20180105110524768538u O sertanejo morreu e ressuscitou como pop e o rock nacional continua enterrado

Estamos em 2018 e volta e meia alguém ressuscita a insuportável discussão sobre salvar o rock. O estilo, morto desde que Kurt Cobain resolveu tirar a própria vida, perdeu relevância e protagonismo para diversos outros gêneros ao redor do mundo (no Brasil, o cenário é muito pior). E isso não é nem bom ou ruim. É apenas a história se desenvolvendo e mudando da mesma forma que em outros períodos da humanidade.

Rick Bonadio retomou o assunto nas redes socais esta semana e propôs que o estilo fosse salvo por alguma banda que se inspirasse no já antiquado new metal, estilo que teve seu ápice há duas décadas. Infelizmente, o produtor ainda não superou o fato de que seu momento como midas do pop rock nacional já passou.

De agora em diante, ou ele se dedica a descobrir outros artistas conectados com o mercado atual, como a sua pupila Kell Smith, ou vai viver de reclamação no Facebook sobre um passado nostálgico que não vai mais voltar.

Isso, no entanto, não quer dizer que o produtor não esteja certo sobre pelo menos um ponto de vista: vivemos uma fase de transição da música pop nacional. E ela é marcada pela morte do sertanejo. Não a morte do mercado desse estilo. Mas do gênero em si, que foi sendo diluído aos poucos com o crescimento da vertente universitária.

90% das duplas em destaque não chega nem perto de fazer algo que lembre sertanejo. Basta integrar o mercado, estar num escritório especializado em "sertanejo" e circular pleos meios corretos, que você pode soar como o Sepultura, mas vai ser chamado de banda sertaneja se usar um cabelo undercut, calça skinny e bota de couro de jacaré. O público aceita qualquer sonoridade como sendo sertaneja se vier embalada corretamente.

A listas das mais tocadas prova isso. Entre os supostos sertanejos, tem de tudo: pop, reggaeton, axé, bachata, balada, rock, eletrônica, mas sertanejo mesmo só se ouve ecos distantes na insistente sanfona em alguns arranjos e nas vocalizações das duplas. Mas como vivemos a era de cantores solo, até isso foi perdido.

Essa decisão, no entanto, é o que garantiu ao sertanejo dominar o mercado brasileiro da maneira que consegue hoje. Se afastar das raízes e tocar todos os estilos possíveis foi a grande sacada para garantir essa unanimidade.

E essa tática só se expande. Ao contrário do rock nacional, que lamenta a ascensão de artistas como Pabllo Vittar, Alok, Kevinho, Anitta e Weseley Safadão, o sertanejo se retroalimenta do sucesso deles em parcerias que garantem intercâmbios e fortalecimento de ambos os lados. Exemplos não faltam.

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Simone e Simaria garantiram a música mais tocada do ano passado (Loka) em uma parceria com Anitta. Agora, elas já pegam carona no êxito mundial de Alok para mais um dueto com um nome do momento. Dará certo? Impossível saber. Mas é uma decisão estratégica para todos os envolvidos.

Lucas Lucco, por outro lado, registrou parceria com Pabllo Vittar, numa improvável parceria entre um cantor do segmento sertanejo (mas que nunca nem passou perto de cantar o estilo) com um astro pop drag queen.

Para o sertanejo, morrer enquanto sonoridade foi ótimo negócio. A reinvenção através de várias vertentes do pop não poderia ser mais acertada mercadologicamente, já que o que está em jogo nesse negócio é sempre o coração e a mente dos jovens. Público que o rock infelizmente não sabe mais cativar, insistindo em conservadorismo musical e gêneros que já cheiram à naftalina, como o new metal. Roberto Carlos cantava que é preciso saber viver, mas quando se trata de mercado musical é preciso saber morrer. E ressuscitar também.