Os portões ainda estavam fechados e a fila contornava o quarteirão. Gente de todas as idades aguardava, ansiosamente, para entrar no estádio que receberia o maior de todos os clássicos: o show do ex eterno beatle, Paul McCartney. E eram exatamente os cinco rapazes de Liverpool que estampavam a maioria das camisas, bandanas, broches e até imãs de geladeira (uma raridade, segundo o vendedor!). A vizinhança inteira se preparou para o evento; os quintais se transformaram em verdadeiros polos gastronômicos: tinha churrasquinho, salsichão, frango empanado, X-tudo, sanduíche, pipoca, brigadeirão... Muitas opções, muita criatividade. Uma senhora abria as portas de sua casa e cobrava dois reais por uma ida ao banheiro, exclusivo para mulheres. Um senhor garantia que a garagem dele era o melhor local para estacionar dois carros. Em outro portão, um barrigudo anunciava que estava vendendo a própria sogra, mas já lamentava que o produto ia encalhar... Definitivamente, o brasileiro é um show à parte – afirmação que seria confirmada nas próximas horas.
No telão, fotos e vídeos de arquivo faziam o público voltar no tempo. Com quinze minutos de atraso o show começou. Sem uma preparação homérica, sem tambores rufando, sem aquele suspense que faz o povo se esguelar para um palco vazio e escuro. A luz só foi diminuir depois que o músico entrou, junto com a banda, acenando para o público delirante. Acostumado com as entradas apoteóticas da grande maioria dos shows, por um momento tive dúvida de que a apresentação realmente estava começando. Mas lá estava Sir Paul McCartney, fazendo suas caras, bocas e poses, para uma multidão em êxtase. Ficou o tempo todo pertinho do público, surpreendendo os presentes com sua humildade. Ao final de cada música, agradecimento e pausa para os aplausos. E a típica pose com o instrumento tocado, claro. Esforçava-se para falar português e arrancava risadas quando agradecia de forma bem carioca: valieu! Se o artista emocionava a multidão com um lindo show, o público também fazia a sua parte: jogava balões para o ar, mostrava placas com partes de canções ( o famoso Na Na Na de Hey Jude), acendia celulares fazendo a platéia se transformar numa grande constelação. E, lá do palco, mas bem mais próximo do que o céu, a grande estrela agradecia as demonstrações de carinho: os balões foram incríveis e os cartazes memoráveis, dizia ele, em sua língua. E até a vaquinha de pelúcia que foi jogada no palco teve seus minutos de fama. Paul McCartney tocou por mais de duas horas, sem interrupções para trocas de roupas, sem mudanças cenográficas, sem beber água! Ele parava para observar o público (que dificilmente ficava na escuridão total), fazer suas poses e receber o novo instrumento. Apenas em Live and Let Die, houve uma pirotecnia, com explosões no palco e fogos de artifício que dava vontade de abraçar todo mundo e desejar feliz ano novo. Ao final dessa canção, o próprio balançou a cabeça, divertido, como se reclamasse do barulho da explosão e dos fogos. Jogo cênico, claro, mas que retratava bem o que o público testemunhava: o show já estava completo apenas com Paul, seus músicos e sua platéia. Saiu e voltou duas vezes, uma delas carregando a bandeira do Brasil. Cheio de energia, parecia não querer parar, como aquele ator iniciante que fica no palco até a cortina se fechar completamente. Mas não havia cortina entre Paul e seu público. Ele acenou e agradeceu a todos (inclusive aos produtores), antes de se despedir com um até breve. Simples assim. Simplesmente inesquecível.












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