórias é inspiradora. Algo entre o novo-novíssimo e a base disso tudo. O segredo do sucesso de programas de TV que brincam e de certa forma "aliviam" as barras pesadas criadas por eles mesmos é a auto-ajuda.  As pessoas sentem-se acompanhadas, durante alguns minutos do dia a solidão de vai.

As novas séries da Vênus Platinada e dos canais especializados mostram de onde viemos. Vivemos uma nostalgia alegre e divertida. Veja bem: nostalgia. Nada de tristeza. Nada de papo cabeça. Mas a gente precisa pensar mais sobre isso para entender e conceber novos projetos. Por quê "Strange Things" fez tanto sucesso? "Nada Será Como Antes" inspirado em um certo navio que afundou, mostra os primórdios do rádio e da TV no Brasil entremeados por uma história de amor daquelas de cinema dos anos 30.

É preciso também falar sobre solidão

Minha experiência com programas desse tipo trouxe vivências fantásticas. Não é a fama, não é o sucesso. É a importância que as pessoas do lado de lá da tela têm ao se mostrarem com sangue. Não sangue nos olhos, nem o quente. Sangue do cuore. Contadores de histórias transformam anônimos em remédio para quem os assiste. Remédio para a solidão.

Não existe segredo. A sensibilidade e o conhecimento com pitadas de cultura e uma boa observação não fazem a diferença, são. Não têm idade. São. Entre o gélido clicar de um botão e o calor emitido pelo plasma reto, concreto, impenetrável. O led frio que pulsa e  joga quatro "kás" transformando a realidade virtual em quase matéria viva.

Grande Chacrinha

... que dizia: "Em Televisão nada se cria, tudo se copia". E assim têm sido essa história. A diferença está na competência de quem realiza, de quem reconta as mesmas histórias. De quem sabe copiar recriando. Variações sobre um mesmo tema. Dependendo do objetivo de quem o faz, o sucesso é garantido.

Talvez seja dia de falar sobre Nostalgia

... e a não substituição de figuras emblemáticas. Símbolos que se foram e vão sem substitutos, ou com força e estilo parecidos. Em qualquer das artes. Nostalgia não é tristeza. É bom lembrar e curtir, principalmente.  E felizmente no lugar dos insubstituíveis, vêm novas formas, novas cores, novos tons, novas ideias, novos caminhos. Novas pessoas. Novos contar de  história e vencendo o movimento do rodo que nos empurra para o canto da tela cada vez mais.

Ler é Mais Importante do que Estudar (Ziraldo)

Ler, saber, conhecer, compreender. Quem escolheu Comunicação como ofício deve saber que tudo tem a ver com sua vida. Tudo vai mudar a sua vida. Tudo é ferramenta e combustível para a criação.

Vamos criar?

 

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Publicado em 16/09/2016 às 20:08

Uma Panela Por Seus Sentimentos

Ainda um pouco abalada com a vida como ela é ou como tem deixado de ser

Eu, que tantas vezes expus o que nem precisava,  vou de novo surfar nessa onda. Não consigo identificar - embora esteja muito perto - o que me entristece profundamente com relação à perdas coletivas e visceralmente sentidas, como a trágica e precoce  partida de Domingos Montagner. Nunca o conheci pessoalmente, apesar de me parecer próximo, familiar, o cara do balcão da padaria e cafezinho. O sorriso. Aquele sorriso. Temos conhecidos e até amigos em comum com os quais partilhei a desolação nas redes sociais através de fotos e inúmeras declarações de amor. A cada dor declarada, eu repetia como um mantra, precisando do conforto: "assim é a vida. assim é a vida. bola pra frente." Mas aquela angústia de quem está recebendo do universo a consternação através dos vários lamentos, mudou o dia. Sabe aqueles dias que ficam estranhos? O dia ficou estranho.

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reprodução: instagram

Triste, sim. Muito. Querendo saber onde a turma do mal consegue se esconder das peças que a vida prega. Não desejo o fim de nenhuma existência, mas a seleção poderia ser mais generosa conosco, imperfeitos e tão precisados de exemplos. E Domingos era sim, exemplo. Exemplo de  amar a sí mesmo, amar seu pais. Um cara simples.  Um líder que a ficção pegou emprestado. E que hoje os índios da Tribo Fulni-ô homenagearam num ritual.

“Por que estão querendo trazer a alma dele de volta? Ele nasceu de novo hoje. Ele se tornou um novo protetor do rio São Francisco"

... porquê precisamos ainda dessa alma, dessa energia, dessa força, dessa proteção. Domingos Montagner, Ator maiúsculo, entregue ao ofício e a socialização da alegria de viver de sua fé e glória. Porque, além de egoístas, somos pequenos precisando de guias, de sorrisos como os dele.  Tão certo quanto a qualidade de seu trabalho é a  exclusividade desse homem. Montagner era daqueles de não haver outro e poderia ainda tocar muitos corações e mentes se emprestando às massas através das novelas, filmes e o que mais atingisse o maior número de pessoas. Tocar as pessoas. Exercer a arte que nos salva dessa loucura toda. E aí fere, fere fundo quando uma pessoa que se empresta à nós contra o horror de um mundo que vem se  estragando através de um olhar, um sorriso, uma piada vai numa passada de perna do destino. De repente. Arrastado.

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reprodução: instagram

Que continue o exemplo do que é ser ator e não celebridade. Do que é ofício e não agito.

Que neste quadrado-retângulo onde se vende panelas com a mesma entonação de voz com que se acusa um assassinato ou narra-se uma perseguição de helicóptero, volte o merecimento. Pelo retorno do respeito à profissão, à ética, à vida frágil. Que o espetáculo que poderá surgir nos próximos dias toque os não-políticos profissionais, mas os que exercitam a política em suas vidas comuns. Pela vida leve, de boa, sem truques nem truqueiros e falsos talentos.

Que geração a sua, Domingos... ! Que aqueles que hoje gabam-se da descoberta da pólvora azul e de fundar museus de grandes novidades compadeçam-se de sí diante de você e sua criação. Um homem simples e tão honesto em sua fé e profissão que criou o NOVO que tanto precisamos. Um HOMEM BOM. Competente. É disso que sinto muito.

Sinto muito. E persistindo na fé.

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