
Vinhos são como mulheres, não se comparam. Cada um tem sua mágica, sua beleza, sua personalidade. Abre-se uma grande garrafa, apaixona-se, amor eterno... mas acaba
Um dia, uma noite, outra garrafa surge. Como acontece com as mulheres, às vezes é o corpo que nos conquista. Também pode ser o nariz, a boca. Vejam quanta metáfora. Mas quem disse que só nos interessamos pelos aspectos físicos dos vinhos. Podemos nos apaixonar pela suavidade, pela elegância, pela complexidade. Taí mais uma semelhança: os melhores vinhos também são complexos, difíceis de descrever. Pode começar com uma amizade, que aos poucos vai nos seduzindo e quando acaba a taça…uau… percebemos que isso sim é copo vazio. Os machistas vão dizer que vinhos, quanto mais velhos, melhores.
Duas advertências. A maioria dos vinhos disponíveis hoje são feitos para ser consumidos jovens. Mas o principal: a grande semelhança é que os grandes vinhos ainda evoluem sim com maturidade. Exatamente como as grandes mulheres. Aquelas com as quais queremos passar a vida. Tudo isso é só para chegar a uma conclusão: cuidado com os críticos de vinhos. Gostar ou não de uma garrafa é uma questão absolutamente pessoal, subjetiva. É amor, que não se explica. Ou se explica, mas não se compreende.
Já pensou se você escolhesse suas namoradas baseado nas críticas de mulheres: Sabrina é ótima. Cor morena clara, tem um belo nariz. Notam-se aromas pronunciados de perfume J’adore. Possui ótimo corpo e na boca, corresponde. Sem muita complexidade. Excelente retrogosto (leia-se day after). Deve melhorar em dois ou três anos. Nota 88 em 100. Bom custo/benefício.
Ok, admito que é cruel, mas entre amigos a gente até faz isso. Mas também garanto que há os que amariam a Sabrina, e os que a odiariam. Há os que dariam nota 100 e os que dariam zero. E ninguém pode dizer que uns estão mais certos do que outros. Por isso, falando de vinhos, prefiro experimentar, conhecer cada um.
E lendo sobre vinhos, me interesso pelos textos que incluem tons subjetivos, descrições de experiências pessoais, palpites mais inesperados e até poéticos (cuidado pra não virar Pedro Bial). Histórias de um jantar, das pessoas e dos pratos que estavam no jantar. Ler apenas que um vinho apresenta cor púrpura, notas de alcaçuz, baunilha e pimentão, com boa persistência, não me mobiliza mais. Não tenho prazer em alcaçuz. A técnica é importante, admito. Mas não só ela.
Como nas boas poesias sobre mulheres, me encanto e viajo é com a descrição da emoção que um vinho pode ter despertado, expressões como “um vinho que me lembra as tardes sem natação, nem dentista na infância; o aroma levemente adocicado, como o das balas de cevada Sonksen (isso, claro, pra quem passou dos 40). No primeiro gole, a emoção da primeira Playboy com a Vera Fischer, com a capa toda cor de rosa.” Ok, esta descrição é um exemplo ingênuo, mas sobretudo é claramente pessoal, não um vaticínio.
Gosto também de saber como foi o jantar em que se bebeu aquele vinho, os pratos, as piadas que surgiram. Aí sim, me apaixono ou não por um vinho antes mesmo de tê-lo provado. Exatamente como acontece com as musas, as paixões platônicas. Poucos escrevem assim. Alerta aos ótimos críticos que temos: suas resenhas dos estão tornand0-se técnicas, repetitivas e monótonas.
Os vinhos não merecem isso. Vinhos são arte, são vivos, são –repito – como mulheres. Merecem todo respeito, devoção e poesia. Pelo menos aquele Grand Echezaux 97 que provei com os amigos numa reunião da nossa confraria do Texugo, merece. Falo sobre ele qualquer dia desses.
CHEERS!!
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