22 MAI às 00h01

l'amour, esse vírus que se alimenta de massa cinzenta.

vamos às regras do jogo e do tempo, então: eu dou as minhas, você dá as suas e nos entendemos em algum lugar no meio.

1. eu sou eu, nasci eu, vivo eu e morrerei eu. essa aqui, isso aqui. (ajustes serão feitos no caminho, muitos deles, mas basicamente:)
2. venho com passado (presente e futuro não estão inclusos)
3. o futuro do pretérito não existe; nada seria, nada deveria. as coisas são, apenas, e podem se transformar em outras coisas, coisas melhores ou coisas piores, ou nada. depende de agora.
4. está proibida a chantagem emocional em qualquer nível, a qualquer hora do dia ou da noite. drama deve ser usado com parcimônia e nunca com o queixo erguido ou ar patético de razão desesperada.
5. situações caóticas impostas sem necessidade serão severamente punidas com silêncio e ausência ao som mental do mantra "paciência, paciência, paciência" repetido até a sanidade.
6. amor não se mede pelo meio das pernas. amor não se mede com boquete. amor não se mede.
7. amor não é doença, doença não é amor. (amor ≠ tumor)
8. tentar se impor com birra será inevitavelmente uma batalha inglória onde todos perdem, todos sofrem, todos gastam precioso tempo, todos ficam mais velhos.
9. falo sobre o que quero, onde quero, como quero, quando quero e escrevo o que quero, como quero, onde quero. sem interferências. de ninguém. nunca. nenhuma.
10. quer do seu jeito? compra argila e molda uma cumbuca.
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(te amo, viu?)

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07 MAI às 17h13

enfia essa sacolinha no rabo, eu quis dizer. ia mandar usar de pára-quedas e pular janela afora, mas lembrei que agora tem tela, impossível, impossível. você sabe o caminho da porta, eu disse, já borrando todo o rímel, evitando andar os quilômetros do corredor porque né, ele ia achar que era cena, ele não acredita em nada que eu digo. que desperdício de rímel.

achei que era hoje. mas não. não.

não; veio aqui tentar esfregar na minha cara que eu sou o que não sou com um rosto inchado e uns olhos vermelhos. te conheço, não me venha com essa, nem eu conseguiria disfarçar esse despedaçamento, eu, a dissimulada. eu, a escrota. eu, igualzinha à vilã que os outros pintavam. essa clara aí.

essa aqui é outra. só eu sei o que tem dentro da casca. você não chegou a ver. quase viu. viu um pouquinho. foi o que pegou. uma pena, eu não consegui mostrar tudo. incapaz mesmo, um horror de fracasso. desculpe. não consegui. if only.

conhece tão pouco, tão nada de mim que me imaginou andando de roda gigante e bebendo champanha com homens de sunga, rindo e vivendo a valer. meu querido, se você soubesse que onde eu estava sequer havia uma cama, que não havia sono contínuo e minha coluna está escangalhada e que pensei em você a cada segundo de cada minuto de cada hora de todos os dias, talvez baixasse essa guarda e calasse essa boca. boca não é só pra falar; calar às vezes é bem mais sábio.

pé na bunda que menos fez sentido na vida, começou comigo indo embora por nada de manhã, eu e as minhas coisas todas, e terminou com você dizendo que gostava muito de mim e eu dizendo que mas eu também, eu também! então tchau, vou te esquecer.

vocês não aprendem, vocês meninos nunca aprendem que não se joga amor no lixo. não se encontra na esquina, não adianta ter gente oferecendo, não funciona assim. só funciona quando funciona. não quero provar que estou certa. só queria tudo bem, ainda dá tempo, dava tempo, sempre dá. não se joga amor no lixo.

mas não. eu sou má, eu não mereço. eu mereço o pior, eu mereço sofrer. quanta maturidade, meu amor, quanta besteira.

eu pronta pra te chamar pra ir praquela ilha, só nós, tudo certo, nada pra fazer, nada, só existir, como você gosta, existir, comer, beber, ter ideias, eu nua e você de cuecas (porque você acha que homem em pêlo é feio).

vai lá fazer roleta-russa com sua pica de ouro, então. não tem essa de arruma outro otário, eu não preciso de outro, eu fico sozinha. durmo sozinha, saio sozinha, trabalho sozinha, bebo sozinha e vivo sozinha, porque já era pra ter sido nunca mais.

