Publicado em 21/09/2017 às 20:05

Meu Amigo Rogéria

"Não, meu bem, não sou mulher, não. Sou homem, querida".

Dizia não querer ser mulher, mas parecer com uma. Plaft! Lição 1. Dizia que jamais injetaria substâncias no corpo que não a pertenciam. Plaft! Lição 2. Dizia nunca fazer cirurgia de mudança de sexo. "Sou homem, esqueceu?" Plaft! Lição 3.

Foi Caio F Abreu para Claudia Wonder o primeiro desvincular o gênero do artigo

no texto exato e inspirador do Documentário "Meu Amigo Claudia" idem  sobre o qual escrevi neste espaço que alivia

Escreveu meu amigo Caio:

Meu amigo Cláudia é uma das pessoas mais dignas que conheço. E aqui preciso deter-me um pouco para explicar o que significa, para mim, “digno” ou “dignidade”. Nem é tão complicado: dignidade acontece quando se é inteiro. Mas o que quer dizer ser “inteiro”? Talvez, quando se faz exatamente o que se quer fazer, do jeito que se quer fazer, da melhor maneira possível.

Não é incrível o Caio? Cirúrgico. Simples. Genial

Mas é sobre minha experiência com Rogéria, o travesti da família brasileira, que falo hoje.

Infelizmente perdemos Rogéria há alguns dias.  Tantas homenagens parecem pouco diante do que ela merecia. Por seu tempo, seus votos, sua segurança e a  sabedoria de quem exercia o yin-yang essencial.  Gostaria de ouvi-la hoje. Falar sobre - abre aspas -  psicólogos - fecha aspas e juízes. Riríamos, é certo. Risos de quem viveu tempos difíceis e anos de chumbo, mas nunca tão perigosos e apocalípticos quanto estes tecnologicamente covardes. Nunca antes tão mascarados de violência escancarada.

Rogéria foi a primeira travesti que a minha geração infante pode conhecer.  Pela TV ainda  sem as cores deslumbrantes, ela dizia:  "Astolfo Barroso Pinto, com prazer dobrado", jorrando lascívia, arrancando gargalhadas de Hebe Camargo. Presente em dez entre dez sofás de programas noturnos, sabia que sua condição lhe permitia  posicionamentos controversos, ou não. Polêmicos, ou não. Bem humorados, sempre.. Ela nunca batia, assoprava. Nos fazia rir. Nos causava dúvidas. "O quê?! Essa mulher é homem?!".  Nunca ao contrário. Imagino hoje, enquanto nós os filhos, ficávamos espantados com a novidade, o que não versejava na cabeça dos chefes de família classe média exemplar. E o quanto Rogéria não inspirava as belas, recatadas e do lar daqueles 1970. Rogéria nunca foi sinônimo de ataques pejorativos, nunca ninguém chamou ninguém de "seu Rogéria!" ou, "aê, Astolfo!". Havia respeito. Isso, era respeito. Como ela conseguia só vim a descobrir anos depois, quando já engrossava as pernas subindo e descendo escadas carregada de fitas e roteiros nas emissoras de TV pelas quais passei. E Rogéria tinha portas abertas em todas elas.

Encontrei Rogéria

"Fazer Sala VIP" significa recepcionar os convidados para o programa. Conversar com eles, dar as boas vindas, explicar o que aconteceria,  passar o roteiro da entrevista, checar as informações, as perguntas e depois dividir um café society  enquanto aguardávamos a hora de ir pro ar, onde o assunto ficava mais do que interessante: bastidores, a vida real reservada à poucos sortudos em posições privilegiadas. Salavipar era uma dessas. Rogéria chegou. E mesmo batendo uma ponte aérea, estava paetezada, cheirosa, cabelos soltos e volumosos e com a feminilidade natural de uma verdadeira mulher. Pasmei alguns minutos fazendo uma das coisas que mais gosto, observar. Ali estava uma mulher mais mulher do que muita mulher "de verdade". Falava como mulher, sentava como mulher, tinha o humor de uma mulher. Era uma mulher. Daquelas que se quer ser.

"Não, meu bem, não sou mulher, não. Sou homem, querida". E se divertia.

Na época eu adotava uma postura que hoje me arrependo amargamente. Não querendo ser invasiva, conversava sobre tudo e muito, mas não trocava telefones, não tirava fotos (havia sempre um fotógrafo que tirava fotos e depois vendia para quem quisesse comprar), não "incomodava" o artista como fã, groopie. Bobagem. Acreditem, bobagem. Tirem fotos sempre que der, ao lado de quem quiser e gostar.  Desde que com respeito, sem ser invasivos. Isso nunca pode e continua não podendo. Depois de um tempo, só as fotos provam, acarinham. É uma delícia.

Rogéria abriu portas para seus iguais na TV e show business, venceu preconceitos, foi importante para homens e mulheres, para a sociedade, contou segredos nunca antes confessados da vida íntima de um travesti, truques de beleza e elegância. Foi Rogéria quem começou - ao lado de poucos e poucas corajosas - a mostrar que um mais um é igual é um ser humano. Foi Rogéria quem encantou gerações e trouxe coragem e alguns possíveis para inúmeros seres humanos incautos de pouca informação. Foi Rogéria quem trouxe alívio cômico para esse drama que é viver num país eternamente em construção hoje desfacelado como uma bixiga d'água estourada num asfalto escaldante.

