11 FEV às 01h30

sTp2O Gata escaldada etc

E já começou de novo a palhaçada de me perguntarem se eu vou para a Fazenda, aquele reality show da Record.
NEM ACABOU O BBB AINDA, SABE. FOCO, VOCÊS.
(Vocês que gostam dessas coisas, no caso.)

E não, eu não vou para a Fazenda.

"Mas todos os participantes disseram isso!"
"Mas a Valesca (!) disse isso!"

Olha só: eu não vou para a Fazenda porque o tipo de exposição que ela proporciona não me interessa. Eu não quero ser famosa. Não assim, não essa fama.

"Mas você fez um reality show!"

Fiz. Fiz porque eu precisava de dinheiro e não tinha idéia da merda que ia dar. Fiz porque achava que ninguém assistia essas coisas - pelo menos ESSE programa. E eu só conhecia o gringo, o "Wife Swap". Quer dizer. Naquela época eu tinha bem menos noção da TV aberta do que agora - vocês podem imaginar com era, já que hoje, depois de um ano trabalhando no R7 e andando pelos corredores da Record diariamente, eu ainda sei pouco sobre o funcionamento da coisa toda. Fiz porque achei que podia escapar ilesa, coitada. Eu devia ter me tocado que eu já sou mal compreendida mesmo sem uma edição me sacaneando e me fazendo parecer (apenas) doidona, né? Devia ter me tocado que a outra vez que eu tive uma grande exposição foi quando fizeram o filme do meu livro, aquele que não tem absolutamente nada a ver com nenhum dos livros e que é creditado a mim. E que não consigo me livrar disso até hoje. Ou me conhecem pelo programa (tem pelo menos uma pessoa por dia que me olha com cara de nnnnnnossssssa a mulher da tv - sim, ainda), ou me conhecem por causa da época do filme.

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Pelo que eu faço ninguém me conhece.
Oquei, ninguém é exagero. Mas são tão poucos.

Eu sou es-cri-to-ra. E escrevo livros. E textos diversos, que também podem virar livros. A parte de que ninguém consegue encontrar os meus livros porque as editoras não gostam de dinheiro e não fazem outras tiragens será resolvida em breve, já que eu estou abrindo minha própria editora de e-books, a... Averbooks.
O nome foi cunhado por meu jovem amigo @vyktorb, o Vyktor Berriel. Por enquanto, relançaremos apenas os meus livros, porque plmdds, eu quero ser LIDA.
É claro que isso não me impede de fazer outras coisas, de ter um programa, de ter uma banda, de fazer o que eu bem entender.
Mas é essa a minha legenda: escritora.

É essa a `fama` que eu quero. Era aqui que eu queria chegar.

Eu não quero ser `famosa`. Quero ser reconhecida. É TÃO diferente. Não quero ser reconhecida no metrô pela tiazinha da sacola. Eu tenho aquele delírio Bandínico de ser uma escritora. Oquei, eu já sou, né? Mas uma escritora LIDA. Adoro quando alguém chega em mim pra falar isso. É tão legal, eu fico tão feliz. De verdade. Me sinto um pouco menos CANTANDO PRA SURDO, que é a analogia perfeita para fazer literatura no Brasil.

De novo: eu quero ser lida.

Pra isso, acho que vou ter que mudar de país, né? O Vida de Gato, quando foi lançado na Inglaterra, vendeu mais exemplares no lançamento do que no Brasil.

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Dá pra acreditar?
Dá.

O Brasil é um país de televisão. Ela é a diretriz de tudo. É a tv que manda na moda, nos comportamentos questionados/aceitos, na música, nos esmaltes, nas gírias, nas pautas. A televisão (ainda) pauta o país. A internet também, claro. Mas a televisão pauta a internet. É só ler o twitter no horário da novela, do BBB, em dia de jogo, dia de Faustão... Enfim.

Pouquíssima gente lê aqui.

Engraçado, né: as listas dizem `mais vendidos` e é isso mesmo que eles são. `Mais lidos` é outra história.

