O ser humano tortura, mata e come outras espécies de animais por falta de informação e egoísmo

1 O ser humano tortura, mata e come outras espécies de animais por falta de informação e egoísmo

Após um hiato de algumas semanas aqui na minha coluna no R7 por estar ocupado com o projeto Entrevista-se (conheça aqui), gostaria de voltar com um texto alegre e para cima. Mas o fato é que os ativistas pelos direitos dos animais estão constantemente à beira de uma depressão profunda.

Além de lutar para que as outras espécies de animais não sejam mortas pelos humanos, nós ativistas temos que cuidar do próprio psicológico. Estou desde 2007 atuando diariamente em prol do veganismo e, nesse meio tempo, conheci centenas de pessoas e algumas dezenas de ativistas muito atuantes na causa. Todos correm o risco de ficarem doentes por conta da sensação de impotência ao ver tanta injustiça por motivos completamente banais.

Tentei achar explicações mais esotéricas como “carma” ou “destino” para entender porque as pessoas continuam comendo produtos oriundos do sofrimento dos animais em pleno ano de 2016. Mas não encontrei, óbvio, então trago o que achei: dois motivos bem pragmáticos.

Falta de informação é o primeiro deles e o que abrange a maior parte da população. Poderíamos falar aqui de forma mais genérica, citando a população mundial como um todo. Mas vamos exercitar nosso cérebro de forma mais pessoal e, para isso, sugiro que você imagine toda a população mundial como sendo apenas a sua família e alguns amigos mais próximos.

Podemos presumir que grande parte deles não tiveram ainda a informação do que acontece com os animais para chegarem aos cardápios dos restaurantes e aos supermercados em pedaços. Embora atualmente os veganos estejam o tempo todo na grande mídia, vamos dar o benefício da dúvida aos nossos amigos e familiares.

Se não há informação suficiente – ou se gentilmente assumirmos que não há, justamente para evitar o atrito –, fica mais fácil ter paciência para explicar tudo de novo sobre o veganismo. Sobre as proteínas, sobre o fato da produção de laticínios e ovos também torturarem e matarem animais e outras coisas.

Mas o difícil – e o leitor vegano há de concordar comigo – é quando a pessoa tem informação escorrendo pelo nariz e tatuada na testa e mesmo assim continua colaborando para o sofrimento dos animais. “Ah, mas eu não vivo sem queijo!” – uns vão dizer.

Não encontrei outra palavra para definir esse posicionamento lamentável, senão egoísmo. “Ah, mas eu não tenho tempo.” – alguns vão argumentar. É compreensível pelo modo de vida que adquirimos, mas quem realmente quer, consegue. Uma dica de ouro para enxergar o veganismo como algo viável e fácil: concentre-se nas vítimas, não no paladar e muito menos nas desculpas.

Já imaginou se todos os produtos de origem animal disponíveis no Brasil fossem de origem canina? Leite de cadela, picanha de pastor alemão e feijoada com patas de labrador. Aposto que muita gente se empenharia mais em procurar opções veganas para o seu dia a dia.

Se você ainda consome carnes, laticínios ou ovos em que grupo você está? No dos mal informados ou no dos egoístas? Seja como for, aprenda mais sobre o veganismo e dê um passo para um mundo mais justo para todas as espécies. Sempre é tempo. No site a seguir coloquei os primeiros passos que considero fundamentais para quem quer ser vegano: www.sejavegano.com.br.

Vamos conversar sobre racismo e arroz

1 Vamos conversar sobre racismo e arroz

ATUALIZAÇÃO EM 22/06/2016 ÀS 19:05
Eu analisei a embalagem atual, a que está no site da empresa Camil, para embasar a crônica a seguir. No passado – e isso eu soube depois de fazer a minha crítica – a empresa já usou fotos de famílias negras no arroz tipo 1. Me parece, portanto, que a Camil não teve intenção de fomentar o racismo em seus produtos, embora as embalagens atuais, se analisadas isoladamente, possam deixar o consumidor em dúvida, como aconteceu comigo. De qualquer forma, o importante nesse caso é a discussão sobre o que é racismo e como ele acontece historicamente.

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Na tarde dessa segunda-feira (20), publiquei em minha conta pessoal no Facebook uma observação muito bem feita pela amiga, advogada e também ativista Renata Octaviani. Na publicação (veja aqui), o questionamento foi a respeito da marca Camil usar uma família de pele branca para estampar um saco de arroz do tipo 1, mais nobre, e uma família de pele negra para estampar a embalagem do arroz do tipo 2, mais barato e menos nobre.

