Tag: escrever

29 ABR às 10h43

WF6nc Eu fiz os degraus badalarem

Eu estava solitária num apartamento emprestado por um japonês, longe de tudo, sem dinheiro e sem amor. Não sei se acreditava em deus, se algum dia acreditei, só sei que ele não estava lá nessa hora.
Mas o Fante, o Fante estava, e ele virou meu deus.
Riam, podem rir, podem me achar louca e pateta e exagerada, talvez eu seja mesmo, mas ele estava lá comigo e me salvou de morrer de dor e de solidão. Seus livros eram minhas bíblias, sua foto era meu altar. Eu olhava a foto na minha mesa e dizia meu velho, meu velho, que bom que você está aqui comigo, que bom que você não me abandona nunca. Ele estava ao meu lado o tempo todo, no meu ombro o tempo todo enquanto eu escrevia meu terceiro livro, e batia no meu ombro e dizia lindo, lindo, sofre, Clara, sofre porque é o único jeito de fazer as coisas direito, sofrer de mentira não vale, inventar sofrimento também não. Sofre porque sofrer é trabalho duro e quem trabalha duro tem sucesso. Então eu sofria, acordava no meio da noite com meus fantasmas girando no teto do quarto junto com as vozes da insanidade e escrevia, escrevia febrilmente enquanto tomava vinhos de cinco reais do Supermercado Sagres.
Então eu terminei o livro e outro amor veio, o amor me consumiu e o Fante foi embora. Continuei escrevendo mas sem sofrer, só pensando, não era ruim, mas faltava todo aquele sangue, todas aquelas entranhas que eu vomitava no passado todos os dias enquanto o sol nascia dourado nos prédios da Vila Mariana. A Vila Mariana foi embora, o sol foi embora, eu fui embora. Minha barriga cresceu, meu novo amor me fazia feliz. Minha filha nasceu, meu pequeno tesouro rosado com os olhos negros do pai, me amando instantanea e incondicionalmente, minha filha, minha princesa, minha gatinha.
O Fante tinha ido embora, ele tinha me abandonado, não estava mais lendo por cima do meu ombro.
Meu amigo escritor dizendo que era bom, que eu precisava me livrar do encosto, mas não, não era um encosto, ele não entendia. Ninguém entendia.
Então eu vim para Los Angeles procurar minha igreja, a Bunker Hill Avenue, Angel’s Flight e a Spring Street e a Main Street. O Hotel Alta Vista, a Biblioteca Pública e os Degraus de Bunker Hill. Ninguém sabia onde ficava. Todo mundo só queria saber de tirar fotos dos pés dos astros e das estrelinhas no chão, pfff, eu dizia, e fumava meu cigarro, vocês turistas japoneses não sabem nada, tive que me virar até lá no metrô e chegando lá perto ninguém sabia também, ninguém nunca tinha ouvido falar na Bunker Hill Avenue nem no Alta Vista Hotel. Não existia. Um menino mexicano veio em me levou até Angel’s Flight, e ele trabalhava numa lanchonete e pegou cerveja de graça em copos grandes e nós procuramos e procuramos a Bunker Hill Street, mas ela não estava mais lá. Setenta anos se passaram, a rua deve ter mudado de nome, o hotel deve ter sido reformado, não achei minha igreja.
Mas subi os degraus de Bunker Hill, John Fante, meu deus, um dia você escreveu que aqueles degraus badalariam com a sua memória, e que John Fante e Arturo Bandini, dois em um, amigo dos homens e dos bichos, seria lembrado lá de cima dos 103 degraus de Bunker Hill, e eu fiz isso, sim eu fiz, eu subi aqueles degraus e olhei para baixo e lá estava a biblioteca, e lá estava você, você tinha voltado para mim, eu senti de novo sua presença do meu lado e voltei pra casa e tomei uns remédios para não dormir porque queria escrever, mas não adiantou nada porque eu estava muito cansada, então eu desmaiei de roupa mesmo na cama de molas do meu hotel em Hollywood na Orchid Street, perto dos turistas japoneses que só querem saber de tirar fotos dos pés dos astros.
Acordei agora, cinco da manhã, com você puxando meu pé. Eu fui na sua parte da cidade, John Fante, eu vi tudo, mas era tudo diferente. Os negros gostavam de mim e falavam coisas, mas eu não estava nem aí, eu queria achar o Alta Vista Hotel onde a Camilla jogava pedrinhas na sua janela. Eu vou encontrar. Foi só meu primeiro dia, eu ainda vou voltar para o seu lado da cidade no meio dos traficantes e dos vendedores de coisas na rua, eu vou lá te encontrar, porque eu vim para isso. O dia está claro. Vou lá te visitar de novo, meu velho. Nunca mais me abandone.
(Los Angeles, 2004)

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11 FEV às 01h30

sTp2O Gata escaldada etc

E já começou de novo a palhaçada de me perguntarem se eu vou para a Fazenda, aquele reality show da Record.
NEM ACABOU O BBB AINDA, SABE. FOCO, VOCÊS.
(Vocês que gostam dessas coisas, no caso.)

E não, eu não vou para a Fazenda.

"Mas todos os participantes disseram isso!"
"Mas a Valesca (!) disse isso!"

Olha só: eu não vou para a Fazenda porque o tipo de exposição que ela proporciona não me interessa. Eu não quero ser famosa. Não assim, não essa fama.

"Mas você fez um reality show!"