Sempre se preocuparam mais com minhas tatuagens e minhas atitudes `polêmicas` do que com eu FAÇO. Com o que eu pareço e não com o que eu SOU. Que merda! É por isso que tem tanta subcelebridade nesse país. É essa a cultura de subcelebridade: imagem e . Aparecer e . Conteúdo? Quem liga? Importa mais a saia curta ou a merda que a pessoa disse do que alguma coisa legal que ela tenha feito. Ou: ela ter feito alguma coisa, enfim.

E não é um programa de TV que vai `aumentar as vendas dos livros`, como algumas pessoas com retardo acharam que aconteceria após exposição massiva em horário nobre. Aquelas mesmas pessoas que acham que eu inventei tudo pra `aparecer`.

Oh, please.

Então, por favor, anotem aí:
Eu não vou pra porra de Fazenda nenhuma. Sim, me sondaram a respeito. Mas seguindo ensinamento sábio que aquela rapariga linda nos deixou: no, no, no.

Um forte abraço
c.

(Assistam menos TV - não precisam TROCAR a televisão por nada. O dia tem 24 horas, quinze minutinhos de leitura diária, um filmezinho por semana, sabe? Dá. É só querer. Prometo que vai ser bom. É só achar as coisas certas. Todo mundo tem as suas.)

Ah, e:
down pinball Gata escaldada etc

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29 JAN às 02h53

Bom dia, boa tarde, boa noite.

Esses dias apareceu um tal texto dum tal site de uns tais machões. Era de uma suposta menina. Eu e umas moças desconfiamos, botei a fotinho da `autora` no google images e apareceu o perfil de uma mina lá bem longe, que provavelmente não gostaria nada de ter sua foto usada numa coluna que, desconfio, seja escrita por um grupo de machinhos, como era a revista Claudia antes de ter colunistas mulheres para aconselhar suas perdidas leitoras. Porque né, o referido portal onde texto da `autora` está é praticamente uma revista Claudia para meninos equivocados.
Porém, da primeira vez que li o texto, acreditei ser de uma mulher, mesmo. Uma mulher muito esquisita e totalmente equivocada. Mas de uma mulher. Não tenho total certeza de que seja de um homem. Há muitos indícios disso. Mas, no final das contas, é desimportante se o autor foi uma mina ou um bando de caras `espertos`. O problema é o texto e a mentalidade tampinha que ele reflete.

Vamos responder, então, à `autora`.

eu tenho uma amiga cujo tesão é transar com negros. ela é adepta fervorosa da máxima “once you go black, you never go back”. não vale mulato, pardo, nada – tem que ser negão. é seu fetiche. ela sai às quintas-feiras para um pagode no capão redondo e lá se acaba. não a julgo pela sua tara.

Por que julgaria? É como julgar um cara que tem tesão em loira. Em ruiva. Não chamaria de fetiche; chamaria de gosto.
Prossigamos.

Mas recentemente ela criticou uma menina da faculdade porque “Fulana namora Beltrano só porque o pai dele tem dinheiro”. Como se se envolver com um herdeiro de sobrenome tradicional fosse um pecado.

Olha só. O motivo pelo qual se deve namorar o Beltrano, o Fulano e até mesmo o Ciclano é amor. Amorzinho, amorzão, enfim, amor. Coisas em comum. Esse é o meu jeito selvagem e maluco de ver o mundo. O dinheiro, olha, é tão desimportante quanto, sei lá, ele gostar de castanhas.

Caralho, quer coisa mais afrodisíaca que uma conta bancária polpuda? Que cabeças de gado em Mato Grosso? Que um carinha com um carrão bacana, um cangote cheirosinho e que te pague o jantar?

Quero. Isso pra mim chega a ser um pouco broxante. Não vejo problema no broto pagar a conta vez que outra, mas não faço a menor questão. Eu trabalho, sabe? E mais: quando EU chamo o cara pra sair, gosto de pagar a conta. Me intimidam os caras com muita grana, talvez eu tenha o problema contrário ao seu. Não gosto que me banquem, tenho a impressão de que o sujeito que quer pagar tudo quer me controlar. Thanks but no, thanks.

