Publicado em 17/02/2017 às 16:44

Quantos Links Você Tem?

A Década era 80.

Mais precisamente, do meio para o final. Links - transmissões ao vivo como eram e ainda são chamadas - custavam muito caro às emissoras e nem todas se dispunham à criar quadros para entretenimento ou prestação de serviços. O jornalismo detinha toda a prioridade sobre o equipamento e editoria. Não era raro uma ideia de link surgida em reunião de conteúdo de programa ser transformada em pauta jornalística. E link jornalístico. Com sua linguagem jornalística. O tempo necessário para o inédito e informação imediata, ao vivo.

Em 1986 a TV Gazeta de São Paulo transbordava criatividade e dificuldades. Talvez por isso tamanha criatividade. Era o tempo do icônico "TV Mix", de onde saíram Serginho Groissman e Astrid Fontenelle, citando apenas alguns. Programas eram dirigidos por Fernando Meirelles Muitos programas e apresentadores consolidados foram gerados naqueles anos. Como essa temporada de grande sucesso tem muitos pais, mães e controvérsias, não vou me aprofundar. Embora lembre e muito bem de toda a rotina dos estúdios montados entre as janelas da enorme redação do sétimo andar da Paulista 900, muitos outros detém informações precisas, experiências próximas, intensas e pesquisadas.

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Claudete Troiano e Ione Borges

Eu era Produtora do Programa Mulheres em Desfile, apresentado por Ione Borges e Claudete Troiano, as "parceirinhas". Outro apelido carinhoso dado por Chacrinha, "as fadinhas ta televisão brasileira", não colou. Ficou para a história. Rolava uma colaboração entre o núcleo "TV Mix" e o Mulheres em Desfile, programa que resistiu e resiste até hoje bravamente às mudanças criativas. Participei de muitas delas. Quase todas. Mas isso é outra história. Vamos falar do links.

Começamos visitando ao vivo casa de artistas

Cada pauteiro era responsável pelos seus convidados, roteiro, produção. Cabia à secretária de produção a parte burocrática. Todo o conteúdo era gerado pelo produtor/pauteiro. Pré-entrevistas, briefing (resumo e informações da história) para as apresentadoras, assuntos inéditos. Conheci e fiz amizade com muitos artistas e personalidades que abriam as portas de suas casas sem medo algum. Serviam um café, cantavam uma canção, ouviam sua música preferida com as apresentadoras. Abriam suas lojas, faziam desfiles.  Era uma delícia. Nos revesávamos nas visitas. Assim como as apresentadoras. Cada link, uma ia enquanto a outra dividia o estúdio. Tempos iguais para o link e estúdio. Regina Duarte, Sérgio Reis até Jorge Amado e Zélia Gatai nos receberam no jardim do Macksoud Plaza onde estavam hospedados em São Paulo. Aliás, dona Zélia foi até o fim uma colaboradora generosa do programa, entrando ao vivo por telefone quando solicitada para opinar sobre este o aquele assunto.

Tudo inédito e na raça.

Quando sentimos que precisávamos ser menos glamourosos e mais sociais, passamos a mostrar como eram por dentro instituições, prisões e abrigos de minorias. Mostramos para as mães ao vivo como era a então FEBEM por dentro. Como viviam os índios numa casa-abrigo no centro de São Paulo. Nos tempos de festa, os links eram nos shopping-centers mais frequentados. Pouquíssimos na época. Tudo inédito tanto para os visitados quanto para nós. Na raça. A equipe técnica tinha que checar se o 'link fechava" com alguns dis de antecedência. "Fechar link" significava achar um local para nosso caminhão-furgão sobre o qual ficava uma antena e esta antena tinha que se direcionada à da Avenida Paulista. Ou seja, a antena da Paulista tinha que ser visualizada do local da transmissão. Caso não fosse, o link teria que ser em dois lances, algo como rebater o sinal. Aí entrava outras batalhas: convencer o vizinho a deixar que instalássemos nossos equipamentos, que usássemos sua energia, que pisássemos na sua grama e destruíssemos seu jardim. Cabos grossos tinham limite de alcance também. A câmera só ia até a extensão de seu cabo permitisse. O mesmo para a iluminação em locais internos. Profissionais heroicos se dependuravam em postes de luz, em lajes de casa, coberturas de prédios... uma aventura.

Ione Borges e Claudete Troiano suportavam calores inimagináveis sobre os holofotes quentes muitas vezes instalados em ambientes minúsculos e de pouca ventilação, como o abrigo indígena. Foram feras.

Ao Vivo, de uma Rua do Seu Bairro

Ao vivo, direto do Anhembi nas festas-show de aniversário (incríveis, um capítulo à parte) com mais de 5 mil pessoas na platéia que acampavam dias antes em busca de melhores lugares e rendiam matérias deliciosas na fila.

Ao vivo e pulsando

Hoje, quando nos transmitimos cortando o cabelo ao vivo do celular, não dá pra lembrar sem imenso carinho  do sapato fone do agente 86. E do quanto foi feito para chegar até aqui. E como tudo é cíclico. É de ficar perplexa.