Reencontrei Rogéria

Já com o rosto cheio de cicatrizes por conta de um acidente que lhe deformara o rosto, dizia.  "Quase morri! Mas, sou dura na queda, meu bem!". Com o tempo as cicatrizes foram diminuindo, algumas ainda permaneceram até seu último dia aqui nessa realidade pantanosa onde ela cismava em ser flor.

Como redatora de boa memória, pontuei algumas questões de nossos encontros no roteiro para a entrevista que faria. Ela gostou, ou fez que gostou, porque não se importava com o que lhe seria dito ou perguntado. Rogéria era assim, preparada para tudo. Tinha resposta pra tudo. Eu, ensimesmei. A redatora que queria impressionar aprendia mais uma: Plaft!  Lição Flicts... Tem gente que é. Simplesmente é. Não tem necessidade de preparo ou avisos. É.

De tempos em tempos nos reencontrávamos. Eu, mudando de posição, de programa, de emissora. Ela, sempre Rogéria. E era uma delícia encontrá-la, conversar e ter a certeza que o programa seria bom porque ela estaria lá para assegurar e segurar todas as pontas. Generosa.

E nessas voltas que a vida dá, um tempão se passou. Não vi mais Rogéria. Não nos últimos anos. Verei agora no Divinas Divas .  Não nos frequentávamos. Ela não se lembraria de mim. Ou me talvez me surpreendesse como sempre em mais uma lição com um delicioso: "Carrrrrrrrrrmen, meu bem! Como eu não lembraria de você, querida?" Plaft!

Viva Rogéria.

Abaixo a ignorância.

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Publicado em 31/08/2017 às 20:25

Consciêncioterapia explica

O que é Consciêncioterapia?

Em uma das minhas voltas virtuais ao mundo, dei de cara com a Consciêncioterapia. Interessante. Sou desconfiada de técnicas milagrosas e explicações fáceis. No entanto, não me pareceu nem uma coisa nem outra. Vale a pena partilhar, vamos estudar juntos, me contem, troquemos.

A Consciêncioterapia é um grupo, um novo núcleo da Psicologia e Saúde que reúne médicos e psicólogos na tentativa de explicar cientificamente as sensações estranhas ou agradáveis que sentimos em determinados ambientes.

Inveja. Olho Gordo. Pessoa Carregada. Energia boa

A Consciêncioterapia procura trazer à luz da razão e estatística, a sensação ruim que é estar ao lado de uma pessoa, causa ou peso ao sair de um ambiente e o contrário também: as alegrais e confortos inexplicáveis causadas por pessoas, situações ou casos. O que normalmente chamaos de "olho gordo", "inveja", "pessoa carregada" ou "energia boa além de outros nomes e sobrenomes, órfãos teológicos ou não.

Ah, esses homens e sua mania de definir...

Acordar todo o dia de manhã e sair pra luta num país como o Brasil, num dos momentos políticos mais dogmáticos e à quarenta graus na sombra e dois dígitos de desempregados abate qualquer um. No mínimo aflige o mais otimista dos bem colocados. Precisamos explicar tudo para seguir, continuar. Senão, como seria? Como evitar catástrofes iminentes?
Fruto de pesquisa internáutica, cobaia de mim e sempre, acredito cada vez mais que alguns problemas só podem ser solucinados à partir do entendimento de nós mesmos. Ah, vá... jura? Que discursinho mais bobinho, heim?  Ué. Estamos aqui por e para exposição. Deixe-me ir. Vamos juntos continuar crendo que precisamos crer.
Permacultura
Outra grande interessância que vale a pena. Mudar a forma e o estilo de vida das cidades grandes, cada vez mais claustrofóbicas apesar de maiores em território. É super. Se a força devastadora da grana continuar destruindo alternativas de resgate da humanidade, talvez sobrem filmes e livros que promovam consciência do que poderia ser sido e novas gerações voltem a debater o estado de ser... humano e só. Precisamos acalmar coraçõezinhos atormentados pela falta de respostas e qualidade de vida. De novo. Vamos juntos?
Este é o caminho da consciencioterapia, que mostra que as pessoas podem se entender mais. Oremos.
Que o AC-DC esteja conosco e para nosco.
http://www.oic.org.br/consciencioterapia.php
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Publicado em 07/08/2017 às 15:31

Negros Gatos

 O ano, 1982. 

No palco, Luiz Meloda e Zezé Mota protagonizam a pureza libertária do amor numa entrega coreográfica instintiva. De uma beleza que talvez eu não veja - ou sinta - novamente num contexto desse. As cenas são  de um documentário americano. Clique no link.

Zezé Motta e Luiz Melodia 1979 300x187 Negros Gatos

Luiz Melodia e Zezé Mota - 1982

Com tanto ainda para oferecer, jovem, em alma e corpo, partiu Luiz Melodia. Tristes tempos esses de partida. Foi ser leve num desses paraísos de sonho. Desculpe, não é o inferno que abriga os insubstituíveis. O inferno é aqui. "Aqui" cada vez mais ocupado por seres esquisistranhos e demolidores. Melodia construía esperança. Delicado, delicadíssimo e insubstituível, sim. Ficamos com melancólica constatação: Luiz Melodia não vai compor uma nova canção, interpretar uma antiga criação, "causar" o desassossego em corações dispostos.

