Publicado em 12/06/2012 às 11h25

UM OUTRO ENOLHAR: POR DANILO MORAES

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Era muito magro quando criança e isso me ajudou a gostar de vinhos. Por quê? Minha “iniciação”foi o Biotônico Fontoura. Alguém aí já tomou? Um vinhozinho doce disfarçado de desinibidor de apetite, mas que na verdade é um desinibidor de comportamento. Não dava fome nenhuma, mas eu achava uma delícia, ainda mais que tinha que tomar uns 15 minutos antes do almoço. Ou seja, uma bela introdução ao aperitivo.

 

 

Depois, dei sorte. Ali pelos 13, 14 anos almoçávamos quase todo domingo na casa da tia Eunice, que era casada com um português, tio Antero. Era no Paraíso, e nada mais apropriado. O tio nos servia um cálice de Porto, evolução natural do Biotônico Fontoura. Era o Adrianinho, jeito íntimo que ele chamava o tradicionalíssimo Adriano Ramos Pinto. Nesses almoços descobri o presunto cru, os queijos portugueses, o bolinho de bacalhau que nunca mais encontrei igual.

 

 

Sou apaixonado até hoje por vinhos de sobremesa, Porto e Sauternes, diferentes como água e vinho… ops…como vinho e vinho (que cada um é cada um), provavelmente por conta dessa autêntica iniciação. Havia uma irresponsabilidade deliciosa naquele tempo, que o fato de servirem vinho pra mim e pro meu irmão não era nada polêmico. Um cálice, vai…

 

 

Fui descobrir muitos anos depois o prazer dos melhores portos numa taça de verdade. Nossa, se você por acaso ainda bebe Porto em cálice, não sabe o que está perdendo. Mude ontem para uma taça apropriada, com espaço pros aromas espetaculares que aparecem, fruta madura, às vezes canela, caixa de charutos (que aliás era combinação real naqueles almoços da tia Eunice, já que os tios fumavam – e no escritório do tio Antero havia de fato caixas de charuto, algumas com moedas). E muitos outros aromas, conforme o tipo de Porto, que são tantos e agora confesso que estou com preguiça de falar deles.

 

 

O Porto naquele tempo não era servido com sobremesa, pelo menos por essas bandas. Era aperitivo mesmo. Depois vinha o almoço. Tia Eunice cozinhava feito não sei o quê. Cozinha portuguesa e francesa. Sentavam os irmãos do meu tio, todos portugueses, e bebiam tintos do Dão (o que se importava na época era Dão, Corvo e alguns franceses. E os vinhos verdes, como Calamares) ou franceses chateauneuf du pape - e eu ficava ouvindo aquela polêmica boba… Portugueses ou Franceses? Sim, porque o irmão mais velho do tio Antero, o João, era casado com uma francesa e garantia que os franceses eram bem melhores. O bicho invariavelmente pegava e o almoço descambava pra pancadarias e traumas de família, enquanto o vinho desamornizava bem com tudo.

 

 

Lembrança deliciosa, que me dá vontade de abrir agora uma garrafa de um bom Porto Tawny 20 anos, (minha categoria favorita, acho). Oba, tem um Taylor’s aqui. Já que infelizmente não é mais possível almoçar na tia Eunice, vou rever as fotos que tirei no Douro, um dos lugares mais lindos em que já estive, tirando a infância. Prometo que falo mais de Porto dia desses.

 

 

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Publicado em 28/05/2012 às 16h40

UM OUTRO ENO-OLHAR: POR DANILO MORAES – CRÍTICA DOS CRÍTICOS.

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Vinhos são como mulheres, não se comparam. Cada um tem sua mágica, sua beleza, sua personalidade. Abre-se uma grande garrafa, apaixona-se, amor eterno... mas acaba icon sad UM OUTRO ENO OLHAR: POR DANILO MORAES   CRÍTICA DOS CRÍTICOS.




Um dia, uma noite, outra garrafa surge. Como acontece com as mulheres, às vezes é o corpo que nos conquista. Também pode ser o nariz, a boca. Vejam quanta metáfora. Mas quem disse que só nos interessamos pelos aspectos físicos dos vinhos. Podemos nos apaixonar pela suavidade, pela elegância, pela complexidade. Taí mais uma semelhança: os melhores vinhos também são complexos, difíceis de descrever. Pode começar com uma amizade, que aos poucos vai nos seduzindo e quando acaba a taça…uau… percebemos que isso sim é copo vazio. Os machistas vão dizer que vinhos, quanto mais velhos, melhores.




