Eu já publiquei isso aqui umas duas vezes, mas não consigo deixar de falar novamente sobre a importância desse cara para mim e, principalmente, para a Televisão Brasileira.
Então, lá vai:
Meu encontro com o Monstro

Eu tinha algo em torno de 20 anos quando a Rosaly Papadopol, minha queridissima amiga, me telefonou avisando:
- Escuta, Giu, os caras da TV TUPI vão te ligar. Eles estão precisando de alguém assim como você para a novela que eles vão começar a gravar ainda esta semana. Eles estão com dificuldade de achar alguém e eu te indiquei.
Eu fiquei ali, colado ao telefone. E, de fato, não demorou e o aparelho tocou. Marcamos um horário para aquela mesma tarde e lá fui eu para o Sumaré. O ano era 1979.
Cheguei e fui imediatamente levado ao sétimo andar, onde esperei na ante-sala por apenas dois minutos e me mandaram entrar na sala. Era uma sala grande e, lá por detrás da enorme mesa executiva, estava um cara sério, calvo e de fala mansa, mas absurdamente direta - quase apavorante. Eu me aproximei e este senhor me fez duas ou três perguntas simples, que eu respondi com a mesma simplicidade. Depois, ele disse, seco:
- Anda.
Eu andei.
Ele disse, me dando um papel:
- Leia isso aqui.
Eu li.
Aí ele pegou um pedaço de papel e escreveu um valor, que eu sinceramente não sei mais qual era, mas sem dúvida era pouco. Escreveu o valor e disse:
- A grana é essa, topa?
Eu topei, quase sem nem ver o que estava escrito.
Então ele me disse:
- Peça pra essa moça aí fora te levar lá embaixo, prova roupa, corta esse cabelo, pega os capítulos e o roteiro, A gravação começa amanhã cedo.
Eu desci e nem lembro se foi o Baruque ou a Rosaly quem me ensinou a ler roteiro de novela, mas no dia seguinte de manhã estava no estúdio. A novela era Como Salvar meu Casamento - minha primeira novela e, tristemente, foi a última da TV TUPI, que viria a falir no comecinho de 1980.
O careca atrás da mesa de executivo era o Walter Avancini que nunca levantou a voz para mim, nunca me deu uma única bronca e, muitos anos depois, até sorriria para mim com muita sinceridade. Nada disso me importava. O fato concreto é que morria de medo dele.
Ano seguinte, e nos próximos, já na TV BANDEIRANTES, fui dirigido por ele novamente. Quando vinha escrito no roteiro que o diretor do dia seria ele, eu mal dormia de noite e torcia que ele passasse o dia inteiro sem me notar. Era um medo irracional, fundamentado apenas nas histórias que se ouvia a respeito dele, nunca baseado em algum fato concreto contra mim.
A verdade mais verdadeira de todas é que o Avancini foi - e ainda é - um dos pilares mais fortes das fundações da televisão no Brasil.
E que, desde 26 de setembro de 2001, quando o Avancini se foi, vencido pelo câncer, a televisão nunca mais foi a mesma.
E que pena, que pena.