 

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Publicado em 23/01/2017 às 20:03

Não é o que Pensei

É  preciso assistir "La La Land"

Fui ao cinema esperando um bom filme, recheado de referências aos clássicos norte-americanos. Musicais, claro.  Segui para a fila com em pleno processo de análise insolente, quase uma arrogância "eu-já-sei-o-que-vai-acontecer-e-como" . Fila boa.   Gosto desse cinema. O shopping descolado com várias salas exibindo filmes para plateias exigentes, o capuccino e cheiro de pipoca amanteigada, tribos e pequenos diferenciais no ambiente devolvendo a importância do  espetáculo que é a exibição de um filme.

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divulgação

Houve um tempo em que todos os cinemas contavam com uma cortina vermelha antes da tela branca. Como um "espetáculo". As cortinas se abriam enquanto as luzes se apagavam. Hora do silêncio, do "shhhh", alguns pigarros. Respeito. As salas de dinema onde assisti La La Land  não são tão rígidas, mas o respeito está sempre lá. Alguns cinemas me aproximam dos atores, do enredo, da indústria pela sua frequência e cuidado. Pessoas que gostam de cinema, respeitam o cinema.

Arrebatador

Logo de cara 0 tremendo e já bastante comentado plano-sequência, ou "ilusão" de plano sequência, ou, ou ou, faz a gente querer estar naquele congestionamento, misturada àquelas cores vivas respirando o otimismo dos bailarinos, cantores, contorcionistas e cinegrafistas voadores (ou, ou, ou... e daí?). Ponto positivo. Falaram tanto... não foi decepcionante. Não, não. Foi muito bom.  E quando você acha que vai demorar para acontecer alguma coisa, acontece tudo. Emma Stone em mais uma sequência inesperada. Surpresa boa. O filme continua bom, olha só...

E depois da cena de Emma Stone... ah... não pára mais. Me encolho humilde e envergonhada na poltrona. Aperto a mão de meu companheiro que retribui o gesto. Estamos comovidos. E as sequências continuam. E continuam, e continuam....

Cidade dos Sonhos

Los Angeles, Los Angeles... Pessoas comuns, sem grana e sonhadoras. La La Land fala de correr atrás dos seus sonhos impossíveis, lutar, vencer o inimigo invencível. Quantas pessoas neste  mundo terrorista e economicamente aflito ousam sonhar? Arrisco: todas. Quantas assumem ou se envergonham da "fraqueza de amar" é outra história. Esse filme me pôs ao chão. Parei de raciocinar. O sentimento tomou conta e assim fui durante toda a viagem para a Cidade das Estrelas; um pouco mais de duas horas numa imersão deliciosa como há muito tempo não acontecia. Excelente fotografia, Direção, Canções, Interpretações, Figurino, Cenografia... maiúsculas para tudo isso.

Não é passado.

Temos cores, carros diferentes, e celulares que tocam na hora errada, na hora certa, Temos jazz, temos talento, temos uma história de amor. De amizade. De fé. De verdade. Tudo sobre o que nos falta atualmente. Aquelas qualidades humanas empurradas para baixo do tapete que neste caso é mágico, voa e descobre o que podemos e gostaríamos de ser.

A arte do encontro...

...mudando o destino, fazendo valer. Três minutos mudando uma vida. Duas horas terminando uma história. É preciso ver La La Land. E sentir-se num espetáculo, com vontade de aplaudir. De saber quem fez tudo aquilo acontecer. Que grande cara, esse Damien Chazelle Diretor do espetáculo. 32 anos. Dá gosto, orgulho de uma geração. Inteligente, inovador, competente, sensível, corajoso. Humano.

Bye-Bye, So long, Farewell

Uma história de amor. Um amor de história. Capricho. A estranha melancolia que faz a gente sorrir. O bem, afinal. Nos sentimos cúmplices aqui  da história que só os protagonistas conhecem em La La Land. Esse aprochego, essa cumplicidade é um segredo de sucesso. Um blockbuster parecer só nosso não tem explicação, não, não, não tem.

 

 

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Publicado em 10/01/2017 às 15:40

Irmão, é Preciso Coragem!

Receita de terça-feira:

Exprema um limão siciliano bem amarelo num copo que se ajuste confortavelmente em uma de suas mãos. Daqueles que quando chegar a hora a "chacoalhadinha" tenha gosto sem provar e glamour nas pedrinhas de gelo derretidas.  Isso. Pedrinhas de gelo. Muitas. Pequenas para dar volume, temperatura e estética agradável.  Açúcar à gosto. Muito gelo. Está calor. Acrescente uma boa vodka importada levemente perfumada com bauniha. Misture tudo.  Misture bem.  Não reserve, deguste. Porque é terça-feira.

Se tiver sido poupado da vista curta de outro edifício em sua janela, vá até o parapeito. Debruce-se e... deguste. Algum horizonte, há. Meu deus, esse calor... e tantas coisas dentro dele e ao redor.