Muitas pessoas que eu nunca vi e que não são minhas amigas criticaram de forma ignorante e com palavras chulas. Alguns amigos também criticaram, mas usando termos respeitosos para discordar. No resumo dos dois posicionamentos, ficou claro que muitos acharam um exagero ver racismo em um saco de arroz. Falando assim, de forma rasa e simplista, parece mesmo.

É óbvio que ninguém precisa concordar comigo, mas achei válido trazer a reflexão para o R7 porque vi que a questão é muito mais séria do que um devaneio nas gôndulas do supermercado. Quando minha amiga reparou nas embalagens de arroz e fez uma discreta publicação em seu Facebook eu me senti tentado e levantar o questionamento para mais pessoas. E foi isso que eu fiz.

Minha pele branca e meus olhos claros sempre me proporcionaram um tipo de privilégio em relação às outras pessoas que antes eu não via. Antigamente, eu também consideraria o caso das embalagens de arroz um exagero, mas com o tempo aprendi que o racismo é histórico e que essas pequenas – e aparentemente inofensivas – manifestações dele é o que o tornam difícil de ser extinto.

Meus pais hoje são aposentados, mas minha mãe foi empregada doméstica a vida toda e meu pai sempre foi jardineiro e trabalhador rural. Eu morei em belas chácaras com todas as regalias, mas não porque éramos ricos, e sim porque meus pais eram caseiros desses lugares. Sempre que chegava uma visita para os patrões, perguntavam quem era aquele garotinho lindo dos olhos verdes e se era filho dos donos da chácara ou de algum parente deles.

Ficava implícito que os visitantes esperavam encontrar uma criança negra ou parda para logo reconhecer como filho do caseiro. E muitas vezes as pessoas realmente não fazem esse julgamento por maldade, o racismo está enraizado.

Segundo o dicionário Aulete, racismo é o “tratamento desigual e injusto ou violência contra pessoas que pertencem a grupo, etnia, cultura etc. diferentes”. Como disse, o tratamento desigual nem sempre é proposital ou de má fé, mas precisamos desconstruir a cada dia injustiças cravadas na nossa história.

Nos comentários em minha página no Facebook, algumas pessoas disseram que se fosse ao contrário (se a família negra tivesse no arroz tipo1) ninguém ligaria, passaria batido. Me acusaram inclusive de ser racista por enxergar racismo nessa situação.

Se todos nós nascêssemos iguais e tivéssemos as mesmas chances de crescimento social, eu consideraria mesmo que o caso do arroz foi um exagero. Mas não é assim, a opressão ao povo negro é evidente e está nos livros de história. Não vê quem não quer ver.

Você já se perguntou por que as favelas têm muito mais pessoas negras do que brancas? Em maio de 1888, com a sanção da lei que libertava os escravos, muitos deles foram para a cidade, mas continuavam culturalmente como escravos. Como empregos e condições dignas estavam longe da realidade deles por causa do preconceito, grande parte teve que se sujeitar a morar em casas improvisadas nas encostas dos morros. Eles não escolheram isso, foi a única solução, já que o dinheiro estava nas mãos dos fazendeiros que utilizavam a mão de obra escrava para crescer nos negócios.

Voltando ao caso do arroz, pode ter sido mesmo totalmente sem querer a triste associação feita pelo designer responsável pela embalagem. Mas a escolha, mesmo que inconsciente, não foi ao acaso. E mais preocupante ainda é saber que no processo de aprovação de uma nova embalagem de um produto de circulação nacional há várias pessoas envolvidas. E, aparentemente, ninguém questionou.

Embora esse assunto não tenha a ver diretamente com o veganismo e com os direitos dos animais, me parece muito clara a ligação entre uma opressão e outra. Assim como também está ligada a isso a opressão às mulheres, aos homossexuais e aos indígenas, por exemplo.

No passado eu também fui assim e achava um saco esse negócio de politicamente correto. Eu também achava um saco ter que colocar o cinto de segurança no carro quando a lei surgiu. Eu não achava nada demais se um humorista fizesse piadas que aumentassem a opressão aos grupos já massacrados pela sociedade dita de bem.