Duas advertências. A maioria dos vinhos disponíveis hoje são feitos para ser consumidos jovens. Mas o principal: a grande semelhança é que os grandes vinhos ainda evoluem sim com maturidade. Exatamente como as grandes mulheres. Aquelas com as quais queremos passar a vida. Tudo isso é só para chegar a uma conclusão: cuidado com os críticos de vinhos. Gostar ou não de uma garrafa é uma questão absolutamente pessoal, subjetiva. É amor, que não se explica. Ou se explica, mas não se compreende.




Já pensou se você escolhesse suas namoradas baseado nas críticas de mulheres: Sabrina é ótima. Cor morena clara, tem um belo nariz. Notam-se aromas pronunciados de perfume J’adore. Possui ótimo corpo e na boca, corresponde. Sem muita complexidade. Excelente retrogosto (leia-se day after). Deve melhorar em dois ou três anos. Nota 88 em 100. Bom custo/benefício.



Ok, admito que é cruel, mas entre amigos a gente até faz isso. Mas também garanto que há os que amariam a Sabrina, e os que a odiariam. Há os que dariam nota 100 e os que dariam zero. E ninguém pode dizer que uns estão mais certos do que outros. Por isso, falando de vinhos, prefiro experimentar, conhecer cada um.



E lendo sobre vinhos, me interesso pelos textos que incluem tons subjetivos, descrições de experiências pessoais, palpites mais inesperados e até poéticos (cuidado pra não virar Pedro Bial). Histórias de um jantar, das pessoas e dos pratos que estavam no jantar. Ler apenas que um vinho apresenta cor púrpura, notas de alcaçuz, baunilha e pimentão, com boa persistência, não me mobiliza mais. Não tenho prazer em alcaçuz. A técnica é importante, admito. Mas não só ela.


Como nas boas poesias sobre mulheres, me encanto e  viajo é com a descrição da emoção que um vinho pode ter despertado, expressões como  “um vinho que me lembra as tardes sem natação, nem dentista na infância; o aroma levemente adocicado, como o das balas de cevada Sonksen (isso, claro, pra quem passou dos 40). No primeiro gole, a emoção da primeira Playboy com a Vera Fischer, com a capa toda cor de rosa.”   Ok, esta descrição é um exemplo ingênuo, mas sobretudo é claramente pessoal, não um vaticínio.



Gosto também de saber como foi o jantar em que se bebeu aquele vinho, os pratos, as piadas que surgiram. Aí sim, me apaixono ou não por um vinho antes mesmo de tê-lo provado. Exatamente como acontece com as musas, as paixões platônicas. Poucos escrevem assim.  Alerta aos ótimos críticos que temos: suas resenhas dos estão tornand0-se técnicas, repetitivas e monótonas.



Os vinhos não merecem isso. Vinhos são arte, são vivos, são –repito – como mulheres. Merecem todo respeito, devoção e poesia. Pelo menos aquele Grand Echezaux 97 que provei com os amigos numa reunião da nossa confraria do Texugo, merece. Falo sobre ele qualquer dia desses.



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Publicado em 21/05/2012 às 10h48

UM OUTRO ENO-OLHAR: POR DANILO MORAES

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Esta foto foi tirado por mim mesmo, ao beber o melhor vinho da minha vida: Um Lafitte Rothschild 1967, que na foto, ainda está dentro de um Decanter.


Amigos, nada melhor do que começar a semana com novidades, certo? Então vamos lá: Dentro deste maravilhoso mundo do vinho, fiz vários amigos e espero continuar fazendo. Mas na minha vida de publicitário também fiz mais amigos, até porque trabalar quase 15 anos em agências, acabamos conhecendo muita, muita gente! Mas e se juntarmos estes 2 mundos, o da publicidade e o do vinho, há também aqueles que pertencem simultaneamente a estes dois mundos!



O Danilo Moraes, entre alguns outros, é um destes grandes amigos publicitários e enófilos de carteirinha. Enófilo a mais tempo que eu inclusive! Ele hoje é CCO (Chief Creative Officer) da Momentum, agencia de eventos do Grupo McCann e uma das maiores e e mais importantes agencias de promoções, eventos e "outras coisas" do mundo. E além de extremamente competente no que faz, ainda é competente enófilo. Tem a confraria dos Texugos há mais de 1 década e vive tomando seus goles por aí. E além de tudo isto, é um grande amigo!


Por este motivo, em uma de minhas várias conversas com o Danilo, surgiu a ideia de ter um espaço no EnoDeco para que pudéssemos ter uma outra visão sobre algumas coisas relacionadas ao vinho. Uma visão de quem não trabalha com isto, de quem não tem tempo de ter um Blog, mas que gosta de escrever e compartilhar com as pessoas. E esta visão diferente é o que o Danilo vai tentar nos dar aqui no Blog, sempre que ele tiver tempo e ideias para gastar em algumas linhas. Assim, vcs podem ter um "descanso" dos meus textos e ler, de vez em quando algo mais interessante...rsrs! Espero que gostem e aproveitem as linhas do Danilo!