É difícil absorver o luto para quem é pré-tech com a mesma rapidez da notícia na ponta dos dedos ou de um app instalado na retina.  O quê? duvida? O futuro já é passado nesse mesmo minuto. O que é ótimo. O ser humano foi projetado para andar pra frente e olhando para cima.  Estão aí as guerras movidas pelo desejo de conquista, poder, territórios, coroas e as espetaculares e tecnologias.

Luiz Melodia veio quando  a arte era uma necessidade aflita. Urgente. Talento, genialidade e só não loucura porque ele era veludo, doce, amor; bastando  a entrega que de alguma forma salvaria autores e seus (des)iguais.  Sem regras. Amar, ousar, quebrar, romper.  Luiz Melodia partiu pelas mãos e uma doença epidêmica , incurável, cruel em todas as formas que o homem do futuro não consegue controlar.

Os boêmios franceses,  filósofos alemães ingleses inspiravam nossos artistas tupiniquins e o mundo na vontade de coesão. Nos 1970, Rita Lee jorrava: "precisamos de irmãos". Bem antes, nos 1700, era Hobbes  quem decifrava a matilha apontando seu semelhante como o pior e mais cruel inimigo. Nos 1980, Caetano Veloso toca no rádio "somos o lobo do lobo do homem".  O lobo que continuava para frente, em frente, conquistando, como um antiácido efervescente no copo meio cheio,  igualando os caminhos. Como uma máquina de cortar grama, nivelando a paisagem.

À despeito de tantas conquistas, as questões humanas parecem patinar evoluindo homeopaticamente. Ainda há preconceito e regras que parecem justificar que os simpáticos Croods  batam a cabeça na rocha para o registro "imortal" de uma foto na idade da pedra. Analogia barata, sim. Quem se importa?

Fica aqui, Luiz. Nos encante. Sem lamentos. Só não podemos esquecer.

 

 

 

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Publicado em 23/06/2017 às 14:29

Os novinho.

eu amo.

526992 153994684724269 1007583732 n Os novinho.
 amava mais antes da Scheinder
chico1 196x300 Os novinho.
nunca vou deixar de amar
 486438 152733344850403 1240411656 n Os novinho.
amo também
488056 151258444997893 1411063861 n Os novinho.
amo o que esse cara (ainda) faz comigo
547346 147359545387783 1458331531 n Os novinho.
amo há tempos. sonhava acordada
599411 151358361654568 409380610 n Os novinho.
amo, meu rei
602567 151287528328318 719302137 n Os novinho.
amo e amo
552441 486039918106695 1966537769 n Os novinho.
ok, Mafalda. você sabe das coisas. mas faltam muitos, muitos ainda.
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Publicado em 10/05/2017 às 18:54

Preste Atenção aos Sinais

Daquilo que se sabe...

Taurina teimosa, a despeito de tantos conselhos e alertas para a não-exposição da figura, cá está a desenrolar o novelo do pensamento, colocando na mesa as questões  mutatis-mutandi, persistindo na mais pura insígnea da teimosia.

Difícil é  falar fácil. Se fazer entender, comunicar. 

Existe coisa mais fácil de assimilar que os sinais que a vida nos manda a todo o momento? A vida,  energia, o "segredo", as estranhas coincidências que aquele "por um segundo" vivenciados todos os dias?

Todos os dias recebemos sinais.

Mandamos e recebemos mensagens em garrafas o tempo todo. Nas redes sociais, os tais "sinais" viram escancaro, pedidos de socorro e declaração de revolta explícita. Se Roberto Carlos queria ter um milhão de amigos pra poder cantar mais forte, os internáuticos do século querem todos de cada canto do mundo para seu bel prazer e só. Likes e views. Monetizar. A comunicação nunca esteve tão democrática. E ninguém quer mudar o mundo. Vivemos a era das celebridades que reinventamos. Criamos e deixamos de lado. Sem glamour ou mistério.  Milhões de participações interativas desavisadas, buscam o quê? Pessoas comuns que querem se divertir e dividir... dividir?

Todos os dias uma nova postagem, um novo capítulo, um café mal passado, um sorriso ao lado, uma música e lembrança. Por segurança uns preferem a não exposição. Outros, não tem ou não querem guardar pra si e seu nicho o que poderiam e podem partilhar, ensinar e aí sim, dividir.

Precisamos parar de julgar

e exigir o que se quer. "Engenheiro de obra pronta" é a profissão mais em alta desde nesses tempos. Não tenha medo de expor seu ponto de vista. Precisamos dele. Não tenha medo de errar uma frase, compreenderemos -  dependendo da situação - o teor do engano. Não nos prive do que você é ou pretende ser. Não recue diante de alguém que aparentemente é mais "culto" que você. Deixe sua opinião, faça sua diferença. Seja um "autor" ou uma "autora" da vida, não apenas "sinaleiros".  E, principalmente, abra sua mente. Perceba outros pontos de vista, compare-se, entregue-se. Cuide-se. Fundamentalmente, cuide-se. Só faça se for para o seu bem, porque ele há de tocar outros e impregnar a sensação de que é possível ser. Não mais uma grande obra, nem tanto a diferença que o mundo nem espera mais.