Assim a inspiração começa para uns e mal acontece para outros. Num terça-feira.  Imagens paradisíacas nas páginas da internet. O carro pra desamassar, o sofá pra trocar, a TV que não é nem um pouco esperta, esquenta demais. Que calor. Desarrume-se. Desajeite-se.  Conforte-se.  Leia. Sobretudo, pense. Pense muito em como afastar os maus-pensamentos. Proteja-se. Reveja um tempo em que na sua vida só havia amigos e festas e acontecimentos de contar mais velho. Procure identificar quantos permanecem. Veja bem: permanecer não é ver todo o dia. Permanecer é estamos: conosco e consigo independente da quantidade de "olá, como vai, tudo bem?" trocadas na vida real. Permanecer é ter a certeza de que quando for preciso, eles estarão ali. Aqui.  Em todo o lugar. Seja feliz por um triz nesse mundo que jaz. Não é fácil. Não são tempos fáceis. Talvez se a guerra fosse declarada as políticas nos ajudassem a calcular futuros, permanecer presentes, arrojar momentos. Mas, não. Tudo subjetiva à deriva nesse mar de coisas desencontradas e distantes.

Distantes dos reais lugares que pertencemos, distantes das pessoas que queremos perto. Do curso de fotografia, do documentário que vai mudar o mundo, dos quintais verdes e tablets maravilhosos. A vida é como São Paulo. Nos oferece tudo sem dar condição de participar desse "tudo".

Vivi uma Nova Iorque de sonhos, com a neve que pedi à deus e  Carneggie Hall.  E o Central Park. Não importa que não me dão lhufas, que sou mais uma se esbaldando como um pinto na neve. Não importa. O que importa e faz a diferença é como o meu coração bate. Brega, Pop, Hit, Over, Cover, down, up, meu, nosso... Nunca gostei de definições. Decidi não definir quanto achei, lá pelos idos final dos 1970, que era uma pessoa diferente. Embora a vida tenha revelado que de diferente sou espectdora de mestres e heroínas maravilhosas. Me sinto na pirâmide de Marx, sustentando o que acredito. Com o maior e máximo prazer. Farei a força que for necessária para sempre e todo o sempre. Estou na base da pirâmide mas poderia tranquilamente viajar no iate triplex em alto mar verde maravilha desse mundão Jacques Custeau. Saber o seu lugar em detrimeto de seu potencial é uma dádiva. É, sim.

Na Escócia, dizia.

Numa ilha da escócia. Uma casa no alto, nas pedras poderosas e fortes que aguentariam tsunamis. Casa de pedra sobre as pedras com um imenso farol sinalizando para todos os perdidos e necessitados. Uma casa auto-suficiente, tecnológica, grande, forte, com o farol, numa ilha da escócia. Nunca fui à escócia realmente.

Vivi Paris. Sempre haverá Paris e aquele cheiro de gosto.... Sempre e nunca mais apagado de minha história, como um pinto no Quartier Latin. Como uma amadora de sotaques dando licença e ouvindo "mercis" e "abientô" carregando o caminhãozinho de esperanças. Vivi o amor.

Não é preciso lisergia para encarar outsider essa vida de espertos. É preciso coragem. Irmão, é preciso coragem!

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Publicado em 01/01/2017 às 22:25

2017. Isso Mesmo

Como todo o final de período, procuro não pensar no que passou.

Nada vai mudar enquanto estiver lamentando as trombadas do povo que habita o entorno de nós mesmos. Nada mesmo. Foi. Cantamos essa canção desde sempre,  mas não temos consciência do que ela diz. Não mesmo. Tudo o que se vê não é igual ao que a gente viu à um segundo. Tudo muda o tempo todo no mundo. No entanto, sentimos que do mesmo lugar esse tudo é igual ao que a gente viu no capítulo da semana passada. Não, "minhas amiga", não é.

Acontece que recebemos lotes e mais lotes do mesmo. Variações sobre o mesmo tema que nos pasma. Não de susto. Pasma de pasmar, estagnar,  ensimesmados, frouxos, fracos. Somos muitos e fracos, é verdade sim. Verdade mesmo.

Tenho muitas histórias para contar sobre minha vida profissional e pessoal. Pessoalmente falando, parece até mais interessante, porque provei venenos que até valeria a pena dar um toque "pásamiga" e coisa e tal...  valeria. Mas não vale. Não vale mesmo. Se aprendi uma boa coisa é que não se ensina decência na teoria. Não mesmo.

Este espaço, por exemplo.  Jogo muitas mensagens na garrrafa nesse marzão... quanta letra! Quantas possibilidades, nénão? O medo do julgamento já foi, ô se foi... a tristeza da sentença vai aos poucos. Algumas coisas são de difícil digestão, por mais consciente que sejamos, não desce.

Ronnie Von, meu querido, disse um dia: "engolir sapo fica facinho quando se tem um jacaré de boca aberta para dar conta".  Tanta regra, tanta onda! Tanto funk, tanto samba, quanta música, quanto bamba! Tantas visualizações, tanta necessidade.  Santa vaidade...  Mais um ano se passou. Passou mesmo.  Já pensou? Há 17 anos do bug do milênio e ainda estamos aqui achando que inventamos o novo de novo.