Quando comecei a falar em defender galinhas e porcos no finado Orkut, muita gente também me chamou de exagerado, disseram que eu estava delirando. Inclusive pessoalmente. No fundo, as pessoas têm uma forte tendência a deixar tudo como está, a continuar fazendo churrasco com corpos de animais e a fazer piadinhas sobre negros, mulheres e outros grupos historicamente oprimidos.

E eu tenho uma forte tendência a remar contra a maré pelo que eu acho justo. Portanto, toda a energia gasta em me taxar de exagerado será devidamente convertida e utilizada para aumentar meus comentários sobre racismo, sexismo, homofobia e especismo.

Alguns jornalistas ‘procuram pelo em ovo’ para desmerecer o veganismo e isso é feio

1 Alguns jornalistas procuram pelo em ovo para desmerecer o veganismo e isso é feio

No último sábado (21), foi resgatado o corpo de uma professora australiana chamada Maria Strydom que morreu ao tentar escalar o Monte Everest, a montanha mais alta do planeta. Maria teve complicações respiratórias e não resistiu. Junto dela, o companheiro de escaladas e marido Robert Gropel, que está lutando pela vida, internado.

A professora, como seu marido, era vegana e ativista pelos direitos dos animais. Eles tinham o sonho de alcançar os 7 cumes mais altos do mundo para provar que veganos não são fracos e que também podem superar limites. Infelizmente, não conseguiram, mas não foram os únicos.

Em apenas 5 dias, 5 alpinistas morreram no Everest, mas um jornalista brasileiro que não assina sua matéria publicada no jornal carioca Extra, achou bacana usar o seguinte título: “Professora morre no Monte Everest ao tentar provar que ‘veganos não são fracos’.” Os outros 4 alpinistas mortos provavelmente comiam carne como a maioria das pessoas, o que prova que não consumir nada de origem animal não foi o motivo da morte da professora.

Eu tenho a nítida impressão de que há jornalistas por aí que ficam o dia inteiro nas redações com os dedos melados de bacon só esperando a hora de soltar alguma alfinetada contra os veganos. Como ficaria chato publicar apenas a palavra “bacon” – como eles costumam fazer nas redes sociais – em um jornal de grande circulação, eles procuram embasar sua “trollada” com textos maiores, embora vazios.

Maria Strydom e Robert Gropel chegaram muito perto de conquistar os 7 cumes mais altos do mundo. Eles eram experientes e já haviam chegado ao topo de grandes montanhas, incluindo o famoso Kilimanjaro, na África. À família e aos amigos dos dois, meus sentimentos. Ao casal, meu profundo respeito e torcida para que Robert se recupere logo e continue no ativismo para um mundo mais justo para todas as espécies.

Sim, você precisa ler o rótulo

1 Sim, você precisa ler o rótulo

Eu gosto de ler rótulos. Desde pequeno eu adoro saber em que cidade foi produzido determinado produto e, por isso, leio todas as embalagens que pego.

Menino, ficava imaginando como produtos tão baratos como aqueles sucos em pó – que no final dos anos oitenta custavam R$ 0,10 – poderiam gerar uma fortuna para os donos da empresa que os produzia.

Em outras palavras, eu tinha certeza que o fabricante de um produto quase insignificante no meu dia a dia como aquele suco tinha uma bela casa e um belo carro. E eu não estava errado, afinal, essa lógica é o que norteia o mundo dos negócios desde sempre.

Mas eu sei que a maioria de vocês não está se identificando com nada disso. São raras as pessoas que gostam de ler rótulos e têm prazer em passar horas no supermercado olhando embalagens. E é justamente essa uma das maiores barreiras para quem quer ser vegano.

É bastante comum ver pessoas fotografando rótulos e publicando em grupos veganos no Facebook com a seguinte pergunta na legenda: “É vegano?”. Na maioria das vezes não há nenhum enigma na embalagem, mas as pessoas têm mesmo dificuldade em ler e em entender o que está escrito ali.

Admito que muitos rótulos são complexos, especialmente os de cosméticos. Mas os rótulos de produtos alimentícios costumam ser bem claros. Nosso amigo Google está sempre lá para pesquisas (eu uso até de dentro do supermercado).

Se você não gosta, aprenda a gostar de ler rótulos. É necessário para saber o que se está prestes a consumir. Considerando que veganos não consomem o que não sabem o que é, a leitura de rótulos é obrigatória.

E sabe aquele produto que você compra há anos e que sempre soube ser vegano? Ele pode ter mudado de fórmula, leia também. Sem exagero, eu tenho costume de ler até embalagem de água mineral. Se eu pego um produto qualquer na mão, automaticamente faço o giro para ver a parte de trás da embalagem, é mais forte do que eu.