Exerça seus sinais

Acredite, não tem mal gostar do que gosta. De "música velha", de joguinhos ou sites de relacionamentos. Goste do que gosta. Traga para a superfícies o que espera quando sinaliza para o mundo. Aos poucos. Esse festival de horror que lemos, vemos, ouvimos e absorvemos só é possível porque estamos tecnologicamente democráticos. Vamos usar isso para o nosso bem. Com força e com vontade, antes que seja tarde.

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Publicado em 12/04/2017 às 14:29

Lição de Assédio. Eu estava lá.

***editado em 13/04/2017. No final.

Último semestre da Faculdade e Rádio e TV, FAAP.

Não me lembro ao certo como a conversa começou. Sei que foi dentro da sala de aula do renomado professor da época, conhecido por suas entrevistas dramáticas na TV Cultura de SP, pelo sobrenome e prestígio intelectual. Como tal, vaidoso e auto referente o suficiente para não aceitar confrontos e críticas ou debates com alunos ávidos por mudanças, crentes de suas capacidades. Os 1980 estavam começando. Nada havia que freasse a criatividade ou a vontade de viver.

Cena e Mise-en-scéne:

Sala de aula no laboratório de Rádio e T.  A classe reunida. Provavelmente o tema inicial da conversa fosse oportunidades de trabalho, colocação no mercado, possibilidades de atuação. O vaidoso e intelectual prestigiado professor fazia questão de incendiar os debates com suas observações controversas. Eu e minha amiga, irmãs coragem de sempre, não costumávamos deixar uma boa discussão de lado. Nem podíamos. Saber era uma necessidade. Lutar pelo que hoje é chamado empoderamento feminino era instintivo. A defesa do gênero, também. Não sabíamos o que era  já sendo.

"Uma Mulher Jamais Será Uma Profissional de Televisão se Não fizer o Teste do Sofá".

Ele fazia questão  de abaixar a cabeça para que o queixo comprimisse e espalhasse a longa barba pelo rosto numa figura de horror, usando seu tom barítono, palavra por palavra, arqueando as sobrancelhas sobre os óculos. Até ele dizer isso, o "teste do sofá" para as 80's girls era uma lenda. Choque. Havia mais garotas na sala do que garotos. Choque. "Como assim, professor?!"  Todas incomodadas, sentindo o comichão indignado manifestando-se pelo corpo.

"Vocês vão ter que primeiro dormir com o porteiro da emissora para poder entrar, depois com o segurança para poder circular, depois com um assistente qualquer para ter acesso, e com algum chefe generoso para ganhar um cargo de comando".

Isso nos foi dito dentro da sala de aula de uma Universidade referência em Comunicação. Choque. Se era para provocar a discussão entre estudantes e assim abrir a mente para quebra de paradigmas, não deu certo. Quase nunca dava certo com ele. Não havia resposta para nossos argumentos e quase sempre os debates terminavam com sua voz grave concluindo em sabedoria um "porque, sim." E ponto.  Ele quebrou o respeito que nutríamos por ele e e por pouco não jogou no lixo os 4 anos de empenho e estudo para o ofício que havíamos escolhido como profissão. O burburinho começou, todas - e os meninos - indignados com aquela afirmação. "Por quê você dá aulas se não vamos usá-las?", "O que você está fazendo aqui?!", "Quem você pensa que é para definir nosso futuro dessa forma?!".

"Eu sou o poder. Reclamem, gritem, esperneiem. Não vai adiantar. Dos seus atributos, o que menos interessa é a inteligênca".

Discussão generalizada, todos contra a arrogante postura do professor-renomado-intelectual-respeitado. Ele não arredava pé. Lembro que costumávamos desafiá-lo com nossa criatividade e ele não gostava. O pecado da vaidade e egocentrismo tirava-lhe o equilíbrio do formador de opinião diante de recém-saídos da adolescência. A discussão tomou proporções bíblicas. O sinal tocou, a aula terminara. Não importava. As vozes foram aumentando, agora no corredor, fora da sala, com ecos que invadiam as outras portas que se abriam. Os curiosos passando vagarosamente pela área de conflito, os interessados parando em torno da turma que lutava contra a ofensa. Todas as garotas da sala inconformadas.

"Quando vocês estiverem vendendo bombril na feira, vou adorar ir lá comprar. Porque vocês vão vender bombril na feira!"

O professor VIP agora gritava. Havia muitos dedos apontados para ele que jamais recuaria. "vou te mostrar quem vai vender bombril na feira!"; "machista, sujo!".  Lembro pouco de uma discussão que pareceu durar horas. Mas a visão daquele corredor e a arrogância do grande homem grande - ele era enorme em largura, altura e barba e óculos - ainda deve estar gravada na retina de muitas colegas mesmo décadas depois.

Aos poucos a pequena "multidão" foi se dispersando, desistindo, desolada, revoltada, infeliz. Ficaram duas. Eu e minha irmã coragem que apontava o dedo para ele o desafiando a provar o que dizia. Prometendo que ia esfregar na cara dele o sucesso da sua carreira. A epopéia sobre "dar certo" ou não na comuniação.

Pouco sabíamos naquela época, mas aquela "aula" misógina e sexista foi necessária.

Queríamos ser estimuladas a lutar contra o que estava errado, não empurradas pela correnteza do "assim é e ponto final." Foi uma aula sobre assédio jamais esquecida.

