28
novembro
01h53

Não, não to falando do programa Ídolos que faz tanto sucesso na Record.
To falando dos ídolos fazem parte na nossa vida – e que são eleitos ídolos por nós mesmos por razões diversas. E é muito comum termos ídolos musicais porque a música acompanha nossos momentos e emolduram nossas emoções. Cantores, compositores, poetas... gente que acaba por cantar coisas que tem tudo a ver com a gente e que, ao ouvi-los, imediatamente somos levados para sensações marcadas na nossa alma.
Eu tenho alguns. Não muitos. Alguns. E sempre tive convicção de que a qualidade de ídolos colocava essas pessoas – meus ídolos – numa posição que deviam ser inatingíveis. Sempre achei que jamais deveria conhecê-los, estar com eles, compartilhar com eles absolutamente nada. Ídolos lá no pedestal deles e eu aqui, olhando pra cima, só admirando.
Em razão da minha atividade profissional, no entanto, nem sempre foi possível manter distância – e dou exemplo: uma vez, me vi na circunstância de tirar foto com o Gilberto Gil. Ele na qualidade de ministro da Cultura e eu na qualidade de ator – um produtor de cultura. Foi péssimo dividir a mesma foto com o Gilberto Gil – um dos meus ídolos. Essa humanização do ídolo Gilberto Gil não me fez bem. Nunca mais ouvi as maravilhosas músicas do Gil da mesma forma, embora muitas dessas músicas sejam importantíssimas na minha história de vida.
Outro exemplo: como muita gente sabe, o Chico Buarque joga bola. Acho que anda jogando menos, mas ainda joga bola. E eu, sempre na qualidade de artista, amigo de muitos amigos do Chico, já tive várias chances de compartilhar um futebol com o Chico Buarque. Nunca ousei aceitar qualquer convite. Humanizar Chico Buarque poderia ser uma tragédia na minha vida. Tanto da sua obra faz parte da minha vida que eu poderia me decompor caso o conhecesse. Outro dia fui a uma homenagem à Marieta Severo e encontrei lá a própria Marieta, (ex-mulher do Chico), as filhas, o genro... e quase rezei para que o Chico não aparecesse por lá. Quero o Chico no pedestal dele e eu aqui, apenas admirando sua obra.
Digo tudo isso só para contar que, ontem, o Milton Nascimento foi ver Doidas e Santas lá no Teatro do Leblon.
Minutos antes de a sessão começar - sempre pelo meu buraquinho da cortina - procurei pelo meu ídolo na platéia e não achei. A posição da poltrona dele não me era favorável, mas ele estava lá. A presença do Milton me remeteu a momentos da minha vida tão interessantes e tão intensos que me emocionei. Imediatamente, pensei: “assim que acabar o espetáculo, vou abraçar o Milton e tirar uma foto pra colocar no blog e mostrar pros amigos.”
Infelizmente o Milton se humanizou pra mim, antes de terminar a peça. E explico: como já é um sexagenário e – fiquei sabendo depois - diabético, quase no final da peça o Milton sentiu-se mal e teve que sair por alguns momentos. Não bastasse a presença imponente e importante do Milton deixando a sala, ainda foi seguido por seu séquito, todos preocupados com seu bem-estar. Aquilo desconcentrou a todos. Muito mais a platéia do que a nós atores, diga-se. Mas foi difícil.
Depois de tudo, ainda encontro meu ídolo já recuperado - mas constrangido - pedindo desculpas. Pra mim?!
Não, Milton! Você é meu ídolo. Faça de conta que eu nunca te vi e nem apertei a sua mão. Não quero te conhecer. Você é meu ídolo. Preciso das suas músicas, não posso abrir mão delas. Humanizar você pode destruir tudo.
Sai quase correndo do teatro e fui pra casa.
Sem foto, sem nada.

Espalhe por aí:
  • Facebook
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • RSS
  • Netvibes
  • Digg
Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009- Rádio e Televisão Record S/A
exceda.com