(volta)

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05 MAI às 20h56

enjôo, enjôo, enjôo. queria lavar as tripas em água morna e deixar secando no parapeito enquanto durmo oca.
não dá pra ter tudo. esse foi o erro de cálculo da coisa toda, querer ter tudo, dar tudo. não funciona. o amor é exclusivista, amor. a gente finge que não se importa, se pá até nem se importa na maior parte do tempo, mas sempre tem aquele momento que sangra o espetinho no coração.
eu não quero ser a mulher da sua vida, já sou da minha. e não é porque eu acho que todo mundo é meu coadjuvante, beibe, beibe, olha só o que você me disse: já me apaixonei sim, mas gosto mais de mim. eu também, eu também gosto mais de mim, cansei desses romances fadados ao fracasso e que acabam com a partes juntando as partes do chão, em poças de sangue, choro e porra. amor assim não; assim eu passo, amor.
mas morro de saudade das suas meias.
morro.

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03 MAI às 08h32

nunca mais dormi em casa. nem parece que eu ainda tenho, de fato, uma casa.
ainda bem que tem a lindalva pra cuidar dos gatos, ainda bem que tem o saico pra cuidar de tudo.

primeiro era lá; agora, aqui.
lá eu vivia a iminência de desastre embebida em felicidade plena. tudo desregrado, tudo bagunçado e barulhento, os horários e os cobertores revirados pos nós, a todas as horas do dia e da noite. era isso, era lindo, era bom.
aqui eu cuido do meu amigo, meu melhor amigo, que precisa de mim. silêncio e horizonte, horários anotados e tudo bem baixinho. é aqui que eu vou estar nos próximos dias todos, até que ele melhore, até que ele volte a ser cheio de vida. já me xinga, ele, dizendo que não me agüenta mais medindo sua temperatura de duas em duas horas e perguntando se tem fome, sede, se quer algo.
eu sei, eu sei, sou uma chata. mas só por amor.

a dimensão das coisas importantes muda todas as perspectivas.

não que o coração seja desimportante; não é, especialmente quando acaba de voltar a bater.
(aqui, o meu esmurra as costelas e diz "ô puta, foi pra isso que você me acordou? que maçada!")

são amores diferentes, apenas.

agora é isso: ele precisa de mim, e aqui estou. either in sickness or in health, eu não largo essa mão.

<3
c.

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02 MAI às 14h22

é só me esfarelando toda que pego no tranco.

nos encontramos num boteco como numa cena de cinema de quinta, eu cheia de uísque e ele de sei lá o quê. o oi foi um beijo, ninguém quis lembrar da briga e de lá nem sei para onde; sei que teve gente, tóxico, minha casa, o spider jerusalem e de repente era dia, o táxi me esperava e ele já não gostava mais de mim.

o caralho que experiência serve pra alguma coisa; saudade de quando eu acreditava e conseguia me entregar sem achar que dançariam sapateado americano na minha cabeça. sempre de capacete, então, o medo de rachar a cara mandando em tudo, mandando em mim.

o caralho que do chão ninguém passa, o caralho. passa e o magma do inferno cauteriza e esteriliza tudo por meses, anos, centenas deles. incapacidade de entrega é o pior dos castigos. fiz o que pude, dei o que tinha, pobrinho, mas de coração. não foi o suficiente. suerte, então. esse tipo de dívida não se contrai.

pinga e reza forte, disse a minha amiga, a gente sabe que passa. passa. mas e se eu não quiser? me deixa aqui eternizar o efêmero, acordar em apnéia, bater na testa, mea culpa, mesmo que não seja toda minha, mesmo que você não entenda que sabe tudo quando quer, mesmo que suas chacotinhas sobre as minhas importâncias me dêem toda a vontade de largar a sua mão em plena paulista, fica aí então todo sem causa e sem mim, com as coxas das suas outras, tão importantes que nem existiam mais.

eu e o meu superpoder superinútil de criar um campo de força quando alguém - você - chega pertinho demais de me deixar frágil demais. xingar meus medos não adianta, ó beibe, nem me transforma em criatura maléfica que não sou.

ninguém é uma coisa só, nem você. eu sou toda essa bagunça, boazinha, mazinha, calminha, nervosinha, acordada, dormindo, com sono, na defensiva, com sorrisinho, com carranca, sóbria, bêbada, pêga, travada, rindo na sala, chorandinho com a cara enfiada no seu ombro num quarto de hotel, pedindo desculpas, fazendo besteira, tudo isso sou uma pessoa só, monamú. algumas de nós acertam, outras de nós pisam na bola, é assim que é, somos.