2017. Vamos nos jogar de onde já caímos.

Isso mesmo.

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Publicado em 14/12/2016 às 19:07

Primeira em Paris

Desembarcamos em Paris num sábado de novembro.

Marais borbulha de gente e sotaque. Fui apresentada ao Senna no final da tarde e noite (Paris anoitece às 17h30 no outono). Perdi a luva direita e procuro um bom casaco para o frio. Seguimos para estudiozinho que alugamos muito simpático, simples e todo equipado . Andamos pelo bairro e não compramos gordices ou água para o frigo.

3h55 e eu tomaria uma água agora. Não acendi a luz. Não devo me mexer muito, a cadeira range e pode acordar o amado que completamente dorme.

Nesta primeira tarde e noite, informações não param de chegar. Tsunami cultural. Ansiedade à procura dos caretas de Paris. Só vi gente boa, solícita, jovem. Os mais velhos, impacientes bonachões.

O primeiro sentido se manifesta: o cheiro. Cheiro de Paris. Foi assim em Nova Iorque. O cheiro que faz voltar à Nova Iorque. A Paris úmida e cinza de outono cheira temperos sofisticados. O ar  entra absoluto pelas narinas impregna o corpo adaptando-o para a jornada. O ar, agora vento gelado molda as expressões, vem, toca e fica no rosto. Não sai. Não quero que saia. Gosto. Gosto da temperatura da minha pele em Paris.

A opção pelo não-turismo tradicional transformou a viagem em exemplo do que seria viver em Paris. Ainda que sob a graça do encantamento e ineditismo. Essas coisas que fazem a vida valer a pena.

Vimos exposições de rua e queríamos visitar o campo de refugiados. Não tivemos tempo nem oportunidade. Ficou anotado para a próxima que será breve.

Torre, Catedral, Arco, Rio, Museu. Só no Louvre, um dia inteiro e 6 horas em pé, parando alguns momentos para um lanchinho e água.

Um, dois balcões, isolamento por corda e lá ao fundo, protegida por uma moldura de vidro que refletia a luz do teto, a Mona. A popíssima foi afastada dos flashes e fans na maioria gafanhotos predadores por imagens e melhores posições para fotografar. Estar naquele espaço foi como um doit aller sem emoção ou impacto. Frio e bobo, como a foto tirada por obrigação. Alguns empurrões, frenesi coletivo, dialeto desconhecido e nenhum cheiro.  A famosa Mona Lisa me parece viver da fama nos efervescentes tempos de arte pop lá no século passado. Toda a sua importância artístico-humanista até Warhol  a mim não se fez notar. Quase chego a acreditar que vi um turista chinês pedindo um autógrafo para Mona. Delírios de museu.

Voltaremos ao Louvre, à Vênus e às Igrejas de Paris. Às cores de Paris.

Grande parte dos carros parisienses são à diesel. Percebo pelo barulho do motores e o cheiro de marginal lotada de caminhões num rush de qualquer hora. Mas não há rush em Paris. Não me lembro de caminhões. Lembro de ambulâncias. Muitas. E das sirenes. Sirenes de polícia, inclusive. Há muitas bicicletas. Os cidadãos cuidam delas que parecem sempre novas.   E os carros andam. E são lindos. Grandes, bonitos, como tudo naquela cidade.

Há flores e placas nas paredes dos pequenos prédios e casas. Homenagens aos heróis que "ali tombaram" durante a segunda guerra, em 1944.

Senti vontade que meu pais fosse assim. Que o povo do meu pais valorizasse seus heróis. Lembrei que não temos heróis capazes de unir o pais inteiro. Lembrei de Ayrton Senna diante do Rio Sena. Pensei como somos amados longe de nossa terra. Todos gostam de brasileiros.

Uma pontinha de angústia. Onde andarão os heróis e heroínas brasileiras. Com certeza, existem perdidos ao longo da história oficial contada e recontada ao bel prazer da política vigente. Olho em volta e o Brasil se vai. Volto para Paris que é um sonho, de fato. Que cidade! Não há um só lugar onde repousemos nossos olhos sem comoção.

 

 

 

 

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Publicado em 05/10/2016 às 20:15

Tiranias do Cotidiano

Il me semble que je  serais toujours bien là oú je ne sui pas* (algo como "eu estaria melhor se não estivesse onde estou ou não pertenço" - Baudelaire)

Me desculpem os franceses. Sou abusada.

Talvez hoje não seja um bom dia para saber sobre quando os índios foram declarados homens portadores de alma pela bula papal. Ou versar sobre o meio do caminho entre Heráclito e Demócrito ou Demócrito e Heráclito... Falar de risos e choros. Artes, sabe como? Teatro, cinema, TV, Internet, criação.