"Fodam-se os pobres; fodam-me os ricos"

o.O

Faz uns três anos que decidi só fazer sexo com caras ricos. Nada de contar caraminguás para pagar motel chinfrim. Nada de ouvir que “não vamos sair hoje porque ainda não caiu o salário”. Não. Hoje, quando mais grana no banco, mais molhada eu fico.

E emprego, você já pensou em ter? Outra dúvida: como você faz a triagem? Vou contar meu jeito maluco e selvagem de ~escolher os caras~: primeiro eu gosto do jeito que ele pensa. Depois eu vejo se pegava (ia dizer "se acho gatinho", mas não é bem esse o critério). Depois eu vejo se há alguma química. Depois eu convido pra sair. Depois, sei lá, depois a gente vê.

Eu nasci de bons genes. Tenho um corpo do qual me orgulho, um cabelo sempre hidratado, não tenho odores e meus dentes estão sempre brancos. E a vida me ensinou a foder bem. Por que não usar isso, essa minha sorte de ter bons genes e essa experiência sexual, da forma que eu achar melhor? Resolvi juntar isso tudo ao meu gosto por coisas caras.

De novo: e trabalho, não?

(Essa é a parte onde a gente começa a desconfiar que é um cara escrevendo. ...`Dentes sempre brancos`? `Não tenho odores`? Hum)

É uma puta hipocrisia criticar quem escolhe pessoas ricas para se relacionar. Já ouvi muito as pessoas apontarem o dedo para as atrizes globais que namoram empresários, para as Neymarzetes, para as loiras de farmácia que ficam no pé dos pagodeiros e sertanejos. Eu adoraria perguntar para as recalcadas que criticam esse comportamento:

`As recalcadas`, risos.

“Você namoraria alguém que ganhasse um salário mínimo se tivesse a oportunidade de namorar alguém que nem faz ideia de quanta grana tem?”

Eu namoraria alguém SÓ se essa pessoa conseguisse conversar comigo sobre coisas interessantes. E entendesse piadas. E se eu tivesse tesão nele. NELE. Não no dinheiro dele.

Ou então:

“Você prefere que seu marido te busque no trabalho com uma Mercedes ou com um Fusca?”

Me busque no trabalho? Por que meu marido teria que me buscar no trabalho? Aliás, seguindo essa lógica: que trabalho?

Ou ainda:

“Você não trocaria o picadinho da birosc onde você janta pelo Fasano?”

Ai, amiga. Sabe, o picadinho e o (superestimado e supercaro) Fasano não são as únicas opções na vida de uma garota. Aliás, Fasano? Sua cafona icon wink `Papo de Mina`

Você prefere rasgar uma camiseta da marca "25 de Março" ou da marca Tommy Hilfiger?

Se for pra rasgar alguma coisa, prefiro rasgar coisa barata, porque dinheiro, meu ou dos outros, não dá em árvore.

Você já pensou em, sei lá, só uma idéia maluca, comprar as coisas com o seu dinheiro? Já que a genética é tão boa, deve servir para os negócios também, não? Não, pelo jeito.

De qualquer forma, ~rasgar dinheiro~, no meu tempo, era coisa de gente doida.

Talvez você pense que eu me sinto melhor que você, que sou metida. Eu não me sinto superior por gostar de caras ricos, mas sim porque não sou hipócrita. Porque tenho pés no chão para saber que, se eu me apaixonar por um cara pobre e a gente desenvolver um relacionamento, a vida será mais difícil. Será como antes.

Eu também não sou hipócrita. Estou longe disso. Mas é muito difícil entender esse raciocínio seu. Você é uma garota bem resolvida, ao que parece. Livre, né? E gosta de ser livre. Escreveu esse texto nesse tom faço-o-que-eu-quero e tal. Acredito que faça mesmo. Faço votos. Mas desculpe, `não sou puta` não combina com o discurso.
É ilusão achar que controla o cara com a buceta. Não é assim que se faz. Aliás, controlar as pessoas não é nada legal. Nem controlar, nem se deixar controlar. Mas, de novo, é só minha visão selvagem e maluca do mundo.

