13
março
às 15:58

O Carnaval chegou, foi embora e eu mal vi... Gosto da festa, mas não acompanhei os desfiles e nem arriscaria cantar nenhum samba novo. Ouvi comentários e soube pelas manchetes que a Salgueiro atrasou, que a Viradouro não subiu, que Ana Hickmann caiu, que a Sandy bebeu, que a Hebe beijou, que o Rei emocionou... Manchetes que parecem se repetir anualmente, assim como os dias de folia. Só depois de concluir meu trabalho é que procurei assistir alguns trechos dos desfiles, pela internet. E foi com o enredo do Porto da Pedra que voltei no tempo. "O sonho sempre vem pra quem sonhar", apesar do título meio Lua de Cristal, levou para avenida uma bela homenagem à Maria Clara Machado, fundadora do Tablado e ícone do teatro infantil. Foi emocionante ver aqueles personagens ganharem vida, de forma tão grandiosa. Ao ver Pluft voando sobre aquelas pessoas, rapidamente embarquei nas viagens daquela autora que tanto me fizera sonhar.

Captura de tela 2011 03 13 às 14.07.40 A Clara que faz sonhar...

Comecei a fazer teatro com onze anos, na escola. Participei de mais de vinte montagens como aluno, até que senti necessidade de procurar outros palcos. Busquei cursos no Rio e, como era muito novo e ainda estava na escola, tinha que optar pelos cursos em que eu conseguiria chegar - dependendo do dia, levava quase três horas dentro do ônibus. Por isso, geralmente fazia aulas aos sábados, pela manhã, enquanto meus amigos iam à praia ou dormiam até meio-dia por conta da festa da noite anterior. É claro que eu não perdia as festas, tinha 16 anos! Mas acordava bem cedo, no dia seguinte, aproveitando o ônibus vazio para dar aquela cochilada... Como muitos estudantes de teatro, eu já conhecia o Tablado. Mas achava uma realidade muito distante, já que ouvia tantas histórias de pessoas que vinham de longe e enfrentavam filas quilométricas, relatos de ex-alunos famosos... Havia toda uma atmosfera em volta da famosa escola para atores que, simplesmente, a distanciava de mim. Eu já havia lido e assistido as peças de Maria Clara Machado, como Pluft, o Fantasminha, O Cavalinho Azul, A Bruxinha que era boa, O Rapto das Cebolinhas e muitas outras. Na última, inclusive, está o personagem que tanto me chamou a atenção pela sua construção e, por isso mesmo, que sempre sonhei em interpretar: o vilão Camaleão Alface. O fato é que a oportunidade de entrar no Tablado aconteceu de repente, como as melhores coisas que acontecem em nossas vidas. Além dos meus cursos de sábado, no Teatro do Planetário da Gávea (hoje Teatro Maria Clara Machado!), comecei a fazer outros cursos, a participar de algumas leituras e conhecer mais gente que, assim como eu, se desdobrava em mil para fazer o que gostava. E foi nessa época, após uma apresentação, que surgiu a possibilidade de conseguir uma vaga no Tablado.

Não perdi tempo e, naquela mesma semana, lá estava eu, na famosa rua Lineu de Paula Machado, diante de uma portinha, na frente de uma praça. O muro estava branco, sem indicação nenhuma. Ali era o Tablado. Fui recebido pelo simpático Zé, que me indicou a recepção, onde estava uma senhora que, inicialmente, intimidava um pouco pela seriedade. Mais tarde descobriria que se tratava de Vânia Velloso Borges, primeira atriz a interpretar os personagens femininos da Maria Clara e que trabalhava na administração de O Tablado. Ela pediu que eu esperasse um pouco, enquanto atendia os telefonemas e descartava àqueles que já perguntavam sobre emissoras de TV. Ao ser informado de que deveria subir uma escadinha e ir à secretaria, não imaginava o que me esperava. Ou melhor, quem me esperava. Pedi licença e entrei na salinha, para falar com a Silvia Fucs, administradora e responsável pelas matrículas naquele ano. Mas a minha grande supresa foi que, ao lado da mesa dela, sentada numa poltrona estava ninguém menos que Maria Clara Machado. A própria. Não acreditei quando vi. Claro que eu sabia que ela a fundadora da escola, mas nunca poderia imaginar que ela estaria ali, tão... disponível, tão real. Maria Clara Machado. Uau! A minha primeira reação foi ajoelhar e beijar sua mão. Ela riu e disse que eu era um cavalheiro. Tive raiva de mim por não estar com os livros dela na mochila, para garantir uma dedicatória. Mas saí de lá com algo tão valioso quanto: uma vaga para estudar no Tablado.