Mas e quando não é possível ler os rótulos, como na hora de comprar pão na padaria? Em muitos lugares, pedindo com um sorriso no rosto e educação, os atendentes trazem a embalagem da mistura que eles usam como base para o pão. Daí é só se informar sobre manteiga, banha, margarina ou qualquer outro ingrediente adicional que possa ter algo de origem animal.

Ao comer fora de casa, caso você não ache um local onde possa confiar, dê preferência aos produtos que têm rótulo. Comida natural é sempre melhor, mas se não der para confirmar os ingredientes daquele feijão que você suspeita ter bacon, vá aos produtos com rótulo. Ou simplesmente deixe o feijão de lado e pegue o que você tem certeza que não tem nada de origem animal.

Veganos que não leem rótulos são como motoristas cegos dirigindo na contramão: uma hora acontecerá um acidente – e não demora.

Saiba por que as pessoas se chocaram ao ver Rodrigo Hilbert matando um filhote de ovelha

1 16 Saiba por que as pessoas se chocaram ao ver Rodrigo Hilbert matando um filhote de ovelha

A notícia de que o apresentador do canal GNT Rodrigo Hilbert matou um filhote de ovelha a facadas e apresentou as cenas em seu programa caiu como uma bomba nas redes sociais.

Embora o episódio tenha ido ao ar na última quinta-feira (10), o assunto ganhou as manchetes dos principais portais do país nesta segunda-feira (14), após a publicação do Vista-se (entenda o caso). Após sete horas de publicada, a matéria já contava com mais de 140 mil leituras.

Não é a primeira vez que a discussão sobre comer ou não comer animais vira tema nacional, entrando inclusive na lista dos assuntos mais comentados do Twitter. As pessoas, no fundo, sabem que matar animais é errado, apenas demoram para admitir isso. E fica muito mais difícil continuar colaborando com a morte de animais depois que se sabe que não é necessário fazer isso ou pagar para fazerem.

Nutricionalmente, segundo o Ministério da Saúde (confira aqui), não é necessário comer animais ou qualquer tipo de secreção vinda deles. Quando falo de secreções, caso você não tenha ligado uma coisa à outra, falo de ovos e laticínios, principalmente. Assim, sobra como argumento para continuar matando bilhões de animais para alimentação apenas o gosto, o paladar. É fútil e é por isso que as pessoas se incomodam.

Muitos veganos criticaram o apresentador Rodrigo Hilbert pela frieza e banalidade com que lidou com o assassinato do filhote em seu programa. Chama atenção o fato do animal estar ainda em fase de amamentação. Ter apenas seis meses foi o motivo que fez com que Hilbert o matasse, afinal, segundo o pecuarista que o ajudou, a carne é mais macia se o animal é ainda um bebê.

Mas, além dos veganos, milhares de pessoas que sequer são vegetarianas estão criticando o apresentador. E sabe por quê? Porque elas não gostam de ver sangue, não gostam de saber que carne é fruto de um assassinato. E sempre é. Mesmo comendo um bife de vaca comprado em bandejinhas de supermercado, os telespectadores conseguem ver na morte do filhote na TV algo errado.

Ouvir o som do sangue do filhote batendo na bacia abaixo dele é algo atordoante se conseguirmos nos colocar no lugar daquela vítima por um instante. Imagine-se pendurado de cabeça para baixo e tendo sua garganta perfurada várias vezes por uma faca. Foi por essa sensação de dor intensa e desespero que o filhote passou no programa de Hilbert e é por isso que cerca de 182 animais passam por segundo em matadouros brasileiros (entenda o cálculo).

A realidade sobre a forma como tratamos as outras espécies é dura de entender, de acreditar, e é por isso que choca. Na cabeça da população, se está à venda no supermercado em uma embalagem bonita e falam daquele produto o tempo todo na TV, como pode ter algo errado? Se houvesse algo errado, as autoridades já não teriam tomado uma providência, muitos pensam. Infelizmente, não. O mundo não é certinho e a nossa sociedade não é justa, especialmente quando falamos de animais de outras espécies.

Cabe a cada um a decisão: você quer participar do problema ou da solução? Se você se importa com os animais, sugiro que conheça o veganismo. Saiba o que é e como começar em www.sejavegano.com.br.