A vida já foi mais difícil
Eu tive dois namoros sérios até hoje. Os dois com homens pobres.

Hum.

Um foi no fim do colegial, com o cara que tirou minha virgindade. Ficamos juntos três anos, do segundo colegial ao primeiro ano de faculdade. Ele não trabalhava e sempre era um sufoco sair para um cinema ou uma festa. Passei muito fim de semana no sofá da casa da mãe dele vendo filmes da TV aberta. Isso é um inferno!

O problema não era ele `ser pobre`. O problema era ele não trabalhar. E olha, desculpe, eu não sei o que você gosta de fazer, mas existem MILHARES de coisas além da TV aberta nessa vida. Sem dinheiro, mesmo.

O segundo namoro sério surgiu na faculdade. Eu estava no terceiro ano de Fisioterapia e ele, no quarto. Ele trabalhava, mas na clínica do pai. Imaginem que, para a família dele, ele estava cuidando do lugar que seria seu no futuro, o que significa que não ganhava nada além do mínimo. Ele era meio escravo do pai e eu, junto dele, era arrastada à senzala: sempre sem grana para sair, para um presente mais surpreendente…

De novo: o problema era o cara, não a falta de grana dele. Se deixava controlar pelo pai etc etc. Mas enfim, todo mundo tem problemas, né?

Nos dois casos eu pensava:

“O que vale é a beleza interior. É a riqueza de espírito.”

Realmente, os dois sempre foram muito bons para mim. Não posso reclamar deles como pessoas, como homens. Mas rola uma pequena mágoa cada vez que você deseja fazer algo diferente, sair da rotina e o cara não é parceiro.

Certo. Você esperava que eles bancassem a parceria, então.

Não quero passar por isso de novo.

Não passe.

Além disso, hoje em dia, eu considero a “riqueza de espírito” também, mas tento enxergá-lo nos homens ricos. Não é porque um cara tem muita grana que ele é um escroto.

Não, mas é por causa de declarações como esse que 99,8 dos homens muito ricos acham que podem comprar quem eles quiserem. E isso não se resume só a mulheres.

“Não sou puta”

Hum.

Não que todo homem deve me pagar algo. Não sou puta. Muito pelo contrário, muitos homens não me pagam jantares ou dão presentes. Mas apenas o fato de eu estar numa cama com um lençol de trocentos mil fios, num ofurô que eu sei não conter bichos na água ou mordendo uma bundinha que eu sei que foi cuidada a talco importado, já fico feliz.

Certo. É que puta trabalha, né.

Quem precisa de mojo quando tem em mãos uma moedinha da sorte?
Por isso gosto tanto de judeus. Eles fodem relativamente bem (não com muita força a ponto de me machucar, não com muita paixão a ponto de eu pegar nojo). E são circuncidados, o que deixa o pau com uma aparência bonita. É um pau aristocrático, quase. Mas não faço questão de dar apenas para judeus. Em sexo, sou ecumênica.

Ô, meninos. Deviam ter dado pra alguma amiga ler. Agora ficou até chato. `Não com muita paixão a ponto de eu pegar nojo`
Risíssimos

Anote aí: se o Tio Patinhas fosse um homem de carne, osso e pau, eu daria pra ele. Se o Riquinho esbarrasse em mim na academia, eu daria pra… Bem, seria pedofilia, mas eu daria pra ele. E daria a noite toda.

Que fique claro, `gata`, meu problema não é pessoal com você. Meu problema é esse tipo de pensamento que faz com que qualquer homem almeje ter grana pra comprar as gatas. Meu problema é com os caras endinheirados achando que podem controlar a vida da mina que está com eles com grana. Com os caras acharem que todas as mulheres são assim porque uma, ou umas, agem dessa forma escrota. E olha, com esse discurso, se isso tudo fosse mesmo verdade, a mina não ia conseguir dar nem pro dono da Rede Galinha Morta.
Nem com os bons genes.
Nem com uns bonks drinks.