Chegou um ponto que eu desisti. A irmã coragem parecia não se conformar. Falei: "chega, não adianta, não adianta...". O renomado e respeitado professor conseguiu sair do cerco e entrar na sala dos professores. Nós fomos ao antigo Pastel e Cia., em frente à Universidade tomar um caldo de cana para acalmar. E discutir. E prometer que jamais faríamos tal coisa. Que venceríamos pela capacidade e força de trabalho. E assim, foi.  Difícil. Dificílimo. A cada dez anos trabalhados, um degrau. Um projeto de resistência contra as investidas, as promessas, as cantadas e piadas. O trabalho triplicado nos transformou em necessárias. Corretas, éticas. Conosco, a "coisa" saía. Não tínhamos rabo preso, medo, nem casos amorosos com superiores que não nos permitissem questionar. Mas vimos tudo isso. E continuamos trabalhando firmes, fortes, focadas. Foi preciso uma vida inteira de trabalho árduo para provar que poderíamos vencer sem dar para o porteiro, o segurança, o assistente, o diretor...

Essa história não teria relevância sem o caso José Meyer

Décadas comentando o assunto, vendo colegas de trabalho ascendendo vertiginosamente, outras despencando inexplicavelmente. Assuntos proibidos falados a boca pequena.  A educação e cultura mudaram pouco. E o que mudou parece em retrocesso. Não se iludam. O tipo de assédio relatado pela figurinista da Rede Globo é a ponta de um iceberg tão gelado quanto a consciência de quem comanda a coisa toda.  Só o voto e a união tem a força para mudanças reais. Que o caso José Meyer tenha sido um passo importante. Por nossas filhas.

 *EDIT (13/04/2017)

São tantos os canais de divulgação e redes sociais que não espero mais comentários aqui, salvo anônimos e  leitores descuidados cujo prazer de partilhar conhecimento e vida ainda não tive. As respostas aos meus posts quase em sua totalidade vêm no Facebook, twitter, linkedin.  No problem. O importante é que nossa emoção sobreviva.  O fato é que algumas colegas presentes nesse episódio responderam via Facebook, onde postei o link para divulgação. Uma delas (irmã, é preciso coragem!) lembrou de um fato sexista extremamente importante dessa discussão. Outra, colaborou com a formação do perfil ególatra, auto e auto referente com outra lembrança. Subtraí os nomes e os perfís porque não pedi autorização. Creio que não haverá problemas, mesmo assim, desde aquela época aprendemos que respeito é bom e todo o mundo gosta. Eis:

memory1 Lição de Assédio. Eu estava lá.

 

memory2 Lição de Assédio. Eu estava lá.

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Publicado em 03/04/2017 às 13:33

A Ignorância Feliz ou a Consciência Atormentada

Como diria Maria Bethânia (by Gonzaguinha, Sir):

São tantas coisinhas miúdas, comendo, roendo, arrasando aos poucos com o nosso ideal...

Saltemos de uma canção de amor atormentado para a realidade que nos cerca e os desejos que nos mantém de pé. Desejos de sorte de um amor tranquilo. Desejos de que o belo se sobreponha às imagens terríveis de violência e perdição jorrando das telas pequenas, médias, grandes, portáteis, espertas... Difícil não se atormentar com uma visão de realidade imposta. Basta abrir a janela para ver o lindo azul de outono que um grito vem, um acorde, um suspense, mais uma tragédia aconteceu.

Claro que dói.

Penso muito e sempre no papel do comunicador. Na importância desacompanhada de consciência que perturba. Creio que já passamos da fase "celebridade", visto que todos o são, em seus grandes ou pequenos espaços. As estrelas e outrora já mostram sinais de cadência num samba descompassado. A esmagadora maioria seguindo o tempo, adaptando-se à história recente como deve ser (?). Camaleões de seu espaço e tempo, alguns continuam dando certo com as fórmulas já vistas, mas nunca desgastadas. As novas estrelas contam histórias dos desvalidos e comovem, se comovem. Repito que não há história que já não tenha sido contada. A diferença é a maneira, a forma como você vai recontar a mesma história. E para isso é preciso muito mais talento do que os livres e deliciosos pioneiros das ideias.

Vantagem de um pais Sem Memória

Criativos duram mais. Os que conseguem ver o óbvio que os outros não enxergam, ouro. Qual o momento exato de repetir a fórmula? Quem assumirá o papel diante das câmeras? Qual a grande revelação? Como reinventar o "elo perdido"? Não tem mais Hebe, Flávio, Abelardo e sua democracia deliciosa, palco dividido com reis e plebeus da música. Bancada julgadora eclética, parça do povo mesmo. Dias de glória. Novamente o papel do comunicador e do veículo. A política da não educação para que as fórmulas perdurem, funcionando por mais e mais tempo.
Simples seria se não estivéssemos vivendo a banalização da violência gravada e publicada em sites de relacionamento como se no seu "próprio canal" pudesse tudo.  A vida como quiseram que fosse. Porque "a vida como ela é" é cheia de dramas psicológicos, dúvidas cruciais, encontros e desencontros, mas não essa carnificina cultuada todos os dias, em todas as janelas. Banalizamos a morte. Simples assim. E o perigo não  é "pivilégio" dos desvalidos. O perigo está para todos. Pode acontecer com qualquer um em qualquer lugar.