Da breve conversa com um pescador, uma gota de esperança no mar

11 Da breve conversa com um pescador, uma gota de esperança no mar

Entre o litoral norte de São Paulo e o sul do Rio de Janeiro, existe uma porção de terra bastante concorrida chamada Ilha das Couves. Em uma recente viagem à região, quis ir para lá.

Para chegar é preciso contratar pequenos barcos que levam os turistas à ilha, localizada a pouco mais de 2 km do continente. No caminho para lá, o destino me colocou no barquinho comandado por Daniel, um simpático homem de 37 anos que ostenta um curioso colar de dentes.

Como cada trecho da viagem no pequeno barco durou algo em torno de 15 minutos, na volta eu decidi puxar papo. Perguntei quanto custa um barquinho daqueles, se o motor é à gasolina e outras coisas do tipo. À medida que a conversa avançava, Daniel revelou que nasceu na Ilha das Couves, um local sem energia elétrica ou qualquer outra regalia parecida. Atualmente morando em uma praia no continente, ganha dinheiro levando turistas para sua ilha natal.

Enquanto comandava sua pequena embarcação, o receptivo e sorridente barqueiro contava um pouco de sua história, instigado por minha curiosidade. Daniel contou que seus avós são da região e que seus pais também. São gerações vivendo da caça marinha e da pesca com redes.

É óbvio que eu, como vegano, pensava nos milhares de animais mortos por aquelas mãos a cada relato sobre o dia a dia dele, mas tentei entender o seu lado da história. O que acabei entendendo é que Daniel tem orgulho do que faz, de suas origens, de matar grandes animais marinhos como o cação (tubarão) do qual ele arrancou os dentes que atualmente enfeitam o seu pescoço.

Mas esse orgulho, por incrível que pareça, não é uma maldade ou prazer em matar. É o orgulho do único ofício que a vida lhe trouxe, algo que talvez ele nunca tenha pensado a respeito sob outro ponto de vista. “Esse colar aqui é dos dentes dele.” – explicou com um olhar de quem realmente estava orgulhoso, enquanto levantava o mórbido suvenir com uma das mãos.

Seguindo na conversa, ele me disse que tem outros dois barcos. Um de tamanho médio, para passeios com a família, e outro maior, para ir caçar em alto-mar. Perguntei sobre sua família. Com ar de quem queria mesmo que eu tivesse perguntado aquilo, encheu o peito e sorriu para dizer que tem 2 filhos e é casado com uma bióloga que trabalha com animais do mar.

Então, perguntei quantos dias ele costuma ficar em alto-mar pescando. Assim que fiz essa pergunta, o semblante alegre do pescador mudou. “15 dias.” – respondeu rápido e olhando para o piso do barquinho, como quem quisesse mudar logo o rumo da prosa.

Mas insisti e perguntei sobre como é ficar longe da família todo esse tempo e também se seria possível que ele mantivesse sua esposa e filhos apenas com o turismo. “E se você ficasse só assim, levando e trazendo turistas, dá para pagar as contas?” – eu disse. “Antes não dava, mas agora melhorou muito e parece que vai dar.” – respondeu com um novo sorriso.

Eu perguntei também se no inverno tem muitos turistas por ali. Ele disse que na baixa temporada ele precisa ir para alto-mar para conseguir manter a família, mas que já este ano pensa em não ir. Ele quer se dedicar apenas ao turismo. Nesse momento foi a minha expressão que mudou, fiquei feliz, e aí ele disse que também leva turistas para pescar, em passeios exclusivos. Fiquei chateado de novo, mas ainda tentando entender o lado dele.

Foi então que ele me surpreendeu e disse que está iniciando um projeto para levar turistas para mergulhar e ver os grandes animais em seu habitat. “Antigamente eu pegava o cação e trazia para a areia para vender, mas agora quero levar os turistas para mergulhar e ver o animal lá no mar.” – ele disse.

Em nenhum momento ele demonstrou que quer mudar sua forma de trabalhar por compaixão aos animais, mas, de um jeito ou de outro, todos os caminhos levam para uma atitude mais justa para todos.

Se o turista muda sua demanda e deixa de comer o tubarão ou qualquer outro peixe que o Daniel caça, ele vai arrumar outro jeito de viver. E pensou muito bem, vai fazer turismo ecológico e ganhar dinheiro do mesmo turista, mas sem matar ninguém. De quebra, vai ficar mais perto da família e ter mais qualidade de vida.