Menos, né?

Um forte abraço,
c.

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25 JAN às 13h55

Um dia eu acordei, olhei para a cara da minha vida e decidi morar em São Paulo. Foi uma decisão fácil, uma vez que eu estava de saco cheio da minha cidade, fato que perdura até hoje, mesmo que há três anos minha casa não seja lá. Então um dia eu acordei, me empacotei e me mandei. Troquei muitos livros, muitos discos, uma cama queen size, uma vitrola, tv a cabo, lava-louças, cablemodem, o jogo de taças de cristal que minha avó ganhou de casamento, um baixo de pau, máquina de lavar roupa, máquina de secar roupa, forno de microondas, bonequinhos dos Beatles, dois gatos, um namorado e minha infância por um quarto de empregada onde eu e minhas pernas de um metro não cabíamos nem na diagonal. Nunca me arrependi, mesmo com a tristeza e a solidão, mesmo com o gosto amargo da poluição na boca e da caca preta no nariz, mesmo com a sensação de que São Paulo era uma puta que tinha me seduzido, ou melhor, que eu era uma puta em busca de dinheiro e vida e acabou quebrando a cara. Porque São Paulo é sedutora, feia, suja e poluída; porque as luzes da Paulista piscavam para a minha alma como as putas da Augusta, porque as putas da Augusta, as putas da Augusta me davam um frio na barriga, "será que eu vou ser uma delas?" eu pensava com o glamour burro da caipira recém-chegada na cidade grande, bebendo, sempre bebendo, sempre às custas dos outros porque eu mal tinha os cento e cinqüenta paus necessários para pagar meu quarto de empregada - com direito a usar a cozinha e o banheiro -; porque foi um momento de euforia estranha onde tudo era novo e excitante e meio deprimente porque eu não tinha ninguém com quem dividir nada, fora Joo, o Gato, que era meu único e melhor amigo. Porque eu procurava por amor em qualquer esquina, em qualquer boca, e tudo era vazio e cinzento como aquele inverno que gelava os meus ossos quando eu tentava me reinventar e bebia, e chorava, e escrevia e escrevia como se fosse morrer no dia seguinte. Desses dias bizarros de ciclotimia saiu meu primeiro livro, meu primeiro filho, de quem eu sou a mãe e São Paulo é o pai. Depois vieram outros, mas o primogênito sempre será o primogênito.

Então eu dei meu coração e me cuspiram de volta, porque eu ainda dava o coração e acreditava naquela época, e sofri mais e mais e escrevi mais e mais e fui despejada, todo mundo buuu buuu volta pra casa gaúcha metida e eu mandando todo mundo tomar no cu e ficando, mesmo que a cidade tivesse se tornado hostil, ninguém me come e me chuta da cama, ninguém me expulsa, ninguém me doma, São Paulo, eu vou embora quando eu quiser, não quando você mandar.

Dizem que o povo faz a cidade mas São Paulo não tem povo, tem um amontoado de gente tentando se virar e sobreviver, inclusive eu, e a cidade tem sua vida própria, sua eletricidade ao mesmo tempo lasciva e repulsiva arrasando tudo como um tapete de concreto sem respeitar nada, nem árvores nem grama nem casinhas nem nada, simplesmente mandando a patrola atropelar o que estiver no caminho. Com São Paulo não tem papo.

Mas um dia, numa noite fria de julho, São Paulo me abraçou, eu gritei e gritei de dor e minha filha nasceu na minha cama, na minha casa, em plena Santa Cecília, e naquele momento eu e a cidade fomos uma, eu parindo e ela acolhendo a minha cria. Minha princesinha é paulistana, quem diria, e paulistano também é seu pai, meu amor, meu chão e minha raiz nesta cidade. Agora eu estou para sempre aqui e ela pra sempre no meu coração. E eu morando no coração dela, na Praça Roosevelt, no centro, no olho do furacão.Tudo de ruim e de bom que ela me deu, tudo que passei aqui vai ficar comigo pra onde eu for, não importa quanto tempo fique fora, pode ser que eu parta e nunca mais volte, mas por que eu precisaria voltar se ela vai estar comigo?