Meu amigo, seja bem vindo! sinta-se em casa! E para não perder o costume de atendimento, mudei o título da sua coluna sem te avisar!!! Mas acho que a foto acima, que escolhi para ilustrar sua coluna, justifica a minha mudança,  não...??



"Faz tempo que vinho está na moda, o que talvez prove que não se trata de moda. Deve ter mais gente escevendo sobre vinho hoje do que sobre cinema, arte, teatro…talvez só o futebol supere o número de críticos aos de vinho. Revistas de vinho, ou com largas seções de vinho, tem várias. De futebol, que me lembre só a Placar. No meio disso tudo, porque curti e aceitei o convite do Deco para escrever também sobre vinho no blog dele?



Basicamente, pelo mesmo motivo que bebo vinho: prazer. É gostoso. Compartilhar, mais ainda. Como os maiores prazeres da vida, todos… nada melhor do que dividir com alguém. Escrever é isso. Dividir, mesmo que seja com um único leitor (improvável, ja  que estou bem hospedado no blog do Deco). Escrever sobre vinho faz pensar neles, lembrar, imaginar…uau, cadê minha taça?



Ufa… tá aqui… Mas voltando ao assunto, amigo, não terei aqui a menor pretensão de ser mais um crítico de vinho. Mais um pra quê ? Além de tudo e de todos, ainda tem gente, como o Deco, muito mais preparada do que eu.



Pelo contrário. Se você me der o privilégio de ler os textos, verá  que uma das minhas atuais implicâncias é justamente com o “critiquês”.  Creio que conhecimento e orientação, como as que encontramos aqui nesse blog, são essenciais e de graaande valor. Mas creio que o vinho corre o risco de ter – sem trocadilhos – uma língua própria muito “organoléptica”e sem uma das principais essências de qualquer bate-papo: o “emocionês  - o subjetivo.



O bom do futebol, a despeito dos clichés, é que ninguém se intimida pra falar e palpitar. Creio que o vinho está precisando mais de “caixinhas de surpresas”.   Como este aqui, que estou bebericando enquanto escrevo: um Ribera del Duero Crianza, chamado Prado Rey. Cara, um vinho perfeito pra acompanhar a solidão do trampo no computador. A ponto de apressar o ponto final."



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Perfil

André Rossi (Déco), 37 anos, é formado pelo instituto inglês Wine & Spirits Education Trust (WSet) nos níveis 1 - Foundation, 2 - Intermediate e 3 - Advanced, cursados em Nova York. Atualmente está cursando o quarto e último nível do WSET, o “Diploma”.

É também um dos únicos cinco Brasileiros residentes no país a ser credenciado como Professor deste mesmo WSet, tendo sido aprovado pelo WSet Educator Training Program 2011, em Nova York.

Editor e Idealizador do Blog EnoDeco, que é hoje o blog oficial de vinhos do portal R7, um dos blogs de vinho mais acessados do Brasil, e que já foi indicado pelo Guia 4 Rodas 2009 como um dos 10 melhores eno-blogs do Brasil.

Colunista da Revista Cool Magazine, da Revista Online Bloggers e também Editor de Vinhos da 4a. Edição do Flavour Guide , projeto anual do crítico gastronômico Josimar Melo. É jurado e avaliador de vinhos de vários eventos e revistas especializadas.

Há 2 anos é o Relações Públicas da Wines of Argentina (WofA), associação das melhores e principais vinícolas argentinas, sendo o responsável pela comunicação, eventos, degustações e todas as ações que a WofA faz em todo o Brasil, para divulgar e comunicar o vinho argentino por aqui.

Foi o ganhador do concurso “Meu Vinho com Susana Balbo” que foi disputado por 30 blogueiros e jornalistas de vinho, onde o principal objetivo era fazer o seu próprio vinho, usando 5 variedades disponibilizadas pela mais importante e premiada enóloga argentina, Susana Balbo. Seu vinho foi escolhido entre os 30 competidores, numa degustação às cegas pela enóloga e sua equipe, tendo um vinho assinado em conjunto com Susana, o Dominio del Plata Essential Limited Edition 2011.

É Publicitário de formação e foi Diretor de Atendimento de grandes agências como W/Brasil e Lew’Lara/TBWA, tendo passado também por Young & Rubicam, DPZ, Leo Burnett e Publicis. Antes disto, trabalhou na área de marketing da importadora Expand.

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