errando tentamos, todas nós, dar pra outro. vamos até a casa dele sem ouvir a voz dos ovários que pulsavam "não-quero, não-quero", um beijo de cigarro, uma casa silenciosa, os lençóis brancos me esperando, não-quero, não-quero. nada de errado com ele, a não ser não ser você. chamei um taxi e deixei um monte de camisinhas mortas no chão, fui pra rua, frio e aquele outro ainda, que deixei lá no canto pra te encontrar sem saber, as pernas guiadas por sei eu quem e de volta a você no balcão.

meu cabelo pintado da cor que você pediu, minhas unhas do jeito que você gosta. quase fiquei loira, mas, idiota, quis agradar do jeito errado. no táxi, a caminho do hospital, viro poeira secando cega ao sol, vejo que não tem jeito e não mais discuto: é só me esfarelando toda que pego no tranco.

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30 ABR às 21h10

nos conhecemos na janela da casa dele. pensei: "fodeu".

ele era a fina flor da rafuagem, tosco, adorável, o melhor dos sorrisos, ora entendia tudo, ora ensurdecia e não entendia nada.

eu pensava: que cara foda, que demais, preciso sair daqui rápido, ligeiro, socorro, um táxi aqui, para onde? para sempre, motorista, para sempre.
fui ficando. o medo ficou também, crescendo como sombra no canto mais escondido do quartinho fechado há anos e anos, atrás das caixas, no vão da janela trincada, nos meus dedos, nos meus cabelos, debaixo das minhas saias.
juntos a todas as horas do dia e da noite, eu sempre naquele fascínio, meu deus alguém consegue me fazer sentir de novo, paixão, tesão, raiva, admiração, desprezinho, amorzinho, paixão, loucura, loucurinha, me deixa falar.
preciso sair dessa, preciso fugir, eu pensava, enquanto fechava as pernas e cobria a cabeça com os lençóis suados das outras.
ele sempre ora adorável, ora odioso, quer dizer, ele era um homem, o que esperar?
feliz e sufocada.
adorando uns braços em volta de mim mas lembrando como era quando eu podia existir em meu silêncio, meu quarto, minha sala, minha casa, com meus gatos, minhas músicas, meus travesseiros.
minha vida só.
e só, sentia saudade.
dividir a vida não é se afogar no outro.
não pode ser.
dividir a vida sempre é se afogar no outro.
ele roncava, eu aprendi a não ouvir.
ele falava impropérios e era inútil discutir; as pessoas não mudam, apenas aprendem a se conter.
ele foi aprendendo a se conter sem notar.
eu também, eu também. depois de brigas e gritos, de dedos apontados e chega dessa merda, só um pouquinho, também não precisa ser assim, né? ceder um pouquinho, ceder não me mata. "adoro você boazinha", ele dizia, como se a mazinha não fosse eu, veja só. todas são, meu querido, todas somos.

pra lá e pra cá nós íamos, aquele grude, tudo bem, tudo tão lindo, chegou o sofá que eu ajudei a escolher, meu melhor amigo adoeceu, fiquei abalada, tivemos uma briga idiota qualquer, ele não seria mais refém do meu humor, ele estava cansando, era tudo culpa daquele meu jeito. faça o que quiser, gritou ele, você é quem sabe, ninguém manda em você, não é mesmo?
pois bem, peguei meu xampú, minhas calcinhas, meu computador, minha bolsa de água quente, meus óculos atrás do sofá, chamei um táxi e fui para casa.
para casa, motorista, para casa.
ficou assim mesmo, uma dessas sem ponto final.
sem fim.
uma pena.
e ponto.