Antes que eu pudesse falar sobre veganismo, o casco de alumínio do barquinho tocou a areia e chegou rápido o momento da despedida. Após o aperto de mão, ficou uma lição e uma gota de esperança de um mundo com menos sangue derramado.

Como sempre, a chave para mudar a triste realidade dos animais está nas mãos do consumidor.

Por que eu não chamo carnes, laticínios, ovos e outros produtos de origem animal de alimento

1 Por que eu não chamo carnes, laticínios, ovos e outros produtos de origem animal de alimento

Eu escrevo há muito tempo. Na escola, português era a segunda matéria que eu mais gostava – a primeira era educação física. Me lembro de usar a palavra “longínquo” em uma redação e receber um baita elogio da professora. Foi como um empurrão para escrever mais, um grande incentivo.

Já adulto e sabendo sobre como funciona a pecuária em relação aos animais, vi que poderia usar combinações de palavras para atrair a atenção das pessoas para o assunto. Tem dado certo, afinal, aí está você lendo o que eu escrevi.

Quem acompanha meus textos deve ter percebido uma peculiaridade sobre como eu me refiro aos produtos de origem animal. Eu nunca chamo qualquer tipo de produto de origem animal de alimento. Alimento, em meus textos e em minhas falas, são todas as outras coisas que as pessoas costumam comer.

Pedaços (carne, bife, orelha, peito) ou secreções (leite, queijo, iogurte, mel, gordura) de animais, embora usados em refeições da maioria da população, não deveriam ser considerados alimentos. E eu não os chamo de alimento porque não acho que são.

Eu faço questão de chamá-los apenas de produtos, porque é assim que eu os enxergo. São produtos antiéticos usados por seres humanos como alimento por centenas de anos e mantidos nos dias de hoje apenas por causa do lucro que eles geram.

Latifundiários e multinacionais querem fazer você acreditar que um copo de leite é um bom alimento, que é puro, inocente e que faz bem. Luto contra essa ideia de que os animais são máquinas de produzir comida para nós com seus próprios corpos. Eu já pensei diferente por muitos anos, mas minha cabeça abriu.

Não enxergar – propositalmente – produtos de origem animal como alimento também me ajudou bastante a nunca passar nem perto de ter uma “recaída” depois que me tornei vegano. Mesmo se eu estiver com fome em frente a um prato com um pedaço de carne e uma fatia de queijo, não vejo aquilo como uma opção viável para ser consumida. Fico imaginando o que os animais passaram para aquilo estar ali e é bem desconfortável pensar nisso.

Se você sempre lê meus textos até a última linha, me conte nos comentários: você já havia percebido esse detalhe de eu nunca usar a palavra alimento para o que não é alimento?

O poder do ‘não, muito obrigado’ na vida de uma pessoa vegana (dossiê)

11 O poder do não, muito obrigado na vida de uma pessoa vegana (dossiê)

Se você adotou o veganismo em sua vida, certamente já passou por alguma situação constrangedora por causa de amigos, parentes ou garçons. Mas isso acontece, leve com bom humor.

“Experimenta essa torta, tem só um pouquinho de leite na massa, mas é pouquinho”. “Você não é homem, não? Vai ficar de ‘mi mi mi’ para saber se tem ovo no pão? Come logo!”. “Pega só a batata, não precisa pegar a carne”. “Ovo na massa da pizza? Acho que não, pode comer”. “Assopra o queijo de cima e come só a batata”.

Cenário 1: casa da família, fim de ano

Todos ao redor da mesa e, após a oração, todos começam a atacar o peru, a filhote de porco (leitoa) ou qualquer outro animal morto em cima da mesa. “Fizemos essa torta aqui especialmente para você.” – diz aquela tia preferida. Você não sabe se comemora ou se chora, afinal, naquela falação, como perguntar todos os ingredientes do prato? Além do mais, bastaria você abrir a boca para indagar isso e um silêncio constrangedor tomaria conta do ambiente. Balançadas de cabeça em negativa e até pequenas cotoveladas de repreensão poderiam acontecer.

Cenário 2: cerveja com os amigos no bar da esquina

E não é que o bar tem uma porção de homus no cardápio? Mas o pão que acompanha não é o tradicional pão sírio. Parece mais um pão francês comprado em qualquer lugar. No barulho do bar, você tenta, em vão, chamar o garçom levantando a mão. “Você está chamando o garçom para perguntar os ingredientes do pão?!” – diz o amigo mais brincalhão (e adivinhão). E todos caem na risada.