Ignorar e ser Feliz?
Pararemos de pensar sobre tais banalizações. Sigamos a vida nos carnavais, micaretas com picaretas. Vamos parar o dia por uma partida de futebol. Um churrasco, uma breja, uma boa piada e a confissões sobre sair do pais. Ai, é muita coisa pra pensar, muita consciência pra pesar... a vida está curta, cada vez mais rápida. Não, não... vamos aproveitar o que podemos enquanto podemos. Fazer o quê? A vida é assim. Se tornou assim. Vamos nos fechar em nichos familiares e recorrentes e discutir se o churrasco de berinjela depende do tempero. Se vamos comer carne envenenada ou não. A vida pode acabar logo ali, não é mesmo? Estamos num continente onde não é possível planejar por muito tempo. À não ser que você tenha o dinheiro para isso e compre sua liberdade no mundo. A busca, então, por dinheiro.

Consciência Atormentada
Quem precisa saber que o mundo vai acabar? Por quê fazer murchar esperanças? Pra quê o sofrimento de não conseguir colaborar com o que pode ser feito? Pra que sofrer? Pra que saber? Que tormento! Impossível não. Quem se preocupa com o que tem sido mostrado, ensinado e não dividido? A guinada está no quarto poder. No quinto também. Infelizmente não há sinalização de tal interesse. Talvez lá fora. Trump? Talvez tenha vindo para rodar moinhos de vento...

A opção pela felicidade é sua. Suas escolhas, a poeira que vai sacudir, a volta por cima.
Deus é o Tempo que tudo descortina, mostra. Querer ser uma pessoa não o torna essa pessoa. Tomar uma distância dos fatos e enxergá-los como são ou foram, é um processo de amadurecimento. Quando chegar a hora do grande asteróide, ou dos homenzinhos coloridos, ou máquinas, quando a vida imitar a arte, quem sabe também façamos parte dessa encenação e nos unamos, países autônomos por um bem maior: salvar quem destrói? Aguardemos. Alguns terão a sorte desse momento. Outros a mesma sorte de não.

A maior glória é aprender, perdoar. E reconhecer que tudo foi válido. Tirar lições do recolhido ao longo do tempo. Não se revoltar. A sorte está nas mãos de outro, porque o timão da história está sempre em suas mãos.

Por isso, viva.  Não prejudique o outro, não se prejudique.

Tenha coragem e seja bondoso. O resto vem. Desabrocha. Faça sua escolha. Humildemente, acredito que um pouco lá, um pouco cá nos faça não perder a vontade de devolver a visão àqueles que há décadas lobotomizados por impulsos elétricos perderam seus valores. É preciso que os bons se juntem mesmo.  Difícil viver sem razão. Mortífera razão. Sejamos felizes  ainda que conscientes. Essa coisa que o otimismo traz é milagrosa.

Assistam filmes clássicos. Séries lúdicas. Mas não se esqueça do seu olhar ao redor.

 

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Publicado em 17/02/2017 às 16:44

Quantos Links Você Tem?

A Década era 80.

Mais precisamente, do meio para o final. Links - transmissões ao vivo como eram e ainda são chamadas - custavam muito caro às emissoras e nem todas se dispunham à criar quadros para entretenimento ou prestação de serviços. O jornalismo detinha toda a prioridade sobre o equipamento e editoria. Não era raro uma ideia de link surgida em reunião de conteúdo de programa ser transformada em pauta jornalística. E link jornalístico. Com sua linguagem jornalística. O tempo necessário para o inédito e informação imediata, ao vivo.

Em 1986 a TV Gazeta de São Paulo transbordava criatividade e dificuldades. Talvez por isso tamanha criatividade. Era o tempo do icônico "TV Mix", de onde saíram Serginho Groissman e Astrid Fontenelle, citando apenas alguns. Programas eram dirigidos por Fernando Meirelles Muitos programas e apresentadores consolidados foram gerados naqueles anos. Como essa temporada de grande sucesso tem muitos pais, mães e controvérsias, não vou me aprofundar. Embora lembre e muito bem de toda a rotina dos estúdios montados entre as janelas da enorme redação do sétimo andar da Paulista 900, muitos outros detém informações precisas, experiências próximas, intensas e pesquisadas.

0m9hln6i0ux7x01w05eyzgp8e Quantos Links Você Tem?

Claudete Troiano e Ione Borges

Eu era Produtora do Programa Mulheres em Desfile, apresentado por Ione Borges e Claudete Troiano, as "parceirinhas". Outro apelido carinhoso dado por Chacrinha, "as fadinhas ta televisão brasileira", não colou. Ficou para a história. Rolava uma colaboração entre o núcleo "TV Mix" e o Mulheres em Desfile, programa que resistiu e resiste até hoje bravamente às mudanças criativas. Participei de muitas delas. Quase todas. Mas isso é outra história. Vamos falar do links.

Começamos visitando ao vivo casa de artistas

Cada pauteiro era responsável pelos seus convidados, roteiro, produção. Cabia à secretária de produção a parte burocrática. Todo o conteúdo era gerado pelo produtor/pauteiro. Pré-entrevistas, briefing (resumo e informações da história) para as apresentadoras, assuntos inéditos. Conheci e fiz amizade com muitos artistas e personalidades que abriam as portas de suas casas sem medo algum. Serviam um café, cantavam uma canção, ouviam sua música preferida com as apresentadoras. Abriam suas lojas, faziam desfiles.  Era uma delícia. Nos revesávamos nas visitas. Assim como as apresentadoras. Cada link, uma ia enquanto a outra dividia o estúdio. Tempos iguais para o link e estúdio. Regina Duarte, Sérgio Reis até Jorge Amado e Zélia Gatai nos receberam no jardim do Macksoud Plaza onde estavam hospedados em São Paulo. Aliás, dona Zélia foi até o fim uma colaboradora generosa do programa, entrando ao vivo por telefone quando solicitada para opinar sobre este o aquele assunto.