(Publicado em 2004, no brazileira!preta, meu primeiro blog)

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25 JAN às 13h50

DiEHV Nem Spectroman poderá intervir

Planeta: Terra. Cidade, São Paulo. Como todas as metrópoles, São Paulo encontra-se hoje em um estado alarmante de trânsito insuportável. O trânsito devia inclusive ser rebatizado, porque uma das coisas que ele não permite é transitar. Tudo parado. As brancas de um lado e as vermelhas do outro, como sangue parado nas veias entupidas na cidade que abriga mais gente do que nela cabe. Gente demais. Em todos os lugares. No metrô, na selvageria das manhãs e tardinhas onde pessoas se apertam como frangos em uma granja superpovoada. Não cabe mais ninguém, meu senhor, não se mude para São Paulo, por favor. Eu mesma não sou daqui. Sou lá dos pampas, onde cabe gente. Agora sou daqui. Não; não sou de lugar algum.

Gostava de andar por aí à noite, quando todos dormem e outras vidas respiram. Cansei. Queria os dias, mas os dias aqui me sufocam. Gostava de andar na Paulista, agora a evito porque sempre há gente demais. Nas ruas há gente demais, atravessando na faixa, dentro dos carros, nos ônibus há gente demais e alguns rendem-se ao cansaço lá mesmo, deixando a marca sebosa no vidro sujo da janela. Nos parques, nos fins-de-semana, gente demais tentando relaxar, passar um tempo com as crianças e os cachorros histéricos de apartamento. Nas estradas para a praia há gente demais tentando fugir do trânsito, as estradas também se entopem e é o mesmo sufoco de sempre. Ao meu lado há a Praça Roosevelt, primor do mau-gosto, concreto sujo com goteiras e pombos. Costumava haver um supermercado, mas fechou e os mendigos tomaram conta. Agora homens com marretas destroem parte dela diariamente, a partir das sete. E não há quem durma.

Não, eu não vou embora. Ninguém vai. Nem os bóias-frias e nem os publicitários, nem as domésticas e nem os atores de segunda ou as modelos de quinta. Todo mundo aqui. Alguns penando com saudade de casa. Outros sem casa, sem raiz, sem nada. Querendo vencer na vida. Meu amigo, vou te contar: descobri que não é aqui que se vence na vida. Não descobri como faz, acho que nem quero. Negózdi vencer dá muito trabalho. E os vencedores são sempre muito entediantes.

Tudo acontecendo aqui. Vamos no show à noite? Vamos na exposição? Vamos tomar umas? Vamos ali? Olha, desculpe, não ando indo a lugar algum. Ando pelos corredores da casa não querendo sair, não querendo ver mundo algum lá fora. Protelo correio, protelo entregas de cessão de direitos autorais, protelo supermercado, não quero ver fila. Pago as contas na internet, apertando os olhos míopes e tentando não errar o código de barras. A grande procrastinadora da cidade cheia. Não; não vou embora. Quando vôo para algum outro lugar vejo a maçaroca de prédios e a capa de ar cinza e já sinto uma saudade antecipada. Não sei explicar do quê. Não sou daqui. Sou da minha casa. Com a minha música. Meus gatos. Meu namorado tocando violão bem alto. Serviços de delivery. Saudade de lugar algum.

(Texto `publicado` em um elevador do Sesc em 2008. A ilustração é da Eva Uviedo)

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18 JAN às 04h31

eu tinha uma amiga. bom, ela nunca foi uma daquelas amigas que a gente sente que entende tudo, essas são tão raras que ninguém nem espera encontrar mais de uma ou duas ao longo da vida. eu tenho bem umas três, então já posso me considerar uma grande sortuda e me contentar com essas companhias que podem até se tornar constantes, um tanto intensas, divertidas e tal, mas a gente sabe lá no fundo que não passam disso.