Talvez hoje seja o dia para cantar  Zeca Baleiro. 

eu não sou cristão 
eu não sou ateu 
não sou japa não sou chicano não sou europeu 
eu não sou negão eu não sou judeu 
não sou do samba nem sou do rock 
minha tribo sou eu 

eu não sou playboy eu não sou plebeu 
não sou hippie hype skinhead nazi fariseu 
a terra se move falou Galileu 
não sou maluco nem sou careta 
minha tribo sou eu 

Mas é preciso falar sobre história

A magia que séries datadas e de época exercem sobre os telespectadores móveis ou não, é inegável. A delícia de reviver momentos bons ou recriar memórias é inspiradora. Algo entre o novo-novíssimo e a base disso tudo. O segredo do sucesso de programas de TV que brincam e de certa forma "aliviam" as barras pesadas criadas por eles mesmos é a auto-ajuda.  As pessoas sentem-se acompanhadas, durante alguns minutos do dia a solidão de vai.

As novas séries da Vênus Platinada e dos canais especializados mostram de onde viemos. Vivemos uma nostalgia alegre e divertida. Veja bem: nostalgia. Nada de tristeza. Nada de papo cabeça. Mas a gente precisa pensar mais sobre isso para entender e conceber novos projetos. Por quê "Strange Things" fez tanto sucesso? "Nada Será Como Antes" inspirado em um certo navio que afundou, mostra os primórdios do rádio e da TV no Brasil entremeados por uma história de amor daquelas de cinema dos anos 30.

É preciso também falar sobre solidão

Minha experiência com programas desse tipo trouxe vivências fantásticas. Não é a fama, não é o sucesso. É a importância que as pessoas do lado de lá da tela têm ao se mostrarem com sangue. Não sangue nos olhos, nem o quente. Sangue do cuore. Contadores de histórias transformam anônimos em remédio para quem os assiste. Remédio para a solidão.

Não existe segredo. A sensibilidade e o conhecimento com pitadas de cultura e uma boa observação não fazem a diferença, são. Não têm idade. São. Entre o gélido clicar de um botão e o calor emitido pelo plasma reto, concreto, impenetrável. O led frio que pulsa e  joga quatro "kás" transformando a realidade virtual em quase matéria viva.

Grande Chacrinha

... que dizia: "Em Televisão nada se cria, tudo se copia". E assim têm sido essa história. A diferença está na competência de quem realiza, de quem reconta as mesmas histórias. De quem sabe copiar recriando. Variações sobre um mesmo tema. Dependendo do objetivo de quem o faz, o sucesso é garantido.

Talvez seja dia de falar sobre Nostalgia

... e a não substituição de figuras emblemáticas. Símbolos que se foram e vão sem substitutos, ou com força e estilo parecidos. Em qualquer das artes. Nostalgia não é tristeza. É bom lembrar e curtir, principalmente.  E felizmente no lugar dos insubstituíveis, vêm novas formas, novas cores, novos tons, novas ideias, novos caminhos. Novas pessoas. Novos contar de  história e vencendo o movimento do rodo que nos empurra para o canto da tela cada vez mais.

Ler é Mais Importante do que Estudar (Ziraldo)

Ler, saber, conhecer, compreender. Quem escolheu Comunicação como ofício deve saber que tudo tem a ver com sua vida. Tudo vai mudar a sua vida. Tudo é ferramenta e combustível para a criação.

Vamos criar?

 

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Publicado em 16/09/2016 às 20:08

Uma Panela Por Seus Sentimentos

Ainda um pouco abalada com a vida como ela é ou como tem deixado de ser

Eu, que tantas vezes expus o que nem precisava,  vou de novo surfar nessa onda. Não consigo identificar - embora esteja muito perto - o que me entristece profundamente com relação à perdas coletivas e visceralmente sentidas, como a trágica e precoce  partida de Domingos Montagner. Nunca o conheci pessoalmente, apesar de me parecer próximo, familiar, o cara do balcão da padaria e cafezinho. O sorriso. Aquele sorriso. Temos conhecidos e até amigos em comum com os quais partilhei a desolação nas redes sociais através de fotos e inúmeras declarações de amor. A cada dor declarada, eu repetia como um mantra, precisando do conforto: "assim é a vida. assim é a vida. bola pra frente." Mas aquela angústia de quem está recebendo do universo a consternação através dos vários lamentos, mudou o dia. Sabe aqueles dias que ficam estranhos? O dia ficou estranho.

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reprodução: instagram

Triste, sim. Muito. Querendo saber onde a turma do mal consegue se esconder das peças que a vida prega. Não desejo o fim de nenhuma existência, mas a seleção poderia ser mais generosa conosco, imperfeitos e tão precisados de exemplos. E Domingos era sim, exemplo. Exemplo de  amar a sí mesmo, amar seu pais. Um cara simples.  Um líder que a ficção pegou emprestado. E que hoje os índios da Tribo Fulni-ô homenagearam num ritual.