Tudo inédito e na raça.

Quando sentimos que precisávamos ser menos glamourosos e mais sociais, passamos a mostrar como eram por dentro instituições, prisões e abrigos de minorias. Mostramos para as mães ao vivo como era a então FEBEM por dentro. Como viviam os índios numa casa-abrigo no centro de São Paulo. Nos tempos de festa, os links eram nos shopping-centers mais frequentados. Pouquíssimos na época. Tudo inédito tanto para os visitados quanto para nós. Na raça. A equipe técnica tinha que checar se o 'link fechava" com alguns dis de antecedência. "Fechar link" significava achar um local para nosso caminhão-furgão sobre o qual ficava uma antena e esta antena tinha que se direcionada à da Avenida Paulista. Ou seja, a antena da Paulista tinha que ser visualizada do local da transmissão. Caso não fosse, o link teria que ser em dois lances, algo como rebater o sinal. Aí entrava outras batalhas: convencer o vizinho a deixar que instalássemos nossos equipamentos, que usássemos sua energia, que pisássemos na sua grama e destruíssemos seu jardim. Cabos grossos tinham limite de alcance também. A câmera só ia até a extensão de seu cabo permitisse. O mesmo para a iluminação em locais internos. Profissionais heroicos se dependuravam em postes de luz, em lajes de casa, coberturas de prédios... uma aventura.

Ione Borges e Claudete Troiano suportavam calores inimagináveis sobre os holofotes quentes muitas vezes instalados em ambientes minúsculos e de pouca ventilação, como o abrigo indígena. Foram feras.

Ao Vivo, de uma Rua do Seu Bairro

Ao vivo, direto do Anhembi nas festas-show de aniversário (incríveis, um capítulo à parte) com mais de 5 mil pessoas na platéia que acampavam dias antes em busca de melhores lugares e rendiam matérias deliciosas na fila.

Ao vivo e pulsando

Hoje, quando nos transmitimos cortando o cabelo ao vivo do celular, não dá pra lembrar sem imenso carinho  do sapato fone do agente 86. E do quanto foi feito para chegar até aqui. E como tudo é cíclico. É de ficar perplexa.

 

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Publicado em 23/01/2017 às 20:03

Não é o que Pensei

É  preciso assistir "La La Land"

Fui ao cinema esperando um bom filme, recheado de referências aos clássicos norte-americanos. Musicais, claro.  Segui para a fila com em pleno processo de análise insolente, quase uma arrogância "eu-já-sei-o-que-vai-acontecer-e-como" . Fila boa.   Gosto desse cinema. O shopping descolado com várias salas exibindo filmes para plateias exigentes, o capuccino e cheiro de pipoca amanteigada, tribos e pequenos diferenciais no ambiente devolvendo a importância do  espetáculo que é a exibição de um filme.

lalaland Não é o que Pensei

divulgação

Houve um tempo em que todos os cinemas contavam com uma cortina vermelha antes da tela branca. Como um "espetáculo". As cortinas se abriam enquanto as luzes se apagavam. Hora do silêncio, do "shhhh", alguns pigarros. Respeito. As salas de dinema onde assisti La La Land  não são tão rígidas, mas o respeito está sempre lá. Alguns cinemas me aproximam dos atores, do enredo, da indústria pela sua frequência e cuidado. Pessoas que gostam de cinema, respeitam o cinema.

Arrebatador

Logo de cara 0 tremendo e já bastante comentado plano-sequência, ou "ilusão" de plano sequência, ou, ou ou, faz a gente querer estar naquele congestionamento, misturada àquelas cores vivas respirando o otimismo dos bailarinos, cantores, contorcionistas e cinegrafistas voadores (ou, ou, ou... e daí?). Ponto positivo. Falaram tanto... não foi decepcionante. Não, não. Foi muito bom.  E quando você acha que vai demorar para acontecer alguma coisa, acontece tudo. Emma Stone em mais uma sequência inesperada. Surpresa boa. O filme continua bom, olha só...

E depois da cena de Emma Stone... ah... não pára mais. Me encolho humilde e envergonhada na poltrona. Aperto a mão de meu companheiro que retribui o gesto. Estamos comovidos. E as sequências continuam. E continuam, e continuam....

Cidade dos Sonhos

Los Angeles, Los Angeles... Pessoas comuns, sem grana e sonhadoras. La La Land fala de correr atrás dos seus sonhos impossíveis, lutar, vencer o inimigo invencível. Quantas pessoas neste  mundo terrorista e economicamente aflito ousam sonhar? Arrisco: todas. Quantas assumem ou se envergonham da "fraqueza de amar" é outra história. Esse filme me pôs ao chão. Parei de raciocinar. O sentimento tomou conta e assim fui durante toda a viagem para a Cidade das Estrelas; um pouco mais de duas horas numa imersão deliciosa como há muito tempo não acontecia. Excelente fotografia, Direção, Canções, Interpretações, Figurino, Cenografia... maiúsculas para tudo isso.

