07 JUL às 15h55

O amor é irracional.

Lembro de uma vez, quando eu era pequena, bem pequena, estava acho que no Jardim de Infância, e resolveram perguntar por que eu gostava do meu pai pra escrever em uma... gravata de papel. Era um trabalho de dia dos pais, daqueles bem caretas. E não fazia o menor sentido pra mim. Nem a pergunta, nem a gravata, que meu pai nunca usou. Nessa época, ele tocava bandolim na Cantina Itália e torturava meus ouvidos e os da minha mãe estudando violino.
Como é que pode alguém perguntar para uma criança por que ela gosta do pai?
Respondi: porque ele faz a minha mamadeira.
Sei lá. Foi o que me ocorreu.
Porra.
Gosto do meu pai porque ele é meu pai, gente!
Até hoje eu não sei responder essa pergunta. Sei de muitas coisas que gosto nele, mas o porquê concreto eu não tenho assim na ponta da língua.
Gosto porque gosto.
Lembro de responder alguma coisa do gênero e emputecer um namorado antigo. Acho que falei que gostava do sanduíche dele. Risíssimos. Porra, eu gostava dele. Porque gostava. Porque ele era legal e inteligente e engraçado. Porque a gente se dava bem. Porque sim, cacete.
A gente sempre, ou quase sempre, sabe dizer por que não gosta de alguém. Mas enumerar os porques do amor, olha, isso aí eu já nem tento mais.
Amo porque amo. É isso.
Depois de muito tempo tomando no cu, descobri que é, pois é, o amor é irracional.
Mas eu não posso ser.
Mais de uma vez cometi absurdos e impropérios em nome disso. Mas é amor!, eu pensava. E arrancava os pedaços meus pelo caminho.
Agora não; agora chega disso.
Esse negócio de arrancar pedaços já não me serve, que eu preciso de mim inteira pra sobreviver.
Antes inteira e sozinha do que capengando por aí.

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