“Por que estão querendo trazer a alma dele de volta? Ele nasceu de novo hoje. Ele se tornou um novo protetor do rio São Francisco"

... porquê precisamos ainda dessa alma, dessa energia, dessa força, dessa proteção. Domingos Montagner, Ator maiúsculo, entregue ao ofício e a socialização da alegria de viver de sua fé e glória. Porque, além de egoístas, somos pequenos precisando de guias, de sorrisos como os dele.  Tão certo quanto a qualidade de seu trabalho é a  exclusividade desse homem. Montagner era daqueles de não haver outro e poderia ainda tocar muitos corações e mentes se emprestando às massas através das novelas, filmes e o que mais atingisse o maior número de pessoas. Tocar as pessoas. Exercer a arte que nos salva dessa loucura toda. E aí fere, fere fundo quando uma pessoa que se empresta à nós contra o horror de um mundo que vem se  estragando através de um olhar, um sorriso, uma piada vai numa passada de perna do destino. De repente. Arrastado.

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reprodução: instagram

Que continue o exemplo do que é ser ator e não celebridade. Do que é ofício e não agito.

Que neste quadrado-retângulo onde se vende panelas com a mesma entonação de voz com que se acusa um assassinato ou narra-se uma perseguição de helicóptero, volte o merecimento. Pelo retorno do respeito à profissão, à ética, à vida frágil. Que o espetáculo que poderá surgir nos próximos dias toque os não-políticos profissionais, mas os que exercitam a política em suas vidas comuns. Pela vida leve, de boa, sem truques nem truqueiros e falsos talentos.

Que geração a sua, Domingos... ! Que aqueles que hoje gabam-se da descoberta da pólvora azul e de fundar museus de grandes novidades compadeçam-se de sí diante de você e sua criação. Um homem simples e tão honesto em sua fé e profissão que criou o NOVO que tanto precisamos. Um HOMEM BOM. Competente. É disso que sinto muito.

Sinto muito. E persistindo na fé.

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reprodução: instagram

 

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Publicado em 12/09/2016 às 15:46

MEMÓRIA FÍSICA

"Taiguara? Aquele negão?"

Parece politicamente incorreto, mas é a vida real.  Foi o que ouvi.  Sem nenhuma má intenção de quem disse, sem a mínima chance de preconceito. Ainda que queiramos e lutemos ardentemente para desvincular possíveis conceitos que relativizem tratamentos. Para não adjetivar de forma preconceituosa, ainda estou com Oscar Wilde:  "Definir é Limitar".  Assisto ao canal de Regina Volpato no Youtube sempre que posso. O honesto e destoante canal que propõ reflexões sobre nossa (breve) ocupação nesse espaço...  Pois, bem. Numa dessas reflexões públicas, Regina fala sobre os possíveis. Sobre "nós" possíveis. O que somos e deixamos de ser de acordo com o que acontece  ao redor e que provoca sensações e questionamentos e nossa coragem no exercício da função de apenas "ser".  Sem definições.  Carmen, Carmen... o que tem o canal de Regina Volpato, Youtube, Taiguara come essa pataquada toda que você está escrevendo, mulher? Defina-se! Opa. Não. Definir, não. Mas, explico.

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Capa do LP "Os Grandes Sucessos de Taiguara"

"Aquarius"  e Taiguara

Assisti "Aquarius" esta semana. Fiquei tocada. Rolou identificação. Vários níveis disso.  Assisti com a sorte das mãos dadas e o calor do meu afeto ao lado.  Na primeira cena, o primeiro tom: Taiguara. Não o negão (sic) ator. Taiguara  o cantor tão negão quanto em alma - que não tem cor. A canção que na minha quase infância ouvia da vitrola de meu irmão. Taiguara, o revolucionário, o doido, o romântico, talentoso Taiguara com esse nome indígena  incomum nos anos 70; autor de "Universo no Teu Corpo"; "Que As Crianças Cantem Livres", "Carne e Osso", "Helena, Helena"... tem mais, sim.  Assim começa "Aquarius".  "Hoje" é a canção que já prepara o público para o porvir.  Saí do cinema inspirada e feliz.  Em casa, minha filha que também estava no cinema, começou a procurar nos meus discos de vinil algo para ouvir. Ouvimos os três o que ela escolheu enquanto cada um fazia o que precisava naquele domingo.  Uma sensação que levei para a segunda feira. O que ficou  no entanto, não foi o filme.  Mas a história do dia seguinte.

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divulgação

Agora Começa a Clarear...

Comentei com colegas mais jovens sobre o filme e Taiguara. "Taiguara, aquele negão?". Um momento para desassociar um e conectar outro. "Não, não... o cantor". "Taiguara, cantor? Nunca ouvi falar". Silêncio que usei para decidir se contava quem era ou se deixava como estava. Em segundos nossa mente viaja milênios. Fui e voltei, vi imageticamente o que seria de uma e outra possibilidade. Achei melhor deixar como estava. Por alguma razão, talvez  o tom desinteressado ou a possibilidade de que minha explicação parecesse soberba e até eu mesma não encontrasse as palavras adequadas para trocar impressões.  "Não é do meu tempo". Ainda sem saber se a última frase era uma provocação ou um por-favor-não-me-venha-com-discurso-sobre-história-que-não-vai-mudar-a-minha-vida , ou se simplesmente era sem razão ou intenção nenhuma, esbocei alguma coisa parando logo em seguida. Refleti sobre a minha juventude. A de hoje, a eterna. Minha eterna juventude que me faz ouvir a Rádio Disney e a Mix com a mesma empolgação da USP FM. Achei bacana meu interesse descompromissado com todos os possíveis à minha volta. (Rá! Achamos Regina Volpato!). Continuei feliz com meu estado de ser reencontrando a sensação de "Aquarius" do dia anterior.  É. Enquanto nos viciamos no "politicamente correto",  poderosos dizem e fazem o que querem usando da força da grana que ergue, mas também destrói coisas belas (com licença, Caetano, Sir).  Sentem-se e estão completamente à vontade para ofender de forma "passiva-agressiva" o mar de gente  sob as solas vermelhas de seus sapatos.