Não é passado.

Temos cores, carros diferentes, e celulares que tocam na hora errada, na hora certa, Temos jazz, temos talento, temos uma história de amor. De amizade. De fé. De verdade. Tudo sobre o que nos falta atualmente. Aquelas qualidades humanas empurradas para baixo do tapete que neste caso é mágico, voa e descobre o que podemos e gostaríamos de ser.

A arte do encontro...

...mudando o destino, fazendo valer. Três minutos mudando uma vida. Duas horas terminando uma história. É preciso ver La La Land. E sentir-se num espetáculo, com vontade de aplaudir. De saber quem fez tudo aquilo acontecer. Que grande cara, esse Damien Chazelle Diretor do espetáculo. 32 anos. Dá gosto, orgulho de uma geração. Inteligente, inovador, competente, sensível, corajoso. Humano.

Bye-Bye, So long, Farewell

Uma história de amor. Um amor de história. Capricho. A estranha melancolia que faz a gente sorrir. O bem, afinal. Nos sentimos cúmplices aqui  da história que só os protagonistas conhecem em La La Land. Esse aprochego, essa cumplicidade é um segredo de sucesso. Um blockbuster parecer só nosso não tem explicação, não, não, não tem.

 

 

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Publicado em 10/01/2017 às 15:40

Irmão, é Preciso Coragem!

Receita de terça-feira:

Exprema um limão siciliano bem amarelo num copo que se ajuste confortavelmente em uma de suas mãos. Daqueles que quando chegar a hora a "chacoalhadinha" tenha gosto sem provar e glamour nas pedrinhas de gelo derretidas.  Isso. Pedrinhas de gelo. Muitas. Pequenas para dar volume, temperatura e estética agradável.  Açúcar à gosto. Muito gelo. Está calor. Acrescente uma boa vodka importada levemente perfumada com bauniha. Misture tudo.  Misture bem.  Não reserve, deguste. Porque é terça-feira.

Se tiver sido poupado da vista curta de outro edifício em sua janela, vá até o parapeito. Debruce-se e... deguste. Algum horizonte, há. Meu deus, esse calor... e tantas coisas dentro dele e ao redor.

Assim a inspiração começa para uns e mal acontece para outros. Num terça-feira.  Imagens paradisíacas nas páginas da internet. O carro pra desamassar, o sofá pra trocar, a TV que não é nem um pouco esperta, esquenta demais. Que calor. Desarrume-se. Desajeite-se.  Conforte-se.  Leia. Sobretudo, pense. Pense muito em como afastar os maus-pensamentos. Proteja-se. Reveja um tempo em que na sua vida só havia amigos e festas e acontecimentos de contar mais velho. Procure identificar quantos permanecem. Veja bem: permanecer não é ver todo o dia. Permanecer é estamos: conosco e consigo independente da quantidade de "olá, como vai, tudo bem?" trocadas na vida real. Permanecer é ter a certeza de que quando for preciso, eles estarão ali. Aqui.  Em todo o lugar. Seja feliz por um triz nesse mundo que jaz. Não é fácil. Não são tempos fáceis. Talvez se a guerra fosse declarada as políticas nos ajudassem a calcular futuros, permanecer presentes, arrojar momentos. Mas, não. Tudo subjetiva à deriva nesse mar de coisas desencontradas e distantes.

Distantes dos reais lugares que pertencemos, distantes das pessoas que queremos perto. Do curso de fotografia, do documentário que vai mudar o mundo, dos quintais verdes e tablets maravilhosos. A vida é como São Paulo. Nos oferece tudo sem dar condição de participar desse "tudo".

Vivi uma Nova Iorque de sonhos, com a neve que pedi à deus e  Carneggie Hall.  E o Central Park. Não importa que não me dão lhufas, que sou mais uma se esbaldando como um pinto na neve. Não importa. O que importa e faz a diferença é como o meu coração bate. Brega, Pop, Hit, Over, Cover, down, up, meu, nosso... Nunca gostei de definições. Decidi não definir quanto achei, lá pelos idos final dos 1970, que era uma pessoa diferente. Embora a vida tenha revelado que de diferente sou espectdora de mestres e heroínas maravilhosas. Me sinto na pirâmide de Marx, sustentando o que acredito. Com o maior e máximo prazer. Farei a força que for necessária para sempre e todo o sempre. Estou na base da pirâmide mas poderia tranquilamente viajar no iate triplex em alto mar verde maravilha desse mundão Jacques Custeau. Saber o seu lugar em detrimeto de seu potencial é uma dádiva. É, sim.

Na Escócia, dizia.

Numa ilha da escócia. Uma casa no alto, nas pedras poderosas e fortes que aguentariam tsunamis. Casa de pedra sobre as pedras com um imenso farol sinalizando para todos os perdidos e necessitados. Uma casa auto-suficiente, tecnológica, grande, forte, com o farol, numa ilha da escócia. Nunca fui à escócia realmente.

Vivi Paris. Sempre haverá Paris e aquele cheiro de gosto.... Sempre e nunca mais apagado de minha história, como um pinto no Quartier Latin. Como uma amadora de sotaques dando licença e ouvindo "mercis" e "abientô" carregando o caminhãozinho de esperanças. Vivi o amor.

Não é preciso lisergia para encarar outsider essa vida de espertos. É preciso coragem. Irmão, é preciso coragem!

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