Cenário 3: casa da mãe, dois anos depois

Por motivos de trabalho, você precisou se mudar para longe. Mas já está de volta e é o primeiro almoço de domingo na casa de seus pais. Sem saber bem sobre a nova realidade em sua vida, sua mãe vem com o prato que era o seu favorito: carne assada com batatas. “Espero que eu ainda saiba fazer do jeito que você sempre gostou, desde pequenininho.” – diz a mamãe, olhando para o céu na esperança de uma chuva de confetes.

Cenário 4: sábado à noite, pizzaria com casais de amigos

A semana foi dura, mas é sábado! Acomodando-se à mesa na pizzaria mais comentada da cidade, você é o primeiro a pedir o cardápio. O dedo indicador desliza por todas as opções, sem nem olhar para os preços à direta, mas nada. Você tem a grande ideia de montar uma pizza exclusiva, mas esqueceu de ligar antes perguntando sobre a massa que eles fazem ali. “A pizza vai farinha, água e sal...” – diz o titubeante e apressado garçom, deixando uma lacuna do tamanho do Maracanã que só você percebeu. Com um sorriso amarelo em direção a ele, em alguns segundos e com olhar blasé você conclui, em mente, que seria impossível fazer uma massa de pizza sem óleo ou algum tipo de gordura. É mais um motivo para a desconfiança fazer o seu rosto ferver. Mas o sorriso continua lá, decorando a bola vermelha que o seu rosto de tornou.

Cenário 5: comendo uma porção de batatas fritas na balada às 3h15 da manhã

Não há outra casa de shows igual na cidade. Você bebeu um pouco demais e está com fome, mas está todo mundo ainda empolgado, definitivamente não é hora de sair. Encostado no balcão com alguns amigos, você vê, trêmula como uma miragem, uma porção de batatas fritas no cardápio molhado de tequila. Mesmo sabendo que vai demorar uma vida e meia, você dispara ao atendente: “Eu quero uma dessa!” – apontando como se estivesse convicto de que ele não fala português e falando alto como se ele estivesse com uma placa escrito "sou surdo". Duas vidas depois, chega a tal batata. Seu queixo cai quando percebe, mesmo com tudo rodando de leve e antes da bandeja tocar o balcão, que tem algo em cima daquele tubérculo. “É sal grosso, é sal grosso…” – você reza, com mais fé do que o Papa Francisco. Mas não é. É queijo ralado mesmo. E foi culpa sua, porque você não se lembrou de pedir para vir sem.

A resolução de todos os problemas

Não é ser chato, é questão de opinião. Se você entendeu o que é veganismo, vai saber que em qualquer um dos cenários apresentados, a solução é dizer “não, muito obrigado”, ainda que de outra forma, se preciso.

Cenário 1: “Tia, muito obrigado, mas vou comer esse assado de castanhas aqui que eu trouxe. Se você quiser um pedaço para experimentar, pode pegar. Sobre a sua torta, que está com uma aparência ótima, conversamos daqui a pouco.”

Cenário 2: “Já experimentaram comer homus nessa folha de alface que vem junto enfeitando? Fica ótimo!”

Cenário 3: “Mãe, parece ótimo, mas estou com uma vontade louca de comer arroz com feijão hoje! Depois preciso contar umas novidades. Aliás, como a senhora faz esse feijão aqui?”

Cenário 4: “Traga, por favor, uma cerveja bem gelada. Quando o movimento abaixar um pouco, eu gostaria de perguntar uma coisa ao pizzaiolo.”

Cenário 5: “Podem comer, eu vou tomar uma água e depois a gente pede para o taxista parar naquela lanchonete. Pode ser?”

Para comer fora é preciso mesmo um pouco de rebolado e não tem jeito. Tenha paciência e bom humor. Afinal, ninguém vai morrer de fome em uma situação assim.

Por que uma substância utilizada para embalsamar cadáveres foi encontrada em carnes da Friboi?

1 Por que uma substância utilizada para embalsamar cadáveres foi encontrada em carnes da Friboi?

A notícia de que amostras de peças de carne da Friboi foram reprovadas pelo PROCON do Paraná foi destaque esta semana (entenda o caso). Mas qual seria o motivo da utilização de uma substância tão forte, utilizada para embalsamar cadáveres, em carnes vendidas à população?