mesmo assim, eu tendo a ser uma amiga fiel. essa tal amiga, certa feita, se engraçou com um rapaz e ele fez alguma coisa que a magoou. fiquei do lado dela. nem foi nada demais, acho que ele só não quis mais saber mesmo, depois de comer. acontece, não acontece? acontece comigo, acontece com você, com ele, com todo mundo: às vezes a gente desiste da pessoa no meio do processo. mas ela é muito analisada e criou mil teorias com a analista a respeito do assunto, e eu meio que caí naquela, destratei o cara e ainda xinguei bem alto de babaca na calçada de um bar.

essa sou eu. eu tomo partido.

e eu não quero perto de mim ninguém que não seja assim. amigo, minha gente, tem que tomar partido. não precisa ser em TUDO. mas quando acontece alguma coisa séria, o seu amigo tem que ficar do seu lado. senão não serve nem pra ser companhia esporádica.

nem pra passar o tempo.
nem pra falar de amenidades.
nem pra rachar um táxi.

eis que, durante os acontecimentos pesadelísticos desta época do ano passado em minha vida exposta em rede nacional e espremida de mim contra a minha vontade, percebi essa `amiga` totalmente omissa. ela, que era tão feminista, ela, que sempre teve todo um discurso riot grrl, ela, que, meu deus, não tinha outro lado pra estar naquela história senão o meu.

não nos falávamos há alguns anos, mas isso pra mim não importa; era MINHA amiga. não falo esse MINHA de maneira possessiva, não sou dessas, mas ela era minha amiga, do meu meio, amiga dos meus amigos, com uma visão de mundo até que parecida com a minha.

e essa minha amiga não me respondeu quando perguntei a ela o que ela estava fazendo andando com gente que tinha agido de uma forma tão escrota comigo. eu não estava cobrando amizade, só estava perguntando, mesmo. se ela dissesse "olha, achei que você estava errada, achei babaquice sua, ouvi o lado do cara e acho que ele está correto" eu ia achar que ela estava maluca, mas pelo menos ia entender.

mas não. ela nem me respondeu.

e nunca mais nos falamos. vi que ela entrou no grupo de amigos de uma galera evidentemente equivocada, falsa, errada, sem ética. sei também que ela continua em contato com os nossos amigos em comum, com quem também não falo há tempos. certo. é o seguinte: unfolei no twitter, apaguei do facebook e declarei acabada a nossa amizade depois que hoje, clicando em aquis e alis aleatórios, me deparei com uma foto dela sentada ao lado, toda amiguinha, de uma das pessoas que mais me fez mal nesta vida. e ela SABE. e não foi mal que estava na minha cabeça, que eu debati no bar e concluí. foi mal real mesmo, mal incontestável em um nível de mau caratismo tão grande, mas tão grande, que eu não consigo aceitar alguém que está oquei com isso.

não tenho raiva, não tenho rancor, não vou ficar remoendo. já estávamos mesmo distantes e tudo bem.
quase tudo bem.
é chato, né? perceber como algumas pessoas que já foram tão próximas resolvem fazer vista grossa para um comportamento que elas passaram A VIDA condenando.

e o que aprendemos?

nada.

bej.

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16 JAN às 03h23

Minha vida mudou completamente no último ano.

A minha vida.

Não eu. Não acho que as pessoas mudem de verdade. Elas apenas aprendem a se conter. Acho que 'domar' é o termo correto.
E sim, é necessário que isso aconteça em algumas áreas da vida. Algumas. Mas esse não é o assunto.

Comecei a trabalhar diariamente tendo que estar em um lugar, e fazia bem uns dez anos que isso não acontecia. Esses anos todos eu trabalhei em casa, escrevendo para revistas, sites, fazendo traduções, enfim, escrevendo para um monte de lugares.

Minha vida era toda minha. Eu tinha prazos, claro. Prazos e os horários da escola da minha filha. Era isso. Essa era a minha rotina.

Eu sempre tive uma flutuação de peso enorme. Já fui muito magra, muito gorda, muito gostosa, muito grávida, muito magra de novo, gostosinha, gordinha, esqualidamente magra e agora, bem, agora eu estou me sentindo enorme. Não dá. Não dá essa barriga, não dá essa bunda (...), não dá sascoxa cheia de celulite.