"Eu Não Queria A Juventude Assim Perdida"

Conheci Taiguara - o ator -  pessoalmente. Uma pessoa doce,  um homem lindo, alto, culto que merecia o sucesso. Foi num debate sobre o dia da consciência negra também num dos programas que dirigi.

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Taiguara  - o cantor/compositor de tantos possíveis - também não é de meu tempo. Taiguara é de meu tempo. Enquanto houver um possível a ser descoberto ou vivido, Taiguara fará parte da trilha sonora da vida, assim como um sem-número de livros, discos, filmes e nada mais. E tudo o mais.

Também conheci Taiguara pessoalmente. Mandei afinar um piano para que ele tocasse ao vivo num programa. Trocamos poucas palavras, ele já não andava lá muito legal. Logo depois, questão de meses, tivemos - a equipe e eu - a triste notícia de que ele se fora.  Foi rápido e cedo.

Em tempo: aprendi que cultuo a memória física, aquela que pode ser tocada, acariciada, vista, degustada. Um disco de vinil. Um pudim de leite da tia do interior feito à moda antiga, uma palavra mal-colocada sem má intenção ou intenção nenhuma. Um bit acelerado que me faz dançar até  suar e abrir os poros para a vida.

 

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Publicado em 26/08/2016 às 14:05

Garotas Boazinhas Vão Para o Céu. As Más Vão Para Onde Quiserem

O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? 

Mais ou menos assim. Super isso. Para onde iria a enclausurada Baby Jane Hudson? A boazinha Blanche Hudson estaria no céu? Muito mais do que tudo junto, o psychothriller  "O Que Terá Acontecido a Baby Jane" estreou neste Agosto no Teatro Porto Seguro, em São Paulo. Uma estréia esperada e incensada pelos amantes da boa arte, do bom cinema,  do bom teatro e das emblemáticas Eva Wilma e Nicette Bruno. Uma oportunidade única de assistir duas atrizes cujas histórias se misturam à construção do nosso modo de viver menos  Exatas e mais Humanas. 

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Nicette Bruno, Eva Wilma; Joan Crawford e Bette Davis

No Princípio, o Glamour

A história perturbadora de duas irmãs já na meia idade - estrelas de cinema da Hollywood nos anos dourados - ganhou sua versão cinematográfica definitiva em 1962, com as inimigas íntimas Joan Crawford e Bette Davis sob a batuta de Robert Aldrich.  Bette como Baby Jane Hudson, Joan sua irmã Blanche Hudson.  Filme que arrebata corações e mentes de cinéfilos e perturba platéias de ocasião. "O Que Terá Acontecido a Baby Jane" é daqueles enredos que não nos abandonam. A maquiagem tatuada em Bette, os grandes olhos de Joan implorando ajuda pelas grades da janela...  um sem-fim de situações num filme de conteúdo intenso.  Jamais esqueci. Jamais esquecerei. Assisti dezenas de vezes ao ponto de saber algumas frases decoradas. Pesquisei bastidores, making of's, nas revistas que comprava na loja disneylândia para cinéfilos no Baixo Augusta.

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A Dicotomia do Conflito.

Baby Jane é uma garotinha-cachinhos-de-canecalon-dourados (licença imagética, Baby não usava peruca) de absurdo sucesso nos anos 1910. Uma bonequinha viva. O papai querido parecia ter planos estelares para as irmãs Hudson desde o ventre da mãe. Assim, Baby Janes foi mimada, mal-acostumada e  tratada como  produto .  A garotinha do papai que  via cifrões na bonequinha viva. Os cachinhos dos ovos de ouro.  A boazinha irmã Blanche sempre esquecida e humilhada por uma Baby Jane já perturbada, arrebenta de sucesso ao adolescer ao mesmo tempo que Baby vê seus cachinhos dourados sumirem ano a ano, enquanto Blanche Hudson crescia e tomava forma,  estrela de filmes românticos de absoluto sucesso.  Seriam as irmãs Hudson partes de um único ser? Apêndices de uma existência onde cada uma simbolizaria as fases da vida? A infante Baby Jane e a jovem desejada Blanche? De qualquer maneira, a história das irmãs é interrompida por um grave acidente, deixando Blanche numa cadeira de rodas e aos cuidados de uma Baby Jane amargurada, traquinas, má. Infeliz. Coloque as duas numa casa. Paradas num tempo ensimesmado. Imagine o que pode acontecer.