Assim como a carne humana, os músculos e tecidos de bois, frangos, porcos, peixes e de todos os outros animais também sofrem a ação de microorganismos. Após um boi ser morto em um frigorífico, por exemplo, em pouco tempo começa o processo natural de decomposição. É por isso que esses lugares são tão frios. É uma medida para tentar frear a ação das bactérias que podem apodrecer o produto antes que ele chegue aos supermercados.

Por eliminar a maioria dessas bactérias, o formaldeído, popularmente conhecido como formol, é usado para conservar cadáveres inteiros ou suas partes em universidades de medicina e em outros locais que precisam dessas peças. A técnica não é permitida para conservação de cadáveres de animais comercializados como alimento, mas muitas empresas burlam a determinação e, às vezes, são flagradas.

A ingestão de formol é altamente danosa à saúde e traz sérios riscos de desenvolvimento de câncer. As carnes também são, segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS (entenda aqui). Consumir carne com formol, portanto, é absolutamente desaconselhável, mesmo pensando apenas na questão da saúde.

Apesar de produtos da Friboi terem sido flagrados com formol, o uso desse agente químico não é uma novidade em produtos de origem animal. Indústrias de laticínios foram flagradas diversas vezes adicionando formol ao leite, principalmente no sul do país. Basta uma rápida pesquisa na internet para ler notícias recentes sobre isso.

Como o prezado leitor desta coluna já deve ter concluído, o formol é uma forma eficaz de conservar cadáveres. Eis a resposta para a pergunta que inicia este texto.

Se você acha que comida vegana é difícil de achar, você precisa ler esse texto

11 Se você acha que comida vegana é difícil de achar, você precisa ler esse texto

Não fique assustado, mas você tem produtos veganos em casa e a maior parte do que você come em restaurantes é vegano. Arroz, feijão, café, banana, laranja, batata frita e outros tantos itens do cotidiano de qualquer brasileiro são produtos veganos, embora muita gente não se dê conta disso.

Ao saber que alguém é vegano, a maioria das pessoas instintivamente pergunta: “Mas o que você come?!”. Eu também achava que veganos eram extraterrestres espiritualmente elevados e divinamente inspirados para suportar não consumir ingredientes de origem animal. Ledo engano.

Foi só começar a pesquisar na internet sobre comida vegana e eu descobri que tinha coisas veganas em casa e que não era assim tão complicado. É claro que comer fora ainda é um desafio em algumas ocasiões. Isso porque há restaurantes que colocam ovo, manteiga e bacon até na salada. Nada que um pouco de preparo e paciência não resolvam. Quando saio para algum bar ou restarante com amigos, me certifico antes de haverá opções veganas. Se por acaso não tiver muita coisa, como em casa e vou do mesmo jeito.

Quase todos os dias vejo pessoas dizendo que admiram muito os veganos, mas que não conseguiriam deixar de lado os produtos de origem animal. Bem, antes de tudo, é importante que fique claro que veganismo é uma filosofia de vida, e não uma dieta. Inclui uma dieta, mas não é uma dieta. Embora a parte que mais apareça, digamos assim, é mesmo a alimentação, ser vegano é muito mais do que não comer laticínios, ovos e carnes. Se uma pessoa entende o que é veganismo e decide que financiar a tortura e a morte de outros animais não é uma coisa boa, logo ela encontrará formas de se alimentar e não vai achar que isso é um fardo.

Pense no supermercado ou na feira que você frequenta. Tem arroz, feijão, legumes, castanhas, hortaliças e cereais? Parabéns! Você já tem onde comprar alimentos veganos.

Por ver produtos veganos especiais como queijos e sorvetes e considerar que eles são pouco acessíveis, muita gente acha que só se pode ser vegano se for possível comprar esse tipo de coisa. E, obviamente, não é assim que funciona.

Há muitos veganos em cidades pequenas e, sinceramente, essas pessoas tendem a ser as que se alimentam melhor. A maioria dos produtos veganos industrializados não são exatamente exemplos de produtos saudáveis. São ótimos para incrementar um sanduíche ou para comer de vez em quando, mas a base da dieta de um vegano precisa ser de comida de verdade. Um belo prato de arroz (preferencialmente integral), feijão, salada colorida e um hambúrguer caseiro de lentilha vai muito bem.

Da próxima vez que você for ao supermercado, repare que quase todo ele já é vegano e depende muito mais de você adotar a filosofia de vida vegana do que do lançamento de produtos industrializados mirabolantes e baratos. Dê esse passo.

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