Fiz. Fiz porque eu precisava de dinheiro e não tinha idéia da merda que ia dar. Fiz porque achava que ninguém assistia essas coisas - pelo menos ESSE programa. E eu só conhecia o gringo, o "Wife Swap". Quer dizer. Naquela época eu tinha bem menos noção da TV aberta do que agora - vocês podem imaginar com era, já que hoje, depois de um ano trabalhando no R7 e andando pelos corredores da Record diariamente, eu ainda sei pouco sobre o funcionamento da coisa toda. Fiz porque achei que podia escapar ilesa, coitada. Eu devia ter me tocado que eu já sou mal compreendida mesmo sem uma edição me sacaneando e me fazendo parecer (apenas) doidona, né? Devia ter me tocado que a outra vez que eu tive uma grande exposição foi quando fizeram o filme do meu livro, aquele que não tem absolutamente nada a ver com nenhum dos livros e que é creditado a mim. E que não consigo me livrar disso até hoje. Ou me conhecem pelo programa (tem pelo menos uma pessoa por dia que me olha com cara de nnnnnnossssssa a mulher da tv - sim, ainda), ou me conhecem por causa da época do filme.

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Pelo que eu faço ninguém me conhece.
Oquei, ninguém é exagero. Mas são tão poucos.

Eu sou es-cri-to-ra. E escrevo livros. E textos diversos, que também podem virar livros. A parte de que ninguém consegue encontrar os meus livros porque as editoras não gostam de dinheiro e não fazem outras tiragens será resolvida em breve, já que eu estou abrindo minha própria editora de e-books, a... Averbooks.
O nome foi cunhado por meu jovem amigo @vyktorb, o Vyktor Berriel. Por enquanto, relançaremos apenas os meus livros, porque plmdds, eu quero ser LIDA.
É claro que isso não me impede de fazer outras coisas, de ter um programa, de ter uma banda, de fazer o que eu bem entender.
Mas é essa a minha legenda: escritora.

É essa a `fama` que eu quero. Era aqui que eu queria chegar.

Eu não quero ser `famosa`. Quero ser reconhecida. É TÃO diferente. Não quero ser reconhecida no metrô pela tiazinha da sacola. Eu tenho aquele delírio Bandínico de ser uma escritora. Oquei, eu já sou, né? Mas uma escritora LIDA. Adoro quando alguém chega em mim pra falar isso. É tão legal, eu fico tão feliz. De verdade. Me sinto um pouco menos CANTANDO PRA SURDO, que é a analogia perfeita para fazer literatura no Brasil.

De novo: eu quero ser lida.

Pra isso, acho que vou ter que mudar de país, né? O Vida de Gato, quando foi lançado na Inglaterra, vendeu mais exemplares no lançamento do que no Brasil.

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Dá pra acreditar?
Dá.

O Brasil é um país de televisão. Ela é a diretriz de tudo. É a tv que manda na moda, nos comportamentos questionados/aceitos, na música, nos esmaltes, nas gírias, nas pautas. A televisão (ainda) pauta o país. A internet também, claro. Mas a televisão pauta a internet. É só ler o twitter no horário da novela, do BBB, em dia de jogo, dia de Faustão... Enfim.

Pouquíssima gente lê aqui.

Engraçado, né: as listas dizem `mais vendidos` e é isso mesmo que eles são. `Mais lidos` é outra história.

Sempre se preocuparam mais com minhas tatuagens e minhas atitudes `polêmicas` do que com eu FAÇO. Com o que eu pareço e não com o que eu SOU. Que merda! É por isso que tem tanta subcelebridade nesse país. É essa a cultura de subcelebridade: imagem e . Aparecer e . Conteúdo? Quem liga? Importa mais a saia curta ou a merda que a pessoa disse do que alguma coisa legal que ela tenha feito. Ou: ela ter feito alguma coisa, enfim.

E não é um programa de TV que vai `aumentar as vendas dos livros`, como algumas pessoas com retardo acharam que aconteceria após exposição massiva em horário nobre. Aquelas mesmas pessoas que acham que eu inventei tudo pra `aparecer`.

Oh, please.

Então, por favor, anotem aí:
Eu não vou pra porra de Fazenda nenhuma. Sim, me sondaram a respeito. Mas seguindo ensinamento sábio que aquela rapariga linda nos deixou: no, no, no.

Um forte abraço
c.

(Assistam menos TV - não precisam TROCAR a televisão por nada. O dia tem 24 horas, quinze minutinhos de leitura diária, um filmezinho por semana, sabe? Dá. É só querer. Prometo que vai ser bom. É só achar as coisas certas. Todo mundo tem as suas.)

Ah, e:
down pinball Gata escaldada etc

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06 JAN às 19h49

"toda a minha obra teatral foi escrita no fim do dia, quando eu já estava absolutamente estourado. (...) o que me falta é uma racha nas minhas obrigações e ao mesmo tempo um mínimo de resistência física para trabalhar além do que ja faço. quando acabo minhas obrigações cotidianas, já não dou mais nada."

"eu procuro dizer o que sinto e o que penso; isso é muito duro, um sujeito ter um mínimo de autenticidade. é preciso todo um esforço, toda uma disciplina, toda uma paciência beneditina porque somos todos uns falsários."

bem foda.

"mas esse cara era machista!"
era.
mas era um senhor escritor.

não dá pra misturar a obra com a vida pessoal. não assim.
o autor é o autor, o artista é o artista e a arte, bem, ela é a Arte.

enjoy.

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