"Vai pra academia!"
Eu vou. Não com a freqüência que eu deveria, certamente.
"Você tá linda assim!"
Nunca me viu nua.
"Desiste, piranha!"
Não.
"Faz dieta!"
Ok. Vou fazer. Amanhã.

Não é assim tão fácil. Eu tenho 32 anos. Já tive, na vida, de 50 a 75 quilos. Era fácil emagrecer. Parava de comer, fazia um pouco de exercício, andava na rua (era o que eu mais fazia quando mandava nos meus horários), em um mês já estava (quase) tudo como eu queria. Mas não é mais assim. Desde o começo de 2011 que eu implico com meu corpo. Vendo agora, puxa, estava ótimo! Agora é que está cagado. Desde o começo de 2011 que eu implico, e só piorei desde então. É, gente. Depois dos 30 a coisa começa a pesar. A coisa sendo eu, no caso.

A única vez na minha vida que tive disciplina pra alguma coisa foi quando tinha 22 anos e 73 quilos. Aquilo não dava. Comecei a freqüentar uma academia ali perto de casa (Purpurina x Harmonia) todos os dias, durante três meses. Os relatos estão aqui no brazileira!preta (de baixo para cima, por favor). Ah, quando eu podia apenas escrever e malhar e escrever sobre malhar. Não, os tempos não eram tão fáceis assim, aliás, não tinha nada de fácil naquela vida. Os tempos eram apenas outros.

De qualquer maneira, ME ENCHI. Este corpo não é meu. E eu vou fazer ser meu de novo.

Vocês me aguardem - amanhã vou contar de uns planos aqui. Contar, mostrar, tudo.

Em 2011, voltei à minha cabeça.
Em 2012, vou voltar ao meu corpo.

rmEAl Projeto GATA 2012

peraí

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06 JAN às 19h49

"toda a minha obra teatral foi escrita no fim do dia, quando eu já estava absolutamente estourado. (...) o que me falta é uma racha nas minhas obrigações e ao mesmo tempo um mínimo de resistência física para trabalhar além do que ja faço. quando acabo minhas obrigações cotidianas, já não dou mais nada."

"eu procuro dizer o que sinto e o que penso; isso é muito duro, um sujeito ter um mínimo de autenticidade. é preciso todo um esforço, toda uma disciplina, toda uma paciência beneditina porque somos todos uns falsários."

bem foda.

"mas esse cara era machista!"
era.
mas era um senhor escritor.

não dá pra misturar a obra com a vida pessoal. não assim.
o autor é o autor, o artista é o artista e a arte, bem, ela é a Arte.

enjoy.

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05 JAN às 15h31

... e vocês aí, reclamando do sucesso dos outros.

proposta para 2012: VIVER.

beêj

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18 DEZ às 18h44

You are beautiful like demolition. Just the thought of you draws my knuckles white. I don’t need a god. I have you and your beautiful mouth, your hands holding onto me, the nails leaving unfelt wounds, your hot breath on my neck. The taste of your saliva. The darkness is ours. The nights belong to us. Everything we do is secret. Nothing we do will ever be understood; we will be feared and kept well away from. It will be the stuff of legend, endless discussion and limitless inspiration for the brave of heart. It’s you and me in this room, on this floor. Beyond life, beyond morality. We are gleaming animals painted in moonlit sweat glow. Our eyes turn to jewels and everything we do is an example of spontaneous perfection. I have been waiting all my life to be with you. My heart slams against my ribs when I think of the slaughtered nights I spent all over the world waiting to feel your touch. The time I annihilated while I waited like a man doing a life sentence. Now you’re here and everything we touch explodes, bursts into bloom or burns to ash. History atomizes and negates itself with our every shared breath. I need you like life needs life. I want you bad like a natural disaster. You are all I see. You are the only one I want to know.

Henry Rollins, que coisa mais linda. Me tirou o ar.

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12 DEZ às 00h43
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