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29 ABR às 15h14

demorei pra fazer esse post, né?
eu estava presa na ilha do amor. mal aí, gente.
pois é: meus dias de R7 chegaram ao fim.
MAS POR QUEEEEEEEEEEEEEEÊ, perguntaram alguns.
porque gente, deu.
foi divertido. foi deveras frutífero. foi necessário e instrutivo.

mas eu acho que esse mundo não é pra mim. nem eu pra ele.

sabe, eu não sou jornalista. sou escritora. e não gostava do assunto que precisava tratar. a parte da editoria de humor era legal, adorava inventar aqueles impropérios que se propagavam como a peste pelo twitter, o sorvete de maconha, as pesquisas falsas, tudo aquilo. eu sei, ninguém gosta o tempo todo do que faz. é a vida, é assim.

mas gente, reality show, aquilo não dá. eu nunca odiei reality shows pelo simples fato de que eu, quando não gosto de algo, ignoro a existência e faço as minhas coisas, as outras coisas, a coisas que eu gosto. nunca tinha assistido porque ora, não me interessava. e eu vou atrás do que me interessa. não estou nessa vida para odiar as coisas. nem a trabalho. isso me faz mal. e segurar a personagem grouchy que reclamava de tudo e todos, olha, é pesado, viu? eu não sou atriz, não sei segurar personagem. e não sou uma odiadora, então não dá. tem tanta coisa pra gostar nesse mundo e tão pouco tempo pra conhecer tudo, não dá pra perder tempo nisso de ódio.

e eu tava isso. eu era a persona nuvem negra. eu reclamava, eu desprezava, eu odiava. odiava algo que gostaria de sequer saber que existe; não vejo graça na tosqueira, na ignorância de outrem. oquei: algumas coisas eram engraçadas. mas o engraçado patético nunca me atraiu.

sei lá, gente. meu gosto, meu jeito. essas coisas me deprimem. na tv, me deprimem ainda mais.

comecei a ficar doente. comecei a não querer mais acordar de manhã. sinusite, dor nas costas, sofrimento, desânimo, eu duvidando de mim... não, não. foi lindo, o ex-tricô foi INCRÍVEL, me dói perder a dupla incrível com a @alesie, acho que tínhamos mil possíbilidades, mas

algumas coisas boas têm que acabar, senão viram coisas ruins e a gente esquece que um dia foram boas.

vou escrever, vou inventar mais coisas, vou aprender a tocar piano direito, vou escrever, vou descobrir mais coisas que ainda não sei que sei fazer, ou que ainda não aprendi.

pra saber de mim,

vocês podem me seguir no twitter
me curtir no facebook
e acompanhar minha editora, a Averbooks, que será lançada em breve.

e é isso,
e foi lindo.

<3

obrigada luiz cesar querido pela 456347856825 chance de trabalhar direito.
obrigada guerreiro - aline - todos.
obrigada, gente.

(já faz mais de uma semana que eu saí, está tudo meio atrasado, mas é isso: obrigada e fim)

37qEe adiós, amigos

<3,
c.

(o blog permanece! isto não é uma despedida DO BLOG. apenas do meu EMPREGO, de estar na redação, de gravar vídeos)