A partir daquele dia, os encontros com a Clara se tornaram mais frequentes. Sempre que podia eu inventava uma desculpa para ir à secretaria e trocar umas palavrinhas com ela. Passei a me interessar ainda mais pela sua obra, me envolvi de verdade com aquele universo maravilhoso. Principalmente quando fui convidado a fazer uma peça escrita por ela e que seria dirigida pela Cacá Mourthé, minha professora e sobrinha da autora. Era A Gata Borralheira, onde interpretei o Primeiro Ministro. Aprendi muito com a Cacá e com meus colegas de palco, alguns hoje conhecidos pelo grande público, como Maria Clara Gueiros, Matheus Solano, Leandro Hassum, Cadú Fávero, entre outros tão talentosos quanto eles, que me fazem vibrar com suas conquistas. Foram meses de ensaio e meses em cartaz. Nos dias das apresentações (geralmente aos domingos), lá estava a Clara, observando de perto os resultados de suas criações. É claro que eu chegava mais cedo e ficava por ali, por perto daquela que tanto me inspirava. Foi uma época muito importante para mim. Não levei os livros para a Clara autografar; a convivência naquele lugar marcaria muito mais a minha trajetória profissional, seja como ator ou como contador de histórias. Serei um eterno aprendiz. Ou melhor: serei sempre um amador, como a Clara costumava dizer, fazendo menção ao dramaturgo francês:

O ideal seria que, durante a sua carreira, por maior que o artista fosse, jamais cessasse de ser um amador, se atribuirmos a essa palavra toda a sua plenitude: aquele que ama.
Jacques Copeau

Captura de tela 2011 03 10 às 17.13.53 A Clara que faz sonhar...

Não levei os livros, é verdade. Mas acham mesmo que eu ficaria sem uma foto com a mestra?! Salve Maria Clara Machado!!!

Indico o site de O Tablado, que está repleto de informações e conta com um acervo incrível, com fotos e raridades, como uma página de Maroquinhas Fru-Fru, escrita à mão pela Clara e edições antigas dos Cadernos de Teatro.

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01
março
às 10:10

Captura de tela 2011 03 01 às 09.29.20 Seu Alípio e os blocos de Carnaval

O Carnaval se anuncia com toda sua festa, energia e vibração. Para muitos, é o momento mais esperado do ano; a verdadeira despedida das férias, o momento de beijar todas as bocas, abraçar todos os corpos, esvaziar todos os copos... A rima é liberada e contagia: Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é... Alalaô-ô-ô-ô-ô-ô-ô, mas que calô-ô-ô-ô-ô... O fato é que após o Carnaval é que o ano verdadeiramente começa, na opinião de uma grande maioria.

– Uns desocupados, isso sim! – resmungou Seu Alípio, com o jornal nas mãos. – Ainda é véspera de Carnaval e o povo já está nas ruas!

Não é que Seu Alípio seja contra a festividade. Ele até que gosta de uma comemoração, mas acha que o povo brasileiro exagera um pouco.

– É você quem está exagerando... – disse Dona Clélia, a esposa.

A tranquila senhora tem passagem garantida para o céu, com estadia cinco estrelas, banhos diários de sol e passeio ilimitado pelos cantos de cá, até mesmo em alta temporada, como feriado de Carnaval. Quando o marido ligava o falador, Dona Clélia simplesmente abduzia. Foram anos desenvolvendo essa técnica: ela concordava ou discordava com a cabeça e Seu Alípio nem notava que ela estava longe...

– Olha essa foto com a orla da praia lotada! E esse bando de homem que só se diverte vestido de mulher? Essas garotas que passam de mão em mão como se fossem álcool em gel?! Isso não é exagero, Clélia?

E Dona Clélia apenas fez que sim com a cabeça, mas a caixa de Pandora já estava aberta...

– Longe de mim querer ser rabugento – continuou ele. – Já disse que gosto da festa, mas não sou obrigado a vivê-la tão intensamente! Não se pode ir na rua comprar um pão que algum homem vestido de mulher mexe com você! Ou então vem alguma criança com aquela maldita serpentina em spray e te enche de espuma, sem o menor respeito! Isso quando não sacodem seu carro se você der o azar de passar em algum bloco. Estou exagerando, Clélia?

E Dona Clélia apenas fez que não, lembrando das festas no clube em mil novecentos e lá vai marchinha.

– A baixaria já começa com a garota sambando pelada na TV, de cinco em cinco minutos, em qualquer horário do dia. Você sai na rua e parece que ela se multiplicou!!! Será que apenas eu me choco com isso? Você não fica chocada, Clélia?

E Dona Clélia fez que não. Ele continuou:

– Nos blocos também impera a pouca vergonha! É perereka sem dono...

– Que isso, Alípio ?! – assustou-se Dona Clélia, voltando rapidamente ao presente.

Calma, calma, sua piranha!

Os olhos arregalados da senhora diziam mais que qualquer palavra. Havia lança-perfume no lenço daquele cidadão?! O que ele pretendia com aquela agressão verbal?!

Só o cume interessa – continuou ele.

– Alípio José! – exclamou Dona Clélia, desenterrando o segundo nome do marido, o que ela só fazia quando estava verdadeiramente nervosa. – Você me respeite que eu não quero mais...

Pinto na perereca! – completou.

Pausa para digerir a informação. Foi o suficiente para a distinta senhora deixar o marido sozinho, ainda com o jornal na mão.

– Eu não estava exagerando?! Eu avisei que é uma baixaria!!! – gritou ele, vitorioso, para o interior da casa. – E está só começando, a lista dos blocos é enorme...

**Seu Alípio é aposentado, síndico do prédio
e detesta a ala das baianas pois ataca sua labirintite.

Se você, como eu, não é como Seu Alípio e quer acompanhar os blocos de rua do Rio de Janeiro, veja a lista completa dos blocos AQUI.

E para entrar no clima da folia...

Até a próxima!

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