Eva Wilma e Nicette Bruno

Eva Baby e Nicette Blanche merecem nosso respeito eterno. Atuações admiráveis que buscam superar obstáculos da vida real com uma determinação hipnotizante. Atrizes incomparáveis aplaudidas em cena aberta. Ninguém deveria perder a oportunidade de vê-las juntas no palco num espetáculo único. É comovente.

Uma aflição psicológica toma conta do Teatro Porto Seguro em São Paulo. A direção de Claudio Botelho e Charles Möeller  nos presenteia com um ambiente atordoante reforçado pela trilha à Bernard Hermann durante os diálogos.  São 3 fases das irmãs Hudson: infância, juventude e maturidade que o diretor deixa claro: jamais deixarão de ser presente para Blanche e Baby. Os fantasmas das irmãs habitam a mansão e a psiquè  labiríntica do que restou da família Hudson. Há uma quebra da quarta parede que talvez tenha como objetivo lembrar à platéia que ela está no teatro mesmo com o clima cinematográfico.  Quebra de atenção, da trilha, da iluminação escura e pontuada. O clima obscuro da mente Hudson é recuperado imediatamente. Impossível desgrudar os olhos do palco. Lá estão Eva e Nicette.

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divulgação

O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE?
Sexta e Sábado às 21h00 e Domingo às 19h00
26 de agosto a 18 de setembro
Teatro Porto Seguro
Alameda Barão de Piracicaba, 740 - Campos Elíseos
São Paulo - SP

 

 

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Publicado em 18/08/2016 às 19:16

Crianças, Crianças….

Quando todos essas caras bacanudos e diferentões ferviam na concorridíssima TV de apenas 6 canais, as únicas lembranças que  - nós que trabalhávamos tanto nos bastidores  - conseguíamos guardar vinham de uma profissão já extinta. Fotógrafos profissionais com suas câmeras maravilhosas eram autorizados a fotografar programas de auditório. Viviam de vender essas fotos para artistas, produtores, técnicos e platéia. Alguns eram figuras carimbadas e tão famosos quanto os programas.

maio1961 elke maravilha estampa a capa da revista cinelandia 1361474120762 380x500 Crianças, Crianças....

Imagens Internet

Se Rihanna existisse naquele tempo cantaríamos juntas: "Work, work, work, work...!" Eu gostava de ser responsável pelo produto que seria visto, não me comovia tirar fotos. Me arrependo muito dessa característica caxias por demais. Hoje adoraria descansar meus olhos nas lembranças do que foi um tempo mágico da TV brasileira. Artístico um tanto, menos tecnológico, menos fulgás, menos descartável. Sucessos demoravam para sair das rodas de conversa e manchetes de jornais e revistas. Alguns se firmaram naquela época para nunca mais serem esquecidos. Elke Maravilha é um exemplo.

Elke era uma paz, uma segurança, um absoluto estado de ser. De certa forma, me sentia protegida ao conversar com ela. Era uma porta-voz da vida. Porta-estandarte de causas. Porta-bandeira da alegria.  

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Pré-pautas são feitas com entrevistas intermináveis para a alegria de quem gosta de histórias e tem a curiosidade como motor criativo de sua profissão. Conversávamos muito antes de uma participação em programa. Falava e sabia falar com maestria sobre tudo. Alegoricamente doce.

Atriz, cantora, multi-coisas, multi-woman, multiplicante. Sempre disponível como se soubesse que as pessoas precisavam ouvir, ouvir, ouvir e só depois de muito ouvir, refletir... Longe dela ser dona da verdade, imagina! E isso fazia com que ela sustentasse as mais puras interpretações de fatos.

(........)

Era madrugada e eu voltava do trabalho, Liguei o rádio para as primeiras notícias. Ouvi o que não queria. Elke Maravilha havia morrido. Cheguei em casa, escrevi o que senti e aqui reproduzo. Não consigo desviar meu pensamento de que o mundo está mais careta, sem nossa Porta-bandeira da felicidade. Histórias haverão ainda mais. Mas por essa semana, fica aqui um singelo registro. Viva Elke.

"Elke, topa cantar em russo no Ronnie?". E o palco virava um cabaret à lá Lilinovska Marlenovska. "Elke, vamos fazer um debate sobre aborto, topa?" E o sofá se transformava em tanque público de lavar roupa suja. "Elke, vamos falar mal dos outros?". Sim, com toda a delicadeza, na frente das câmeras. "Chama a Elke". Quantas vezes disse isso para fechamento de programa... Inúmeras. Amiga Elke, sempre presente e disposta, toda SIM pra vida. Quando não, algum bom motivo a prendia em casa. Desde o apê na Av Paulista, até sua mudança pro Rio. E que apê aquele da Paulista, heim, Elke? Lotado de memórias. Como aquela em que foi presa na ditadura por arrancar da parede do aeroporto o cartaz de "terrorista procurado" do filho de Zuzú Angel, sua amiga. Elke é pop. Hiper pop. Tá fazendo falta. E eu to triste.

 

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