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29 ABR às 10h43

WF6nc Eu fiz os degraus badalarem

Eu estava solitária num apartamento emprestado por um japonês, longe de tudo, sem dinheiro e sem amor. Não sei se acreditava em deus, se algum dia acreditei, só sei que ele não estava lá nessa hora.
Mas o Fante, o Fante estava, e ele virou meu deus.
Riam, podem rir, podem me achar louca e pateta e exagerada, talvez eu seja mesmo, mas ele estava lá comigo e me salvou de morrer de dor e de solidão. Seus livros eram minhas bíblias, sua foto era meu altar. Eu olhava a foto na minha mesa e dizia meu velho, meu velho, que bom que você está aqui comigo, que bom que você não me abandona nunca. Ele estava ao meu lado o tempo todo, no meu ombro o tempo todo enquanto eu escrevia meu terceiro livro, e batia no meu ombro e dizia lindo, lindo, sofre, Clara, sofre porque é o único jeito de fazer as coisas direito, sofrer de mentira não vale, inventar sofrimento também não. Sofre porque sofrer é trabalho duro e quem trabalha duro tem sucesso. Então eu sofria, acordava no meio da noite com meus fantasmas girando no teto do quarto junto com as vozes da insanidade e escrevia, escrevia febrilmente enquanto tomava vinhos de cinco reais do Supermercado Sagres.
Então eu terminei o livro e outro amor veio, o amor me consumiu e o Fante foi embora. Continuei escrevendo mas sem sofrer, só pensando, não era ruim, mas faltava todo aquele sangue, todas aquelas entranhas que eu vomitava no passado todos os dias enquanto o sol nascia dourado nos prédios da Vila Mariana. A Vila Mariana foi embora, o sol foi embora, eu fui embora. Minha barriga cresceu, meu novo amor me fazia feliz. Minha filha nasceu, meu pequeno tesouro rosado com os olhos negros do pai, me amando instantanea e incondicionalmente, minha filha, minha princesa, minha gatinha.
O Fante tinha ido embora, ele tinha me abandonado, não estava mais lendo por cima do meu ombro.
Meu amigo escritor dizendo que era bom, que eu precisava me livrar do encosto, mas não, não era um encosto, ele não entendia. Ninguém entendia.
Então eu vim para Los Angeles procurar minha igreja, a Bunker Hill Avenue, Angel’s Flight e a Spring Street e a Main Street. O Hotel Alta Vista, a Biblioteca Pública e os Degraus de Bunker Hill. Ninguém sabia onde ficava. Todo mundo só queria saber de tirar fotos dos pés dos astros e das estrelinhas no chão, pfff, eu dizia, e fumava meu cigarro, vocês turistas japoneses não sabem nada, tive que me virar até lá no metrô e chegando lá perto ninguém sabia também, ninguém nunca tinha ouvido falar na Bunker Hill Avenue nem no Alta Vista Hotel. Não existia. Um menino mexicano veio em me levou até Angel’s Flight, e ele trabalhava numa lanchonete e pegou cerveja de graça em copos grandes e nós procuramos e procuramos a Bunker Hill Street, mas ela não estava mais lá. Setenta anos se passaram, a rua deve ter mudado de nome, o hotel deve ter sido reformado, não achei minha igreja.
Mas subi os degraus de Bunker Hill, John Fante, meu deus, um dia você escreveu que aqueles degraus badalariam com a sua memória, e que John Fante e Arturo Bandini, dois em um, amigo dos homens e dos bichos, seria lembrado lá de cima dos 103 degraus de Bunker Hill, e eu fiz isso, sim eu fiz, eu subi aqueles degraus e olhei para baixo e lá estava a biblioteca, e lá estava você, você tinha voltado para mim, eu senti de novo sua presença do meu lado e voltei pra casa e tomei uns remédios para não dormir porque queria escrever, mas não adiantou nada porque eu estava muito cansada, então eu desmaiei de roupa mesmo na cama de molas do meu hotel em Hollywood na Orchid Street, perto dos turistas japoneses que só querem saber de tirar fotos dos pés dos astros.
Acordei agora, cinco da manhã, com você puxando meu pé. Eu fui na sua parte da cidade, John Fante, eu vi tudo, mas era tudo diferente. Os negros gostavam de mim e falavam coisas, mas eu não estava nem aí, eu queria achar o Alta Vista Hotel onde a Camilla jogava pedrinhas na sua janela. Eu vou encontrar. Foi só meu primeiro dia, eu ainda vou voltar para o seu lado da cidade no meio dos traficantes e dos vendedores de coisas na rua, eu vou lá te encontrar, porque eu vim para isso. O dia está claro. Vou lá te visitar de novo, meu velho. Nunca mais me abandone.
(Los Angeles, 2004)

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26 MAR às 04h10

Tú disparas para encontrarte,
yo lo hago para desaparecer.
La perfección es perderse;
Para perderse hay que amar;
Tú no amas,
tú rompes,
tú asesinas,
y nadie te ama.
Porque cuando crees que das,
en realidad estás tomando.

- Alejandro Jodorowsky dando as real

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16 MAR às 22h23

não, o tempo nao destrói tudo. o tempo só destrói as coisas frágeis, desossa as fraquezas e consome a carne. o tempo muda todas as coisas porque nada estagnado pode durar muito. mas pode durar um pouco. tudo pode durar um pouco. ninguém precisa viver descrente porque sabe do fim. todo mundo sabe do fim, o tempo todo ele está lá, desde o primeiro segundo. mas entre o começo e o fim dá pra ter vidas e vidas, milhares delas e fragmentos de outras milhares de coisinhas dentro de outras milhares de coisinhas ad infinitum ad eternum. e viu, as coisas frágeis, mesmo elas podem durar. a gente que escolhe se vai pisotear e jogar pela janela ou cuidar direitinho, cuidar até que seja a hora da coisa frágil morrer. não há sentido em destruir as coisas frágeis - já que o tempo mesmo vai se encarregar delas, não é? eu acho. eu acho isso aí. cuida. cuida senão murcha, morre e nem o tempo destrói a memória destruída. cuida. antes que

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